Grupos

FONTES: www.irohin.org.br
01/03/2009 - Fonte: O Globo
A voz dos senhores - Míriam Leitão

O escritor romântico José de Alencar, de “O Guarani”, “Iracema” e
tantos outros, era também um fervoroso militante do escravagismo. Como
parlamentar e jornalista, ele se entregou com paixão ao debate do
século XIX para manter o que ele chamava de “instituição”. Seus
argumentos revisitados são reveladores do país em si. De alguma forma,
há algo deles entre nós.

Em críticas ácidas ao imperador, inspirador de projetos
abolicionistas, Alencar lança mão de tudo que possa chamar de
argumento: D.. Pedro II estaria agradando a potências estrangeiras, o
fim da escravidão jogaria o país na guerra social, a “instituição” se
esgotaria por si mesma; encerrada prematuramente, faria com que os
negros cobrassem o que consideravam “justa reparação”; aqui, o
cristianismo adoçara a escravidão tornando-a “mera servidão”; a
escravidão no Brasil permitia que ex-escravos se integrassem
perfeitamente à sociedade.

O livro “Cartas a favor da escravidão”, organizado por Tâmis Parron,
tem o mérito de trazer de volta, com o frescor do momento em que foram
colhidas, as palavras de um notório intelectual brasileiro defendendo
o indefensável. Muito se aprende no livro. Da liberdade de imprensa do
Império, da contradição e da ambiguidade do pensamento convencional,
da batalha das ideias.

Os vencedores da batalha, como Joaquim Nabuco, tiveram seus argumentos
exibidos. Mas o outro lado, o que sustentou por tanto tempo a
perversidade, dele pouco se fala. As Obras Completas de José de
Alencar sofreram um expurgo. Os ensaios “Ao Imperador: novas cartas
políticas de Erasmo”, como ele as chamou, ficaram esquecidos naquele
mesmo compartimento onde estão o que não gostamos de admitir de nossa
história e do nosso caráter.

O leitor contemporâneo constatará que Alencar é contraditório, um
pensamento ora explícito, ora envergonhado; reconhecerá sofismas de
outros debates; notará a tendência de eximir o Brasil e acusar os
outros países pelos nossos erros.

Das manias nacionais, o non sequitur, o pensamento sem sequência
lógica, está lá. Para Alencar, a escravidão é instituição
civilizadora, com a qual a Humanidade construiu o progresso; ainda
indispensável no Brasil. A certa altura, no entanto, diz que a “causa
moral do trabalho livre” já estava ganha no país, diz até que “para os
filhos da Nigrícia já raiou a luz e raiou na terra do cativeiro”. Para
ele, a “escravidão caduca”, mas o abolicionismo era um “fanatismo do
progresso”. Pergunta se a escravidão é uma instituição exausta. E
responde: “Nego, senhor, nego com a consciência um homem justo que
venera a liberdade”, e termina afirmando: “a escravidão encerra a mais
sã doutrina do Evangelho”.

O estilo radical a favor dos que adotam um tom rebelado para manter o
status quo está lá também. Diz que “as doutrinas que seduziram” o
imperador eram uma “conspiração do mal, uma grande e terrível
impiedade”. E comparou o abolicionismo com as “seitas exterminadoras”
que buscam o “fantasma do bem através do luto e da ruína”.

Os argumentos de que no Brasil a opressão é suave pela índole do povo
brasileiro, ou pela mistura, estão lá. “Em três e meio séculos, o
amálgama das raças havia de operar em larga profusão fazendo
preponderar a cor branca. Três ou quatro gerações bastam, às vezes, no
Brasil, para uma transformação completa.” Ou “resolve-se a escravidão
pela absorção de uma raça pela outra”. A índole brasileira “adoça o
cativeiro” até transformá-lo em “uma tutela benéfica”. Para ele: “um
espírito de tolerância e generosidade, própria do caráter brasileiro,
desde muito transforma a instituição.” O país já não tinha, diz
Alencar, a “verdadeira escravidão”, mas o simples “usufruto da
liberdade”. Afirmou que os que compram a liberdade são recebidos pela
sociedade com “um espírito franco e liberal que acolhe e estimula”..
Ao mesmo tempo, é explícito em seu racismo. Certo momento, lamenta que
os índios
tenham “preferido” o extermínio à escravidão, obrigando o país a ter
o negro: “Não houve remédio senão vencer a repugnância do contato com
raça bruta e decaída”.

A ideia da escravidão suave é destruída por ele mesmo. “O liberto por
lei é inimigo nato do antigo dono.” Segundo Alencar, o imperador
estaria expondo a nação ao risco de um “vulcão”, de “uma grande
calamidade!”. A libertação exporia a população à “sanha de um inimigo
irritado pela anterior submissão, movido por instintos bárbaros e
exclusivamente preocupado desse desígnio sinistro que ele supõe seu
direito e considera uma justa reparação de um agravo”.

Chama de “detratores da pátria” os que davam razão às críticas
estrangeiras à escravidão; refere-se, com ironia, aos abolicionistas
como os “filantropos” e culpa a Europa por todos os crimes que eram
praticados no Brasil, já livre àquela altura. A Europa era culpada — e
aqui um raro bom argumento — porque consumia os produtos fabricados
com o trabalho escravo; era culpada por ter iniciado o tráfico e era
culpada porque não mandava para o Brasil levas de migrantes que
“despejassem sangue vigoroso para restabelecer o temperamento da
população e lhe restituir robustez”.

É profético em alguns momentos. Quando diz que a escravidão acabaria
em duas décadas. Ele escreveu isso 21 anos antes da abolição. Quando
ameaça o imperador: “a mesma Monarquia, senhor, pode ser varrida para
o canto entre o cisco das ideias estreitas e obsoletas”.

http://oglobo.globo.com/economia/miriam/

CLIPPING
28/02/2009 - Fonte: Folha de S. Paulo
São intransigentes os quilombolas?

MARISTELA DE PAULA ANDRADE
IMAGINADA pelos militares nos anos 1980 como um "vazio demográfico",
Alcântara torna-se um problema -jurídico e fundamentalmente social- a
partir da Constituição de 1988, que garantiu aos chamados
remanescentes de quilombos o direito a titulação de seus territórios.

