Grupos

 

 

O Primeiro Médico de Ipueiras

 

     

          Raimundo Melquíades Costa nasceu em Ipueiras em 10 de dezembro de 1912, filho de Simão Alves Costa e de Raimunda Moreira Costa, que ainda tiveram Pedro Simão, Antônio Simão, Elias Simão, Genário Simões, Cesarina Simões e Maria Simões.

 

         Dr. Melquíades foi o primeiro médico de Ipueiras. Formado pela Faculdade de Medicina da Bahia em 19 de dezembro de 1942. Tornou-se Segundo Tenente em 1943, e atuou como médico do exército na Bahia.

 

         Cursou em 21 de maio de 1947, no Centro de Estudos na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, o Curso de Doenças Parasitárias. Concluiu em 09 de junho de 1947 o Curso de Doenças do Rim.

 

          Fez em 31 de julho de 1957 em Recife, o Curso da Nestlé: Atuação em Pediatria, e em 29 de junho de 1972, em Fortaleza, concluiu um Curso de Saúde Pública. 

     

           Foi sempre um estudioso que procurava na atualização de seus conhecimentos médicos o benefício para o próximo.

 

           Laborou nas cidades de Ibiapina, Sobral e Ipueiras, atuando como Chefe em Saúde Pública.

 

           Como auxiliar de grande valia e confiança, muito lhe serviu o Sr. Mariano Ribeiro de Oliveira.

 

            Cidadão respeitado por toda sociedade ipueirense, pelo seu falecimento, deixou uma lacuna ainda hoje não totalmente preenchida.

 

            Em 25 de outubro de 1987, o então prefeito Manuel Cavalcante Dias, prestou uma importante homenagem ao Dr. Melquíades, inaugurando o Centro de Saúde em Ipueiras, que recebeu seu nome.

 

            Durante toda a sua vida Dr. Melquíades foi um homem de muito bom humor. Certa vez numa mesa, bebendo com amigos, o que fazia sempre de maneira comedida, contou a seguinte estória:

 

            Uma paciente ao ser por ele atendida, depois de contar todo seu problema, mostrou-se apreensiva pois, como ele sabia, ela pertencia a “alta-roda” de Ipueiras.”

 

             Ele, com ar cômico, respondeu-lhe:

 

             - Minha filha, não se preocupe, aqui em Ipueiras, “alta-roda” eu só conheço a de trator, e isso quando mandam para as obras.

 

              Os que ouviam a narrativa caíam em gargalhada.

 

              Assim passavam os anos e o velho médico foi aos poucos perdendo a visão sem se deixar abater. Ao guia que o servia para os passeios invertia os papéis ao dizer que quem não enxergava era ele.

 

              Manteve até o fim da vida a alegria que Deus lhe deu, e certamente nos últimos instantes se chorou foi de saudades.

 

              Dr. Melquíades faleceu na manhã de 23 de fevereiro de 2004.

 

              Finalizando esta homenagem, tomo como empréstimo o que escreveu, Hélder Catunda, um erudito ipueirense sobre sua morte numa crônica publicada no Diário do Nordeste, intitulada : O Médico dos Ipueirenses.

 

             “Pela maneira altruística com que exercitou a medicina, foi essencialmente cristão, sem ser formalmente religioso; venerou a Deus, sem rezar nos altares, ao tratar dos desfavorecidos dispensando recompensas financeiras.”

 

                                                                                                   Bérgson Frota

 

    (Foto: Acervo Grandes Personalidades Ipueirenses – Bérgson Frota)

 

         

EM HOMENAGEM A GESSY MOREIRA

 

Helder Sabóia

           

             Não poderíamos silenciar nossos sentimentos de pesar pelo inesperado falecimento da conterrânea que, agora, os externamos com essas sucintas e sinceras palavras que brotam do fundo do coração; afinal, contemporâneo dos áureos anos de 1950/60 tão festivamente vividos na Ipueiras daquele tempo, onde, ainda saindo da adolescência para o alvorecer da maioridade, compúnhamos a turma da memorável  rua 15 de novembro, da praça da Matriz, que a Gessy tanto exaltava em saudável competição com as greis de outras praças.

            Era assim a Gessy: comunicativa, alegre e festiva e a sua maneira peculiar de ser a todos cativava, irradiando alegria onde estivesse, vez que fazia da vida uma festa permanente. Pessoas assim, ao partirem para o Mundo Maior deixam cada vez Menor o em que vivemos. O círculo afetivo dos amigos, que nos dá sustentação emocional para o viver do dia-a-dia, vai-se fechando com a ausência de pessoas ímpares como a Gessy que, com seu sorriso fácil e espontâneo, sem veicular mágoas, ressentimentos e lamentações, nos fazia ver tudo melhor e nos sentíamos, naqueles momentos, mais fraternos, isto por que a velha Ipueiras estava sempre presente nos encontros programados ou ocasionais e a relembrança de tantas histórias, revividas, onde éramos personagens, tinha o condão de irmanar a todos no cenário da daquela inesquecível convivência.

            A Gessy era, em vida, uma referência para os ipueirenses. Assídua freqüentadora das programações sociais promovidas pelo Cardoso era a presença que simbolizava a intenção de sermos uma irmandade. Querida dos irmãos com quem mantinha saudável e harmoniosa convivência, que, como nós conterrâneos e amigos, iremos padecer a amargura de sua reclamada ausência.

            Mas, hoje, estamos unidos, familiares, amigos e conterrâneos neste ato religioso em que reverenciamos sua memória, para, em oração, pedir a Deus que a tenha sob o esplendor de vossa luz, iluminando seu caminho na eternidade rumo ao lugar reservado aos que, aqui na Terra, souberam preservar sua fé, vivendo cristamente.

 

 

A FLOR DA PAIXÃO

 

A flor do maracujá

Conhecida flor da paixão.

Um dia já foi branca,

Contou-me um cidadão.

E que foi o sangue de Cristo,

Que deu nova coloração.

 

No pé da cruz se avistava

Algumas flores de maracujá.

Com sua coroa de espinho,

Jesus Cristo pôs-se a sangrar

E as brancas flores tingidas

Bem roxas passaram a ficar.

 

Essa flor carrega consigo

Os pregos da crucificação.

As cinco chagas de Cristo,

Depois da transformação.

Até a coroa de espinhos

De sua árdua coroação.

 

Se é verdade ou é lenda

Eu não posso afirmar.

Só sei que é misteriosa,

A bela flor do maracujá.

E essa história que ouvi,

Estou somente a repassar.

 

(Foto, sob o título "coisas do sítio", e texto de Dalinha Catunda)

 

 

 

 

 

JOSÉ COSTA MATOS

* Ipueiras - 2 de setembro de1927
+ Fortaleza - 2 de março de 2009

 

  

CHOVE POESIA

SOBRE IPUEIRAS

UM MANTO TRISTE

COBRE AS ESTRELAS

 

OS PIRILAMPOS

LEVES COMETAS

HOMENAGEIAM

OS SEUS SONETOS

 

SOBRE IPUEIRAS

NAVEGA AGORA

EXTEMPORÂNEO

 

NO CÉU IMENSO

UM RIO INTENSO

SOBRETERRÂNEO

 

 

Exercícios de Admiração

Horácio Dídimo

 

 

 

GERARDO MELLO MOURÃO

O  poeta oracular e absoluto

 

 

Com o AI-5, Gerardo passa três meses entre o Sops, Dops, quartel da PM Caetano de Faria e do Exército em Harmonia, dividindo cela com Zuenir Ventura, Hélio Pellegrino, Ziraldo, Osvaldo Peralva e outros perseguidos

 

Ruy Câmara

        

          Gerardo Mello Mourão, o poeta oracular e absoluto que tinha orgulho de dizer-se jagunço cearense há quatrocentos anos, foi amassado no barro das Ipueiras em 8 de janeiro de 1917, e em 09 de março de 2007 virou a última página de sua história lutando pela vida com a mesma serenidade com que enfrentou tantas mortes em plena vida.


        Sua partida entristeceu o mundo intelectual e deixou-nos um vazio que precisa ser preenchido para que possamos dotar de sentido o que aparentemente não faz sentido algum, como por exemplo, a morte, essa companheira inconfiável que, num simples bater de pálpebras, vira o mundo ao avesso e desmantela tudo o que tomamos por real, insuprimível ou mesmo eterno.


        Mas quem sabe morrer de vida longeva, morre silente, no silêncio da pena que corre suave sobre o papel para inspirar os sábios e os deuses. Gerardo morreu silente, mas para a camarilha que se amotinava com o fito de excluí-lo dos cânones políticos e literários, ele já havia morrido em vida, vítima das conspirações, das prisões, da inveja e do silêncio hostil dos núcleos acadêmicos e políticos do Brasil.


        Gerardo não teve lugar na Academia Brasileira de Letras, nem nas Academias de Letras do Ceará; não cobrou do Estado os danos morais e materiais que o Estado lhe causou; não requereu aposentadorias pelo tempo que serviu à Pátria Brasileira e nunca pesou contra ele a acusação de dedo-duro, o que nos leva a crer que nosso poeta, pela sua vida mesma, pela sua grandeza moral e intelectual, encarnou a metáfora do “Albatroz, imensa ave dos mares” que Baudelaire sublimou num dos mais belos poemas de língua francesa: “o poeta se compara ao príncipe da altura, que enfrenta os vendavais e as setas no ar, e exilado no chão, em meio à turba obscura, suas asas de gigante o impedem de andar.”


        Pelo legado que nos deixa em obras literárias de valor insuprimível, Gerardo é, sem dúvida, muito mais do que dele já dissemos ou ainda estamos por dizer ao longo do século em curso. E quando invocamos um mito com tal dimensão, logo aí vem ele, pisando suave, com as mãos para trás, olhos agudos, brilhantes e atentos a tudo, vestido num terno impecável, de gravata-borboleta, esboçando um sorriso matreiro antes de contar alguma peripécia com sua voz ritmada e vibrante, própria dos cantadores nordestinos. 


        Contrário senso, o tradutor de Parmênides de Eléia (530-460 a.C), de Rainer Maria Rilke (1875-1926) e do líder militar, poeta e calígrafo chinês, Máo Zédōng, conhecido como Mao Tsé-tung (1893-1976), cumpriu com dignidade a sua função de humanista politicamente incorreto, de poeta excluído das cortes das letras e ignorou solene a patrulha de literatos que o considerava um “marginal” das letras, como o foram Homero e Dante, Camões e Hölderlin, Baudelaire, Lautréamont e Rimbaud, que são os grandes reitores do saber e do espírito.


        Em março de 2006, como que antevendo o destino se cumprir, fui com o cineasta Wolney Oliveira à casa do poeta que, apesar do ombro fraturado e das dores nos ossos, nos acolheu com o entusiasmo de criança, e lá gravamos durante cinco dias consecutivos, suas confissões, peripécias e aventuras.


        Dona Lea, testemunha e guia dos passos do marido, nos mostrava com seus olhos os livros, os objetos, as artes e com o dedo apontava os labirintos da casa onde, desde o princípio já se sabia que, para o poeta a busca da musa era sempre mais sublime que o encontro. Quando fechávamos um bloco fílmico e fazíamos uma pausa, o poeta incorporava o filósofo, metia a mão no seu poço de erudição e ditava: «A ideologia representa a negação da fecundidade do pensamento e da liberdade do espírito. O sujeito que se escraviza a uma ideologia não produz idéias próprias e torna-se vítima de uma idéia fixa alheia.


        Às vezes, fascinado por um sonho generoso, o homem se encerra no círculo de ferro, estéril e sem saída de uma ideologia. A ideologia é a depravação maior do pensamento e da inteligência dos impostores que têm sede de poder. A ideologia é a impostura com que os tolos esterilizam seu pensamento, sua inteligência e até mesmo sua honra. O século 20 conheceu essa indigência e esta impostura com a endemia do marxismo, com o mimetismo do socialismo e com a ganância soberana do capitalismo. Essas ideologias em confronto exterminaram o que poderia brotar de humanismo nos círculos respeitáveis do pensamento dos países culturalmente aparelhados». E ao final do dia, quando vinha a fadiga, Gerardo nos brindava, ora com tragos de bom vinho, ora com uma poesia anestésica e paralisante.

