
ARTE & EDUCAÇÃO
Entrevista – Ana Mae Barbosa
Ana
Mae Barbosa é a principal referência no Brasil para o ensino da arte
nas escolas. Professora aposentada da USP, acredita que a arte estimula
a construção e a cognição das crianças e adolescentes, ajudando a
desenvolver outras áreas de conhecimento. Em entrevista exclusiva à
Carta Maior, Ana Mae Barbosa falou sobre a importância do ensino da
arte nas escolas e sobre as dificuldades de implantar essas idéias.
Carlos Gustavo Yoda e Eduardo Carvalho – Carta Maior
“Estou cansada dessa conversa de que Arte na escola custa caro”.
Ana
Mae Barbosa é a principal referência no Brasil para o ensino da arte
nas escolas. Professora aposentada da Universidade de São Paulo,
acredita que a arte estimula a construção e a cognição das crianças e
adolescentes, ajudando a desenvolver outras áreas de conhecimento.
Filha
de uma família tradicional, Ana nasceu no Rio de Janeiro, mas foi
criada com os avós em Pernambuco. Sonhava em estudar Medicina, mas isso
era um absurdo para toda a família. “Como uma mocinha vai ficar com um
monte de homens vendo corpos nus?”, questionava a avó.
Acabou
caindo na “vala comum” da época e foi estudar Direito. Para pagar os
estudos, teve que partir para o ensino. “As únicas profissões
aceitáveis eram ser professora ou casar”, disse. Odiava aquilo. Odiava
o ambiente repressor das salas de aula. Por ironia, foi em um cursinho
para concurso de professora primária que conheceu Paulo Freire. Na
primeira aula, o tema da redação era “por que eu quero ser
professora?”. Ana Mae escreveu o que sentia, que odiava educação. No
entanto, apenas quatro horas de conversa com o mestre foram suficientes
para destruir todos os seus preconceitos. “Só então compreendi que
educação não era aquilo que eu tive. Eu passei por um processo de
abafamento e moldagem. Mas ele me ensinou que a Educação poderia ser
libertadora”.
E Ana Mae transferiu aquele sentimento o para a
arte-educação, na Escolinha de Artes de Recife. Mudou-se para São Paulo
para fugir da ditadura militar. Foi para os Estados Unidos, fazer
mestrado e voltou como a primeira doutora brasileira em arte-educação e
comandou as pesquisas sobre o tema na Escola de Comunicações e Artes da
USP.
Criadora da teoria da “abordagem triangular”, a
arte-educadora entende a necessidade da existência de educadores
atualizados, artistas e acesso aos trabalhos contemporâneos para que os
estudantes consigam atingir o máximo do desenvolvimento do
conhecimento. Em entrevista exclusiva à Carta Maior, Ana Mae Barbosa
falou sobre a importância do ensino da arte nas escolas e sobre as
dificuldades de implantar essas idéias.
CARTA MAIOR –
Existe um debate hoje sobre a obrigatoriedade da existência de artistas
práticos especialistas nas escolas. Esse seria um grande passo para a
Arte-Educação?
ANA MAE BARBOSA- O artista não necessariamente
é um bom professor. Existe um estudo que defende ter ao lado de um
artista um arte-educador trabalhando junto. Um profissional que conheça
as fases de desenvolvimento da criança. Um arte-educador tem o preparo,
conhece as fases de desenvolvimento e construção plástica da criança. É
necessário que entenda as fases de recepção da obra de arte; entenda
como articula o desenvolvimento social e cognitivo da criança. Por
isso, eu defendo a presença dos dois profissionais ao lado das
crianças. Os melhores projetos de arte-educação do mundo atuam dessa
forma. Teve um projeto fantástico na Bahia, chamado Quietude da Terra.
Uma curadora canadense veio ao Brasil e convidou vários artistas
internacionais importantes. Eles trabalharam juntos com arte-educadores
juntamente com crianças de rua de Salvador e atingiram um resultado
excelente.
CM - Mas isso é factível para a realidade estrutural da educação?
AMB -
Eu estou cansada dessa conversa de que custa caro. Custa caro colocar
os menores na Febem. Um país que gasta mais dinheiro com prisão do que
com educação tem que mudar. É factível. Acontece que, em países como a
Inglaterra, Portugal e Canadá eles estão atentos a isso e defendem a
Arte na Educação. Eles fazem o trabalho em conjunto do professor com o
artista. É preciso aliar esse trabalho. O contato do artista é
importante para provocar e trazer os debates contemporâneos para as
salas de aula, abrindo os olhos para diferentes codificações.
