Grupos

 

                                                                    

                                                                      Igreja Matriz do alto do Cristo

 

Minha Canção do Exílio

 

Dalinha Catunda


Minha terra é Ipueiras,
Onde corre o Jatobá.
Fica ao pé da Ibiapaba,
Ao norte do Ceará.


Nossa gente tem histórias,
Gostosas de se escutar.
Não permita Deus que acabem,
Com as tradições do lugar.

Lendas de bala e botijas,
Ouvi os antigos contar.
História de Iara, mãe-d’água,
Feliz ainda hei de escutar.

Minha terra tem palmeiras,
Das lendas de Alencar.
É a nossa carnaubeira,
carnaíba, carandá.
No farfalhar do seu leque,
Ouvi o vento cantar.

Tomara Deus que eu não fique,
Ausente sempre de lá.
Ao sopro de um Aracati,
Desejo me refrescar.
E ouvir cantar a graúna,
Ao invés de um sabiá.

 

 

 

          “Continuando nossa homenagem aos nomes que divulgam com brilho Ipueiras, aponto esta poesia de Dalinha Catunda como um hino de amor à terra que cedo deixou, mas  em que lá deixou preso  seu coração.” (Bérgson Frota)

 

 

Centenário

do açude Cedro

 

Bergson Frota


         Há exatamente 100 anos era inaugurado o açude Cedro, obra prima da engenharia brasileira do final do século XIX. Este colossal açude retrata as esperanças do governo central na época para minimizar o sofrimento do nordestino, em especial o cearense que muito havia sofrido na grande seca de 1877 e que durou até 1879, custando ao Ceará, segundo o historiador Barão de Studart, 119 mil mortos e expatriados 5.500, bem como o desaparecimento total da indústria criadora.


          A obra foi encomendada pelo imperador Pedro II, monarca sensível ao sofrimento de seu povo e que conforme a lenda histórica, ao ouvir os relatos de vários retirantes teria dito que venderia “até o último brilhante da coroa” para que nunca mais os cearenses morressem de inanição.


          Enviou ao Nordeste uma missão científica, especialmente ao Ceará, para estudar a questão da seca. Dela participaram os maiores expoentes da engenharia brasileira na época como o professor Raja Gabaglia, o Barão de Capanema e outros grandes nomes.


          Determinada a construção do açude, escolheu-se a região semi-árida de Quixadá.

 

          As obras da barragem foram iniciadas em 1881 (ou 1888, segundo outras fontes), foi quando começou o levantamento da monumental parede de pedra, engenho de arte e beleza, que veio em 1977 a ser tombada pelo Patrimônio Nacional.


          A obra prosseguiu por quase 25 anos, e depois da abolição da escravatura teve como força o braço livre dos agricultores da região.


          A conclusão do grande açude se deu já na República, em fevereiro de 1906, no governo de Afonso Pena.


          O Cedro foi o primeiro açude público do Nordeste, símbolo maior da luta do nordestino pela sobrevivência contra as adversidades da seca.  Possui um reservatório com a capacidade para 125.694.200 metros cúbicos, com uma profundidade máxima de 16 metros e uma bacia hidrográfica de 120 km quadrados.


          Da parede do açude, feita artesanalmente de pedra, vê-se a bela formação rochosa que é o símbolo da cidade de Quixadá: a pedra da Galinha Choca.


          A construção do Cedro foi um grande desafio, não só pelas difíceis condições da região na época, mas também a prova de que o nordestino não se acomoda perante a maior das adversidades que tem enfrentado: a seca.


          Ao finalizar, fica a frase concisa mas grandiosa que melhor define o grande açude dita pelo biólogo paranaense Fábio Angeoletto: “Pergaminho pétreo que nos conta a história evolutiva de um animal cujas armas não são garras ou mandíbulas poderosas, mas a capacidade de criar e disseminar cultura”.

 

                 (Publicado no jornal O POVO em 19.03.2006)

 

 

 

 

Um ano mais feliz

 

               

                   Ano Novo, vida nova.

 

                  Que os sonhos possam ter vez na vida de cada ser e nelas se concretizem.

 

                 Que todas as coisas tristes que passaram sejam esquecidas e transformadas em experiências positivas, que o novo amanhã renove cada projeto e que cada oportunidade dada sempre pela vida seja alcançada e vivida.