Em 2000, a Fundação Palmares reconheceu o território étnico de
Alcântara, integrado por mais de 150 comunidades, onde residem e
trabalham cerca de 17 mil pessoas. Vivem da pesca, da agricultura, do
extrativismo. Sua economia se baseia no uso comum dos recursos, de
acordo com o que a legislação nacional e a internacional reconhecem
como populações tradicionais. São grupos protegidos por lei pelo fato
de sua dinâmica interna representar um patrimônio social e cultural
contemplado na Constituição Federal (artigos 215 e 216 e artigo 68 do
ADCT - Ato das Disposições Constitucionais Transitórias) e na
Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), da qual
o Brasil é signatário.

Nos anos 1980, 312 dessas famílias foram retiradas compulsoriamente
dos seus lugares, à beira do oceano, e instaladas nas agrovilas, onde
não podem se reproduzir material e socialmente, pois tais áreas são
distantes do mar e constituídas de solos arenosos. Ainda hoje não têm
títulos das terras e das casas a elas entregues pela Aeronáutica e os
jovens casais são proibidos de aí edificar novas residências. Tal
situação conforma um processo de limpeza étnica, pois os jovens são
obrigados a migrar para as periferias de Alcântara e de São Luís,
proibidos de viver nos territórios de ancestrais.

O Brasil responde hoje na Câmara Interamericana de Direitos Humanos da
OEA (Organização dos Estados Americanos) pelo fato de ter tratado
esses brasileiros como cidadãos de segunda categoria, além de ter
provocado uma grave desestruturação ambiental e social no município
como um todo. Há também uma ação interposta na OIT no mesmo sentido.
Atualmente, as famílias que permaneceram no litoral do município são
atingidas pela ação de empresas ligadas à Alcântara Cyclone Space,
binacional brasileiro-ucraniana. Em 2008, passados oito anos da
instauração de uma ação civil pública no âmbito da qual se cobra do
Estado Brasileiro a titulação do território quilombola de Alcântara,
empresas contratadas pela ACS invadiram os povoados do litoral onde
pretendiam implantar três sítios de lançamento.

Ali realizaram inúmeras perfurações, suprimiram vegetação sem licença
do Ibama e destruíram caminhos, roçados e margem de rios. Ameaçadas em
suas condições de existência, as famílias reagiram instalando
barreiras e obrigando a empresa a se retirar. No final de 2008 foi
homologado judicialmente um acordo acerca da titulação do território.
As empresas não realizariam obras no território quilombola, recuando
para dentro dos 8.700 hectares já detidos pelos militares. As partes
se comprometiam a não recorrer da decisão. Agora, o Gabinete de
Segurança Institucional solicita a instauração de uma câmara de
conciliação perante a AGU (Advocacia Geral da União), desrespeitando
aquela decisão judicial.

Toda e qualquer reação dessas comunidades à entrada das empresas em
seus povoados hoje deve ser entendida à luz de acontecimentos que
atravessam três décadas -e não pode ser qualificada simplesmente de
intransigência. São quase 30 anos de violência, de descumprimento da
legislação, de desrespeito a acordos lavrados em cartório ou
estabelecidos judicialmente. Nesses lugares, a luz elétrica e o
telefone chegaram há apenas dois anos. Nas agrovilas, famílias foram
separadas, sua soberania alimentar foi duramente atingida, a
realização de festas e rituais foi seriamente comprometida e foi
suprimido o contato com os cemitérios antigos.

Após tanta violência, o governo deve estabelecer diálogo pautado no
respeito a esses grupos. Assim sugeriram os quilombolas, propondo
reunião que seria realizada no último dia 18, em São Luís, na
Federação dos Trabalhadores na Agricultura, mas a ACS, segundo
informações de Samuel Moraes, presidente do STTR (Sindicato dos
Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais) de Alcântara, recuou.

MARISTELA DE PAULA ANDRADE , 60, historiadora, com doutorado em
antropologia social pela FFLCH-USP, foi assessora especial da
Presidência do Incra (1985-1986). É professora da UFMA e autora de
"Terra de Índio - Identidade Étnica e Conflito em Terras de Uso
Comum".

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2802200908.htm


NOTA DE DENÚNCIA E REPÚDIO

17:44 @ 09/03/2009

 NOTA DE DENÚNCIA E REPÚDIO


Fato lamentável que tem ocorrido no cotidiano das escolas voltou a
acontecer, a Coordenadora Pedagógica Ana Paula da Escola Municipal de
Ensino Fundamental Caio Sérgio Pompeu de Toledo sito à Rua Nascer do
Sol, nº 180 - COHAB Cidade Tiradentes, depois de ter solicitado a
saída da quadra esportiva da escola dos adolescentes que ali estavam
e os mesmo terem saído, chamou a Guarda Civil Metropolitana, mesmo a
situação ter sido resolvido entre ela e os adolescentes. O fato
aconteceu no horário de saída do período da tarde por volta das 18h30;
envolvendo três adolescentes, sendo um aluno que havia acabado de sair
da escola e dois ex-alunos que depois de terem sido advertidos pela
coordenadora Ana Paula estavam na calçada em frente da escola quando
foram apontados pela Coordenadora Pedagógica e acusados de ser o
motivo de sua solicitação ao comparecimento da viatura da CGM no
local.

Sua atitude levou o acontecimento a um desdobramento brutal e chocante
da história. Os GCMs, desconhecendo o seu papel, que é zelar pela
integridade do
patrimônio público, o que não aconteceu nessa situação, os Guardas sem
se quer ter o bom senso de apurar os fatos, o que seria razoável, para
orientar a Coordenadora que tal papel cabia a própria escola
exercê-lo, assumiu o papel de policia que não cabia no ocorrido, foram
até aonde estavam os adolescentes e arrastaram-nos para a calçada da
escola forçando-os a colocar a mão na cabeça e os adolescentes
alegaram que não o fariam, pois não haviam feito nada, fato que
provocou a ira dos Guardas que passaram a agredir gratuitamente os
adolescentes na frente de varias testemunhas que ali estavam para
receberem seus filhos e parentes que estavam de saída do horário
escolar, algumas pessoas não aceitando a ação da GCM começaram a
"revidar" o que os levou a chamarem mais reforços e em seguida de
armas em punho começaram a correr atrás das pessoas, o que provocou um
grande tumulto em frente da escola e na comunidade. Não satisfeitos
adentraram ao prédio onde mora um dos alunos que havia acabado de sair
da escola e entraram na casa de uma vizinha e algemaram e bateram em
dois adolescentes, o filho de Kika e seu amigo.

