Grupos

Em 13 de abril de 2007, ao final da programação de uma oficina de capacitação dos antropólogos do INCRA, estes tiveram um espaço para, pela primeira vez, discutir a problemática da sua atuação no órgão, numa reunião só desses profissionais, sem a presença de membros da direção. A reunião contou com a participação de analistas periciais em Antropologia da 6a Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal. Na ocasião, tiveram a oportunidade de discutir vários pontos, tais como: os desvios de função dos antropólogos (“qual o papel do antropólogo no INCRA?”) e a necessidade de definição dos papéis e das atribuições dos antropólogos na estrutura do INCRA; e propuseram uma série de encaminhamentos, como: discutir o trabalho dos antropólogos em instituições públicas (OGs) ou de interesse público (ONGs) e na iniciativa privada, e propor GTs nas próximas reuniões da ABA e/ou em outros eventos (ANPOCS, RAM, etc.). A ajuda-memória da referida reunião dos antropólogos do INCRA (13/04) registrou, na forma de bullet points, os seguintes elementos, que compartilhamos aqui no blog:

 

* Desvios de função de antropólogos: “qual o papel do antropólogo no INCRA?”

 

1)      Os antropólogos foram contratados para fazer relatórios ou fazer gerenciamento de gabinete?

2)     Não existe consenso entre procuradorias quanto ao contrato de antropólogos. Algumas não permitem o contrato de antropólogos de fora, uma vez que existe o profissional no quadro funcional. Argumento contrário: como a carreira oficial dentro do Incra é de ADFR com habilitação em antropologia, não existe impedimento para a contratação de antropólogos, uma vez que não é a mesma carreira a partir da perspectiva institucional.

3)     A especificidade do trabalho do antropólogo no Incra: metodologia, trabalho de campo, pesquisa, estudo, produção, etc. Mencionaram-se as necessidades específicas da natureza do trabalho: tranqüilidade para ler e escrever, etc.

4)     Questão de tempo/espaço de produção do trabalho etnográfico. Sensibilizar chefias e usar diplomacia na reivindicação. Amarrar com tempo pré-determinado para término do relatório?

5)     Associação de antropólogos do Incra: organização e apoio para regulamentação do trabalho (ver itens 3 e 4) dentro do Incra. Sobrecarga?

6)     Antropólogo pode trabalhar em vários programas dentro do Incra, mas na qualidade de antropólogo. Demanda varia nas SRs.

7)     Trabalho etnográfico qualifica o antropólogo para emitir pareceres, fazer acompanhamento dos outros trabalhos, etc.

8)     Regulamentação da profissão: propor definição das atribuições do antropólogo do Incra.

9)     Gratificação específica.

 

Encaminhamentos:

 

1)      Elaboração de um documento propositivo fundamentando a forma pela qual fomos contratados.

2)     Elaborar um documento sobre as atribuições e caracterização do trabalho do antropólogo dentro do Incra.

- Uma das técnicas ficou responsável por reunir propostas para ambos os documento para circulação entre os antropólogos.

3)     Dois técnicos ficaram responsáveis por iniciar discussão sobre a associação e reunir contribuições.

4)     Relatório da capacitação.

5)     Cada qual enviar informações para os responsáveis pela sistematização e repassar para os outros na lista.

 

Atribuições dos antropólogos no Incra (chuva de idéias)

(Focar em tarefas ou na natureza do trabalho?)

 

1)      Elaboração de relatórios antropológicos de identificação e delimitação de territórios quilombolas;

2)     Acompanhamento de relatórios antropológicos em execução por meio de contratos/convênios;

3)     Facilitar interlocução qualificada entre comunidades tradicionais e demais agentes sociais (amadurecer esta idéia);

4)     Acompanhamento antropológico em atividades com outras populações tradicionais;

5)     Acompanhamento antropológico em planos de desenvolvimento e gestão ambiental (melhorar redação); e

6)     Condução das reuniões preliminares nas comunidades a serem regularizadas (IN 20).

 

Recentemente, em 05 de setembro, nosso colega Roberto Almeida atualizou informações sobre os desdobramentos da reunião: “a notícia ruim é que [...] tudo ficou parado desde então. A notícia boa é que recentemente, em uma reunião da Coordenação Nacional de Quilombos (CONAQ) com o Presidente do Incra, Rolf Hackbart, na qual participamos, conseguimos emplacar a necessidade dele receber os antropólogos da casa. Esta reunião ainda vai ser marcada, mas isto já detonou o reinício da discussão interna de nossa categoria”.

