O
Movimento Negro brasileiro perde um de seus ícones na luta contra o
racismo, o
Inventor do Dia Nacional da Consciência Negra
Obituá¡rio
02/01/2009 - 08h25min
Morre gaúcho
idealizador do Dia da Consciencia Negra
Oliveira Ferreira da
Silveira tinha 67 anos e fez parte do Grupo Palmares
O
professor, poeta e pesquisador gaúcho Oliveira Ferreira da Silveira
morreu
às
22h30min de quinta-feira, aos 67 anos, vítima de cancer. Ele
foi um dos
idealizadores do Dia
da Consciência Negra (20 de novembro), cujas
comemorações se
iniciaram em 1971 com o Grupo Palmares em Porto Alegre —
entidade que,
durante o regime militar, evocou ícones negros como Luiz Gama e
José do Patrocínio.
Silveira estava
internado há15 dias no Hospital Ernesto Dornelles, na
Capital. Natural de
Rosário do Sul, era formado em Letras pela Universidade
Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS), com especialização em língua
francesa, e
professor aposentado da rede pública de ensino.
Silveira deixa filha
e netos. Seu corpo será cremado nesta sexta-feira em
Caxias do Sul, em
cerimônia reservada. Não haverá velório.
ZEROHORA.COM
A
despeito da notícia acima, a sexta-feira amanheceu,
literalmente,
acinzentada em Porto
Alegre, como a lamentar a essa perda, nosso poeta partiu,
discretamente, como
sempre viveu.
Lutador incansável
pela causa do negro, muitas vezes radical, mas sempre
coerente, também
participou do Grupo Razao Negra, levando sua experiencia e
sua
visao á um grupo de jovens idealizadores, na dé©cada de 70/80.
Lamentamos a sua
perda, mas temos a certeza de que mais uma estrela brilha no
céu, e em sua mao
já está uma caneta e a sua frente um papel para
continuar escrevendo
suas poesias e anotando suas conclusoes a respeito de
tantas pesquisas que
realizou, e em algum momento elas chegarao até nós,
seus discípulos,
que continuarmos com a sua luta!
Â
Oliveira nao queria
cerimonia fúnebre, mas hoje às 18h15min estaremos na
Igreja do Rosário,
prestando uma homenagem póstuma, convidamos os amigos e
comunidade a
comparecerem, e aos que nao puderem estar presente, que nesta
hora elevem seu
pensamento a Deus pedindo que Ele receba o nosso poeta em
sua
Luz.
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Oliveira
Silveira contra a metáfora chapa-branca
RonaldAugusto
· Porto Alegre (RS) · 17/10/2007 19:05 · 130 votos · nenhum ·
pintura
de rosa marques *
Oliveira
Silveira, poeta, nasceu em Touro Passo (RS) no ano de 1941. Publicou,
entre outros, Germinou, Porto Alegre, 1968; Banzo, Saudade Negra,
Porto Alegre, 1970; Pêlo Escuro, Porto Alegre, 1977; Roteiro dos
Tantãs, Porto Alegre, 1981; Anotações à Margem, Porto Alegre,
1994. Todos livros de poesia. Seus poemas também já foram
traduzidos, entre outras línguas, para o inglês e o alemão, e
essas traduções apareceram respectivamente na revista Callaloo, The
Johns Hopkins University Press (1995), e na antologia Schwarze
Poesie, Edition Diá, 1988.
De
1995 para cá, mais exatamente com a publicação do ensaio
“Transnegressão” (in Presença negra no Rio Grande do Sul, org.
Fernando Seffner, UE, Cadernos Porto & Vírgula, págs. 47-55),
momento em que comecei a escrever de maneira mais crítica a respeito
de poesia e coisas afins, o percurso textual de Oliveira Silveira tem
sido objeto do meu interesse e da minha fruição. Cabe lembrar (e
disso me orgulho) que mantemos um diálogo fraterno já há mais de
25 anos.
