Grupos

DISCRIMINAÇÃO RACIAL

16:34 @ 07/08/2009



DISCRIMINAÇÃO RACIAL

por : JCBarros    

 
DISCRIMINAÇÃO RACIAL

Uma das bases fundamentais dos direitos humanos é o princípio que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Discriminação e perseguição com base na raça ou etnia são claras violações desse princípio. A discriminação racial pode tomar muitas formas, desde a mais brutal e institucional forma de racismo - o genocídio e o apartheid, até as formas mais encobertas por meio das quais determinados grupos raciais e étnicos são impedidos de se beneficiarem dos mesmos direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais comuns a outros grupos da sociedade.
A discriminação racial e étnica continua a ser um dos maiores problemas de direitos humanos no mundo atual, atingindo tanto minorias étnicas quanto, em alguns casos, populações inteiras. Muito da atenção internacional recaiu sobre o apartheid na África do Sul, extinto em 1994. Entretanto, a luta contra o ódio étnico e racial continuou durante a década de 1990 violentamente acometida pelos piores conflitos étnicos jamais vistos nos Bálcãs e na região dos Grandes Lagos na África.
Raça é definida como "um grupo de pessoas de comum ancestralidade, diferenciada dos outros por características físicas tais como tipo de cabelo, cor dos olhos e pele, estatura, etc" (Dicionário Inglês Collins). Étnico é definido como "relativo ou característico de um grupo humano que tem certos traços raciais, religiosos, lingüísticos, entre outros, em comum" (Dicionário Inglês Collins).
Nas leis internacionais dos direitos humanos, o termo raça é geralmente utilizado em um sentido mais amplo e freqüentemente se confunde com outras distinções entre grupos de pessoas baseadas na religião, etnia, grupo social, língua e cultura. O termo "raça", nas leis sobre os direitos humanos, é utilizado por vezes para designar grupos que não se enquadram em distinções biológicas de grupo como, por exemplo, os sistemas de castas na Índia e Japão.

Gilmar Mendes nega liminar do DEM e mantém cotas

 

Presidente do STF não vê razões para suspender matrículas de cotistas. Advogada do DEM diz que não se sentiu derrotada e afirma que cotas estão com dias contados

Leonardo Echeverria e Priscilla Borges - Da Secretaria de Comunicação da UnB

 

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, negou o pedido de liminar ajuizado pelo Democratas contra o sistema de cotas da Universidade de Brasília. Na Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF 186), o partido pedia a suspensão imediata das matrículas dos 654 estudantes cotistas negros aprovados no último vestibular da instituição. Agora, o assunto será discutido em plenário pelos outros ministros.

Para o ministro Gilmar Mendes, a ação levou à Suprema Corte “uma das questões constitucionais mais fascinantes de nosso tempo”. Para ele, a discussão sobre o tema no Brasil chegou “ao auge” e a ação movida pelo DEM é “de suma importância” para a democracia brasileira. Porém, o presidente do STF diz que não vê razão para suspender a matrícula ou para interferir no andamento dos trabalhos da universidade antes que uma decisão final seja proferida pelo STF.

Em uma peça que cita Norberto Bobbio, Gilberto Freyre, Caetano Veloso, Ronaldo Fenômeno e os atentados de 11 de setembro, Gilmar Mendes lança uma série de questionamentos quanto às ações afirmativas, existência de raças no Brasil e tipos de preconceitos existentes. “Somos ou não um país racista?” “Até que ponto exclusão racial gera preconceito?” “A adoção do critério da renda não seria mais adequada para a democratização do acesso ao ensino superior no Brasil?” ”Esses estudos (que apontam para a diferença de padrão de vida entre negros e brancos) poderiam ser questionados?” Todas essas perguntas ficam no ar, sem resposta. O texto cita quatro vezes o livro “Não Somos Racistas”, de Ali Kamel, diretor de jornalismo da TV Globo.

 

REPERCUSSÃO - Na Universidade de Brasília, a decisão foi recebida com alívio. “Estou surpreso, mas de uma forma positiva”, diz o professor José Jorge, um dos idealizadores do sistema de cotas. “O voto indica uma qualidade da discussão que nos favorece, quando lembra que junto à liberdade e à igualdade, existe a fraternidade, e as cotas são um exercício de fraternidade", afirma o professor.

“Agora temos mais tempo para nos organizar. Estamos conclamando um debate com toda a sociedade civil, a partir da perspectiva dos movimentos negros”, conta Rafael Moreira, aluno de Antropologia que entrou na UnB pelo sistema de cotas em 2005. “O momento agora é de angariar forças e apoios para essa disputa, que é de formação da opinião pública”, completa. 

“A decisão correspondeu à expectativa da universidade, de que esse assunto não pode ser resolvido liminarmente, mas sim no Plenário do Supremo”, disse o reitor José Geraldo de Sousa Junior. “Eu acredito que deve prevalecer o sentido emancipatório do direito, levando em conta os direitos humanos internacionais e as definições da Constituição que apóiam as ações afirmativas como pressuposto da dignidade da pessoa humana e dos direitos fundamentais”.

 

ÔNUS - A advogada do DEM, Roberta Kaufmann, disse em entrevista à UnB Agência que não se sentiu derrotada. Ao contrário, explicou que ficou extremamente feliz" com a decisão de Gilmar Mendes. "Ele esclareceu todos os ônus que a política racialista poderia trazer", diz a advogada. "Acredito que ele se coadunou com a nossa tese". Roberta conta que peregrinou por vários partidos até achar um que apoiasse a causa defendida por ela. "Para mim, isso é uma questão de ideologia", diz.

Segundo a advogada, a decisão de entrar com a ação na semana seguinte à divulgação dos resultados do vestibular, durante as férias do Supremo, não foi uma estratégia pensada. Ela diz que a ação tinha intenção de impedir a matrícula dos alunos antes que o registro fosse feito, mas tinha certeza que o presidente do STF nunca ia dar uma decisão que ferisse direitos adquiridos. Roberta nega que tenha movido a ação para que o ministro Gilmar Mendes resolvesse sozinho a questão das cotas. "Isso foi para que o processo não entrasse na vala comum do STF, onde as decisões demoram anos", afirma.

Depois da negativa do pedido de liminar, Roberta està ansiosa para fazer a defesa oral da ação no plenário. "As cotas estão com os dias contados", prevê.  

 

Todos os textos e fotos podem ser utilizados e reproduzidos desde que a fonte seja citada.

 

Textos: UnB Agência.

