Eram meninos e dificilmente se tornariam homens.
14:34 @ 10/06/2010
Eram meninos e dificilmente se tornariam homens.
por Arísia Barros
http://www.cadaminuto.com.br/blog/blog-raizes-da-africa
Eram todos pretos. A miséria que os rodeava tinha cor indefinida. Ou miséria tem cor? Eram todos pretos e estavam estranhamente rígidos feito transeuntes de efêmera passagem pela vida.
A morte
os fazia mais pretos e de tão pretos, indigentes invisíveis. A invisibilidade
demarcando espaço com a indiferença alheia. Foram mortos enquanto dormiam. Nenhum
de bala perdida. A bala do racismo é certeira.
Eram todos pretos e dormiam no limbo de uma existência sem muita significação.
Nem para eles. Nem para os outros. Praticavam pequenos roubos na vizinhança
comercial e a noite dormiam em colchão de papelão disputado a tapas. Às vezes
encontravam um saco de cimento...
O pequeno ainda usava uma chupeta pendurada no pescoço e a alma recheada do oco
da cola de sapateiro.
Quantos
anos? Talvez cinco. Mirrado. Sete? Quem sabe? Alguém quer saber?
A piedade cristã embrulha os corpos com jornais. Notícias fresquinhas de mortes
iminentes. Sem mãe. Nem pai. Todos pretos. Todos meninos. Todos solidão. Todos
passado.
Eram meninos diferentes de todos os outros que moram em nossas casas. Eram meninos com a selvageria das ruas. Vence quem mais esperto for. Eram meninos que não conheciam as letras, nem com elas formavam sonhos.
Eram
meninos com a ferocidade que só o abandono provoca e demora uma vida para
reabilitar. Eram meninos e dificilmente se tornariam homens.
Uma vez os vi disputando os restos de sanduíche dos lixos. Sanduíches e restos
de papel higiênico.
Quantas
vezes tomavam banho? Quem os aconselhava a escovar dentes. E antes de
embrulhar-se com o saco de cimento qual oração pronunciavam?
Acreditavam em Deus? Tinham medo de escuro?
Eram todos meninos. Todos pretos. Todos pobres. Meninos pretos que morreram como homens.
Assassinados.
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