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"A visão regionalista presente na obra seminal de Gilberto Freyre levaria o seu autor a propor a extensão dessa concepção ao modelo de uma Universidade de índole regional, constituída nos moldes de uma federação, com sede no Recife, onde se concentrariam os seus principais institutos e atividades acadêmicas, com ramificações pelos demais estados da Região, de acordo com a sua vocação específica." (Paulo Elpídio de Menezes Neto, ex-reitor da Universidade Federal do Ceará)

 

No dia 29 de abril passado, foi oficialmente aberto o Ano do Cinqüentenário da UFC e do Centenário do Reitor Antônio Martins Filho, em solenidade presidida pelo Governador Lúcio Alcântara, realizada na Reitoria. Na ocasião, coube ao Prof. Paulo Elpídio de Menezes Neto, ex-Reitor daquela Instituição, em nome da Comissão que se instalava. Eis, um registro de suas palavras:

 

O REITOR MARTINS FILHO

E A UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ

Às vésperas do seu Cinqüentenário de criação e do Centenário de nascimento do seu Fundador, Reitor Antônio Martins Filho, a Universidade Federal do Ceará celebra e comemora o êxito de um projeto universitário que se firmou e fez-se respeitar no meio acadêmico do País, graças ao trabalho perseverante e dedicado de duas gerações de cearenses.

Nascida sob a influência de acalentadas aspirações intelectuais, cuja afirmação a muitos parecia improvável, o advento da Universidade coroou uma campanha memorável que se projetou e ganhou corpo nos cinco anos que precederam a sua criação pelo governo federal.

As novas gerações, sucessoras dos fundadores, no decurso deste meio século de vida da Universidade Federal do Ceará, foram se alçando às mais destacadas funções acadêmicas na Instituição, assumindo funções de liderança e direção, em um processo de renovação no qual se projetaram novos talentos e as ambiciosas perspectivas das transformações anunciadas. Numerosos contingentes de profissionais liberais, de especialistas em variados campos do Saber -- cientistas, trabalhadores intelectuais e pesquisadores -- formaram-se nesta Universidade e dela levaram para o exercício do seu ministério de cidadãos praticantes habilidades e conhecimentos, desenvolvidos nas suas salas e laboratórios. 

 O advento de outras Universidades e de novos cursos superiores que se foram sucedendo, nas três últimas décadas, em Fortaleza e em outras cidades do Ceará é decorrência natural, extensão inevitável, da influência exercida pela UFC, que veio completá-la e ampliar o atendimento crescente de uma forte demanda por educação superior no Ceará e em estados vizinhos.

Não terá sido por outra razão, ou por circunstâncias fortuitas, alheias à dinâmica do processo instaurado com a criação da UFC, que Antônio Martins Filho desempenhou papel decisivo em cada um desses eventos significativos para a história da educação do Ceará. Fundador da Universidade Estadual do Ceará -- UECE, criou a Universidade Regional do Cariri – URCA, participou da formulação do projeto, da concepção e da fundação da Universidade de Fortaleza – UNIFOR, e das ações que propiciaram a criação da Universidade do Vale do Acaraú – UVA.       Nas comemorações que deverão assinalar meio século da Universidade Federal do Ceará, a presença de Antônio Martins Filho não será menos lembrada, quanto seria se vivo fosse o seu idealizador, arquiteto e construtor.

Nesta festa, associa-se intimamente ao êxito de um notável empreendimento educacional – o mais significativo para os cearenses, dentre quantos brotaram da sua iniciativa – o trabalho perseverante e determinado de quem transformou o ato formal de uma decisão governamental na mais sólida construção cultural e científica que o Ceará terá conhecido.

