Grupos

Diário de bordo 16/10

16:48 @ 29/10/2009

Rio de Janeiro, 17 de outubro de 2009.

 

Olá amiga!!! Espero que esteja tudo bem por aí.

Estou novamente diante de meu computador para relatar mais uma de minhas aulas. Esta não foi na UFF, mas no centro do Rio. Fomos visitar este museu aberto que tanta história tem para nos contar.

Começamos o passeio ali perto das barcas, na praça XV, analisando as construções, mas também pensando nas possíveis falas que surgiriam entre as crianças, pois o curso tem um enfoque não apenas nas imagens, mas também nos discursos presentes entre nossos alunos. Segundo os pressupostos da teoria de Bakhtin é na alteridade que o sujeito se constrói e constrói sua aprendizagem.

Escutar as falas e valorizá-las no processo ensino-aprendizagem, aproxima o professor da realidade dos alunos, tornando a aprendizagem mais significativa. Se uma criança encontra no professor a fala que fala nela, é como se encontrasse um pouco dela ali. Lembra-se da polifonia que te falei? Então, ouvir as falas é valorizar a polifonia, é perceber que o aluno não é apenas aluno, mas um sujeito em diferentes relações sociais (ou de alteridade, nos termos bakhtinianos).

            Voltando ao passeio, havia no local, alguns retratos antigos da cidade e fomos observando cada um, com algumas intervenções do professor Armando que relatava um pouco da história e nos questionava sobre o que conseguíamos perceber em cada imagem.

O Rio de Janeiro foi crescendo naquele local: a igreja matriz, o paço, o palácio dos Teles, o chafariz. No início, o mar chegava até o chafariz, mas depois fizeram um aterro até a barca. Apenas com a construção do “mergulhão” é que descobriram onde começava o cais inicialmente.

            Fomos caminhando até o paço, e conhecemos a antiga casa da moeda. Naquele local é que derretiam o ouro para fazer as barras. Seguimos nosso passeio com a orientação de uma colega de curso, a Nathália, pois o professor, não estava muito bem de saúde. Visitamos o palácio dos Telles, a rua do comércio (um charme!!!), uma igreja, a casa Brasil-França (esta apenas por fora, pois estava em reforma), o Centro Cultural Banco do Brasil, e por fim a famosa confeitaria Colombo. Lá, comi um maravilhoso pastel de natas, que, apesar do nome, não é um pastel.

 Em Portugal, os cafés são chamados de pastelarias e vendem cafés, doces, tostas mistas, (o nosso misto quente), dentre outros. Os pastéis de nata, ou de belém, como também são conhecidos, são doces e não se parecem em nada com um pastel brasileiro. Seu nome é originário da famosa pastelaria de Belém. Ele tem o formato de uma empada aberta, com massa folhada, recheio de creme e um leve sabor de baunilha com canela. Uma tortura!!!

Durante todo o passeio, observamos a arquitetura da região, que teve muita influência grega: nas colunas, nos arcos, nas cúpulas das igrejas. Nestas últimas as cúpulas eram construídas com vitrais, o que favorecia a luminosidade. Aliás, de uma maneira geral as igrejas possuem muitos vitrais.

Foi uma tarde muito agradável, pena não podermos visitar o Museu Nacional de Belas Artes, pois estava em greve. Ficará para uma próxima oportunidade.

Espero que seu dia do professor tenha sido alegre e que os bons votos lhe abasteçam até a próxima comemoração.

 

Bjs,

 

Kelem

DIÁRIO DE BORDO II - 2ª AULA

11:41 @ 24/10/2009

A bordo da sala de aula do curso sobre Fotografia na Escola II

Valéria Rosa Poubell, outubro de 2009

 

Expectativas!  Os cariocas aglomeravam-se em torno do palco nas areias da mais bela praia do mundo. Copacabana. A cidade inteira se agitava. Em suas casas, nos bares, nos carros, pessoas agitavam-se com a possibilidade da vitória. E se o Rio for mesmo o vencedor? Como ficará o transporte, a situação da violência, o trânsito? E...? Nossa, são tantos os problemas que só de imaginar, alguns decidem não torcer mais a favor. Mas como todo brasileiro que se preza, carioca não desiste nunca! Ainda está lá, entretido na confusão que lhe atormenta: torcer contra ou a favor?

O fato é que, no meio disso tudo, um dos caos tão temidos se apresenta com força total. Para ir de um ponto qualquer, a qualquer outro ponto da cidade há que se vencer o cansaço e a desesperança por não chegar a lugar nenhum. De Jacarepaguá a Niterói há que se percorrerem uns quilometrozinhos. E aí... o jeito mesmo é rezar. Apelar para São Sebastião, padroeiro da cidade, para te ajudar.

Apelos atendidos, chegamos à Universidade. A aula versa sobre as pinturas em nossas vidas, em nossos processos de descoberta da leitura e da escrita.

À mesa estão dispostas fotografias das mais diversas categorias. São imagens de Comemorações Escolares, como Festas Juninas, Páscoa, etc. Há também fotos de passeios, de Formaturas, de professores com os seus alunos. E as fotos montadas nas escolas? Aquelas típicas, com nome da escola na frente, globo terrestre, mapa mundi ou bandeira ao fundo? Puxa, me recordo que nunca tive uma dessas!

Em discussão no momento em que nos juntamos ao grupo, a experiência antropológica, como oportunidade de observar o aluno em seus espaços sociais (lugares que frequenta). O Prof. Armando Barros nos fala da importância do professor-alfabetizador se apropriar dessa experiência para utilizá-la em sala de aula. Para tanto, faz-se necessário que o mesmo professor se torne um pesquisador. Mas que se valha da flexibilidade na maneira de pensar e estabelecer relações. Observar, investigar e analisar as experiências que os alunos vivenciam poderá resignificar todo o trabalho do professor que deseja alfabetizar.

A análise das fotografias dispostas à mesa é feita pelos grupos, juntamente com o professor que, em seguida, sugere a observação de um vídeo produzido pela Érica, colega do curso, e os seus alunos. Lindo trabalho!

Que vivência maravilhosa! Quanto aprendizado!

 

Até mais.


Lembranças da alfabetização

Por: Kelem Zapparoli

 

            Meus primeiros anos de escola propiciam-me boas lembranças. Inicialmente não, pois sei que minha entrada foi dura. Conta minha mãe, que eu chorava muito no jardim de infância. Tanto que ela resolveu deixar meu ingresso para o ano seguinte, quando já estivesse um pouco maior.

            Um ano havia se passado e estava eu agora entrando no pré. Chorar já não resolveria, mas lembro-me ter tentado. Nos recreios havia uma garota que compartilhava do mesmo desespero que eu: o abandono pela mãe. Nos tornamos amigas inseparáveis, mas sempre agarradas a uma figura adulta: a inspetora.

