Educação, a revolução social dos novos tempos (Marcondes Rosa de Sousa)
18:39 @ 20/10/2006
Educação, a revolução social
dos novos tempos
“Assiste-me o orgulho de me constituir concidadão com quantos levam hoje avante românticas sagas como a Confederação do Equador. Com quantos outros de quem tomaria como ícones os que compõem esta Câmara de Vereadores e o Prefeito Cirilo Pimenta – sinais estes do Coletivo quixeramobinense, a versão moderna dos confederados de outrora e jeito atualizado de Antônio Conselheiro, ao tentar superar a “revolta social e moral”, com as armas do acesso à educação e ao trabalho, pondo em prática, de forma pacífica, revolução social dos novos tempos, mais solidária e madura”.
(Discurso proferido por Marcondes Rosa de Sousa, Presidente do Conselho de Educação do Ceará, na solenidade em que recebeu o título de “Cidadão de Quixeramobim”, a ele outorgado pela Câmara Municipal desse Município, em 5 de dezembro de 2002)
É com um misto de responsabilidade e emoção que recebo este título de “Cidadão de Quixeramobim”. Para mim, uma honra e um privilégio. Confesso, porém, que, além do privilégio e da honra, pesam-me a consciência e o sentimento de humildade, ao nele enxergar menos um tributo à minha história-de-vida e ao que fiz por esta terra, e mais um sinal da solidariedade a um projeto comum que se desenha e constrói.
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Cidadão de Quixeramobim! O viés do professor de linguagem leva-me a refletir sobre os dois termos dessa expressão, a me calar fundo: ‘cidadão’ e ‘Quixeramobim’. Cidadão, afinal, o que vem a ser? Quixeramobim, por outro lado, o que representa como personagem em nossa história em comum?
‘Cidadão’, sabemos, é desde a origem, o ‘habitante da cidade’. E , de ‘cidade’, legaram-nos o latim e o grego, três entrelaçadas acepções: a da urbs, a da cívitas e a da pólis.
A urbs, de onde se gestou o urbano, desenha-se pelo conjunto dos logradouros e ruas, das edificações e monumentos, do patrimônio arquitetônico-ambiental, enfim. A cívitas é a dimensão da teia das relações sociais, representada pelos atores vários nela em cena. A pólis, de onde nos veio a política, é o projeto coletivo e dos sonhos, gestado na sucessão do ontem, do hoje e do amanhã de nossa transcendência histórica.
A urbs é o palco e cenário. A cívitas, o jogo da cena pública entre os atores plurais. A pólis, o enredo do projeto sócio-político, por fim.
Assim havemos de “ler” e entender Quixeramobim. Uma urbs a sinalizar o jogo dos atores sociais que encenam e constróem um projeto coletivo.
Aí estão suas ruas, suas igrejas, seus logradouros e monumentos revolucionários, o memorial dedicado ao Conselheiro – um filho seu – a eloqüentemente falarem todos de uma história, desde a “Vila de Campo Maior” de outrora até a Quixeramobim destes digitais tempos de agora, a abrigar uma instituição universitária nascente e a construir-se a partir da força do solidário.
Na urbs, a marca reiterada de um arquétipo a identificar um povo a tocar para frente esta cívitas: vale dizer, o arquétipo do ímpeto libertário a mourejar nos personagens aqui vividos, contumazes partícipes nos históricos surtos revolucionários da Nação e do Ceará: a Independência do Brasil, a Confederação do Equador, a Proclamação da República, a Revolta de Pinto Madeira, a Concentração em Muxuré, a Sedição de Juazeiro, para ficarmos com os principais. Ímpeto libertário que tem, em um de seus filhos, talvez o ícone mais expressivo desse caráter latente em sua gente. Refiro-me a Antônio Conselheiro, protagonista da “Guerra dos Canudos”, saga imortalizada em “Os Sertões”, de Euclides da Cunha.
Assumir a cidadania de Quixeramobim é, pois, partilhar dessa história, desse sentimento arquetípico, desse projeto enfim. E, em mim, palpita a emoção desse compartilhamento ao tempo em que me pesa (repito) a responsabilidade de, em solidariedade, ajudar a levar avante esse projeto.
O cidadão, se, por um lado, é um ente singular (assim o impõem o determinismo ou a opção), é ele, antiteticamente, um ser plural, já que, por natureza, nasce social. Assim, mesmo que, como um singular indivíduo, esteja eu recebendo o título de “Cidadão de Quixeramobim”, somo-me (bem o sei) a um coletivo. E à soma e ao coletivo não estou chegando sozinho, despido do social e da pluralidade que comigo carrego. Comigo, pois, trago as metonímias muitas que, pelos caminhos da vida, tenho agregado – vale dizer, os valores e atores em harmônica dissonância de minha convivência e ação. Por isso, é de justiça que reparta com esses atores, a honra e a responsabilidade da cidadania a mim conferida.
