Grupos

Foi Lindo!!! - Seminário do FÓRUM PERMANENTE DE EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE ETNICO-RACIAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Devido a grande importância que o Fórum tem,  teremos que dividir a cobertura do evento.
Vamos por parte! PARTE 1
Um dia nublado com uma grande possibilidade de chuva no dia 15 de junho não foi o suficiente para tirar a magnitude do evento que contou com  presença de pessoas pra lá de ilustres - O Público.
Em torno de 160 pessoas estiveram no Seminário do FÓRUM PERMANENTE DE EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE ETNICO-RACIAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO - Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais  para Reeducação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.
Saudando Abdias Nascimento e José Flavio Pessoa – in memorian.
E óbvio, sensibilizados(as) com a atual situação do(a) Professor(a) em nossa sociedade.

Contamos com a presença na primeira mesa:

- MEC – Ministério da Educação / - SECADI-Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão.
- SEEDUC-RJ – Secretaria de Estado e Educação
- OAB - Ordem dos Advogados do Brasil
- SUPIR – Superintendência de Igualdade Racial – Marcelo Dias
- CEDINE – Conselho Estadual dos Direitos do Negro – Sr Paulo dos Santos
- UNDIME - União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação
- UNESCO - Sra. Marilza Regattieri - Oficial de Educação na temática da Educação das Relações Étnico-raciais e do Ensino da História e Cultura Afro-brasileira e Africana
- UNICEF - Fundo das Nações Unidas para a Infância - Jacques Schwarzstein
- Fundação Cultural Palmares
- Fórum Rio Diversidade – Profª: Marize Conceição

Onde todos(as) deram suas opiniões com relação a importância do fórum no Governo do Estado e os informes com relação a implementação da Lei 10.639/03 e 11.645/08 que inclui a cultura afro brasileira, africana e indígena nas escolas.


Aguarde a Parte II.
Até lá!


Aproveitamos para agradecer a presença e a colaboração de todas as pessoas que estiveram no evento.

Nosso Humilde obrigada(o)!


                                               Profª Dra Helena Theodoro - Faetec


     Marcelo Dias- SUPIR – Superintendência de Igualdade Racial e Elisa Lakin – Ipeafro
UNICEF - Fundo das Nações Unidas para a Infância - Jacques Schwarzstein


UNESCO - Sra. Marilza Regattieri - Oficial de Educação na temática da Educação das Relações Étnico-raciais e do Ensino da História e Cultura Afro-brasileira e Africana
Antonio Mario Ferreira/Toninho - SECADI


Dulce Vasconcellos - Comdedine e Dra.Creuzelly Ferreira
Fundação Cultural Palmares - Sr Rodrigo Nascimento

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Programação - Seminário do FÓRUM PERMANENTE DE EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE ETNICO-RACIAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO



domingo, 12 de setembro de 2010

REPRESENTANTES DO SINTEAC DE TARAUACÁ PARTICIPAM DO 1º SEMINÁRIO ÉTNICO RACIAL DO VALE DO JURUÁ

Dr. Antônio (SECAD), Dr. John Carth(MEC), Almerinda(SINTEAC- Rio Branco) e Valdenízio(SINTEAC-Cruzeiro do Sul)

O Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Acre - SINTEAC em parceira com a SEE, UNDIME, FPEER e SECAD realizou quinta feira, 09 de setembro, o 1º Seminário de Educação das Relações Étnico-Raciais do Vale do Juruá em Cruzeiro do Sul. 
O Seminário que durou o dia todo teve por objetivo sensibilizar sobre a importância das relações étnico-raciais  e o combate ao racismo, assim como também a implementação da lei nº 10.639 que estabelece o ensino de cultura e história afro-brasileiras, no qual é determinado que tais conteúdos devem ser ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística, literatura e história brasileiras. E ainda estabelecer contato com as instituições de ensino e sociedade civil organizada do vale do Juruá. 
Participaram vários núcleos do Sinteac, Secretaria Estadual de Educação e Secretaria Municipal de Educação.Tarauacá esteve representado apenas por quatro membros da diretoria do Sinteac (professores: Eurico, João, José Leite e Flávio Santos).
O representante do MEC John Carth lamentou a ausência principalmente dos representantes das Secretarias Estaduais e Municipais de Educação de alguns  municípios no seminário tão importante pois tata-se da inclusão da história afro-brasileira e indígena no currículo escolar assim como também de um ambiente de debate que visa combater o racismo e implementar leis importantes para a sociedade. Segundo o representante do MEC todas as Secretarias de Educação já receberam os kits para trabalharem  as Relações Étnico-Raciais e a História da Cultura Afro-Brasileira nas escolas como preconiza as leis nº 10.639/03 e nº 11.465/08.
O Seminário tomou como encaminhamento final que todos os municípios façam seu fórum local para a discussão da implementação das leis e combate ao racismo.
Professores Eurico e Flávio(SINTEAC-Tarauacá)
Para o professor Eurico "é fundamental que se compreenda que as políticas afirmativas não são compensatórias.Elas permitem a essas pessoas buscar uma ascensão econômica e social que inverte a lógica que predominou durante quase quinhentos anos. Neste sentido, as políticas desenvolvidas pelo atual governo têm dado uma boa base para o desenvolvimento da população como um todo. Podemos citar o Programa Universidade para Todos (Prouni) como um exemplo forte deste tipo de ação."
 Professores João e Flávio(SINTEAC-Tarauacá) 
"Este encontro dá uma grande contribuição para mostrar que só vamos superar problemas no convívio social conhecendo por inteiro nossa real história, conhecendo o passado para construir nosso futuro", salientou o professor Flávio Santos.
 Participantes do Seminário(Palestantes, Sociedade Civil Organizada,  Professores e Gestores)
"Ainda falta reconhecer a divulgação para que a sociedade brasileira assuma a participação do elemento africano em todas as áreas possibilitando um referencial de identidade cultural e histórica para os negros brasileiros",  afirmou João Maciel.  
 Sindicalistas  presentes no Seminário
“Este momento serve para fortalecer os espaços de discussão e divulgar a implementação da Lei  que prevê a inclusão da história e cultura afro-brasileira nos currículos escolares tão importante para que possamos acabar com o preconceito que ainda existe e diminuir as desigualdades relacionadas as questões Étnico-Racial"  ressaltou José Leite.
 Representantes do SINTEAC de Taraucá(Professores: João, Flávio, José Leite e Eurico)

Educação que transforma

11:31 @ 07/02/2011

dez 2010 21

Por Renata Soares

Os planos de ser padre foram deixados para trás há quatro anos, quando decidiu deixar o seminário após sete anos de dedicação. A vocação para contribuir na formação do próximo, entretanto, materializou-se na prática do ensino meio sem querer. “Eu não tinha o sonho de ser professor; não era pretensão inicial, mas se tornou com a vivência na sala de aula”. Este vocacionado na solidariedade é Cleiton Pereira da Silva, supervisor pedagógico da Secretaria de Educação de Beberibe, atualmente responsável pela Educação das Relações Étnico-Raciais na Rede de Ensino do Município.

Cleiton, natural de Cascavel, Ceará, é filósofo por formação, estudante de História e está se especializando em gestão escolar. Mudou-se para Beberibe após ser aprovado em concurso público para lecionar naquele município em 2006. Ainda naquele ano, o então professor da Escola José Bessa participou da primeira capacitação oferecida pelo município sobre a Lei nº 10.639 de 2003, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação e inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. O assunto gerou interesse de sua parte, mas não teve continuidade.