Levados para a 54 DP, já com a presença da mãe de um dos adolescentes (
Kika Silva – militante histórica do movimento negro, de mulheres
negras e de Direitos Humanos), os guardas desqualificaram a militância
da mesma e entraram na cela da delegacia aonde estavam os
adolescentes, apontando a arma para os mesmos intimidando e os
ameaçando, falaram ao se dirigirem ao filho da Kika “Sua mãe é merda
para nós" ela pensa que é o que, ela é nada" dentre outros absurdos.

Este fato ocorreu no dia 16 de Fevereiro de 2009, no dia seguinte seu
filho ao ir até a padaria, quando percebeu a viatura da GCM com os
mesmos soldados que os espancaram acompanhando e o encarando, na porta
da EMEF Caio Sergio Pompeu de Toledo na mesma tarde compareceram mais
seis viaturas na saída da escola.

Durante o ocorrido, outro adolescente assumiu as agressões que
ocorreram no interior da escola, isentando os adolescentes, que foram
agredidos. Mas o tratamento dado pela direção da escola e a violência
perpetrada pelos GCMs, ambos órgãos do governo municipal que em tese
um deveria não somente alfabetizar, mas dar a noção dos direitos de
seus cidadãos e cidadãs e o outro resguardar esses princípios
garantindo não somente o patrimônio público material, mas um dos bens
mais caros de qualquer pessoa que é o direito de ter direitos
garantidos na constituição e no ECA, o de ir e vir o direito de ser
ouvido. O que se constata é a máxima "Culpado até que se prove o
contrário" , para os jovens da periferia, isto com a conivência da
direção escolar e daqueles que deveriam nos proteger.

Os fatos relatados apontam, para questões que os defensores militantes
de direitos humanos devem denunciar e repudiar veementemente:


1º Violação do Estatuto da Criança e do Adolescente, quando deixa
claro que todas as crianças e adolescentes devem ser colocados a salvo
de qualquer situação de constrangimento e ser acusado sem provas;


2º Crescente processo de criminalização da pobreza e em especial da
adolescência e juventude negra;


3º Crescente processo de militarização da educação;


4º Desrespeito dos Direitos Humanos por parte dos agentes do estado;


5º Ação truculenta da Guarda Civil Metropolitana que além de violar os
direitos previstos no ECA, cometeram uma ação ilegal e continuam a
fazê-lo, intimidando os adolescentes que o estão denunciando.


6º O Delegado da 54 DP, que era o responsável legal por resguardar os
direitos de todos aqueles que se encontram nas dependências da
delegacia.


--
Abraço fraterno,


Giva

blog:http://infanciaurgente.blogspot.com/

"Governo que não respeita a Defensoria Pública, não respeita os
direitos da sua população!"

Nos bastidores do carnaval da Bahia nada é festa

Posted In: Temática Negra . By Yoná Valentim

Escrito em Fev/2007...