            Algum tempo se passou e agora já participávamos das brincadeiras com as outras crianças. Na sala de aula, brincávamos com a tia Eni. Foi ela que me introduziu no mundo das letras. Com ela conheci a história das vogais, aprendi a escrever meu nome e fazia muitos trabalhos no caderno de caligrafia.

            No ano seguinte entrei na 1ª série e agora sim aprenderia a ler e escrever. A professora era ótima. Lembro-me ter chorado novamente, mas nos primeiros dias tornei-me a ajudante da professora. Era uma tarefa muito importante, que eu adorava fazer. Ainda brincávamos bastante e foi assim que aprendi a ler. Tinha um cartaz de prega, que a professora colocava na lousa e dentro dele algumas palavras. Nossa missão era tentar adivinhar o que estava escrito. Quando não conseguíamos ela dava algumas pistas, dizendo ser uma “colher de chá”.

            O melhor de tudo foi quando percebi que já conseguia ler sozinha. Em casa, meus pais sempre compravam muitos gibis para mim e para minha irmã. Um dia sentada no sofá, comecei a tentar decifrar aqueles balões e logo já estava lendo.

            Nestes primeiros anos adorava a leitura e também era bastante elogiada em minhas redações. Diziam que eu era muito criativa, mas na faculdade veio a decepção: um 3,0 na prova de língua portuguesa fez-me acreditar, que as professoras apenas tentavam motivar-me. Recebi várias notas baixas no primeiro semestre nas disciplinas que exigiam habilidades de escrita. O pior de tudo é que, apesar da nota ser baixa, nunca disseram onde eu estava errando. O que era considerado um bom texto na visão deles? Ainda estou em busca desta resposta, mas um curso de alfabetização, que fiz em 2002, trouxe algumas respostas para este questionamento. O curso era o PROFA – Programa de Formação do Professor Alfabetizador, do MEC e nele analisávamos muitos textos.

            Hoje sei que a qualidade de nossa escrita depende do nosso envolvimento com ela: quanto mais leio e escrevo, mais melhoro meus textos. Por isso acredito que a missão de um professor alfabetizador é tornar a leitura e a escrita uma fonte de prazer e não uma obrigação, como muitas vezes acontece. Se em nosso país os índices de leitura são tão baixos, isto se deve aos nossos tempos de escola. A boa notícia é que as editoras já perceberam onde a escola errou e associada a uma mudança de mentalidade na educação, estes índices têm diminuído e as bienais aumentado seu público.

Os quadros que compunham as paredes da minha casa na minha infância

Valéria Poubell

 

Dividida entre a casa de minha avó e a da minha mãe, quando criança, vivenciei espaços físicos bem desprovidos de pinturas. No entanto, em meio à extrema pobreza, não faltaram nas paredes da casa da minha avó o quadro “A última Ceia”; um “quadro-retrato” da filha já falecida; e outro da mãe, também falecida.

Imagens de santos? Ah, esses povoaram o ambiente na época em que me alfabetizei. Eram esculturas de São Jorge, Iemanjá, São Judas Tadeu, Nossa Senhora Aparecida, entre inúmeras outras que caracterizavam o local onde se cultuava a religião espírita, através do candomblé.

Na casa onde moravam minha mãe e meus irmãos, local que pouco freqüentava, apenas alguns pregos aparavam panelas e outros utensílios domésticos nas paredes de madeira.

O contato mais aproximado com as pinturas se deu na idade adulta, já na universidade, quando comecei a frequentar Museus e Outros espaços. Hoje em minha casa as paredes abrigam diversas composições: prateleiras com livros e outras com objetos de decoração adulta e infantil; quadros com pinturas de artistas pouco conhecidos, adquiridos em feiras de utilidades domésticas, mas que amo; nichos coloridos e que também amparam objetos decorativos (pequenas esculturas e bibelôs) e alguns livros.

 

 

 

 

NOSSO ENCONTRO DE 16/10!

00:20 @ 16/10/2009

O nosso encontro será as 14 hs,  em frente a banca de jornal na saída das barcas, na praça XV....

 
 
abraço,
Armando

As pinturas de minha casa

Kelem Zapparoli

 

            Durante minha infância, tive muito contato com as artes, pois minha mãe fazia artesanato para vender e a casa vivia cheia de enfeites. Cada dia era uma novidade diferente: quadros, vasos, sabonetes decorados, caixas de todos os tamanhos, bonecas, luminárias.

Os quadros eram das mais variadas técnicas e eu sempre estava por perto para ver a produção do início ao fim. Lembro-me de um, que ficou na copa por muito tempo. Era feito com folha de zinco – marcava-se a folha com uma caneta e ao virar, estava lá o desenho, todo em alto relevo. Depois era só pintar com uma resina colorida. Talvez seja uma boa técnica para ser utilizada com cegos !!!

No meu quarto tive dois quadros de vidro que gostava muito: eram duas meninas (destas de papel de carta decorado - quem é da década de 80 vai se lembrar). Na sala tivemos vários, mas os que ficaram em minha memória foram: um do Charlie Chaplin pintado no espelho, um de uma moça ruiva de vestido verde, também no espelho e um outro maravilhoso que era oval e de madeira. Em um canto havia espaço para colocar um motor de relógio e no outro havia um arranjo de rosas feitas com durepox e depois pintado em tons de verde, marron, vermelho e amarelo. Estes dois últimos eram minha paixão e dizia para minha mãe que quando me casasse levaria para colocar em minha sala. Isto não aconteceu, pois quando cresci, também comecei a pintar os meus. Não eram tão bonitos e cheios de técnica, mas me dava muito prazer olhá-los e saber que eu também podia pintar.

No quarto de meus pais teve um crucifixo, mas depois minha mãe pintou o rosto de cristo, no espelho. Era uma técnica diferente que aparecia apenas uma sombra do rosto, não sei explicar, mas fazia sucesso. Tanto que muita gente ganhou de presente de casamento.

Este ambiente no qual vivi minha infância, fez com que eu valorizasse muito o trabalho com artes na sala de aula. Em todas as minhas turmas, sempre tinha um projeto envolvendo as artes: teatro, pintura em camisetas, dança, estudo de pintores famosos e suas obras de arte.

O retorno é maravilhoso, pois na educação especial  (onde o convívio com o fracasso é constante), as artes são um poderoso meio de elevação da auto-estima, além de ser um excelente mediador da aprendizagem.

 

DIÁRIO DE BORDO - 2ª AULA

14:51 @ 09/10/2009

Diário de Bordo (02/10/2009)

Por: Kelem Zapparoli 

 

Ribeirão Preto, 07 de outubro de 2009.

 

Oi Patrícia, como vai?

