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Primeira juíza negra do país lança livro sobre o negro no século XXI




Ana Cristina Pereira | Redação CORREIO
O tom impessoal do livro O negro no século XXI é apenas uma opção estratégica. Escrito pela juíza baiana Luislinda Dias de Valois Santos, 67, reúne artigos sobre temas variados como cultura, educação, políticas públicas, justiça social e religião. Todos mediados pela experiência negra no país pós-escravidão.
Poderia ser a história da própria Luislinda, que teve avô escravo, pai motorneiro de bonde, cuidou dos irmãos menores quando a mãe morreu precocemente e só se formou advogada aos 39 anos. E era essa mesmo a intenção, quando ela começou a escrevê- lo.
Seria um desabafo diante de mais uma situação difícil: dois processos contra ela , já arquivados por falta de provas, no Tribunal de Justiça da Bahia. Isto foi no início desta década. “Não fiz pesquisas. Tudo que falo é por conhecimento de causa”, afirma Luislinda, que lança o trabalho quarta- feira, às 19h30, na Saraiva Megastore (Salvador Shopping).


Luislinda foi a primeira negra brasileira a entrar para a magistratura
Foto: Divulgação/Ricardo Prado 

Sobre a escola pública, por exemplo, fala com intimidade. Foi no Colégio Duque de Caxias, na Liberdade, que ouviu a sentença de um ex-professor, irritado por causa de seu pobre material escolar: “Se não pode comprar é melhor parar de estudar e ir cozinhar feijoada na casa de branca”.
E se o tema é religião, recorda, foi testemunha das idas e voltas da tia Helena Grande a uma delegacia para pegar autorização para o funcionamento do terreiro de candomblé, no bairro de Pirajá.
Mas Luislinda resolveu tirar o foco de si mesma,e tratar de temas caros à maioria. Como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas, que defende com veemência. “O sistema de cotas aproxima pessoas que vivem de forma desigual”, defende a magistrada, que integrou a equipe que implantou a medida na Uneb.
Ela também defende a ampliação das cotas para setores como o serviço público. “Precisamos ter mais médicos, engenheiros e juízes negros. É preciso oportunizar. A competência e a inteligência não são privilégios de uma única raça”, discursa.
Guerreira
Mãe do promotor de justiça Luis Fausto - que atua em Sergipe -, e avó de duas meninas, Luislinda diz que sempre falou para eles que ser negro é maravilhoso. Mas também que não era para deixar ninguém tomar conta deles. “Sou muito séria nas minhas posições. Não posso vacilar, afinal sou negra, pobre, vim da periferia, sou divorciada e ainda sou rastafári”, brinca.
Primeira juíza negra brasileira, Luislinda também foi a primeira a dar uma sentença tendo como base a Lei do Racismo. Foi a ação movida por Aila Maria de Jesus, que se recusou a abrir a bolsa num supermercado, depois de ter sido acusada injustamente de ter roubado um frango e um sabonete.
A trajetória da magistrada impressionou a jornalista paulista Lina de Albuquerque, autora do livro Recomeços, que reúne histórias de pessoas que foram capazes de reconstruir a vida diante de uma situação adversa. Depois de fazer um pequeno perfil da baiana para a publicação, Lina está escrevendo a biografia dela, que deve ser lançada até o final do ano.


Na época em que participou do Miss Mulata (1966)
Foto: Arquivo Pessoal 

Há ainda uma articulação para um documentário. “Vamos mostrar como é difícil ser negro na Bahia”, afirma Luislinda, que atuou durante seis anos em Curitiba e diz que lá foi mais bem-aceita.