É carnaval em Salvador! Hoje as chaves da cidade serão entregues ao Rei Momo que, por quase uma semana, comandará os festejos carnavalescos que reforçarão a imagem da cidade como a capital nacional da alegria e das festas de rua. Os bastidores, no entanto, mostram que a coisa não é bem assim.
Chegar a Salvador nestes dias é, antes de tudo, realizar uma grande imersão na tão louvada, cantada e propalada negritude da primeira capital do país. De fato, é em Salvador que se concentra a maior população negra do Brasil. Do aeroporto até o subúrbio, em prédios, placas de anúncio, postes e outros espaços o que se vê são as belíssimas fotos de Sérgio Guerra homenageando negras e negros do candomblé, do campo popular, as baianas, os trabalhadores. De fato uma bela homenagem. Para realizá-la Sérgio Guerra contou com o apoio de quase três milhões de reais da empresa pública Petrobrás. Os negros, sem dúvida, agradecem a bela homenagem.Um olhar um pouco mais atento, entretanto, perceberá que tirante o fato de os negros estarem retratados nestes e noutros espaços eles não se encontram nas chamadas esferas de poder da capital baiana. Visitar secretarias, participar de programas de televisão, realizar reuniões com representantes do poder público me fizeram perceber que os negros na Bahia não decidem por si. Os brancos fazem isso.A Bahia é um estado interessante. Contando com a maior população negra do país este que é o quarto maior estado da Federação em importância política e econômica elegeu apenas um parlamentar negro para a Câmara dos Deputados. Este, no entanto, movido por razões tão sofisticadas que fogem completamente à minha compreensão preferiu, no entanto, deixar a possibilidade de, no parlamento tornar-se uma voz nacional dos negros brasileiros, para assumir uma secretaria de pouca visibilidade política, nenhum recurso e com pouquíssimo poder de ação. É a negra Bahia que elege aquele que talvez seja o único governador de olhos verdes no país. É a sincrética Salvador que elege um prefeito evangélico enquanto a Igreja Universal comanda ataques a terreiros de candomblé. É neste lugar que é mais visível o apartheid sócio-racial brasileiro e se percebe o quanto o racismo é institucionalizado e as relações verticalizadas.Mas é carnaval e é dele que estamos falando! Eu não estou em Salvador à toa e nem mesmo a passeio. Pela primeira vez em minha vida uma organização do Movimento Negro me convidou para trabalhar com ela e é pela sua proposta e concepção política que não só aceitei o trabalho como, pela primeira vez, estou tendo a possibilidade de assistir e participar do nascimento de uma nova forma de se fazer militância política no campo das relações étnico-raciais brasileiras.O Coletivo de Entidades Negras (CEN) surgiu dois anos atrás com a perspectiva de agregar em torno de si a juventude, as mulheres, as religiões de matriz africana e grupos culturais distintos tais como os blocos, afoxés entre outros. O CEN é entidade de base. Realiza semanalmente uma bagunçada assembléia onde, freqüentemente, gritos e manifestações de apoio ou censura podem soar ao incauto como a iminência de uma batalha física entre seus membros. Mas não é! Na verdade o que ocorre é que ao dar voz àqueles que não tem voz, o Coletivo de Entidades Negras é o espaço para o surgimento das mais distintas demandas. É onde aqueles que nunca puderam nem mesmo olhar para cima são tratados com extrema dignidade e respeito. Isso faz a diferença na postura, na forma de ver o mundo e na atuação política. Dois anos atrás algumas das entidades membros do CEN não tinham perspectiva alguma. Hoje, a noção de pertencimento fortalece umas as outras e isto causa grande temor nos brancos e verdadeiro terror em negros que se acostumaram a ser os porta-vozes da negritude baiana nos últimos 30 anos.As camadas formadoras do carnaval da BahiaÉ carnaval em Salvador! O carnaval em Salvador é formado por muitas camadas. As mais visíveis são aquelas que fazem a alegria dos paulistas e cariocas endinheirados; são transmitidas ao vivo e em cores pelas emissoras de TV mundo afora; reforçam a noção de país dividido racialmente quando de um lado das cordas estão os brancos festivos que compram seus abadás por até dois mil reais, e do lado de fora os pobres pretos, pardos, mulatos, cafuzos e confusos foliões que enfrentam a truculência dos cordeiros (homens e mulheres que trabalham para ganhar em média 15 reais por dia, para garantir a tranqüilidade momesca dos brancos endinheirados) e a violência gratuita da Polícia Militar ? uma das mais violentas do país ? dirigida sempre aos negros.A outra camada é formada por gente comum e não celebridades artificiais ou não. São pessoas que há 20, 30, 40 anos e até mais que isso, realizam os carnavais de rua, mobilizam suas comunidades, embutem nesta ação uma série de trabalhos sociais e atingem o ápice de sua atuação no período das festas carnavalescas. Para estas pessoas e grupos o carnaval não é festa pura e simplesmente. É um pouco da projeção dos desejos e sonhos. É a coroação de um ano inteiro de trabalho que é todo canalizado para este momento. Este povo, no entanto, que atua cotidianamente com os negros e as negras pobres de Salvador que os homenageiam diuturnamente não recebem um tostão furado da Petrobrás. Na verdade, muitos deles nem sabem que a Petrobrás costuma financiar algumas atividades, principalmente aquelas que são realizadas por amigos que têm amigos nos lugares certos. Estas pessoas e grupos ? e quando falo pessoas e grupos é que porque muitas das vezes as histórias se confundem, em alguns casos estabelece-se uma relação dinástica em que os filhos herdam dos pais os trabalhos sociais que eram desenvolvidos e sua manutenção passa a ser uma atividade da família -, realizam grande parte de suas atividades sem nenhum tipo de apoio durante todo o ano. No entanto, ao aproximar-se o carnaval todos sabem que a prefeitura e o governo do estado irão aportar algum tipo de recurso para que o carnaval de Salvador se realize. É neste momento que começam uma série de movimentos.O carnaval de Salvador é diferente do restante do país! Não só por suas características musicais e estruturais, mas também da forma com que ele se relaciona com a cidade e com suas bases sociais. O carnaval não é apenas um evento. Ele é ao mesmo tempo ponto de partida e de chegada. Ele é início e fim de vários processos. Para os movimentos sociais é o momento de cumprir compromissos assumidos e começar a pensar nos próximos. Ao sinalizar com alguns recursos a prefeitura e o governo do estado autorizam estas entidades a contratarem fornecedores, projetarem custos, planejar atividades. Há décadas isto é feito. E há décadas as organizações de base sofrem cotidianas humilhações para realizar seu carnaval.A liberação dos recursos não é coisa fácil. Á medida em que o carnaval se aproxima os acordos vão sendo sistematicamente alterados. Os interlocutores do poder publico alternam-se em explicações ? sempre uma diferente da outra ? e ao término de tudo, os recursos quase sempre são menores do que o previsto e as entidades já partirão da quarta-feira de cinzas endividadas e com isso fortalecerão o círculo vicioso que faz desta prática uma das maiores indecências nas relações políticas constituídas no país, mas que é pensada para ser exatamente assim. Afinal enquanto os miseráveis se mantiverem miseráveis, disputarão entre si as migalhas que lhes forem atiradas.O pesado jogo de disputa e poderO carnaval de Salvador não é brincadeira para crianças pequenas. É um jogo poderoso, pesado e até mesmo violento. Ao fim de um dia de negociações com o poder público onde o cinimo, o mau-caratismo e a sensação de que eles tudo podem porque são os brancos lidando com os negros semi-analfabetos, empobrecidos e desesperados, você acaba moído física e emocionalmente. Parece que três brutamontes lhe deram uma sova e um comando torturador de Guantánamo lhe interrogou durante todo o dia. Você fica acabado. Se além disso você é uma pessoa que reflete, que lê as entrelinhas, que envergonha-se de negros que vendem outros negros, a violência então lhe atinge como um soco no estômago, um chute na costela e um monte de tapa na cara. De fato, o carnaval em Salvador é antes de tudo violento. Mas à noite os artistas brancos e negros estarão pulando como pipoca, animando a maior festa popular da terra, sem saber ou se sabem, ignorando, o verdadeiro massacre pelo qual passam determinados grupos, grupos estes, inclusive, que fazem parte da história pessoal de muitos desses artistas.Hoje é carnaval em Salvador. Quando o Rei Momo assumir o poder na cidade todas as negociações que foram feitas até aqui para que se liberassem recursos para as entidades de base estarão praticamente suspensas. Quando os recursos forem liberados após o carnaval (se forem) as organizações terão problemas não só para honrar seus compromissos mas também para justificá-los em prestações de contas já que legalmente terão recebido recursos depois que o evento já aconteceu. E à fria luz da lei as mumunhas políticas, as maldades de determinados indivíduos e o racismo subjacente não contam. Mas é disso que estamos falando. O Coletivo de Entidades Negras até a terça-feira, véspera de carnaval, não tinha um tostão em sua conta, nem mesmo os mais de cem mil que a prefeitura devia do carnaval de 2006, prometeu depositar, mas não havia depositado. O CEN neste processo representa 46 grandes entidades carnavalescas. Outros grupos menores encontram-se na mesma situação e até o momento em que este texto é escrito não haviam visto nem mesmo um documento assinalando a possibilidade de liberação de algum tipo de recurso. Outros grupos, no entanto, encontram-se em situação privilegiadíssima. Segundo o jornal A Tarde, o Fórum de Entidades Negras (que agrega os grandes e tradicionais blocos afro da cidade), recebeu um milhão da prefeitura mais um milhão e duzentos mil reais da Petrobrás (sempre ela!!). Ou seja, recursos públicos municipais, estaduais e federais que somam 2,2 milhões de reais, vieram para um conjunto de sete blocos. O outro grupo, que congrega 46 grupos nada recebeu. Como diria Caetano Veloso, alguma coisa está fora da ordem.O jogo é pesado no carnaval da Bahia! O Coletivo de Entidades Negras foi acusado de estar ameaçando determinadas pessoas para obter recursos. Isto foi dito por uma procuradora do Ministério Público quando os representes do CEN foram assinar o Termo de Ajustamento de Conduta. Que por sinal foi exigido ao CEN e não a outros grupos. O que era, na verdade, uma negociação política com a Fundação Palmares, o Ministério da Cultura e o Fórum de Entidades Negras virou, para o denunciante à promotora pública, um caso de extorsão e só não teve conseqüências mais sérias porque ela mesma achou risível que tal tipo de leviandade de um representante deste Fórum fosse levantada de tal maneira. Táticas de espionagem dignas do Agente 86 também são usadas. Tentativas artesanais de gravação de conversas telefônicas, fofocas, disse-me-disse, maledicências de todo o tipo e depois propostas as mais espúrias e feitas na surdina, fazem parte deste enredo.E para finalizar...É triste o carnaval em Salvador. É triste e humilhante. Mas não é isto que está posto. O que está posto é que há claramente uma disputa hegemônica. Aqueles que há quase trinta anos colocaram a negritude baiana em outro patamar ao valorizá-la em sua cultura não conseguem perceber a urgência de dar um segundo salto. Se lessem um pouco Charles Darwin saberiam que o processo evolutivo é gradual, mas que em vários momentos ocorrem determinados saltos. É o que está se dando agora na negríssima Salvador. Um segundo salto é necessário e está sendo preparado. Ao invés de apoiarem, estes setores se vêem ameaçados. Ao invés de tornarem-se parceiros tornam-se inimigos. Ao invés de se somarem juntam-se ao real inimigo para evitar que tal salto se dê. Ora, o inimigo do meu inimigo é meu amigo, logo se o meu potencial amigo se junta com meu inimigo, só posso pensar que não tenho amigo nenhum. E é isto que está posto.O carnaval de Salvador é a ponta do iceberg. É muito mais que festa, trio elétrico, beijo na boca e violência policial. O que ocorre hoje nos bastidores do carnaval da Bahia é uma clara sinalização do que se está construindo no país no momento em que os negros e as negras articulam-se para daqui um ano dizer que projeto político e que projeto de nação querem para o Brasil. Algo de muito sério está ocorrendo em Salvador. Negar este fato é não conhecer a realidade. Torcer o nariz é preconceito e bobagem! Salvador, tal como um farol está apontando caminhos, tanto para o retrocesso quanto para o avanço. O micro espaço do carnaval da Bahia reflete em síntese como as relações sociais se estabelecem e como é difícil sair da mesmice, apontar caminhos e construir novos paradigmas. Não é fácil. No entanto, o dado da realidade é que o que está acontecendo não é a vontade de meia dúzia de pessoas. Mas uma manifestação de base, com características populares que está tomando forma e que, oxalá, avance no sentido de se constituir como força política transformadora. E, quem sabe, daqui a trinta anos quando outros vierem para sucedê-la, sejam recebidos de braços abertos e não sob a perspectiva cruel e massacrante de outros, como temos visto neste momento.É carnaval em Salvador. Que 2007 seja o último carnaval da humilhação dos negros. Nelson Mandela diz que o princípio da liderança é ter claro que nada que favoreça o indivíduo pode beneficiar a nação. Este tipo de pensamento é o que deve permear as ações políticas. Não a lógica do favorecimento, dos círculos de amizade, dos acordos subterrâneos. É necessário ter em mente que o carnaval de 2008 será diferente, afinal, inspirados que somos no Fórum Social Mundial, podemos dizer que um outro carnaval é possível. E ouso ir além afirmando que outra Salvador será possível quando os negros saírem da subserviência, da miserabilidade e assumirem o papel que lhes cabe de fato nesta cidade: a condução do seu próprio destino