Em 2008, foi convidado pela Secretaria de Educação para trabalhar na assessoria pedagógica nos anos finais, na área de cultura e sociedade, que envolvia o ensino de história, geografia e ensino religioso. Ao assumir a nova função, verificou que o trabalho relacionado à Lei 10.639 estava parado. Ele, então, decidiu retomá-lo: levantou o material existente sobre o assunto; organizou junto com sua equipe uma outra capacitação para professores, debruçou-se sobre as diretrizes curriculares e a própria Lei, garimpou material de apoio, enfim, começou a tirar a lei do papel. “Tomei isso para mim, foi quase uma questão pessoal. Na verdade, o projeto institucional se confundia com o projeto pessoal”, relembra.

Tanto esforço tem uma justificativa: a possibilidade concreta de contribuir para a o fim de práticas preconceituosas. “Por mais de cinco séculos tivemos uma educação exclusivamente para brancos, para as classes dominantes; um currículo eurocêntrico, escola eurocêntrica, que desconsidera as diversidades. Essa percepção despertou o sentimento de ir contra isso e tentar procurar mostrar que é preciso incluir e que é preciso atentar e mostrar que há diversidade nas nossas escolas; que é preciso considerar a cultura, a identidade, a etnia, a raça de toda essa gente. Como eu posso oferecer uma educação homogênea para um povo que é heterogêneo? A educação é uma forma de desconstruir esse mito da democracia racial e de acabar com a prática da discriminação e racismo que existe inclusive dentro da escola”, afirma.

O trabalho foi dando certo, apesar da resistência de alguns. Ele recebia resposta positiva dos professores, enviava a cada dois meses material de apoio, atividades, textos, músicas, recursos visuais que pudessem subsidiar o professor em sala de aula. Passou a manter contato com o Ministério da Educação, por meio da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad) e da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) e com a Fundação Palmares, buscando sempre mais material e mais conhecimento para ser socializado com os professores.

Tanta dedicação chamou a atenção da SECAD, que visitou o município, verificando in loco o trabalho, e convidou Cleiton para participar, em Brasília, no início de dezembro, do Seminário Nacional de Avaliação da Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, realizado pela SECAD/MEC.

Para ele, o maior resultado é saber que o trabalho não ficou só na sala do diretor ou do coordenador. “Meu maior contentamento foi, ao averiguar alguns diários de classe, perceber registro de aulas da temática; as inúmeras culminâncias de trabalhos, planos de trabalho, alguns regimentos escolares, projetos bimestrais desenvolvidos, a própria linguagem dos coordenadores. A grande conquista é não trabalhar em momentos pontuais, mas sim fazer que o trabalho seja regular. Isso é uma grande vitória e conquista para nós”, avalia.

“Educação para todos é aquela que considera a multiplicidade e a complexidade. Quando participei do seminário isso ficou mais claro. Ainda não temos educação para todos. Precisamos construí-la e isso é o que reforça o meu engajamento e a minha participação. A questão da negritude e racial é uma questão de todos. O combate e a erradicação do racismo também. Não é coisa de negro e não é para ser. É assunto de todos, é para ser desejo e ação de todos”.

Fotos: arquivo pessoal de Cleiton

ONU Mulheres seleciona consultoria para apoio na seleção de projetos para o Fundo Fiduciário

A ONU Mulheres - Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e Empoderamento das Mulheres seleciona, até 17 de janeiro de 2011, dois consultores (as) temporários (as) para apoio ao processo de seleção de projetos para o Fundo Fiduciário das Nações Unidas para Eliminar a Violência contra a Mulher.


As vagas exigem diploma de graduação ou mestrado, em gênero, estudos de desenvolvimento ou área relacionada. Experiência mínima de 5 anos ou licenciatura superior a 10 anos na temática de violência e direitos das mulheres. Conhecimentos sobre as organizações de mulheres e entidades governamentais globais que trabalham com o tema. É desejável fluência em português, inglês e espanhol. Para mais informações, consulte o Termo de Referência.

 

Os (as) candidatos (as) interessados (as) deverão enviar, até 17 de janeiro de 2011, as 23:59hs, currículo no formato P-11 (Personal History Form) e proposta financeira, para unifembra.hr@unwomen.org ou unwomenbra.hr@unwomen.org, com o texto “Consultant Trust Funds 2011 < nome do candidato (a) > ”, no assunto da mensagem.

 

 

Mara Karina Silva
Assistente de Comunicação
ONU Mulheres Brasil e Cone Sul

Tels.: 55 61 3038.9149 / 9296.9522

mara.silva@unifem.org

www.unifem.org.br

 

Logo ONU MULHERES (e-mail)

unase_lac_pq

HGA- História Geral da África

10:31 @ 17/12/2010

História

História Geral da África

                                    História Geral da África


Em 1964, a UNESCO dava início a uma tarefa sem precedentes: contar a história da África a partir da perspectiva dos próprios africanos. Mostrar ao mundo, por exemplo, que diversas técnicas e tecnologias hoje utilizadas são originárias do continente, bem como provar que a região era constituída por sociedades organizadas, e não por tribos, como se costuma pensar.

Quase 30 anos depois, 350 cientistas coordenados por um comitê formado por 39 especialistas, dois terços deles africanos, completaram o desafio de reconstruir a historiografia africana livre de estereótipos e do olhar estrangeiro. Estavam completas as quase dez mil páginas dos oito volumes da Coleção História Geral da África, editada em inglês, francês e árabe entres as décadas de 1980 e 1990.

Além de apresentar uma visão de dentro do continente, a obra cumpre a função de mostrar à sociedade que a história africana não se resume ao tráfico de escravos e à pobreza. Para disseminar entre a população brasileira esse novo olhar sobre o continente, a UNESCO no Brasil, em parceria com a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (SECAD/MEC) e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), viabilizaram a edição completa em português da Coleção, considerada até hoje a principal obra de referência sobre o assunto.

O objetivo da iniciativa é  preencher uma lacuna na formação brasileira a respeito do legado do continente para a própria identidade nacional.

O Brasil e outros países de língua portuguesa têm agora a oportunidade de conhecer a Coleção História Geral da África em português. A coleção foi lançada em solenidade, em Brasília, com a presença dos ministros de Educação e Cultura.

Faça aqui o download da coleção.

 

Brasil 2011: Estado festejará Ano Internacional dos Afrodescendentes distribuindo livro racista nas escolas

Eliane Cavalleiro

 

A sociedade competitiva e os preconceitos geram uma violência que deve ser combatida pela escola. Ensinar a viver juntos é fundamental, conhecendo antes a si mesmo para depois conhecer e respeitar o outro na sua diversidade. A melhor maneira de resolver os conflitos é proporcionar formas de buscar projetos e objetivos em comum, através da cooperação, pois assim ao invés de confrontar forças opostas, soma-se a diversidade para fortalecer as construções coletivas (Jacques Delors, UNESCO, MEC, Cortez Editora, São Paulo, 1999).

 

De acordo com Delors, a transmissão de conhecimento sobre a diversidade humana, bem como a tomada de consciência das semelhanças e da interdependência entre todos os seres humanos do planeta constituem fundamentos da educação. Entretanto, às vésperas do Ano Internacional dos Afrodescendentes, o Ministério da Educação do Brasil rejeita consideração do Conselho Nacional de Educação, que atento às Leis que regem a Educação Nacional, pondera sobre a distribuição do livro de literatura infantil Caçadas de Pedrinho[1][1], de Monteiro Lobato, que, originalmente publicado no ano de 1933, difunde visão estereotipada sobre o negro e o universo africano, apresentando personagens negras subservientes, pouco inteligentes, até mesmo aludindo a animais como o macaco e o urubu quando se referem à personagem negra, como no trecho: trechos da obra dizem: "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão".