Sobre
sua poesia, entre outras coisas, posso adiantar ao leitor que
Oliveira Silveira despreza a complexidade do “literário”
convencido e convencional em benefício de outra espécie de
complexidade, a saber, ele credita suas forças numa secura antes
espartana do que cabralina. Oliveira é capaz de uma contensão e de
uma elegância que só me permito associá-las à sempiterna e
serpentina vanguarda da velha-guarda de todos os sambas. A
metalinguagem do samba - que se dá a ver na mais ligeira recordação
de alguns exemplos do seu cancioneiro -, desmente a concepção de
que o uso da metalinguagem é uma prerrogativa viciosa e restrita à
erudição de cunho burguês. Assim, como acontece na arte dos
grandes sambistas, a nota metalinguística comparece na obra de
Oliveira Silveira, mas de maneira não exibicionista. Oliveira,
então, fala de poesia no poema, mas como se reconhecesse um discreto
fardo contido nesta sorte de felicidade “arte-feita”.
A
gestalt severa e exata da poesia de Oliveira, sua brevidade grave e
algo epigramática - considerada se quisermos a partir da perspectiva
que reconhece uma vertente negra na literatura brasileira -, é
emblema de ceticismo tanto em relação à ética do homem branco,
quanto ao viés estético referendado pelo meio literário,
representação especular, mas com suas particularidades, dos
conflitos étnicos e sociais presentes sob o arco ideológico.
Oliveira nunca perde de vista, no trato com a matéria verbal, que o
que aí está em causa é a visão da poesia como arte, isto é, ele
constrói o poema desde um ponto de vista estético. A poesia é uma
coesão fundo-forma. A idéia ou o conteúdo são visados pelo poeta
como dados estéticos e construtivos agenciados e relacionados a
outros dados estéticos que compõem a estrutura do poema. Sua
poesia, portanto, não cabe dentro dos limites reducionistas de uma
“arte participante” ou engajada.
A
poesia de Oliveira Silveira se nutre de uma salutar desconfiança a
propósito do poder de comunicação da metáfora. Silveira parece
dar-se conta de que a naturalização da metáfora, sua precedência,
por assim dizer, sobre outros elementos da função poética da
linguagem, encobre um barateamento expressivo mesclado a uma afetação
kitsch que está a serviço da mundanização da figura do poeta e de
sua inserção filisteísta nos quadros de um sistema literário cada
vez mais chapa-branca. Felizmente, imbricada em sua poesia elegante
há a dose essencial de antipoesia.
Os
poemas de Oliveira Silveira continuam, portanto, críticos e, a cada
dia que passa, menos alambicados. Um desaforo calmo aos medianeiros
da metaforização indecorosa. Os versos de sua linguagem produzem
uma estranha delicadeza que vela maliciosamente o cacto “áspero,
intratável e forte”.
Oliveira,
o homem que inventou o 20 de Novembro. Tradutor de Aimè Cèsaire e
Langston Hughes. Poeta que se atreveu a exercitar, hoje, o que nos
restou do eco épico (Souzalopes dixit) sem cair em erro: refiro-me à
obra Poema sobre Palmares de 1987, onde Oliveira tematiza e recria a
experiência histórica e hoje canonizada do mais importante quilombo
das Américas. Silveira, um dos poucos poetas que se banhou na
líquida algaravia das línguas africanas. E mesmo não se dedicando
por inteiro a uma franca experimentação poética, Oliveira, em
alguns dos seus livros, tem contribuído com inteligentes exemplos de
poemas que se fragmentam até a unidade mínima da palavra, isto é,
a letra.
Em
tais poemas, suspensa na página branca, a letra quase deixa de ser
letra ao “contornar” ou esboçar, digamos assim, desenhos
metonímicos de atabaques, gaiola, banjo: em suma, todo um arranjo
não-convencional, concorrendo para subverter a linearidade
discursiva. Não tenho receio de afirmar que estes poemas ampliam
consideravelmente as possibilidades de leitura da obra de Oliveira
Silveira.
E,
finalmente, numa época em que a prática da autopromoção faculta a
muito poeta de segunda categoria um lugar de destaque no florilégio
medíocre das letras “locais” (Porto Alegre), o silêncio vil e
incivil em torno do nome de Oliveira Silveira - sem esquecer que para
isso contribui a sua orgulhosa e solitária modéstia - pode ser
interpretado como um sinal de distinção. Em resumo: quem não leu
ainda a poesia de Oliveira, seja por imperícia, seja por má-fé,
que não atrapalhe.
Ronaldo
Augusto
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