Marcio Alexandre M. Gualberto
Coordenador do Coletivo de Entidades Negras - CEN/RJ
Integrante de MamaPress - Agência de Comunicações Afro e Indígena - Alemanha



O Movimento Negro brasileiro perde um de seus ícones na luta contra o racismo, o

Inventor do Dia Nacional da Consciência Negra


Obituá¡rio 02/01/2009 - 08h25min

Morre gaúcho idealizador do Dia da Consciencia Negra

Oliveira Ferreira da Silveira tinha 67 anos e fez parte do Grupo Palmares

O professor, poeta e pesquisador gaúcho Oliveira Ferreira da Silveira morreu

às 22h30min de quinta-feira, aos 67 anos, ví­tima de cancer. Ele foi um dos

idealizadores do Dia da Consciência Negra (20 de novembro), cujas

comemorações se iniciaram em 1971 com o Grupo Palmares em Porto Alegre —

entidade que, durante o regime militar, evocou í­cones negros como Luiz Gama e

José do Patrocínio.

Silveira estava internado há15 dias no Hospital Ernesto Dornelles, na

Capital. Natural de Rosário do Sul, era formado em Letras pela Universidade

Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com especialização em lí­ngua

francesa, e professor aposentado da rede pública de ensino.

Silveira deixa filha e netos. Seu corpo será cremado nesta sexta-feira em

Caxias do Sul, em cerimônia reservada. Não haverá velório.


ZEROHORA.COM

A despeito da notí­cia acima, a sexta-feira amanheceu, literalmente,

acinzentada em Porto Alegre, como a lamentar a essa perda, nosso poeta partiu,

discretamente, como sempre viveu.

Lutador incansável pela causa do negro, muitas vezes radical, mas sempre

coerente, também participou do Grupo Razao Negra, levando sua experiencia e

sua visao á um grupo de jovens idealizadores, na dé©cada de 70/80.

Lamentamos a sua perda, mas temos a certeza de que mais uma estrela brilha no

céu, e em sua mao já está uma caneta e a sua frente um papel para

continuar escrevendo suas poesias e anotando suas conclusoes a respeito de

tantas pesquisas que realizou, e em algum momento elas chegarao até nós,

seus discí­pulos, que continuarmos com a sua luta!

Â

Oliveira nao queria cerimonia fúnebre, mas hoje às 18h15min estaremos na

Igreja do Rosário, prestando uma homenagem póstuma, convidamos os amigos e

comunidade a comparecerem, e aos que nao puderem estar presente, que nesta

hora elevem seu pensamento a Deus pedindo que Ele receba o nosso poeta em

sua Luz.