Os movimentos sociais negros há tempos reivindicam ação substantiva por parte do Estado brasileiro em políticas públicas para a educação das relações étnico-raciais. Os movimentos sociais brancos e a elite, por sua vez, recusam toda e qualquer medida que visa combater o racismo e seus derivados na sociedade brasileira. Por sua vez, identificam-se setores progressistas da sociedade que lutam pelos direitos humanos, direitos das mulheres, gays e indígenas, mas que infelizmente se calam diante da luta antirracista.

Na questão em debate, de maneira previsível, debocham da pesquisadora e professora universitária e conselheira do CNE Nilma Lino Gomes, responsável maior pelo parecer, que possui formação intelectual que não fica atrás de nossa elite branca, uma vez que possui doutorado pela Universidade de São Paulo e Pós-Doutorado na Universidade de Coimbra, sob orientação de um dos maiores nomes da intelectualidade atual, a saber, Boaventura de Sousa Santos é. Mesmo com esse histórico intelectual, ela tem sido vista pelos racistas de plantão como incompetente e racista ao inverso. Isso somente reforça a obsessão pela continuidade da estrutura racista em nossa sociedade. Sobre o autor, Monteiro Lobato, nascido no século XIX, eugenista convicto, diz-se apenas ser uma referencia clássica. Certamente uma clássica escolha da elite nacional, que do alto de sua arrogância e prepotência acredita que seus eleitos sejam intocáveis e não passíveis de qualquer crítica e consideração.

O MEC tem o dever de combater qualquer tipo de situação discriminatória para qualquer grupo racial. Assim, o que deve ganhar nossa atenção nessa contenda é o fato de que mesmo o edital do PNBE/2010, estabelecido pelo MEC/FNDE, ter traçado como objetivo a “Observância de princípios éticos necessários à construção da cidadania e ao convívio social republicano” e ter estabelecido, conforme anexo III do referido edital, que “Serão excluídas as obras que: 1.3.1. veicularem estereótipos e preconceitos de condição social, regional, étnico- racial, de gênero, de orientação sexual, de idade”, temos um ministro que defende a distribuição irrestrita do livro por compreendê-lo como adequado para a educação de crianças em pleno processo de socialização.

Considerando que os doutos e doutas que administram o MEC leram Jaques Delors, Paulo Freire, Edgar Morin e tantos outros que adoram citar, não se pode alegar ingenuidade por parte da equipe diretiva do MEC, que aceitou parecer favorável à compra e à distribuição desse livro nas escolas públicas, cujo conteúdo fere o próprio edital por eles instituído. O que deve tomar o centro dessa discussão é o fato de o MEC anunciar uma política que vai ao encontro do disposto nas leis e também das reivindicações dos movimentos negros organizados, em nível nacional e internacional, mas na prática permitir o descumprimento de seu edital.

Ao ferir o edital, o próprio MEC abre precedente para que que as editoras, cujas obras tenham sido excluídas por veicularem estereótipos, reivindiquem também a distribuição dos livros excluídos.  Por que somente Lobato com estereótipo racial? Que tal o MEC também distribuir literatura sexista? Que tal textos com manifestações anti-semitas?  Será que assim a  sociedade se incomodaria?

Mas, por enquanto, mais uma vez magistralmente setores conservadores e/ou tranquilos com as consequências da discriminação racial nesta sociedade buscam inverter a discussão, de modo a que o maior problema passe a ser o tal “o racismo ao revés e a radicalidade dos movimentos negros”, e joga-se para debaixo do tapete o que deveria ser o centro da análise: o esfacelamento dos objetivos de combater a disseminação de estereótipos e preconceitos na política do PNBE, MEC.

Sejamos de fato coerentes e anti-racistas, reconheçamos a não-observação aos critérios do estabelecidos no Edital do PNBE/2010, insistamos na pergunta e exijamos do MEC uma pronta resposta: o que de fato ele tem realizado, quanto tem investido e qual a consistência e a efetividade de suas realizações, sobretudo em comparação com o que tem investido nas demais questões ligadas à diversidade e aos grupos historicamente discriminados? Dos livros selecionados pelo PNBE 2010, quantos favorecem a educação das relações de gênero? Quantos promovem o conhecimento positivo sobre a história e cultura dos povos indígenas?  Se o MEC tivesse respeito por nós, seríamos informados sobre o cumprimento das metas para a implementação do artigo 26ª da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) (Lei n. 9394/96), que se refere à obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileiras, indo ao encontro de tratados internacionais como a Convenção Contra a Discriminação na Educação (1960) e o Plano de Ação decorrente da III Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Intolerância Correlata (2001), ambos sob os auspícios da Unesco.

Em 17 de abril de 2008, em entrevista à Agência Brasil, apos receber críticas sobre o retrocesso nas políticas para o combate ao racismo, o diretor do Departamento de Educação para Diversidade e Cidadania do MEC, Armênio Schmidt, confirmou a suspensão da distribuição de material didático e de ações de formação de professores na área étnico-racial em 2007. Segundo ele, a interrupção, apenas externa, nas ações voltadas à questão racial ocorreu por causa das mudanças no sistema de financiamento do MEC. Para o diretor tal suspensão se justificava pelo fato de o MEC estar, em 2007, “construindo uma nova forma de indução de políticas, de relação com estados e municípios, que foi o Programa de Ações Articuladas”. Para ele: “Durante o ano passado [2007] realmente não houve publicações e formação de professores. Mas, na nossa avaliação, não houve um retrocesso, porque isso vai possibilitar uma nova alavanca na questão da Lei [10.639]. Agora estados e municípios vão poder solicitar a formação de professores na sua rede, e o MEC vai produzir mais publicações e em maior número”[2][2].

Em 2010, além de não percebermos o fortalecimento da política, tampouco a retomada das publicações e uma consistente e sistemática formação de professores, flagramos o MEC permitindo a participação de livro cujo conteúdo veicula estereótipos e preconceitos contra o negro e o universo africano, constituindo assim flagrante inobservância das normas estabelecidas.

O atual presidente Lula, em seu começo de mandato, evidenciou, no campo da educação, a importância do combate ao racismo, promulgando a Lei 10.639/03, que, como já mencionado, alterou a LDB, tornando obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileiras na Educação Básica. Tal alteração contou com a pronta atenção do CNE, que, sob responsabilidade da conselheira Petronilha Beatriz Goncalves e Silva, elaborou as Diretrizes Curriculares Nacionais para o ensino das Relações Étnico-Raciais e de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana (CNE/CP 3/2004), cuja homologação foi assinada pelo então ministro da Educação, Tarso Genro. Contudo, embora conte com 83% de aprovação por parte da população e tenha ao longo de seu mandato visitado várias vezes o continente africano e discursado eloquentemente sobre a necessidade de reconhecimento do valor dos afrodescendentes na formação de nosso Estado Nacional, ele encerra seu mandato permitindo  um declínio acentuado na elaboração e na implementação de políticas anti-racistas no campo da educação.

Se em 2003 podíamos reconhecer, ainda que timidamente, o fato de o combate ao racismo fazer parte da agenda política brasileira; em 2010, devemos denunciar o descompromisso com essa luta. Descompromisso que pode ser percebido pela redução acentuada do orçamento para a educação das relações raciais, pelo enxugamento da equipe de trabalho da Coordenação Geral de Diversidade e Inclusão Educacional/SECAD/MEC, responsável pela implementação das ações de diversidade étnico-racial. Ainda vale ressaltar que houve a retirada do portal de diversidade da rede do MEC; a interrupção de publicações sobre o tema para a formação de profissionais da educação, pelo frágil apoio que das secretarias de educação para o cumprimento do proposto no parecer CNE/CP 3/2004. Essas constituem algumas referências negativas, entre várias outras apontadas pelos estudos sobre o tema.

