Grupos

Mãos Paternas (Bergson Frota)

15:23 @ 21/12/2009

 

 

Mãos Paternas

         

         No começo ainda distante vêm-me a lembrança. E lá estava ele, a chamar-me, estirando o braço e dando-me a mão para que juntos, de calção de banho, fôssemos ver a cheia na ponte do rio que naquela manhã chuvosa inundava parte da cidade, e eu medroso apertei-a como um porto seguro e criando coragem fui.

 

         Depois suas mãos guiavam-me na já antiga máquina de datilografia, corrigia-me, mostrava-me os acentos, como marcar e separar parágrafos, por fim a colocar a fita bicolor vermelha e preta, coisa que não demorei a aprender.

 

        Corria o tempo e nos quinze anos, seu aperto de mão a parabenizar-me, e um relógio que sonhava ganhar. Suas mãos a conformar-me batendo nas costas de forma branda ensinando paciência quando eu muito precisava.

 

        Suas mãos levantadas ao alto, agitadas a orgulhar-me, quando discursava nos palanques eleitorais, festivos ou para alguém homenagear. Suas mãos generosas no que sempre precisei, a cuidar para que nada me faltasse.

 

        Suas mãos agora necessitadas das minhas no seu já frágil e incerto andar. Suas mãos meu Pai, inertes e frias deitadas a descansar para sempre, e só no meu coração sentia sem poder chorar, frias, sem movimento.

 

       Não as toquei, olhava doído na alma seu partido, e vezes sem conta naquela noite triste e mais longa até agora na minha vida, muito mais que seu rosto eu as fitei.

 

      Mãos tão queridas, instrumentos abençoados do seu coração.

 

      Bergson Frota

      Publicado no O Povo em 19.12.2009

                                     

 

     

A Filosofia e os Filósofos

 

          A Filosofia como carreira a seguir no campo docente é uma escolha merecedora de todo mérito que infelizmente uma parte da sociedade hodierna procura marginalizar por conviver com um conceito superficial do que vem a ser de fato o filosofar, sua função e a função dos filósofos para a transformação da sociedade que não nos nega sua dinâmica.

 

          Cabe à filosofia o papel questionador indispensável ao desenvolvimento em qualquer área de conhecimento.

 

          Ser filósofo não é discutir “o sexo dos anjos”.

 

          A função do filósofo é questionar, dentro de parâmetros lógicos, o modo de ser de um fenômeno e o por quê desse modo de ser.

 

          Na realidade, a filosofia é a base de toda ciência. É nela que estão inseridos os instrumentos primários da observação, pesquisa e conclusão de qualquer obra do pensar humano.

 

          Os filósofos questionam uma realidade que parece estática, mas permanece em constante mutação.

 

          Nesta concepção, encontram os meios para dirigir o processo evolutivo de uma ordem posta como finalizada e estática.

 

          Ser filósofo é não aceitar um dado antes de pôr sobre ele os instrumentos lógicos de que o raciocínio nos capacitou. É apreciar o fenômeno dado de forma detalhada e segura, para só assim passar da hipótese à tese.

 

          A filosofia deve ser respeitada como a ciência mater, pois seu surgimento foi o produto dos primeiros questionamentos humanos em sua tentativa de romper com o mito escravizador.

 

          Na alegoria da caverna, um trecho célebre do livro “A República”, de Platão, é narrado o processo sofrido pelo homem para alcançar o saber verdadeiro.

 

          É um processo árduo em que poucos se aventuram, uns por comodismo outros por medo, mas que recompensa de forma grandiosa aos destemidos que finalizam sua meta.

 

          A filosofia enriquece e valoriza o homem por utilizar como instrumentos as capacidades cognoscentes latentes no raciocinar.

 

          A filosofia é humanista, é produto da mente humana e companheira eterna de sua existência enquanto espécie.

 

          O grau de desinformação desta ciência no âmbito popular é notório, porém deve-se deixar claro que o ato de questionar, norma primeira do filosofar, é extremamente válido em qualquer área, para que se busque a verdade do que se procura e, sempre que se questiona, sem perceber, filosofa-se.

 

          Eis uma forma simples de entender o que é a Filosofia.

                                                                                                          

                                                                                                               Bérgson Frota

                         Publicado no O Povo em 28.11.2009

Tomás de Aquino

A ÉTICA COMO ESTEIO NA VIDA COTIDIANA

O que define o comportamento ético? É uma indagação difícil de encontrar uma resposta consensual posto que perpassa pela visão de mundo de cada um de nós. Muitos filósofos definem a ética como o modo socialmente correto de convivermos com o semelhante. Elegemos o pensamento de São Tomás de Aquino que, embasado em Aristóteles, visualizou a ética imanente à psique humana e, que, como uma bússola, estaria sempre a indicar o reto caminho, em direção ao Deus Supremo que, por essência, é justiça, amor e caridade.

            A ética, para São Tomás, não se prende às flutuações dos sentimentos e das emoções porque, a exemplo do Direito Natural, é inabalável e permanente pois sinal da presença de Deus no âmago de cada pessoa. Muitos haverão de indagar como ser ético neste mundo globalizado que criou uma sociedade científico-tecnológica onde o progresso das comunicações apequenou o mundo, tudo ficando perto de tudo. A qualquer distância, usamos os evoluídos meios de comunicação para mudar costumes e formas de expressão.  

Neste contexto, os valores cristãos tradicionais foram relativizados sob a influência das culturas de outros povos que professam outros credos. E mais uma vez a pergunta: como não nos desviarmos da ética ante tantas seduções de nossa cultura consumista, das influências midiáticas de uma sociedade  que exacerba o individualismo em detrimento de uma convivência fraterna. Pela ótica cristã poderíamos dizer: basta seguir os ensinamentos de Cristo que, respondendo a dúvida existencial de seus apóstolos, disse: “Sigam-me. Eu o sou o caminho a verdade e a vida”.

Para os menos crédulos na existência transcendental, por que não nos guiarmos pela luz do direito natural que Cícero, o insigne orador da antiguidade, definiu como “A razão reta, conforme à natureza, gravada em todos os corações; imutável e eterna cuja voz ensina e prescreve o bem .Essa lei não pode ser contestada, nem anulada. É Deus seu inventor, sancionador e publicador”.

Outra indagação se nos apresenta: por que a invocação da ética para titular esta modesta reflexão? Respondemos simplesmente: porque o Natal se aproxima. O Natal, essa festa que se auto-denuncia pela iluminação feérica das praças, das ruas, das avenidas; luzes tênues, multicores, repletas de simbolismo no interior dos lares. Mas, acima de tudo, um facho de luz, vindo dos paramos celestiais, invade-nos até a intimidade da consciência e parece querer nos mostrar o amor ágape, aquele que, proclamado pelos justos, reveste-se de pleno ecumenismo, abrangendo, na sua totalidade semântica, o sagrado respeito à natureza.

Leonardo Boff, incansável defensor da ecologia, diz que o homem só encontrará felicidade quando vivenciar, com equilíbrio, suas dimensões cósmicas do “eu” e do “nós” em busca de sua integração sistêmica na sociedade e na natureza. E por que, passada a luminosa festa do Natal, não permanecermos no sentimento natalino no nosso cotidiano, vivenciando a ética mística de São Tomás ou a naturalista do grande Cícero? Afinal, ambas convergem para alcançarmos a enteléquia que é a perfeição máxima no Ser, em Deus que, em essência, é amor. Bento XVI ratifica essa concepção teleológica em sua encíclica “Deus caritas est”. E, segundo o jusfilósofo Fábio Konder Comparato, precisamos, nos dias de hoje, cada vez mais de uma nova ética, “pois premidos por duas correntes históricas antagônicas, somos chamados a decidir de que forma pretendemos unificar a humanidade –se  com base na força militar, na dominação tecnológica e na concentração do poder econômico, ou se  amparados na dignidade transcendente da pessoa humana”.

Feliz Natal!  

Francisco Hélder Catunda de Sabóia

(Funcionário aposentado do Banco do Nordeste do Brasil)

 

 

“Circo um olhar poético” é o primeiro livro da poetisa Waleska Frota, a sua sensibilidade ligada ao gosto da grande arte circense nos presenteia com diversos poemas, todos, ligados a beleza e alegria da mágica do picadeiro. (Bergson Frota)           

                                                                                                      

 

 

 

 

Envio uma biografia do papai, quando de uma homenagem que recebeu em Ipueiras, no dia de aniversário do Município, dia 25.10. Foi uma linda festa.

 

Conforme você tinha me pedido, envio um resumo da biografia.  Estivemos lá representando a família e vi como ele era muito querido na cidade natal. Fiqu#ei muito feliz com manifestação de carinho por quem fez muito por Ipueiras.

 

Um grande abraço do amigo

 

Renato Bonfim Medeiros

renatobonfim@secrel.com.br

 

 

***

 

 

 

BIOGRAFIA DE EDMUNDO BEZERRA DE MEDEIROS

 

 

                   Edmundo Bezerra de Medeiros nasceu no dia 27 de março de 1914, filho mais velho do casal Cesário de Sousa Medeiros e Maria de Paiva Bezerra; neto paterno de Jerônimo de Sousa Medeiros e Petronília Maria da Silva, neto materno de José de Paiva Bezerra e Maria de Sousa Lima; bisneto paterno de João de Sousa Medeiros e Margarida da Silva Medeiros; bisneto materno de José de Sousa Lima e Delfina Vieira de Paulo.

                  

                   Nos anos de 1924 a 1927 iniciou seus estudos na zona rural com os professores Manoel Antônio da Silva, Gonçalo Alves Faustino, Cláudio de Sousa Junior. Estudou em Ipueiras com ótimos professores, com destaques para Aniceto Araújo Lima, Maurício Mamede Moreira, Massilon Tavares Moura e com o Juiz Dr. Aloísio Góis de Oliveira, cujos ensinamentos repassou aos seus irmãos.

 

                   No dia 12 de maio de 1928, aos 14 anos, começou a trabalhar em Ipueiras na mercearia de Vicente Ferreira Lima, onde permaneceu até o dia 15 de janeiro de 1930, quando passou a trabalhar na loja de João José de Lima até o dia 15 de julho de 1934, em cujo período foi agente da Companhia de Sorteio Crédito Operário Mercantil e Caixa Popular.

 

                   Em primeiro de agosto de 1934 passou a trabalhar em Nova Russas; inicialmente com o Sr. Artur Pereira de Sousa em seu armazém de exportação. Em 20 de agosto do mesmo ano foi nomeado Escrevente do 1º Cartório daquela cidade, que tinha como titular o Senhor Antônio Bezerra do Vale.

 

                   Retornando a Ipueiras a chamado do Sr. Sebastião Matos, trabalhou com este em seu armazém durante alguns meses. Em janeiro de 1935 fundou a Loja Edmundo Medeiros, a qual completará 75 anos de atividades ininterruptas em janeiro de 2010.

 

                   Casado no dia 08 de dezembro de 1936 com Edite Bonfim Medeiros, tendo como celebrante o Monsenhor Francisco Felipe Fontenele, de cuja união nasceram seus 12 filhos: Renato, Edésio, Nemésio , Maria Aglaê, Dinorá, Dagmar, Leda, Francisco, Maria das Graças, Antônio, Maria de Fátima e Antônia.

 

                   Exerceu a função de Correspondente do Banco do Brasil S/A, por 33 anos. Colaborou, ainda, como correspondente do Banco de Crédito Comercial S/A, Banco dos Exportadores de Fortaleza S/A, Banco União S/A, Sul América Capitalização S/A, Sul América Seguros de Vida e Companhia Seguradora Brasileira S/A.

 

                   Correspondente do Jornal “O POVO” por 37 anos, onde publicou centenas de notícias e inúmeros artigos. Por sua valiosa contribuição à imprensa cearense, era sócio efetivo da Associação Cearense de Imprensa - ACI e da Associação dos Jornalistas do Interior - ACEJI.