 

                 Sim, neste período tão especial normalmente paramos para pensar em nossas vidas, os acertos e desacertos do ano anterior e as expectativas, esperanças e sonhos a concretizar neste novo tempo que iniciamos.

 

                 Somos levados a planejar mudanças, imaginamos viver situações diferentes das que já tivemos, mas, mais do que nunca, sonhamos, medimos e arquitetamos nossos projetos a serem concretizados.

 

                 No entanto a vida, o ano novo, nos pedem ousadia, determinação e atitude para que as mudanças ocorram, para concretizarmos o desejado.

 

                Recomecemos então neste espírito de esperança.

 

              Pensar positivo no que desejamos já é um bom começo, esqueçamos o que não foi possível e renovemos os nossos votos com perseverança, alegria e renovada esperança.

 

              Dedico este pequeno mas rico texto, a todos sem exceção, com um intento mais global é “dedicado a um ano novo mais feliz” para toda a humanidade.

 

             Feliz Ano Novo repleto de saúde, paz e realizações.

 

             Bérgson Frota

 

 

                                   (Foto : www. yunphoto.net)

                         (Publicado no O Povo em 27.12.2008)

 

 

Retornos do Natal

José Costa Matos
23 Dez 2008

                Ora, Papai Noel, muita coisa já vai distante. Mas menino é bicho danado para guardar lembranças. Menino e poeta. Cada coisa... A bunda de tanajura comida na rua, contra amidalites. Os desafios da viola de Véi Zuca-do-Oi-Só. A namorada que eu chamava Livrinho de Deus, porque a gente acreditava: a mão de Deus escrevia nela os seus poemas.

 

            Mas o primeiro presente de Natal que lhe pedi no mundo, Papai Noel, foi um cavalo-de-pau que não me inferiorizasse diante dos moleques de minha aldeia. Eles desciam, como vândalos, do Morro do Papoco e invadiam a Rua de Cima. Um cavalo-de-pau daqueles que só Neném Sapateiro sabia fazer, com uma estrela de pregos dourados na testa, uma orelha desconfiada espetando o futuro e outra velhacamente caída para trás...

 

            Eu era tão pequeno que não me lembro se você me deu o cavalo-de-pau das minhas rezas de menino. Por isso, estou aqui, dentro da noite do Filho de Deus, olhos arregalados na treva, rodeado de sinos cantadores, pedindo, outra vez, o cavalo-de-pau da minha infância.

 

            Naturalmente, Papai Noel, os anos que se foram me deram muitas coisas, levaram muitas coisas de mim, fincaram algumas cruzes no caminho, para marcar os lugares onde a terra teima em silenciar as lembranças dos nossos mortos. Muitas mãos deixaram adeuses inexplicáveis nas minhas mãos. Muitas vezes abri a boca para dizer uma palavra boa, mas não tive santidade nem poesia para gerar essa palavra de salvação do meu próximo.

 

            Trago, hoje, nos olhos, as paisagens de muitas almas e de muitos lugares. Escutei as angústias e as aspirações dos homens nas línguas mais estranhas. Queimei meus passos na travessia do braseiro de várias guerras. Em alguns momentos, a vida me acovardou e eu tive, como Pedro, que negar o meu Mestre diante da criada de Caifás, antes da cantada do galo. Amontoei pedras, tracei a argamassa, mas muitas das minhas construções viraram Babéis, inconclusas, na desolação da Planície de Senaar. Tive algumas experiências da profecia e salvei gentes e animais dos dilúvios que ainda iam acontecer. Meus pés estiveram nos pés de Neil Armstrong, no primeiro dia em que um de nós pisou na lua.


            Ora, Papai Noel, essas vivências todas devem deixar marcas profundas na alma da gente. É por isso que já não sou a mesma criança que desejava um cavalo-de-pau, igualzinho aos brinquedos dos moleques do Morro do Papoco. Igualzinho, agora? Como? Neném Sapateiro está no céu e não vai descer para fabricar um cavalo-de-pau com uma estrela de pregos dourados na testa, uma orelha desconfiada espetando o futuro e a outra velhacamente caída para trás... mas, se a memória não me engana, você me deve ainda o meu cavalo-de-pau. E que ele se chame Esperança. Com ele, eu sei que a amargura não terá velocidade para me alcançar nem forças para me transformar num dos seus apóstolos. Talvez até eu chegue a ser bom. Talvez até eu chegue a ser útil aos irmãos que vão amontoando motivos para maldizer a vida.