 

Efetivando um dos encaminhamentos, todos os mais de 30 antropólogos do INCRA se encontrarão para continuar a discutir seus dilemas dentro da instituição e encaminhar propostas, durante a I Reunião Equatorial de Antropologia/X Reunião de Antropólogos do Norte-Nordeste, em Sergipe, de 8 a 11 de outubro próximo, ao abrigo do GT 28 “Antropologia, políticas públicas e questão fundiária quilombola”, coordenado por Rui Leandro da Silva Santos (INCRA) e Eliane Cantarino O’Dwyer (UFF) e tendo Alba Lucy Giraldo Figueroa (INCRA) como debatedora.

“Ofício do Antropólogo” foi o tema da Mesa-Redonda no 7 da VII RAM (Reunião de Antropologia do Mercosul), na manhã do dia 25 de julho 2007, no Anfiteatro 500, da Faculdade de Engenharia da UFRGS. Promovida pela ABA, a Mesa foi coordenada por Léa Perez (UFMG), Coordenadora da Comissão de Ensino de Antropologia da ABA, tendo como expositoras Sonnia Romero Gorski (Universidad de la Republica, Montevidéu), Simoni Lahud Guedes (UFF) e Sofia Tiscórnia (Universidad de Buenos Aires) – que teve o seu trabalho lido por uma aluna, pois, por motivo de força maior, não pôde comparecer. O Coordenador do GT Ofício d@ Antropólog@, Henyo T. Barretto Filho, debateu as apresentações. A atividade atraiu muito interesse e a audiência ficou repleta, conforme se vê nas fotografias de Eduardo Rocha (antropólogo do INCRA, no Piauí). Seguem, abaixo, o resumo da Mesa e os títulos das apresentações com links para baixar as mesmas em formato PDF. Leia as apresentações feitas pelas três colegas antropólogas latino-americanas, com distintas inserções no campo da Antropologia em seus respectivos países, e deixe o seu comentário sobre a Mesa. [OBS.: Para acessar o conteúdo das apresentações em PDF você precisa se cadastrar em www.grupos.com.br]

 

 

RESUMO: A Antropologia consolidou-se como disciplina científica conjuntamente ao trabalho e demanda de instituições e agências desenvolvimentistas, governamentais, não-governamentais, dentre outras. Tais instituições e agências, na maioria das vezes, se voltam para a administração de populações humanas, recursos naturais, territórios e os mais diversos problemas sociais. A partir destes contextos institucionais, o conhecimento e a prática antropológicos informam e motivam ações intervencionistas na realidade social, bem como sofrem injunções e modulações decorrentes do horizonte institucional nos quais se encontram inseridos. Sob as mais controversas designações (antropologia aplicada, antropologia implicada, antropologia prática, pesquisa-ação, etc.) a atuação profissional de antropólogos e antropólogas fora dos limites disciplinares da comunidade científica tem sido caracterizada como uma atuação problemática e eticamente sensível. Esta mesa-redonda objetiva repensar a prática antropológica e as condições de trabalho dos antropólogos fora das universidades e centros de pesquisa, levantando questões de ordem prática e moral sobre o ofício do antropólogo.

 

Contexto para el Ejercicio de la Profesión de Antropólogo/a en Uruguay

Sonnia Romero Gorski (Universidade da República, Montevidéu, Uruguai)

 

A Prática da Antropologia e suas Aplicações Práticas

Simoni Lahud Guedes (UFF, Brasil)

 

¿Más alteridad o más estatalizad? Disyuntivas éticas y morales de una antropóloga trabajando en incidencia de las ONGs en materia de Seguridad Ciudadana y Violencia Policial

Sofia Tiscórnia (Univ. de Buenos Aires, Argentina).

 

Já há algum tempo as sucessivas diretorias da Associação Brasileira de Antropologia têm se esforçado para incorporar uma reflexão sobre a prática antropológica para além dos limites dados pelo ensino e a pesquisa na universidade, tendo em vista as mudanças em que o ofício antropológico se viu implicado nas últimas décadas. Recentemente, a ABA promoveu várias atividades nessa direção, entre as quais se destacam: a Oficina “Antropologia Extramuros: Novas Responsabilidades Sociais e Políticas dos Antropólogos”, realizada em maio de 2002, na UFF, na presidência do Prof. Ruben Oliven (UFRGS), cujos anais devem ser publicados ainda este ano; o próprio eixo temático que norteou a gestão do Prof. Oliven ‑ “Antropologia e Ética” – que gerou a publicação Antropologia e Ética: o debate atual no Brasil (Niterói/Porto Alegre: EdUFF/ABA; 2004); e a pesquisa realizada em 2003, sob a presidência do Prof. Gustavo Lins Ribeiro, que originou a publicação O Campo da Antropologia no Brasil (Rio de Janeiro/Brasília: Contracapa/ABA; 2004).