 

                   No campo político foi 1º Secretário do Diretório da UDN; Presidente do diretório da ARENA; Vereador da Câmara Municipal de Ipueiras em três legislaturas (01/06/1936 a 10/11/1937; 31/01/1951 a 25/03/1955 e de 01/07/1959 a 25/03/1963) e Prefeito Municipal de Ipueiras, no período de 07.03.1947 a 06.01.1948, por nomeação do Governador Faustino de Albuquerque e Sousa.

                  

                   Prestou sua colaboração ao setor cultural como Tesoureiro e Secretário do Grêmio Cultural e Diversional Ipueirense.

 

                   Colaborou com a religiosidade dos Ipueirenses como 1º secretário da União dos Moços Católicos de Ipueiras e da Conferência de São Vicente de Paulo de Ipueiras.

 

                   Serviu ao Governo do Estado como funcionário da Secretaria da Agricultura do Ceará, lotado no Posto de Revenda de Ipueiras, no período de 01/02/1957 a 30/06/1959 e na Secretaria de Educação como Auditor na Região de Crateús, no período de 01/02/1964 a 07/11/1971 e Supervisor do Ensino de 08/11/1971 a 07/01/1977, data de sua aposentadoria.

 

                   Exerceu a função de Adjunto de Promotor de Justiça de 01/07/1946 a 07/03/1947; 24/08/1948 a 07/01/1951; 23/04/1955 a 19/01/1957, com todas as atribuições do titular, funcionando em todos os termos processuais ligados ao Ministério Público.

 

                   Alvo de enorme admiração por sua reconhecida cultura e irretocáveis condutas moral, religiosa e pública, Edmundo Bezerra de Medeiros faleceu, em Fortaleza, no dia 12 de maio de 2005. 

Recomeçar (Bérgson Frota)

15:12 @ 02/11/2009

Bérgson Frota

 

Recomeçar

O mudo toma conta de mim na escuridão,

Revolta, desassossego.

Luzes rápidas riscam o escuro em que me encontro.

Braços, pernas, cabeça revirando-se no macio leito.

E o silêncio a prolongar-se, engolindo,

A lentos goles, as lembranças tristes.

 

De repente, uma calmaria

E a total perdição dos sentidos.

O tempo escur4o parece morto,

Parado num contínuo

Permanente.

 

Pausa – Inexistência...

O primeiro. Canta um pássaro.

A primeira luz tênue,

que se torna mais forte por entre as frechas.

 

E logo o globo dourado nasce,

Ressuscitando por trás das montanhas.

Levanto-me e, cheio de esperança,

Recebo o novo dia.

 

É tempo de recomeço,

E quero recomeçar.

                            

     

 

                                                                                               Bérgson Frota

 

 

Publicado no O Povo em 31.10.2009

 

                                                                

 

 

                                     

      

 

                        A História da Igreja de Almofala

 

      

  Nenhuma igreja no Ceará guarda a misteriosa e ao mesmo tempo curiosa história da igreja de Almofala, povoado pertencente à jurisdição de Itarema, distando de Fortaleza 220 quilômetros.

 

         A pequena vila cresceu com portugueses, espanhóis e índios já em meados do século XVIII.

 

         Sendo próxima ao mar, e situada numa grande região de dunas, não foi impecilho para que a vila crescesse e em 1745 começasse a construção de uma bela capela de características barrocas.

 

         Segundo consta os documentos por ordem de D. Maria I, de Portugal, a construção a ser erguida seria dedicada à padroeira da nação Lusa, Nossa Senhora da Conceição.

 

         Riscada com bela arquitetura, construída com material vindo da Bahia por via naval era trazido ao lugarejo por longa viagem em carros-de-bois.

 

         O forro e o piso da nave eram do bom cedro baiano. Telhas de 80 cm de comprimento e bons tijolos pesando de 8 a 9 quilos cada.

 

         A igreja de Almofala era de uma beleza única, criada em um estilo barroco raro.

 

         No entanto em 1897, o leste da capela começou a cair, sofrendo pelo peso de uma enorme duna que também avançava por toda vila. Visto como um fato sem solução na época, já que o avanço de areia se fazia constante a vila passou a perder habitantes, enquanto o salgado pó marinho transformava em cidade fantasma Almofala.

 

         Durante 45 anos, permaneceu soterrada a nobre igreja. Onde visitada vez ou outra para ver o capricho do vento que deixava uma parte de suas duas torres à vista.

 

         Todo material de cobertura já arriado e destruído.

 

         A beleza de alvenaria barroca no entanto resistente foi preservada e em 1941 a duna começou a ser retirada concluíndo para sempre o trabalho em 1943.

 

         A igreja sepultada durante décadas resistira, a madeira totalmente destruída bem como o ferro atacado pela ferrugem.

 

         No entanto o belo sino de bronze estava lá, esquecido. Mas limpo, voltou a badalar.Também foram preservadas várias imagens que antes da catástrofe foram transferidas voltando, quando a igreja foi totalmente restaurada.

 

         Aos orgulhosos habitantes que durante anos viram sua igreja como uma triste ruína atrativa, ficou a frase final a quem agora os visitassem : assim era a nossa Igreja de Almofala.

 

          Foto : Igreja de Almofala semi-coberta de areia – acervo pessoal.

        

                                                                                                                                Bérgson Frota

 

 

                                                                                         Publicado no O Povo em 24.10.2009       

 

O BRASIL AINDA TEM JEITO

 

Estamos vivendo um momento de crise, de muita corrupção, crimes, assaltos, insegurança e de muita falta de vergonha, das autoridades que dirigem o Brasil. Achamos que este gigantesco país ainda tem jeito, desde que muitas providencias sejam tomadas com urgência e seriedade.

 

Teremos que fazer uma nova Constituição, cuja elaboração restasse somente ao encargo primacial de um grupo de juristas notáveis, representantes de classes empresariais, de aposentados, de professores, de políticos, de mulheres, de trabalhadores, do clero, de entidades de classe, enfim, de um grande grupo que representasse a população de modo geral.

 

A nova Constituição assim elaborada deveria conter como arcabouço os seguintes princípios: Proibição de reeleição em todos os níveis. Só poderia se candidatar quem tivesse um curso superior, para forçar alguns políticos a estudar.  Diminuição do número de Deputados, Vereadores e Senadores. Acabar com o pagamento de passagens aéreas para deputados federais e senadores, além do auxilio moradia. Vedação de colocação de out-door de publicidade eleitoral. Proibição de programas previamente gravados pela TV, prevalecendo à programação ao vivo, com duração, apenas, de trinta minutos pelo prazo de trinta dias, antes das eleições.

 

A Câmara Federal, quando a sede do governo Federal era no Rio de Janeiro, os parlamentares pagavam suas passagens e hospedagem. Assim, só iriam se candidatar quem realmente quisesse servir ao povo brasileiro, e não em beneficio próprio. Haver, no mínimo, sete a dez partidos políticos. Voltar à fidelidade partidária. Quem mudar de partido ou deixar de cumprir a orientação partidária perderia seu mandato.

 

Alterar a maioridade penal para 15 anos, visto que, depois que foi aprovado o Estatuto do Menor , a violência aumentou muito, devido à impunidade do menor infrator. Construir em cada Estado duas penitenciarias agrícolas, de segurança máxima, longe da capital, sem televisão e sem telefone celular, para que os presos pudessem trabalhar e se manter com os rendimentos do seu próprio trabalho, reeducando-se para poderem voltar à vida social, devidamente corrigido.

 

Modificar a nossa JUSTIÇA, em todos os seus graus. Na abertura de qualquer processo deveria haver, de principio, um prazo estimado para ser concluído, visto que as partes têm prazos e a Justiça não tem tempo determinado para julgar. Hoje em dia, temos processos que levam mais de 20 anos para a sua conclusão. Os prazos devem ser estabelecidos para todas as partes, advogados e também pelos Juizes e Desembargadores. No modelo atual o réu sempre é o prejudicado pela grande demora, devido ao grande volume de processos e os incontáveis recursos apelativos para estâncias superiores.

 

Se uma nova Constituição contiver todos estes e mais alguns importantes detalhes, rapidamente o Brasil será uma potencia mundial, porque temos todos os requisitos para crescer, com educação, trabalho, honestidade e sem corrupção.

 

Renato Bonfim Medeiros – Av. Dom Luis, 73/801 – Fortaleza-Ce 9981.1438 – 3087.6071- 2l.03.2009 - Ident. 153990 SSPCe. renatobonfim@secrel.com.br  Assinante de O Povo desde 1965.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O nosso versátil Jeremias Catunda Malaquias

 

Não me chame de poeta

não me agrada, não convém

tenho nome é do profeta

maior de Jerusalém.

                                                                               Jeremias Catunda Malaquias

 

O nosso Jeremias fez jus ao homônimo do maior profeta de Jerusalém. Todos nós ipueirenses levaremos na memória, quando de nossa passagem para o mundo que ele agora foi, não somente a sua identificação de poeta mas a versatilidade que foi o marco do nosso estimado conterrâneo.

 

Jeremias nascido na década de 20 do século passado e eu na década de 50. Começava aí sua condição de versátil: ele conviveu facilmente com gerações diferentes. Vi sua atuação como jogador de futebol e de voleybol, de técnico e juiz de futebol, como político,  jornalista,  radialista,  cronista,  orador em todos e quaisquer eventos quando alguém em Ipueiras precisava falar,  funcionário público, comerciante, de aficionado pela criação de pássaros (canários e aves - galos de briga), de organizador de festividades e promovente de festas.

 

Neste particular, minha lembrança de uma corrida de bicicletas de Ipu a Ipueiras em que ele narrou pela Rádio Vale do Jatobá todo o percurso, premiou e enalteceu a atuação dos participantes. Também, de uma festa que ele promoveu quando da inauguração de energia elétrica de Ipueiras, em 1966, em que denominou de a "Festa do Século", nos salões da Prefeitura, animada pela banda Os Cometas, de Ipu.

 

Fez de tudo e deixou sua marca de um apaixonado pela sua terra natal e um defensor ardoroso de Ipueiras - um bairrista, na saudável acepção da palavra. Minhas saudações a Professora Ruth Frota Catunda e aos filhos Bergson, Carlson e Valeska.

 

(Tadeu Fontenele, parente e admirador do nosso "Fez de tudo" ipueirense.)

 

                                          

                                          

 A chegada das andorinhas em Ipueiras

 

                                                                                                                                                                      Bérgson Frota
                                                                                                                                                          O Povo - 19 Set 2009

 

Nenhum espetáculo na natureza se comparava ao tempo em que, para mim, quando criança, por estação certa, chegavam às andorinhas.


Neste período em Ipueiras, tínhamos uma semana singular, com inúmeras andorinhas aparecendo no céu, marcando um tempo já esperado, somando-se a outros bandos mais numerosos que rápido chegavam atrás, fazendo sombra nas primeiras horas da manhã.


Deslocavam-se, como numa caravana aérea, em grupos compactos, sombreando ruas e avenidas, algumas já pousando sobre arco, e a maioria ziguezagueando em torno da igreja matriz.


No céu fazendo seus sons, caçando insetos em rápidas manobras, muitas caindo, dado aos voos baixos que davam, e sendo facilmente capturadas com as mãos.


As torres altas atraíam aqueles pássaros migratórios, que preferiam fazer seus ninhos em construções a copas de carnaúbas e algarobas que naquela época se espalhavam pela cidade.


Outras desciam sobre a areia fofa e começavam a ``banhar-se``, sacudindo-se como se a areia fina fosse água.Quando cansadas de tantas revoadas e tentativas de escape sobre a cidade, elas que atraíam a atenção da população, iam pousar nas altas paredes da igreja e era justamente na torre onde o maior número se concentrava.



A noite caía e o silêncio reinava. Na escuridão que aos poucos a iluminação pública ia preenchendo, era como se lá presente elas não estivessem.



