Grupos

 

SOBRE O TURISMO

E O “TURISMO SEXUAL”.

 

Carvalho Neto

 

 

Nas discussões sobre a questão é sempre possível verificar pelo menos três posicionamentos. 

 

Há os apologéticos para quem o turismo é um processo em si benéfico o que, às vezes, implica numa opinião quase sempre neutra no que se refere aos seus subprodutos. Do outro lado os niilistas em sua exacerbada negação de que possa haver algo de positivo no turismo, dado que a atividade não passaria de mais uma deformação burguesa que preda o território e destrói o caráter autóctone das populações. Também não é incomum a reverberação de críticas e ataques dos que, estando momentaneamente na oposição, percebam algum sucesso nas políticas e práticas de quem esteja acrescentando sinergias aos sistemas que promovem a indústria sem chaminés.

 

Às três acepções podem-se fazer reparos. Turismo não é panacéia. Não resolve problemas estruturais. Agrava-os. Não é neutro. Implica em intervenção no ambiente. E finalmente há que se perguntar se e quando é benéfico, quem são e de que modo o são, os beneficiados.

 

No segundo caso, a discussão ainda é profícua. Quem não consegue ver na atualidade alguns avanços na qualidade de vida, na expectativa de vida, etc. e ao mesmo tempo é capaz de identificar todos os custos do processo contribui mais na denunciação dos excessos que na promoção do turismo. Mas contribui, são, portanto, imprescindíveis.

 

No terceiro caso, dos oposicionistas e oportunistas não pode haver contribuição significativa.

 

O caso do turismo sexual é bom exemplo das três abordagens.

 

Para os primeiros não é o turismo que incrementa a prostituição, mas na realidade ele o incrementa, até certo nível, sim. A contribuição maior desse grupo é identificar, quase sempre de maneira correta, outras variáveis causais mais importantes para o fenômeno: pobreza, baixa auto-estima, desemprego, má-educação, estigmas e idiossincrasias locais, etc.

 

Aos segundos, a historia recente, em que etnias, grupos religiosos e militantes políticos têm sido vítimas, e também desencadeadores, de guerras e atentados, a negação das vantagens e benefícios da atividade turística em si, não parece justificá-los. Esses, porém são essenciais em denunciar e promover a discussão. Em lutar e por freios que garantam um grau adequado de preservação dos caracteres locais. Erram apenas ao defender que a prostituição não existiria se não houvesse turismo. Como o sabe qualquer cidadão de qualquer cidade em qualquer país em todo o Mundo.

 

No terceiro caso a prostituição é usada apenas para atacar o grupo desafeto no poder. Não estão interessados em enfrentar ou resolver as causas da prostituição, mas em desacreditar e desconstruir seus adversários políticos. Nesse grupo é que se identificam atores-autores de pesquisas, teses e dissertações, que abordam o “turismo sexual”, que ficham algumas centenas de jovens da Beira-mar, mas esquecem as dezenas de centenas de pessoas prostituídas nos bairros, no centro da cidade, nos escritórios, universidades e escolas. Lugares em que não há a intervenção do visitante estrangeiro, aonde o pagamento nem sempre é realizado em espécie, no caixa como se diz, em que favores sexuais são moeda de troca corrente para a manutenção de empregos, benefícios, etc.

 

Sem esquecer que esses trabalhos, por mais espetaculosos, geram sempre manchete, garantem entrevistas. Mas eles chamam a atenção precisamente por serem a exceção.  Por vezes, há também um dinheirinho extra, sem impostos, oriundos de organizações que recebem subvenções dos países mais ricos em que são muitos os que desejam aplacar a própria vergonha de saberem-se também causa, não a menor, dessa atividade ancestral.

 

A todas essas prefiro a explicação de seu Juca (nome fictício, história verídica). Morador de pequena cidade do litoral leste cearense. Tocador de violão. Para explicar a natureza da pobre economia local.

 

Aqui tudo é difícil. Já montei pra mais de dez negócio. Só desisti quando perdi tudo, no último. Montei um cabaré. Trouxe as meninas de longe, do Piauí, de outras cidades daqui do Ceará. Em três meses cabaré fechou. Todas casaram. Uma inclusive cumigo. Foi aí que eu vi que num dava pro comércio.

 

 

 

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