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Educação, a revolução social

dos novos tempos

 

 

“Assiste-me o orgulho de me constituir concidadão com quan­tos levam hoje avante românticas sagas como a Confederação do Equa­dor.  Com quantos outros de quem tomaria como ícones os que compõem esta Câmara de Vereadores e o Prefeito Cirilo Pimenta – sinais estes do Coletivo quixeramobinense, a versão moderna dos confederados de outrora e jeito atualizado de Antônio Conselheiro, ao tentar superar a “revolta social e moral”, com as armas do acesso à educação e ao trabalho, pondo em prática, de forma pacífica, revolução social dos novos tempos, mais solidária e ma­dura”.

 

 

(Discurso proferido por Marcondes Rosa de Sousa, Presidente do Conselho de Educação do Ceará, na solenidade em que recebeu o título de “Cidadão de Quixeramobim”, a ele outorgado pela Câmara Municipal desse Município, em 5 de dezembro de 2002)

 

 

     É com um misto de responsabilidade e emoção que recebo este título de “Cidadão de Quixeramo­bim”.  Para mim, uma honra e um privilégio.  Con­fesso, porém, que, além do privilégio e da honra, pe­sam-me a consciência e o sentimento de humildade, ao nele enxergar menos um tributo à minha história-de-vida e ao que fiz por esta terra, e mais um sinal da soli­dariedade a um projeto comum que se desenha e cons­trói.

 

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Cidadão de Quixeramobim!  O viés do professor de linguagem leva-me a refletir sobre os dois termos dessa expressão, a me calar fundo: ‘cidadão’ e ‘Quixeramo­bim’.  Cidadão, afinal, o que vem a ser? Quixeramo­bim, por outro lado, o que representa como persona­gem em nossa história em comum?

 

      ‘Cidadão’, sabemos, é desde a origem, o ‘habi­tante da cidade’.  E , de ‘cidade’, legaram-nos o latim e o grego, três entrelaçadas acepções: a da urbs, a da cívitas e a da pólis. 

 

A urbs, de onde se gestou o urbano, desenha-se pelo conjunto dos logradouros e ruas, das edificações e monumentos, do patrimônio arquitetônico-ambiental, enfim. A cívitas é a dimensão da teia das relações soci­ais, representada pelos atores vários nela em cena.  A pólis, de onde nos veio a política, é o projeto coletivo e dos sonhos, gestado na sucessão do ontem, do hoje e do amanhã de nossa transcendência histórica.

 

A urbs é o palco e cenário.  A cívitas, o jogo da cena pública entre os atores plurais. A pólis, o enredo do projeto sócio-político, por fim.

 

Assim havemos de “ler” e entender Quixeramo­bim.  Uma urbs a sinalizar o jogo dos atores sociais que encenam e constróem um projeto coletivo. 

 

Aí estão suas ruas, suas igrejas, seus logradouros e monumentos revolucionários, o memorial dedicado ao Conselheiro – um filho seu – a eloqüentemente falarem todos de uma história, desde a “Vila de Campo Maior” de outrora até a Quixeramobim destes digitais tempos de agora, a abrigar uma instituição universitária nascente e a construir-se a partir da força do solidário.

 

 Na urbs, a marca reiterada de um arqué­tipo a identificar um povo a tocar para frente esta cívi­tas: vale dizer, o arquétipo do ímpeto libertário a mou­rejar nos personagens aqui vividos, contumazes partíci­pes nos históricos surtos revolucionários da Nação e do Ceará: a Independência do Brasil, a Confederação do Equador, a Proclamação da República, a Revolta de Pinto Madeira, a Concentração em Muxuré, a Sedição de Juazeiro, para ficarmos com os principais.  Ímpeto libertário que tem, em um de seus filhos, talvez o ícone mais expressivo desse caráter latente em sua gente.  Re­firo-me a Antônio Conselheiro, protagonista da “Guerra dos Canudos”, saga imortalizada em “Os Ser­tões”, de Euclides da Cunha.

 

Assumir a cidadania de Quixeramobim é, pois, partilhar dessa história, desse sentimento arquetípico, desse projeto enfim.  E, em mim, palpita a emoção desse compartilhamento ao tempo em que me pesa (repito) a responsabilidade de, em solidariedade, aju­dar a levar avante esse projeto.

 

    O cidadão, se, por um lado, é um ente singular (assim o impõem o determinismo ou a opção), é ele, antiteticamente, um ser plural, já que, por natureza, nasce social.  Assim, mesmo que, como um singular indivíduo, esteja eu recebendo o título de “Cidadão de Quixeramobim”, somo-me (bem o sei) a um coletivo.  E à soma e ao coletivo não estou chegando sozinho, despido do social e da pluralidade que comigo carrego.  Comigo, pois, trago as metoní­mias muitas que, pelos caminhos da vida, tenho agregado – vale dizer, os valores e atores em harmônica dissonância de mi­nha convivência e ação. Por isso, é de justiça que re­parta com esses atores, a honra e a responsabilidade da cidadania a mim conferida.