            E assim, Papai Noel, você me ajudará a viajar com mais beleza pelos caminhos do tempo do meu Deus. Eu quero que você me dê o cavalo-de-pau da minha meninice.


            José Costa Matos - Da academia Cearense de Letras e Associação Brasileira de Bibliófilos
acletras@accvia.com.br

 

 

Berço do Nazareno

Marcondes Rosa de Sousa
O Povo - 22 Dez 2008


        Na TV e jornais, mercado e política em aguda crise. Nos shoppings, spot lights sobre pródigo Papai Noel. Na Praça do Ferreira, em contraponto, outro cenário: arte, cultura e criatividade de nossa gente, nas noites, em Fortaleza.

 

        Com amigos, acorro para este cenário. Luzes sobre tombado hotel. Em suas janelas, crianças e artistas, nos diversos andares, a nos envolver em antológicas canções natalinas. Muitos ali, os que compartilhávamos desse clima envolvente. No vácuo do outrora Abrigo Central, palco a teatralizar cenas sobre o natal. Crianças, seus pais e avós, irmanados nos aplausos. Os bancos, a me evocar os noturnos papos dos tempos estudantis. E o outrora soberbo Cine São Luiz a suscitar história em que nos tornamos partícipes dos festivais do cinema nacional e da realização do internacional FestRio, que para cá trouxemos, nos anos 80.

 

        De volta, o folclórico Bode Ioiô, hoje no Museu Histórico, parceiro nos papos entre intelectuais e boêmios. E a cena do Ceará Moleque, a vaiar o retardado e preguiçoso sol, aqui onde o sol sempre nasce mais cedo... Discreto, na recuperada Coluna da Hora, um presépio: Jesus menino cercado por pastores, animais, anjos, reis magos...

 

        Já de volta e em casa, martela-me a cabeça o Soneto de Natal, de Machado de Assis. E dele faço postal, enviado por e-mail aos amigos, falando de “noite amiga” (...) “berço do Nazareno”, atropelado pelo “metro adverso”, ultimado na indagação “Mudaria o Natal ou mudei eu?”

 

        Retorno à infância, em Ipueiras, onde os criativos presépios de Raul Catunda nos levavam ao “berço do Nazareno”. Nisso, chegam-me, na contramão desse clima, protestos de professor da UECe contra nossa política, “remanescente da elite trazida por dom João VI” (...) “E aí você me vem com papo de nazareno... Me poupe!”
Razões ao professor?

 


        MARCONDES ROSA DE SOUSA

        Professor da UFC e da Uece



 

Sugestão patriótica

 

Helder Sabóia

 

 

 

             A propósito da propalada reforma política, veio-nos à lembrança brilhante artigo do Dr.Luis Cruz Vasconcelos, ex-lente da Faculdade de Direito da UFC, publicado, já há algum tempo na mídia local, onde o articulista, no contexto de suas reflexões sobre as incertezas em que vivemos ante as  flagrantes desigualdades sociais, decorrentes das nossas arcaicas estruturas sócio-econômicas, entende, como forma de corrigir essas distorções, que  “..uma das primeiras reformas a ser feita deveria recair sobre o atual Congresso Nacional, que devia adotar o sistema cameral único, com apenas uma Câmara de Deputados, na qual teriam assento um número limitado de representantes do povo.

 

            O número de deputados não poderia exceder a 50 e quanto à representação dos Estados e Territórios, um deputado, por Estado e Território. O mandato seria gratuito, recebendo,cada um, apenas o necessário para o transporte e o custeio das despesas de estadia, quando em exercício” A economia resultante dessa mudança, ressalta,  “.passaria a constituir um fundo especial destinado a medidas de caráter social, em benefício da pobreza.”, finaliza, perguntando: “Estarei sonhando?”.