 

        Homem pio, seráfico e impregnado pela fé-feroz que santificou Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino, Gerardo não escondia o seu entusiasmo pela vida de pecador, nem mesmo quando instado a falar sobre a fé e sobre o que o teria levado a renunciar a vida clerical aos 18 anos. E quantas horas de sabedoria: «Eu não persigo a fama. Eu persigo a glória e escrevo para chegar diante de Deus com minhas obras, na esperança de ser acolhido com minhas idéias». Súbito, a voz vibrante do cantador das Ipueiras foi abafada pela pronúncia em recto-tono do frater Gerardo, a nos contar que ingressara no Seminário dos Redentoristas Holandeses aos 11 anos, convencido de que, a maior felicidade a que o homem pode aspirar é ser santo.

 

        Ao ouvi-lo dizer que não tinha forças pra agüentar aquele sacrifício, aquela imolação diária e que os castigos da consciência lhe ardiam mais do que as punições por rebeldia, inferi que a gênese do pensamento rebelde e independente do poeta pode ser achada nos seus anos de noviciado, pois não é fácil um jovem renunciar as suas paixões e desejos carnais, afinal, as paixões inaugurais do ser eclodem na adolescência, e a vida monacal educa o sujeito para exterminar a sua própria vontade.


        Revivendo os tempos no Seminário, ele relembrou que aos 17 anos foi punido diante dos noviços pelo pater magister (mestre dos noviços) com a seguinte ordem: «Irmão, plante essa roseira no jardim, mas plante-a de cabeça pra baixo, com a raiz pra cima». Quando a roseira murchou, o pater magister bateu à porta da cela de Gerardo e disse: «Irmão, hoje você está incumbido de regar as plantas do jardim». Gerardo abriu a janela, viu o temporal caindo e continuou mudo. Enfurecido, o pater magister gritou: «Frater, aqui não se discute ordem, nem se questiona». Gerardo caiu de joelhos, beijou o chão e foi regar o jardim debaixo de chuva. Tempos depois, num almoço dominical o pater magister disse: «Frater, o senhor é hebdomadário esta semana, então o senhor vai pronunciar errado três palavras em latim».


        Ora, para quem aos 13 anos já traduzia Homero e Píndaro, Virgílio e Horácio, Ovídio e Propércio, pronunciar palavras erradas seria uma humilhação diante da comunidade. Gerardo pensou um pouco e leu um texto que todos sabiam de cor: Bíblia sacra, de libro Genesis, caput quintum, continuatur... que foi pronunciado assim: de libro Genésis, caputim quintum continuatum. Nesse ponto o velho padre reitor estava à mesa e gritou: «Frater, frater, seis anos de latim e ainda não sabe pronunciar o nome de um livro da Sagrada Escritura». Gerardo ajoelhou-se, mas não beijou o chão, pois sua natureza já lhe cobrava uma atitude. Contudo, passou sete meses travando uma luta interior (sai, não sai) imaginando que estaria fechando as portas do céu para sua alma. No dia da saída, Gerardo procurou o padre reitor e confessou-lhe o seu arrependimento. O mestre olhou-o e disse: «Meu filho, você já foi provado por Deus longamente. Há meses que você está nessa agonia interior. Então vá e siga seu destino».

 

        Em 1935, poucos meses antes de proferir os votos de pobreza, castidade e obediência, Gerardo desvestiu o hábito e chegou ao Rio de Janeiro numa véspera de carnaval, ouvindo os rapazes, moças e transviados cantar: «Eva querida, quero ser o teu Adão». Seguramente, pensou consigo mesmo: «Nossa Senhora, vão todos para o inferno». Mas como a carne é fraca, durante o carnaval Gerardo foi maculado por todos os pecados mortais catalogados nas bulas, católica e bizantina. «Quem quiser que os imagine», disse ele rindo.

 

        Aos 23 anos. Gerardo firmou o Pacto del Vitória, sagrou-se cavaleiro da Senhora Poesia e ingressou na «Santa Hermandad de la Orquídea», ao lado de Efraim Tomás Bo, Godofredo Iommi, Juan Raul Young, Abdias Nascimento e Napoleão Lopes Filho. A guilda órfica deixou rastros nas terras e nas águas marítimas e fluviais de quatro continentes, empunhando a bandeira do saber e do fazer poético. Essa aventura mundana está documentada numa bitácula preciosa em que os membros da Santa Hermandad escreveram um memorando épico-lírico dos achamentos de chãos andados ou imaginados e deram testemunho escrito numa partitura poética intitulada "Amereida", preservada num livro raro do qual se tiraram apenas algumas dezenas de exemplares.


        Parece certo dizer que Gerardo e seu bando de jovens idealistas, todos desertores da vida prática, já compreendiam que a imposição tirânica do altruísmo (um comportamento imposto pela autoridade), significa a anulação da liberdade do pensamento e a violação da própria condição humana, pois nega ao homem o encontro consigo próprio, e o impede de cumprir, enfim, o seu destino incerto e desconhecido no mundo.


        Desde que se assumiu poeta, Gerardo ignorou olimpicamente a patrulha ideológica que elevou um bando de escrevinhadores à categoria de poetas nacionais e adotou um posicionamento de independência e rebeldia que se chocava radicalmente contra o [e]stablishment literário, político e acadêmico nacional, pois para ele, intelectual é antes de tudo uma postura crítica, solitária e coerente frente a uma circunstância; é saber tirar da escuridão o lume para que outros desvelem as máscaras do real. Sabia também que, para cumprir tal desiderato é preciso independência, coragem e tais atributos são condições do “eu” sozinho, porque um intelectual não é um grupo, portanto, não conta com o apoio do outro para enfrentar uma adversidade e, freqüentemente, não enfrentaria se a cada iniciativa tivesse que pedir o apoio do colega.


        Apesar das perseguições, das torturas e dos anos de clandestinidade e de exílio na China, França, Alemanha e Chile, Gerardo era um homem doce, sem amarguras, sem frustrações, e nutria-se da velha ambição cosmogônica de viver num mundo em que ao homem é possível o culto ao belo e à felicidade de ser e de existir com alguém ao seu lado, ou seja, de desfrutar de um sentimento compartilhado e livre de ódios e rancores.


        E aqui peço vênia ao vate para repeti-lo: «O ressentimento é a pior coisa a que o homem pode guardar dentro de si. Um homem consciente não permite que o ressentimento lhe possua, porque trata-se de um sentimento nocivo, sentido pela segunda vez, pela terceira vez, pela quarta vez, portanto não é um sentimento original, pois o ressentimento é ressentir, e isso leva o homem à pura esterilidade da razão, e impede que os sentimentos mais sublimes se manifestem em seu espírito».


        Senhor das línguas conhecidas e desconhecidas, das línguas antigas e esdrúxulas, Gerardo não falava explicitamente das suas influências literárias, mas não conseguia esconder a sua admiração por um rosário de poetas universais, entre os quais ele inclui o caboclo Anselmo Vieira, cantador da feira de Ipueiras, com sua rabeca rouca, sua voz gemedeira, cantando quadras e sextilhas de sete sílabas, mourões de oito pés em quadrão e galopes-à-beira-mar, em puros endecassílabos e metastasio. «Quando ouço um repentista nordestino puxando a gemedeira, ouço também, em cada verso, a batida dos pés de Homero, Virgílio e Ovídio, com seus hexâmetros e pentâmetros, com seus dáctilos, anapestos e troqueus ritmando a cantoria, pois é essa batida rítmica que dá espírito ao verso que o poeta gera com a inocência do tocador de viola e com a sabedoria intuitiva e mágica que exclui mesmo a intenção».

 

        Parece certo dizer que o fascínio pela santidade e a busca do êxtase poético, são os dois pólos entre os quais oscila o pêndulo da criação de Gerardo. Contudo, a língua de Gerardo é a língua de Ovídio, Virgílio, Cícero, Homero, Píndaro, Petrarca, Leopardi[,] Dante, Camões, Cervantes, poetas que guardam o ritmo interior dos versos em dáctilos virgilianos, hexâmetros, jônicos e trocaicos, mas a sua linguagem é a linguagem dos cantadores nordestinos que ele conheceu no pé-da-serra da Ibiapaba, e o ritmo predominante de sua poesia é o ritmo religioso do canto gregoriano que ele entoava na serenidade claustral da sua juventude.

 

        Trancafiado 18 vezes nos cárceres do Estado Novo, Gerardo sozinho era uma rebelião e suas obras mais demolidoras foram estruturadas ao longo de 5 anos e 10 meses em que esteve preso na Ilha Grande, Ilha das Flores e na rua Frei Caneca, no Rio de Janeiro, onde escreveu em verso e em prosa, romances, contos, ensaios e biografias tematizando o problema da irresidência do ser. Entre os livros mais importantes, destacam-se: O Cabo das Tormentas (1950); O Valete de Espadas (1960); a trilogia poética Os Peãs, composta pelos livros O País dos Mourões (1963), Peripécias de Gerardo (1972) e Rastro de Apolo (1977); A Invenção do Saber (1983); a epopéia Invenção do Mar (1997); Cânon e Fuga (1999); Os Olhos do Gato (2001) e O Bêbado de Deus (2001).

 

       
        Durante as filmagens, o poeta externou a sua indignação dizendo: «Nunca fui condenado à morte como insinuam os sacripantas da história e da má fé, pois não havia pena de morte no Brasil à época, nem mesmo no caso do decreto de 1942, que me condenou à prisão perpétua. Nunca houve processo judicial legal contra mim e o processo do infame Tribunal de Segurança Nacional nunca teve sequer autos judiciais, constando apenas de um inquérito do Dops. Nunca fui condenado por nenhuma lei brasileira, nem por qualquer tribunal legalmente constituído e nunca compareci diante de um juiz para ser julgado. Nem mesmo o infame Tribunal de Segurança ousou me acusar de conspirar contra o Brasil.

 

        A acusação de espião nazista e de haver colaborado para o afundamento de navios na costa brasileira, partiu dos meus adversários na imprensa, de David Nascer, da Revista O Cruzeiro, de quem me vinguei exemplarmente obrigando-o comer uma iguaria bizarra e imunda. Tenho um imenso e olímpico desdém por uns pobres bonifrates que me consideram um poeta importante e que tenho direito a uma revisão dos “erros” do passado. Não tenho erros políticos a corrigir. Portanto, não permito que ninguém mude uma vírgula do meu passado. Minha história pessoal é um patrimônio de que muito me orgulho».

 

        Desde muito se sabe que os navios brasileiros foram afundados por submarinos aliados para forçar o Brasil a entrar na 2ª Guerra, trocando borracha da Amazônia e vidas de milhares de nordestinos por uma siderúrgica no Sudeste. O caso em que Gerardo foi agredido nos mais elementares direitos humanos, é único em toda a história do Ocidente, pois não se conhece outro caso em que alguém tenha sido condenado “por decreto” com aplicação retroativa.

       
        Não temo errar se disser que Gerardo, o anticanônico, foi e é o mais erudito dos poetas brasileiros desde o achamento desta nação em 1500, e sua história se confunde com a História do Brasil ao longo do século XX, já que viveu o século inteiro, e atuou no enredo com a convicção de que não lhe cabia fazer história, mas sofrer a História. 



        Criador na mais alta acepção da palavra, Gerardo dizia que o tempo da criação é intemporal, tanto que podemos chamá-lo de poeta da "suidade" (da saudade), da coisa sua, da circunstância sua, uma vez que sua poesia, ao lado se sua prosa, formam a medula do seu espírito humanista, espírito que se fortaleceu sob o signo secular do trivium (saberes humanos) e do quatrivium (saberes exatos).