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Oliveira Silveira contra a metáfora chapa-branca

RonaldAugusto · Porto Alegre (RS) · 17/10/2007 19:05 · 130 votos · nenhum ·

pintura de rosa marques *





Oliveira Silveira, poeta, nasceu em Touro Passo (RS) no ano de 1941. Publicou, entre outros, Germinou, Porto Alegre, 1968; Banzo, Saudade Negra, Porto Alegre, 1970; Pêlo Escuro, Porto Alegre, 1977; Roteiro dos Tantãs, Porto Alegre, 1981; Anotações à Margem, Porto Alegre, 1994. Todos livros de poesia. Seus poemas também já foram traduzidos, entre outras línguas, para o inglês e o alemão, e essas traduções apareceram respectivamente na revista Callaloo, The Johns Hopkins University Press (1995), e na antologia Schwarze Poesie, Edition Diá, 1988.


De 1995 para cá, mais exatamente com a publicação do ensaio “Transnegressão” (in Presença negra no Rio Grande do Sul, org. Fernando Seffner, UE, Cadernos Porto & Vírgula, págs. 47-55), momento em que comecei a escrever de maneira mais crítica a respeito de poesia e coisas afins, o percurso textual de Oliveira Silveira tem sido objeto do meu interesse e da minha fruição. Cabe lembrar (e disso me orgulho) que mantemos um diálogo fraterno já há mais de 25 anos.


Sobre sua poesia, entre outras coisas, posso adiantar ao leitor que Oliveira Silveira despreza a complexidade do “literário” convencido e convencional em benefício de outra espécie de complexidade, a saber, ele credita suas forças numa secura antes espartana do que cabralina. Oliveira é capaz de uma contensão e de uma elegância que só me permito associá-las à sempiterna e serpentina vanguarda da velha-guarda de todos os sambas. A metalinguagem do samba - que se dá a ver na mais ligeira recordação de alguns exemplos do seu cancioneiro -, desmente a concepção de que o uso da metalinguagem é uma prerrogativa viciosa e restrita à erudição de cunho burguês. Assim, como acontece na arte dos grandes sambistas, a nota metalinguística comparece na obra de Oliveira Silveira, mas de maneira não exibicionista. Oliveira, então, fala de poesia no poema, mas como se reconhecesse um discreto fardo contido nesta sorte de felicidade “arte-feita”.


A gestalt severa e exata da poesia de Oliveira, sua brevidade grave e algo epigramática - considerada se quisermos a partir da perspectiva que reconhece uma vertente negra na literatura brasileira -, é emblema de ceticismo tanto em relação à ética do homem branco, quanto ao viés estético referendado pelo meio literário, representação especular, mas com suas particularidades, dos conflitos étnicos e sociais presentes sob o arco ideológico. Oliveira nunca perde de vista, no trato com a matéria verbal, que o que aí está em causa é a visão da poesia como arte, isto é, ele constrói o poema desde um ponto de vista estético. A poesia é uma coesão fundo-forma. A idéia ou o conteúdo são visados pelo poeta como dados estéticos e construtivos agenciados e relacionados a outros dados estéticos que compõem a estrutura do poema. Sua poesia, portanto, não cabe dentro dos limites reducionistas de uma “arte participante” ou engajada.


A poesia de Oliveira Silveira se nutre de uma salutar desconfiança a propósito do poder de comunicação da metáfora. Silveira parece dar-se conta de que a naturalização da metáfora, sua precedência, por assim dizer, sobre outros elementos da função poética da linguagem, encobre um barateamento expressivo mesclado a uma afetação kitsch que está a serviço da mundanização da figura do poeta e de sua inserção filisteísta nos quadros de um sistema literário cada vez mais chapa-branca. Felizmente, imbricada em sua poesia elegante há a dose essencial de antipoesia.


Os poemas de Oliveira Silveira continuam, portanto, críticos e, a cada dia que passa, menos alambicados. Um desaforo calmo aos medianeiros da metaforização indecorosa. Os versos de sua linguagem produzem uma estranha delicadeza que vela maliciosamente o cacto “áspero, intratável e forte”.


Oliveira, o homem que inventou o 20 de Novembro. Tradutor de Aimè Cèsaire e Langston Hughes. Poeta que se atreveu a exercitar, hoje, o que nos restou do eco épico (Souzalopes dixit) sem cair em erro: refiro-me à obra Poema sobre Palmares de 1987, onde Oliveira tematiza e recria a experiência histórica e hoje canonizada do mais importante quilombo das Américas. Silveira, um dos poucos poetas que se banhou na líquida algaravia das línguas africanas. E mesmo não se dedicando por inteiro a uma franca experimentação poética, Oliveira, em alguns dos seus livros, tem contribuído com inteligentes exemplos de poemas que se fragmentam até a unidade mínima da palavra, isto é, a letra.


Em tais poemas, suspensa na página branca, a letra quase deixa de ser letra ao “contornar” ou esboçar, digamos assim, desenhos metonímicos de atabaques, gaiola, banjo: em suma, todo um arranjo não-convencional, concorrendo para subverter a linearidade discursiva. Não tenho receio de afirmar que estes poemas ampliam consideravelmente as possibilidades de leitura da obra de Oliveira Silveira.


E, finalmente, numa época em que a prática da autopromoção faculta a muito poeta de segunda categoria um lugar de destaque no florilégio medíocre das letras “locais” (Porto Alegre), o silêncio vil e incivil em torno do nome de Oliveira Silveira - sem esquecer que para isso contribui a sua orgulhosa e solitária modéstia - pode ser interpretado como um sinal de distinção. Em resumo: quem não leu ainda a poesia de Oliveira, seja por imperícia, seja por má-fé, que não atrapalhe.


Ronaldo Augusto

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http://www.overmundo.com.br/overblog/oliveira-silveira-contra-a-metafora-chapa-branca


PEDIDA PRISÃO DE PASTOR QUE INCITA PERSEGUIÇÕES
 
 
O vereador Átila Nunes Neto e o deputado Átila Nunes pediram a prisão preventiva do 'pastor` Adão José dos Santos, fundador da Igreja Pentecostal dos Milagres, pelas suas declarações à Imprensa, onde classificou a Umbanda e o Candomblé como "religiões do mal", estimulando a discriminação religiosa ao dar cobertura àqueles que estão mandando fechar terreiros.
 
"O fato do pastor conviver com traficantes não é problema nosso, e sim, de natureza policial. Não podemos é ficar de braços cruzados diante de uma campanha explícita que violenta a legislação e até mesmo a Constituição Federal" – dia Átila Nunes.
 