 

            Ao concordarmos, in tótum, com o pensamento do mestre, respondemos, à época, ao seu auspicioso devaneio, escrevendo: “Admitindo que o sonho de V.Sa. se transmude, um dia, em realidade, todos nós, cidadãos brasileiros, estaríamos de parabéns, pois os representantes do povo, nos parlamentos da Nação, lá estariam, movidos, tão só e unicamente, por idealismo o que lhes daria inconteste legitimidade para exercer, à plenitude, o múnus público a eles conferido pelos eleitores”.

 

            Voltamos ao assunto, desta feita, à vista do artigo do conterrâneo Renato Bonfim Medeiros, intitulado, “Ainda tem jeito”, publicado no jornal  O POVO, de 11.07.07, onde sugere, em linhas gerais, elaborar nova Constituição em cujo texto contivessem cláusulas restringindo as regalias dos parlamentares, além de outras limitações no âmbito da legislação eleitoral. Propõe, paralelamente, a redução da maioridade penal, daí derivando para alterações na área recursal do processo civil, buscando maior eficiência no âmbito da prestação jurisdicional, tudo visando combater a corrupção e a ineficiência da atuação do Estado com vistas à promoção do desejado desenvolvimento sócio-econômico da Nação Brasileira.

 

            Louvável a preocupação do amigo. Embora não sejamos especialista na matéria, entendemos, salvo melhor juízo, que as pretensões externadas poderiam ser materializadas por leis ordinárias ou por leis complementares à Constituição cuja iniciativa cabe, também, aos cidadãos na forma prevista no Art.61 da Carta Magna. Alguns constitucionalistas defendem a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte exclusiva para moldar um novo sistema político.

 

            Não temos qualquer pretensão de polemizar sobre a melhor técnica legislativa para viabilizar tais sugestões, mas, sim, buscar vias alternativas para tornar mais célere sua implementação. Alia-se a esse pensamento a grande imprensa brasileira, valendo destacar, a título de ilustração, o que escreveu Roberto Pompeu de Toledo, ensaísta da revista Veja, quando, na edição de 04.07.07, comentando sobre os últimos acontecimentos envolvendo o presidente do Senado, sentencia, finalizando o texto,  que lhe cumpria “o doloroso dever de informar que o Congresso Nacional faliu”.

 

            Parabéns, Renato. Continuemos nessa luta para o “bem de todos e felicidade geral da Nação”, exclamação ufanista de D. Pedro I, aqui invocada para reforçar a amplitude nacionalista de suas idéias.

 

 

        

        

         Amigos de Ipueiras,

 

        Em primeiro lugar eu pediria ao nosso coordenador Braga, sabendo da estima que ele tem por nosso amigo Tadeu, que abrisse um espaço para seu Zeca Bento, no "Site". Seu Zeca é um legitimo representante de nossa cidade e certamente deixará o site mais nobre.

 

        O nosso Zeca Bento, 1º Tabelião – Escrivão, Oficial de Registro Civil de Nascimento, Casamento e Óbito de IPUEIRAS, se vivo estivesse, faria agora no dia 17 de setembro 100 anos do seu nascimento. Em 19 de novembro próximo são completados 20 anos de sua morte. Sabendo da figura importante que foi seu Zeca para nossa Ipueiras, repasso aos Ipueirenses que gostam de prestigiar nossa terra, um pequeno histórico deste homem que  tanto amou e se dedicou a sua cidade.

       

        Meu abraço a todos,

        Dalinha Aragão

 

 

ZECA BENTO,

BOM EXEMPLO

A SEUS HERDEIROS

 

        A Terra, parte do Universo em que seus habitantes vivem suas existências através de expiação e de provas, recebeu há 100 anos um habitante para morar que, enquanto aqui viveu, foi conhecido por Zeca Bento.  Ipueiras foi a cidade que o acolheu, tendo nela vivido desde o nascimento, em 17 de setembro de 1905 até 19 de novembro de 1985, quando desencarnou.  Filho caçula do casal Coronel José Bento de Oliveira Fontenele e de Inocência Catunda Fontenele, teve como irmãos: Raimundo Catunda Fontenele, Raul Catunda Fontenele, Hugo Catunda Fontenele, Dario Catunda Fontenele e Mileto Catunda Fontenele – tendo todos constituído família em Ipueiras, alargando assim a descendência da família que casou-se em dezembro de 1936 com a professora Ineizita Ribeiro Bessa, hoje vivem 12 filhos, 26 netos e 13 bisnetos.

