Educação e cultura em desencontro
10:36 @ 09/03/2006
| De: | "Marcondes Rosa" |
| Assunto: | O desencontro, ente nós, de educação e cultura. |
| Data: | Sat, 12 Jun 2004 22:02:25 -0300 |
Minha Cara
Professora Mª. Manuela Reis Frade,
Nossa “lusitana de coração afro-brasileiro”,
Demais amiga(o)s,
Veja como são as coisas destes digitais “tempos globais”! Em não tinha conhecimento da nota que nos chegou do “sítio” de endereço: http://www.secult.ce.gov.br/Forum.asp.
Na verdade, participei desse “fórum”, promovido pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará. E. numa dada mesa-redonda, coube-nos discorrer sobre a capacitação de quadros no campo da cultura e da arte. Mas o tópico alusivo ao que disse eu naquela ocasião, sobre ser lacônico demais, embaralhou-me palavras e idéias, numa confusa troca de “alhos por bugalhos”.
Naquela ocasião, falei das relações, em histórico desencontro, em nosso País, entre educação e cultura. E de minhas tentativas, num campo e no outro, por restabelecer tais relações, que, em essência, se indisssociam. E isso, desde que, por aqui, desembarcaram os jesuítas, que, em nome “Daqueles reis que foram dilatando/A Fé, o Imperio, e as terras viciosas/De África e de Ásia andaram devastando”, no dizer de Camões, em os Lusíadas, onde (parece) a expressão “e de América” não encontrou espaço na métrica do verso...
Os jesuítas viam o mundo de cima para baixo, num raciocínio hipotético-dedutivo. E essa marca deixaram em nossa educação. A cultura e a arte, ao invés, brotam do chão, do real, que, fenomenogicamente, constrói modelos, num raciocínio intuitivo e indutivo. E essas duas formas de “ler” e de “construir” a realidade nem sempre, entre nós, se têm casado.
No evento da Secretaria de Cultura, falei das conseqüência desse choque de visão entre os nossos educadores e gestores em relação à capacitação de artistas e de pessoas ligadas à cultura. Citei-lhes confissão da Profa. Guiomar Nammo de Melo, então do Conselho Nacional de Educação. Falava ela, aos argentinos, da educação brasileira. Lá pelas tantas, que dificuldades com o espanhol e indagou: “Como vocês aqui dizem o que, no Brasil, chamamos “grade curricular”?. Aí, alguém estranhou: “E, lá no Brasil, vocês prendem os alunos em grades?” Contei-lhes também a reação de meu filho mais novo, músico, e de seus colegas de banda, todos havendo abandonado cursos de música, sobre a necessidade de “escolarizar” e “curricularizar” os estudos de arte hoje à margem da escola, nos diferentes níveis. Aí, a reação em uníssono: “Não faça isso. Escolarizou, esculhambou!” (Do Aurélio, Séc. XXI – Bras. chulo. Estragar.)
‘ No evento, falei da visão nossa em possível conciliação. O entendimento das leis e diretrizes como induções partidas do chão, da plural vontade popular. As leis enfim como “contrato social” e hipóteses-de-trabalho, realimentadas pela experiência da prática.
Então presidente do Conselho de Educação do Ceará, elaborava assim as diretrizes. No caso da educação dos índios, tudo partia literalmente do chão: currículos, escolas (até a arquitetura escolar), cultural. Nada, de cima para baixo.
No evento, os artistas concordaram comigo. Houve um compositor musical que citou, em abono às minhas idéias, versos de baião cantado pela cantora Gal Costa: “De onde vem o baião?/Vem do barro, debaixo do chão”.
Nada, porém, de posições extremadas. Educação e cultura constituem um binômio desde a Grécia a habitar numa mesma morada: a “paidéia” (a formação do povo grego). Entre os dois, uma simbiose. A cultura é substrato da educação. A educação meio para preservá-la e dinamizá-la. Pessoalmente, sempre acreditei nesse binômio. E não é a toa que este grupo se denomina Ethos-Paidéia. O “Ethos”, a convivência e inclusão social como fim da caminhada em abraço da cultura e da educação, a paidéia.
Comungo, pois, minha prezada professora, de seu pensamento. No que tange ao “monólogo coletivo”, foi outra interpretação enviesada de quem tentou resumir minhas palavras. Falei-lhe de diretrizes, parâmetros e leis a se moldar no contrato social (o de Rousseau). Mas o “contrato social” não poderia se resumir ao “monólogo coletivo” (o de Piaget, aplicável ao aparente diálogo infante). Referia-me eu ao atual momento da sociedade brasileira: cada um, cada grupo, a se olhar no umbigo, isto confundido-se com o social! Monólogo coletivo a invadir as áreas todas, aí incluídas as da cultura e da educação... Estágio infante de nossa sociedade. Monólogo logo a se moldar em diálogo, a fundamentar o “contrato social”.
Concordo, pois, com você, Ma. Emanuela. E, pelo que já vi em outra mensagem sua, aqui, de alguma forma, herdamos o “cartorialismo” a nós legado pelos que aqui nos plantaram “a Fé e o Império”.
Cordial abraço,
Marcondes Rosa de Sousa
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