Celebram-se a grandeza da obra e a visão do seu instituidor -- e de todos aqueles que emprestaram a sua colaboração decisiva para a consecução desta realização pioneira. Por coincidência feliz, neste mês de dezembro de 2004, associam-se duas datas marcantes, nas quais se projetam e se confundem uma grande obra e o devotamento de quem a concebeu e materializou, graças à visão larga de uma liderança firme e respeitada e à mobilização dos cearenses de todas as camadas sociais, em favor de uma missão destacada.

A Universidade do Ceará foi instituída pela Lei no 2.373, de 16 de dezembro de 1954, sancionada pelo Presidente Café Filho.

Nomeado Reitor, em 18 de maio de 1955, Antônio Martins Filho instalou oficialmente a Universidade em 25 de junho de 1955, em solenidade memorável que teve como palco o Teatro José de Alencar.

O que se passou em seguida, ao longo dos cinqüenta anos que se sucederam a este evento fundador, é o itinerário que se deverá registrar, com base e fundamento nos fatos que a história recolheu e na análise que se produzirá nos meses que se seguem.

O empreendimento com o qual nos envolveremos traduz-se na tarefa de reconstituir um percurso realizado, extraindo dos fatos e das circunstâncias conhecidas e por serem reveladas, a análise que nos falta para melhor compreensão e entendimento do que significa a criação desta Universidade e as cinco décadas que nos separam dos primórdios da sua criação, compartilhadas por, pelo menos, duas gerações de mestres e alunos e pelo povo cearense.

O significado emprestado à data e o destaque da obra que nos preparamos para comemorar não podem ficar restritos ao espírito do provisório de uma efeméride passageira, a eventos transeuntes ou a formalidades do estilo, sem que se finquem, justamente, marcos intelectuais duradouros, inerentes ao projeto no qual uma Universidade demonstra, como a nossa, toda a sua vitalidade – na forma de pensar e de analisar a sua própria obra.

O advento da Universidade, no Brasil, fez-se tardiamente, em comparação às experiências que brotaram na América Latina e às tradições letradas européias, sobretudo inglesas, que se fixaram nos Estados Unidos, dois séculos antes dos primeiros cursos superiores criados no País com a transferência da família real portuguesa para o Rio de Janeiro. Rememoramos episódio conhecido, no qual se evidencia a visão restritiva do colonizador, projetada em ordenamentos coercitivos praticados largamente pelo aparelho colonial sob cujo domínio permaneceu a América Portuguesa por mais de duzentos anos.

Na década de 30, sob os influxos progressistas que assaltam o País, as Universidades, formalmente constituídas, entre nós, não passavam de uma meia dúzia. A mais importante delas, por situar-se na Capital da República, dados a sua representação política e o prestígio social concentrados na sede da federação, denominou-se sugestivamente Universidade do Brasil, como se nessa instituição devessem concentrar-se toda a ciência, a cultura, a pesquisa e a formação de profissionais graduados do País. A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Paulo, precursora da futura Universidade de São Paulo, quebraria esse monopólio hegemônico que, por sorte, cedeu lugar a uma progressiva descentralização dos cursos universitários brasileiros.

A visão regionalista presente na obra seminal de Gilberto Freyre levaria o seu autor a propor a extensão dessa concepção ao modelo de uma Universidade de índole regional, constituída nos moldes de uma federação, com sede no Recife, onde se concentrariam os seus principais institutos e atividades acadêmicas, com ramificações pelos demais estados da Região, de acordo com a sua vocação específica.

Essa pregação, divulgada amplamente pelo seu porta-voz,. no decorrer dos anos 50, quando se instalava a Universidade do Ceará, abriria ensejo para que se travasse memorável controvérsia na qual se empenharam Gilberto Freyre e Antônio Martins Filho. Desse contraditório, que opunha, aparentemente, interesses tópicos, centrados em uma disputa entre estados, historicamente distantes, emergiria tema recorrente, impregnado de significados culturais e políticos, sob enfoque de aliciadora inspiração filosófica. Deve-se a eles, a Martins Filho e Gilberto Freyre a abertura desse brilhante contencioso.