Nós negros, cidadãs e cidadãos, que trabalhamos duramente longos anos para a eleição do presidente Lula esperávamos mais. Esperávamos mais tanto do presidente quanto da sua equipe executiva que administra a educação brasileira. Esperávamos minimamente que ao longo desses anos a equipe tivesse compreendido o alcance e o impacto do racismo em nossa sociedade. Esperávamos que eles, respeitando os princípios de justiça social, independentemente dos grupos no poder, emitissem manifestações veementes pelo combate ao racismo na educação. Pelo visto as promessas de parcerias e acolhimento das nossas considerações eram falsas.

O que temos como resposta, para além do silêncio de toda Secretaria de Educação, Alfabetização e Diversidade, é o posicionamento por parte do ministro, que não vê racismo na obra, colocando-se favorável à sua distribuição irrestrita, que, em companhia de outros elementos no cotidiano escolar, sabemos, contribuirá para a formação de novos indivíduos racistas, como já se fez no passado. Sem dúvida, o discurso do ministro mostra-se engajado com sua própria raça, classe e gênero. O mais irônico é saber que em pleno século XXI o Brasil será visto como um país que avança na economia e retrocede nos direitos humanos da população negra.

Muitos admiram Monteiro Lobato. Eu admiro Luiz Gama que se valeu das páginas da imprensa em defesa da liberdade dos escravizados e disse, sintetizando nossa ainda atual resistência cotidiana: “Em verdade vos digo aqui, afrontando a lei, que todo o escravo que assassina o seu senhor, pratica um ato de legítima defesa”. O conhecimento é a arma que dispomos para lutar pela defesa de nossa história, nossa existência, bem como do futuro de nossos filhos e filhas. Essa é uma luta desigual, portanto desonesta. Mas ainda que muitos queiram nosso silêncio, seguiremos lutando e denunciando essa forma perversa de racismo que perdura na sociedade brasileira.





[1][1] Tal obra foi selecionada pelo Programa Nacional Biblioteca na Escola/2010, que objetiva a “seleção de obras de apoio pedagógico destinadas a subsidiar teórica e metodologicamente os docentes no desenvolvimento do processo de ensino e aprendizagem nos respectivos campos disciplinares, áreas do conhecimento e etapas/modalidades da educação básica” (Brasil. Edital PNBE 2010. Brasília: MEC/FNDE, 2010).

[2][2] Agência Brasil. Pesquisadora aponta retrocesso na política de combate ao racismo nas escolas. Disponível em: http://verdesmares.globo.com/v3/canais/noticias.asp?codigo=216721&modulo=450. Acessado em: novembro de 2010.

 

Fonte: http://historiaemprojetos.blogspot.com/

 


Por: Heloisa Pires Lima* no Cicla Brasília

 

http://www.clicabrasilia.com.br/site/imagens/blogs/lobato.png

"A polêmica em torno das personagens lobatianas, após o parecer emitido pelo Conselho Nacional de Educação (set 2010), ganha qualidade se considerar os vários ângulos dessas construções. Primeiramente, o contexto original criador dos enredos. O escritor nascido em 1882 cresceu numa fazenda de café do Vale do Paraíba, na província de Taubaté. Quando moço é para lá que voltaria, durante os estudos na faculdade de Direito do Largo de São Francisco, na capital.

http://www.clicabrasilia.com.br/site/imagens/blogs/lobato2.jpg

O guri branco vivenciou as dinâmicas escravistas pouco alteradas na República que engatinhava. Nesse tempo, esteve exposto aos argumentos racialistas que ganharam status de ciência para a vida intelectual e artística da qual se tornou freqüentador. Suas biografias não deixam de mencionar a importância do pensamento eugenista de Le Bon, como lentes para ele rever o ambiente rural onde encontra, inclusive, seus Jeca Tatus. E foi como colaborador da Revista do Brasil que Lobato levou o empurrão do folclore, das lendas, dos mitos populares para suas aventuras junto ao setor editorial.

http://www.clicabrasilia.com.br/site/imagens/blogs/lobato3.jpg

Ele descobre uma fonte rica de temas que afirmará como particularidade nacional frente ao incômodo com a excessiva presença de figuras da mitologia européia oferecidas às crianças do país.

http://www.clicabrasilia.com.br/site/imagens/blogs/lobato4.jpg

E é para o Saci, que em 1917, ele desenvolve um questionário e um concurso de pintura como tarefa em busca de uma nova mentalidade nacional, nos seus termos. Mais tarde transformado em livro, lá estarão o tio Barnabé dando voz às lendas de origem africana que, segundo ele, povoavam o imaginário popular.

http://www.clicabrasilia.com.br/site/imagens/blogs/lobato5.jpg

Da mesma forma, a tia Nastácia com seu inventário culinário. Por um lado, a condução de Lobato dá status e integra personagens negros que a sociedade excluía deixando uma peculiar presença negra no universo da literatura infanto-juvenil. O mote também é uma crítica à literatura estrangeira e à produção elitista disponibilizada, na época. Por outro, o material é testemunha ocular de uma espécie de abordagem na arquitetura de figuras negras e o lugar onde foram posicionadas na lógica interna das narrativas. As imagens dos tipos ficcionais, sempre carregadas de sinais, embutem modelos de humanidade que por sua vez, constroem identidades sociais.

http://www.clicabrasilia.com.br/site/imagens/blogs/lobato6.jpg

O ponto de vista de Lobato pode ser acompanhado na redação das histórias que ele assina. Mas também nos desenhos que as interpretam e que acabaram selecionadas para as publicações produzidas em seus poços literários e que continuam a abastecer bibliotecas, videotecas, acervos de brinquedos e brincadeiras no país. A perspectiva dos ilustradores dos livros de Lobato facilita observar o tema racismo, de modo mais distanciado. Ou seja, é uma estratégia para diminuir a resistência característica para a questão em obras consagradas. O treino minucioso pode começar delimitando a postura corporal das personagens, a expressão facial, o tratamento na cor da pele, o relacionamento entre demais figuras em cena, a qualificação atribuída ao cenário das quais participam. Estes, entre outros, são fios a compor o ponto de vista que o analista quer conhecer.

Por exemplo, o assunto tratado em Narizinho Arrebitado (1920) aparece implicado às noções de saberes, o erudito e o popular, encarnados em duas mulheres representadas pelo traço de Voltolino (figura 1, de cima para baixo). Desta primeira edição dá até para afirmar a existência de uma relativa equanimidade de tratamento para ambas o que pode ser observado na forma como ele vestiu as mulheres, moldou a expressão da face, a hierarquia na estatura, a composição que comunique afetividade. Isto se acompanharmos o que ocorreu, posteriormente, com interpretações de alguns outros ilustradores da mesma redação.

 

A Nastácia pode se tornar monstrenga ou suja como nas seguintes versões (figura 4 - Villin, 1934 e figura 6 - André Blanc, 1955). Na figura 5, elaborada por Manoel Victor Filho em Trabalhos de Hércules (1972), a estrutura do rosto da mulher negra aparece co-relacionada com a do porco Rabicó. Contraposta aos demais personagens insuflados de humanidade, sua Nastácia recebe uma expressão facial mais idiotizada a acompanhar a bestialização a ela imposta. Portanto, nessas páginas nem mesmo como modelo de humanidade ela é oferecida ao leitor. O que a desumaniza também a coloca mais próxima da chacota. Se o resultado perfila a hierarquia social entre os personagens, a vertente negra africana que ela representa, também estará sendo desqualificada e ridicularizada.

