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Signos do Coletivo

10:03 @ 09/03/2006

De: "Marcondes Rosa"
Assunto: Signos do Coletivo.doc
Data: Fri, 21 May 2004 15:05:19 -0300
Dia 19.05.2004, em sessão solene, a Assembléia Legislativa do Estado do Ceará, prestou homenagem à Universidade Vale do Acaraú (UVA), por seus 35 anos de fundação, e a seu Reitor, Prof. José Teodoro Soares, outorgou a Medalha João Otávio Lobo.O artigo "Signos do Coletivo", publicado na Imprensa do Ceará, é alusivo ao significado dessa Comenda.

SIGNOS DO COLETIVO

 

Marcondes Rosa de Sousa,

Professor

 

    Nos livros de história literária, dei com os “cronistas do reino”, em Portugal, a discreparem em visão sobre os fatos históricos. João de Barros a encará-los como feitos solitários dos príncipes. Fernão Lopes, ao invés, como produto da “vontade das multidões”. E os príncipes, por fim, como expressão do coletivo projeto do povo. Já na história da universidade, aprendi com Clark Kerr, em seu “Os usos da universidade”, que essa instituição (“multiversidade’ em nossos dias) é obra, sim, de “gigantes”. Mas “gigantes”, aí, intérpretes a pacificar “as tribos de Israel em permanente conflito”, tanto no jogo da pluralidade interna como na tensão entre o acadêmico e o social.

 

    Tais lembranças me vêm a propósito da Medalha “João Otávio Lobo”, criada e concedida, a cada ano, pelo Poder Legislativo do Ceará, “ao educador ou instituição de maior projeção no Estado”. Na verdade, a alguém que, de alguma forma, enquadra-se no perfil de “intérprete do coletivo”, na esteira do que, em vida, pautou-se o patrono de tal comenda. De fato, João Otávio Lobo – médico, educador (na acepção escolar e na social), gestor público, político e produtor cultural – saído dos semi-áridos sertões de Santa Quitéria (Ce), dedicou-se, a vida inteira, a pensar as dores de nosso povo sofrido. Isso, como professor da Faculdade de Farmácia e Odontologia, e da de Direito, da qual foi diretor (hoje a integrarem a UFC), deputado estadual e federal, gestor público e titular mais alto do Poder Executivo (interino) e do Legislativo, escritor e membro das Academias Cearenses de Letras e de Retórica.

 

    Esses, o espírito e a marca que a Assembléia Legislativa do Ceará tem, ao longo dos anos, divisado nos agraciados com a Medalha “João Otávio Lobo”: Prof. Godofredo de Castro Filho (1971), Profa. Nila Gomes Soárez (1995), Universidade de Fortaleza (1998), e a mim, Marcondes Rosa de Sousa, em quem explicitamente se enxergou “a vocação de compor, em acordes, as dissonâncias” (2003). E, agora, o Prof. José Teodoro Soares, por proposição do Dep. Artur Bruno (PT/Ce), já aprovada pelo Plenário da Casa, que, dessa forma, “homenageia todos os educadores do Estado do Ceará”.    

 

    Justa e oportuna, sem dúvida, a homenagem. O Prof. José Teodoro Soares carrega a sensibilidade e a abertura ao coletivo de que falamos. Educador e político, forjou-se na caldeira da “ação católica”. E do Projeto Rondon – vale dizer, acreditando na estrada em dupla-mão entre a universidade e a comunidade em seu entorno. Por onde passou, deu provas disso. Sobretudo, na instituição que se plantou e se fortaleceu nos vinhedos à margem do Acaraú, e que se expandiu não só pelo vale de todo esse rio, mas que terminou por desaguar em outros vales de nosso semi-árido e nos “verdes mares bravios”. E, em regime de cooperação, pelo Nordeste, a Amazônia e o Centro-oeste, hoje a nos espiar até, em Cabo Verde, do outro lado do Atlântico...

 

    Transpôs o ideal de universidade do Cardeal Newman, a comunidade de estudantes e mestres insulada por fossos, a cultuar o desinteressado saber. Ao contrário, abriu avenidas para a “troca de saberes” entre a instituição e seu entorno. Nisso, é verdade, ousou. Avançou na construção de solidários e novos caminhos, o estatal e a iniciativa social se dando as mãos, rumo a uma universidade permeada das necessidades e dores do povo. Nesse processo, o risco dos “ensaios e erros”, por certo. Das rupturas de paradigmas já segmentados. Da superação dos estratificados pudores pelos bosques de Academo.

 

    Mas atitudes assim são lícitas aos gigantes, que, como o Prof. José Teodoro Soares, ora agraciado com a Medalha “João Otávio Lobo”, recebem o aval conferido aos que se tornam signos da “coletiva vontade”, como queriam Fernão Lopes e Clark Kerr.

 

    Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Estadual do Ceará (UECe) e da Universidade Federal do Ceará (UFC), membro do Conselho de Educação do Ceará, agraciado com a Medalha João Otávio Lobo (ano de 2003)

    

 

    

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