Eu
organizei recentemente um livro (“Arte-Educação Contemporânea” –
Editora Cortês) que tem um artigo que trata de um colégio no Canadá com
artistas e arte-educadores. Já temos os arte-educadores nas escolas,
agora é preciso criar projetos para que coloquemos artistas, das
diversas áreas, nas instituições de ensino. O grande problema é que no
Canadá eles têm um grande respeito à multiculturalidade. Eles fazem
questão de mostrar os diversos códigos, como o dos africanos, o
indígena. Isso é magnífico. No livro, eles colocaram também umas fotos
que mostram a variedade de expressões.
CM - Mas a falta
de investimentos no Brasil reflete-se apenas na ausência dos artistas
dentro das escolas ou estende-se também à questão da capacitação?
AMB -
Não é capacitação, o problema é a atualização. Qualquer professor
precisa estar atualizado. Eu não concebo um professor que não procure,
em um ano inteiro, um curso, uma conferência, ao menos para trocar
idéias. A atualização deve, então, ser permanente e não algo esporádico
como esta tal capacitação!
Há uma coisa meio perversa nos que
chamam isso de capacitação. O professor é capaz. Atualização significa
que o professor é capaz, está formado, e se ele não se atualiza
constantemente será apenas um repetidor de formas e apostilas que
nenhuma capacitação vai resolver. Eu acho que o investimento primeiro
deve ser destinado à atualização constante. Uma coisa perversa que a
Secretaria de Educação do Estado (de São Paulo) fez foi achar que o que
eles chamam de capacitação fosse feito apenas nas escolas. Eles pensam
que os professores que saem para cursos tendem a voltar decepcionados
para a escola, por não conseguirem depois programar aquilo que
aprenderam. Então os professores ficariam desmotivados. Essa não é a
minha experiência. Em todos os casos que conheço, os professores vão e
voltam com um empenho tremendo.
Fizemos uma pesquisa recente
do Centro Cultural Banco do Brasil que ilustra o que estou dizendo. Em
2004, eles me chamaram e disseram que queriam fazer uma pesquisa para
saber como o professor usa, em sala de aula, o material que eles
preparavam para acompanharem as exposições, com slides, fotos e um
livreto com os conceitos de arte-educação. Eles contrataram uma empresa
para fazer a pesquisa. Rejane Coutinho (doutora em Artes pela ECA-USP)
e eu para dialogar, desenhando a pesquisa e depois para avaliá-la.
Foram quatro exposições em um ano: “África”; “Nuno Ramos, um artista
homem, brasileiro e contemporâneo”; “Rosana Palazyan, uma artista
mulher, brasileira e contemporânea”; e “Antoni Tàpies, da galeria de
Paris”. Cada professor recebia um kit. Primeiro, queríamos fazer um CD,
mas depois descobrimos que nem todos têm acesso a computador. Então,
fizemos transparências.
Desenhamos a pesquisa em quatro
grupos. Os professores comprometiam-se a comparecer a um encontro
mensal de relato e experiência, com uma professora de português que
trabalha com essa questão de memória e relato. Eles mandavam um relato
depois de cada aula e, a cada 15 dias, recebiam visitas de um agente de
campo, só para observar. No grupo um, tinha ônibus, lanche e horário
reservado para as exposições. O outro não tinha nada, eles que tinham
que dar um jeito. O primeiro trabalhou muito melhor. O segundo começou
a se sentir preterido. No primeiro, todos foram até o final. No
segundo, três desistiram no meio do caminho. Para os outros grupos só
mandávamos o material. Percebemos que apenas o material é insuficiente.
Faltava o diálogo. Muitos iam ver a exposição antes, mas não tinha
aquela discussão. Não só acho que o contato com a instituição de arte
seja importante, como o contato com o artista. O museu é uma espécie de
laboratório.
CM - E um trabalho como esse, supre a necessidade da presença do artista na escola?
AMB -
Não. Para mim, o ideal é ter os três: o arte-educador atualizado, o
artista e o trabalho com as instituições. “Estuda, vê, conversa”. É o
que chamamos de teoria da abordagem triangular. O que percebemos foi
que muitos professores utilizaram o material que preparamos para o
currículo do ano inteiro. E foram excepcionais. Por exemplo, a
reprodução da capa do livro “Artes Visuais – da exposição à sala de
aula”, que traz o resultado da pesquisa, veio do CEU Butantã, onde há
muitas crianças com problemas de comportamento. E a professora
conseguiu um resultado magnífico.