Estou te escrevendo para contar sobre a nossa segunda aula. Desculpe não escrever antes, mas como pôde observar no cabeçalho, estou em Ribeirão Preto. Vim passar meu aniversário com a família, afinal, desde que saí daqui, em 1998, é a primeira vez que passo este dia com eles. E como este ano meus horários estão flexíveis...

            Bem, voltando ao tema da carta, tenho sentido muitas saudades da sala de aula, pois são tantas as idéias e reflexões, que sinto necessidade de colocá-las em prática. Iniciamos com uma retomada da aula anterior e da avaliação de cada participante sobre a escrita do diário. A grande maioria disse ter dificuldades em escrever uma carta, pois somos exigidos o tempo todo a entregar relatórios e, por isso, já estamos condicionados a uma escrita mais formal.

            Começamos a falar sobre a importância de ouvir a fala do outro na sala de aula. O professor, muitas vezes comete o grande erro de “coibir” a polifonia e valorizar a monofonia. Estes termos são muito utilizados na teoria bakhtiniana e referem-se àquela fala que o aluno traz com ele e que na verdade, acompanha a todos nós por toda a vida. É uma voz que adquirimos em nossas relações com o outro (na alteridade, como diz Bakhtin) e que passam a fazer parte do nosso pensamento, moldando o nosso jeito de ser e pensar. Podemos observar esta fala, no cotidiano das pessoas, ou na sua livre expressão, como por exemplo, quando a nossa avó dizia: _ Que Jesus te acompanhe!!! Nesta fala, há um caráter religioso. É a voz de sua crença religiosa, que foi absorvida na sua alteridade com outras pessoas religiosas (padre, pastor, familiares). Cada relação social tem seu discurso próprio (sua fala) e quando o professor censura estas outras vozes ele na verdade impede o aluno de ser suas outras experiências para ser apenas aluno. Um exemplo de um professor que valoriza estas outras vozes, está no trabalho de Paulo Freire com a alfabetização de adultos, que valoriza a experiência de vida de cada aluno, para a partir daí inseri-los no mundo letrado.

            O interessante neste curso é que todos nós estamos passando pelas experiências que futuramente proporcionaremos aos alunos. Nesta última aula, levamos as fotos de nossos momentos na escola e fizemos muitas reflexões sobre cada situação: desfile da independência, fotos de formatura, fotos mais descontraídas com os colegas. Com isso, fizemos algumas reflexões sobre a mensagem que estas fotos passam. Muitas vezes reproduzimos situações idênticas, sem nos damos conta da ideologia que estamos transmitindo. E olha, que apesar de muita coisa ter mudado nas escolas, estas fotos sobrevivem!!! Foi engraçado, pois encontrei uma amiga, que tem um filho com Síndrome de Down e neste final de semana ela veio me dizer justamente sobre a foto da formatura de seu filho, da educação infantil para o ensino fundamental. Que ele demonstrava todo orgulhoso a “pose” que fez para a foto (segurando o capelo). É claro que eu nem me atreveria a fazer qualquer comentário sobre o caráter ideológico desta foto, pois acompanho a luta pela inserção de seu filho no mundo das letras e este rito de passagem representa uma vitória para ambos. Mas a coincidência foi muito interessante.

            Além das fotos, analisamos outras imagens e segundo o professor Armando, quando estudamos uma imagem, devemos estudar seu universo cultural. Esta prática da análise será fundamental na sala de aula, para que os alunos reflitam sobre as imagens oferecidas a ele. Disse também, que para uma criança entender uma pintura, deve conhecer as pinturas do seu ambiente familiar e para isto, pediu que anotássemos para o próximo encontro, as pinturas ou imagens que fizeram parte de nossa casa durante nossa infância. Este curso tem sido uma terapia, além de um excelente exercício de memória rsrsrsrs!!!

            Vou encerrando esta carta por aqui, em breve retorno com mais novidades.

 

Bjs,

Kelem

Por: Valéria Rosa Poubell


A bordo da sala de aula do curso sobre Fotografia na Escola

Valéria Rosa Poubell, setembro de 2009

 

Curiosidade.  Foi o sentimento despertado no momento que tomei ciência do Curso sobre Fotografias na escola.  Encontrava-me num dos Fóruns de Alfabetização, na Unirio, e fui correndo (literalmente) fazer a minha pré-inscrição.

Ansiedade, expectativa e um desejo muito grande permearam o meu ser enquanto aguardava o contato do coordenador, Prof. Armando M. Barros. Contato realizado. Tratei de negociar na escola as minhas ausências. O processo de negociação nunca é fácil, uma vez que as escolas públicas não contam com profissional de apoio, ou aquele educador que substitui o professor nos casos de necessidade.

Contando com aquilo que chamam de "boa reputação", e após explicitar a proposta do curso, consegui justificar minha saída da escola para frequentar as aulas. Mas sei que algumas vezes meus alunos, em fase de alfabetização, ficarão sem aula. Penso que eles devam ganhar lá na frente, qualitativamente, pois acredito no meu aproveitamento em relação aos temas e elementos discutidos durante todo o curso.

Considero-me em fase de alfabetização, e também de letramento, aqui entendido como aquilo que faço em relação àquilo que aprendo quando o assunto é alfabetização, principalmente quando tratamos de alunos oriundos de classes sócio-economicamente desfavorecidas. Isto se dá porque, enquanto educadora, percebo o meu “inacabamento”, pelas palavras de Freire (FREIRE, 1996).  Um pouco da minha trajetória profissional nos ajudará a compreender a relação Educação X Educador instituída ao longo da minha própria história de vida.

Quatro anos após o término do Curso Normal, escolhido aos oito anos de idade, quando me embrenhei, neste tempo, no “artífice real de faz-de-conta” (se considerada a fase da vida em que me encontrava) de alfabetizar pessoas idosas da minha comunidade, prestei concurso para o Governo do Estado do Rio de Janeiro, em 1993, iniciando então a minha carreira no magistério. Tive a oportunidade de trabalhar em comunidades bastante carentes, como a baixada fluminense, Rio das Pedras e Rocinha. O que me proporcionou um aprendizado substancial para o desenvolvimento da minha prática pedagógica ao longo dos anos. Estive “cara-a-cara” com o problema da exclusão social, tão evidenciado em nosso país, problema este que despertou em mim um descontentamento profundo e um desejo enorme de busca por alternativas capazes de solucionar o problema. Tornei-me o que Paulo Freire chamaria de “sonhadora”. Comecei a sonhar com uma educação transformadora. Revesti-me de esperança, de desejo ardente, de busca...