 

Outro vetor que leva à criação do GT é o debate iniciado há cerca de duas décadas, desde a promulgação da Constituição de 1988, sobre o papel d@s antropólog@s na elaboração de laudos periciais. A ABA promoveu vários encontros para refletir sobre laudos e perícias no campo antropológico, congregando especialistas envolvidos com a demarcação de terras indígenas, estudos de impactos sociais e ambientais de projetos de desenvolvimento, questões territoriais junto a remanescentes de comunidades de quilombos, que geraram um conjunto de publicações e declarações, entre as quais se destacam: a coletânea A Perícia Antropológica em Processos Judiciais (São Paulo/Florianópolis: ABA, CPI-SP e EdUFSC; 1994), nas gestões dos Profs. Roque de Barros Laraia (UnB) e Silvio Coelho dos Santos (UFSC); a Carta de Ponta de Canas, resultante da Oficina sobre Laudos Antropológicos realizada pela ABA e NUER/UFSC em novembro de 2000, na gestão do Prof. Oliven; e a coletânea Laudos Periciais Antropológicos em Debate (Florianópolis: ABA e NUER/UFSC; 2005), na gestão da Profa. Miriam Pilar Grossi UFSC. [Para conhecer as publicações da ABA clique aqui.]

 

A criação do GT Ofício d@ Antropólog@ dá continuidade a esse conjunto de iniciativas, tendo sido aprovada em outubro de 2006 na reunião do Conselho Diretor da ABA, durante o 30º Encontro Anual da ANPOCS. Ao dialogar com a reflexão já acumulada e sistematizada no âmbito da Associação e fora dela, espera-se que o GT contribua para amadurecer a reflexão sobre os dilemas postos pelo crescente reconhecimento social da expertise antropológica e pela ampliação da profissionalização. Como observou o atual Presidente da ABA, Prof. Luís Roberto Cardoso de Oliveira (UnB), em recente conferência proferida na Reunião Anual da SBPC, em Belém, no dia 10 de julho: “[A] ampliação do mercado de trabalho para antropólogos, concomitante ao crescimento do número de profissionais habilitados na área, tem colocado pelo menos duas questões para a ABA enquanto associação científica. A primeira delas é saber até que ponto o ofício do antropólogo se restringe ao trabalho daqueles associados voltados para atividades de pesquisa ou de natureza acadêmica de uma maneira geral. [...] A segunda questão, associada à primeira, é até que ponto a ABA deve se manter estritamente como uma associação científica, ou até que ponto ela não deveria assumir também o papel de associação profissional, coisa que a ABA nunca foi.” Este e dilemas similares constituem a pauta do GT.

 

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A  idéia era ter um grupo variado que representasse tanto os distintos níveis de formação em Antropologia, quanto a atual diversidade de inserções profissionais que hoje marca o exercício do nosso ofício, com pessoas com variadas histórias de vinculação à própria Associação. O GT ficou assim composto:

 

Everardo Rocha. Doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional da UFRJ e professor Departamento de Comunicação Social da PUC, com vinte anos de experiência docente e autor vários livros, entre os quais: O que é mito, O que é etnocentrismo, Magia e Capitalismo: um estudo antropológico da publicidade e A Sociedade do Sonho: comunicação, cultura e consumo. Sua expertise é em aplicar a Antropologia Social aos estudos da Comunicação, do Consumo, do Marketing e das Culturas Organizacionais. É sócio efetivo da ABA desde 1980.

 

Henyo Trindade Barretto Filho (Coordenador do GT). Doutor em Antropologia Social pela FFLCH/USP e Diretor Acadêmico da ONG Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB). Tem quinze anos de experiência docente no Departamento de Ciências Sociais da UFAM e no Departamento de Antropologia da UnB. É sócio efetivo da ABA desde 1996.

 

Marco Paulo Fróes Schetinno. Mestre em Antropologia Social pela UnB e Analista Pericial em Antropologia na 6ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal. Foi Coordenador Geral de Identificação e Delimitação da Diretoria de Assuntos Fundiários da FUNAI. Em vias de se associar à ABA como sócio efetivo.

 

Mírian Regini Nuti. Doutora em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR/UFRJ é antropóloga assessora da Superintendência de Meio Ambiente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Tem larga experiência profissional no setor privado e como consultora, e sua expertise é em planejamento ambiental no setor elétrico. É sócia efetiva da ABA desde 1986.

 

Roberto Alves de Almeida. Mestre em Antropologia Social pela UnB e antropólogo Analista em Reforma e Desenvolvimento Agrário da Coordenação Geral de Regularização de Territórios Quilombolas da Diretoria de Ordenamento de Estrutura Fundiária do INCRA. É sócio efetivo da ABA desde 2006.