Não seria obra do acaso a adoção pela Universidade do Ceará ao tempo do longo reitorado de Martins Filho, da divisa O Universal pelo Regional..

A Universidade do Ceará, posteriormente transformada, na década de 60, em Universidade Federal do Ceará, é criação contemporânea à maior parte das Universidades mantidas pela União, nos diversos Estados da Federação. A expansão do projeto universitário brasileiro começa a tomar corpo a partir dos anos 50, concentrando-se nas duas décadas seguintes. No seu conjunto, as Universidades, criadas pelo governo federal, constituíram, a rigor, um projeto cujas bases seriam fincadas a partir da reunião de escolas isoladas preexistentes, particulares algumas, estaduais na sua maior parte.

Não seguiu modelo diferente a nossa Universidade do Ceará. Incorporando escolas tradicionais, criando outras em áreas de conhecimento ainda não atendidas, ampliando o seu campo de atuação em Fortaleza e em muitas regiões e localidades do interior do Estado, a Universidade Federal do Ceará chega ao final dos anos 60 como a única instituição universitária do Estado. Só então, começam a surgir outras Universidades, com a iniciativa pioneira da criação da Universidade de Fortaleza, graças à iniciativa de um respeitável empresário cearense, Edson Queiroz.

O Ceará e os cearenses terão nas celebrações desse Cinqüentenário da sua Universidade Federal do Ceará um reencontro com as idéias fundadoras, e as mais lídimas figuras da ciência, da cultura e da intelectualidade que se associaram ao movimento de sua criação – e que, com Antônio Martins Filho, serão justamente lembrados e  exaltados, nunca esquecidos da memória do seu povo.

Que me seja dado, com esses registros e evocações, rememorar circunstância exemplar – que bem ilustra a capacidade extraordinária de mobilidade no processo geracional na nossa Universidade. Reitor recém empossado, em 1979, quando se comemorou o Jubileu de Prata da UFC, pronuncio estas palavras, neste momento, por ocasião da abertura do Ano do Cinqüentenário, em solenidade presidida por um de meus alunos do Curso de Ciências Sociais – o Reitor René Teixeira Barreira.

Estes heróicos 50 anos guardam, na memória dos cearenses e na de algumas gerações de universitários, sucessoras e, ao mesmo tempo, contemporâneas, a lembrança de amargas vicissitudes, de gestos exemplares de desprendimento e grandeza, de sacrifícios e renúncias, de resistências inabaláveis às imposições do arbítrio das instâncias da força, e de muito trabalho e dedicação a ideais que perduram em todos os corações.

Quando pareciam incontornáveis e invencíveis os tentáculos da ordem instalada, caladas as derradeiras reações da cidadania amordaçada, com a consolidação de um aparelho repressor poderoso, muitas vozes juvenis continuaram a ouvir-se, dentro e fora da Universidade, em defesa de princípios eternos, que se mesclam às origens remotas da Academia. O gesto de grandeza, coragem e desprendimento de muitos jovens estudantes e de Mestres respeitáveis, que os registros de nossa vida universitária recolheram, servem, hoje, duas décadas transcorridas desde o retorno do País às franquias democráticas e ao estado de Direito, como manifestação de indulgência pelos atos daqueles que não souberam respeitar os seus compromissos e a dignidade que a Universidade impõe aos que lhe emprestam a sua colaboração.

O patrimônio científico e cultural e os bens materiais reunidos em meio século, nesta Universidade, e graças a ela e à sua respeitabilidade, são a riqueza conquistada pelo trabalho quotidiano de professores, alunos e funcionários, nas lides do magistério, no esforço concentrado da pesquisa, no ensinar e no aprender, no fazer e construir, funções que fazem da Universidade a “multiversidade” moderna, proclamada por Clark Kerr, abrangente, mobilizadora de talentos e vocações e inventividade, comprometida com a sociedade e com as aspirações do povo.

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