Fui então, em busca de subsídios capazes de amenizar as minhas aflições e de tornar a minha prática pedagógica mais eficiente. Comecei a sonhar com a Universidade Pública. Um sonho sim, pois sempre fui aluna de escola pública e para estes o ensino superior e gratuito era algo difícil de ser alcançado. Acreditei neste sonho e o tornei realidade. Em 1995, Matriculei-me no curso de Licenciatura Plena em Pedagogia, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, concluindo-o em 1998. No mesmo ano, participei do concurso de seleção de professores para o magistério das séries iniciais do Ensino Fundamental da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.

Hoje, atuando nas Secretarias Municipais de Educação do Rio de Janeiro e de Nova Iguaçu, ainda preside em mim forte desejo de transformação da realidade social a minha volta, mas agora este desejo se manifesta através de ações efetivas, num passo-a-passo. Muitas vezes, angustia-me saber que pouco ou quase nada tem colaborado de fato para mudança de comportamental de alguns dos meus alunos, mas ainda assim, tento “não abandonar o barco”. Percebo o quanto minha atuação faz diferença na vida das crianças que alfabetizo.

A importância de uma formação alfabetizadora competente, aquela que garantirá a inserção do indivíduo na sociedade letrada, é o que movimenta minhas buscas por alternativas mais eficazes em sala de aula. São muitas as inquietações, como exemplo: como transformar em efetivo conhecimento os diversos saberes que meus alunos e alunas trazem consigo?

Adoro tirar fotos! Não gosto de aparecer nelas, mas me fascino pela possibilidade de registro qualitativo e de memória que elas nos proporcionam. Sempre procurei utilizar imagens no trabalho com os meus alunos, mas confesso a pouca habilidade em fazê-lo. Quando lanço olhar sobre o que estou fazendo, prática constante que cultivo, percebo que as atividades se repetem. Já as tenho de cor, como receitas. Mas também não deixo de pensar que a orientação do “olhar” do alfabetizando é fundamental para o processo, assim como o “ouvir”. E falo sobre isso com os meus alunos.

Pensando na possibilidade de aprender novas formas de olhar as imagens, acredito que a proposta do Curso de Extensão “Pintura e Escrita: confluências da verbalidade e do olhar nas classes de alfabetização”, irá favorecer e fortalecer minha prática pedagógica.

A expectativa foi muito maior que a possibilidade de assistir a primeira aula. Cheguei ao final desta, muito triste e acanhada, por conta de um compromisso pessoal inadiável. Me apresentei, quase sem voz, tamanha vergonha. Era a minha imagem que estava ali exposta a olhares indagadores: “agora?” Ou será a imagem que fiz de mim mesma? Sentimentos se fundiam...

Fui então acolhida e percebi um clima de afetividade e compartilhamento. Mas fiquei muito bem ao final. Tomei ciência do que fora tratado e discutido ali entre aqueles sujeitos ávidos pelo conhecimento. E até me ofereci para criar um espaço de discussão através da internet, entre os integrantes do grupo de participantes do curso o que, aliás, estou adorando.

Até mais.


DIÁRIO DE BORDO: PRIMEIRO ENCONTRO (18/SET/2009)

.Apresentação do professor;
.Esclarecimentos sobre o curso ( apresentação, dinâmica, objetivo...);
.Auto apresentação dos alunos;
.Dinâmicas com os alunos: 1- Fotos na carteira - Apresentamos as fotos que trazemos (nossas e de outras pessoas) falando sobre elas ( de quando é, se gostamos, motivo pelo qual a levamos conosco,etc), refletindo sobre nossos relatos e sobre a própria  dinâmica;
                                            2- Desenho Cego - Experimentamos, de olhos fechados, tocar o rosto da colega e depois desenhamos o seu retrato, também discutindo e refletindo sobre todo o  processo dessa dinâmica.
 NOTA: Vale registrar que o encontro, além de agradável e dinâmico, foi um excelente instigador  para reflexão sobre nossas práticas e   propulsor de criatividade para novas atividades. Levou-nos, também a observar e/ou reafirmar que quando a afetividade permeia a atividade, o aprendizado é facilitado,  valorizado, estimulado, instigado, realmente apreendido;  ao contrário da forma meramente mecânica de aprender. Outra constatação, é que  vivenciar,experênciar e perceber significado na atividade é fator facilitador do processo de aprendizagem, agregando-se ainda  a novidade  da atividade para completar o sucesso . RESUMO? Aprendizado e prazer
 Ass.:Dinair

 

("Colonos", Di Cavalcanti - 1940).


Parte I – Cap.5 Fotografias

 

NOTAS SOBRE OS ÁLBUNS DE FAMÍLIA E SUAS FOTOS

COM MOTIVOS ESCOLARES

 

Armando M.Barros

"[...]

O retrato não me responde.

Ele me fita e se contempla

nos meus olhos empoeirados.

e no cristal se multiplicam

os parentes mortos e vivos.

Já não distingüo os que se foram

dos que restaram.

Percebo apenas a estranha idéia de família

viajando através da carne."

 

Na última estrofe de seu poema "Retrato de Família", Carlos Drummond de Andrade expõe sua sensibilidade e seu êxtase pela fotografia de seus familiares. A imagem teria essa capacidade de construir, no "lusco fusco da memória", uma estranha composição sugerindo mais do que informando. O poeta confessa-se fascinado pela fotografia, a um só tempo concreta e abstrata, pois um olhar do presente que "visita" o passado e uma imagem do passado que é "clandestina" no presente. A magia de suas palavras remete-nos à generosidade de outras, vindas do mundo da ciência, ligando o poeta à reflexão de André Bazin, esta dirigida à ontologia da fotografia e aos mistérios dos álbuns de família:

Essas sombras, cinza ou sépia, fantasmáticas, quase ilegíveis, não são mais os retratos tradicionais de família. São a presença pertubadora de vidas detidas em sua duração, libertadas de seu destino, não pelos prestígios da arte, mas pela virtude de uma mecânica impassível.

Como quase todas as famílias, também a minha transformou momentos de sua vivência em retratos. Somos de um tempo no qual, além do cafezinho generoso para o olfato e o paladar das "visitas", aos seus olhos eram também "servidas" as memórias fotográficas presentes no álbum de família... À cada página folheada pelo visitante nós, crianças, olhávamos seu olhar tentando descobrir sua curiosidade ou enfado por cumprir aquele ritual cerimonioso. A mim, moleque ainda em alfabetização, as imagens ao mesmo tempo eram silenciosas e falantes. Olhava orgulhoso as páginas do álbums pois nele encontrava minha condição de ator figurante e de escritor, narrando às visitas histórias onde era sempre o herói imaginado. Para meu deleite de guri, inexistiam nos retratos silêncios enigmáticos, nenhuma imagem  necessitava decifrar: bastava usufruir o jogo de espelhos que com meus olhos as fotografias cumpliciavam remetendo, cada uma, a um sem número de outras, em um estranho dialeto que minha memória fabulava.