Ministro Edson Santos visita comunidade quilombola de Pernambuco‏
De: seppir.imprensa@planalto.gov.br
Enviada: quinta-feira, 6 de agosto de 2009 10:55:00
Para:

  

 Ministro Edson Santos visita comunidade quilombola de Pernambuco

 

 

O ministro da Igualdade Racial, Edson Santos, dá sequência à série de visitas a comunidades atendidas pela Agenda Social Quilombola. O objetivo é conhecer de perto a situação fundiária, o acesso às políticas públicas e projetos de desenvolvimento local.

 

Depois de Alcântara (MA), no último 17 de julho, agora será a vez de Castainho, localizada no município  de Guaranhus, em Pernambuco. O ministro chega à comunidade às 11h desta sexta-feira (7 de agosto),

para reunir-se com lideranças da região. Antes, porém, terá audiência com o governador Eduardo Campos. O encontro será às 19h de hoje, em Recife, no Palácio do Campo das Princesas.

 

A comunidade de Castainho foi titulada no ano 2000 com uma área de aproximadamente 180 hectares. Mas não foram retirados os particulares que ocupavam as terras -procedimento denominado desintrusão-, o que impediu a efetiva titulação. Após a abertura de novo processo, conduzido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), há expectativa de um desfecho próximo.

 

As 170 famílias de Castainho dependem principalmente do cultivo e beneficiamento da mandioca. Embora Pernambuco tenha forte presença de remanescentes de quilombos, Garanhuns se destaca na história. O surgimento do povoado estaria relacionado ao Quilombo de Palmares, em Alagoas. Os relatos dão conta de que, pela proximidade geográfica, Castainho foi formado por sobreviventes ao ataque que dizimou a nação de Zumbi.

 

A Agenda Social Quilombola, articulada pela SEPPIR, envolve ações de 14 ministérios e órgãos do Governo Federal e tem orçamento previsto de 2 bilhões de reais para investimentos até 2011.

 

 

 

 

Coordenação de Comunicação Social

Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial

Presidência da República
Esplanada dos Ministérios, Bloco A, 9º andar - 70.054-906 - Brasília (DF)
Telefone: (61) 3411-3659 
 

 

Ministro Edson Santos visita comunidade quilombola de Pernambuco‏
De: seppir.imprensa@planalto.gov.br
Enviada: quinta-feira, 6 de agosto de 2009 10:55:00
Para:

  

 Ministro Edson Santos visita comunidade quilombola de Pernambuco

 

 

O ministro da Igualdade Racial, Edson Santos, dá sequência à série de visitas a comunidades atendidas pela Agenda Social Quilombola. O objetivo é conhecer de perto a situação fundiária, o acesso às políticas públicas e projetos de desenvolvimento local.

 

Depois de Alcântara (MA), no último 17 de julho, agora será a vez de Castainho, localizada no município  de Guaranhus, em Pernambuco. O ministro chega à comunidade às 11h desta sexta-feira (7 de agosto),

para reunir-se com lideranças da região. Antes, porém, terá audiência com o governador Eduardo Campos. O encontro será às 19h de hoje, em Recife, no Palácio do Campo das Princesas.

 

A comunidade de Castainho foi titulada no ano 2000 com uma área de aproximadamente 180 hectares. Mas não foram retirados os particulares que ocupavam as terras -procedimento denominado desintrusão-, o que impediu a efetiva titulação. Após a abertura de novo processo, conduzido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), há expectativa de um desfecho próximo.

 

As 170 famílias de Castainho dependem principalmente do cultivo e beneficiamento da mandioca. Embora Pernambuco tenha forte presença de remanescentes de quilombos, Garanhuns se destaca na história. O surgimento do povoado estaria relacionado ao Quilombo de Palmares, em Alagoas. Os relatos dão conta de que, pela proximidade geográfica, Castainho foi formado por sobreviventes ao ataque que dizimou a nação de Zumbi.

 

A Agenda Social Quilombola, articulada pela SEPPIR, envolve ações de 14 ministérios e órgãos do Governo Federal e tem orçamento previsto de 2 bilhões de reais para investimentos até 2011.

 

 

 

 

Coordenação de Comunicação Social

Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial

Presidência da República
Esplanada dos Ministérios, Bloco A, 9º andar - 70.054-906 - Brasília (DF)
Telefone: (61) 3411-3659 
 

 

Carta Aberta ao DEM

O PARTIDO DEM PERSEGUE A COMUNIDADE NEGRA?

I - Introdução

O Brasil tem conseguido grandes avanços a partir do debate sobre a diversidade étnico-racial e a inclusão nas universidades. No entanto, uma ala do partido DEMOCRATAS decidiu dificultar todas as vitórias conquistadas com muito suor pelo povo afro-brasileiro nos últimos anos. Ouvindo o clamor do povo negro, decidimos ajudar no debate: entendemos que em uma sociedade democrática os partidos políticos devem estar em sintonia com as demandas populares em busca de vitórias concretas.  

 II – O DEM foi sempre assim?

Não! Uma ala do Partido tem apresentado propostas ousadas e criativas para o Brasil do século XXI, diminuindo o estigma de direita liberal do antigo PFL. Podemos, inclusive, elencar várias vitórias obtidas por nossa comunidade negra com a atuação direta e eficiente do DEM.

Por exemplo:

1999 – Apresentação do projeto de lei 73/99, que institui a reserva de vagas para negros e estudantes da escola pública nas universidades federais – Deputada Federal Nice Lobão(DEM-MA);

2002 – Implementação do sistema de cotas raciais e sociais que reserva 40% das vagas na Universidade do Estado da Bahia (Uneb) para alunos afrodescendentes e pobres – Governador Paulo Souto (DEM-BA);

2002 – Apresentação e aprovação da lei que instituiu o sistema de reserva de vagas para afrodescendentes e carentes na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) - Deputado Estadual José Amorim (DEM-RJ);

2004 – Apresentação de substitutivo ao projeto de Lei 3198/00, que cria o Fundo de Promoção da Igualdade Racial – Deputado Federal Reginaldo Germano (DEM-BA);

2006 - Nomeação do primeiro negro como Secretário de Justiça do Estado de São Paulo, Dr. Hédio Silva – Gestão dos governadores Geraldo Alckmin e Cláudio Lembo (DEM-SP);

2006 - Nomeação da primeira negra como Secretária de Justiça do Estado de São Paulo, Dra Eunice Prudente  – Governador Cláudio Lembo (DEM-SP);

     III – O DEM regrediu?      