Para nós, ainda meninos, as andorinhas traziam um mistério. Apareciam em grande número num só tempo, faziam ninhos em prédios altos, e depois partiam, deixando atrás o grande questionamento da rota por elas seguida.



Era o começo dos muitos enigmas que íamos observando com atenção na natureza.


Cheia de leis por nós desconhecidas, mas rica de singular significado, imutáveis e instigantes, ainda permanentes e hoje ainda mais atuantes.

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PELA ORDEM E PELA PÁTRIA

 Dalinha Catunda

Como podes estar contente,

Deveras, “ó mãe gentil”,

Se o descaso dos políticos,

É visto, fora e dentro do Brasil,

Manchando o nome da nação,

Envergonhando a população,

E esquecendo o amor servil.

 

Ó minha pátria querida,

Prometo-te de coração

Que hei de defender-te.

E será na próxima eleição

Na hora de dar meu voto

Da nação serei eu devoto

E não de qualquer facção.

 

A pátria merece respeito,

Do analfabeto ao letrado.

Porém, hoje, o país padece,

Com os escândalos do senado

Por isso “Vossas excelências”

Governem com mais decência

Pois estamos envergonhados.

 

Pela ordem! Hoje quem pede,

São os filhos desta nação,

Que deputados e senadores,

Acabem com a corrupção,

E que o senhor presidente

Não seja esse ser ausente,

Se é que tem o poder nas mãos.

 

                                              

                  

                                   Um Herói Cearense

 

        Nascido em Fortaleza a 24 de novembro de 1941, João Nogueira Jucá foi um jovem que como muitos de sua época e idade tiveram seus sonhos, queria ser Oficial da Marinha, e para isso preparava-se, cursando na época o Científico no Colégio São João e freqüentando com dedicação uma academia de ginástica, fato que lhe dava um físico forte combinado à altura que tinha.

 

        Mas para ele reservava o destino outro caminho, que deixaria para sempre seu nome na nossa história, o nobre sacrifício de sua vida em prol de outras tantas.

 

        Na tarde de 04 de agosto de 1959, precisamente às 14h:20m, uma grande explosão se deu na Maternidade Dr. César Cals.

 

        A seguir, começou com estrondos um grande incêndio e também a enorme correria da população local em busca de afastar-se o mais rápido possível do lugar, pois as labaredas em poucos segundos já iam altas.

 

        Um jovem de porte atlético, que junto a outros amigos passava próximo, ao contrário dos que com medo, afastavam-se ante os gritos lancinantes por socorro que se ouvia de dentro da maternidade, lançou-se sem pensar junto a vários outros abnegados para dentro do hospital que já ardia.

    

        De lá saíam trazendo recém-nascidos nos braços e parturientes feridas.

 

        Outras grandes explosões eram ouvidas e a maternidade transformava-se agora numa dantesca sala de grandes labaredas.

 

        O tempo em minutos parecia uma eternidade diante do poder destrutivo do fogo que alimentado por estoques de balões de oxigênio só fazia aumentar.

 

        Dos que laboravam naquele socorro, não se poderia omitir a coragem daquele jovem que vinha e voltava rápido, trazendo crianças e mulheres, o corpo já queimado parecia não ser empecilho para a coragem e o heroísmo daquela grande alma.

        Gritavam alguns para que parasse, pois no corpo já se via fogo. Suas vestes carcomidas deixavam a carne viva transparecer, e a quem assistia na tamanha confusão mais comovido ficava diante daquele ato nobre e corajoso.

 

        O número de vidas que salvou este jovem herói nunca foi ao certo calculada, entre recém-nascidos e parturientes estima-se 25 pessoas, da tragédia que resultou em quatro mortes e inúmeros feridos.

 

        Na última tentativa de mais uma investida para dentro das labaredas, foi fortemente detido e caiu desfalecido. O corpo deformado, as queimaduras de terceiro grau lhe tomavam 80% de todo o corpo, mas pareciam não deter sua ânsia de salvar quantos fossem. As forças porém já não mais respondiam a sua férrea vontade.

 

        Em 11 de agosto de 1959, na Assistência Municipal, depois de muita agonia e sofrimento, intercalando lucidez e delírio, sem nunca ter se arrependido do que fez, veio a falecer aos 17 anos este grande cearense.

 

        O exemplo de João Nogueira Jucá, moço de personalidade altiva e grande amor ao próximo ficou-nos, e são como marcos eternos na terra, e marcas indeléveis nas almas de quem os praticou, presenciou ou escutou tais feitos, não deixando de transparecer com isso a tênue, mas conflitante divisão perene entre o divino e humano latente e por vezes exposto nos grandes atos de altruísmo raros mas presente pela natureza humana praticados.

     

                                                                                               Bérgson Frota

            (Foto do busto de João Nogueira Jucá, situado na Praça da Lagoinha (Capistrano de Abreu) – Arquivo do autor)

Publicado no O POVO em 12.09.2009

                        

 

Seu sol e dona lua

Dalinha Catunda

O Povo - 05 Set 2009

 

Seu sol e dona lua,
Começaram a namorar
Depois de pouco tempo
Resolveram se casar.
Mas ficava bem difícil
Para os dois a situação.
Quando o sol se recolhia
Vinha a lua e seu clarão.
Ele lhe dava: boa noite!
E logo no céu sumia
No outro dia bem cedo
Ela lhe dava: bom-dia!
Assim por muito tempo,
Viveram nessa agonia
Enquanto um chegava,
O outro triste sumia.
Seu sol mui enamorado,
Por dona lua se derretia.
E ela tristonha chorava
Quando seu astro partia.
Dona lua foi minguando
Diante de tanta tristeza.
O toque de raios solares
Devolvia-lhe a beleza.
Júpiter sensibilizado
Com tal amor proibido
Criou um grande eclipse
E tudo ficou resolvido.
Toda vez que o céu escurece
Dá-se a verdade mais crua.
Seu sol cheio de amor
Vem cruzar com dona lua.
Depois de certo tempo,
Bela e cheia ela aparece.
E Seu Sol agradecido
Entre raios resplandece.

 

 

Meu Pai, Espedito Catunda

 

Dalinha Catunda

 

Pai essa sua grande força,

Que não sei de onde vem,

Essa sua notável lucidez

É comovente também.

É com grande alegria,

Que vejo essa teimosia,

De quem tantos anos têm.

 

Faz pouco caso do tempo,

E por ele vai passando.

Com sua longevidade,

A todos vai encantando.

Sem ligar para mazelas,

Ainda acha a vida bela,

E assim vai caminhando.

 

Hoje uma bengala

Ajuda a guiar seus passos.

Nas ruas por onde passa

Recebe carinho e abraços.

Ainda sorrir para vida

Essa figura tão querida,

Que já encurta seus passos.

 

Eu só queria pedir,

A cada um de meus irmãos.

Que pense bem nos seus atos,

E prestem muita atenção.

Ponham a mão na consciência

E procedam com muita decência

Para depois não pedir perdão.

 

Espedito Catunda de Pinho,

É meu pai, minha fortaleza.

Quantas vezes ele já caiu

Mas nele não vi fraqueza.

Sempre se levanta mais forte

Ele sempre será meu norte,

Disso tenho toda certeza.

 

                              

        

          Fortaleza na Segunda Guerra Mundial

 

          

 Há exatamente setenta anos atrás, precisamente em setembro de 1939, iniciava-se na Europa a Segunda Grande Guerra.

 

          Fortaleza que sempre se guiou, seja na moda e nas idéias por sua fonte européia observava com atenção e receio os fatos que se desenrolavam no Velho Mundo.

 

         Com o início do bombardeio de cidades e a guerra se estendendo para o norte da África, o receio tornou-se medo.

 

         Era o ano de 1941, e Fortaleza temia também vir a se tornar um alvo de ataque aéreo, em virtude disso criou um programa de treinamento denominado “defesa passiva”.

 

         Na época a cidade tinha uma população estimada em 180.185 habitantes, e o medo vindo pelas notícias da Europa criava um clima de ansiedade e desassossego, despreparo e desinformação.

 

         Em agosto de 1942 o Brasil entrou na guerra junto aos aliados.

 

         As regiões do Nordeste brasileiro passaram a ser pontes à aviões norte–americanos que partiam para atacar o continente próximo. Porém a virada de perspectiva em Fortaleza se deu quando Natal por já está muito congestionada, fez surgir em Fortaleza mais uma base de ataque em direção à África.

 

         Agora mais do que nunca Fortaleza sentiu a necessidade de criar uma proteção eficaz, pois se via de fato sujeita aos ataques aéreos.

 

         Em 26 de janeiro de 1943 o jornal O Povo noticiava “foi realizado domingo, na zona fabril de Fortaleza, o segundo exercício de defesa pacífica antiaéreo, promovido pela diretoria regional...”

 

        Às 9h30min precisamente, os bombeiros que se localizavam na torre de comando do quartel, no edifício da Praça Fernandes Vieira (Praça do Liceu), anunciaram a aproximação dos aviões inimigos. A medida era tida como necessária para “preservar” a cidade de possíveis ataques por submarinos.

        As sirenes soaram o alarme. Os aparelhos do aeroclube do Ceará, em número de quatro, sobrevoaram a zona visada, “atacando” de preferência, os prédios do Liceu e do Corpo de Bombeiros.

 

       Treinamentos diários de sobrevivência eram realizados com a população. Cada simulação de bombardeio realizada pelos monomotores do aeroclube do Ceará, faziam os fortalezenses entrarem em pânico.

 

       Em vôos rasantes durante 30 minutos as Praças do Ferreira, José de Alencar e Praça do Liceu eram riscadas por aviões em rápidas manobras.

 

       O pânico não saía do imaginário dos habitantes.

 

       O “setor civil” orientava as famílias para pintarem de preto as vidraças das janelas e portas, impedindo que à noite a cidade ficasse vulnerável, principalmente as residências mais próximas da orla marítima

 

        Estas aeronaves que faziam seus vôos noturnos, não tinham luzes de navegação por serem antigas, ocorria então se amarrar lanternas nas montantes dos aviões para evitar possíveis colisões.

 

        Sirenes eram acionadas e o povo corria para se abrigar se caso estivessem na zona “atacada”.

 

        Para defender a cidade ainda foram transferidos para o farol do Mucuripe (farol velho) doze canhões da marca Krupp, com a finalidade de revidar e intimidar possíveis submarinos, tinham alcance médio de dois mil metros e sua serventia só seria de fato eficaz em luta terra-a-terra.

 

        Assim foi Fortaleza na Segunda Guerra Mundial, descrita numa narrativa que hoje pode até nos soar ridícula, lembremos porém que o medo e a insegurança reinantes na época geraram reações que não mediam lógica ou crítica, pesavam somente e tão somente o instinto mais forte e primário do ser humano : a sobrevivência.

    

                                 

                                                                                            Bérgson Frota

 

– Foto : Fortaleza início da década de 1940 – Foto Nirez

-  Publicado no O Povo em 29.08.2009

 

EM HOMENAGEM A JEREMIAS CATUNDA

Hélder Sabóia

             Com pesar tomei conhecimento da morte do Jeremias. Do Jeremias Catunda de Ipueiras.  Sem favor, talvez o conterrâneo que mais amou seu torrão natal e a ele esteve ligado até o fim de seus dias, nutrindo-se da seiva da terra em cuja ambiência se inspirava para suas narrativas literárias onde os personagens e as coisas eram modeladas com a argila do rio Jatobá.

Tal o feitiço da terra que o impregnava; tal a força telúrica que o dominava.  Exaltou a velha comuna na poesia e, com ufanismo, à moda do vate maranhense Gonçalves Dias, também versejou: “Minha terra tem palmeira onde canta o sabiá...”  