Os anos passaram e, como docente, minha geração incorporou em seu fazer o uso da fotografia como estratégia didática no ensino fundamental. Então, recuperávamos as fotografias escolares produzidas na esfera do privado e as analisávamos com os alunos sob as "lentes" de uma "sociologia do fotográfico", considerando-as "objetos de veneração" cujo altar encontra-se nos álbuns de família...

"[...] Cuidado, cultivado, conservado (como uma múmia, guardado numa caixinha(como os primeiros dentes de bebê ou com a mecha de cabelos da vovó). Só se abre com emoção, numa espécie de cerimonial vagamente religioso, como se tratasse de convocar os espíritos. Com toda certeza, o que se confere tamanho valor a esses álbuns [...] é sua dimensão pragmática, seu estatuto de índice, seu peso irredutível de referência, o fato de se tratar de verdadeiros traços físicos de pessoas singulares que estiveram ali e que tem relações particulares com aqueles que olham as fotos".


1. Álbuns com fotos de escola...    

O mundo escolar produz imagens? A resposta não é difícil: existem as fotografias, os desenhos, os cartazes.... Mais do que imagens, as fotos detém um estatuto epistemológico: elas detém um saber singular. As fotos expressam também um sentido de passado e, de como esse passado, é também sociabilidade. Sim, como podemos perceber isso?



(Texto sobre Fotografia na escola - Parte II - Continuação)

Armando Martins Barros


“Em suas cerimônias, as pessoas fazem fotografar porque a fotografia atualiza a imagem que o grupo faz de si mesmo. O que elas registram em seu suporte foto sensível não são propriamente os indivíduos enquanto tais, mas os papéis sociais que cada um desempenha: pai, mãe, avó, marido, debutante, militar, turista” (Bourdie, apub Machado, Arlindo. A Ilusão Especular. São Paulo, Brasiliense, 1983. p.55).

Em nossos álbuns de família encontraremos os retratos que testemunham nossa participação na escola. Ao vê-los, torna-se mais fácil entender porque a escola é produzida socialmente: as fotos não apenas detém signos (que significam...) os valores que a instituição valoriza  como apresenta os afetos que nos envolvem e envolvem a própria escola - fotos com as “tias”, com colegas, com serventes, inspetores, cozinheiras, porteiros...Todavia, existem sentidos, discursos, significados diferentes para cada sujeito que produz a foto. Em outras palavras, as fotos produzidas pela Escola tem um sentido, um discurso, uma estética, uma composição diferente daquela registrada pela aluna com seu grupo de amigos e, esta, difere daquela que a família tende a valorizar. Vejamos então essa diversidade.

 

2. As fotos produzidas pela instituição escola

As fotos encomendadas pela direção das escolas remetem tradicionalmente (e infelizmente) a eventos solenes - desfiles, homenagens, formaturas, visitas de personalidades, datas cívicas. É difícil encontrarmos fotografias oficiais, dentro da sala de aula.

Eventos? Encontramos as fotos de Festas Juninas, as festas do “Índio”, da “Arvore”, do “Soldado”, da “Bandeira”, de “Fim de Ano”. A cada uma delas, na origem desse cotidiano “festivo”, o fio ordenador de uma concepção pedagógica, preocupada em provocar a socialização da criança pela ludicidade de atividades festivas, congregadoras do educando junto aos demais e aos temas sociais, a partir de um envolvimento lúdico, festivo, socializando-a para sentidos diferentes de ecologia, de cultura, de nacionalidade.

Desfiles? Deles não escapam as crianças do CA - para ‘delírio’ das mães e desespero das professoras - fotografadas intensamente, presença garantida nos álbuns familiares. Nessas fotos, algo solene, a escola como que adquire “símbolos de uma nobreza”: as luvas brancas, o uniforme engomado, de “gala” muitas vezes - ainda que se mantenha o sapato desconfortável e pouco elegante, no entendimento das adolescentes... Embora de curta duração e representando um tempo ínfimo daquele que vivemos na escola, dispõem de um número desproporcional de fotos ao longo de nossa vida escolar.  Para quê serviam e servem esses desfiles? Para os diretores das escolas apresentarem, simbolicamente, pela marcha, pelo bumbo de suas bandas, a interiorização da ordem e da disciplina que deve reger a sociedade? Por que as escolas não desfilam "sambando"?

Formaturas? Nelas, a instituição escolar, através de seus agentes, reafirma os rituais, renovando sua autoridade e pretendendo impregnar em nosso olhar o reconhecimento da capacidade de seus alunos na apropriação dos saberes. Nas imagens das formaturas, encontramos o momento em que a comunidade “se curva” e ritualisticamente aceita o poder social da escola. A reiteração desses valores inicia-se muito cedo, em formaturas de “pré-escolar” para o CA, da 4a.série para a 5a, ao fim do primeiro segmento, na passagem do antigo Primeiro Grau para o também antigo Segundo e ao fim deste para a Universidade.

Em nenhuma dessas imagens “oficiais” é tão forte ao cruzamento com a intimidade de nossas lembranças pessoais do que a fotografia que denominamos como “postal escolar: realizadas sob encomenda da direção do estabelecimento, através de um fotógrafo profissional, nela sempre estamos sozinhos, sentados em carteiras, tendo à frente o nome do estabelecimento de ensino e cercados por sígnos-símbolos da educação formal: de um lado, o globo terrestre, significando a universalidade do saber; as canetas, depositadas sobre a mesa, simbolizando a afirmação da escrita e, por ela, da literatura e da oratória; no outro extremo da mesa, tendem a aparecer um livro ou caderno significando o saber acumulado sob a forma de livro. A partir dos anos sessenta, essas fotos tenderam a constar a presença de um telefone ou computador (a modernidade), complementada esteticamente, no máximo, por um pequeno arranjo de flores plásticas; ao fundo, signos que comprometem o aluno a um civismo, expressos pela bandeira ou mapa do Brasil e, no caso de escola religiosa, inevitavelmente um crucifixo ou pequena escultura de um Santo (a).

  Exposições? Nada mais aproxima e entusiasma os alunos do que suas fotos participando de feiras de ciências, de visitas, de viagens, onde a ordem disciplinada dos colégios e dos espaços internos é superada e rearranjada. No caso das escolas privadas, embora de modo geral o tema das fotos enfatize as formaturas, as festas pedagógicas, os recursos pedagógicos existentes nos laboratórios, os desfiles, as evoluções das aulas de ginástica ou da banda escolar, observamos algumas nuances, em razão da origem confessional ou laica ou, em razão do grupo social, etário ou de gênero que as frequenta.