Tem uma outra professora, a
Elza, que, se fosse para eu identificar uma heroína, eu a escolheria.
Ela já tem sessenta anos, dá aula em três turnos na Cidade Tiradentes,
um lugar onde não tem nenhum espaço cultural, cinema, nada. Há, sim,
classes de cinqüenta crianças em uma escola paupérrima. A escola em que
ela trabalhou na pesquisa tinha apenas cinco turmas. Ela conseguiu
dinheiro para levar todos os alunos. Ela era uma professora correta,
mas "careta", que deu um salto enorme em seu trabalho. Neste trabalho,
escolhemos a quinta série, pois ela é a exemplar fase na qual a criança
deixa o professor generalista e passa para o especialista. É quando ela
terá que fazer a junção das diferentes disciplinas.
CM – Então, explique para nós e para o leitor: por que é importante ter isso tudo na escola?
AMB -
Para trabalhar construção e cognição. Na construção da Arte utilizamos
todos os processos mentais envolvidos na cognição. Existem pesquisas
que apontam que a Arte desenvolve a capacidade cognitiva da criança e
do adolescente de maneira que ele possa ser melhor aluno em outras
disciplinas. A música desenvolve diversos processos cognitivos,
comparando, organizando, selecionando. Em Arte, opera-se com todos os
processos da atividade de conhecer. Não só com os níveis racionais, mas
com os afetivos e emocionais. As outras áreas também não afastam isso,
mas a Arte salienta ou dá mais espaço. Para desenvolver a criatividade
em ciência, a criança tem que ter certo QI racional. Para desenvolver
através da Arte, a necessidade de QI é muito menor. Significa que ele
procura outros caminhos cognitivos. Eu acho que, em primeiro lugar, a
função da Arte na Educação é essa, desenvolver as diferentes
inteligências.
Isso fica patente com o exemplo dos Estados
Unidos, onde existe um teste equivalente ao Enem - aliás, o Enem é
cópia do deles. Eles pesquisaram quais os currículos dos alunos que
mais se destacaram no teste, nos anos 90. Todos eles haviam tido no
mínimo dois cursos de artes. Lembre-se de que, lá, eles escolhem o
currículo. Só aqui que currículo é igual à receita médica. Mas isso não
era suficiente. Além disso, é preciso desenvolver o país culturalmente.
Arte é uma fatia enorme da produção humana. E com uma vantagem imensa
de rever cada época. Diferente do fato, o objeto arte permanece para
ser revisto, relido ou reconcebido. Isso é essencial: operar no mundo
com conhecimento.
CM - E quais são as políticas públicas que existem para garantir isso?
AMB -
Não há políticas públicas. Uma das minhas grandes decepções com o atual
Ministério da Educação é o silêncio absoluto sobre Arte-Educação, sobre
a função da Arte. E, no ministério anterior, só se pensou em
normatizar, parâmetros mínimos. O que é a mesma coisa. Não serve para
nada, não funciona.
CM - Por que não funciona?
AMB -
Se formos analisar o que aconteceu em outros países, percebe-se que
eles voltaram para trás. Não deu certo na Espanha, e eles importaram um
espanhol para desenhar o currículo que temos hoje. No lado que
conhecemos e que chamamos de Ocidente, o melhor exemplo é o do Canadá.
Eles se recusaram completamente a ter um currículo nacional. É puro
desejo de controle das instituições. O interessante é que, quando
surgiu essa reforma, eu me posicionei contra, fizemos todo um
movimento. Aí eu fui até a Argentina e lá tinha um movimento imenso.
Pois lá também estava acontecendo a mesma coisa. E o espanhol que
elaborou o currículo nada mais fez do que oferecer desenho para
colorir: ele tinha o contorno de tudo e chamava as universidades
hegemônicas para colorir em cada país. Aqui eles escolheram a
Universidade de São Paulo. No Chile, foi a Católica. Na Argentina, foi
a de Buenos Aires. Mas lá tinha um grande problema. A Universidade de
Buenos Aires não tinha cursos de Educação. Estava um movimento muito
forte. Foi até bom. Eu gritava contra e eles aplaudiam. Criei alguns
inimigos. Mas, no fim, aconteceu o que prevíamos, não deu certo. Depois
sobrou um vácuo...
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