Na verdade, “homem algum é uma ilha”, já se disse. E “eu sou eu e minhas circunstâncias” – repetiu-se. “Eu sou eu e minhas convivências”, repiso no mesmo tom. Com as minhas circunstâncias e convivências – em maior ênfase os que comigo habitam os latifundiários espaços da “pessoa jurídica” do Presidente do Conselho de Educação do Ceará, aqui representados por conselheiros e técnicos – é de justiça que faça deles parceiros no dividir a honra e o ônus do título que ora recebo. Parceria que gostaria que se estendesse a todos aqueles que comigo habitam o afetivo terreno da afeição: a família, os conterrâneos, os amigos, que, de uma forma ou de outra, solidarizam-se no mesmo projeto.
A iniciação à cidadania, como num batismo, marca-se em geral sob um signo: da água, do fogo ou algo semelhante. No caso, o batismo que é esta cerimônia parece carregar-se de dois expressivos símbolos a expressar o sentimento libertário desta terra: a Confederação do Equador e o caráter de Antônio Conselheiro.
Registra-nos o Prof. Marum Simão, em seu livro Quixeramobim: recompondo a história, o que dizia Júlio César da Fonseca, sobre o espírito a nortear a Confederação do Equador, movimento revolucionário de 1824:
“A Confederação do Equador foi um sonho, um desses sonhos eternos de reforma e transformações, foi um poder criador, olhando o futuro da Pátria, sem as ambições e os preconceitos dos caçadores de glórias vãs, dos imitadores estéreis sem ânsia do bem, que se superpõe aos interesses, e só se preocupam com o seu eu”
Sobre Canudos, onde Antônio Conselheiro fez-se o protagonista, o Prof. Marum Simão cita o Prof. André Haguette, ao apresentar livro do Prof. João Arruda:
“Canudos não é um ato meramente acadêmico de reconstrução histórica; é também um compromisso com a revolta moral e social, diante da miséria e da opressão...”
De forte simbologia talvez tenha sido a coincidência de a reunião do Conselho de Educação do Ceará para a aprovação da experiência de implantação, no Sertão Central Cearense, de uma instituição comunitária de educação superior, haver-se realizado justo no prédio histórico da Câmara de Vereadores, o mesmo cenário-sede da adesão de Quixeramobim à Confederação do Equador, no passado. Quem sabe ainda não traria também essa mesma carga simbólica o ter este ato revolucionário, como atores, conselheiros outros (no caso, os do Conselho de Educação do Ceará), a adotar como trilha e emblema os gestos de outrora assumidos por Antônio, o Conselheiro.
Na verdade, nestes tempos modernos, os do saber, onde a escola é o reator da economia a da vida, a superação da opressão e da miséria faz-se pela via da educação. Isso, disseram e estão a dizer os que trazem consigo o espírito da Confederação do Equador, no passado e no presente. De certa forma, a Instituição Universitária que nasce sob o espírito comunitário é a versão moderna da Confederação do Equador, a primeira do gênero logo abaixo do Equador, nas Regiões Norte e Nordeste, a portar consigo o mesmo o espírito de reação e superação da “miséria e da opressão”, a pautar a ação do Conselheiro Antônio de nossa história.
Este título, a mim, cidadão a simbolizar a marca do esforço plural, tem a força de um amplo “contrato social”, sonho tormado concreto, a transcender o território de Quixeramobim e a espraiar-se (é o sonho) aos extensos latifúndios ao sul do Equador... Sinal desse desiderato é o olhar atento de gestores de municípios vários de nosso Estado sobre a experiência de instituição universitária comunitária em curso, no Sertão Central Cearense.
Invade-me invade-me a emoção de compartilhar da cidadania de um Quixeramobim, musa a inspirar versos de Jader de Carvalho, a crônica poética de Manuel Bandeira, a saga de “Os sertões”, onde Antônio Conselheiro se fez personagem maior, as referências várias nas letras da Música Popular Brasileira. De integrar extenso rol de filhos ilustres de tão abençoada terra, a fazer história por este Ceará e Brasil. De compor a galeria dos que foram agraciados com a honra de cidadãos de tão libertária terra.
Assiste-me o orgulho de me constituir concidadão com quantos levam hoje avante românticas sagas como a Confederação do Equador. Com quantos outros de quem tomaria como ícones os que compõem esta Câmara de Vereadores e o Prefeito Cirilo Pimenta – sinais estes do Coletivo quixeramobinense, a versão moderna dos confederados de outrora e jeito atualizado de Antônio Conselheiro, ao tentar superar a “revolta social e moral”, com as armas do acesso à educação e ao trabalho, pondo em prática, de forma pacífica, revolução social dos novos tempos, mais solidária e madura.
De mim, resta-me a gratidão pela oportunidade de, em solidariedade, tornar-me ator na História.
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