Diferente das escolas públicas, especialmente dirigidas para crianças originadas das classes populares, as escolas particulares primárias praticamente silenciam sobre a existência de um ensino profissional, inexistindo fotografias de atividades pedagógicas, curriculares ou complementares, preparatórias para uma terminalidade que implique em uma habilitação profissional.

 

3. As fotos produzidas pelas famílias: o álbum como biografia

Ao nos determos nessas fotografias, não encontraríamos oculto nos rostos dos figurantes de diferentes idades a passagem ritual de um “bastão”? Como um “revezamento” ritualístico de experiências - dos filhos crescendo, em direção à realização dos sonhos dos pais, ao mesmo tempo em que seus pais, envelhecendo, cumprem um percurso, ocupando o lugar que seus próprios pais um dia ocuparam?

Como observa Bourdie, as fotografias familiares estariam envoltas em uma espécie de ‘culto doméstico’, “reunindo cerimônias institucionais como os casamentos, os aniversários, as bodas, o batismo, a comunhão cristã, a viagem de férias ou de núpcias”, inscrevendo-as na instância do ritual, com a função de “sancionar” e “consagrar a união familiar” (BOURDIE, apud MACHADO, 1983, p.55).

As fotografias da escola falam de uma história da própria família, sendo as imagens envolvidas por motivações que não remetem a relações externas aos seus próprios membros. Em outras palavras, os registros fotográficos produzidos são realizados sem as preocupações sociais que mobilizam a Escola oficial, os governos, a direção das escolas. O foco da foto se volta para um membro da família e retorna a uma cultura da família que consagra aquele momento e aquele figurante como significante à história daquele grupo.

As Festas de Dia (da árvore, do índio, de Natal, junina, de Páscoa...) nos apresentam uma intensa socialização - nas imagens estamos sempre cercados de amigos, de colegas, de professoras, numa palavra, de afetos - e da apropriação de uma temporalidade - as fotos sempre remetem às festas recorrentes - envolvendo o trânsito escolar do aluno e associando sua figura a novos colegas e professores. Essas festas marcam também na criança a medida do Tempo Escolar e do Tempo do Ano, especialmente quando estão ingressando numa fase de maior abstração (6/7 anos).

 Formatura? Nas fotos desses eventos encontram-se também sígnos da escola, enquanto projetando a simbólica ascensão social, motivada pela apreensão de patrimônios culturais. Nas imagens, detectamos a escola como socialização, exercício de afetos e introjeção de valores: a “tia” abraçada com as crianças, a presença do livro, do “canudo”, a beca, o capelo, o anel de formatura, solenizando esses momentos de passagem, o palco - símbolo de uma exposição social favorável -, além da presença, como testemunhas, de figurantes familiares. Não é significativo que, nas imagens da entrega do diploma, esteja presente o pai e o diretor da escola, como que reunindo-se as duas instituições que seriam responsáveis pela formação dos jovens?

Se observarmos as fotografias feitas pelo fotógrafo de família, as imagens transpiram o orgulho pelo acesso dos descendentes à escola. Pais, tios, irmãs, avós, registram a imagem do parente-aluno, intuitivamente incluindo no espaço central da imagem, signos que o articulem ao universo escolar: a porta do colégio, a sala de aula, a formatura, a professora.  Em muitas ocasiões, quando entrevistados sobre suas fotografias, o depoente ao olhá-las emociona-se e fala com orgulho, com nostalgia, enfim, com sentimento vivo sobre um tempo passado - “seu” passado - passado nele ainda presente e compondo vivamente sua identidade - detonando as imagens uma rede de lembranças.

  Podemos afirmar que as fotos privadas quando são realizadas pelo “adulto” (pais, tios, avós), são de natureza mais formal, focalizando as crianças enquanto seus objetos e “confluindo” a composição das fotos para uma estética semelhante a das instituições. Em outras palavras, os signos privilegiados pelo adulto, mesmo quando em fotos privadas, teriam impregnadas representações  permanentemente valorizado pelas instituições sociais:

“A maior parte das vezes, a fotografia só existe e subsiste por sua função familiar, ou melhor, para a função que lhe confere o grupo familiar, que é a de solenizar e eternizar os grandes momentos da vida familiar e de reforçar a integração do grupo, reafirmando o sentimento que ele tem de si mesmo e de sua unidade”. (Bourdie, apud Machado, Arlindo. A Imagem Especular. São Paulo, Ed. Brasiliense, 1983,p.55)

(Texto sobre Fotografia na escola - Parte III - Continuação)


4. As Fotos do mundo escolar feitas pelas crianças e adolescentes: outro saber

É possível afirmarmos que o olhar do adolescente sobre o que é significativo na escola tende a diferir do olhar dos adultos, sejam pais, diretores, professores. São fotos privadas, é quando de seu registro pelos próprios adolescentes, entre o fim do Primeiro Grau e todo o segundo Grau. Somente nessa faixa etária, o aluno tende a já dispor da câmera ou da possibilidade de portá-la e, com isso, produzir o seu próprio olhar fotográfico.

As fotografias produzidas pelos próprios alunos tendem a se liberar de signos-símbolos hegemônicos - liberando-se, por exemplo, dos uniformes, retirando blusas e camisas das saias e calças, arriando as meias, descalçando os torturantes vulcabrás.  Essas fotos, de extrema riqueza, porque menos “policiadas” pelos valores institucionais, falam de uma outra escola e, nelas, de uma outra memória, também cotidiana apenas mais informal, vivida pelos alunos entre si e que convive “não oficialmente” com os horários, as aulas, as provas, as disciplinas, que caracterizam o tempo escolar oficial.

Por quê afirmamos serem essas imagens fotográficas ricas de significação? Normalmente, a escola somente permite o acesso de um olhar “externo” em momentos solenes, nos quais a escola encontra-se em “pose” - nas festas, eventos, solenidades. Nas fotos realizadas pelas próprias alunas, em momentos não solenes, em espaços não preparados, é possível distinguirem-se representações originadas do próprio mundo dos adolescentes e presentes em seu cotidiano. A escola, como de resto, as famílias, tendem a não incorporar essa rica produção.

São raras as escolas que convidam os alunos a exporem suas fotos sobre o mundo escolar em exposições públicas ou, mesmo, fazem exposições permanentes com as imagens fotográficas produzidas a partir do ponto de vista dos alunos. Nas famílias, para aonde vão as fotos dos alunos? Normalmente, para albuns pessoais, ou envelopes, quardadas em caixas, dentro de gavetas ou armários, silenciadas porque, as imagens que são acatadas nos álbuns familiares são, normalmente, aquelas construídas pela estética das escolas, com composições formais onde os signos e as poses fazem par com os sentidos do mundo adulto...