Nos últimos anos um setor do DEM tem tentado impor a todos os seus membros e simpatizantes uma atitude anti-povo negro. Vejamos alguns exemplos:

2004 – A Executiva Nacional dos Democratas entrou com ação de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal contra o ProUni ;

2006 – O DEM entrou com ação no Supremo Tribunal Federal contestando a demarcação contínua da reserva indígena Raposa do Sol;

2008 – A Executiva Nacional do Partido entrou com ação direta de inconstitucionalidade no (STF) contra o Decreto 4.887, que regulamenta as terras quilombolas;

2009 – O Senador Demóstenes Torres (DEM-GO) tem sido uma das vozes mais radicais contra o  Estatuto da Igualdade Racial;

2009 - A pedido do Senador Demóstenes Torres (DEM-GO), o DEM entrou com ação no STF contra o sistema de cotas raciais da Universidade de Brasília (UnB);

2009 - Em nome da Executiva Nacional do Partido, o Senador Demóstenes Torres (DEM-GO) entrou com ação no STF  contra a constitucionalidade de todas as leis sobre sistemas de cotas raciais aplicadas no país –

   IV – Opinião da Educafro

Um grupo do Movimento Negro está propondo uma mobilização nacional de conscientização popular contra as iniciativas conservadoras do DEM. Estamos certos de que as pessoas, ao votarem no DEM, não tinham por intenção dar um cheque em branco para os DEMOCRATAS perseguirem a comunidade negra e indígena. A Educafro foi procurada para fazer parte dessa campanha. Estamos primeiro procurando os membros do DEM mais sensíveis e tentando, com a ajuda deles (entre os quais você que recebe este e-mail) ajudar a ala conservadora a mudar de postura.

   V – CONCLUSÃO

Esta Carta Aberta ao DEM, lançada pela Educafro, visa buscar a superação da visão negativa/reacionária que alguns setores do Partido tem insistido em impor a todos os membros do Partido. Caso esta carta aberta não dê resultados positivos, a Educafro irá compor a articulação nacional contra o DEM. Você, que recebe este e-mail, nos responda dando sua opinião sobre este assunto.

Aguardamos sua resposta no e-mail demnaoecontra@gmail.com


Visite o site:   www.educafro.org.br


 
SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE DIÁLOGOS POLÍTICOS SOBRE O ENSINO DE HISTÓRIA DA ÁFRICA E ESTUDOS AFRICANOS

Objetivo

Atender as demandas sociais, acadêmicas e de políticas educacionais, advindas da implementação da lei 10639/03, que institui a obrigatoriedade do ensino de História da África e do negro no Brasil. Para tanto, o evento organizado pela UNIFESP campus Guarulhos, convida planejadores das políticas publicas, acadêmicos do Brasil e da África e representantes da UNESCO para fazerem proposições, avaliações e encaminhamentos que visam o fomento da formação de professores, de pesquisadores e de produção didática em torno da temática dos estudos africanos.

EVENTO GRATUITO

Data: 28 e 29/09/2009

Local: Centro Cultural e Teatro Adamastor Av.Monteiro Lobato nº734 - Guarulhos/SP

Organização: Sephis / UFBA- Unifesp - Unicamp Prefeitura Municipal de Guarulhos

 

PROGRAMAÇÃO

 

 

Dias

Mesas

Temáticas

Palestrantes

Comunicações

Mediador

Abertura - 28/09

19:00hs

Abertura

Abertura Oficial

Conferencia do Sr. Ministro Haddad

O Quadro do Ensino da África no Brasil

 

P. Schermann e C. Pinheiro

Dia 28

9 - 10:30hs

 

Mesa 1

Políticas Públicas, Educação e Cidadania (Democracia e Inclusão Social)

Magali Naves

Ações afirmativas

 

Alain Kaly

Kabengele Munanga

Ensino de História da África

Petronilha Silva

Lei 10.639/03 e seus precedentes

 

Dia 28

11 - 12:30hs

 

 

 

Mesa 2

 

História da África – arquivos, cartografias, iconografias e fontes

Pedro Paulo Funari

Arqueologia Afro-brasileira

 

 

Cláudio Pinheiro

Richard Goodridge

Agendas de ensino da África

Livio Sansone

Arquivos digital da memória afro-brasileira

Dia 28

14 - 15:30hs

 

 

Mesa 3

 

Experiências Publicas de implementação do Ensino de Historia da África e Povos Indígenas

 

Amaury Mendes

Ensino de história da África: trajetórias e agendas políticas do MN

 

Patrícia Schermann

Monica Lima e Souza

A formação de professores no ensino de história da África

Janete Pietá

Políticas Publicas para o Ensino de História da África

Dia 28

16 – 17:30hs

 

 

Mesa 4

 

Estudos Africanos no Brasil e Exterior

Selma Pantoja

Balanço crítico da historiografia da escravidão no Brasil

 

 

 

Leila Hernandes

Pós-colonialidade em África

Teresa Salgado [Carmen Secco]

Literaturas africanas e ensino

Dia 29

9 - 10:30hs

 

 

Mesa 5

 

A Escrita do Passado sobre Povos autóctones e suas diásporas

Elikia M’bokolo

Povos Autóctones e passado pré-colonial em África

 

 

 

Julio Moracen

John Monteiro [Antonio Carlos]

Escrita do Passado dos Povos Indígenas

Shamil Jeppie

Timbuktu. A Escrita do Passado nas sociedades da África Ocidental

Dia 29

11 - 12:30hs

 

Mesa 6

Livros didáticos – África como tema

Rafael Sanzio [Jocélio Telles]

Cartografia dos espaços afro-brasileiros

 

Jaime Rodrigues

Neeladri Battacharya

África nos livros didáticos na Índia

Anderson Oliva

Livros de História no espaço da África e da diáspora

Dia 29

14 - 15:30hs

 

 

Mesa 7

 

Modernidades Africanas e desafios contemporâneos

Takyiwaa Manuh

Development issues in Africa.  The State, Gender and Women.

 

 

Lorenzo Macagno

Fatima Sadiqi

Language, Gender, and Islam in North Africa

Jacques Depeuchin

Modernidade e educação em África

Dia 29

14 - 15:30hs

 

 

 

Mesa 8

 

 

Temas da Diáspora e o Ensino

Martha Cordies-Jackson

História da África no Caribe

 

 

 

Mohmood Mamdani [Bruno Doti]

Critica pós-colonial da produção da nação em África

W. Zamparoni

Pós-colonialidades Africanas no Brasil

18:00hs

Plenária final

Conclusões

P. Schermann e C. Pinheiro

Reports das mesas e conclusão

 

 


Angela Davis: “Quando Obama visitar o Brasil, vai aprender algumas lições”