 

O narrador da visualidade julga e desvaloriza a origem social com o tratamento que dá ao tema. Estas breves ocorrências relacionadas à Lobato seriam suficientes para ponderar acerca das imagens que circularam para leitores juvenis d´outros tempos. Os sinais positivos ou negativos que acompanham as ilustrações fizeram parte de uma rede simbólica que atingiu diretamente a percepção não apenas das pessoas reais de outrora. Tais identidades espelhadas nessa descendência repercutem até os dias atuais. Oras o passado! O que foi atrás vivenciado desapareceu ou permanece em algum lugar do imaginário social? Lá, nem sempre tão lá atrás assim, as formas lúdicas sustentaram criadouros de correntes de pensamento a identificar parcelas da população.

 

O aparato simbólico para a origem européia que valoriza positivamente os traços fenotípicos não deixa de informar como contraponto, uma origem africana. A composição foi uma arma a fomentar estigmas. A representação do Saci lobatiano pode ser explorada para demonstrar os vínculos entre a resposta particular numa autoria e o circuito cultural que a gerou. O detalhe da primeira capa do livro O Saci pererê: resultado de um inquérito, com ilustrações internas de Voltolino, expõe a interpretação do desenhista para o qual poderiam caber inúmeras leituras.

Talvez o barrete com o qual vestiu a cabeça da figurinha preta pudesse estar associado aos ícones revolucionários radicais europeus ou ao trickster africano símbolo de dinamismos e liberdade irrestrita. É mais provável que um brasileirinho lesse a demonização da figura recolhida do folclore. Lá estão os chifres e a ferocidade estampada no rosto assustador com dentes vampirescos. O próprio Lobato assina a obra com o pseudônimo de Um Demonólogo Amado. O discurso visual com o Saci poderia ter a intenção de resgate cultural (figuras 2 e 3 - capa assinada por J. Wash Rodrigues, 1918). No entanto, hoje, o saci preto e imbricado às idéias cristãs de maldade é material que promove desqualificações culturais associativos à origem negra. Cada elemento visual ou seu conjunto sintetiza e emaranha crenças no momento de sua criação. Todavia, não há leitura única na recepção da mensagem.

 

Se num contexto a capa pode significar ruptura e avanço, noutro pode facilitar desvalorização e conservadorismo. E haveria diferença ou tanto faz a capa ser percebida por um adulto ou uma criança a partir da simples exposição do livro numa prateleira? Seria possível levantar fatores para como cada qual processaria a instauração do recado valorativo e suas conseqüências de ordem afetiva nessa comunicação? Portanto, toda a busca de compreensão da obra infantil ou juvenil como espelho para elaborações de ordem emocional presume o fato de ali haver um espaço para o leitor reconhecer a si mesmo ou o outro.

 

O apreço auxilia na promoção da auto-estima e a dos afetos a elaborar alteridades. Por isso há de haver sensibilidade para considerar o poder de difusão de preconceitos e estereotipias que uma imagem pode conter. Para a habilidade do analista, se já foi lançada a hipótese do leitor das imagens ser uma criança, acrescentemos a circunstância social de ser ela uma criança negra em processo de elaborar sua origem numa escola da época de Lobato. A via literária estaria fornecendo elementos para uma auto- percepção e de suas raízes negras. Além do mais, esse leitor negro teria que lidar com outras crianças, que o perceberiam com o auxílio de uma biblioteca que o constrangeria.

 

A exposição a tamanha violência, nesse caso simbólica, faz saltar aos olhos o destrato hipotético de um preceito educacional e de alto valor nos nossos dias: a eliminação de constrangimentos para o pleno desenvolvimento das personalidades em formação. Os preceitos educacionais atuais responsabilizariam o dos velhos tempos pelo incômodo imposto ao educando. As Nastácias desqualificadas lá atrás trazem para cá nuanças que dizem respeito, às idéias associadas de superioridade e inferioridade racial.

 

A figura feminina boçalizada e o saci demonizado serviriam perfeitamente para qualquer manual de nossos tempos que discorresse a respeito de como se formam os pensamentos xenófobos. O mesmo exercício de leitura dos trechos visuais renderia caso o alvo fosse as imagens construídas por meio da escrita de Lobato. Todavia, vale deslocar a ênfase nos textos pioneiros do autor. Para não correr o risco de etiquetar toda a obra por um de seus aspectos, mais importante é fazer notar o leitor inserido numa e outra sociedade. É o ambiente social que promove ou impede a circulação de fórmulas racistas para a geração a ser formada. Por sua vez, um público com pouca maturidade. O jovem exposto à agressão é quem merece destaque.

 

Pouca idade e poucos elementos para se defender do ataque violento. É ao adulto e à sociedade madura a quem cabe a proteção e a responsabilidade frente a circulação desatenta do ataque físico ou moral da pessoa jovem. O treino de perceber a particularidade de um jovenzinho negro submetido à agressões inclui a singular via literária. A questão atinge em cheio o setor editorial com a demanda vinda dos meios educacionais, sobretudo a partir da conquista histórica da Lei 10639/2003 que integra o tema racismo no debate pedagógico maior. Pois embora algumas teorias racistas tenham sido banidas do mundo adulto e refutadas por acadêmicos maduros, veja que podem adquirir, nos aparentemente ingênuos formatos de livro infantis, canais para fixar preconceitos, estimular estereotipias e evocar atitudes discriminatórias.

 

Todo projeto editorial tem seus propósitos. Quando relançam obras do passado surge a pergunta implacável: O que significa reaplicá-las hoje para um público juvenil? Se mostrar alheio ao fato de algumas obras se aliarem à condenação da religiosidade de matriz africana, ou à facilitação de apelidos promovidos pelos compêndios é reificar a invisibilidade, por que não dizer a irrelevância da recepção racista para o leitor negro.

 

Caso propuséssemos ao adulto de hoje que buscasse a memória de personagens que habitaram a literatura a qual teve acesso, aqueles que preencheram afetivamente, sua infância seria uma chave para dimensionar o que ocorre com a criança de hoje. Da mesma forma que esse percurso pessoal, a sociedade acumula repertórios assentados como camadas de um imaginário coletivo a intervir na identidade histórica que esta imagina para si. Vale alertar, ainda, para a desproporção entre referências oferecidas ao leitor numa e noutra origem continental, seja asiática, indígena americana, do oriente, dos pólos da terra oferecidos nas antigas bibliotecas dos brasileiros.

 

Sobretudo ao cotejarmos com universos temáticos que esbanjam a origem européia. Isto quer dizer que a presença negra nas foi rara e quando ocorreu foi marcada por abordagens ficcionais pouco positivas para elaboração de identidades acerca da parcela negra da população real. Perceber o racismo verde-amarelo em sua dimensão editorial talvez seja a oportunidade que a polêmica em torno de Lobato ofereça para escaparmos de uma armadilha reflexiva.

 

Evocar a época da produção não pode se tornar autorização para fecharmos os olhos às agressões que ela possa conter. Se eliminar o passado é inviável enquanto historia do livro no país, também o é reconhecer a estrutura criativa dos textos. Todavia, a visão parcial elege as exaltações que o mundo literário confere ao consagrado Lobato e promove uma espécie de impedimento para a compreensão da obra em sua totalidade. E nega a presença de estereótipos. Ao invés do temor, de transformar em tabu qualquer análise, voltar aos Lobatos do passado pode propiciar ângulos inéditos a enriquecer a relação atual com essa literatura.