 

5. Caminhos para o uso da fotografia como recurso didático


 Quando focalizando o percurso da criança pelo mundo escolar, são as fotografias familiares, produzidas tanto pelos pais, quanto pelas próprias crianças, fontes riquíssimas para a História da Educação. Mediante essa documentação imagética é possível recuperarmos o olhar do “privado”, ou seja, de um restrito grupo familiar sobre sua travessia na instituição educação, decidindo sobre a memória  que irá preservar e a outra que refugará, expurgada para o limbo do esquecimento.

As fotografias podem servir à uma melhor compreensão do universo da escola? Responderíamos afirmativamente. As fotografias podem servir-nos como fontes históricas iconográficas, possibilitando a pesquisa sobre o mundo escolar em determinada época e espaço, remetendo ao vestuário, aos tipos étnicos, à composição sexual, à arquitetura escolar, aos materiais e recursos pedagógicos, que podem ser melhor compreendidos quando correlacionados a fontes escritas ou depoimentos orais.

         As imagens fotográficas podem servir como recursos didáticos ao tratamento de conteúdos curriculares? Responderíamos também afirmativamente, pois é possível utilizá-las  como “motivadores”, como “estratégia”, permitindo a discussão de assuntos nas mais variadas disciplinas, possibilitando a abordagem de questões sociais amplas, a partir, inclusive, da comparação entre a produção fotográfica privada, familiar e aquela produzida pelo Estado ou outras instituições.

         Quando de sua utilização em sala de aula é comum uma maior mobilização do aluno, principalmente quando optamos em utilizarmo-nos das fotografias familiares, permitindo a emergência da experiência pessoal, familiar. Quando utilizada, a fotografia com a história familiar melhor viabiliza a compreensão da escola como “produção social”, de conhecimentos, de hábitos, de ideologias, de práticas.

          As imagens fotográficas podem servir a uma “educação do olhar”? A medida que a sociedade é saturada por imagens na mídia e não dispõe de espaços que permitam a apreensão dos códigos que as constróem, a escola, entre outras atribuições, deve sistematizar conhecimentos voltados à historicização desses recursos, à sua discussão na mídia (tvs, cinema, vídeo, imprensa, HQ) e em seus códigos específicos (linguagem fotográfica, cinematográfica, videográfica etc). Além disso, introduzir a história dos diferentes suportes da imagem, contextualizando a forma como tornaram-se necessidades, pode auxiliar o aluno a melhor compreender e criticar as mensagens de diferentes origens e intenções, sejam políticas, ideológicas, artísticas.

*

 

Bibliografia

AUMONT, Jacques. A Imagem. São Paulo, Campinas, Editora da Universidade de Campinas, 1993.

BARROS, Armando Martins de. Da Pedagogia da Imagem às Práticas do Olhar: uma busca de caminhos analíticos. Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Pós Graduação em Educação. Tese de Doutoramento, 1997.

__________________________ Práticas discursivas ao olhar. Da vidência e da cegueira na formação do pedagogo. Rio de Janeiro, Ed.E-Papers, 2003.

CHARTIER, Roger. A História Cultural entre Práticas e Representações. Lisboa, Ed. Difel, 1990.

DEBRAY, Regis. Vida e Morte da Imagem. Rio de Janeiro, Petrópolis, Ed. Vozes, 1994.

DUBOIS, Philippe. O Ato Fotográfico e Outros Ensaios. Campinas, São Paulo, Ed. Papirus, 1994.

MACHADO, Arlindo. A Ilusão Especular. São Paulo, Ed. Brasiliense, 1983.

NUNES, Clarice. História da Educação Brasileira: novas abordagens de velhos objetos. In: Revista Teoria e Educação. Porto Alegre. Ed. Pannomica, n. 6, 1992.

SAMAIN, Etienne. Revista Imagens. São Paulo, Campinas, Universidade de Campinas, n. 3, 1995.

SILVA, Carlos Eduardo L. Blade Runner – O caçador de andróides. In: LABAKI, Amir (org.). O cinema dos anos 80. São Paulo, Editora Brasiliense, 1991.

VOUVELLE, Michael. Ideologias e Mentalidades. São Paulo, Ed. Brasiliense, 1991.



(TEXTO SOBRE FOTOGRAFIA NA ESCOLA - PARTE IV – CONTINUAÇÃO)

Leitura Complementar:

A Guisa de Iniciação a uma Magia: 

Memórias das Práticas Fotográficas Familiares

Armando M. Barros

“Esse retrato de família está um tanto empoeirado...”. Assim Carlos Drummond de Andrade inicia sua poesia Retrato de Família onde, de forma sensível, “limpa o pó” depositado sobre a memória que  brotam das fotografias. Minha família também se retrata. Muito, até, mas sem excesso. Buscamos o instante -- eterno?-- daquele sorriso gostoso, a agradável reunião familiar, o reencontro de parentes e amigos, tão distantes e, por vezes, tão perto. Assim nos fizemos, retratados-viajantes: em campos, em praias, em montanhas. E simultaneamente, acomodados em espaços opostos: em molduras sobre cômodas, entre estantes: quietos, porém voando....

Mas a tradição familiar no uso da fotografia ainda é jovem, nem de diamante fez as bodas. São parte de usos e costumes de uma geração dos Martins de Barros recente, introna nos quarenta. Antes dela, eram as fotos raros “eventos”, associados às “efemérides” dos Barros em Poços de Calda ou a casamentos e batizados dos Martins, em Santana de Japuíba.

Talvez a próxima geração da família -- a dos Martins “Gordotex” ou dos Martins Gioia -- veja suas imagens de forma muita diversa: em cassetes, vídeo-laser, disquetes. Sim, tudo é possível. Mas, não importa -- azar o deles --  pois, nossa geração cresceu e se fez balsaquiana sob a fascinação dos álbuns de retratos. Neles, porta-retratos serviram como porta-memórias coloridas, às vezes reduzidas a 3 x 4, às vezes ampliadas. Em todas, porém, lá estamos – preto-no-branco ! Importa pois é a magia que entre a névoa do tempo chama à memória o outrora.

Na figura das imagens de minha mãe homenageio minha casa familiar, minha tribo ou clã. Ormezita Martins de Barros. Filha de Alencar Ferreira e Izabel Martins. Viúva de Ivo Carreira de Barros, mãe de Toni, Beth, Bel, Helô, Mando, Duda. Avó de Paula, Pedro, João, Laura, Beatriz.  Zita é transição de tempos imagéticos. Quando jovem, as fotos eram bissestas, com poses medidas e olhares para o eterno... 