Para ele, o pastor oferece risco à sociedade porque estimula a violência contra os seguidores dos cultos afro-brasileiros, incentivando o fechamento de terreiros. "Este cidadão tem que ser preso e responder a vários processos, já que viola os princípios da Constituição, que estabelece no capítulo dos direitos e garantias fundamentais no artigo 5º, que "todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros...a inviolabilidade do direito...à liberdade, à igualdade, à segurança".
 
Átila Nunes Neto lembra ainda que a Constituição garante a inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias, sendo que ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política"
 
Outras violações legais vem sendo cometidas pelo `pastor' Adão José dos Santos, fundador da Igreja Pentecostal dos Milagres, segundo Átila Nunes Neto, que chama atenção para o crime contra o sentimento religioso estabelecido no artigo 208 do Código Penal: "escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso.
 
A punição ao ultraje a culto e impedimento ou perturbação de ato religioso é também previsto na Constituição. A pena é detenção, de um mês a um ano, ou multa.  Se há emprego de violência, a pena é aumentada de um terço, sem prejuízo da correspondente à violência. Além disso – diz Átila Nunes Neto - , a lei estadual de 1814 de 1991 estabelece sanções a qualquer tipo de discriminação, inclusive a em razão de crença religiosa.
 
A lei considera discriminação impedir ou dificultar, por qualquer meio ou forma, a convivência social, praticar, induzir ou incitar o preconceito em razão de crença religiosa. Ele destaca o artigo 20 da Lei n.º 7.716/89, modificada pela Lei 9.459/97: "praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de religião", sendo se qualquer dos crimes previstos no caput é cometido por intermédio dos meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza, a reclusão é de dois a cinco anos.
 
O vereador Átila Nunes Neto e o deputado Átila Nunes, ao encaminharem a denúncia ao MP, baseiam-se no artigo 3º desta lei, que diz que o juiz poderá determinar, ouvido o Ministério Público ou a pedido deste, ainda antes do inquérito policial, sob pena de desobediência, recolher imediatamente e mandar fazer busca e apreensão de propaganda e mandando cessar programas de rádio e televisivos que incitem a discriminação.

MATÉRIA RETIRADA DOS FÓRUNS DA INTERNET

Belo Horizonte, 28 de Fevereiro de 2008.
 
À
PROMOTORIA DE DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS
 
ATT. DRA. JANAÍNA – PROMOTORA
 
Prezada Senhora,
 
O Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-brasileiro – CENARAB, entidade do movimento social negro que lida com a tradição de matriz africana neste estado e país e demais entidades que subscrevem a presente representação vem respeitosamente solicitar desta PROMOTORIA DE DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS, que seja instalada processo de investigação e apuração sobre fato ocorrido entre a ASSOCIAÇÃO DA RESISTÊNCIA CULTURAL AFRO-BRASILEIRA JACUTÁ DE IANSÃ – ARCA BRASILEIRA e o GERENTE DE RELACIONAMENTO DA CAIXA ECONÔMICA FEDERAL - AGÊNCIA ALÍPIO DE MELO, NO BAIRRO INCONFIDÊNCIA, Sr. RENATO CÁSSIO ANTUNES, conforme dados abaixo, pelo fato de o mesmo ter incorrido em crime de Constrangimento Ilegal para com a representante da Associação supra citada, no dia 27 de Fevereiro de 2007.
 
Pedimos ainda que comprovado o ato criminoso constante desta denúncia, esta Promotoria de Defesa dos Direitos Humanos com base em suas atribuições e seguindo os preceitos da legalidade  tome as necessárias medidas e providências legais, preservando e defendendo os direitos constitucionais das comunidades tradicionais de matriz africana e suas representações legalmente constituídas.
 
Salientamos que para o CENARAB, a diretoria da ASSOCIAÇÃO DA RESISTÊNCIA CULTURAL AFRO-BRASILEIRA JACUTÁ DE IANSÃ – ARCA BRASILEIRA e conjunto de entidades negras que subscrevem a presente representação, este fato em si, não é um fato isolado, nem mesmo reflete apenas a ignorância, a intolerância religiosa e a discriminação de um funcionário da Caixa Econômica Federal, no caso aqui em tela o Sr. Renato Cássio Antunes, mas a realidade brasileira de milhões de negras e negros que têm cotidianamente seus direitos constitucionais desrespeitados. Reivindicamos, portanto, que a Direção da Caixa Econômica Federal seja citada neste processo como co-autora de ato de Constrangimento Ilegal, por ser a mesma responsável pelo quadro funcional que dispõe e ter sido inclusive citada pelo referido gerente quando o mesmo faz referência a negativa de abertura da Conta Corrente Pessoa Jurídica da Associação, como sendo uma deliberação do Conselho da referida instituição financeira.
 
 
DOS FATOS
 
 
Na última Quarta-feira, dia 27 de fevereiro, às 12h30min, sob a alegação de que não interessava à Caixa Econômica Federal “ter este tipo de cliente”, o Gerente de Relacionamento da CEF – Agência Abílio Machado, em Belo Horizonte, Sr. Renato Cássio Antunes, colocou fim a uma espera de 04 meses para a abertura de uma Conta Bancária Pessoa  Jurídica  para a ASSOCIAÇÃO DA RESISTÊNCIA CULTURAL AFRO-BRASILEIRA JACUTÁ DE IANSÃ – ARCA BRASILEIRA, inscrita no CNPJ sob o número 00.764.245/0001-95,  entidade reconhecida como Utilidade Pública Municipal Lei 9.347/07 e  Filiada ao CENARAB.
 
Em Outubro/07, a presidente da Associação, Sra Maria de Fátima Nogueira Souza, Comunicadora Social, portadora do CPF 600.706.336-49 e da Carteira de Identidade M.1.168.524 expedida pela SSP/MG, residente e domiciliada à Rua Aroeira neves, 151 – Bairro Álvaro Camargo, BH, que também atende pelo título sacerdotal de Mame’tu de Inkissi Kitaloiá solicitou a abertura de uma conta bancária pessoa jurídica, na Caixa Econômica Federal na agência Abílio Machado visando atender exigência do governo federal para assinatura de convênio. Após apresentar toda a documentação necessária e inúmeros telefonemas sem obter uma resposta à solicitação, a Sra Presidente, Mame’tu de Inkissi Kitaloiá procurou a Coordenação do CENARAB para expor o problema. Ontem telefonamos novamente para o gerente de quem cobramos uma resposta à solicitação, sendo que o mesmo solicitou a presença da Senhora Presidente a Mame’tu Kitaloiá na agência para que a resposta lhe fosse dada.
 