 

   Zeca Bento foi Tabelião, Escrivão e Oficial do Registro Civil de Ipueiras.  Identificou-se muito bem com os conterrâneos pela maneira simples e descontraída como levou sua vida, ora no convívio do lar com D. Ineizita e os 12 filhos, ora no Cartório Bento Filho, que era um local de encontro dos ipueirenses onde se sabia do que estava acontecendo na cidade e no mundo, pois ali era lida, semanalmente, a revista O Cruzeiro ou nos dias que o trem vinha de Fortaleza chegavam os jornais da Capital.  Naquela descontração também se falava da “vida alheia” ao ponto de o local (o cartório) ficar sempre com bastante gente, pois as pessoas ficavam receosas de sair para não ser alvo das línguas ferinas dos que ficavam.

 

    

                Zeca Bento também era homem de preces.  Rezava breves orações ao acordar, antes das refeições e, à noitinha, puxava o terço com toda a família, além de, no final da tarde, quando do retorno do trabalho, uma passadinha na igreja para participar da bênção das 6 horas – a missa do ângelus.  O costume da prece se estendeu bem aos seus herdeiros, apoiados nos ensinamentos cristãos do “pedi e obtereis, buscai e achareis”.

 

        E foi assim, nesta sua passagem na Terra, que Zeca Bento deixou bons exemplos para seus herdeiros, que já se constituem na 3ª geração, manifestação também enfatizada pelo amor que dedicou a Ipueiras e que, pela estima que teve de todos os seus diletos conterrâneos, só deu motivo para que seus familiares dediquem e continuem amando esta querida cidade.

 

 

 

Uva a plantar

vinhedos entre nós

 

Marcondes Rosa de Sousa

15. Out 2006

 

Recordo. Fevereiro de 1996. No Fórum da Modernidade, as universidades cearenses e o Conselho de Educação do Ceará discutiam, com os protagonistas de nossa sociedade e a professora Eunice Durham, “a responsabilidade das universidades para com o desenvolvimento sustentável”.  E o sentimento não era outro. O desenvolvimento haveria que sustentar-se na “inclusão social”, que haveria de ter, por via segura e expressa, uma continuada educação. E o primeiro passo, no Ceará, seria, seguindo o lema “uma escola é o que são seus professores”, capacitar seus docentes.

 

Nesse afã, as universidades cearenses se deram as mãos, passando por cima dos minifundiários tratados-de-Tordesilhas, numa autêntica “operação de guerra”, o que as fez esquecer até seus medievais limites de “sede”.  Nesse afã, a Universidade Vale do Acaraú (a UVA) foi transpondo inicial vale, a plantar seu vinhedo, para além do Acaraú, por todo o Estado, e em regiões outras do País e no exterior até.

 

                   Foi nessa “operação de guerra” que ela chegou ao “vale do Jatobá”, em Ipueiras, a terra das “águas retiradas”. Isso, em julho de 1997. De lá para cá, deu grau a 453 concludentes de cursos de graduação (a maioria professor), plantou pós-graduação lato sensu e hoje abriga, em suas classes, 386 alunos.

 

                   Agora, como todas as instituições de ensino do Ceará (as de iniciativa social, inclusive), sob provocação da Secretaria de Ciência e Tecnologia, repensa-se ela em tons de uma política de educação superior, discutindo com os “protagonistas dos atores sociais”, ação mais larga e durável, em clima de “rede” e de “teia”.  O Ceará se redesenha em regiões (pela ação do Instituto de Pesquisa do Ceará – IPECE), irmanadas em suas potencialidades e necessidades com vistas ao sonhado “desenvolvimento sustentável”, a ter por escopo a “inclusão social”.  Sob essa ótica, Ipueiras é o chão das “águas retiradas”,  por onde correm as episódicas águas do Jatobá. É o semi-árido das macambiras. Mas é também o úmido das serras (no caso, a Ibiapaba), com largo potencial econômico, cultural e turístico. E, sobretudo, o celeiro da cultura, do capital humano enfim. E é função da universidade, com seu ensino, sua pesquisa e extensão, redesenhar o real e o imaginário de uma caminhada conjunta.