        Poucas semanas antes da morte, Gerardo confidenciou-me que estava afetado pela tristeza existencial do ser (ou seria ontológica?), e que se sentia como Léon Bloy, possuído por uma angústia medular e constante, até mesmo quando recitava o credo de Santo Atanásio e confirmava a sua convicção na vida eterna. Disse-me ainda que não levaria consigo nenhuma mágoa dos seus algozes, nem mesmo da escritora Rachel de Queiroz, que ora lhe acusava de “direitista” e “esquerdista”, de “nacionalista” e “entreguista”, de “nazista” e “fascista”, de “reacionário” e “conciliador”, de modo que isso deve bastar para que sua alma seja salva da maldição secular que emana dos sarcófagos acadêmicos e políticos do Brasil.

 

        Aprendi muito ao longo de quatorze anos de irmandade sincera com Gerardo, o inspirador de duas gerações de escritores. E quantas memórias cada um de nós, seus amigos, podemos reviver? Lembro-me bem do dia em ele regressou de sua Ipueiras e fomos juntos para um evento na Assembléia Legislativa do Ceará. Na tribuna, após haver falado das misérias que testemunhara durante sua viagem ao sertão do Ceará, Gerardo perguntou aos deputados se alguém ali poderia dizer para que serve um poeta num Estado pobre em Cultura, Educação e Saúde? Após um tempo de silêncio frustrante, eis que ele afia as palavras na sua língua de pedra e diz: «Neste mundo o que dura é o que foi fundado pelos poetas e não pelos especialistas, que são meros figurantes de uma tarefa ancilar. Não são protagonistas do saber nem da história.

 

        Nunca um especialista criou algo duradouro nem embasou uma nação». Ao ouvir isso, suspeitei que Gerardo utilizou o eufemismo “especialista” para não deixar os deputados que o aplaudiam de saia-justa. E prosseguiu: «A Grécia foi fundada pelo poeta, Homero, cego e gênio. O império romano foi inspirado pelo poeta Virgílio e por um escritor que se fez general, Caio Julio César. O mundo judaico foi fundado pelos poetas das profecias, Jeremias, Isaias, Ezequiel, Daniel e pelos Cantos do rei Davi. A civilização mulçumana foi fundada pelo poeta Maomé, seu senhor e soberano. A China e a Ásia Oriental foram fundadas pelo poeta Kung-Fu-Tze, que conhecemos por Confúcio. A Itália foi fundada por Dante, poeta absoluto. Churchill, animava suas tropas contra o fogo de Hitler, enviando aos soldados os versos de Shakespeare. Os soldados germânicos levavam na mochila os Cantos de Rilke e os hinos de Hölderlin.

       

        E o que seria de Portugal sem Camões e Pessoa? Da França sem Voltaire, Baudelaire, Lamartine e Hugo? E o Ceará sem seus poetas, renegados e esquecidos?» E finalizou dizendo: «Foi o Deus poético e dialético que engendrou o pensamento mítico, o tempo divino do homem, mas foi a verdade helênica que deu vigor à noção de liberdade e democracia, verdade luminosíssima que fundou o homem livre». Os aplausos não impediram o nosso poeta de dizer: «É para preencher o vazio do espírito humano que serve um poeta com sua poesia».

(Texto enviado por Tereza Mourão, extraído do “site”

http://www.amigosdolivro.com.br/lermais_materias.php?cd_materias=4398)

 

Costa Matos, o poeta ecumênico.


 
Francisco Hélder Catunda de Sabóia

Advogado

 

        “O mundo é um cavalo e o cabresto é o dinheiro”. Com esta oração o ficcionista Costa Matos inicia o romance intitulado o Rio Subterrâneo centrado na ambiência sócio-cultural da Ipueiras dos idos de 1950, início da década seguinte, onde o enfoque sociológico se volta para os conflitos que se desencadeavam ao longo das virulentas campanhas eleitorais, em que os chefes políticos da localidade disputavam a liderança do poder municipal. 

 

        Este intróito não traduz qualquer pretensão de querermos adentrar na crítica da produção literária do Costa Matos, recentemente falecido. Não, longe de nós qualquer intenção nesse sentido, pois, mesmo se o quiséssemos, faltar-nos-iam engenho e arte para tamanha empreitada. Na certa, algum dos seus pares, da honrada e vetusta Academia Cearense de Letras o farão com o devido brilhantismo.

 

        Mesmo nos eximindo deste ingente encargo,  não poderíamos deixar de ressaltar a grandeza cósmica de sua poesia. Foi telúrico quando, como filho amoroso, arpejou, nas cordas do coração, o amor à terra natal. Assim falou o poeta:

 

         “Aquele riozinho é o Jatobá gemendo sob a ponte. Os feitiços da cor no anseio do horizonte e a desintegração do céu em mil perfumes. O Cristo Redentor, minha casa, as colinas, o terço ao por do sol, mãos postas, pequeninas, e a névoa do Senhor abençoando os cumes”.

 

        E, saudoso da mãe terra distante, lamuriou-se:

 

        “Fevereiro atiçou fogueiras aurorais na combustão floral que acende ipês na serra. Como deve estar linda agora a minha terra, se andou chovendo assim, qual leio nos jornais. Um vôo de festa de andorinhas hibernais, sobre a igrejinha branca, em leque, se descerra. E, vencendo a distância, a minha saudade erra pelo torrão que guarda as cinzas de meus pais”.

 

        Versejou, pelos apaixonados, os amores inesquecíveis e, em Bilhete Azul:

 

         “Hoje, ao pegar nas cartas que me mandastes e, ao mandá-las de volta, eu me lembrei pois já não te ama o coração que amaste nem sei se ama o coração que amei....Se algum dia eu falar deste passado feliz que o tempo há muito devorou, não penses que para ti terei voltado e que a felicidade derrama seus dulçores por tudo aquilo que passou... Saudade, apenas, não te quero mais, adeus”.

 

        O “menestrel”, na sua condição humana, teve, como todos nós, momentos de incertezas e desalento quando disse:

 

         “Numa hora de cansaço e de descrença  rasquei sem pena todos os meus versos. Desajudado e só, frente aos fados adversos, a luta é vã, sem glória ou recompensa. Quando se esmaga um poeta a indiferença pesa bem mais que os gelos milenares das paisagens sem sol dos círculos polares”.

 

        Na teologia escatológica vislumbrou o final dos tempos e vaticinou:

 

         “Na agonia da Terra as truculentas massas profanam sem piedade as últimas carcaças da esperança e do amor, na assombração do escuro. E eu, mudo de terror, a minha angústia escondo, enquanto escuto, ao longe, pavoroso estrondo, destas horas sem Deus fecundando o futuro”.

 

        E, no plano individual,  disse o vate:

 

        “Morrer, voar, abraçar no espaço os gênios de outras eras e colher uma flor em cada estrela acessa. Ver de perto a criação de mundos”.

 

        Não esqueceu de agradecer ao Senhor o dom da vida e assim orou:

 

        “Não encontrei motivo, em toda minha vida, para amaldiçoar o meu caminho. O bem que eu quero ter, sem muita lida, cedo ou tarde se integra em meu carinho. Quis Deus Nosso Senhor minha alma rica da Grande Paz, de luz, do amor profundo que eu desejei, e agora multiplica prêmios, por tudo que eu sofri no mundo”.

 

        Muito e muito mais teríamos a reproduzir da poesia do Costa Matos, enfeixadas, dentre outras, nas obras: Pirilampos, As Viagens. O Sonho das Respostas, Estações de Sonetos.

 

        Naquela pequena estatura, à semelhança de Rui Barbosa, se abrigava um gigante que, mesmo aprisionado na corporeidade, se manifestava pujante, na força incontida de sua majestosa produção intelectual. Buscando a concisão ressaltamos o que, de mais belo à nossa sensibilidade, quer transmitir a riqueza multifária de sua manifestação poética. Falamos do literato que, aqui e alhures, conquistou vários prêmios. Do ser humano, ficam sua generosidade, a simplicidade, a alegria de viver, a lhaneza no trato e os ditos jocosos sobre as figuras folclóricas da velha Ipueiras.

 

        Em que pese sua erudição no campo da ontologia, não se rendeu à frieza da razão pura. Permaneceu, humilde, ante à incógnita do sobrenatural, fiel à sua fé inquebrantável em Deus, que a demonstrava, com convicção, nas filosóficas crônicas quinzenais no Diário do Nordeste.

 

        Ficam, também, o exemplo de vida em família, de pai amoroso, do eminente professor e, acima de tudo, permanece entre nós, amigos, conterrâneos e admiradores, a luz de sua radiante presença aqui na Terra. E os rastros dessa luz hão de perpassar o tempo porque a luminescência, que se irradia lá dos paramos celestiais, carrega a eterna sabedoria de um filósofo que viveu para fazer o bem, transmitido a todos que o circundavam a preciosidade de seus conhecimentos, em especial aos discípulos, de antanho, na Ipueiras querida, na Faculdade de Filosofia em Sobral e, os de agora, nos círculos universitários aqui sediados, pois mestre consagrado de filosofia, de literatura e da língua pátria.

 

         É a nossa sincera homenagem. Homenagem e gratidão de ex-aluno e amigo, conterrâneo e admirador.

                                                     

      

 

Tributo a Costa Matos

12:39 @ 14/03/2009

 

Costa Matos

 

 

 

 

            Meu caríssimo Prof. Costa Matos, existem notícias ou fatos que, se pudéssemos, postergávamos, deixávamos pra lá, como se diz popularmente. Assim ocorre quando somos informados de que alguém a quem prezamos muito, partiu, foi embora.

 

        Na maioria das vezes, essa partida se dá em silêncio, sem uma despedida formal. O senhor, sempre tinha algo a ensinar, a reanimar em nós, com seu exemplo, com seus conhecimentos. A morte é um mistério, professor. Não sei se o senhor percebe o que se passa desse outro lado da vida.

 

        Crentes que somos na vida eterna e num Deus que nos há de receber um dia, sei que Ele, de braços abertos, o acolheu e deu-lhe as boas-vindas no Paraíso, pelo bem que o senhor praticou aqui. Recordo, saudoso, nossas conversas. Lembro-me de seus telefonemas. De seu alento quando a caminhada se parecia tão difícil e o senhor, com sua voz serena, ensinou-me a ter paciência, talvez lembrando aquele adágio universal: tudo passa!

 

        Não consegui agradecer-lhe pelo seu tão belo artigo “As pedras do caminho...”, publicado neste jornal. O senhor deu-me qualidades que desconheço, mas suas palavras me aqueceram a alma, o que não é novidade, partindo do senhor. Fico-lhe grato.

 

        Professor, nossa Literatura ficou órfã de sua presença física, mas não de sua presença poética, de suas crônicas, de seus romances. Eles permanecerão e provarão que o aluno da dona Ester Mourão (mãe do querido Gerardo Mello Mourão) é verdadeiramente um imortal. A imortalidade literária consiste na permanência de suas obras literárias mesmo após a sua morte.

 

        Em dois anos a Ipueiras perdeu dois de seus mais ilustres filhos, pois, no próximo dia 9 de março, recordamos o segundo ano da partida de Gerardo Mello Mourão, maior poeta de sua geração que fez ao passar por Ipueiras, o imortal da ABL, Antonio Olinto, afirmar, Ipueiras: aqui nasceu a poesia!.

 

         Agora, parte o senhor, o poeta terno, o cronista sensível, o romancista habilidoso, o ser humano afetuoso, fraterno, irmão que deixará muita saudade entre os que o admirávamos. Abrace nossos amigos que aí estão e interceda a Deus por nós. Até um dia!


JOSÉ LUÍS LIRA

Advogado e professor

 

            Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=620518

 

 

 ***

 

 

        "...O cenário das histórias de Costa Matos são as pequenas cidades do interior, onde os acontecimentos, de natureza doméstica, política ou moral, assumem geralmente dimensões inesperadas. O padre, o juiz, o promotor público, o tabelião, os tipos populares que proliferam em todos os níveis da hierarquia social - toda essa fauna humana constitui a matéria-prima destas bem conformadas narrativas de Costa Matos, um escritor com absoluto domínio das possibilidades do   idioma, a que dá tratamento cuidadoso e irrepreensível.

