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Eta paidéia pai d'égua!

09:51 @ 09/03/2006

De: "Marcondes Rosa"
Assunto: "Eta paidéia ... pai-d'égua!"
Data: Sat, 22 May 2004 15:27:33 -0300
"(...) busquei, junto ao “grupos.com.br”, para a denominação de nossa Lista de Discussão, os iniciais e solitários termos “pólis”, “paidéia” e “ethos”. A resposta era sempre a mesma: “grupo já existente”. Tentei combinações várias. Aceita, finalmente, “ethos-paideia”, forma disponível, que, de logo, assegurei definitiva." (Marcondes Rosa de Sousa, moderador da discussão)


Amiga(o)s,

 

“Ethos-paidéia”! ...

 

A denominação do “Grupo de Discussão” parece que, a alguns, assustou. Mas o apelo ao susto foi-me intenção. Só não esperava que, em alguns, fosse tanto, a ponto de lhes levar a “deletar” as primeiras mensagens... Mesmo entre pedagogos, os dois termos, juntos, provocaram surpresas: “Ethos? O que é isso? Paidéia... Ah! eu tenho, lá em casa, um livro bem grosso, com esse nome!...”. Isso, numa referência à obra de 1413 páginas, intitulada Paidéia: a Formação do Homem Grego, de Werner Jaeger, tradução de Artur M. Parreira (São Paulo, Ed. Martins Fontes, 1995).

 

De algum modo, arquitetei esse espanto. Para mim, de formação lingüística, nome é coisa importante. Por vezes, maior que a coisa. É que Deus, ao criar o mundo, teve como primeira tarefa, fazer as coisas surgirem. Depois, dar-lhes nomes. Do Gênese, colhi de Deus (eu, sua imagem e semelhança) a narcísea lição: ao criar as coisas, dar-lhes um nome pelo qual lhes chamar; depois, nominá-las; ao fim, poder desfrutar da auto-satisfação a me trazer, como “no princípio”, o refrão: “E viu que tudo isso era bom!”

 

Em minha formação lingüístico-literária, aprendi, com Roland Barthes, que “escrever é espantar”, nas pegadas do que já dissera Aristóteles sobre a ciência. E mais: a fazer a diferença entre a linguagem da ciência - que se quer “transparente”, tal como uma límpida vidraça a nos levar direto às coisas – e a da arte e literatura, que se impõe “opaca”, como vidraça respingada da chuva, a mostrar, em si mesma, desenhos adicionais a transfigurar o dito por elas (Tzvetan Todorov)...

 

Dentro do espírito que gostaria de imprimir à nossa discussão, busquei, junto ao “grupos.com.br”, para a denominação de nossa Lista de Discussão, os iniciais e solitários termos “pólis”, “paidéia” e “ethos”.  A resposta era sempre a mesma: “grupo já existente”. Tentei combinações várias. Aceita, finalmente, “ethos-paideia”, forma disponível, que, de logo, assegurei definitiva.

 

“Ethos”, palavra grega, está aí hoje repetida até por nossos empresários, nos recém-criados programas de “responsabilidade social”, a abrir - em meio ao mundo econômico, onde gradativamente desmoronam (pelo menos em teoria e retórica) as barreiras entre capital e trabalho - os olhos de todos para a sinalização de que o mundo, no que toca à geração da riqueza e na vida social, radicalmente mudou. Na verdade, o capital agora se desloca para o próprio homem.  Não mais é “dinheiro”, o tal “capital física”. Não mais a solitária “cabeça” (de caput, em latim). Mas o homem de corpo inteiro, a inteligência fazendo-se “múltipla”, até o espírito, a alma, a transcendência integrando-se em tal concepção. E mais forte que isso, o retorno à visão de homem como “animal político” (na acepção do gregário e social). Daí, o capital social.

 

Aí, o “ethos”, o porto da caminhada proposta por nós. Horizonte a não ser esquecido em nossas discussões.

 

Paidéia! Alguns estranharam o termo, o que, para mim, era esperado. É que tem ele um “parentesco fonológico” com a expressão nordestina “pai-d’égua” e seus familiares mais próximos (sobretudo ... os “filhos”), o que acarreta, para esse vocábulo, possíveis conotações pejorativas.

 

Mas choques antitéticos a virar sinonímia é processo corriqueiro em toda linguagem. O termo ‘pai-d’égua”, o Aurélio Séc. XXI, o descreve: “Diz-se de coisa grande, ou avultada, ou que causa espanto”. E, a abonar a expressão, do cearense Chico Anísio: “O modo de pagar o cuidado dos padres com os municípios era este: dar uma festa pai-d’égua” (Teje Preso).

 

Curioso! No fundo, era essa “coisa grande, ou avultada, ou que causa espanto”, a irmanar dois aparentemente contraditórios dialetos – de um lado, o erudito (a evocar conotações helênicas); de outro, o popular (a me trair pelas gírias caboclas), que eu, cearense, no fundo, intuitivamente buscava, quem sabe...

 

Paidéia, a caminhada proposta. Nascido o termo, lá na Grécia, quando era o escravo que, pela mão levava a criança à escola. Pedagogia era isso: “conduzir a criança”. Daí, o vocábulo cresceu, avultou-se. Tornou-se um processo, mais que meramente escolar: a educação, conjugada a um projeto político e cultural.  A educação escolar sim, mas a ela transpondo, tornando-se sociocultural. O binômio “cultura e educação”, jogo contínuo e perene entre a preservação e mutação dos valores, os olhos em pacto a olhar para as moradas do “ethos”, lá onde nos aguardam a projeção de nós todos como cidadãos (entes do mundo político), profissionais (artífices do mundo econômico) e pessoas (solidários seres do mundo sociocultural e patamares transcendentes do humano).

 

De mim, fui, nas etapas de minha vida, extraindo lições da própria gramática, professor que sou dessa área. Primeira lição, a do Gênesis. A de que, “no princípio, era o nome”. Depois, tornei-me, no testamento novo, discípulo de São João. Aí, “no princípio, era o verbo (a ação)”. Com a maturidade e o advento desses tempos pentecostais, onde o fogo da emoção se torna “inteligência”, aprendi que, “no princípio, lá está a interjeição” (emoção).

 

É neste contexto que, aqui, deixo apelo e desejos a permear toda a nossa discussão, em que o “ethos”, tido por fim, oriente nossa jornada, a Paidéia.

 

Que nossa “Paidéia” seja estrada enlarguescida. Mesclada com o mundo e vida, a cultura (a integral produção do homem) e a vida enfim. A educação escolar sim. Mas não uma liturgia “sem sentimento e sem alma”, liturgia de desencontrada liturgia, sem horizonte e sem nexo. Que não perca seu horizonte, destino e desaguadouro. O “ethos”, onde mora a inclusão social. E, ao sentir isso, nosso povão, mesmo desinstruído de etimologias, arrancadas da Grécia e do Lácio, possa soltar fogos a entoar refrões como esse:

 

“Eta Paidéia ... pai-d’égua!”

 

De coração,

Marcondes Rosa de Sousa

Moderador da “Ethos-Paideia”

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