 

Significa apostar no dinamismo da leitura que uma obra propicia e viabilizar a crítica sadia. Se realidade e representação são faces de uma mesma moeda, se uma influencia a outra e vice-versa ao contrário, poderia dizer uma personagem desse cenário, o fato é que há uma demanda educacional interlocutora da produção editorial. Se o diagnóstico sobre o excesso de representações pejorativas desqualificando insistentemente as referências à população negra no Brasil então, o que fazer quando estas voltam ao futuro? Como entraremos nessa aventura? Caçadas de Pedrinho (original de1933) é o título analisado com a responsabilidade que o Conselho Nacional de Educação chama para si.

 

A relatora Nilma Gomes perfila a questão do racismo na Educação Nacional para o parecer que atrela uma série de medidas cautelares para a circulação da obra. O objetivo de promover uma educação anti-racista prevê a formação do educador para a introdução de tais conteúdos. Há de se aplaudir a iniciativa. Pois quando o inquestionável, aquilo que sempre passou despercebido cessa de sê-lo, quando a agressão deixa de ser naturalizada e a negação perde força para assumir enfrentamentos temos uma pista de saúde social e uma chance para conviver com a arte de outros tempos. Pois um dos limites à liberdade irrestrita dessa circulação é o racismo dirigido à tenra idade. A caça é aos racismos ignorados e não à obra ou seu autor. O desafio está colocado para a sociedade. E sobretudo, aos circuitos editoriais que terão que encontrar formas de respondê-lo".

 

*Heloísa Pires Lima é Antropóloga doutora titulada pela USP, criou e foi editora da Selo Negro Edições e é autora, entre outros, de Histórias da Preta (1998, Cia das letrinhas) e Lendas da África Moderna (2010, Elementar).

 


Como foi a abertura do Mês da Consciência Negra

A  abertura do Mês da Consciência Negra, na quarta feira 20 de outubro, foi um sucesso!

A conferência “Educação das Relações Étnico-raciais: desdobramentos pedagógicos das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008″ com os representantes do Ministério da Educação, John Land Carth e Antônio Mario Ferreira. Também fizeram suas contribuições o Prof. Dr. Pe. Marcelo Aquino – reitor da Unisinos, o Prof. Dr. Pe. José Ivo Follmann – vice reitor da Unisinos, a Prof. Ms. Miriam Dazzi – coordenadora da Formação Docente, o Prof. Waldemar Pernambuco Moura Lima, e a Prof. Ms. Adevanir Pinheiro – coordenadora do Neabi/Unisinos - fez a coordenação da mesa.

Quem participou pôde conferir o Mestre de Cerimônias, Prof. Ms Jorge Teixeira, a Prof. Elisabeth Natel prestando homenagens, a estudante Ângela que cantou “O canto das três raças” e o Grupo Cidadania recepcionando os presentes.

Estudantes, professores e representantes da comunidade puderam discutir junto aos representantes do MEC os questões sobre a legislação vigente, sobre a aplicação da Lei nas escolas e sobre o decorrente racismo institucional.

Para John Carth “A sala de aula é uma sociedade simbólica e, o professor ensina a sociedade como ela é. (…)  Toda vez que o professor se omite, ele ensina que a sociedade é assim.”

Confira algumas fotos da conferência.

Reunião discute diversidade étnico-racial brasileira

Atenção, abrir em uma nova janela. PDFImprimirE-mail

sextaO Ministério da Educação vem instituindo e implementando um conjunto de medidas com o objetivo de corrigir injustiças, eliminar discriminações e promover a inclusão social no sistema educacional brasileiro. A Lei 10.639/03 faz parte dessas ações, uma vez que ela estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.

Para discutir a implementação dessa lei, representantes de diversas entidades participaram na manhã desta sexta-feira, 12, no Instituto Federal do Maranhão – Campus Monte Castelo – de uma reunião do Fórum Permanente de Educação e Diversidade Étnico-Racial do Maranhão.
sexta1 sexta2 sexta3
O encontro foi presidido pela coordenadora geral do Fórum, Ilma Fátima de Jesus, e contou com a participação da professora Socorro Botelho (Campus Maracanã / Conselho Estadual de Educação); do secretário do Fórum, Adomair Ogunbiyi (Movimento Negro Unificado); da representante do Simproessema, Maria Eunice Campos; além de Cecília Reis (APN – Agentes de Pastoral Negros); Juliana Santos (Associação Afro Om’Nirá); Jacinta Santos (Seir – Secretaria de Estado da Igualdade Racial), entre outros. O professor João Batista Botelho é o representante do Instituto Federal do Maranhão no Fórum.

Um dos objetivos das reuniões é ampliar a participação de instituições públicas e privadas, entidades do terceiro setor, grupos e movimentos organizados no Fórum. “Qualquer cidadão pode integrar esse movimento. Queremos mobilizar mais pessoas em torno dessa discussão”, explicou a coordenadora geral, Ilma de Jesus.

Interessados em compor a equipe de discussão podem participar da próxima reunião, marcada para o dia 9 de abril, na sala de reuniões da Seduc (Secretaria Estadual de Educação), no São Francisco (rua Inácio Xavier, 715, O1º andar). grupo já planeja a realização do 2º Fórum Estadual de Educação e Diversidade Étnico-Racial, previsto para acontecer de 18 a 20 de novembro.
Saiba mais (Dados do MEC)
Estudos realizados no campo das relações raciais e educação explicitam em suas séries históricas que a população afrodescendente está entre aquelas que mais enfrentam cotidianamente as diferentes facetas do preconceito, do racismo e da discriminação que marcam a sociedade brasileira. O acesso às séries iniciais do Ensino Fundamental, praticamente universalizado no país, não se concretiza, para negros e negras, nas séries finais da educação básica. Há evidências de que processos discriminatórios operam nos sistemas de ensino, penalizando crianças, adolescentes, jovens e adultos negros, levando-os à evasão e ao fracasso, resultando no reduzido número de negros e negras que chegam ao ensino superior, cerca de 10% da população universitária do país.

Sabe-se hoje que há correlação entre pertencimento étnicorracial e sucesso escolar, indicando, portanto, que é necessária firme determinação para que a diversidade cultural brasileira passe a integrar o ideário educacional não como um problema, mas como um  rico acervo de valores, posturas e práticas que devem conduzir ao melhor acolhimento e maior valorização dessa diversidade no ambiente escolar.

A Lei 10.639/03 é um marco histórico. Ela simboliza, simultaneamente, um ponto de chegada das lutas antirracistas no Brasil e um ponto de partida para a renovação da qualidade social da educação brasileira.

Fórum Permanente de Educação e Diversidade Étnico-Racial recebe visita técnica de representante do MEC



25/10/2010 | Fabio Adriano Baptista




 


 


 


fonte: http://www.sed.ms.gov.br
 


Para acompanhar o trabalho do Fórum Permanente de Educação e Diversidade Étnico-Racial - FORPEDER em Mato Grosso do Sul, a consultora dos Fóruns Estaduais Permanentes de Educação e Diversidade Étnico-Racial, da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade – SECAD/MEC, Ana Elisa de Carli dos Santos realizou uma visita técnica à Secretaria de Estado de Educação.

 

Sobre o Fórum

 

O Fórum Permanente de Educação e Diversidade Étnico-Racial de Mato Grosso do Sul – FORPEDER/MS, é uma organização social apartidária, sem fins lucrativos que busca a interlocução entre o poder público e a sociedade civil, atuando como órgão consultivo e propositivo de ações voltadas a implementação, articulação e definição de políticas públicas comprometidas com a aplicabilidade das Leis nº 10. 639, de 9 de janeiro de 2003, e 11.645 de 10 de março de 2008 e com os temas correlatos à temática Étnico-Racial na área da Educação e Cultura e no processo ensino-aprendizagem.