 

        "Conto o que me contaram". Essa frase de Heródoto poderia servir de prólogo para este livro de Costa Matos. Presumivelmente, ele nos conta fatos que testemunhou ao longo de sua vida, ou que lhe foram relatados  por outras pessoas. Se é verdade que "a vida imita a arte", não é menos verdadeiro que a arte é também uma imitação da vida no plano metafórico. Seria irrelevante, portanto, indagar se os fatos arrolados nas histórias de Costa Matos são reais ou são fictícios. O que importa assinalar é que o sopro do ficcionista é suficientemente forte para dar corpo e alma a esses "bonecos de barro", contemporâneos dos primatas criados por Deus.

 

         Francisco Carvalho

 

(Na Trilha dos Matuiús -1998) 

 

***

 

 

Rio de Janeiro, 18 de julho de 1983

 

Costa Matos,

 

        gratíssimo pelos seus livros Na última curva da esperança (e O Sono das respostas. Logo me inteirei de sua poesia direta e sem rebuços. Digo isto porque ela é certeira do poeta ao que lê. Quando digo sem rebuços, não quero dizer que ela seja simples e sem mistério. Tem as duas qualidades e principalmente certa onda enigmática que está na sua origem.

 

        Que poesia bravia, revoltada, orgulhosa e tão sensível à nossa hora que passa - veja-se O homem e seus medos que destaquei porque muito me atingiu.

 

        O medo tem sido a minha constante, desde que me entendi por gente. Medo das coisas que você aponta como temerosas e hoje - medo do Brasil. Eu me sinto como se estivesse, pior que diante de um pelotão de fuzilamento - trancado numa masmorra escura junto com uma cobra cascavel. E sua poesia me diz que nossa única fuga é mesmo pela própria poesia.

 

        Um abraço e obrigado,

 

Seu, do coração,

 

Pedro Nava

 

  

                                                         ***

 

        Quando chega uma notícia dessas para mim, logo mentalizo o mapa das ruas e praças de Ipueiras. E, na rua em que morou o falecido, exatamente na casa de sua família, faço as minhas reminiscências.

 

        Foi o que fiz hoje no sobrado do Professor Costa Matos, localizado em parte alta da cidade, de aspecto destacado, pois em seu entorno a predominância de casinhas de taipa, da vila formada pelas famílias de operários da fábrica de algodão do Major Sebastião Matos.

 

         O sobrado que frequentei na minha infância, pois amigo de Lalu e Carlito. Na adolescência, quando a família já não residia em Ipueiras, o local ficava a disposição dos dois filhos para passarem as férias de julho e do final do ano. Nós, também de férias, nos juntávamos aos demais amigos da cidade e praticávamos o futebol no campinho que fazia parte da propriedade dos Matos. E aí, a utilização do espaço ficava intercalada entre sessões de leituras de revistas de esportes, de quadrinhos, de então proibidas revistas de sexo, de encontros para umas primeiras golpadas de bebidas nas ocasiões que antecediam a ida para as tertúlias em casas das namoradas ou no Grêmio.

 

        Já em Fortaleza, na casa da Avenida Bezerra de Menezes, depois daquelas saudáveis farras de sábado para domingo, terminávamos dormindo nas redes carinhosamente dispostas pela Dona Alderi, no quartinho dos fundos. Lá pelas 10, 11 horas chegava o Professor para conversar, saber como foi a noitada. Ouvia, contava umas daquelas estórias de causos e pessoas de Ipueiras e, depois, uma longa sessão de conselhos e orientações.

 

        Tive o privilégio de ser seu datilógrafo em trabalho literário, um conto que o Professor Costa Matos inscreveu para concurso literário no Paraná, que, por certo foi mais um vitorioso dentre inúmeros em que participou. Na sua atuação como dirigente da Receita Federal, aqui em Fortaleza, lembro de uma solidária manifestação que fez a minha família, na pessoa de um irmão que, caixa de Banco, tivera um grande prejuízo ao pagar a mais um valor de um cheque. A pessoa que recebeu o numerário não foi honesta e levou o dinheiro. Ocorreu falta de caixa. A solução encontrada foi promover uma rifa em que, com a arrecadação, seria coberto o prejuízo. Fui até a Receita Federal e, gentilmente, no seu gabinete, o Professor Costa Matos adquiriu cartelas que muito contribuíram para resolver aquele problema. 

 

        Guardo dele o carinho especial que tinha quando se encontrava comigo. Sempre com um sorriso aberto e com palavras para provocar sorrisos. E sempre se dirigia a mim chamando-me Pequeno Tadeu.

 

        Ao nosso grande Poeta, pequeno na estatura física, a lembrança de um conterrâneo que reconhece ser pequeno diante da grandiosidade de exemplos por ele deixados nestes 81 anos de vida terrena.

 

        Abraços do Francisco Tadeu Fontenele. 

 

 

  

***

 

 

TRÊS POETAS E UMA SAUDADE

 

Dia quatorze de março

Dia Nacional da poesia.

Presto minha homenagem

Com carinho neste dia,

A três bardos cearenses

Que nos deram alegria.

 

O céu está em festa

Vejam que constelação,

Com Patativa do Assaré,

E Gerardo Mello Mourão,

Juntos com Costa Matos

Versejando sobre o sertão.

 

Patativa muito encantou

Aquele que pode escutar

A cantiga da vaca estrela

Junto com o boi Fubá.

E com a “Triste Partida”,

Fez muita gente Chorar.

 

Nossa cultura popular

Deve muito a Patativa.

Sua alma de poeta

Era de sua terra cativa.

Mesmo com sua partida

Sua história é bem viva.

 

Cantou as amarguras

De um povo sofredor.

Cantou a beleza da rosa,

Cantou alegria e a dor.

Cantou a vida sofrida

Do pobre agricultor.

 

Costa Matos meu poeta,

Poeta de minha infância,

Seus poemas que eu li

Quando ainda era criança,

Num livro emprestado,

Ainda trago na lembrança.

 

Mais tarde eu recebi

Vindo de suas mãos,

Livros a mim ofertados,

E foi grande a emoção.

Pra ele fiz um poema,

Demonstrando gratidão.

O poeta fez de Ipueiras,

Um poema de amor.

Cantou a beleza da serra,

Cantou os ipês em flor,

Cantou os pirilampos,

Com borboletas brincou.

 

Poeta segue tua trilha,

Pois brilharás no além.

Aqui ficou a saudade,

Dos que lhe querem bem.

Nas alturas sei que os anjos,

Certamente dirão, amém.

 

Meu muito querido amigo,

Gerardo Mello Mourão,

Dele fui muito próxima

Segurei em sua mão

Cada palavra que ele dizia

Eu ouvia como oração.

 

Ainda hoje não esqueço

Minhas visitas ao seu lar.

Era ele quem mais falava,

E eu gostava de escutar.

E sua sala de visita

Chegava a me encantar.

 

Por mim ele foi recebido

Num evento cultural

Na cidade de Ipueiras,

Em nossa terra natal.

Sua alegria era tanta,

E a minha sem igual.

 

Tenho parte de seus livros,

Que ele mesmo me deu.

Adoro “Rastro de Apolo”,

E “O Bêbado de Deus”.

O livro “Invenção do Mar”

Perde quem nunca leu.

 

Gerardo se foi há dois anos,

Costa Matos partiu agora.

Março não foi camarada,

A saudade eu sei é grande,

Mas na história ficará

Os feitos destes poetas,

Que gostavam de versejar,

E espalharam pelo mundo,

Um canto bem singular.

 

 

 

Dalinha  Catunda

 

 

 

 

 

               O Desrespeito aos Monumentos

                                                                                    

 

                 Fim de Carnaval, passo rápido na Av. Heráclito Graça e me decepciono com o que vejo, na Praça da Medianeira, próximo ao estádio coberto Paulo Sarasate, praça que homenageia uma de nossas bravas heroínas e o que vejo. Numa das mãos da estátua uma garrafa de cachaça, cuja marca prefiro ocultar.

 

                Para o turista desconhecedor a estátua de fato parece estar virando e sorvendo com gosto a aguardente, e assim levam em fotos e lembranças aquela imagem que nada mais é que um sórdida pilhéria a mais um monumento que apesar de pouco respeitado nos lembra um símbolo e exemplo de bravura do passado.     

          

                Já faz algum tempo que a estátua de Iracema na praia ao invés da lança recebeu uma vassoura de piaçaba. Fato mais gritante logo corrigido.

 

               Triste portanto constatar o pouco respeito aos nossos monumentos hoje em dia.

 

               Em relação à estátua de Bárbara de Alencar que se fizesse ao menos um monumento mais humanizado, dando-lhe um rosto idealizado e finalmente ocupando sua mão com alguma coisa, uma bandeira, um símbolo, um pano tudo óbvio de cimento.

              Lembro ainda a estátua principal da Praça dos Leões, que já teve por três vezes a cabeça da serpente serrada e levada, a atual que lá se encontra é a quarta, e para finalizar cito o Passeio Público, fonte de roubos constantes das ainda belas esculturas restantes.

 

              É necessário que não só o setor público como também a população se sensibilize e lute pelo respeito e preservação de nossos monumentos que não pertencem só a cidade, são marcas de nossa história e portanto fazem parte de nosso patrimônio coletivo.

 

                                                                                                                                                                     Bérgson Frota      

 

 

                                                                                                                  ( Foto :  Foto dos arquivos do Diário do Nordeste )

 

                                                                                                                                       Publicado no O Povo em 07.03.2009

 

 

                                                         

 

Imagens do passado

 

Marcondes Rosa de Sousa
O Povo - 02 Fev 2009


                A escola, em todos os seus níveis – da alfabetização à superior – em mim, deixou duas indeléveis marcas: a) o zelo de seus mestres; b) o espírito gregário entre os alunos (o sentimento de turma). Esse, o olhar retrospectivo, que ora faço: desde a alfabetização – a caligrafia e as estórias-de-Trancoso da recém-falecida Isa Catunda e a palmatória de Dona Ester (mãe de Gerardo Melo Mourão), em Ipueiras, a nos espreitar, até as chamadas, na UFC, dos alunos todos (direito e letras) da turma de a a z.



        Mais fortes até, nos internatos. Em meu caso, nos seminários em Petrópolis (RJ) e em Campinas (SP), cujos ex-alunos hoje buscam o reencontro. Pela Web, os de Campinas estranharam minha passagem por lá. Só aí soube eu da extinção do seminário. E os alimentei com fotos, a ajudar no reencontro de alunos, alguns hoje astros espalhados pelos mundos acadêmico, político e intelectual urbs et orbis.



        De outra feita, pela Web, fui abordado por ex-aluna a procurar ex-professor seu, que a marcara em escola da Baixada Fluminense. Era, sem dúvida, um ex-colega meu em Petrópolis e Campinas. As marcas eram as acima citadas... E deste colega, Sebastião Mataruna Cardin, acabo de receber DVD sob o título Imagens do Passado, onde as marcas aqui citadas em tudo se ressaltam.

 

        Abro os jornais e, neles, vejo figuras como Ernani Barreira, contemporâneo dos tempos da UFC, e hoje a presidir o Tribunal de Justiça do Ceará, a carregar, como os da época, as marcas deixadas no passado.


        O DVD Imagens do Passado me traz de volta toda a formação escolar. E, nela, as duas marcas – o zelo dos mestres e o espírito gregário das turmas. E fico a pensar nas reformas propostas por nós, hoje talvez esquecidos de olhar, num espelho, feitos madrasta de Branca de Neve, para a educação que nós próprios tivemos... 

           MARCONDES ROSA DE SOUSA,

         Professor da UFC e da Uece

 

         (Foto extraída de entrevista com Marcondes Rosa, na série "Crônicas do Ceará", pela TV Ceará, para ilustrar, em visual metonìmia, a mudança deste, ainda infante,  para Ipueiras, terra de Gerardo Melo Mourão, filho de Dona Ester, sua professora)

 

 

 

 

 

 

O Pioneiro Pinto Martins

 

 


             Na tentativa de provar a viabilidade da rota aérea ligando as Américas (norte e sul), o cearense Euclides Pinto Martins e o piloto americano Walter Hilton, iniciaram em 4 de setembro de 1922 saindo da Flórida, o primeiro vôo dos EUA para o Brasil, na façanha que seria conhecida como rota Nova York-Rio de Janeiro, pois a primeira tentativa sem êxito havia saído do rio Hudson, no mês de agosto do mesmo ano.  