Escrevia com desenvoltura e maestria e, impressionante, era autodidata.  Não portava anel de bacharel. Doutorou-se na universidade da vida, daí sua inata sabedoria. Ao relembrar Ipueiras dos idos de 1950/60 assomará a figura do Jeremias. Orador inflamado nos palanques das campanhas políticas, defendendo as posições dos candidatos de seu partido nas ferrenhas disputas pelo poder.  Promotor das tradicionais festas da sociedade, em especial, o badalado “chitão” no nobre salão do paço municipal.

 Desportista, mantinha, juntamente com outros aficionados, os times de futebol e de voleibol neles atuando com profundo bairrismo quando disputava competição com as equipes de outras praças. Brincalhão, não dispensava a lavratura do testamento do Judas antes de sua queda do pau da forca nos sábados de aleluia.

Político, foi vereador interessado pelo crescimento sócio-cultural da terra natal, engajando-se nas lutas pelo desenvolvimento da educação. Foi um autêntico ipueirense; lídimo representante de tantos quantos, assim como ele, propugnaram pelo progresso da terra. Jornalista arguto, registrava, nos jornais de grande circulação, os relevantes fatos político-sociais cobrando dos representes do município nos foros da Assembléia, quando se fazia oportuno, atuação decisiva em favor das obras necessárias ao progresso da municipalidade.

Esta a imagem que tenho do Jeremias. Que o Criador o tenha na paz de sua morada celestial.

 

 

Lembrando o “Poeta das Ipueiras”

                      

Em 28 de julho de 1926 nascia em Ipueiras um dos seus mais célebres filhos, Jeremias Catunda Malaquias, filho de Luís Malaquias e Maria Catunda.

 Sendo o primogênito de uma família de cinco filhos este poeta, cronista e escritor dedicou toda a sua vida a divulgar sua terra com um ardor tão raro nos dias de hoje que poderia chamar-se quase uma obsessão.

Jeremias Catunda foi membro da ACI(Associação Cearense de Imprensa) tendo sido distinguido com o "Chevron" de ouro pelos seus 40 anos de atividade jornalísticas sendo sócio fundador da Associação Cearense de Jornalistas do Interior, escolhido e premiado em seis congressos da classe como um dos mais atuantes membros.

Sócio correspondente da Academia Sobralense de Estudos e Letras, foi correspondente dos : Diários e Rádios Associados, O Povo, Diário do Povo, Gazeta de Notícias, O Estado, Correio da Semana, Gazeta do Centro-Oeste, Folha Regional, Revista Itaitera do Crato, Almanaque da Parnaíba, Ceará Rádio Clube, Dragão do Mar, Radio Tupinambá, Iracema e Rádio Vale do Rio Poty de Crateús.

 Vereador em três legislaturas seguidas 1947/56, sendo até hoje o mais novo representante do povo na Câmara, eleito em 1947 com 21(vinte um) anos obtendo em 1954 mais de 10% dos votos apurados.

Por ocasião do Primeiro Centenário do Município, ocorrido em 1983, publicou "Ipueiras, uma síntese histórica" e em 1985 na Primeira Semana Cultural de Ipueiras lançou o seu livro poético : Versos Versus Minha Vontade.

 Foi escrivão e coletor da Coletoria Estadual de Ipueiras, escriturário do DAER (hoje DERT) e inspetor de linhas telegráficas do DCT.

Jeremias Catunda Malaquias foi uma figura das mais valiosas no campo cultural de Ipueiras, seu trabalho rico em crônicas, poemas e poesias nasceu como fruto de um grande amor pela terra natal.

No ano em que o grande poeta, jornalista e contista completou seus 83 anos, deixou de forma plácida entre os seus, as labutas terrenas.

             Ipueiras se queda em gratidão a mais um filho que partiu para a eternidade, mais um filho que fez da vida um grande discurso de amor inconteste à terra em que nasceu, criou-se, dela nunca apartando-se até novamente a ela juntar-se.

 Bérgson Frota

***

 

           Este trabalho é dedicado a equipe do blog Grupos que sempre destacou e respeitou os trabalhos de meu pai como a todos que prestaram uma ou duas linhas de respeito por sua partida.


 

 

Tetéu

 

*O TETÉU ME AVISOU*

 

 

 

Ouvi a zuada do Tetéu

 

Eu olhei para porteira.

 

Vi meu amor chegando

 

Meti os pés na carreira.

 

Me joguei em seus braços,

 

E foi tanto beijo e abraço,

 

Que me deu até tonteira.

 

 

 

Entre nós dois se jogou

 

O cachorro de estimação.

 

Um velho vira-lata,

 

Que atende por barão

 

Latindo e abanando o rabo

 

Demonstrando satisfação.

 

 

 

Hoje a galinha caipira,

 

Vai cheirar lá na panela

 

Vou fazer como ele gosta,

 

Com pirão e à cabidela

 

E vou separar pra só ele

 

Coração fígado e moela.

 

 

 

Uma cachacinha já tem,

 

Vou ao pé buscar cajá.

 

Um suco bem refrescante,

 

Ligeirinho vou preparar,

 

Vou caprichar no almoço,

 

Sem me esquecer do jantar.

 

 

 

No terreiro à noitinha

 

Vai ter dança e cantoria

 

Para celebrar a volta,

 

De quem é minha alegria

 

E que longe de casa, feliz,

 

Por certo jamais viveria.

 

 

 

Mas a festa só se acaba,

 

 

 

 

Ao matar a minha sede.

 

Suando junto com ele

 

No balançado da rede.

 

O armador que agüente!

 

Pra não cair da parede.

 

  

Dalinha Catunda

 

 

 

 

O Primeiro Médico de Ipueiras

 

     

          Raimundo Melquíades Costa nasceu em Ipueiras em 10 de dezembro de 1912, filho de Simão Alves Costa e de Raimunda Moreira Costa, que ainda tiveram Pedro Simão, Antônio Simão, Elias Simão, Genário Simões, Cesarina Simões e Maria Simões.

 

         Dr. Melquíades foi o primeiro médico de Ipueiras. Formado pela Faculdade de Medicina da Bahia em 19 de dezembro de 1942. Tornou-se Segundo Tenente em 1943, e atuou como médico do exército na Bahia.

 

         Cursou em 21 de maio de 1947, no Centro de Estudos na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, o Curso de Doenças Parasitárias. Concluiu em 09 de junho de 1947 o Curso de Doenças do Rim.

 

          Fez em 31 de julho de 1957 em Recife, o Curso da Nestlé: Atuação em Pediatria, e em 29 de junho de 1972, em Fortaleza, concluiu um Curso de Saúde Pública. 

     

           Foi sempre um estudioso que procurava na atualização de seus conhecimentos médicos o benefício para o próximo.

 

           Laborou nas cidades de Ibiapina, Sobral e Ipueiras, atuando como Chefe em Saúde Pública.

 

           Como auxiliar de grande valia e confiança, muito lhe serviu o Sr. Mariano Ribeiro de Oliveira.

 

            Cidadão respeitado por toda sociedade ipueirense, pelo seu falecimento, deixou uma lacuna ainda hoje não totalmente preenchida.

 

            Em 25 de outubro de 1987, o então prefeito Manuel Cavalcante Dias, prestou uma importante homenagem ao Dr. Melquíades, inaugurando o Centro de Saúde em Ipueiras, que recebeu seu nome.

 

            Durante toda a sua vida Dr. Melquíades foi um homem de muito bom humor. Certa vez numa mesa, bebendo com amigos, o que fazia sempre de maneira comedida, contou a seguinte estória:

 

            Uma paciente ao ser por ele atendida, depois de contar todo seu problema, mostrou-se apreensiva pois, como ele sabia, ela pertencia a “alta-roda” de Ipueiras.”

 

             Ele, com ar cômico, respondeu-lhe:

 

             - Minha filha, não se preocupe, aqui em Ipueiras, “alta-roda” eu só conheço a de trator, e isso quando mandam para as obras.

 

              Os que ouviam a narrativa caíam em gargalhada.

 

              Assim passavam os anos e o velho médico foi aos poucos perdendo a visão sem se deixar abater. Ao guia que o servia para os passeios invertia os papéis ao dizer que quem não enxergava era ele.

 

              Manteve até o fim da vida a alegria que Deus lhe deu, e certamente nos últimos instantes se chorou foi de saudades.

 

              Dr. Melquíades faleceu na manhã de 23 de fevereiro de 2004.

 

              Finalizando esta homenagem, tomo como empréstimo o que escreveu, Hélder Catunda, um erudito ipueirense sobre sua morte numa crônica publicada no Diário do Nordeste, intitulada : O Médico dos Ipueirenses.

 

             “Pela maneira altruística com que exercitou a medicina, foi essencialmente cristão, sem ser formalmente religioso; venerou a Deus, sem rezar nos altares, ao tratar dos desfavorecidos dispensando recompensas financeiras.”

 

                                                                                                   Bérgson Frota

 

    (Foto: Acervo Grandes Personalidades Ipueirenses – Bérgson Frota)

 

         

EM HOMENAGEM A GESSY MOREIRA

 

Helder Sabóia

           

             Não poderíamos silenciar nossos sentimentos de pesar pelo inesperado falecimento da conterrânea que, agora, os externamos com essas sucintas e sinceras palavras que brotam do fundo do coração; afinal, contemporâneo dos áureos anos de 1950/60 tão festivamente vividos na Ipueiras daquele tempo, onde, ainda saindo da adolescência para o alvorecer da maioridade, compúnhamos a turma da memorável  rua 15 de novembro, da praça da Matriz, que a Gessy tanto exaltava em saudável competição com as greis de outras praças.

            Era assim a Gessy: comunicativa, alegre e festiva e a sua maneira peculiar de ser a todos cativava, irradiando alegria onde estivesse, vez que fazia da vida uma festa permanente. Pessoas assim, ao partirem para o Mundo Maior deixam cada vez Menor o em que vivemos. O círculo afetivo dos amigos, que nos dá sustentação emocional para o viver do dia-a-dia, vai-se fechando com a ausência de pessoas ímpares como a Gessy que, com seu sorriso fácil e espontâneo, sem veicular mágoas, ressentimentos e lamentações, nos fazia ver tudo melhor e nos sentíamos, naqueles momentos, mais fraternos, isto por que a velha Ipueiras estava sempre presente nos encontros programados ou ocasionais e a relembrança de tantas histórias, revividas, onde éramos personagens, tinha o condão de irmanar a todos no cenário da daquela inesquecível convivência.

            A Gessy era, em vida, uma referência para os ipueirenses. Assídua freqüentadora das programações sociais promovidas pelo Cardoso era a presença que simbolizava a intenção de sermos uma irmandade. Querida dos irmãos com quem mantinha saudável e harmoniosa convivência, que, como nós conterrâneos e amigos, iremos padecer a amargura de sua reclamada ausência.

            Mas, hoje, estamos unidos, familiares, amigos e conterrâneos neste ato religioso em que reverenciamos sua memória, para, em oração, pedir a Deus que a tenha sob o esplendor de vossa luz, iluminando seu caminho na eternidade rumo ao lugar reservado aos que, aqui na Terra, souberam preservar sua fé, vivendo cristamente.

 

 

A FLOR DA PAIXÃO

 

A flor do maracujá

Conhecida flor da paixão.

Um dia já foi branca,

Contou-me um cidadão.

E que foi o sangue de Cristo,

Que deu nova coloração.

 

No pé da cruz se avistava

Algumas flores de maracujá.

Com sua coroa de espinho,

Jesus Cristo pôs-se a sangrar

E as brancas flores tingidas

Bem roxas passaram a ficar.

 

Essa flor carrega consigo

Os pregos da crucificação.

As cinco chagas de Cristo,

Depois da transformação.

Até a coroa de espinhos

De sua árdua coroação.

 

Se é verdade ou é lenda

Eu não posso afirmar.

Só sei que é misteriosa,

A bela flor do maracujá.

E essa história que ouvi,

Estou somente a repassar.

