Sul de todos os santos
Não é a Bahia. Nem o Rio de Janeiro.
É o Rio Grande do Sul – das modelos de
olhos azuis e dos sobrenomes cheios de consoantes – o estado mais
afro-religioso do Brasil.
A fotógrafa Mirian Fichtner mergulhou
por três anos nessa realidade surpreendente e testemunhou rituais nunca
antes alcançados por uma câmera.
Época apresenta com exclusividade as imagens de uma áfrica de bombachas
Eliane Brum
OS CAVALEIROS DO RIO GRANDE
À beira do Guaíba, em
Porto Alegre, a representação dos orixás do batuque, a mais tradicional
das religiões afro-gaúchas, cultuada desde o século XIX.
Sentado, de branco, Cleon de Oxalá, um dos
mais antigos pais-de-santo do Estado, com casas em várias cidades
brasileiras, além da Argentina, México, Estados Unidos e Portugal
Sim, é oficial. Ogum, o orixá guerreiro, prefere churrasco. A
informação não é nova, mas sempre causa espanto. O Censo de 2000
mostrou que é o Rio Grande do Sul o maior enclave afro-religioso do
Brasil: 1,6% da população. Na Bahia, onde tanta gente importante marca
ponto em terreiros, apenas 0,08% identifica-se como adeptos de
religiões de origem africana. No Brasil todo, 0,3%. Enquanto no país o
número de afro-religiosos diminuiu, no Rio Grande aumentou. Que
mistério é esse que faz com que exista uma África de bombachas
justamente no Estado que adora enaltecer sua colonização européia e
costuma esquecer a participação de negros e índios em sua história? Por
que se fala tão pouco sobre isso?
Essas foram as perguntas que lançaram a fotógrafa gaúcha Mirian Fichtner num caminho cheio de encruzilhadas s fascinantes.
Com a ajuda do jornalista Carlos Eduardo Caramez e do antropólogo
Ari Pedro Oro, um dos maiores especialistas em religião do país, Mirian
mergulhou por três anos em um mundo regido por leis desconhecidas.
Gaúcha descendente de italianos e alemães, batizada no catolicismo,
mas sem religião definida, seguiu o som dos tambores silenciosos do Rio
Grande.
Com respeito, pedindo licença, entrou pela porta da frente de muitos
dos 30 mil terreiros do Estado, divididos em três vertentes: batuque, a
mais tradicional, umbanda e linha cruzada.
E foi autorizada a registrar rituais até então fechados às câmeras.
As entidades, incorporadas em pais e mães-de-santo, passaram a chamá-la de "Moça-Luz", por causa dos flashes.
Em geral, o texto é o elemento que conduz uma reportagem. Mirian
Fichtner inverteu o foco: fez uma reportagem em que as fotos contam uma
história inédita, que estava ali, diante do olhar de todos, nos números
do IBGE, mas quase ninguém via. Mais de 5 mil retratos iluminam uma
zona de sombras do cotidiano dos gaúchos – e do Brasil. Deu ao trabalho
o nome de Cavalo de Santo: assim são chamados aqueles cujo corpo é cavalgado pelas entidades espirituais durante a possessão.
A partir da terça-feira, os afro-gaúchos de Mirian serão exibidos em exposição.
São 40 painéis e cem fotos projetadas em monitores e telão no Centro Cultural Justiça Federal, no Rio de Janeiro.
No segundo semestre, um livro e um DVD serão lançados em edição bilíngüe.
A cada uma das 160 páginas do livro aumenta o volume da pergunta:
como foi possível ignorar uma realidade tão grandiosa por tanto tempo?
Cavalo de Santo prova que há muito Ogum prefere churrasco,
Oxum não dispensa uma polenta italiana e os Exus são doidos por batatas
assadas ao modo alemão.
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O BELO E O SAGRADO
A dimensão estética, com muito brilho, cores e luxo, é um traço marcante das religiões afro-gaúchas.
Acima, na à esq., a família de Pai Neco de Oxalá, de origem cigana.
Abaixo dela, uma festa em homenagem a Exu.
À direita, Gislaine de Oxum, filha-de-santo de 14 anos
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PRETO VELHO DE BOMBACHA
No livro (detalhe) Mirian mostra que a culinária
dos imigrantes europeus, a bombacha da tradição gaúcha e até a
erva-mate do chimarrão foram incorporadas aos rituais religiosos de
origem africana. |
À dir., Mãe Ieda de Ogum possuída pela entidade Preto Velho Pai Antonio da Banda de Lá.
À esq., crianças e adultos preparam uma festa em homenagem aos orixás
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI4496-15228,00-SUL+DE+TODOS+OS+SANTOS.html