              Os pioneiros pilotando o hidroavião biplano, de 28 metros de envergadura e dois motores "liberty" de 400 hp, cada. Acompanhados por um jornalista e um cinegrafista, decolaram uma máquina de oito mil quilos, criado na pioneira Fábrica Curtiss.

  

 

 

              O Sampaio Corrêa II, nome dado ao avião, para homenagear o senador e presidente do aeroclube do Rio de Janeiro, atravessou a América Central e em primeiro de dezembro pousou no rio Canani, no Pará, ao norte da foz do rio Amazonas, dirigindo-se para a Ilha de Maracá, Belém e Bragança aonde por força de um temporal pousou no rio Caeté.

 

                        

 

                Três dias depois decolou de Bragança para São Luís do Maranhão. Em 19 de dezembro amerissou em Camocim, terra natal de Pinto Martins. O grande aviador foi muito homenageado, mas seguindo viagem para completar a missão decolou em direção a Aracati.Chegando a Fortaleza o Sampaio Corrêa II por dificuldade de amerissagem nas agitadas águas da enseada do Mucuripe, sobrevoou a cidade por alguns minutos e seguiu de volta a Aracati, onde pernoitou e partiu no dia seguinte para Natal.

                Mal viajando 50 milhas o motor começou a apresentar problemas o que levou ainda em terras potiguares um pouso não planejado na Baía Formosa, perto de Canguaretama, chegando em Recife, sofreu consertos e recebeu um novo motor.

                No dia oito de fevereiro de 1923, precisamente às 11h32min, o Sampaio Corrêa II foi avistado sobrevoando a Baía de Guanabara. Ao pousar foram recebidos na lancha Independência do Ministério da Marinha.

                 Pinto Martins aos 31 anos entrava para a história dos pioneiros da aviação brasileira.

                 Em 13 de maio de 1952 o Aeroporto de Fortaleza recebia o seu nome, eternizando, numa justa homenagem, o cearense que levou longe o nome de seu País.

                                                                         Bérgson Frota


           Publicado originalmente no jornal O Povo 28.05.2006
                  Fotos (www.memorialpernambuco.com.br)

 

O CARNAVAL DE iPUEIRAS

 

 

                                   

Bloco Abababados – 1989


            Ipueiras sempre se destacou entre as cidades da zona norte do Estado, ao pé da Ibiapaba, como uma cidade carnavalesca desde as décadas de 30 e 40 do século passado, e manteve esta tradição fortalecendo-se a medida que a cidade crescia chegando ao seu apogeu no século XX precisamente na década de 80.


            Foram nos anos oitenta que se viu surgir pela primeira vez na sede do município blocos. Fenômeno que repetiu-se em diversos anos seguidos sempre no carnaval, criando uma rivalidade sadia e competindo animadamente entre si.


            Entre os mais destacados estavam : Mama na Égua, Tosse Braba, Olha nós Aí, Abababados e o Sisigura.

 

 


Bloco Sisigura - 1997


               Os cinco blocos citados já não mais existem, mas deixaram uma grata lembrança dos últimos carnavais do século passado em Ipueiras. Sendo que alguns dos que deles fizeram parte já se foram, e outros já não moram mais no município.

               Competiam todos juntos em desfiles pelas ruas e à noite no clube da cidade.

               O bloco Mama na Égua tinha como principal destaque o porta-bandeira já falecido Moacir Fontenele, figura que para os ipueirenses era a alma do carnaval da cidade, fazendo parte dele outro grande carnavalesco de muito valor José Gerardo, o Dadá.

                As vestimentas eram de seda com cores diversas e bem desenhadas. Cada bloco tinha seus trajes típicos e concorriam no clube da cidade pelo troféu de bloco vencedor.

                Com o passar dos tempos os blocos deram lugar ao carnaval de pequenos grupos e é este o que prevalece atualmente na cidade tendo como característica o rápido deslocamento que fazem de uma festa para outra. Já que o carnaval em Ipueiras não se realiza mais em um só salão.

                Outra característica inovadora é que muitos ipueirenses se deslocam para o carnaval de cidades vizinhas não se restringindo somente ao do município.


                O tempo passou mas o carnaval de Ipueiras continua sendo uma festa para seus habitantes, antes só restrito aos clubes e à cidade, agora não só na cidade mas levando grupos que animam e enriquecem o carnaval das cidades irmãs.



             Publicado no jornal O Povo em 26.02.2006

                                                                                                          Bérgson Frota

 

         (As duas fotos dos respectivos blocos fazem parte do acervo do blog ”Primeira Coluna” de Carlos Moreira.)

 

 

                                                                    

Igreja Matriz

(do alto do Cristo)

                                                                                    

Minha Canção do Exílio

 

Dalinha Catunda


Minha terra é Ipueiras,
Onde corre o Jatobá.
Fica ao pé da Ibiapaba,
Ao norte do Ceará.


Nossa gente tem histórias,
Gostosas de se escutar.
Não permita Deus que acabem,
Com as tradições do lugar.

Lendas de bala e botijas,
Ouvi os antigos contar.
História de Iara, mãe-d’água,
Feliz ainda hei de escutar.

Minha terra tem palmeiras,
Das lendas de Alencar.
É a nossa carnaubeira,
carnaíba, carandá.
No farfalhar do seu leque,
Ouvi o vento cantar.

Tomara Deus que eu não fique,
Ausente sempre de lá.
Ao sopro de um Aracati,
Desejo me refrescar.
E ouvir cantar a graúna,
Ao invés de um sabiá.

 

 

 

          “Continuando nossa homenagem aos nomes que divulgam com brilho Ipueiras, aponto esta poesia de Dalinha Catunda como um hino de amor à terra que cedo deixou, mas  em que lá deixou preso  seu coração.” (Bérgson Frota)

 

 

Centenário

do açude Cedro

 

Bergson Frota


         Há exatamente 100 anos era inaugurado o açude Cedro, obra prima da engenharia brasileira do final do século XIX. Este colossal açude retrata as esperanças do governo central na época para minimizar o sofrimento do nordestino, em especial o cearense que muito havia sofrido na grande seca de 1877 e que durou até 1879, custando ao Ceará, segundo o historiador Barão de Studart, 119 mil mortos e expatriados 5.500, bem como o desaparecimento total da indústria criadora.


          A obra foi encomendada pelo imperador Pedro II, monarca sensível ao sofrimento de seu povo e que conforme a lenda histórica, ao ouvir os relatos de vários retirantes teria dito que venderia “até o último brilhante da coroa” para que nunca mais os cearenses morressem de inanição.


          Enviou ao Nordeste uma missão científica, especialmente ao Ceará, para estudar a questão da seca. Dela participaram os maiores expoentes da engenharia brasileira na época como o professor Raja Gabaglia, o Barão de Capanema e outros grandes nomes.


          Determinada a construção do açude, escolheu-se a região semi-árida de Quixadá.

 

          As obras da barragem foram iniciadas em 1881 (ou 1888, segundo outras fontes), foi quando começou o levantamento da monumental parede de pedra, engenho de arte e beleza, que veio em 1977 a ser tombada pelo Patrimônio Nacional.


          A obra prosseguiu por quase 25 anos, e depois da abolição da escravatura teve como força o braço livre dos agricultores da região.


          A conclusão do grande açude se deu já na República, em fevereiro de 1906, no governo de Afonso Pena.


          O Cedro foi o primeiro açude público do Nordeste, símbolo maior da luta do nordestino pela sobrevivência contra as adversidades da seca.  Possui um reservatório com a capacidade para 125.694.200 metros cúbicos, com uma profundidade máxima de 16 metros e uma bacia hidrográfica de 120 km quadrados.


          Da parede do açude, feita artesanalmente de pedra, vê-se a bela formação rochosa que é o símbolo da cidade de Quixadá: a pedra da Galinha Choca.


          A construção do Cedro foi um grande desafio, não só pelas difíceis condições da região na época, mas também a prova de que o nordestino não se acomoda perante a maior das adversidades que tem enfrentado: a seca.


          Ao finalizar, fica a frase concisa mas grandiosa que melhor define o grande açude dita pelo biólogo paranaense Fábio Angeoletto: “Pergaminho pétreo que nos conta a história evolutiva de um animal cujas armas não são garras ou mandíbulas poderosas, mas a capacidade de criar e disseminar cultura”.

 

                 (Publicado no jornal O POVO em 19.03.2006)

 

 

 

 

Um ano mais feliz

 

               

                   Ano Novo, vida nova.

 

                  Que os sonhos possam ter vez na vida de cada ser e nelas se concretizem.

 

                 Que todas as coisas tristes que passaram sejam esquecidas e transformadas em experiências positivas, que o novo amanhã renove cada projeto e que cada oportunidade dada sempre pela vida seja alcançada e vivida.

 

                 Sim, neste período tão especial normalmente paramos para pensar em nossas vidas, os acertos e desacertos do ano anterior e as expectativas, esperanças e sonhos a concretizar neste novo tempo que iniciamos.

 

                 Somos levados a planejar mudanças, imaginamos viver situações diferentes das que já tivemos, mas, mais do que nunca, sonhamos, medimos e arquitetamos nossos projetos a serem concretizados.

 

                 No entanto a vida, o ano novo, nos pedem ousadia, determinação e atitude para que as mudanças ocorram, para concretizarmos o desejado.

 

                Recomecemos então neste espírito de esperança.

 

              Pensar positivo no que desejamos já é um bom começo, esqueçamos o que não foi possível e renovemos os nossos votos com perseverança, alegria e renovada esperança.

 

              Dedico este pequeno mas rico texto, a todos sem exceção, com um intento mais global é “dedicado a um ano novo mais feliz” para toda a humanidade.

 

             Feliz Ano Novo repleto de saúde, paz e realizações.

 

             Bérgson Frota

 

 

                                   (Foto : www. yunphoto.net)

                         (Publicado no O Povo em 27.12.2008)

 

 

Retornos do Natal

José Costa Matos
23 Dez 2008

                Ora, Papai Noel, muita coisa já vai distante. Mas menino é bicho danado para guardar lembranças. Menino e poeta. Cada coisa... A bunda de tanajura comida na rua, contra amidalites. Os desafios da viola de Véi Zuca-do-Oi-Só. A namorada que eu chamava Livrinho de Deus, porque a gente acreditava: a mão de Deus escrevia nela os seus poemas.

 

            Mas o primeiro presente de Natal que lhe pedi no mundo, Papai Noel, foi um cavalo-de-pau que não me inferiorizasse diante dos moleques de minha aldeia. Eles desciam, como vândalos, do Morro do Papoco e invadiam a Rua de Cima. Um cavalo-de-pau daqueles que só Neném Sapateiro sabia fazer, com uma estrela de pregos dourados na testa, uma orelha desconfiada espetando o futuro e outra velhacamente caída para trás...

 

            Eu era tão pequeno que não me lembro se você me deu o cavalo-de-pau das minhas rezas de menino. Por isso, estou aqui, dentro da noite do Filho de Deus, olhos arregalados na treva, rodeado de sinos cantadores, pedindo, outra vez, o cavalo-de-pau da minha infância.

 

            Naturalmente, Papai Noel, os anos que se foram me deram muitas coisas, levaram muitas coisas de mim, fincaram algumas cruzes no caminho, para marcar os lugares onde a terra teima em silenciar as lembranças dos nossos mortos. Muitas mãos deixaram adeuses inexplicáveis nas minhas mãos. Muitas vezes abri a boca para dizer uma palavra boa, mas não tive santidade nem poesia para gerar essa palavra de salvação do meu próximo.

 

            Trago, hoje, nos olhos, as paisagens de muitas almas e de muitos lugares. Escutei as angústias e as aspirações dos homens nas línguas mais estranhas. Queimei meus passos na travessia do braseiro de várias guerras. Em alguns momentos, a vida me acovardou e eu tive, como Pedro, que negar o meu Mestre diante da criada de Caifás, antes da cantada do galo. Amontoei pedras, tracei a argamassa, mas muitas das minhas construções viraram Babéis, inconclusas, na desolação da Planície de Senaar. Tive algumas experiências da profecia e salvei gentes e animais dos dilúvios que ainda iam acontecer. Meus pés estiveram nos pés de Neil Armstrong, no primeiro dia em que um de nós pisou na lua.