Atualmente, ela está em licença- prêmio da função de titular do juizado da Faculdade Jorge Amado. E ainda hoje, conta, se depara com situações como a da advogada que estava em sua cadeira e não acreditava que estava diante da juíza. “Tenho sempre que me impor”, reitera.
Entre os planos para o futuro está o de ser nomeada desembargadora do Tribunal de Justiça da Bahia. “Sou a sétima juíza mais antiga e tenho competência para isso”, provoca a filha de Iansã, que joga búzios, lê cartas e frequenta o terreiro Dembaukueman, da ialorixá mãe Bebé, no Buraco da Gia (Vasco da Gama).
“Adoro vermelho. É a cor da dona da minha cabeça”, diz Luislinda, referindo-se à orixá guerreira. A cor ela traz até nos cabelos. “Acompanho a evolução”, diverte-se a juíza, que já usou black power e concorreu a Miss Mulata em 1966. Ficou com o título de Simpatia.
FICHA 
Livro O negro no século XXI 
Autora Luislinda Dias de Valois Santos 
Editora Juruá H Preço R,90 (83 páginas) 
Lançamento Quarta, às 19h30, na Saraiva Megastore (Salvador Shopping)
Causos da afrobaianidade
A história sempre foi o terreno de Ubiratan Castro, mestre e doutor na matéria. Ex-presidente da Fundação Cultural Palmares e atual diretor da Fundação Pedro Calmon, ele atua com a preservação e divulgação da memória, sobretudo da negritude.
Em 2004, depois de uma viagem a Cabo Verde, na África, ele resolveu ampliar seu raio de atuação, investindo na ficção. Voltou pensando em colocar no papel histórias e causos ouvidos dos mais velhos que, fatalmente, tendiam a cair no esquecimento. “A grande riqueza do povo negro está na oralidade. Mas ela precisa ser passada para outros meios”, diz Ubiratan, 60 anos.
E completa: “Veja o candomblé. Hoje, os meninos não querem mais se formar alabês, eles querem é sair por aí tocando, aparecendo na mídia”, diz, referindo-se aos músicos-sacerdotes.
De sua parte, cutucou a memória e escreveu inicialmente algumas narrativas, reunidas no livro Sete histórias de negro, de 2006. Com mais cinco contos e novo projeto gráfico, de Nelson Araújo, o trabalho volta às prateleiras, rebatizado de Histórias de negro ( Edufba).
O lançamento será nesta segunda-feira (24), às 18h, na Academia de Letras da Bahia (Nazaré). Destaque para as ilustrações a partir de grafites de  rua de Denis Sena. “São histórias transmitidas no contexto de oralidade familiar”, define o autor, acrescentando que elas tratam do “ordinário, do quotidiano, de homens e mulheres comuns, negros todos”.
Falam de escravos, ex-escravos, pretos de ganhos ou seus descendentes, a sacolejar pelas feiras, ruas e becos de Salvador. Em Conta de somar, por exemplo, história que abre o livro, o autor refaz com humor uma das muitas estratégias dos negros urbanos para conseguir a sonhada alforria.
No caso, ludibriando intencionalmente o dono. Para o historiador João José Reis,queassinaoprefácio,nos contos de Ubiratan “combinam-se o contador de histórias e o historiador”. Ele concorda.
Empolgado com a atividade, ele diz que lançará um livro histórico no ano que vem, mas, na sequência, voltará à ficção. Para isso, diz, vai à cata de novas lembranças e causos, com pessoas ligadas ao candomblé ou à Irmandade do Rosário dos Homens Preto, da qual faz parte.
“Cada negro letrado no Brasil tem a obrigação de sistematizar as suas próprias lembranças. A experiência de cada um é um trecho da realidade vivida”, considera Ubiratan.
FICHA 
Livro Histórias de negro 
Autor Ubiratan Castro de Araújo 
Editora Edufba 
Preço R (178 páginas) 
Lançamento Hoje (segunda-feira), às 18h, na Academia de Letras da Bahia (Nazaré)
(Notícia publicada na edição impressa do dia 24/08/2009 do CORREIO - Disponível em: http://correio24horas.globo.com/noticias/noticia.asp?codigo=34009&mdl=49)

Seminário reuniu mais de 40 municípios do Estado na discussão do Seminário reuniu mais de 40 municípios do Estado na discussão do Plano Nacional de Educação para as Relações Étnicorraciais

Foto: Valdir Rocha

Ricardo Moresi
 
Relatos de experiências, discussão sobre as responsabilidades de cada segmento na implementação da Lei Federal nº. 10.639/03, que determina o estudo da cultura dos afrodescendentes no currículo das escolas, a apresentação do Plano Nacional de Educação para as Relações Étnicorraciais. Estes foram os objetivos do seminário realizado nesta quarta-feira (23), no auditório da Casa da Indústria, no bairro do Farol, em Maceió.
 