Cleidiana Ramos


Aos 65 anos, Angela Davis continua a mostrar por que se tornou um ícone do movimento negro norte-americano nos anos 1970. Bastam minutos de conversa com a hoje pesquisadora e professora da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz (EUA), para perceber a facilidade em expor, numa linguagem clara, linhas de raciocínio complexo, fruto do aprofundamento que marca sua produção acadêmica. Um exemplo é quando explica a visão que tem do feminismo, para além do embate de gênero. A jovem ativista de outrora continua também a fascinar a juventude. Este segmento foi o público mais constante nas palestras que ela realizou, na última semana, em Salvador, como convidada da ‘XII Edição da Fábrica de Ideias’, programa anual sediado no Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia (Ceao/Ufba ). Coordenada pela doutora em sociologia Ângela Figueiredo e pelo doutor em antropologia Lívio Sansone, a Fábrica oferece treinamento para jovens pesquisadores em estudos étnicos. Angela Davis, inclusive, discorda de quem costuma apontar a juventude do mundo atual como apática, do ponto de vista político. Para ela, cada geração tem sua forma própria de atuação. “A minha postura é a de aprender com os jovens, porque sempre são eles que provocam as mudanças radicais”, afirma. Nesta entrevista concedida à repórter Cleidiana Ramos, com o auxílio da tradutora Raquel Luciana de Souza, Angela Davis falou, dentre outros assuntos, sobre as lições que o governo brasileiro pode oferecer a Barack Obama, em relação a uma política de maior aproximação com a África.....
Integra da entrevista em: http://www.atarde.com.br/vestibular/noticia.jsf?id=1204654

Kabengele Munanga denuncia a farsa da democracia racial, defende o sistema de cotas e discute o espaço do negro na sociedade. O presidente da Nicarágua Daniel Ortega fala sobre a influência dos EUA na América Central e a proposta de mudança constitucional que permite sua reeleição.




Nosso racismo é um crime perfeito

Por Camila Souza Ramos e Glauco Faria [Terça-Feira, 18 de Agosto de 2009 às 15:15hs]
Fórum - O senhor veio do antigo Zaire que, apesar de ter alguns pontos de contato com a cultura brasileira e a cultura do Congo, é um país bem diferente. O senhor sentiu, quando veio pra cá, a questão racial? Como foi essa mudança para o senhor?

Kabengele - Essas coisas não são tão abertas como a gente pensa. Cheguei aqui em 1975, diretamente para a USP, para fazer doutorado. Não se depara com o preconceito à primeira vista, logo que sai do aeroporto. Essas coisas vêm pouco a pouco, quando se começa a descobrir que você entra em alguns lugares e percebe que é único, que te olham e já sabem que não é daqui, que não é como “nossos negros”, é diferente. Poderia dizer que esse estranhamento é por ser estrangeiro, mas essa comparação na verdade é feita em relação aos negros da terra, que não entram em alguns lugares ou não entram de cabeça erguida.
Depois, com o tempo, na academia, fiz disciplinas em antropologia e alguns de meus professores eram especialistas na questão racial. Foi através da academia, da literatura, que comecei a descobrir que havia problemas no país. Uma das primeiras aulas que fiz foi em 1975, 1976, já era uma disciplina sobre a questão racial com meu orientador João Batista Borges Pereira. Depois, com o tempo, você vai entrar em algum lugar em que está sozinho e se pergunta: onde estão os outros? As pessoas olhavam mesmo, inclusive olhavam mais quando eu entrava com minha mulher e meus filhos. Porque é uma família inter-racial: a mulher branca, o homem negro, um filho negro e um filho mestiço. Em todos os lugares em que a gente entrava, era motivo de curiosidade. O pessoal tentava ser discreto, mas nem sempre escondia. Entrávamos em lugares onde geralmente os negros não entram.
A partir daí você começa a buscar uma explicação para saber o porquê e se aproxima da literatura e das aulas da universidade que falam da discriminação racial no Brasil, os trabalhos de Florestan Fernandes, do Otavio Ianni, do meu próprio orientador e de tantos outros que trabalharam com a questão. Mas o problema é que quando a pessoa é adulta sabe se defender, mas as crianças não. Tenho dois filhos que nasceram na Bélgica, dois no Congo e meu caçula é brasileiro. Quantas vezes, quando estavam sozinhos na rua, sem defesa, se depararam com a polícia?
Meus filhos estudaram em escola particular, Colégio Equipe, onde estudavam filhos de alguns colegas professores. Eu não ia buscá-los na escola, e quando saíam para tomar ônibus e voltar para casa com alguns colegas que eram brancos, eles eram os únicos a ser revistados. No entanto, a condição social era a mesma e estudavam no mesmo colégio. Por que só eles podiam ser suspeitos e revistados pela polícia? Essa situação eu não posso contar quantas vezes vi acontecer. Lembro que meu filho mais velho, que hoje é ator, quando comprou o primeiro carro dele, não sei quantas vezes ele foi parado pela polícia. Sempre apontando a arma para ele para mostrar o documento. Ele foi instruído para não discutir e dizer que os documentos estão no porta-luvas, senão podem pensar que ele vai sacar uma arma. Na realidade, era suspeito de ser ladrão do próprio carro que ele comprou com o trabalho dele. Meus filhos até hoje não saem de casa para atravessar a rua sem documento. São adultos e criaram esse hábito, porque até você provar que não é ladrão... A geografia do seu corpo não indica isso.
Então, essa coisa de pensar que a diferença é simplesmente social, é claro que o social acompanha, mas e a geografia do corpo? Isso aqui também vai junto com o social, não tem como separar as duas coisas. Fui com o tempo respondendo à questão, por meio da vivência, com o cotidiano e as coisas que aprendi na universidade, depoimentos de pessoas da população negra, e entendi que a democracia racial é um mito. Existe realmente um racismo no Brasil, diferenciado daquele praticado na África do Sul durante o regime do apartheid, diferente também do racismo praticado nos EUA, principalmente no Sul. Porque nosso racismo é, utilizando uma palavra bem conhecida, sutil. Ele é velado. Pelo fato de ser sutil e velado isso não quer dizer que faça menos vítimas do que aquele que é aberto. Faz vítimas de qualquer maneira.

Revista Fórum - Quando você tem um sistema como o sul-africano ou um sistema de restrição de direitos como houve nos EUA, o inimigo está claro. No caso brasileiro é mais difícil combatê-lo...

Kabengele - Claro, é mais difícil. Porque você não identifica seu opressor. Nos EUA era mais fácil porque começava pelas leis. A primeira reivindicação: o fim das leis racistas. Depois, se luta para implementar políticas públicas que busquem a promoção da igualdade racial. Aqui é mais difícil, porque não tinha lei nem pra discriminar, nem pra proteger. As leis pra proteger estão na nova Constituição que diz que o racismo é um crime inafiançável. Antes disso tinha a lei Afonso Arinos, de 1951. De acordo com essa lei, a prática do racismo não era um crime, era uma contravenção. A população negra e indígena viveu muito tempo sem leis nem para discriminar nem para proteger.

