Turismo, Paretto e os militantes-sabonete
16:48 @ 03/05/2006
Turismo, Paretto e os militantes-sabonete
Segundo a lei de Paretto[1], em qualquer atividade, em geral apenas 20% dos envolvidos são responsáveis por 80% dos resultados. 20% dos clientes de bancos, supermercados e alfaiatarias seriam responsáveis por 80% dos lucros dessas empresas tão diferentes. No entanto, 80% da energia, atenção e trabalho de
seus proprietários e executivos é dirigida a esses 80% de clientes que produzem pouco e mais de 20% de seus retornos financeiros.
A lei foi sendo absorvida em outras áreas. E se mostrou consistente. Em muitos lares 80% da atenção é dirigida ao filho ou a filha mais problemático, e apenas 20% àqueles que vão bem.
Esse parece ser o caso dos administradores de turismo no Brasil, e infelizmente, nas últimas décadas, no Ceará. A bem da verdade houve honrosas exceções à regra, mas, no geral, as pessoas que dominaram a cena da administração turística no estado e em Fortaleza nem sempre eram ou estavam preparadas para a função, uma pena.
Entre as estultices mais “òbvio ululante” que perpetraram, está à ênfase dada ao turismo internacional. Mais de 80% dos turistas que visitam o Ceará são brasileiros, vêm de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Minas, do Rio Grande e de estados vizinhos, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Piauí, Maranhão, etc. Porém, mais de 80% da atenção, dos recursos e dos esforços de nossos valorosos administradores do setor é voltada para atrair o visitante internacional.
Resultado, muito investimento e resultados pífios. Com os mesmos recursos, se dirigidos ao turismo interno, obteríamos efeitos espetaculares. Por que os gringos não vêm? Porque moram longe, têm férias e feriados curtos distribuídos durante o ano, têm opções mais baratas e bastante sofisticadas em locais mais próximos.
Dessa forma quem conseguimos atrair foram investidores estrangeiros que aqui compram pousadas em nossas praias e controlam todas as pontas do processo. Têm uma agencia de captação na Itália, Espanha ou Portugal, contratam vôos charteres para trabalhadores de baixa renda, os apanham no aeroporto e os levam diretamente para sua pousada. Numa estrutura em que o sexo efetivamente é componente ponderável.
Ah, mas se dispusermos de infra-estrutura competitiva atrairemos os galegos. Não. O México é vizinho do maior pólo emissor de turistas, tem estruturas e equipamentos com os quais nem sonhamos em balneários e praias que nada ficam a dever às nossas, e ainda assim 80% do negócio turístico ali é concentrado no turismo interno.
Ainda há tempo. Poderemos fincar pé na estatística de que somos o maior pólo atrativo do país, em termos de turismo interno, segmentar nossa oferta para os brasileiros, que vêm sempre com amigos e família, sem contribuir muito com o aumento do fenômeno do turismo sexual, gastam aqui tanto quanto os estrangeiros, e... falam nossa língua!
Mas aqui tudo é mais difícil. Todas as cidades turísticas do planeta gastam tremendas quantidades de energia, criatividade e dinheiro para se inserirem no calendário turístico com uma festa, um evento que se torne emblemático da atividade. Nós tivemos aqui a maior micareta do país, do Mundo. Mas a mesquinhez dos que não participavam do banquete a comprometeu.
Com argumentos os mais hipócritas. O barulho ensurdeceria a vizinhança. Esquecendo-se que a Beira-mar sempre se constituiu em ágora fortalezense, para onde se dirigiam “naturalmente”, a comemorar copas do mundo e quejandos, as massas com ricos e pobres.
Agora, depois de comprarem a Câmara dos Vereadores e adulterar o Código Municipal, os mais ricos construíram, nesse local que fora público, uma muralha de arranha-céus e de hotéis que infernizam a vida dos que sofrem com o calor que a ausência da brisa marítima provoca.
O mais estranho é que as vozes mais tonitruantes, em defesa de nossa primorosa casta de milionários, é quase sempre a dos destituídos de dinheiro, de escrúpulos e de cérebros. Dos militantes-sabonete, empacotadinhos, cheirozinhos e lisos.
[1] PARETTO, Vilfredo , economista italiano, autor de Trattato de Sociologia General e Manuel d'Economie Politique
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