            Ora, Papai Noel, essas vivências todas devem deixar marcas profundas na alma da gente. É por isso que já não sou a mesma criança que desejava um cavalo-de-pau, igualzinho aos brinquedos dos moleques do Morro do Papoco. Igualzinho, agora? Como? Neném Sapateiro está no céu e não vai descer para fabricar um cavalo-de-pau com uma estrela de pregos dourados na testa, uma orelha desconfiada espetando o futuro e a outra velhacamente caída para trás... mas, se a memória não me engana, você me deve ainda o meu cavalo-de-pau. E que ele se chame Esperança. Com ele, eu sei que a amargura não terá velocidade para me alcançar nem forças para me transformar num dos seus apóstolos. Talvez até eu chegue a ser bom. Talvez até eu chegue a ser útil aos irmãos que vão amontoando motivos para maldizer a vida.


            E assim, Papai Noel, você me ajudará a viajar com mais beleza pelos caminhos do tempo do meu Deus. Eu quero que você me dê o cavalo-de-pau da minha meninice.


            José Costa Matos - Da academia Cearense de Letras e Associação Brasileira de Bibliófilos
acletras@accvia.com.br

 

 

Berço do Nazareno

Marcondes Rosa de Sousa
O Povo - 22 Dez 2008


        Na TV e jornais, mercado e política em aguda crise. Nos shoppings, spot lights sobre pródigo Papai Noel. Na Praça do Ferreira, em contraponto, outro cenário: arte, cultura e criatividade de nossa gente, nas noites, em Fortaleza.

 

        Com amigos, acorro para este cenário. Luzes sobre tombado hotel. Em suas janelas, crianças e artistas, nos diversos andares, a nos envolver em antológicas canções natalinas. Muitos ali, os que compartilhávamos desse clima envolvente. No vácuo do outrora Abrigo Central, palco a teatralizar cenas sobre o natal. Crianças, seus pais e avós, irmanados nos aplausos. Os bancos, a me evocar os noturnos papos dos tempos estudantis. E o outrora soberbo Cine São Luiz a suscitar história em que nos tornamos partícipes dos festivais do cinema nacional e da realização do internacional FestRio, que para cá trouxemos, nos anos 80.

 

        De volta, o folclórico Bode Ioiô, hoje no Museu Histórico, parceiro nos papos entre intelectuais e boêmios. E a cena do Ceará Moleque, a vaiar o retardado e preguiçoso sol, aqui onde o sol sempre nasce mais cedo... Discreto, na recuperada Coluna da Hora, um presépio: Jesus menino cercado por pastores, animais, anjos, reis magos...

 

        Já de volta e em casa, martela-me a cabeça o Soneto de Natal, de Machado de Assis. E dele faço postal, enviado por e-mail aos amigos, falando de “noite amiga” (...) “berço do Nazareno”, atropelado pelo “metro adverso”, ultimado na indagação “Mudaria o Natal ou mudei eu?”

 

        Retorno à infância, em Ipueiras, onde os criativos presépios de Raul Catunda nos levavam ao “berço do Nazareno”. Nisso, chegam-me, na contramão desse clima, protestos de professor da UECe contra nossa política, “remanescente da elite trazida por dom João VI” (...) “E aí você me vem com papo de nazareno... Me poupe!”
Razões ao professor?

 


        MARCONDES ROSA DE SOUSA

        Professor da UFC e da Uece



 

Sugestão patriótica

 

Helder Sabóia

 

 

 

             A propósito da propalada reforma política, veio-nos à lembrança brilhante artigo do Dr.Luis Cruz Vasconcelos, ex-lente da Faculdade de Direito da UFC, publicado, já há algum tempo na mídia local, onde o articulista, no contexto de suas reflexões sobre as incertezas em que vivemos ante as  flagrantes desigualdades sociais, decorrentes das nossas arcaicas estruturas sócio-econômicas, entende, como forma de corrigir essas distorções, que  “..uma das primeiras reformas a ser feita deveria recair sobre o atual Congresso Nacional, que devia adotar o sistema cameral único, com apenas uma Câmara de Deputados, na qual teriam assento um número limitado de representantes do povo.

 

            O número de deputados não poderia exceder a 50 e quanto à representação dos Estados e Territórios, um deputado, por Estado e Território. O mandato seria gratuito, recebendo,cada um, apenas o necessário para o transporte e o custeio das despesas de estadia, quando em exercício” A economia resultante dessa mudança, ressalta,  “.passaria a constituir um fundo especial destinado a medidas de caráter social, em benefício da pobreza.”, finaliza, perguntando: “Estarei sonhando?”.

 

            Ao concordarmos, in tótum, com o pensamento do mestre, respondemos, à época, ao seu auspicioso devaneio, escrevendo: “Admitindo que o sonho de V.Sa. se transmude, um dia, em realidade, todos nós, cidadãos brasileiros, estaríamos de parabéns, pois os representantes do povo, nos parlamentos da Nação, lá estariam, movidos, tão só e unicamente, por idealismo o que lhes daria inconteste legitimidade para exercer, à plenitude, o múnus público a eles conferido pelos eleitores”.

 

            Voltamos ao assunto, desta feita, à vista do artigo do conterrâneo Renato Bonfim Medeiros, intitulado, “Ainda tem jeito”, publicado no jornal  O POVO, de 11.07.07, onde sugere, em linhas gerais, elaborar nova Constituição em cujo texto contivessem cláusulas restringindo as regalias dos parlamentares, além de outras limitações no âmbito da legislação eleitoral. Propõe, paralelamente, a redução da maioridade penal, daí derivando para alterações na área recursal do processo civil, buscando maior eficiência no âmbito da prestação jurisdicional, tudo visando combater a corrupção e a ineficiência da atuação do Estado com vistas à promoção do desejado desenvolvimento sócio-econômico da Nação Brasileira.

 

            Louvável a preocupação do amigo. Embora não sejamos especialista na matéria, entendemos, salvo melhor juízo, que as pretensões externadas poderiam ser materializadas por leis ordinárias ou por leis complementares à Constituição cuja iniciativa cabe, também, aos cidadãos na forma prevista no Art.61 da Carta Magna. Alguns constitucionalistas defendem a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte exclusiva para moldar um novo sistema político.

 

            Não temos qualquer pretensão de polemizar sobre a melhor técnica legislativa para viabilizar tais sugestões, mas, sim, buscar vias alternativas para tornar mais célere sua implementação. Alia-se a esse pensamento a grande imprensa brasileira, valendo destacar, a título de ilustração, o que escreveu Roberto Pompeu de Toledo, ensaísta da revista Veja, quando, na edição de 04.07.07, comentando sobre os últimos acontecimentos envolvendo o presidente do Senado, sentencia, finalizando o texto,  que lhe cumpria “o doloroso dever de informar que o Congresso Nacional faliu”.

 

            Parabéns, Renato. Continuemos nessa luta para o “bem de todos e felicidade geral da Nação”, exclamação ufanista de D. Pedro I, aqui invocada para reforçar a amplitude nacionalista de suas idéias.

 

 

        

        

         Amigos de Ipueiras,

 

        Em primeiro lugar eu pediria ao nosso coordenador Braga, sabendo da estima que ele tem por nosso amigo Tadeu, que abrisse um espaço para seu Zeca Bento, no "Site". Seu Zeca é um legitimo representante de nossa cidade e certamente deixará o site mais nobre.

 

        O nosso Zeca Bento, 1º Tabelião – Escrivão, Oficial de Registro Civil de Nascimento, Casamento e Óbito de IPUEIRAS, se vivo estivesse, faria agora no dia 17 de setembro 100 anos do seu nascimento. Em 19 de novembro próximo são completados 20 anos de sua morte. Sabendo da figura importante que foi seu Zeca para nossa Ipueiras, repasso aos Ipueirenses que gostam de prestigiar nossa terra, um pequeno histórico deste homem que  tanto amou e se dedicou a sua cidade.

       

        Meu abraço a todos,

        Dalinha Aragão

 

 

ZECA BENTO,

BOM EXEMPLO

A SEUS HERDEIROS

 

        A Terra, parte do Universo em que seus habitantes vivem suas existências através de expiação e de provas, recebeu há 100 anos um habitante para morar que, enquanto aqui viveu, foi conhecido por Zeca Bento.  Ipueiras foi a cidade que o acolheu, tendo nela vivido desde o nascimento, em 17 de setembro de 1905 até 19 de novembro de 1985, quando desencarnou.  Filho caçula do casal Coronel José Bento de Oliveira Fontenele e de Inocência Catunda Fontenele, teve como irmãos: Raimundo Catunda Fontenele, Raul Catunda Fontenele, Hugo Catunda Fontenele, Dario Catunda Fontenele e Mileto Catunda Fontenele – tendo todos constituído família em Ipueiras, alargando assim a descendência da família que casou-se em dezembro de 1936 com a professora Ineizita Ribeiro Bessa, hoje vivem 12 filhos, 26 netos e 13 bisnetos.

 

   Zeca Bento foi Tabelião, Escrivão e Oficial do Registro Civil de Ipueiras.  Identificou-se muito bem com os conterrâneos pela maneira simples e descontraída como levou sua vida, ora no convívio do lar com D. Ineizita e os 12 filhos, ora no Cartório Bento Filho, que era um local de encontro dos ipueirenses onde se sabia do que estava acontecendo na cidade e no mundo, pois ali era lida, semanalmente, a revista O Cruzeiro ou nos dias que o trem vinha de Fortaleza chegavam os jornais da Capital.  Naquela descontração também se falava da “vida alheia” ao ponto de o local (o cartório) ficar sempre com bastante gente, pois as pessoas ficavam receosas de sair para não ser alvo das línguas ferinas dos que ficavam.

 

    

                Zeca Bento também era homem de preces.  Rezava breves orações ao acordar, antes das refeições e, à noitinha, puxava o terço com toda a família, além de, no final da tarde, quando do retorno do trabalho, uma passadinha na igreja para participar da bênção das 6 horas – a missa do ângelus.  O costume da prece se estendeu bem aos seus herdeiros, apoiados nos ensinamentos cristãos do “pedi e obtereis, buscai e achareis”.

 

        E foi assim, nesta sua passagem na Terra, que Zeca Bento deixou bons exemplos para seus herdeiros, que já se constituem na 3ª geração, manifestação também enfatizada pelo amor que dedicou a Ipueiras e que, pela estima que teve de todos os seus diletos conterrâneos, só deu motivo para que seus familiares dediquem e continuem amando esta querida cidade.

 

 

 

Uva a plantar

vinhedos entre nós

 

Marcondes Rosa de Sousa

15. Out 2006

 

Recordo. Fevereiro de 1996. No Fórum da Modernidade, as universidades cearenses e o Conselho de Educação do Ceará discutiam, com os protagonistas de nossa sociedade e a professora Eunice Durham, “a responsabilidade das universidades para com o desenvolvimento sustentável”.  E o sentimento não era outro. O desenvolvimento haveria que sustentar-se na “inclusão social”, que haveria de ter, por via segura e expressa, uma continuada educação. E o primeiro passo, no Ceará, seria, seguindo o lema “uma escola é o que são seus professores”, capacitar seus docentes.

 

Nesse afã, as universidades cearenses se deram as mãos, passando por cima dos minifundiários tratados-de-Tordesilhas, numa autêntica “operação de guerra”, o que as fez esquecer até seus medievais limites de “sede”.  Nesse afã, a Universidade Vale do Acaraú (a UVA) foi transpondo inicial vale, a plantar seu vinhedo, para além do Acaraú, por todo o Estado, e em regiões outras do País e no exterior até.

 

                   Foi nessa “operação de guerra” que ela chegou ao “vale do Jatobá”, em Ipueiras, a terra das “águas retiradas”. Isso, em julho de 1997. De lá para cá, deu grau a 453 concludentes de cursos de graduação (a maioria professor), plantou pós-graduação lato sensu e hoje abriga, em suas classes, 386 alunos.