 

Na verdade, “homem algum é uma ilha”, já se disse. E “eu sou eu e mi­nhas circunstâncias” – repetiu-se. “Eu sou eu e minhas convivências”, repiso no mesmo tom.  Com as minhas circunstâncias e convivências – em maior ênfase os que comigo habitam os latifundiários espaços da “pessoa jurídica” do Presi­dente do Conselho de Educação do Ceará, aqui repre­sentados por conselheiros e técnicos – é de justiça que faça deles parceiros no dividir a honra e o ônus do título que ora recebo.  Parceria que gostaria que se estendesse a todos aqueles que co­migo habitam o afetivo terreno da afeição: a família, os conterrâneos, os amigos, que, de uma forma ou de outra, solidarizam-se no mesmo projeto.

 

A iniciação à cidadania, como num batismo, marca-se em geral sob um signo: da água, do fogo ou algo semelhante.  No caso, o batismo que é esta ceri­mônia parece carregar-se de dois expressivos símbolos a expressar o sentimento libertário desta terra: a Con­federação do Equador e o caráter de Antônio Conse­lheiro.

 

Registra-nos o Prof. Marum Simão, em seu livro Quixeramobim: recompondo a história, o que dizia Júlio César da Fonseca, sobre o espírito a nortear a Confederação do Equador, movimento revolucio­nário de 1824:

 

“A Confederação do Equador foi um sonho, um desses sonhos eternos de reforma e transformações, foi um poder criador, olhando o futuro da Pátria, sem as ambições e os preconceitos dos caçadores de glórias vãs, dos imitadores estéreis sem ânsia do bem, que se superpõe aos interesses, e só se preocupam com o seu eu”

 

Sobre Canudos, onde Antônio Conselheiro fez-se o protagonista, o Prof. Marum Simão cita o Prof. André Haguette, ao apresentar livro do Prof. João Ar­ruda:

 

“Canudos não é um ato meramente acadêmico de reconstrução histórica; é também um compromisso com a revolta moral e social, diante da miséria e da opressão...”

 

De forte simbologia talvez tenha sido a coincidência de a reunião do Conselho de Educação do Ceará para a aprovação da experiência de implantação, no Sertão Central Cearense, de uma instituição comunitária de educação superior, haver-se realizado justo no prédio histórico da Câmara de Vereadores, o mesmo cenário-sede da adesão de Quixeramobim à Confederação do Equador, no passado.  Quem sabe ainda não traria também essa mesma carga simbólica o ter este ato revolucionário, como atores, conselheiros outros (no caso, os do Conselho de Educação do Ceará), a adotar como trilha e emblema os gestos de outrora assumidos por Antônio, o Conselheiro.

 

Na verdade, nestes tempos modernos, os do sa­ber, onde a escola é o reator da economia a da vida, a superação da opressão e da miséria faz-se pela via da educação. Isso, disseram e estão a dizer os que trazem consigo o espírito da Confederação do Equador, no passado e no presente.  De certa forma, a Instituição Universitária que nasce sob o espírito comunitário é a versão moderna da Confederação do Equador, a pri­meira do gênero logo abaixo do Equador, nas Regiões Norte e Nordeste, a portar consigo o mesmo o espí­rito de reação e superação da “miséria e da opressão”, a pautar a ação do Conselheiro Antônio de nossa histó­ria.

 

Este título, a mim, cidadão a simbolizar a marca do esforço plural, tem a força de um amplo “contrato social”, sonho tormado concreto, a transcender o terri­tório de Quixeramobim e a espraiar-se (é o sonho) aos ex­tensos latifúndios ao sul do Equador... Sinal desse desi­derato é o olhar atento de gestores de municípios vá­rios de nosso Estado sobre a experiência de instituição universitária comunitária em curso, no Sertão Central Cearense.

 

 

 

Invade-me invade-me a emoção de compartilhar da cidada­nia de um Quixeramobim, musa a inspirar versos de Jader de Carvalho, a crônica poética de Manuel Ban­deira, a saga de “Os sertões”, onde Antônio Conse­lheiro se fez personagem maior, as referências várias nas letras da Música Popular Brasileira.  De integrar extenso rol de filhos ilustres de tão abençoada terra, a fazer his­tória por este Ceará e Brasil. De compor a galeria dos que foram agraciados com a honra de cidadãos de tão libertária terra. 

 

Assiste-me o orgulho de me constituir concidadão com quan­tos levam hoje avante românticas sagas como a Confederação do Equa­dor.  Com quantos outros de quem tomaria como ícones os que compõem esta Câmara de Vereadores e o Prefeito Cirilo Pimenta – sinais estes do Coletivo quixeramobinense, a versão moderna dos confederados de outrora e jeito atualizado de Antônio Conselheiro, ao tentar superar a “revolta social e moral”, com as armas do acesso à educação e ao trabalho, pondo em prática, de forma pacífica, revolução social dos novos tempos, mais solidária e ma­dura.

 

De mim, resta-me a gratidão pela oportunidade de, em solidariedade, tornar-me ator na História.

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