Revista Fórum - Aqui no Brasil há mais dificuldade com relação ao sistema de cotas justamente por conta do mito da democracia racial? Kabengele - Tem segmentos da população a favor e contra. Começaria pelos que estão contra as cotas, que apelam para a própria Constituição, afirmando que perante a lei somos todos iguais. Então não devemos tratar os cidadãos brasileiros diferentemente, as cotas seriam uma inconstitucionalidade. Outro argumento contrário, que já foi demolido, é a ideia de que seria difícil distinguir os negros no Brasil para se beneficiar pelas cotas por causa da mestiçagem. O Brasil é um país de mestiçagem, muitos brasileiros têm sangue europeu, além de sangue indígena e africano, então seria difícil saber quem é afro-descendente que poderia ser beneficiado pela cota. Esse argumento não resistiu. Por quê? Num país onde existe discriminação antinegro, a própria discriminação é a prova de que é possível identificar os negros. Senão não teria discriminação.
Em comparação com outros países do mundo, o Brasil é um país que tem um índice de mestiçamento muito mais alto. Mas isso não pode impedir uma política, porque basta a autodeclaração. Basta um candidato declarar sua afro-descendência. Se tiver alguma dúvida, tem que averiguar. Nos casos-limite, o indivíduo se autodeclara afrodescendente. Às vezes, tem erros humanos, como o que aconteceu na UnB, de dois jovens mestiços, de mesmos pais, um entrou pelas cotas porque acharam que era mestiço, e o outro foi barrado porque acharam que era branco. Isso são erros humanos. Se tivessem certeza absoluta que era afro-descendente, não seria assim. Mas houve um recurso e ele entrou. Esses casos-limite existem, mas não é isso que vai impedir uma política pública que possa beneficiar uma grande parte da população brasileira.
Além do mais, o critério de cota no Brasil é diferente dos EUA. Nos EUA, começaram com um critério fixo e nato. Basta você nascer negro. No Brasil não. Se a gente analisar a história, com exceção da UnB, que tem suas razões, em todas as universidades brasileiras que entraram pelo critério das cotas, usaram o critério étnico-racial combinado com o critério econômico. O ponto de partida é a escola pública. Nos EUA não foi isso. Só que a imprensa não quer enxergar, todo mundo quer dizer que cota é simplesmente racial. Não é. Isso é mentira, tem que ver como funciona em todas as universidades. É necessário fazer um certo controle, senão não adianta aplicar as cotas. No entanto, se mantém a ideia de que, pelas pesquisas quantitativas, do IBGE, do Ipea, dos índices do Pnud, mostram que o abismo em matéria de educação entre negros e brancos é muito grande. Se a gente considerar isso então tem que ter uma política de mudança. É nesse sentido que se defende uma política de cotas.
O racismo é cotidiano na sociedade brasileira. As pessoas que estão contra cotas pensam como se o racismo não tivesse existido na sociedade, não estivesse criando vítimas. Se alguém comprovar que não tem mais racismo no Brasil, não devemos mais falar em cotas para negros. Deveríamos falar só de classes sociais. Mas como o racismo ainda existe, então não há como você tratar igualmente as pessoas que são vítimas de racismo e da questão econômica em relação àquelas que não sofrem esse tipo de preconceito. A própria pesquisa do IPEA mostra que se não mudar esse quadro, os negros vão levar muitos e muitos anos para chegar aonde estão os brancos em matéria de educação. Os que são contra cotas ainda dão o argumento de que qualquer política de diferença por parte do governo no Brasil seria uma política de reconhecimento das raças e isso seria um retrocesso, que teríamos conflitos, como os que aconteciam nos EUA.

Fórum - Que é o argumento do Demétrio Magnoli.

Kabengele - Isso é muito falso, porque já temos a experiência, alguns falam de mais de 70 universidades públicas, outros falam em 80. Já ouviu falar de conflitos raciais em algum lugar, linchamentos raciais? Não existe. É claro que houve manifestações numa universidade ou outra, umas pichações, "negro, volta pra senzala". Mas isso não se caracteriza como conflito racial. Isso é uma maneira de horrorizar a população, projetar conflitos que na realidade não vão existir.
Fórum - Agora o DEM entrou com uma ação no STF pedindo anulação das cotas. O que motiva um partido como o DEM, qual a conexão entre a ideologia de um partido ou um intelectual como o Magnoli e essa oposição ao sistema de cotas? Qual é a raiz dessa resistência?

Kabengele – Tenho a impressão que as posições ideológicas não são explícitas, são implícitas. A questão das cotas é uma questão política. Tem pessoas no Brasil que ainda acreditam que não há racismo no país. E o argumento desse deputado do DEM é esse, de que não há racismo no Brasil, que a questão é simplesmente socioeconômica. É um ponto de vista refutável, porque nós temos provas de que há racismo no Brasil no cotidiano. O que essas pessoas querem? Status quo. A ideia de que o Brasil vive muito bem, não há problema com ele, que o problema é só com os pobres, que não podemos introduzir as cotas porque seria introduzir uma discriminação contra os brancos e pobres. Mas eles ignoram que os brancos e pobres também são beneficiados pelas cotas, e eles negam esse argumento automaticamente, deixam isso de lado.

Fórum – Mas isso não é um cinismo de parte desses atores políticos, já que eles são contra o sistema de cotas, mas também são contra o Bolsa-Família ou qualquer tipo de política compensatória no campo socioeconômico?