 

       Dentro desse espírito, já programado em gradual “Conferência Estadual de Educação Superior”, a UVA procura parceiros, entre os “atores sociais”. E, em Ipueiras, celebra convênio com o Instituto Frota Neto, numa ação em conjunto no campo da educação e da cultura. Com isso, de alguma forma, volta-se ela, com mais acuidade, a seu chão, em seu entorno “mais perto”: o do “vale do Acaraú”, espraiado ao de seus afluentes, onde se situa o Jatobá. Em Ipueiras, os “atores sociais” se reúnem, é a esperança, num verdadeiro “pacto social” de Rousseau, a educação a divisar necessidades, caminhos e sonhos. A Uva projeta braços atuantes em seu ensino, sua pesquisa e sua extensão. Seu reitor, José Teodoro Soares, tem essa visão. E, no caso da extensão, por muitos anos, tem a experiência, no País, do Projeto Rondon, a ação mais atuante em "responsabilidade social" de nossa extensão.

Filho adotivo, desde infante, de Ipueiras, alegro-me com esse pacto. Do morro mais alto da Cidade, vejo o Cristo da Caatinga a contemplar nossos campos rumo à bica do Ipu, onde (conta Alencar) banhava-se Iracema, a tabajara “virgem dos lábios de mel”, correndo, com seu “pé grácil e nu”, as “matas do Ipu", mapeando o Ceará em hospitalidades, desenhando nossa cultura e turismo, como a nos mostrar nossa riqueza não explorada e a nos indagar, aves de arribação a migrar, a conclusão do romance alencarino, a nós, feitos Moacir, “o filho da dor”.  “Seria a predestinação de uma raça”?.

 

Nossa esperança é que apostemos em Pero Vaz de Caminha: a terra é fértil, “nela, em se plantando, tudo dá”.  Dará, no Vale do Jatobá, alimentador do Acaraú. Nas macambiras semi-áridas. Na úmida “Serra dos Cocos”, por onde se sobe para a Matriz de São Gonçalo, anfitriã da Ibiapaba.  “Vinhedos" em tal região, rica em cultura, brotarão com certeza. E aos que, muitos, de lá emigramos para outras terras, talvez respondamos como “filhos da dor” alimentados pela educação, à angustiante pergunta com que nos instiga Alencar. Ela, a educação, com certeza, a arrancar do chão e de nossas almas as alavancas, nos responderá: ela própria será o caminho para a geração do capital humano, móvel da inclusão social.

É nossa esperança-certeza!

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará e da Universidade Estadual do Ceará, e ex-presidente do Conselho de Educação do Ceará

 

 

 

Em louvor à Minha Terra

 

 

                                            Jeremias Catunda

 

 

        Embora com o mesmo aspecto físico que as cidades do interior apresentam, Ipueiras tem qualquer coisa que a difere das demais comunas do nosso sertão.

 

        A cavaleiro da soberba cordilheira da Ibiapaba, que vista da cidade parece uma imensa fita azul a ondular no poente, salpicada de esguias palmeiras, os crepúsculos chegam sempre mais cedo, porque a sombra da serra desce por sobre o casario multicor como um grande véu plúmbeo.

 

        Cercada de morros que no inverno vestem-se de um verde-claro, quase gaio, antes das chuvas passarem já começam as jitiranas a soltar as flores violáceas, cobrindo com os pau-d´arcos toda a ramagem,  que se torna matizada, apresentando um colorido exuberante, digno de uma tela. É num desses morros, o mais alto que orla o sul de minha terra, que está plantada a figura meiga do Cristo Redentor. De braços abertos, o olhar fino daquele que perscruta o interior das almas, parece a num longo e carinhoso amplexo de amizade, juntar a terra e o seu povo.

 

        Visitante nenhum foi até hoje ao cimo da colina, de onde a imagem do Filho de Nazaré olha a cidade, que não tivesse uma frase de exclamação, uma palavra de elogio ao monumento, ao panorama deslumbrante que não cansa nunca os olhos.