 

                   Agora, como todas as instituições de ensino do Ceará (as de iniciativa social, inclusive), sob provocação da Secretaria de Ciência e Tecnologia, repensa-se ela em tons de uma política de educação superior, discutindo com os “protagonistas dos atores sociais”, ação mais larga e durável, em clima de “rede” e de “teia”.  O Ceará se redesenha em regiões (pela ação do Instituto de Pesquisa do Ceará – IPECE), irmanadas em suas potencialidades e necessidades com vistas ao sonhado “desenvolvimento sustentável”, a ter por escopo a “inclusão social”.  Sob essa ótica, Ipueiras é o chão das “águas retiradas”,  por onde correm as episódicas águas do Jatobá. É o semi-árido das macambiras. Mas é também o úmido das serras (no caso, a Ibiapaba), com largo potencial econômico, cultural e turístico. E, sobretudo, o celeiro da cultura, do capital humano enfim. E é função da universidade, com seu ensino, sua pesquisa e extensão, redesenhar o real e o imaginário de uma caminhada conjunta.

 

       Dentro desse espírito, já programado em gradual “Conferência Estadual de Educação Superior”, a UVA procura parceiros, entre os “atores sociais”. E, em Ipueiras, celebra convênio com o Instituto Frota Neto, numa ação em conjunto no campo da educação e da cultura. Com isso, de alguma forma, volta-se ela, com mais acuidade, a seu chão, em seu entorno “mais perto”: o do “vale do Acaraú”, espraiado ao de seus afluentes, onde se situa o Jatobá. Em Ipueiras, os “atores sociais” se reúnem, é a esperança, num verdadeiro “pacto social” de Rousseau, a educação a divisar necessidades, caminhos e sonhos. A Uva projeta braços atuantes em seu ensino, sua pesquisa e sua extensão. Seu reitor, José Teodoro Soares, tem essa visão. E, no caso da extensão, por muitos anos, tem a experiência, no País, do Projeto Rondon, a ação mais atuante em "responsabilidade social" de nossa extensão.

Filho adotivo, desde infante, de Ipueiras, alegro-me com esse pacto. Do morro mais alto da Cidade, vejo o Cristo da Caatinga a contemplar nossos campos rumo à bica do Ipu, onde (conta Alencar) banhava-se Iracema, a tabajara “virgem dos lábios de mel”, correndo, com seu “pé grácil e nu”, as “matas do Ipu", mapeando o Ceará em hospitalidades, desenhando nossa cultura e turismo, como a nos mostrar nossa riqueza não explorada e a nos indagar, aves de arribação a migrar, a conclusão do romance alencarino, a nós, feitos Moacir, “o filho da dor”.  “Seria a predestinação de uma raça”?.

 

Nossa esperança é que apostemos em Pero Vaz de Caminha: a terra é fértil, “nela, em se plantando, tudo dá”.  Dará, no Vale do Jatobá, alimentador do Acaraú. Nas macambiras semi-áridas. Na úmida “Serra dos Cocos”, por onde se sobe para a Matriz de São Gonçalo, anfitriã da Ibiapaba.  “Vinhedos" em tal região, rica em cultura, brotarão com certeza. E aos que, muitos, de lá emigramos para outras terras, talvez respondamos como “filhos da dor” alimentados pela educação, à angustiante pergunta com que nos instiga Alencar. Ela, a educação, com certeza, a arrancar do chão e de nossas almas as alavancas, nos responderá: ela própria será o caminho para a geração do capital humano, móvel da inclusão social.

É nossa esperança-certeza!

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará e da Universidade Estadual do Ceará, e ex-presidente do Conselho de Educação do Ceará

 

 

 

Em louvor à Minha Terra

 

 

                                            Jeremias Catunda

 

 

        Embora com o mesmo aspecto físico que as cidades do interior apresentam, Ipueiras tem qualquer coisa que a difere das demais comunas do nosso sertão.

 

        A cavaleiro da soberba cordilheira da Ibiapaba, que vista da cidade parece uma imensa fita azul a ondular no poente, salpicada de esguias palmeiras, os crepúsculos chegam sempre mais cedo, porque a sombra da serra desce por sobre o casario multicor como um grande véu plúmbeo.

 

        Cercada de morros que no inverno vestem-se de um verde-claro, quase gaio, antes das chuvas passarem já começam as jitiranas a soltar as flores violáceas, cobrindo com os pau-d´arcos toda a ramagem,  que se torna matizada, apresentando um colorido exuberante, digno de uma tela. É num desses morros, o mais alto que orla o sul de minha terra, que está plantada a figura meiga do Cristo Redentor. De braços abertos, o olhar fino daquele que perscruta o interior das almas, parece a num longo e carinhoso amplexo de amizade, juntar a terra e o seu povo.

 

        Visitante nenhum foi até hoje ao cimo da colina, de onde a imagem do Filho de Nazaré olha a cidade, que não tivesse uma frase de exclamação, uma palavra de elogio ao monumento, ao panorama deslumbrante que não cansa nunca os olhos.

 

        A cidade é vista de todos os seus ângulos. Lá para o leste está o açude, aquele mesmo açude que me viu menino, de baladeira no encalço de jaçanãs e mergulhões, correndo na parede atrás do pássaro chumbado, ou descendo para represa onde os coqueiros e as enormes mangueiras oferecem um clima de oásis.

 

        O chafariz que do alto mais se assemelha a um monumento do tempo de Mausolo, fica postado numa das principais entradas da cidade. É lá que a alma do povo humilde de minha terra, grita as suas necessidades e chora o seu abandono.

 

        O Arco de Fátima, o mais belo marco da área urbana, se ergue na rua Gal. Sampaio e é bem o símbolo, o atestado da fé transbordante do ipueirense. Lá, quer nas horas quentes do sol a pino ou quando o grande astro já se vai dobrando por sobre a Ibiapaba, tem sempre alguém com os joelhos na terra, implorando uma graça à Virgem da Iria.

 

        A Escola Normal Rural, edifício vigoroso do ensino de Ipueiras, enfeita com os seus dois vistosos pavimentos a Praça da Bandeira. É lá onde a nova geração está encontrando no amanho dos livros o caminho das ciências.

 

        Um ligeiro salto passamos por sobre à avenida Getúlio Vargas, o coração da cidade, onde o society se reúne nos dias de festas e em que cada banco de cimento é um confessionário de amor. Nas noites de lua, quando a soberba rainha do espaço gira no alto, os violões sentidos, choram mágoas de romances fracassados, que a história só a velha praça conhece.

 

        A Prefeitura ali bem perto, dorme com a sua galeria de edis o sono de Prometeu!?

 

        Bem no centro da grande praça está a igreja; com sua esguia torre para o alto, parece nos apontar o caminho de Deus. Tudo nos fala de um tempo, de álacres noitaros, das matinais alvoradas quando a santa padroeira é festejada em dezembro!

 

        E vamos chegando ao velho rio Jatobá, à ponte, ah rio da saudade, das pescarias, dos banhos, cada curva que ele dá é um relicário do passado e são tantas as suas curvas! Como nos lembra uma infância feliz e longínqua!

 

        O carnaubal de minha terra é o mais belo do mundo! À tarde em cada carnaubeira canta uma graúna. Quando a sombra da terra vai chegando, a grande orquestra inicia das copas soberbas e virentes a mais maviosa canção que já se ouviu: é a canção da saudade. Lembrá-la é rever minha terra, é escutá-la nos seus sussurros de amor.

 

        É assim a minha terra: não há poeta que lhe diga a grandeza, não há descrição que lhe conte os encantos!!!

 

                                                                                      

(Crônica publicada no jornal O Estado em agosto de 1959)

(Foto : Site oficial da cidade de Ipueiras)

 

 

 

A VISÃO DE PROJETO

E O PODER DE RESINA

(OU DE JUNTAR OS CACOS

 

Marcondes Rosa de Sousa

09. jan, 2006

 

               

                Algumas explicações “a posteriori”, ilustrando a entrevista “Segunda independência”, da última Isto É, com Sérgio Machado, ex-senador pelo Ceará e ora à frente da Transpetro.

 

            Ontem, sábado, ele me telefonou. Indagou-me se havia lido sua entrevista. Respondi-lhe que a Isto É sempre me chega atrasada, já na segunda-feira, ao contrário de Veja, que avisa com antecedência e liturgicamente está em minha pessoal caixa postal, em casa...

 

            Hoje, cedo, novo telefonema. Desta feita, já a havia lido. E lhe falei de minha literal “vibração” com o tom e sentimento da entrevista. Ele me pediu recolhesse, dentre os de meu círculo (intelectuais sobretudo) as reações. E a divulgação a priori no “Ethos-Paidéia” tem esse sentido: o de provocar um amplo debate sobre o Brasil. É que a Revista foi muito feliz. Apresentou um histórico de vida de Sérgio todo ligado a uma pauta a mirar ... “um projeto”. Assim, ainda infante ao lado de Juscelino. Partícipe das lutas estudantis, nos fechados anos 70. Apóstolo fervoroso dos que, entre muitos (Tasso, Beni, Ciro, Amarílio Macedo) sonhavam com o “acabar com a miséria e o clientlismo”, no Ceará e na Região Nordestina..

 

            Aí, conheci o grupo. E foi a circunstância histórica de aqui trazer Celso Furtado para debater os caminhos da nordestinidade, que me aproximaram do Grupo.

 

            Aos poucos, muitos os chamados e poucos os escolhidos, foi fazendo tal grupo dispersar-se. E um dia, em Brasília, Sérgio (ainda na alta direção do PSDB) um grupo “paulista” forçava por querer minha vaga na alta direção do PSDB. Disse a Sérgio que concordasse. Afinal, um “sudestino” ficaria melhor que um “nordestino”. Sérgio, como tantos outros, foram se dispersando no grupo inicial das “mudanças”.  E um dia, eu próprio vi que os postos iram sendo ocupados por pessoas da factual política. E a frase de Tasso – disse isso a ele – doía-me: “No PSDB, passou a era dos intelectuais. Agora, é a vez dos políticos e dos gestores”. Tudo como se, aos intelectuais, faltasse o tato dos “políticos” e a ação dos “gestores”. Brincando, disse a Tasso que, em São Paulo, havia eu dito que a frase não era referência a FHC, Serra e, ao mesmo tempo, a Minas e Ceará. Mas a mim. Ele se riu. 

 

            Foi aí que disse do artigo que me ia à cabeça: a solidariedade dos banhos de rio da infância, na “grandiloqüência das cheias”. Depois, a solidão crescentes das poças e poços e das cacimbas cercadas pela miséria. O movimento das mudanças, enfim, retornado ao solitário monólogo “monólogo coletivo”. Foi aí que um técnico em marketing me disse: “Mude o final do artigo” – eu me sentia um Y-Juca Pirama, com seu “Meninos eu vi!”. O técnico me disse: “Alguém pode mudar esse final, trazendo todos, do solitário monólogo coletivo para a “grandiloqüência das cheias”. E eu, curioso, perguntei: “Quem?” E ele: “O senhor! Comece por refazer a amizade de Tasso com Sérgio e com Ciro?”

 

            Balancei a cabeça: “Impossível”. Mandei um recado para Sérgio. Ele topou conversar. Antes, porém, conversaria comigo. Depois, encontrei Tasso. Quando lhe falei, ele foi categórico: “Já nos encontramos a conversamos sobre o tema”. Para encurtar a conversa, um dia, falando sobre o plano da Transpetro, Sérgio gastou não mais que seis minutos falando o quanto o Nordeste e o Ceará, onde todo o movimento se iniciou, havia ficado para trás do País. Aí, o apelo pela união de todos em função de um projeto.

 

            Sob essa perspectiva, de projeto “complexo e plural”, o que implica em pluripartidarismo, é que gostaria que víssemos a entrevista de Sérgio.