O evento reuniu participantes de mais de 40 municípios alagoanos, numa iniciativa do Fórum Permanente de Educação e Diversidade Étnicorracial, que é coordenado pela Secretaria de Estado da Educação e do Esporte (SEE), através da Gerência de Educação Étnicorracial e Gênero.
 
Segundo a gerente de Educação Étnicorracial e de Gênero da SEE, Irani da Silva Neves, o objetivo almejado pelo fórum foi atingido. “A nossa principal intenção era discutir os encargos dos segmentos na implementação da Lei Federal nº. 10.639/03. Conseguimos trazer secretários municipais de Educação, representantes das 15 Coordenadorias de Ensino e diretores das escolas da rede estadual e municipal. Estamos felizes com o resultado obtido”, garante.
 
Segundo o palestrante e professor mestre da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), Clébio Araújo, o foco principal da palestra ministrada por ele foi o trabalho, a identidade nacional e o racismo. “Fizemos uma análise do processo de formação do povo e da nação brasileira. Procuramos demonstrar quais são os lugares reservados às minorias étnicas. Além disso, procuramos desvendar o mito da democracia racial através das contradições desse mito e as desigualdades que perpassam os diferentes dentro do que se chama democracia racial”, informou.
 
Já o secretário de Educação de Joaquim Gomes, Mário José da Silva, destacou que este seminário foi de fundamental importância, uma vez que o negro ficou durante anos relegado ao patamar do esquecimento. “No momento em que se cria uma lei para tentar rever esse esquecimento é preciso comemorar. A partir de agora, o município de Joaquim Gomes irá tratar com mais cuidado e atenção a temática étnicorracial”, assegurou.
 
Por fim, o palestrante Élcio Verçosa destacou que, felizmente, por pressão dos movimentos sociais, principalmente, o Movimento Negro, a temática étnicorracial está consubstanciada em lei. “O Brasil é um país mestiço. Isso não pode ser escondido e nem negligenciado pela escola. O povo negro deu uma contribuição enorme para que o país atingisse o patamar de desenvolvimento que possui. Povos e culturas precisam se articular e se respeitar”, complementou o educador.fo

Os movimentos sociais terão a oportunidade de se manifestar sobre a instituição de cotas para o ingresso nas universidades. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski convocou audiência pública para ouvir a sociedade civil sobre o assunto. O ministro é relator da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 186, proposta pelo partido Democratas (DEM), que questiona a criação de cotas para negros na Universidade de Brasília (UnB).

A audiência será de 3 a 5 de março de 2010, mas os interessados -especialistas em matéria de políticas de ação afirmativa no ensino superior- devem requerer a participação no período de  1º a 30 de outubro, pelo endereço eletrônico acaoafirmativa@stf.jus.br. Na requisição, precisam explicar os pontos que pretendem defender e indicar o nome de seu representante. A relação dos inscritos habilitados será publicada no portal eletrônico do STF a partir de 13 de novembro.

Histórico - No último dia 31 de julho, o presidente do STF, Gilmar Mendes, negou o pedido de liminar ajuizado pelo partido DEM para suspender a adoção das cotas pela UnB. "Embora a importância dos temas em debate mereça a apreciação célere desta Suprema Corte, neste momento não há urgência a justificar a concessão da medida liminar", afirmou Mendes. O caso será julgado no mérito pelo plenário da Corte.

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Comunicação Social da SEPPIR /PR

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