Doutor
em Comunicação e Semiótica pela PUC (SP), o instrumentista Antonio
Eduardo é um apaixonado pela música e pela obra de Gilberto Mendes.
Além de escrever artigos sobre música contemporânea, desenvolve como
pianista carreira internacional enfatizando a obra brasileira por meio
de recitais e palestras em países latino-americanos e europeus, como
Bélgica, Finlândia, Dinamarca, França, Cuba e Chile. Nesta entrevista à
jornalista Sandra Perruci, ele fala sobre a riqueza cultural de nossa
região e do desafio de despertar novos talentos.
Pianista reconhecido no Exterior, elogiado pela crítica, diga: é preciso se lançar lá fora para ter reconhecimento aqui dentro?
Quando
iniciei meus estudos de musica, nos anos 60, Santos tinha mais de uma
dezena Escolas de Música e havia a importante atividade do Centro de
Expansão Cultural. Tive a oportunidade de assistir verdadeiras aulas
através de concertos de pianistas como Jacques Klein, Antonio Guedes
Barbosa, Nelson Freire, Arnaldo Cohen e a inesquecível Guiomar Novais.
Durante a ditadura militar e Santos sob intervenção federal, assisti a
efervescência criativa e contestadora das edições do Festival Música
Nova, através de apresentações memoráveis do ARS VIVA, a frente Klaus
Dieter Wolff e posteriormente o grande Roberto Martins.
As
performances do Grupo Quorum- objetos de recentes artigos meus-, sem
esquecer das palestras sobre vanguarda musical assistidas na antiga
sede do Madrigal Ars Viva. Tudo isso foi minha formação e também a de
um público que ia a concertos e que fazia da música parte da sua
educação basilar. Claro, as dificuldades eram enormes e tínhamos que
sair para conseguir mais espaços. Comigo foi um
pouco diferente, pois quando saí mundo afora, fui sempre convidado por
Instituições Internacionais para falar e tocar nossa música
contemporânea. Viajei e viajo mundo afora, hoje
tocando mais (e falando menos), um repertório que pesquiso não só de
compositores brasileiros, mas de várias partes do mundo que me
escrevem, que me dedicam obras e que divulgo.
O
que acontece nos últimos tempos é que por falta de formação musical,
seja ela pela ausência da Música nos currículos escolares ou mesmo pela
desestruturação do ensino de formação musical, perdemos público, mas
não perdemos músicos, pois "uma das coisas maravilhosas da criatividade
é que ela brota até em terrenos pobres e de pouca água.
O Espírito sopra aonde quer", como afirmou Rubens Recupero em recente artigo.
Então,
lancei-me fora do Brasil, pois lá encontro o espaço que preciso para
divulgar este trabalho e a produção tão desconhecida de nosso tempo.
Aqui temos espaço, muito mais que antes. O que precisamos é planejar e
manter sua constancia.
Que
compositores se destacam na música contemporânea brasileira, dentro da
sua visão, e o que falta para que a música instrumental tenha mais
visibilidade?
Venho
dedicando-me ao estudo da obra para piano de Gilberto Mendes, um dos
mais importantes nomes de nossa música. A partir deste estudo tive a
oportunidade de conhecer vários compositores com grande e importante
produção, pois a atividade pedagógica do Gilberto sempre fez com que
estivesse orbitando ao seu redor esta diversidade e atualidade.
Por
outro lado, coordeno uma coleção de música contemporânea para piano,
através de uma editora belga, a AVK Éditeur, onde tenho editado obras
de uma nova e promissora geração de compositores, como Silvia Berg,
Rodolfo Coelho de Souza, Rubens Ricciardi, além de nomes já consagrados
como o próprio Gilberto e Sergio Vasconcelos Correa, cujos 12 Ponteios,
são pequenas pérolas musicais.
No
meu último CD toco obras de jovens e promissores compositores
brasileiros. Na Bossa Nova Serie que deverei tocar em breve em São
Paulo, tenho a honra de tocar obras dos mais representativos
compositores brasileiros da atualidade.
Você
tem pesquisado a música brasileira a partir da segunda metade do século
20. O que o atrai neste período, e em especial na produção do maestro
Gilberto Mendes?
