Grupos

De meus arquivos, dou com o artigo abaixo, de 16 outubro de 2002, por ocasião da concessão a mim, a propósito do Dia do Professor, do Troféu “Coruja de Ouro”, a mim ofertado pela Associação dos Professores do Ensino Superior do Ceará (Apesc). Na solenidade, reencontro com amigos. O clima, pré-eleitoral. E, óbvio, o ambiente, no embate Lula e José Serra, nada favorável a Serra.

 

           

 

 

 

 

Brinde ao plural

 

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

O Povo – 16.10.2002

 

           

            Dura frase, a de um colega, marcou-me o Dia do Professor, um ano atrás: "Hoje, ganhei, de meus alunos, uma gravata: meu desejo é enforcar-me com ela". Este ano, a atmosfera foi de festa; abraços, estórias, e a história se pondo a limpo.

 

            Em um jantar, vi-me a prestar e a receber homenagens. E, num grupo, eis que re-evocamos caminhada conjunta desde os anos 60. Uma colega fala-nos de lutas e êxitos, e do trágico sobre sua vida. No rosto, porém, o sorriso. No peito, discreto broche: "PT". E a confidência/convite: um vinho já guardado para a vitória de Lula. De nós, acercam-se Rosa (a da Fonseca) e Maria Luísa (a Fontenele). Sorrisos e abraços, em meio ao convite para os "60 anos da Maria".

 

            A esta, cobro-lhe livro, "ela narradora/personagem", os fatos políticos sob o ângulo de seu sentimento e visão. E ela: "Já tenho o título!" Falo-lhes de outro, sonho meu, a reconstituir-nos a paisagem política, desde os turvos anos 70 aos democráticos, a partir dos "aniversários" de nossos filhos, plagiando a amiga Violeta Arraes, ao referir-se à esquerda no exílio: "Conheço-lhes as grandezas e as vilezas todas". O grupo patrulha-me a opção por Serra e o PSDB. Falo-Ihes desses como personagens da mesma história e das vezes muitas que, de uma banda do rio e de outra, fui operário na construção de pontes. Por fim, confesso-lhes o lado "adolescente contido no peito", quem-sabe expresso pelo tributo que pago a Leo (o filho caçula, roqueiro no Rio) e a Rosa da Fonseca (na ponta-esquerda).

 

            Troféu "Coruja Apesc" às mãos, falo à televisão das marcas que deixei nos alunos e das que, da vida, trago no peito dilacerado. Todas a me ensinar a lição das dissonâncias a construir acordes.

 

            Final da festa, e os votos de que o vinho guardado seja erguido, em qualquer hipótese, a um Brasil de convivência sem ódio e plural.

 

            Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece), ora exercendo a presidência do Conselho de Educação do Ceará.

 

            Observação: Maria Luíza Fontenele, ex-prefeita de Fortaleza (a primeira, mulher) e seu grupo (radical) pregou, nas últimas eleições a abstenção. Somos colegas, amigos. A filha dela, Andrea, até hoje me trata por tio. Nos anos turvos, uma das acusações a mim era pertencer ao “grupo da Maria Luíza”, isto é, do Movimento Feminino pela Anistia. Ela, Gouvan (do Partido Comunista) e eu, fomos reputados surrealisticamente os três mais perigosos dos subversivos àquela época...

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