Kabengele - É interessante, porque um país que tem problemas sociais do tamanho do Brasil deveria buscar caminhos de mudança, de transformação da sociedade. Cada vez que se toca nas políticas concretas de mudança, vem um discurso. Mas você não resolve os problemas sociais somente com a retórica. Quanto tempo se fala da qualidade da escola pública? Estou aqui no Brasil há 34 anos. Desde que cheguei aqui, a escola pública mudou em algum lugar? Não, mas o discurso continua. "Ah, é só mudar a escola pública." Os mesmos que dizem isso colocam os seus filhos na escola particular e sabem que a escola pública é ruim. Poderiam eles, como autoridades, dar melhor exemplo e colocar os filhos deles em escola pública e lutar pelas leis, bom salário para os educadores, laboratórios, segurança. Mas a coisa só fica no nível da retórica. E tem esse argumento legalista, "porque a cota é uma inconstitucionalidade, porque não há racismo no Brasil". Há juristas que dizem que a igualdade da qual fala a Constituição é uma igualdade formal, mas tem a igualdade material. É essa igualdade material que é visada pelas políticas de ação afirmativa. Não basta dizer que somos todos iguais. Isso é importante, mas você tem que dar os meios e isso se faz com as políticas públicas. Muitos disseram que as cotas nas universidades iriam atingir a excelência universitária. Está comprovado que os alunos cotistas tiveram um rendimento igual ou superior aos outros. Então a excelência não foi prejudicada. Aliás, é curioso falar de mérito como se nosso vestibular fosse exemplo de democracia e de mérito. Mérito significa simplesmente que você coloca como ponto de partida as pessoas no mesmo nível. Quando as pessoas não são iguais, não se pode colocar no ponto de partida para concorrer igualmente. É como você pegar uma pessoa com um fusquinha e outro com um Mercedes, colocar na mesma linha de partida e ver qual o carro mais veloz. O aluno que vem da escola pública, da periferia, de péssima qualidade, e o aluno que vem de escola particular de boa qualidade, partindo do mesmo ponto, é claro que os que vêm de uma boa escola vão ter uma nota superior. Se um aluno que vem de um Pueri Domus, Liceu Pasteur, tira nota 8, esse que vem da periferia e tirou nota 5 teve uma caminhada muito longa. Essa nota 5 pode ser mais significativa do que a nota 7 ou 8. Dando oportunidade ao aluno, ele não vai decepcionar.
Foi isso que aconteceu, deram oportunidade. As cotas são aplicadas desde 2003. Nestes sete anos, quantos jovens beneficiados pelas cotas terminaram o curso universitário e quantos anos o Brasil levaria para formar o tanto de negros sem cotas? Talvez 20 ou mais. Isso são coisas concretas para as quais as pessoas fecham os olhos. No artigo do professor Demétrio Magnoli, ele me critica, mas não leu nada. Nem uma linha de meus livros. Simplesmente pegou o livro da Eneida de Almeida dos Santos, Mulato, negro não-negro e branco não-branco que pediu para eu fazer uma introdução, e desta introdução de três páginas ele tirou algumas frases e, a partir dessas frases, me acusa de ser um charlatão acadêmico, de professar o racismo científico abandonado há mais de um século e fazer parte de um projeto de racialização oficial do Brasil. Nunca leu nada do que eu escrevi.
A autora do livro é mestiça, psiquiatra e estuda a dificuldade que os mestiços entre branco e negro têm pra construir a sua identidade. Fiz a introdução mostrando que eles têm essa dificuldade justamente por causa de serem negros não-negros e brancos não-brancos. Isso prejudica o processo, mas no plano político, jurídico, eles não podem ficar ambivalentes. Eles têm que optar por uma identidade, têm que aceitar sua negritude, e não rejeitá-la. Com isso ele acha que eu estou professando a supressão dos mestiços no Brasil e que isso faz parte do projeto de racialização do brasileiro. Não tinha nada para me acusar, soube que estou defendendo as cotas, tirou três frases e fez a acusação dele no jornal.

Fórum - O senhor toca na questão do imaginário da democracia racial, mas as pessoas são formadas para aceitarem esse mito...

Kabengele - O racismo é uma ideologia. A ideologia só pode ser reproduzida se as próprias vítimas aceitam, a introjetam, naturalizam essa ideologia. Além das próprias vítimas, outros cidadãos também, que discriminam e acham que são superiores aos outros, que têm direito de ocupar os melhores lugares na sociedade. Se não reunir essas duas condições, o racismo não pode ser reproduzido como ideologia, mas toda educação que nós recebemos é para poder reproduzi-la.
Há negros que introduziram isso, que alienaram sua humanidade, que acham que são mesmo inferiores e o branco tem todo o direito de ocupar os postos de comando. Como também tem os brancos que introjetaram isso e acham mesmo que são superiores por natureza. Mas para você lutar contra essa ideia não bastam as leis, que são repressivas, só vão punir. Tem que educar também. A educação é um instrumento muito importante de mudança de mentalidade e o brasileiro foi educado para não assumir seus preconceitos. O Florestan Fernandes dizia que um dos problemas dos brasileiros é o “preconceito de ter preconceito de ter preconceito”. O brasileiro nunca vai aceitar que é preconceituoso. Foi educado para não aceitar isso. Como se diz, na casa de enforcado não se fala de corda.
Quando você está diante do negro, dizem que tem que dizer que é moreno, porque se disser que é negro, ele vai se sentir ofendido. O que não quer dizer que ele não deve ser chamado de negro. Ele tem nome, tem identidade, mas quando se fala dele, pode dizer que é negro, não precisa branqueá-lo, torná-lo moreno. O brasileiro foi educado para se comportar assim, para não falar de corda na casa de enforcado. Quando você pega um brasileiro em flagrante de prática racista, ele não aceita, porque não foi educado para isso. Se fosse um americano, ele vai dizer: "Não vou alugar minha casa para um negro". No Brasil, vai dizer: "Olha, amigo, você chegou tarde, acabei de alugar". Porque a educação que o americano recebeu é pra assumir suas práticas racistas, pra ser uma coisa explícita.
Quando a Folha de S. Paulo fez aquela pesquisa de opinião em 1995, perguntaram para muitos brasileiros se existe racismo no Brasil. Mais de 80% disseram que sim. Perguntaram para as mesmas pessoas: "você já discriminou alguém?". A maioria disse que não. Significa que há racismo, mas sem racistas. Ele está no ar... Como você vai combater isso? Muitas vezes o brasileiro chega a dizer ao negro que reage: "você que é complexado, o problema está na sua cabeça". Ele rejeita a culpa e coloca na própria vítima. Já ouviu falar de crime perfeito? Nosso racismo é um crime perfeito, porque a própria vítima é que é responsável pelo seu racismo, quem comentou não tem nenhum problema.

Revista Fórum - O humorista Danilo Gentilli escreveu no Twitter uma piada a respeito do King Kong, comparando com um jogador de futebol que saía com loiras. Houve uma reação grande e a continuação dos argumentos dele para se justificar vai ao encontro disso que o senhor está falando. Ele dizia que racista era quem acusava ele, e citava a questão do orgulho negro como algo de quem é racista.

Kebengele - Faz parte desse imaginário. O que está por trás que está fazendo uma ilustração de King Kong, que ele compara a um jogador de futebol que vai casar com uma loira, é a ideia de alguém que ascende na vida e vai procurar sua loira. Mas qual é o problema desse jogador de futebol? São pessoas vítimas do racismo que acham que agora ascenderam na vida e, para mostrar isso, têm que ter uma loira que era proibida quando eram pobres? Pode até ser uma explicação. Mas essa loira não é uma pessoa humana que pode dizer não ou sim e foi obrigada a ir com o King Kong por causa de dinheiro? Pode ser, quantos casamentos não são por dinheiro na nossa sociedade? A velha burguesia só se casa dentro da velha burguesia. Mas sempre tem pessoas que desobedecem as normas da sociedade.
Essas jovens brancas, loiras, também pulam a cerca de suas identidades pra casar com um negro jogador. Por que a corda só arrebenta do lado do jogador de futebol? No fundo, essas pessoas não querem que os negros casem com suas filhas. É uma forma de racismo. Estão praticando um preconceito que não respeita a vontade dessas mulheres nem essas pessoas que ascenderam na vida, numa sociedade onde o amor é algo sem fronteiras, e não teria tantos mestiços nessa sociedade. Com tudo o que aconteceu no campo de futebol com aquele jogador da Argentina que chamou o Grafite de macaco, com tudo o que acontece na Europa, esse humorista faz uma ilustração disso, ou é uma provocação ou quer reafirmar os preconceitos na nossa sociedade.