 

        A cidade é vista de todos os seus ângulos. Lá para o leste está o açude, aquele mesmo açude que me viu menino, de baladeira no encalço de jaçanãs e mergulhões, correndo na parede atrás do pássaro chumbado, ou descendo para represa onde os coqueiros e as enormes mangueiras oferecem um clima de oásis.

 

        O chafariz que do alto mais se assemelha a um monumento do tempo de Mausolo, fica postado numa das principais entradas da cidade. É lá que a alma do povo humilde de minha terra, grita as suas necessidades e chora o seu abandono.

 

        O Arco de Fátima, o mais belo marco da área urbana, se ergue na rua Gal. Sampaio e é bem o símbolo, o atestado da fé transbordante do ipueirense. Lá, quer nas horas quentes do sol a pino ou quando o grande astro já se vai dobrando por sobre a Ibiapaba, tem sempre alguém com os joelhos na terra, implorando uma graça à Virgem da Iria.

 

        A Escola Normal Rural, edifício vigoroso do ensino de Ipueiras, enfeita com os seus dois vistosos pavimentos a Praça da Bandeira. É lá onde a nova geração está encontrando no amanho dos livros o caminho das ciências.

 

        Um ligeiro salto passamos por sobre à avenida Getúlio Vargas, o coração da cidade, onde o society se reúne nos dias de festas e em que cada banco de cimento é um confessionário de amor. Nas noites de lua, quando a soberba rainha do espaço gira no alto, os violões sentidos, choram mágoas de romances fracassados, que a história só a velha praça conhece.

 

        A Prefeitura ali bem perto, dorme com a sua galeria de edis o sono de Prometeu!?

 

        Bem no centro da grande praça está a igreja; com sua esguia torre para o alto, parece nos apontar o caminho de Deus. Tudo nos fala de um tempo, de álacres noitaros, das matinais alvoradas quando a santa padroeira é festejada em dezembro!

 

        E vamos chegando ao velho rio Jatobá, à ponte, ah rio da saudade, das pescarias, dos banhos, cada curva que ele dá é um relicário do passado e são tantas as suas curvas! Como nos lembra uma infância feliz e longínqua!

 

        O carnaubal de minha terra é o mais belo do mundo! À tarde em cada carnaubeira canta uma graúna. Quando a sombra da terra vai chegando, a grande orquestra inicia das copas soberbas e virentes a mais maviosa canção que já se ouviu: é a canção da saudade. Lembrá-la é rever minha terra, é escutá-la nos seus sussurros de amor.

 

        É assim a minha terra: não há poeta que lhe diga a grandeza, não há descrição que lhe conte os encantos!!!

 

                                                                                      

(Crônica publicada no jornal O Estado em agosto de 1959)

(Foto : Site oficial da cidade de Ipueiras)

 

 

 

A VISÃO DE PROJETO

E O PODER DE RESINA

(OU DE JUNTAR OS CACOS

 

Marcondes Rosa de Sousa

09. jan, 2006

 

               

                Algumas explicações “a posteriori”, ilustrando a entrevista “Segunda independência”, da última Isto É, com Sérgio Machado, ex-senador pelo Ceará e ora à frente da Transpetro.

 

            Ontem, sábado, ele me telefonou. Indagou-me se havia lido sua entrevista. Respondi-lhe que a Isto É sempre me chega atrasada, já na segunda-feira, ao contrário de Veja, que avisa com antecedência e liturgicamente está em minha pessoal caixa postal, em casa...

 

            Hoje, cedo, novo telefonema. Desta feita, já a havia lido. E lhe falei de minha literal “vibração” com o tom e sentimento da entrevista. Ele me pediu recolhesse, dentre os de meu círculo (intelectuais sobretudo) as reações. E a divulgação a priori no “Ethos-Paidéia” tem esse sentido: o de provocar um amplo debate sobre o Brasil. É que a Revista foi muito feliz. Apresentou um histórico de vida de Sérgio todo ligado a uma pauta a mirar ... “um projeto”. Assim, ainda infante ao lado de Juscelino. Partícipe das lutas estudantis, nos fechados anos 70. Apóstolo fervoroso dos que, entre muitos (Tasso, Beni, Ciro, Amarílio Macedo) sonhavam com o “acabar com a miséria e o clientlismo”, no Ceará e na Região Nordestina..