 

(Foto, sob o título "coisas do sítio", e texto de Dalinha Catunda)

 

 

 

 

 

JOSÉ COSTA MATOS

* Ipueiras - 2 de setembro de1927
+ Fortaleza - 2 de março de 2009

 

  

CHOVE POESIA

SOBRE IPUEIRAS

UM MANTO TRISTE

COBRE AS ESTRELAS

 

OS PIRILAMPOS

LEVES COMETAS

HOMENAGEIAM

OS SEUS SONETOS

 

SOBRE IPUEIRAS

NAVEGA AGORA

EXTEMPORÂNEO

 

NO CÉU IMENSO

UM RIO INTENSO

SOBRETERRÂNEO

 

 

Exercícios de Admiração

Horácio Dídimo

 

 

 

GERARDO MELLO MOURÃO

O  poeta oracular e absoluto

 

 

Com o AI-5, Gerardo passa três meses entre o Sops, Dops, quartel da PM Caetano de Faria e do Exército em Harmonia, dividindo cela com Zuenir Ventura, Hélio Pellegrino, Ziraldo, Osvaldo Peralva e outros perseguidos

 

Ruy Câmara

        

          Gerardo Mello Mourão, o poeta oracular e absoluto que tinha orgulho de dizer-se jagunço cearense há quatrocentos anos, foi amassado no barro das Ipueiras em 8 de janeiro de 1917, e em 09 de março de 2007 virou a última página de sua história lutando pela vida com a mesma serenidade com que enfrentou tantas mortes em plena vida.


        Sua partida entristeceu o mundo intelectual e deixou-nos um vazio que precisa ser preenchido para que possamos dotar de sentido o que aparentemente não faz sentido algum, como por exemplo, a morte, essa companheira inconfiável que, num simples bater de pálpebras, vira o mundo ao avesso e desmantela tudo o que tomamos por real, insuprimível ou mesmo eterno.


        Mas quem sabe morrer de vida longeva, morre silente, no silêncio da pena que corre suave sobre o papel para inspirar os sábios e os deuses. Gerardo morreu silente, mas para a camarilha que se amotinava com o fito de excluí-lo dos cânones políticos e literários, ele já havia morrido em vida, vítima das conspirações, das prisões, da inveja e do silêncio hostil dos núcleos acadêmicos e políticos do Brasil.


        Gerardo não teve lugar na Academia Brasileira de Letras, nem nas Academias de Letras do Ceará; não cobrou do Estado os danos morais e materiais que o Estado lhe causou; não requereu aposentadorias pelo tempo que serviu à Pátria Brasileira e nunca pesou contra ele a acusação de dedo-duro, o que nos leva a crer que nosso poeta, pela sua vida mesma, pela sua grandeza moral e intelectual, encarnou a metáfora do “Albatroz, imensa ave dos mares” que Baudelaire sublimou num dos mais belos poemas de língua francesa: “o poeta se compara ao príncipe da altura, que enfrenta os vendavais e as setas no ar, e exilado no chão, em meio à turba obscura, suas asas de gigante o impedem de andar.”


        Pelo legado que nos deixa em obras literárias de valor insuprimível, Gerardo é, sem dúvida, muito mais do que dele já dissemos ou ainda estamos por dizer ao longo do século em curso. E quando invocamos um mito com tal dimensão, logo aí vem ele, pisando suave, com as mãos para trás, olhos agudos, brilhantes e atentos a tudo, vestido num terno impecável, de gravata-borboleta, esboçando um sorriso matreiro antes de contar alguma peripécia com sua voz ritmada e vibrante, própria dos cantadores nordestinos. 


        Contrário senso, o tradutor de Parmênides de Eléia (530-460 a.C), de Rainer Maria Rilke (1875-1926) e do líder militar, poeta e calígrafo chinês, Máo Zédōng, conhecido como Mao Tsé-tung (1893-1976), cumpriu com dignidade a sua função de humanista politicamente incorreto, de poeta excluído das cortes das letras e ignorou solene a patrulha de literatos que o considerava um “marginal” das letras, como o foram Homero e Dante, Camões e Hölderlin, Baudelaire, Lautréamont e Rimbaud, que são os grandes reitores do saber e do espírito.


        Em março de 2006, como que antevendo o destino se cumprir, fui com o cineasta Wolney Oliveira à casa do poeta que, apesar do ombro fraturado e das dores nos ossos, nos acolheu com o entusiasmo de criança, e lá gravamos durante cinco dias consecutivos, suas confissões, peripécias e aventuras.


        Dona Lea, testemunha e guia dos passos do marido, nos mostrava com seus olhos os livros, os objetos, as artes e com o dedo apontava os labirintos da casa onde, desde o princípio já se sabia que, para o poeta a busca da musa era sempre mais sublime que o encontro. Quando fechávamos um bloco fílmico e fazíamos uma pausa, o poeta incorporava o filósofo, metia a mão no seu poço de erudição e ditava: «A ideologia representa a negação da fecundidade do pensamento e da liberdade do espírito. O sujeito que se escraviza a uma ideologia não produz idéias próprias e torna-se vítima de uma idéia fixa alheia.


        Às vezes, fascinado por um sonho generoso, o homem se encerra no círculo de ferro, estéril e sem saída de uma ideologia. A ideologia é a depravação maior do pensamento e da inteligência dos impostores que têm sede de poder. A ideologia é a impostura com que os tolos esterilizam seu pensamento, sua inteligência e até mesmo sua honra. O século 20 conheceu essa indigência e esta impostura com a endemia do marxismo, com o mimetismo do socialismo e com a ganância soberana do capitalismo. Essas ideologias em confronto exterminaram o que poderia brotar de humanismo nos círculos respeitáveis do pensamento dos países culturalmente aparelhados». E ao final do dia, quando vinha a fadiga, Gerardo nos brindava, ora com tragos de bom vinho, ora com uma poesia anestésica e paralisante.

 

        Homem pio, seráfico e impregnado pela fé-feroz que santificou Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino, Gerardo não escondia o seu entusiasmo pela vida de pecador, nem mesmo quando instado a falar sobre a fé e sobre o que o teria levado a renunciar a vida clerical aos 18 anos. E quantas horas de sabedoria: «Eu não persigo a fama. Eu persigo a glória e escrevo para chegar diante de Deus com minhas obras, na esperança de ser acolhido com minhas idéias». Súbito, a voz vibrante do cantador das Ipueiras foi abafada pela pronúncia em recto-tono do frater Gerardo, a nos contar que ingressara no Seminário dos Redentoristas Holandeses aos 11 anos, convencido de que, a maior felicidade a que o homem pode aspirar é ser santo.

 

        Ao ouvi-lo dizer que não tinha forças pra agüentar aquele sacrifício, aquela imolação diária e que os castigos da consciência lhe ardiam mais do que as punições por rebeldia, inferi que a gênese do pensamento rebelde e independente do poeta pode ser achada nos seus anos de noviciado, pois não é fácil um jovem renunciar as suas paixões e desejos carnais, afinal, as paixões inaugurais do ser eclodem na adolescência, e a vida monacal educa o sujeito para exterminar a sua própria vontade.


        Revivendo os tempos no Seminário, ele relembrou que aos 17 anos foi punido diante dos noviços pelo pater magister (mestre dos noviços) com a seguinte ordem: «Irmão, plante essa roseira no jardim, mas plante-a de cabeça pra baixo, com a raiz pra cima». Quando a roseira murchou, o pater magister bateu à porta da cela de Gerardo e disse: «Irmão, hoje você está incumbido de regar as plantas do jardim». Gerardo abriu a janela, viu o temporal caindo e continuou mudo. Enfurecido, o pater magister gritou: «Frater, aqui não se discute ordem, nem se questiona». Gerardo caiu de joelhos, beijou o chão e foi regar o jardim debaixo de chuva. Tempos depois, num almoço dominical o pater magister disse: «Frater, o senhor é hebdomadário esta semana, então o senhor vai pronunciar errado três palavras em latim».


        Ora, para quem aos 13 anos já traduzia Homero e Píndaro, Virgílio e Horácio, Ovídio e Propércio, pronunciar palavras erradas seria uma humilhação diante da comunidade. Gerardo pensou um pouco e leu um texto que todos sabiam de cor: Bíblia sacra, de libro Genesis, caput quintum, continuatur... que foi pronunciado assim: de libro Genésis, caputim quintum continuatum. Nesse ponto o velho padre reitor estava à mesa e gritou: «Frater, frater, seis anos de latim e ainda não sabe pronunciar o nome de um livro da Sagrada Escritura». Gerardo ajoelhou-se, mas não beijou o chão, pois sua natureza já lhe cobrava uma atitude. Contudo, passou sete meses travando uma luta interior (sai, não sai) imaginando que estaria fechando as portas do céu para sua alma. No dia da saída, Gerardo procurou o padre reitor e confessou-lhe o seu arrependimento. O mestre olhou-o e disse: «Meu filho, você já foi provado por Deus longamente. Há meses que você está nessa agonia interior. Então vá e siga seu destino».

 

        Em 1935, poucos meses antes de proferir os votos de pobreza, castidade e obediência, Gerardo desvestiu o hábito e chegou ao Rio de Janeiro numa véspera de carnaval, ouvindo os rapazes, moças e transviados cantar: «Eva querida, quero ser o teu Adão». Seguramente, pensou consigo mesmo: «Nossa Senhora, vão todos para o inferno». Mas como a carne é fraca, durante o carnaval Gerardo foi maculado por todos os pecados mortais catalogados nas bulas, católica e bizantina. «Quem quiser que os imagine», disse ele rindo.

 

        Aos 23 anos. Gerardo firmou o Pacto del Vitória, sagrou-se cavaleiro da Senhora Poesia e ingressou na «Santa Hermandad de la Orquídea», ao lado de Efraim Tomás Bo, Godofredo Iommi, Juan Raul Young, Abdias Nascimento e Napoleão Lopes Filho. A guilda órfica deixou rastros nas terras e nas águas marítimas e fluviais de quatro continentes, empunhando a bandeira do saber e do fazer poético. Essa aventura mundana está documentada numa bitácula preciosa em que os membros da Santa Hermandad escreveram um memorando épico-lírico dos achamentos de chãos andados ou imaginados e deram testemunho escrito numa partitura poética intitulada "Amereida", preservada num livro raro do qual se tiraram apenas algumas dezenas de exemplares.


        Parece certo dizer que Gerardo e seu bando de jovens idealistas, todos desertores da vida prática, já compreendiam que a imposição tirânica do altruísmo (um comportamento imposto pela autoridade), significa a anulação da liberdade do pensamento e a violação da própria condição humana, pois nega ao homem o encontro consigo próprio, e o impede de cumprir, enfim, o seu destino incerto e desconhecido no mundo.


        Desde que se assumiu poeta, Gerardo ignorou olimpicamente a patrulha ideológica que elevou um bando de escrevinhadores à categoria de poetas nacionais e adotou um posicionamento de independência e rebeldia que se chocava radicalmente contra o [e]stablishment literário, político e acadêmico nacional, pois para ele, intelectual é antes de tudo uma postura crítica, solitária e coerente frente a uma circunstância; é saber tirar da escuridão o lume para que outros desvelem as máscaras do real. Sabia também que, para cumprir tal desiderato é preciso independência, coragem e tais atributos são condições do “eu” sozinho, porque um intelectual não é um grupo, portanto, não conta com o apoio do outro para enfrentar uma adversidade e, freqüentemente, não enfrentaria se a cada iniciativa tivesse que pedir o apoio do colega.


        Apesar das perseguições, das torturas e dos anos de clandestinidade e de exílio na China, França, Alemanha e Chile, Gerardo era um homem doce, sem amarguras, sem frustrações, e nutria-se da velha ambição cosmogônica de viver num mundo em que ao homem é possível o culto ao belo e à felicidade de ser e de existir com alguém ao seu lado, ou seja, de desfrutar de um sentimento compartilhado e livre de ódios e rancores.