 

O Fórum é constituído de forma colegiada por representantes de instituições do poder público e da sociedade civil que se reúnem periodicamente e de forma continuada, visando à promoção de políticas públicas para a Diversidade e a Educação das Relações Étnico-Raciais. É composto por diversas Instituições e não podem faltar na sua composição as instituições de Gestão de Educação (Secretarias Municipais e Estaduais de Educação) e Entidades da Sociedade Civil.

 

 
25/10/2010
 

Clique aqui para enviar esta matéria a alguém  Clique aqui para imprimir esta matéria


 

(Forpeder/MS) 2010/2012

11:57 @ 04/11/2010

Fórum Permanente de Educação e Diversidade Étnico-Racial de Mato Grosso do Sul (Forpeder/MS) escolheu na tarde desta quinta-feira (23), através de eleição, as entidades que farão parte do mandato para biênio 2010/2012.

          Para vaga de presidente foi escolhida Rute Martins Valentim, da Secretaria de Estado de Educação (SED), para vice-presidente, Lúcio Martins da Silva, da Associação de Trabalho e Estudos da Cultura Afro-descendente em Movimento “Poeta José Mauro Messias da Silva” (Tecam/MS), para 1ª secretária, Wanessa Odorico Onório, da Secretaria Municipal de Educação (Semed) e 2ª secretária Vânia Lúcia B. Duarte, do Grupo de Trabalho Zumbis (TEZ).

          A eleição aconteceu no auditório da Secretaria de Estado de Trabalho e Assistência Social (Setas), e concorreram as vagas entidades governamentais e não governamentais.

          Forpeder

          O Fórum Permanente de Educação e Diversidade Étnico-Racial de Mato Grosso do Sul é uma organização social apartidária, sem fins lucrativos  e de interlocução entre o  poder público e a sociedade civil. Atua através da Secretaria de Estado de Educação, propondo ações voltadas para implementação, articulação e definição de políticas públicas e à temática Étnico-Racial na área da Educação e Cultura, no processo ensino-aprendizagem.



Fonte: Notícias MS
Cadastrada em: 23/9/2010

Maranhão terá nova edição do Fórum de Educação e Diversidade Étnico-Racial

Publicado por Redacao on Oct 28th, 2010 arquivado em Cultura. Você pode acompanhar os comentários se cadastrando RSS 2.0. Deixe seu comentário.

Uma nova edição do Fórum de Educação e Diversidade Étnico-Racial deverá ser realizada até o final do ano. O evento será promovido pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado de Educação (Seduc), em parceria com Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad) do Ministério da Educação. O tema foi tratado durante uma reunião técnica entre o secretário de Educação, Anselmo Raposo, e o representante da Secretaria de Educação Continuada e Diversidade (Secad), Antônio Mário Ferreira.
O encontro realizado, na quarta-feira (27), na Seduc, contou ainda com a participação das representantes da equipe de educação das relações étnico-racial da Seduc, Ilma Fátima de Jesus e Georgiana Márcia Oliveira Santo.
O representante da Secad/MEC, Antônio Mário Ferreira, destacou que o fórum continua com o foco voltado para dar maior visibilidade à lei 10.639/03, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de História da África no ensino fundamental e médio. Uma das finalidades dessa lei é sanar ou diminuir os prejuízos sociais causados pelos estigmas e estereótipos criados em relação ao negro.
Ele explicou que fórum é fundamental para garantir a gestão democrática nas escolas da rede estadual de ensino e a formação continuada dos professores, que serão capacitados para repassar aos alunos uma visão de cidadania e construção da identidade nacional.
Para o secretário de Educação, Anselmo Raposo, a formação continuada é uma forma de capacitar os professores da rede estadual de ensino para trabalhar com a origem afro-descendente da maioria dos alunos e mostrar a importância que deram para construção do engrandecimento da história do país.
Raposo frisou que o primeiro fórum foi realizado no início de sua gestão e sua meta, agora, é promover o segundo fórum para implementar e capacitar o corpo docente da Seduc, observando que o Maranhão é o segundo maior estado do país em contingente populacional negro.

fonte: http://oquartopoder.com/?p=18982



Convite MNM Museu da Maré Teste 001.jpgConvite MNM Museu da Maré Teste 002.jpg

 

 

Convidamos para esta reabertura da Exposição Fotográfica “Mulher NEGRA Mulher” no Museu da Maré

Neste, estaremos com as 100 Mulheres homenageadas da 1ª Edição da Exposição (SESC Ramos / UNISUAM) e faremos uma homenagem especial à Atriz e Artista Plástica, Sra. Ana Maria, moradora da Maré, por sua história de vida, por seu carinho com o outro e por sua força peculiar de mulher negra lutadora.


05/11 – 16h e dia 06/11 - 13h – durante o evento “Território Atividade 2” com orientação jurídica, recreação, barraquinhas e muito mais... 

Captura de tela inteira 25102010 153942.jpg

 

Museu da Maré – Av. Guilherme Maxwell, 26 – (21) 3868-6748

Estaremos também com a exposição no Almoço do IPCN dia 07/11 - 12h e

no Clube Renascença à partir do dia 17/11 (à confirmar)

 

Outras informações no nosso blog:

http://keratuar.blogspot.com

http://mulhernegramulher.blogspot.com

 

Não é SPAM e sim informação cultural

Os links desse email não contém vírus

Esta mensagem é enviada conforme a nova legislação sobre correio eletrônico Seção301, Parágrafo (a) (2) (c) Decreto S.1618, Título Terceiro aprovado pelo "105 congresso Base das Normativas Internacional sobre SPAM". Um e-mail não poderá ser considerado como SPAM quando inclua uma forma de ser removido. Para ser removido de futuros correios desta empresa, responda este e-mail indicando no assunto: remover e digite o e-mail keratuar@gmail.com completo para que possamos efetuar a exclusão. Agradeço com carinho, FLÁVIO ROCHA - KERATUAR Agência de Atores, Técnicos e Promoção Cultural. 

RACISMO – INTOLERÂNCIA RELIGIOSA VIOLÊNCIA CONTRA MULHER – ABUSO DE
AUTORIDADE-TORTURA



Sábado dia vinte e três de outubro de 2010, por volta das 14: 00 hora, um
pelotão da Polícia Militar da Bahia, invadiu o assentamento D. Helder
Câmara, em Ilhéus, levando a comunidade de trabalhadores e trabalhadoras
rurais a viverem um momento de terror, tortura e violência racial.

Os fatos: Ao ser questionado pela coordenadora do assentamento e sacerdotisa
(filha de Oxossi) Bernadete Souza, sobre a ilegalidade da presença do
pelotão da polícia na área do assentamento, por ser este uma jurisdição do
INCRA – Instituto Nacional e Colonização de Reforma Agrária e, portanto a
polícia sem justificativa e sem mandato judicial não poderia estar ali.
Menos ainda, enquadrando homens, mulheres e crianças, sob mira de
metralhadoras, pistolas e fuzil, o que se constitui numa grave violação de
direitos humanos. Diante deste questionamento, o comandante alegando
“desacato a autoridade” autorizou que Bernadete fosse algemada para ser
conduzida à delegacia. Neste momento o orixá Oxossi incorporou a sacerdotisa
que algemada foi colocada e mantida pelos PMs Júlio Guedes e seu colega
identificado como “Jesus”, num formigueiro onde foi atacada por milhares de
formigas provocando graves lesões, enquanto os PMs gritavam que as formigas
eram para “afastar satanás”. Quando os membros da comunidade tentaram se
aproximar para socorrê-la um dos policiais apontou a pistola para cabeça da
sacerdotisa, ameaçado que se alguém da comunidade se aproximasse ele
atirava. Spray de pimenta foi atirado contra os trabalhadores. O desespero
tomou conta da comunidade, crianças choravam, idosos passavam mal. Enquanto
Bernadete (Oxossi) algemada, era arrastada pelos cabelos por quase 500
metros e em seguida jogada na viatura, os policiais numa clara
demonstração de racismo e intolerância religiosa, gritavam “fora satanás”!
Na delegacia da Polícia Civil para onde foi conduzida, *Bernadete ainda
incorporada bastante machucada foi colocada algemada em uma cela onde havia
homens, *enquanto policias riam e ironizavam que tinham chicote para afastar
“satanás”, e que os Sem Terras fossem se queixar ao Governador e ao
Presidente.