Eu Célia Gonçalves Souza, Jornalista, portadora do CPF 681.601.356-53 e da Carteira de identidade MG 3.230.534 expedida pela SSP/MG, residente e domiciliada nesta capital à Rua Conceição Teodoro, 53, Bairro Nazaré, a acompanhei até a agência, quando para nossa surpresa a resposta dada pelo gerente foi a de que “O conselho da agência após analisar a solicitação indeferiu o pedido da Associação, oferecendo a mesma apenas a possibilidade de abertura de uma conta poupança”, imediatamente indaguei ao mesmo qual foi a base para esta resposta, visto ser a Associação uma entidade registrada e inscrita no Conselho Nacional de Pessoas Jurídicas e se encontrar em dia com sua documentação e obrigações. A resposta dada foi a de que “assim como a senhora escolhe um banco para sua movimentação bancária, o banco escolhe o cliente com o qual deseja trabalhar. E neste caso a Caixa Econômica não se interessa por este tipo de cliente”. Perguntei ainda ao Sr. Renato se a motivação para esta postura, era pelo fato da Associação se tratar de um candomblé, ao que ele respondeu que “a Caixa Econômica se sentia no direito de ter o cliente que lhe interessava, e que se quiséssemos o Conselho havia definido pela Conta Poupança”. 
 
Não adiantou os argumentos de que a CEF era um banco público e que não cabia ali este tipo de atitude, que a Associação é pessoa jurídica com direitos e deveres, sendo que se encontra em dia com estes últimos. E que esta era uma exigência dos órgãos governamentais para a realização de convênios e repasse de recursos públicos. Por fim, o gerente pegou os documentos que repousavam em sua mesa há mais de 04 meses e tentou nos devolver, despachando-nos literalmente de sua sala. Não aceitamos a documentação, ao que ele respondeu que esta de nada valia, pois não havia nenhuma prova que a solicitação havia sido feita, pois não tínhamos protocolo. Respondi ao mesmo que então a jogasse no lixo, pois, eu testemunharia a favor da Associação.
 
Após a humilhação e execração pública, pois era horário de almoço e a agência se encontrava cheia, nos retiramos dali e procuramos orientação no batalhão da PM mais próximo. Recebemos a orientação de procurar o Distrito Policial (civil), onde deveríamos registrar um BO por Constrangimento Ilegal, o que fizemos no 14º DP. Na ocasião fomos acompanhadas por membros do CENARAB e da Sra. Cleide Hilda e Ed Carlos, respectivamente presidente da Fundação Centro de Referência da Cultura Negra e colaborador.
 
Sabemos que em outras agências talvez  seja mais tranqüilo abrir esta Conta Corrente, mas não queremos fingir que não existe um problema e um ato de discriminação e de flagrante desrespeito à Constituição Brasileira, que nos assegura direitos iguais. Queremos e exigiremos a punição do funcionário público, que demonstrou sua incapacidade profissional e seu preconceito; a posição da direção da CEF; além é claro, da abertura da conta corrente naquela agência. Não podemos nos impor a Lei do silêncio e do medo da exposição pública de uma das maiores feridas de nossa sociedade a intolerância religiosa contra a tradição e expressões de matriz africana.
 
Sabemos que fatos como estes não são exceções e que calar e fingir que nada aconteceu só reforçará a impunidade e a arbitrariedade. Por isso, solicitamos desta Promotoria de Defesa dos Direitos Humanos a averiguação e responsabilização dos fatos aqui narrados.
 
 
ASSINAM A PRESENTE REPRESENTAÇÃO AS SEGUINTES ENTIDADES:
 
 
Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-brasileiro - CENARAB
 
Associação da Resistência Cultural Afro-Brasileira Jacutá de Iansã – Arca Brasileira
 
Fundação Centro de Referência da Cultura Negra - FCRCN
 
Coordenação Nacional das Entidades Negras – CONEN
 
União de Negros pela Igualdade Racial - UNEGRO
 
Movimento Negro Unificado - MNU
 
Federação Espírita Umbandista de Minas Gerais
 
Coletivo de Empresários e Empreendedores Afro-brasileiros - CEABRA – MINAS
 
Movimento de Capoeiras de BH
 
Movimento de Mulheres Negras
 
GRUCON
 
 
OBS.: NOSSO ENDEREÇO ELETRÔNICO É: cenarab@yahoo.com.br

Café Cultural

15:58 @ 10/03/2009


Educação
7. MEC vai propor fim do vestibular nas federais

O Ministério da Educação vai propor hoje aos reitores de universidades federais a substituição do vestibular por um novo Enem no processo seletivo. Por esse esquema, o estudante poderia fazer uma prova com validade nacional em qualquer Estado e escolheria a instituição e o curso de acordo com a nota obtida. No ProUni, programa de bolsa universitária do governo federal, já funciona assim: o aluno define seu curso e a universidade com base na nota do atual Enem. O Estadão informa que as linhas gerais da proposta do MEC se assemelham ao sistema vigente nos Estados Unidos. "Lá, cada universidade determina a quantidade de pontos no teste, chamado Scholastic Assessment Test (SAT), para que o candidato possa ter chances de ingressar na instituição", diz o jornal. Os reitores têm autonomia para decidir se aceitam ou não a ideia, que ainda foi muito pouco discutida nos círculos acadêmicos e não tem apoio de instituições importantes. Em São Paulo, os reitores da Unifesp, UFSCar e UFABC estudam fazer um vestibular único só para as três universidades.

O Filtro - Juliano Machado (boletim@newsletter.edglobo.com.br)

. Aluno de classe média alta leva revólver em sala de aula
Estamos acostumados a ouvir histórias de violência nas escolas em locais periféricos, envolvendo alunos de baixa renda. Pois hoje a Folha (para assinantes) relata que, no dia 13, um estudante de 14 anos entrou com um revólver calibre 38 na mochila no colégio Nossa Senhora das Graças, no Itaim-Bibi, bairro de classe média alta na zona sul de São Paulo. Ele retirou a arma da bolsa e a mostrou para cinco colegas, além de ter exibido munição de calibre 32. Não ocorreu nada além disso, segundo os relatos, mas poderia ter acontecido, dada a óbvia imperícia do garoto em manejar o revólver, pertencente ao pai dele, que tem porte legal. Parte da comunidade da escola pediu a expulsão imediata do aluno, ainda impactado pelo recente massacre num colégio da Alemanha realizado por um jovem, quando 16 pessoas morreram.



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