        E aqui peço vênia ao vate para repeti-lo: «O ressentimento é a pior coisa a que o homem pode guardar dentro de si. Um homem consciente não permite que o ressentimento lhe possua, porque trata-se de um sentimento nocivo, sentido pela segunda vez, pela terceira vez, pela quarta vez, portanto não é um sentimento original, pois o ressentimento é ressentir, e isso leva o homem à pura esterilidade da razão, e impede que os sentimentos mais sublimes se manifestem em seu espírito».


        Senhor das línguas conhecidas e desconhecidas, das línguas antigas e esdrúxulas, Gerardo não falava explicitamente das suas influências literárias, mas não conseguia esconder a sua admiração por um rosário de poetas universais, entre os quais ele inclui o caboclo Anselmo Vieira, cantador da feira de Ipueiras, com sua rabeca rouca, sua voz gemedeira, cantando quadras e sextilhas de sete sílabas, mourões de oito pés em quadrão e galopes-à-beira-mar, em puros endecassílabos e metastasio. «Quando ouço um repentista nordestino puxando a gemedeira, ouço também, em cada verso, a batida dos pés de Homero, Virgílio e Ovídio, com seus hexâmetros e pentâmetros, com seus dáctilos, anapestos e troqueus ritmando a cantoria, pois é essa batida rítmica que dá espírito ao verso que o poeta gera com a inocência do tocador de viola e com a sabedoria intuitiva e mágica que exclui mesmo a intenção».

 

        Parece certo dizer que o fascínio pela santidade e a busca do êxtase poético, são os dois pólos entre os quais oscila o pêndulo da criação de Gerardo. Contudo, a língua de Gerardo é a língua de Ovídio, Virgílio, Cícero, Homero, Píndaro, Petrarca, Leopardi[,] Dante, Camões, Cervantes, poetas que guardam o ritmo interior dos versos em dáctilos virgilianos, hexâmetros, jônicos e trocaicos, mas a sua linguagem é a linguagem dos cantadores nordestinos que ele conheceu no pé-da-serra da Ibiapaba, e o ritmo predominante de sua poesia é o ritmo religioso do canto gregoriano que ele entoava na serenidade claustral da sua juventude.

 

        Trancafiado 18 vezes nos cárceres do Estado Novo, Gerardo sozinho era uma rebelião e suas obras mais demolidoras foram estruturadas ao longo de 5 anos e 10 meses em que esteve preso na Ilha Grande, Ilha das Flores e na rua Frei Caneca, no Rio de Janeiro, onde escreveu em verso e em prosa, romances, contos, ensaios e biografias tematizando o problema da irresidência do ser. Entre os livros mais importantes, destacam-se: O Cabo das Tormentas (1950); O Valete de Espadas (1960); a trilogia poética Os Peãs, composta pelos livros O País dos Mourões (1963), Peripécias de Gerardo (1972) e Rastro de Apolo (1977); A Invenção do Saber (1983); a epopéia Invenção do Mar (1997); Cânon e Fuga (1999); Os Olhos do Gato (2001) e O Bêbado de Deus (2001).

 

       
        Durante as filmagens, o poeta externou a sua indignação dizendo: «Nunca fui condenado à morte como insinuam os sacripantas da história e da má fé, pois não havia pena de morte no Brasil à época, nem mesmo no caso do decreto de 1942, que me condenou à prisão perpétua. Nunca houve processo judicial legal contra mim e o processo do infame Tribunal de Segurança Nacional nunca teve sequer autos judiciais, constando apenas de um inquérito do Dops. Nunca fui condenado por nenhuma lei brasileira, nem por qualquer tribunal legalmente constituído e nunca compareci diante de um juiz para ser julgado. Nem mesmo o infame Tribunal de Segurança ousou me acusar de conspirar contra o Brasil.

 

        A acusação de espião nazista e de haver colaborado para o afundamento de navios na costa brasileira, partiu dos meus adversários na imprensa, de David Nascer, da Revista O Cruzeiro, de quem me vinguei exemplarmente obrigando-o comer uma iguaria bizarra e imunda. Tenho um imenso e olímpico desdém por uns pobres bonifrates que me consideram um poeta importante e que tenho direito a uma revisão dos “erros” do passado. Não tenho erros políticos a corrigir. Portanto, não permito que ninguém mude uma vírgula do meu passado. Minha história pessoal é um patrimônio de que muito me orgulho».

 

        Desde muito se sabe que os navios brasileiros foram afundados por submarinos aliados para forçar o Brasil a entrar na 2ª Guerra, trocando borracha da Amazônia e vidas de milhares de nordestinos por uma siderúrgica no Sudeste. O caso em que Gerardo foi agredido nos mais elementares direitos humanos, é único em toda a história do Ocidente, pois não se conhece outro caso em que alguém tenha sido condenado “por decreto” com aplicação retroativa.

       
        Não temo errar se disser que Gerardo, o anticanônico, foi e é o mais erudito dos poetas brasileiros desde o achamento desta nação em 1500, e sua história se confunde com a História do Brasil ao longo do século XX, já que viveu o século inteiro, e atuou no enredo com a convicção de que não lhe cabia fazer história, mas sofrer a História. 



        Criador na mais alta acepção da palavra, Gerardo dizia que o tempo da criação é intemporal, tanto que podemos chamá-lo de poeta da "suidade" (da saudade), da coisa sua, da circunstância sua, uma vez que sua poesia, ao lado se sua prosa, formam a medula do seu espírito humanista, espírito que se fortaleceu sob o signo secular do trivium (saberes humanos) e do quatrivium (saberes exatos).



        Poucas semanas antes da morte, Gerardo confidenciou-me que estava afetado pela tristeza existencial do ser (ou seria ontológica?), e que se sentia como Léon Bloy, possuído por uma angústia medular e constante, até mesmo quando recitava o credo de Santo Atanásio e confirmava a sua convicção na vida eterna. Disse-me ainda que não levaria consigo nenhuma mágoa dos seus algozes, nem mesmo da escritora Rachel de Queiroz, que ora lhe acusava de “direitista” e “esquerdista”, de “nacionalista” e “entreguista”, de “nazista” e “fascista”, de “reacionário” e “conciliador”, de modo que isso deve bastar para que sua alma seja salva da maldição secular que emana dos sarcófagos acadêmicos e políticos do Brasil.

 

        Aprendi muito ao longo de quatorze anos de irmandade sincera com Gerardo, o inspirador de duas gerações de escritores. E quantas memórias cada um de nós, seus amigos, podemos reviver? Lembro-me bem do dia em ele regressou de sua Ipueiras e fomos juntos para um evento na Assembléia Legislativa do Ceará. Na tribuna, após haver falado das misérias que testemunhara durante sua viagem ao sertão do Ceará, Gerardo perguntou aos deputados se alguém ali poderia dizer para que serve um poeta num Estado pobre em Cultura, Educação e Saúde? Após um tempo de silêncio frustrante, eis que ele afia as palavras na sua língua de pedra e diz: «Neste mundo o que dura é o que foi fundado pelos poetas e não pelos especialistas, que são meros figurantes de uma tarefa ancilar. Não são protagonistas do saber nem da história.

 

        Nunca um especialista criou algo duradouro nem embasou uma nação». Ao ouvir isso, suspeitei que Gerardo utilizou o eufemismo “especialista” para não deixar os deputados que o aplaudiam de saia-justa. E prosseguiu: «A Grécia foi fundada pelo poeta, Homero, cego e gênio. O império romano foi inspirado pelo poeta Virgílio e por um escritor que se fez general, Caio Julio César. O mundo judaico foi fundado pelos poetas das profecias, Jeremias, Isaias, Ezequiel, Daniel e pelos Cantos do rei Davi. A civilização mulçumana foi fundada pelo poeta Maomé, seu senhor e soberano. A China e a Ásia Oriental foram fundadas pelo poeta Kung-Fu-Tze, que conhecemos por Confúcio. A Itália foi fundada por Dante, poeta absoluto. Churchill, animava suas tropas contra o fogo de Hitler, enviando aos soldados os versos de Shakespeare. Os soldados germânicos levavam na mochila os Cantos de Rilke e os hinos de Hölderlin.

       

        E o que seria de Portugal sem Camões e Pessoa? Da França sem Voltaire, Baudelaire, Lamartine e Hugo? E o Ceará sem seus poetas, renegados e esquecidos?» E finalizou dizendo: «Foi o Deus poético e dialético que engendrou o pensamento mítico, o tempo divino do homem, mas foi a verdade helênica que deu vigor à noção de liberdade e democracia, verdade luminosíssima que fundou o homem livre». Os aplausos não impediram o nosso poeta de dizer: «É para preencher o vazio do espírito humano que serve um poeta com sua poesia».

(Texto enviado por Tereza Mourão, extraído do “site”

http://www.amigosdolivro.com.br/lermais_materias.php?cd_materias=4398)

 

Costa Matos, o poeta ecumênico.


 
Francisco Hélder Catunda de Sabóia

Advogado

 

        “O mundo é um cavalo e o cabresto é o dinheiro”. Com esta oração o ficcionista Costa Matos inicia o romance intitulado o Rio Subterrâneo centrado na ambiência sócio-cultural da Ipueiras dos idos de 1950, início da década seguinte, onde o enfoque sociológico se volta para os conflitos que se desencadeavam ao longo das virulentas campanhas eleitorais, em que os chefes políticos da localidade disputavam a liderança do poder municipal. 

 

        Este intróito não traduz qualquer pretensão de querermos adentrar na crítica da produção literária do Costa Matos, recentemente falecido. Não, longe de nós qualquer intenção nesse sentido, pois, mesmo se o quiséssemos, faltar-nos-iam engenho e arte para tamanha empreitada. Na certa, algum dos seus pares, da honrada e vetusta Academia Cearense de Letras o farão com o devido brilhantismo.

 

        Mesmo nos eximindo deste ingente encargo,  não poderíamos deixar de ressaltar a grandeza cósmica de sua poesia. Foi telúrico quando, como filho amoroso, arpejou, nas cordas do coração, o amor à terra natal. Assim falou o poeta:

 

         “Aquele riozinho é o Jatobá gemendo sob a ponte. Os feitiços da cor no anseio do horizonte e a desintegração do céu em mil perfumes. O Cristo Redentor, minha casa, as colinas, o terço ao por do sol, mãos postas, pequeninas, e a névoa do Senhor abençoando os cumes”.

 

        E, saudoso da mãe terra distante, lamuriou-se:

 

        “Fevereiro atiçou fogueiras aurorais na combustão floral que acende ipês na serra. Como deve estar linda agora a minha terra, se andou chovendo assim, qual leio nos jornais. Um vôo de festa de andorinhas hibernais, sobre a igrejinha branca, em leque, se descerra. E, vencendo a distância, a minha saudade erra pelo torrão que guarda as cinzas de meus pais”.

 

        Versejou, pelos apaixonados, os amores inesquecíveis e, em Bilhete Azul:

 

         “Hoje, ao pegar nas cartas que me mandastes e, ao mandá-las de volta, eu me lembrei pois já não te ama o coração que amaste nem sei se ama o coração que amei....Se algum dia eu falar deste passado feliz que o tempo há muito devorou, não penses que para ti terei voltado e que a felicidade derrama seus dulçores por tudo aquilo que passou... Saudade, apenas, não te quero mais, adeus”.

 

        O “menestrel”, na sua condição humana, teve, como todos nós, momentos de incertezas e desalento quando disse:

 

         “Numa hora de cansaço e de descrença  rasquei sem pena todos os meus versos. Desajudado e só, frente aos fados adversos, a luta é vã, sem glória ou recompensa. Quando se esmaga um poeta a indiferença pesa bem mais que os gelos milenares das paisagens sem sol dos círculos polares”.

 

        Na teologia escatológica vislumbrou o final dos tempos e vaticinou:

 

         “Na agonia da Terra as truculentas massas profanam sem piedade as últimas carcaças da esperança e do amor, na assombração do escuro. E eu, mudo de terror, a minha angústia escondo, enquanto escuto, ao longe, pavoroso estrondo, destas horas sem Deus fecundando o futuro”.