A delegacia foi trancada para impedir o acesso de pessoas solidarias a
Bernadete, enquanto os policias regozijava*m *– se relatando aos presentes
que lá no assentamento além dos ataques a Oxossi (incorporado em Bernadete)
também empurraram Obaluaê manifestado em outro sacerdote atirando o mesmo
nas maquinas de bombear água. Os policias militares registraram na delegacia
que a manifestação dos orixás na sacerdotisa Bernadete se tratava de
insanidade mental.

A comunidade D. Hélder Câmara exige Justiça e punição rigorosa aos culpados
e conclama a todas as Organizações e pessoas comprometidas com a nossa
causa.

Contra o racismo, contra a intolerância religiosa, contra a violência
policial, contra a violência à mulher, pela reforma agrária e pela paz.

Projeto de Reforma Agrária D. Hélder Câmara

Ylê Axé Odé Omí Uá

Eu nunca tive um amigo negro

11:59 @ 26/08/2010

Eu nunca tive um amigo negro

Publicada em 24/08/2010 às 17h46m no Jornal “O Globo”

    Artigo do leitor Cláudio César Dutra de Souza

Nunca se discutiu tanto a questão racial no Brasil como na época da aprovação da lei das cotas para negros em nossas universidades públicas. Também foi esclarecedora a percepção de nossas limitações nesse assunto. Subitamente, fomos brindados com as mais sofisticadas teorias sobre a inexistência do conceito de "raça", que seriam muito bem vindas caso não estivesse totalmente deturpadas pelo nosso "racismo cordial".

" Branqueamos os nossos negros, paradoxalmente, para mantê-los afastados de nós e de qualquer compensação reparatória, mesmo que mínima "

Ao pensar em um suposto "conflito racial", algumas pessoas foram a público denunciar a inconstitucionalidade, a aberração e a inutilidade de uma política de cotas para negros, visto que não existe racismo no Brasil. Daiane dos Santos, Neguinho da Beija-Flor e tantos outros foram "branqueados" e alçados a sua genética condição europeia que lhes excluiria de uma vaga especial pelo sistema de cotas. Ao lermos o livro de ficção científica de Monteiro Lobato, "O presidente negro", somos capazes de entender o que pode significar tais asserções e os aspectos políticos nelas envolvidos. Branqueamos os nossos negros, paradoxalmente, para mantê-los afastados de nós e de qualquer compensação reparatória, mesmo que mínima.

O fato é que somos racistas até a medula nesse país. Isso não significa que, em nossa história, queimamos negros vivos como muitas vezes aconteceu nos Estados Unidos na época da Klu-Klux-Klan ou que nossos negros fossem impedidos de sentar ao lado de brancos nos ônibus. Isso é tecnicamente incompatível com o nosso caráter cordial-lusitano, até mesmo porque é desnecessário quando os negros "sabem o seu lugar". E onde é esse lugar a qual designamos historicamente os nossos negros?

Basta pensar em qualquer garoto (a) de classe média branco (a) no Brasil em relação ao seu círculo próximo de amigos para se ter uma resposta muito rápida e precisa. Quase ninguém tem ou teve qualquer amigo negro. Quando falo em amigo não estou me referindo a conhecidos, mas sim, aqueles a quem dividimos nossos sucessos, alegrias, fracassos ou angústias. Aqueles que são convidados para dormir ou almoçar em nossas casas, bem como aqueles que podem se tornar objeto de nosso interesse amoroso. Eu jamais tive um amigo negro e tampouco alguma negra pela qual pudesse me apaixonar, pelo simples motivo que não convivi com eles na minha infância e adolescência como estudante em uma escola privada de Porto Alegre. Eles simplesmente não existiam.

Quando veio ao Brasil em agosto de 1960, o filósofo Jean Paul Sartre percebeu com perplexidade a ausência de negros em suas concorridas palestras. "Onde estão os negros?", perguntou ele a certa altura para o constrangimento dos universitários ali presentes. Alguém responderia a Sartre que não havia negros no recinto tão somente por causa da falta de mérito dos mesmos em conquistar um lugar no espaço universitário? Nesse período, o dramaturgo Nelson Rodrigues também se perguntava: "Onde estão os negros do Itamaraty? Procurei em vão um negro de casaca ou uma negra de vestido de baile. O Itamaraty é uma paisagem sem negros."

" Alguém responderia a Sartre que não havia negros no recinto tão somente por causa da falta de mérito dos mesmos em conquistar um lugar no espaço universitário? "

Nelson publicou em uma de suas "confissões" no jornal Última Hora em 26 de agosto de 1957 a seguinte observação acerca do teatrólogo e futuro senador da República Abdias do Nascimento: "O que eu admiro em Abdias do Nascimento é a sua irredutível consciência racial. Por outras palavras: trata-se um negro que se apresenta como tal, que não se envergonha de sê-lo e que esfrega a cor na cara de todo o mundo. (...) Eu já imagino o que vão dizer três ou quatro críticos da nova geração: que o problema não existe no Brasil. Mas existe. E só a obtusidade pétrea ou a má fé cínica poderão negá-lo. Não caçamos pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos Estados Unidos. Mas fazemos o que talvez seja pior. A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós o tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite. Acho o branco brasileiro um dos mais racistas do mundo".

A exata localização de nossos negros me intriga. Essa inquietação já me levou a dirigir o meu olhar na esperança de encontrá-los, por exemplo, nas universidades em Porto Alegre. Munido desse olhar específico, passei dias no campus do Valle da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em busca de negros nas áreas comuns do campus e não os encontrei, salvo como funcionários da cantina. Em entidades particulares a experiência se repetiu exatamente da mesma forma. Tudo era uma branca e vasta paisagem, com poucas gradações de cor.

Intrigado com tudo isso, estendi a minha observação aos lugares na noite a quais frequento bares, restaurantes, cinemas e casas noturnas em geral. Eles não estavam lá. Não existem negros ou grupos de negros se divertindo junto com brancos ou estudando junto com brancos, salvo raras e honrosas exceções. Essa situação se repete nas principais cidades do Brasil, não sendo apenas um fenômeno típico de Porto Alegre.

Os negros estão nas periferias, nas favelas, nas escolas públicas mais suburbanas, nos presídios e em subempregos pelo país afora. É hipocrisia nossa imaginarmo-nos, por um instante que for, que vivemos em uma sociedade multicultural, inter-racial, ou qualquer coisa desse tipo. É urgente que nossos negros comecem a desenvolver certa consciência racial e a problematizar o lugar que ocupam dentro de uma sociedade racista como a nossa. Que exijam serem reconhecidos para além dos estereótipos e que ocupem os lugares reservados à elite branca. Que exijam a compensação por séculos de escravidão e exclusão a que foram obrigados pelo escravocrata branco. Se bem que, se a reação causada por um reles ensaio de ação afirmativa se deu em um nível histriônico, poderíamos esperar coisas piores de nossos alvos cidadãos em face de ações mais contundentes.