Eram as fotos nos anos trinta cobertos por domingueiras vestes, em sorrisos respeitosos e atmosfera prá lá de decente, sempre à espera de um “click” formal. Mas, depois de prontas, maturadas pelo passar da vida.... ah! quantas disputas acaloradas pelo prazer de sua posse. Muitas fotos foram escondidas ou roubadas pelo desejo espontâneo e sincero daquela fatia do antigo ser comida por muitos olhos... Os retratos muitas vezes vergavam em estranhas viagens, reunindo um sem número de dedicatórias, como que transformadas em estranhos transatlânticos, partindo para um tempo longínquo e desconhecido, apinhadas em seus versos por afetos passageiros e de clandestinos amores...

Folheando os álbuns de família sempre encontro imagens representativas das muitas trajetórias dessa mulher que foi e é ora companheira, ora mãe, ora avó. Distingüo as várias trajetórias por que todas as fotografias calam quando uma outra misteriosamente fala. O olhar é um aprendiz de feiticeiro: há magia nas imagens que como a Lua, oculta fases e poses...

A cada uma das imagens que sempre revisito nos álbuns, que profusão de sentimentos! Quantas esperanças e expectativas suspensas por um flash eterno... O futuro inteiro  brilha em sorrisos que como olho d’águas não  minguam... Para comentar essas fotos, explicando o incognicível, somente com outra magia, bem-vinda de um feiticeiro. Quem fala é a poesia, que ora tem nome de Drummond:

A moldura desse retrato

em vão prende personagens,...

Os parentes mortos e vivos,

já não distingo os que se foram...

Os meninos como estão mudados...

No semi-circulo das cadeiras,

nota-se certo movimento

As crianças trocam de lugar

Mas sem barulho; é um retrato.

 

Leitura Complementar:

 

RETRATO DE FAMÍLIA

Carlos Drummond de Andrade

 

Este retrato de família

está um tanto empoeirado.

Já não se vê no rosto do pai

quanto dinheiro ele ganhou.

 

Nas mãos dos tios não se percebem

as viagens que ambos fizeram.

A avó ficou lisa, amarela,

sem saudades da monarquia.

 

Os meninos, como estão mudados.

O rosto de Pedro é tranquilo,

usou os melhores sonhos.

E João não é mais mentiroso.

 

O jardim tornou-se fantástico.

As flores são placas cinzentas.

E a areia, sob pés extintos,

é um oceano de névoa.

 

No semicírculo das cadeiras

nota-se certo movimento.

As crianças trocam de lugar,

mas sem barulho: é um retrato

 

Vinte anos é um grande tempo.

Modela qualquer imagem.

Se uma figura vai murchando,

outra, sorrindo, se propõe.

 

Esses estranhos assentados,

meus parentes? Não acredito.

São visitas se divertindo

numa sala que se abre pouco.

 

Ficaram traços da família

perdidos no jeito dos corpos.

Bastante para sugerir

que um corpo é cheio de supresas.

 

A moldura deste retrato

em vão prende suas personagens.

Estão ali voluntariamente,

saberiam - se preciso - voar.

 

Poderiam sutilizar-se

no claro-escuro do salão,

ir morar no fundo dos móveis

ou no bolso de velhos coletes.

 

A casa tem muitas gavetas

e papéis, escadas compridas.

Quem sabe a malícia das coisas,

quando a matéria se aborrece?

 

O retrato não me responde,

ele me fita e se contempla

nos meus olhos empoeirados

E no cristal se multiplicam

 

os parentes mortos e vivos.

Já não distingo os que se foram

dos que restaram. Percebo apenas

a estranha idéia de família

 

viajando através da carne.

Leitura Complementar:                                                                                      

"RETRATOS"

Cecília Meirelles


Não há quem não se espante,
quando mostro o retrato desta sala,
que o dia inteiro está mirando,
e à meia-noite em ponto fala.

Na outra noite me disse:
"A morte leva a gente.
Mas os retratos são de natureza
mais forte,
além de serem mais exatos".

Quem tiver tentado destrí-los,
por mais que os reduza a pedaços,
encontra os seus olhos tranquilos
mesmo rotos, sobre os seus passos.

Minha família anda longe,
Com trajos de circunstância;
Minha família anda longe,
- na Terra, na Lua, em Marte -
Uns dançando pelos ares.

Tão longe, a miha família!
Tão dividida em pedaços!
Um pedaço em cada parte...
Pelas esquinas do tempo.

Pelas esquinas do tempo,
Brincam meus irmãos antigos:
Seus vultos de labareda
Rompem-se como retratos
Feitos de papel de seda".

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

  (Cecíia Meireles)


Encomenda

Desejo uma fotografia
como esta – o senhor vê? – como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia…
Não… Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.

(Cecília Meireles)



(TEXTO SOBRE FOTOGRAFIA NA ESCOLA - PARTE VI - CONTINUAÇÃO)


Leitura Complementar

Proposta de Plano de Aula

Patrícia Bastos

 

Objetivos:

- Introduzir as imagens pictóricas e técnicas como documentos, fontes documentais;

- Discutir a natureza das imagens como "produções sociais";

- Apresentar as imagens como signos icônicos, indiciários e simbólicos;

- Reconhecer a importância dos documentos imagéticos na pesquisa da história oral;

- Identificar as possibilidades de tratametno analítico das imagens familiares, projetando-as sobre as representações sociais mais amplas, a partir de séries temáticas, com fotos de agências privadas (famílias, escolas particualres, fotógrafos profissionais etc);

- sensibilizar os alunos para o espaço de sociabilidade que se constitui entre as pessoas que apresentam suas fotos e reconhecem semelhanças e diferenças entre suas lembranças e histórias.

Estratégias:

- Solicitação, na aula anterior, aos alunos para levarem fotografias de família, nos temas "formaturas", "desfiles", "festas temáticas", "com alunos amigos", "com a turma e professora";

- Distribuição das fotos de toda a turma em torno dos temas sugeridos e, dentro de cada tema, agrupar as fotos por semelhanças figurativas (de composição, de sujeitos, de signos)

- Análise das imagens por grupos de alunos e exposição de cada grupo para o conjunto da turma;

- Exposição complementar do professor.

Observações:

Levando a teoria para a prática, realizei com meus alunos de 1ª série um trabalho de fotos bem parecido com esse. Se o aluno é sujeito da história, deve-se levar em conta a sua memória... Como estamos desenvolvendo um projeto sobre a Copa do Mundo, um dos objetivos na área de História e Geografia é o estudo do espaço. Pedi que cada um trouxesse para a escola uma foto de uma viagem inesquecível. Foi bom demais!

 

 

 

[1] Bourdie, apub Machado, Arlindo. A Ilusão Especular. São Paulo, Brasiliense, 1983. p.55

[2] BOURDIE, apud MACHADO, 1983, p.55.

[3] Bourdie, apud Machado,Arlindo. A Imagem Especular. São Paulo, Ed. Brasiliense, 1983,p.55