 

        E, no plano individual,  disse o vate:

 

        “Morrer, voar, abraçar no espaço os gênios de outras eras e colher uma flor em cada estrela acessa. Ver de perto a criação de mundos”.

 

        Não esqueceu de agradecer ao Senhor o dom da vida e assim orou:

 

        “Não encontrei motivo, em toda minha vida, para amaldiçoar o meu caminho. O bem que eu quero ter, sem muita lida, cedo ou tarde se integra em meu carinho. Quis Deus Nosso Senhor minha alma rica da Grande Paz, de luz, do amor profundo que eu desejei, e agora multiplica prêmios, por tudo que eu sofri no mundo”.

 

        Muito e muito mais teríamos a reproduzir da poesia do Costa Matos, enfeixadas, dentre outras, nas obras: Pirilampos, As Viagens. O Sonho das Respostas, Estações de Sonetos.

 

        Naquela pequena estatura, à semelhança de Rui Barbosa, se abrigava um gigante que, mesmo aprisionado na corporeidade, se manifestava pujante, na força incontida de sua majestosa produção intelectual. Buscando a concisão ressaltamos o que, de mais belo à nossa sensibilidade, quer transmitir a riqueza multifária de sua manifestação poética. Falamos do literato que, aqui e alhures, conquistou vários prêmios. Do ser humano, ficam sua generosidade, a simplicidade, a alegria de viver, a lhaneza no trato e os ditos jocosos sobre as figuras folclóricas da velha Ipueiras.

 

        Em que pese sua erudição no campo da ontologia, não se rendeu à frieza da razão pura. Permaneceu, humilde, ante à incógnita do sobrenatural, fiel à sua fé inquebrantável em Deus, que a demonstrava, com convicção, nas filosóficas crônicas quinzenais no Diário do Nordeste.

 

        Ficam, também, o exemplo de vida em família, de pai amoroso, do eminente professor e, acima de tudo, permanece entre nós, amigos, conterrâneos e admiradores, a luz de sua radiante presença aqui na Terra. E os rastros dessa luz hão de perpassar o tempo porque a luminescência, que se irradia lá dos paramos celestiais, carrega a eterna sabedoria de um filósofo que viveu para fazer o bem, transmitido a todos que o circundavam a preciosidade de seus conhecimentos, em especial aos discípulos, de antanho, na Ipueiras querida, na Faculdade de Filosofia em Sobral e, os de agora, nos círculos universitários aqui sediados, pois mestre consagrado de filosofia, de literatura e da língua pátria.

 

         É a nossa sincera homenagem. Homenagem e gratidão de ex-aluno e amigo, conterrâneo e admirador.

                                                     

      

 

Tributo a Costa Matos

12:39 @ 14/03/2009

 

Costa Matos

 

 

 

 

            Meu caríssimo Prof. Costa Matos, existem notícias ou fatos que, se pudéssemos, postergávamos, deixávamos pra lá, como se diz popularmente. Assim ocorre quando somos informados de que alguém a quem prezamos muito, partiu, foi embora.

 

        Na maioria das vezes, essa partida se dá em silêncio, sem uma despedida formal. O senhor, sempre tinha algo a ensinar, a reanimar em nós, com seu exemplo, com seus conhecimentos. A morte é um mistério, professor. Não sei se o senhor percebe o que se passa desse outro lado da vida.

 

        Crentes que somos na vida eterna e num Deus que nos há de receber um dia, sei que Ele, de braços abertos, o acolheu e deu-lhe as boas-vindas no Paraíso, pelo bem que o senhor praticou aqui. Recordo, saudoso, nossas conversas. Lembro-me de seus telefonemas. De seu alento quando a caminhada se parecia tão difícil e o senhor, com sua voz serena, ensinou-me a ter paciência, talvez lembrando aquele adágio universal: tudo passa!

 

        Não consegui agradecer-lhe pelo seu tão belo artigo “As pedras do caminho...”, publicado neste jornal. O senhor deu-me qualidades que desconheço, mas suas palavras me aqueceram a alma, o que não é novidade, partindo do senhor. Fico-lhe grato.

 

        Professor, nossa Literatura ficou órfã de sua presença física, mas não de sua presença poética, de suas crônicas, de seus romances. Eles permanecerão e provarão que o aluno da dona Ester Mourão (mãe do querido Gerardo Mello Mourão) é verdadeiramente um imortal. A imortalidade literária consiste na permanência de suas obras literárias mesmo após a sua morte.

 

        Em dois anos a Ipueiras perdeu dois de seus mais ilustres filhos, pois, no próximo dia 9 de março, recordamos o segundo ano da partida de Gerardo Mello Mourão, maior poeta de sua geração que fez ao passar por Ipueiras, o imortal da ABL, Antonio Olinto, afirmar, Ipueiras: aqui nasceu a poesia!.

 

         Agora, parte o senhor, o poeta terno, o cronista sensível, o romancista habilidoso, o ser humano afetuoso, fraterno, irmão que deixará muita saudade entre os que o admirávamos. Abrace nossos amigos que aí estão e interceda a Deus por nós. Até um dia!


JOSÉ LUÍS LIRA

Advogado e professor

 

            Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=620518

 

 

 ***

 

 

        "...O cenário das histórias de Costa Matos são as pequenas cidades do interior, onde os acontecimentos, de natureza doméstica, política ou moral, assumem geralmente dimensões inesperadas. O padre, o juiz, o promotor público, o tabelião, os tipos populares que proliferam em todos os níveis da hierarquia social - toda essa fauna humana constitui a matéria-prima destas bem conformadas narrativas de Costa Matos, um escritor com absoluto domínio das possibilidades do   idioma, a que dá tratamento cuidadoso e irrepreensível.

 

        "Conto o que me contaram". Essa frase de Heródoto poderia servir de prólogo para este livro de Costa Matos. Presumivelmente, ele nos conta fatos que testemunhou ao longo de sua vida, ou que lhe foram relatados  por outras pessoas. Se é verdade que "a vida imita a arte", não é menos verdadeiro que a arte é também uma imitação da vida no plano metafórico. Seria irrelevante, portanto, indagar se os fatos arrolados nas histórias de Costa Matos são reais ou são fictícios. O que importa assinalar é que o sopro do ficcionista é suficientemente forte para dar corpo e alma a esses "bonecos de barro", contemporâneos dos primatas criados por Deus.

 

         Francisco Carvalho

 

(Na Trilha dos Matuiús -1998) 

 

***

 

 

Rio de Janeiro, 18 de julho de 1983

 

Costa Matos,

 

        gratíssimo pelos seus livros Na última curva da esperança (e O Sono das respostas. Logo me inteirei de sua poesia direta e sem rebuços. Digo isto porque ela é certeira do poeta ao que lê. Quando digo sem rebuços, não quero dizer que ela seja simples e sem mistério. Tem as duas qualidades e principalmente certa onda enigmática que está na sua origem.

 

        Que poesia bravia, revoltada, orgulhosa e tão sensível à nossa hora que passa - veja-se O homem e seus medos que destaquei porque muito me atingiu.

 

        O medo tem sido a minha constante, desde que me entendi por gente. Medo das coisas que você aponta como temerosas e hoje - medo do Brasil. Eu me sinto como se estivesse, pior que diante de um pelotão de fuzilamento - trancado numa masmorra escura junto com uma cobra cascavel. E sua poesia me diz que nossa única fuga é mesmo pela própria poesia.

 

        Um abraço e obrigado,

 

Seu, do coração,

 

Pedro Nava

 

  

                                                         ***

 

        Quando chega uma notícia dessas para mim, logo mentalizo o mapa das ruas e praças de Ipueiras. E, na rua em que morou o falecido, exatamente na casa de sua família, faço as minhas reminiscências.

 

        Foi o que fiz hoje no sobrado do Professor Costa Matos, localizado em parte alta da cidade, de aspecto destacado, pois em seu entorno a predominância de casinhas de taipa, da vila formada pelas famílias de operários da fábrica de algodão do Major Sebastião Matos.

 

         O sobrado que frequentei na minha infância, pois amigo de Lalu e Carlito. Na adolescência, quando a família já não residia em Ipueiras, o local ficava a disposição dos dois filhos para passarem as férias de julho e do final do ano. Nós, também de férias, nos juntávamos aos demais amigos da cidade e praticávamos o futebol no campinho que fazia parte da propriedade dos Matos. E aí, a utilização do espaço ficava intercalada entre sessões de leituras de revistas de esportes, de quadrinhos, de então proibidas revistas de sexo, de encontros para umas primeiras golpadas de bebidas nas ocasiões que antecediam a ida para as tertúlias em casas das namoradas ou no Grêmio.

 

        Já em Fortaleza, na casa da Avenida Bezerra de Menezes, depois daquelas saudáveis farras de sábado para domingo, terminávamos dormindo nas redes carinhosamente dispostas pela Dona Alderi, no quartinho dos fundos. Lá pelas 10, 11 horas chegava o Professor para conversar, saber como foi a noitada. Ouvia, contava umas daquelas estórias de causos e pessoas de Ipueiras e, depois, uma longa sessão de conselhos e orientações.

 

        Tive o privilégio de ser seu datilógrafo em trabalho literário, um conto que o Professor Costa Matos inscreveu para concurso literário no Paraná, que, por certo foi mais um vitorioso dentre inúmeros em que participou. Na sua atuação como dirigente da Receita Federal, aqui em Fortaleza, lembro de uma solidária manifestação que fez a minha família, na pessoa de um irmão que, caixa de Banco, tivera um grande prejuízo ao pagar a mais um valor de um cheque. A pessoa que recebeu o numerário não foi honesta e levou o dinheiro. Ocorreu falta de caixa. A solução encontrada foi promover uma rifa em que, com a arrecadação, seria coberto o prejuízo. Fui até a Receita Federal e, gentilmente, no seu gabinete, o Professor Costa Matos adquiriu cartelas que muito contribuíram para resolver aquele problema. 

 

        Guardo dele o carinho especial que tinha quando se encontrava comigo. Sempre com um sorriso aberto e com palavras para provocar sorrisos. E sempre se dirigia a mim chamando-me Pequeno Tadeu.

 

        Ao nosso grande Poeta, pequeno na estatura física, a lembrança de um conterrâneo que reconhece ser pequeno diante da grandiosidade de exemplos por ele deixados nestes 81 anos de vida terrena.

 

        Abraços do Francisco Tadeu Fontenele. 

 

 

  

***

 

 

TRÊS POETAS E UMA SAUDADE

 

Dia quatorze de março

Dia Nacional da poesia.

Presto minha homenagem

Com carinho neste dia,

A três bardos cearenses

Que nos deram alegria.

 

O céu está em festa

Vejam que constelação,

Com Patativa do Assaré,

E Gerardo Mello Mourão,

Juntos com Costa Matos

Versejando sobre o sertão.

 

Patativa muito encantou

Aquele que pode escutar

A cantiga da vaca estrela

Junto com o boi Fubá.

E com a “Triste Partida”,

Fez muita gente Chorar.

 

Nossa cultura popular

Deve muito a Patativa.

Sua alma de poeta

Era de sua terra cativa.

Mesmo com sua partida

Sua história é bem viva.

 

Cantou as amarguras

De um povo sofredor.

Cantou a beleza da rosa,

Cantou alegria e a dor.

Cantou a vida sofrida

Do pobre agricultor.

 

Costa Matos meu poeta,

Poeta de minha infância,

Seus poemas que eu li

Quando ainda era criança,

Num livro emprestado,

Ainda trago na lembrança.

 

Mais tarde eu recebi

Vindo de suas mãos,

Livros a mim ofertados,

E foi grande a emoção.

Pra ele fiz um poema,

Demonstrando gratidão.

O poeta fez de Ipueiras,

Um poema de amor.

Cantou a beleza da serra,

Cantou os ipês em flor,

Cantou os pirilampos,

Com borboletas brincou.