Fórum - É que no caso, o Danilo Gentili ainda justificou sua piada com um argumento muito simplório: "por que eu posso chamar um gordo de baleia e um negro de macaco", como se fosse a mesma coisa.

Kabengele - É interessante isso, porque tenho a impressão de que é um cara que não conhece a história e o orgulho negro tem uma história. São seres humanos que, pelo próprio processo de colonização, de escravidão, a essas pessoas foi negada sua humanidade. Para poder se recuperar, ele tem que assumir seu corpo como negro. Se olhar no espelho e se achar bonito ou se achar feio. É isso o orgulho negro. E faz parte do processo de se assumir como negro, assumir seu corpo que foi recusado. Se o humorista conhecesse isso, entenderia a história do orgulho negro. O branco não tem motivo para ter orgulho branco porque ele é vitorioso, está lá em cima. O outro que está lá em baixo que deve ter orgulho, que deve construir esse orgulho para poder se reerguer.

Fórum - O senhor tocou no caso do Grafite com o Desábato, e recentemente tivemos, no jogo da Libertadores entre Cruzeiro e Grêmio, o caso de um jogador que teria sido chamado de macaco por outro atleta. Em geral, as pessoas – jornalistas que comentaram, a diretoria gremista – argumentavam que no campo de futebol você pode falar qualquer coisa, e que se as pessoas fossem se importar com isso, não teria como ter jogo de futebol. Como você vê esse tipo de situação?

Kabengele - Isso é uma prova daquilo que falei, os brasileiros são educados para não assumir seus hábitos, seu racismo. Em outros países, não teria essa conversa de que no campo de futebol vale. O pessoal pune mesmo. Mas aqui, quando se trata do negro... Já ouviu caso contrário, de negro que chama branco de macaco? Quando aquele delegado prendeu o jogador argentino no caso do Grafite, todo mundo caiu em cima. Os técnicos, jornalistas, esportistas, todo mundo dizendo que é assim no futebol. Então a gente não pode educar o jogador de futebol, tudo é permitido? Quando há violência física, eles são punidos, mas isso aqui é uma violência também, uma violência simbólica. Por que a violência simbólica é aceita a violência física é punida?

Fórum - Como o senhor vê hoje a aplicação da lei que determina a obrigatoriedade do ensino de cultura africana nas escolas? Os professores, de um modo geral, estão preparados para lidar com a questão racial?

Kabengele - Essa lei já foi objeto de crítica das pessoas que acham que isso também seria uma racialização do Brasil. Pessoas que acham que, sendo a população brasileira uma população mestiça, não é preciso ensinar a cultura do negro, ensinar a história do negro ou da África. Temos uma única história, uma única cultura, que é uma cultura mestiça. Tem pessoas que vão nessa direção, pensam que isso é uma racialização da educação no Brasil.
Mas essa questão do ensino da diversidade na escola não é propriedade do Brasil. Todos os países do mundo lidam com a questão da diversidade, do ensino da diversidade na escola, até os que não foram colonizadores, os nórdicos, com a vinda dos imigrantes, estão tratando da questão da diversidade na escola.
O Brasil deveria tratar dessa questão com mais força, porque é um país que nasceu do encontro das culturas, das civilizações. Os europeus chegaram, a população indígena – dona da terra – os africanos, depois a última onda imigratória é dos asiáticos. Então tudo isso faz parte das raízes formadoras do Brasil que devem fazer parte da formação do cidadão. Ora, se a gente olhar nosso sistema educativo, percebemos que a história do negro, da África, das populações indígenas não fazia parte da educação do brasileiro.
Nosso modelo de educação é eurocêntrico. Do ponto de vista da historiografia oficial, os portugueses chegaram na África, encontraram os africanos vendendo seus filhos, compraram e levaram para o Brasil. Não foi isso que aconteceu. A história da escravidão é uma história da violência. Quando se fala de contribuições, nunca se fala da África. Se se introduzir a história do outro de uma maneira positiva, isso ajuda.
É por isso que a educação, a introdução da história dele no Brasil, faz parte desse processo de construção do orgulho negro. Ele tem que saber que foi trazido e aqui contribuiu com o seu trabalho, trabalho escravizado, para construir as bases da economia colonial brasileira. Além do mais, houve a resistência, o negro não era um João-Bobo que simplesmente aceitou, senão a gente não teria rebeliões das senzalas, o Quilombo dos Palmares, que durou quase um século. São provas de resistência e de defesa da dignidade humana. São essas coisas que devem ser ensinadas. Isso faz parte do patrimônio histórico de todos os brasileiros. O branco e o negro têm que conhecer essa história porque é aí que vão poder respeitar os outros.
Voltando a sua pergunta, as dificuldades são de duas ordens. Em primeiro lugar, os educadores não têm formação para ensinar a diversidade. Estudaram em escolas de educação eurocêntrica, onde não se ensinava a história do negro, não estudaram história da África, como vão passar isso aos alunos? Além do mais, a África é um continente, com centenas de culturas e civilizações. São 54 países oficialmente. A primeira coisa é formar os educadores, orientar por onde começou a cultura negra no Brasil, por onde começa essa história. Depois dessa formação, com certo conteúdo, material didático de boa qualidade, que nada tem a ver com a historiografia oficial, o processo pode funcionar.