O
que sempre atrai-me na obra do Gilberto Mendes é sua capacidade de
aglutinação de estilos, linguagens e a construção de uma singular obra,
que é o resultado de tudo isso.
O maior tesouro na linguagem musical do Gilberto é a harmonização da diversidade.
Ele
foi o pioneiro em deixar influenciar-se pela musica popular urbana, ao
mesmo tempo em que "descobria" a beleza contemporânea em Schuman e
Chopin. Ouve fox trot com os ouvidos de quem se enleva pela iconicidade
de Debussy e descobre Mozart na interpretação do magistral pianista
Teddy Wilson.
É
isso que me interessa na música deste século. É essa "transmodernidade"
que se comunica diretamente com o público, que não necessita de
transcendências dialéticas para fazer surgir o belo.É o que busco ao
interpretar, Dominique Dupraz, Michel Lysight, Daffyd Bullock, Buckinz
e o "quase nosso" Jack Fortner.
Tocando
neste tema, é o foco, aliás, do seu último trabalho, o CD "Da areia
também de vê o mar". Conte um pouco como foi desenvolver este projeto.
Este
quarto CD é o resultado da amizade. E amizade aqui é minha referência -
a cumplicidade do compositor e do intérprete, que concebe suas idéias
musicais, leva-as ao papel, buscando no intérprete o resultado no
plano material-sonoro.
"Da areia também se vê o mar", título deste
CD, vem de um peculiar hábito que tinha quando criança de permanecer
sentado a beira da praia, no canal 5, em Santos, esperando garrafas que
viessem de algum lugar desconhecido trazendo uma mensagem - ou seja,
aquela fantasia de admirar o desconhecido e deparar-se com ele na forma
de um simples objeto vindo de um ponto desconhecido.
Hoje,
quando minha carreira como pianista volta-se para a desconhecida e
multifacetada música de nosso tempo, ponho-me a pensar nestas peças
como as mensagens de amigos de longe (si loin, si près...) que jogaram
suas garrafas no oceano e eu aqui em Santos, na areia da praia,
tomo-as para mim, e toco-as para quem as quiser ouvir...
Uma
mensagem poética, romântica, talvez? Pode ser, mas é uma das verdades
mais íntimas daqueles que nasceram ao lado do mar: a paciência do
pescador e a esperança do olhar infinito...
Uma
proposta de leitura em tono da diversidade musical que parece ser a
tendência mundial no que diz respeito à composição. As tendências e os
caminhos mundiais são tantos, que tudo é tudo e tudo é nada. Vivemos o
pluralismo em sua fase mais aguda e aí está nossa tragédia e nossa
riqueza. Viver, fundir e fazer uma grande geléia de tudo...
E a produção cultural em Santos, Eduardo? Onde precisamos avançar?
Temos
que avançar e avidamente na formação de público e buscar incentivar
novos talentos. Não podemos mais dar-nos ao desprezo de vê-los partir
ou pior, abortar tantos e tão promissores jovens talentos.
Nossa
região é riquíssima em tradição cultural, não é possível que a subida
da serra seja o caminho para novas e antigas gerações. Temos que acabar
com este lamentável êxodo.
Por outro lado, temos que nos atualizar
em questões de gestão cultural, investir em novos conceitos, como
"economia criativa" , valorizar a diversidade e buscar integrá-la num
panorama amplo de cultura e sociedade.
Temos que avançar na seriedade e humildade de chegar ao povo e planejar. Cultura não deve ser tutelada, deve ser dialogada...
Santos
é uma cidade que tem uma tradição fortíssima de cinema, tem tradição de
várias coisas, de teatro e música. Precisamos valorizar tudo isso. Como
afirmou Gilberto Mendes, em recente entrevista à Cristiane Carvalho, no
site Artefato Cultural: "Gostar das artes é, praticamente, freqüentar
as artes, esse freqüentar as artes só pode ser possível através de
entidades que dêem um jeito para que as pessoas freqüentem as artes,
tem que haver exibições de artes plásticas em abundância, muitos
concertos e maneiras de levar e seduzir o povo". Logo, formação de
público, no sentido mais amplo da palavra.