 

Poeta segue tua trilha,

Pois brilharás no além.

Aqui ficou a saudade,

Dos que lhe querem bem.

Nas alturas sei que os anjos,

Certamente dirão, amém.

 

Meu muito querido amigo,

Gerardo Mello Mourão,

Dele fui muito próxima

Segurei em sua mão

Cada palavra que ele dizia

Eu ouvia como oração.

 

Ainda hoje não esqueço

Minhas visitas ao seu lar.

Era ele quem mais falava,

E eu gostava de escutar.

E sua sala de visita

Chegava a me encantar.

 

Por mim ele foi recebido

Num evento cultural

Na cidade de Ipueiras,

Em nossa terra natal.

Sua alegria era tanta,

E a minha sem igual.

 

Tenho parte de seus livros,

Que ele mesmo me deu.

Adoro “Rastro de Apolo”,

E “O Bêbado de Deus”.

O livro “Invenção do Mar”

Perde quem nunca leu.

 

Gerardo se foi há dois anos,

Costa Matos partiu agora.

Março não foi camarada,

A saudade eu sei é grande,

Mas na história ficará

Os feitos destes poetas,

Que gostavam de versejar,

E espalharam pelo mundo,

Um canto bem singular.

 

 

 

Dalinha  Catunda

 

 

 

 

 

               O Desrespeito aos Monumentos

                                                                                    

 

                 Fim de Carnaval, passo rápido na Av. Heráclito Graça e me decepciono com o que vejo, na Praça da Medianeira, próximo ao estádio coberto Paulo Sarasate, praça que homenageia uma de nossas bravas heroínas e o que vejo. Numa das mãos da estátua uma garrafa de cachaça, cuja marca prefiro ocultar.

 

                Para o turista desconhecedor a estátua de fato parece estar virando e sorvendo com gosto a aguardente, e assim levam em fotos e lembranças aquela imagem que nada mais é que um sórdida pilhéria a mais um monumento que apesar de pouco respeitado nos lembra um símbolo e exemplo de bravura do passado.     

          

                Já faz algum tempo que a estátua de Iracema na praia ao invés da lança recebeu uma vassoura de piaçaba. Fato mais gritante logo corrigido.

 

               Triste portanto constatar o pouco respeito aos nossos monumentos hoje em dia.

 

               Em relação à estátua de Bárbara de Alencar que se fizesse ao menos um monumento mais humanizado, dando-lhe um rosto idealizado e finalmente ocupando sua mão com alguma coisa, uma bandeira, um símbolo, um pano tudo óbvio de cimento.

              Lembro ainda a estátua principal da Praça dos Leões, que já teve por três vezes a cabeça da serpente serrada e levada, a atual que lá se encontra é a quarta, e para finalizar cito o Passeio Público, fonte de roubos constantes das ainda belas esculturas restantes.

 

              É necessário que não só o setor público como também a população se sensibilize e lute pelo respeito e preservação de nossos monumentos que não pertencem só a cidade, são marcas de nossa história e portanto fazem parte de nosso patrimônio coletivo.

 

                                                                                                                                                                     Bérgson Frota      

 

 

                                                                                                                  ( Foto :  Foto dos arquivos do Diário do Nordeste )

 

                                                                                                                                       Publicado no O Povo em 07.03.2009

 

 

                                                         

 

Imagens do passado

 

Marcondes Rosa de Sousa
O Povo - 02 Fev 2009


                A escola, em todos os seus níveis – da alfabetização à superior – em mim, deixou duas indeléveis marcas: a) o zelo de seus mestres; b) o espírito gregário entre os alunos (o sentimento de turma). Esse, o olhar retrospectivo, que ora faço: desde a alfabetização – a caligrafia e as estórias-de-Trancoso da recém-falecida Isa Catunda e a palmatória de Dona Ester (mãe de Gerardo Melo Mourão), em Ipueiras, a nos espreitar, até as chamadas, na UFC, dos alunos todos (direito e letras) da turma de a a z.



        Mais fortes até, nos internatos. Em meu caso, nos seminários em Petrópolis (RJ) e em Campinas (SP), cujos ex-alunos hoje buscam o reencontro. Pela Web, os de Campinas estranharam minha passagem por lá. Só aí soube eu da extinção do seminário. E os alimentei com fotos, a ajudar no reencontro de alunos, alguns hoje astros espalhados pelos mundos acadêmico, político e intelectual urbs et orbis.



        De outra feita, pela Web, fui abordado por ex-aluna a procurar ex-professor seu, que a marcara em escola da Baixada Fluminense. Era, sem dúvida, um ex-colega meu em Petrópolis e Campinas. As marcas eram as acima citadas... E deste colega, Sebastião Mataruna Cardin, acabo de receber DVD sob o título Imagens do Passado, onde as marcas aqui citadas em tudo se ressaltam.

 

        Abro os jornais e, neles, vejo figuras como Ernani Barreira, contemporâneo dos tempos da UFC, e hoje a presidir o Tribunal de Justiça do Ceará, a carregar, como os da época, as marcas deixadas no passado.


        O DVD Imagens do Passado me traz de volta toda a formação escolar. E, nela, as duas marcas – o zelo dos mestres e o espírito gregário das turmas. E fico a pensar nas reformas propostas por nós, hoje talvez esquecidos de olhar, num espelho, feitos madrasta de Branca de Neve, para a educação que nós próprios tivemos... 

           MARCONDES ROSA DE SOUSA,

         Professor da UFC e da Uece

 

         (Foto extraída de entrevista com Marcondes Rosa, na série "Crônicas do Ceará", pela TV Ceará, para ilustrar, em visual metonìmia, a mudança deste, ainda infante,  para Ipueiras, terra de Gerardo Melo Mourão, filho de Dona Ester, sua professora)

 

 

 

 

 

 

O Pioneiro Pinto Martins

 

 


             Na tentativa de provar a viabilidade da rota aérea ligando as Américas (norte e sul), o cearense Euclides Pinto Martins e o piloto americano Walter Hilton, iniciaram em 4 de setembro de 1922 saindo da Flórida, o primeiro vôo dos EUA para o Brasil, na façanha que seria conhecida como rota Nova York-Rio de Janeiro, pois a primeira tentativa sem êxito havia saído do rio Hudson, no mês de agosto do mesmo ano.  

              Os pioneiros pilotando o hidroavião biplano, de 28 metros de envergadura e dois motores "liberty" de 400 hp, cada. Acompanhados por um jornalista e um cinegrafista, decolaram uma máquina de oito mil quilos, criado na pioneira Fábrica Curtiss.

  

 

 

              O Sampaio Corrêa II, nome dado ao avião, para homenagear o senador e presidente do aeroclube do Rio de Janeiro, atravessou a América Central e em primeiro de dezembro pousou no rio Canani, no Pará, ao norte da foz do rio Amazonas, dirigindo-se para a Ilha de Maracá, Belém e Bragança aonde por força de um temporal pousou no rio Caeté.

 

                        

 

                Três dias depois decolou de Bragança para São Luís do Maranhão. Em 19 de dezembro amerissou em Camocim, terra natal de Pinto Martins. O grande aviador foi muito homenageado, mas seguindo viagem para completar a missão decolou em direção a Aracati.Chegando a Fortaleza o Sampaio Corrêa II por dificuldade de amerissagem nas agitadas águas da enseada do Mucuripe, sobrevoou a cidade por alguns minutos e seguiu de volta a Aracati, onde pernoitou e partiu no dia seguinte para Natal.

                Mal viajando 50 milhas o motor começou a apresentar problemas o que levou ainda em terras potiguares um pouso não planejado na Baía Formosa, perto de Canguaretama, chegando em Recife, sofreu consertos e recebeu um novo motor.

                No dia oito de fevereiro de 1923, precisamente às 11h32min, o Sampaio Corrêa II foi avistado sobrevoando a Baía de Guanabara. Ao pousar foram recebidos na lancha Independência do Ministério da Marinha.

                 Pinto Martins aos 31 anos entrava para a história dos pioneiros da aviação brasileira.

                 Em 13 de maio de 1952 o Aeroporto de Fortaleza recebia o seu nome, eternizando, numa justa homenagem, o cearense que levou longe o nome de seu País.

                                                                         Bérgson Frota


           Publicado originalmente no jornal O Povo 28.05.2006
                  Fotos (www.memorialpernambuco.com.br)

 

O CARNAVAL DE iPUEIRAS

 

 

                                   

Bloco Abababados – 1989


            Ipueiras sempre se destacou entre as cidades da zona norte do Estado, ao pé da Ibiapaba, como uma cidade carnavalesca desde as décadas de 30 e 40 do século passado, e manteve esta tradição fortalecendo-se a medida que a cidade crescia chegando ao seu apogeu no século XX precisamente na década de 80.


            Foram nos anos oitenta que se viu surgir pela primeira vez na sede do município blocos. Fenômeno que repetiu-se em diversos anos seguidos sempre no carnaval, criando uma rivalidade sadia e competindo animadamente entre si.


            Entre os mais destacados estavam : Mama na Égua, Tosse Braba, Olha nós Aí, Abababados e o Sisigura.

 

 


Bloco Sisigura - 1997


               Os cinco blocos citados já não mais existem, mas deixaram uma grata lembrança dos últimos carnavais do século passado em Ipueiras. Sendo que alguns dos que deles fizeram parte já se foram, e outros já não moram mais no município.

               Competiam todos juntos em desfiles pelas ruas e à noite no clube da cidade.

               O bloco Mama na Égua tinha como principal destaque o porta-bandeira já falecido Moacir Fontenele, figura que para os ipueirenses era a alma do carnaval da cidade, fazendo parte dele outro grande carnavalesco de muito valor José Gerardo, o Dadá.

                As vestimentas eram de seda com cores diversas e bem desenhadas. Cada bloco tinha seus trajes típicos e concorriam no clube da cidade pelo troféu de bloco vencedor.

                Com o passar dos tempos os blocos deram lugar ao carnaval de pequenos grupos e é este o que prevalece atualmente na cidade tendo como característica o rápido deslocamento que fazem de uma festa para outra. Já que o carnaval em Ipueiras não se realiza mais em um só salão.

                Outra característica inovadora é que muitos ipueirenses se deslocam para o carnaval de cidades vizinhas não se restringindo somente ao do município.


                O tempo passou mas o carnaval de Ipueiras continua sendo uma festa para seus habitantes, antes só restrito aos clubes e à cidade, agora não só na cidade mas levando grupos que animam e enriquecem o carnaval das cidades irmãs.



             Publicado no jornal O Povo em 26.02.2006

                                                                                                          Bérgson Frota

 

         (As duas fotos dos respectivos blocos fazem parte do acervo do blog ”Primeira Coluna” de Carlos Moreira.)

 

 

                                                                    

Igreja Matriz

(do alto do Cristo)

                                                                                    

Minha Canção do Exílio

 

Dalinha Catunda


Minha terra é Ipueiras,
Onde corre o Jatobá.
Fica ao pé da Ibiapaba,
Ao norte do Ceará.


Nossa gente tem histórias,
Gostosas de se escutar.
Não permita Deus que acabem,
Com as tradições do lugar.

Lendas de bala e botijas,
Ouvi os antigos contar.
História de Iara, mãe-d’água,
Feliz ainda hei de escutar.

Minha terra tem palmeiras,
Das lendas de Alencar.
É a nossa carnaubeira,
carnaíba, carandá.
No farfalhar do seu leque,
Ouvi o vento cantar.

Tomara Deus que eu não fique,
Ausente sempre de lá.
Ao sopro de um Aracati,
Desejo me refrescar.
E ouvir cantar a graúna,
Ao invés de um sabiá.

 

 

 

          “Continuando nossa homenagem aos nomes que divulgam com brilho Ipueiras, aponto esta poesia de Dalinha Catunda como um hino de amor à terra que cedo deixou, mas  em que lá deixou preso  seu coração.” (Bérgson Frota)