Fórum - Outra questão que se discute é sobre o negro nos espaços de poder. Não se veem negros como prefeitos, governadores. Como trabalhar contra isso?
Kabengele - O que é um país democrático? Um país democrático, no meu ponto de vista, é um país que reflete a sua diversidade na estrutura de poder. Nela, você vê mulheres ocupando cargos de responsabilidade, no Executivo, no Legislativo, no Judiciário, assim como no setor privado. E ainda os índios, que são os grandes discriminados pela sociedade. Isso seria um país democrático. O fato de você olhar a estrutura de poder e ver poucos negros ou quase não ver negros, não ver mulheres, não ver índios, isso significa que há alguma coisa que não foi feita nesse país. Como construção da democracia, a representatividade da diversidade não existe na estrutura de poder. Por quê?
Se você fizer um levantamento no campo jurídico, quantos desembargadores e juízes negros têm na sociedade brasileira? Se você for pras universidades públicas, quantos professores negros tem, começando por minha própria universidade? Esta universidade tem cerca de 5 mil professores. Quantos professores negros tem na USP? Nessa grande faculdade, que é a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), uma das maiores da USP junto com a Politécnica, tenho certeza de que na minha faculdade fui o primeiro negro a entrar como professor. Desde que entrei no Departamento de Antropologia, não entrou outro. Daqui três anos vou me aposentar. O professor Milton Santos, que era um grande professor, quase Nobel da Geografia, entrou no departamento, veio do exterior e eu já estava aqui. Em toda a USP, não sou capaz de passar de dez pessoas conhecidas. Pode ter mais, mas não chega a 50, exagerando. Se você for para as grandes universidades americanas, Harvard, Princeton, Standford, você vai encontrar mais negros professores do que no Brasil. Lá eles são mais racistas, ou eram mais racistas, mas como explicar tudo isso?
120 anos de abolição. Por que não houve uma certa mobilidade social para os negros chegarem lá? Há duas explicações: ou você diz que ele é geneticamente menos inteligente, o que seria uma explicação racista, ou encontra explicação na sociedade. Quer dizer que se bloqueou a sua mobilidade. E isso passa por questão de preconceito, de discriminação racial. Não há como explicar isso. Se você entender que os imigrantes japoneses chegaram, nós comemoramos 100 anos recentemente da sua vinda, eles tiveram uma certa mobilidade. Os coreanos também ocupam um lugar na sociedade. Mas os negros já estão a 120 anos da abolição. Então tem uma explicação. Daí a necessidade de se mudar o quadro. Ou nós mantemos o quadro, porque se não mudamos estamos racializando o Brasil, ou a gente mantém a situação para mostrar que não somos racistas. Porque a explicação é essa, se mexer, somos racistas e estamos racializando. Então vamos deixar as coisas do jeito que estão. Esse é o dilema da sociedade.

Revista Fórum – como o senhor vê o tratamento dado pela mídia à questão racial?

Kabengele - A imprensa faz parte da sociedade. Acho que esse discurso do mito da democracia racial é um discurso também que é absorvido por alguns membros da imprensa. Acho que há uma certa tendência na imprensa pelo fato de ser contra as políticas de ação afirmativa, sendo que também não são muito favoráveis a essa questão da obrigatoriedade do ensino da história do negro na escola.
Houve, no mês passado, a II Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial. Silêncio completo da imprensa brasileira. Não houve matérias sobre isso. Os grandes jornais da imprensa escrita não pautaram isso. O silêncio faz parte do dispositivo do racismo brasileiro. Como disse Elie Wiesel, o carrasco mata sempre duas vezes. A segunda mata pelo silêncio. O silêncio é uma maneira de você matar a consciência de um povo. Porque se falar sobre isso abertamente, as pessoas vão buscar saber, se conscientizar, mas se ficar no silêncio a coisa morre por aí. Então acho que o silêncio da imprensa, no meu ponto de vista, passa por essa estratégia, é o não-dito.
Acabei de passar por uma experiência interessante. Saí da Conferência Nacional e fui para Barcelona, convidado por um grupo de brasileiros que pratica capoeira. Claro, receberam recursos do Ministério das Relações Exteriores, que pagou minha passagem e a estadia. Era uma reunião pequena de capoeiristas e fiz uma conferência sobre a cultura negra no Brasil. Saiu no El Pais, que é o jornal mais importante da Espanha, noticiou isso, uma coisa pequena. Uma conferência nacional deste tamanho aqui não se fala. É um contrassenso. O silêncio da imprensa não é um silêncio neutro, é um silêncio que indica uma certa orientação da questão racial. Tem que não dizer muita coisa e ficar calado. Amanhã não se fala mais, acabou.


Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de agosto.
vosite o grupo do Jojó: http://feirapreta.ning.com/group/frumdediversidade

link: http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/EdicaoNoticiaIntegra.asp?id_artigo=7378

I Seminário Afro Carioca

15:44 @ 31/08/2009

Não responder esse e-mail. Aguardamos por sua mensagem nos endereços leliagonzalez@leliagonzalez.org.br ou podermulher@terra.com.br

 


Agenda: 17 e 18 setembro
UERJ
II Seminário Afro Carioca


                                        Programação          Inscrições


Dia 17/09

14:00h
          Cerimônia de Abertura
                    Representantes:
                              Reitoria, Centros: CEH e CCS
                    Unidades Acadêmicas:
                              Instituto de Filosofia e Ciências FCHumanas
                              Faculdade de Educação
                              Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais
                              Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UERJ
14:30h às 17h
          Cultura Afro-Carioca: Patrimônios e Identidades
                    Coordenadora: Marcia Contins – UERJ
                    Martha Abreu – UFF
                    Patrícia Faria - UFRJ
                    Edlaine Gomes – UFRJ
                    Andrea Paiva  - UFRJ
                    Sônia GiacominiPUC-Rio
                    Debatedora: Ilana Strozenberg – UFRJ
18:00h - Conferência
                    José Jorge de Carvalho - UnB
19:00h às 21:00h - Atividade Cultural
                    Posters de Dissertações de Mestrado
                    Teses de DO do PPCIS
                    Mostra de livros
                              Local: Hall do 1º andar

Dia 18/09

14:00h às 17h
          Políticas Educacionais e Ação Afirmativa
                    Coordenador: Rafael dos Santos - UERJ
                    Moema de Poli Teixeira - UFF/IBGE
                    Sabrina Moehlecke - UFRJ
                    Andreia Vieira - UFRJ
                    José Maurício ArrutiPUC-Rio
                    Elielma Ayres Machado - UERJ
                    Debatedor: José Jairo Vieira - UFRJ
18:00h - Conferência
                    Livio Sansone - UFBA
19:00h às 21:00h - Atividade Cultural
                    Posters de Dissertações de Mestrado
                    Teses de DO do PPCIS
                    Mostra de livros
                              Local: Hall do 1º andar

Comissão Organizadora do Seminário:
Maria Alice Rezende Gonçalves
Elielma Ayres Machado
Simone Vassallo

Contato:
neabuerj_semprenegro@yahoo.com.br

 

Recebido de Vanda Ferreira - vmferreira@petros.com.br - a quem agradecemos

 


Web Site - www.leliagonzalez.org.br
Ações Afirmativas - http://afirmativas.blogspot.com
Informa - http://leliagonzalez-informa.blogspot.com
Continente África - http://continente-africa.blogspot.com

 

Esse Informativo de Memória Lélia Gonzalez é enviado a assinantes e à comunidade que luta contra toda forma de racismo e xenofobia. Caso não queira receber mais o Informativo, escreva para podermulher@terra.com.br ou podermulher@gmail.com, com o assunto “REMOVER”.