 

            Aí, conheci o grupo. E foi a circunstância histórica de aqui trazer Celso Furtado para debater os caminhos da nordestinidade, que me aproximaram do Grupo.

 

            Aos poucos, muitos os chamados e poucos os escolhidos, foi fazendo tal grupo dispersar-se. E um dia, em Brasília, Sérgio (ainda na alta direção do PSDB) um grupo “paulista” forçava por querer minha vaga na alta direção do PSDB. Disse a Sérgio que concordasse. Afinal, um “sudestino” ficaria melhor que um “nordestino”. Sérgio, como tantos outros, foram se dispersando no grupo inicial das “mudanças”.  E um dia, eu próprio vi que os postos iram sendo ocupados por pessoas da factual política. E a frase de Tasso – disse isso a ele – doía-me: “No PSDB, passou a era dos intelectuais. Agora, é a vez dos políticos e dos gestores”. Tudo como se, aos intelectuais, faltasse o tato dos “políticos” e a ação dos “gestores”. Brincando, disse a Tasso que, em São Paulo, havia eu dito que a frase não era referência a FHC, Serra e, ao mesmo tempo, a Minas e Ceará. Mas a mim. Ele se riu. 

 

            Foi aí que disse do artigo que me ia à cabeça: a solidariedade dos banhos de rio da infância, na “grandiloqüência das cheias”. Depois, a solidão crescentes das poças e poços e das cacimbas cercadas pela miséria. O movimento das mudanças, enfim, retornado ao solitário monólogo “monólogo coletivo”. Foi aí que um técnico em marketing me disse: “Mude o final do artigo” – eu me sentia um Y-Juca Pirama, com seu “Meninos eu vi!”. O técnico me disse: “Alguém pode mudar esse final, trazendo todos, do solitário monólogo coletivo para a “grandiloqüência das cheias”. E eu, curioso, perguntei: “Quem?” E ele: “O senhor! Comece por refazer a amizade de Tasso com Sérgio e com Ciro?”

 

            Balancei a cabeça: “Impossível”. Mandei um recado para Sérgio. Ele topou conversar. Antes, porém, conversaria comigo. Depois, encontrei Tasso. Quando lhe falei, ele foi categórico: “Já nos encontramos a conversamos sobre o tema”. Para encurtar a conversa, um dia, falando sobre o plano da Transpetro, Sérgio gastou não mais que seis minutos falando o quanto o Nordeste e o Ceará, onde todo o movimento se iniciou, havia ficado para trás do País. Aí, o apelo pela união de todos em função de um projeto.

 

            Sob essa perspectiva, de projeto “complexo e plural”, o que implica em pluripartidarismo, é que gostaria que víssemos a entrevista de Sérgio.

 

            Nossas intenções, no Ceará, caminham em tal rumo, mesmo sabendo do clima que, pessoalmente, está a navegar por “coisas miúdas” (disse Tasso), dando ênfase a “notas de rodapé” (Sérgio), não conseguindo nem mesmo discutir a transposição de bacias. Desse clima, falou-nos o próprio Lula: “O Ceará precisa se unir”.

 

            De alguma forma, entre nós, predomina um refrão de Sérgio, que sempre escutei: “Onde não existe ideologia e projeto, brota a fisiologia”. É o que vemos.

 

            Aí, pois, a entrevista. E, por trás dela, o apelo à união. União do “complexo e plural”. O que todos (em reunião, no Centro Industrial do Ceará) concordaram. Embora, entre cochichos, tenha eu escutado daqui e dali: “Mas você sabe que, entre todos esses, quem mais ter a condições de ser governador ... sou eu!”

 

            A resposta: De início, o projeto. No fundo, o que talvez a Rede Globo, com a novela e, agora, a Isto é, com a reportagem de capa, tentando desvendar o que se passa no inconsciente coletivo do brasileiro. Ou ainda a frase com que o próprio Sérgio tentou desfazer meus preconceitos para com o presidente da Venezuela, Hugo Chavez: “Mas se engana você. Ele, diferente até de nós, tem ... “um projeto”. Nessa consciência de um projeto estaria a comunicação de Chavez com seu povo...

 

            Aberta, pois, de forma plural (aqui, no Ceará, e alhures), a discussão.

 

            Cordial abraço,

            Marcondes Rosa