 

            Nossas intenções, no Ceará, caminham em tal rumo, mesmo sabendo do clima que, pessoalmente, está a navegar por “coisas miúdas” (disse Tasso), dando ênfase a “notas de rodapé” (Sérgio), não conseguindo nem mesmo discutir a transposição de bacias. Desse clima, falou-nos o próprio Lula: “O Ceará precisa se unir”.

 

            De alguma forma, entre nós, predomina um refrão de Sérgio, que sempre escutei: “Onde não existe ideologia e projeto, brota a fisiologia”. É o que vemos.

 

            Aí, pois, a entrevista. E, por trás dela, o apelo à união. União do “complexo e plural”. O que todos (em reunião, no Centro Industrial do Ceará) concordaram. Embora, entre cochichos, tenha eu escutado daqui e dali: “Mas você sabe que, entre todos esses, quem mais ter a condições de ser governador ... sou eu!”

 

            A resposta: De início, o projeto. No fundo, o que talvez a Rede Globo, com a novela e, agora, a Isto é, com a reportagem de capa, tentando desvendar o que se passa no inconsciente coletivo do brasileiro. Ou ainda a frase com que o próprio Sérgio tentou desfazer meus preconceitos para com o presidente da Venezuela, Hugo Chavez: “Mas se engana você. Ele, diferente até de nós, tem ... “um projeto”. Nessa consciência de um projeto estaria a comunicação de Chavez com seu povo...

 

            Aberta, pois, de forma plural (aqui, no Ceará, e alhures), a discussão.

 

            Cordial abraço,

            Marcondes Rosa

 

 

Grandiloqüência das cheias

 

 

Marcondes Rosa

O Povo -28 de Dez. 2005

                                         


        

         Valeu o alerta! O Ceará perdia-se, sem projeto, nas ''coisas miúdas''. A siderúrgica, sonho histórico, (re)uniu-nos. Nesse clima, a autocrítica, sem o apontar de ''culpados'', a nos rever a educação: a) avanços quantitativos, sim; b) pecados, porém, em qualidade, nas muitas ''escolas indignas''; c) olhos ao chão, míopes de horizontes - imediato (o trabalho) e estratégico (capital social e humano, e inclusão social).



         É o que colho das discussões sobre nossa educação. Autocrítica maior, a miopia em mirar nosso porto: a) ''analfabetos funcionais'', a atingir 42%, em nossas escolas; b) muitas dessas, insuladas de seu entorno, em autismo corporativo e clientelista; c) pífia oferta de educação superior, em 24º lugar nos 27 estados; d) incômodos bolsões de ''extremamente pobres'', sem a dignidade do ''comerás o pão com o suor do teu rosto''...



         Em Juazeiro, observo atores sociais ''em teia'' a pensar educação (com ênfase na superior) rumo a um porto. Ouço alguém lúcido: ''Em terra pobre de recursos naturais, onde até a água é escassa, maior bem nos seria criatividade e tato humanos. Indústria agora é mais que chaminé''. E, dando o tom, o elencar potencialidades nossas para o turismo e a pauta para repensá-lo na ampla teia de seus atores (políticos, educacionais, empresariais, sociais). Hélio Barros, comprometido secretário ali presente, anotou a proposta.



         Do Cariri, onde Parmênides (o permanente) e Heráclito (o mutável) se abraçam, voltei com a lição de João Cabral, o poeta, a nos ver, no Ceará, como se rios na dialética dos leitos secos e das cheias: solitários poços desenfrasados, no estio, mas a recobrar latente ''sintaxe'', na ''grandiloqüência das cheias''. E, com ela, a função do combate à seca. Mas qual Moacir, de Alencar, o migrante ''filho da dor'', a ter de irrigar terras outras. Lá fora!...



MARCONDES ROSA DE SOUSA é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Escreve quinzenalmente.

 

 

 

 

 

 

 

 

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\clip_image001.gif" o:title="avw">ÁGUAS RETIRADAS

(Em tom de prefácio)

 

 

Marcondes Rosa

15 de março. 2005

 

 

        Amanhã, estarei divulgando junto a vocês artigo que hoje enviei, para a Página “Opinião” do Jornal “O Povo”, de Fortaleza (Ce), sob o título “Águas retiradas”. Espero que ele não ceda, no Jornal, lugar a matéria tida por mais importante.

 

        Na verdade, é o contraponto de preocupação crescente, tocada por um grupo de “intelectuais, políticos e empresários” no Ceará.  E essa preocupação vem em defesa dos interesses mais amplos, suprapartidários, de uma “agenda plural e coletiva” de nossa terra. Meus últimos artigos estão nessa linha.

 

        É que a nós assiste-nos uma constatação: nunca foram tantos (e tão expressivos) os nomes de cearenses a brilhar na constelação nacional. Mas nunca, em contrapartida, os interesses do Ceará foram tão desprezados. Razão? A preocupação de cada um com o “seu pedaço” e, em última análise, sua eleição e fatia de poder.

 

        Junto à opinião pública, resolvemos reacender as pautas comuns: a Refinaria, a Transposição do São Francisco, a interligação das bacias, os caminhos das águas, as “estradas todas” a nos levar à inclusão social e ao sustentável desenvolvimento.

 

          Na conversa pessoa-a-pessoa e nas reuniões coletivas, estamos tendo êxito. Nos jornais e meios de comunicação, nossa mensagem está tendo repercussão. As adesões estão sendo espontâneas. E as preocupações com as candidaturas iminentes estão se colocando em segundo plano.

 

          Nessa linha, peguei de “carta” que nosso conterrâneo Renato Bonfim enviou para o Jornal “O Povo”. Pincei-a para o Ipueiras Grupos. Tadeu, em comentário, no desenho dos “caminhos das águas” tocou na questão do “Lontras”. Ao Lontras, associou-se o Cupira. E pedi a Dr. Cláudio Ferreira Lima, que, comigo participa do grupo inicial na questão maior, e lhe pedi para verificar a situação do Lontras e (se for o caso) do Cupira. O mesmo assunto, ao me encontrar com Eudoro Santana, dirigente maior do DNOCS, toquei com ele.

 

          As respostas, vocês viram. No caso do Lontras é projeto antigo, em fase final, à espera apenas de “vontade e decisão política”. Do “Cupira”, não temos maiores informações, coisa que espero dos ligados à administração municipal, de quem esperamos envolvimento.

 

          Resolvi aproveitar meus curtos (mas, graças a Deus, lidos) espaços de exatos 1.600 caracteres (incluídos os espaços em branco) na Página “Opinião”, espaço a mim concedido quinzenalmente quarta sim quarta não. Nessa linha, tentei reproduzir a questão aqui discutida. Claro que com recursos literários, aproveitando alguns comentários que, do Grupo, colhi por e-mails e telefonemas pessoais.

 

           Não o envio agora por questão de ética e pacto com o Jornal: só realizar a divulgação em outro meio, uma feita publicado, fazendo a referência ao Jornal.

 

           Por enquanto, gostaria só de avisar que o assunto enquadra-se em dimensão mais ampla. E meu intuito é abrir caminhos para que Ipueiras não se desenhe como “águas retiradas” quando se retraça o São Francisco, numa nova sintaxe do “caminho das águas” e da interligação de bacias.

 

           Sei que muitos, em Ipueiras (as autoridades sobretudo), ainda não entraram nos tempos da Internet. E não sabem como o local pode ser ajudado pelo global. Aqui, repito, meu interesse vai acima de qualquer interesse mais prosaico ou projeção pessoal. Meu interesse é apenas ajudar.

 

           Até amanhã, quando, no Grupo Ethos-Paidéia, que, coordeno, e neste Grupo, estarei divulgando o “Águas retiradas”. E gostaria de redespertar Renato, Tadeu, Erivelton, Simone, Dalinha, Braga, Simone e dos demais – personagens importantes, todos, para que nossa saga vá além. Importante um contacto mais estreito entre os que, em Ipueiras (na administração pública e na sociedade), podem engrossar as fileiras em torno dos interesses comuns. Nessas fileiras, as diversas tendências não hão de se opor. Mas, ao contrário, de somar-se.

 

                  

 

           

***

       

        Clique, para ter acesso ao citado artigo:

        Águas retiradas (Marcondes Rosa de Sousa)

 

 

 

 

NUS, O REI E NÓS!...

 

 

Marcondes Rosa de Sousa

16. Março, 2005

 

 

Aí, afinal e já divulgado, o prometido artigo, espécie de reportagem de nossos papos, em nossa virtual “pracinha”, a ter o desprendido Braga por zelador.

 

A idéia nasceu de rápido encontro que, no Iguatemi, tivemos, ao acaso, Demócrito e Vânia Dummar, do Jornal “O Povo”, e eu, ocasião em que tecemos comentários sobre reunião, no Jornal, a ter, por temática, o atual conceito de “regionalidade”, no contexto do nacional e do local, caindo enfim sobre a necessidade de melhor estudarmos a tensão global/local.

 

Vânia, que, na Fiec, ocupa-se dos programas ligados à “responsabilidade social”, chamava-nos a atenção para a importância do “local”.  E eu ressaltava, sobretudo ao pensar sobre a situação de esquecimento de nossas populações interioranas, a necessidade de pormos em close up os dramas e especificidades locais, num contraponto com o global a dar a esses dramas as mãos.

 

Confesso-lhes. Nunca um artigo me foi parto tão doloroso. Sobretudo pelo exíguo espaço de que dispunha.  Mas não posso reclamar. Afinal, aí estão Ipueiras, o “sítio” e a “pracinha”, mais uma vez, projetados no jornal de maior tiragem do Ceará. Nossos dramas e sonhos, na Página “Opinião”, coração desse periódico, no artigo central da secção, onde dizem, caem com mais intensidade os olhares... Além disso, divulgado na Web: www.opovo.com.br, acessável em todo o Planeta.

 

Como se isso não bastasse, fiz dele a divulgação em três grupos de discussão: a) o “Ethos-Paidéia”, que coordeno e do qual participam, em todo o País, interessados nas questões da educação (escolar e social): pessoas instituições; b) a “Além da Visão” que reúne, coordenada pelo Prof. Saulo César Silva (SP), com gente de toda a América Latina; c) neste “Grupo Ipueiras”, onde se reúnem os “amigos de Ipueiras”: os lá residentes, os retirados de suas águas, os a estas ligados pelos laços do afeto.

 

Além disso, vali-me de minha pessoal “lista de endereços eletrônicos” (políticos, educadores, empresários), muita gente a se espalhar pelos “quatro cantos do mundo”, no dizer do poeta popular, por “Oropa, França e Bahia”...

 

A todos, minhas desculpas, se a exigüidade de espaço obrigou-me a corte de cenas, personagens omitidos. Se, por outro lado, quem sabe, espargi confidências e dramas locais por aí afora. Mas é que, em tempos globais, tudo é transparente. Estamos todos, como na fábula, nus. Não apenas o rei.

 

Fraternal abraço,

Marcondes Rosa de Sousa

Fortaleza

 

 

 

 

 

 

FESTA DOS 122 ANOS DE IPUEIRAS

 

Tadeu Fontenele  

4 nov. 2005

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            Depois de recuperar-me de todo o esforço desprendido para garantir a participação no jogo que reinaugurou o Medeirão e após a regularização do Velox, estamos de volta.

 

            Ipueiras estava efervescente: eventos a todo instante. Chegamos a tempo para conferir a inauguração da sede própria do Instituto Frota Neto – Biblioteca Dario Catunda Fontenele. Emocionante para todos a concretização do sonho do nosso querido Frota Neto. Depois participamos do jogo inaugural. O restante foi sentir mais de perto o calor humano, revendo amigos e familiares.

 

            As fotos já estão no ipueiras.ce.gov.br. Renato Bonfim foi o autor do primeiro gol. A turma que foi daqui - Zequinha Bento, Renato Bonfim,Tadeu Fontenele e Armando Fontenele -  participou bem e como diríamos no nosso tempo de jogávamos lá: não perdemos nem ganhamos, empatemos.

 

            Jogamos ao lado do Fury, nosso grande goleiro, de Lutim  Malaquias e seu filho Elton, do Antonio Lotero, do Jonas, do Divórcio, do Zé Antonio, do Manezão, do Tadeu da Estação O jogo foi 1 X 1 e com muitos Graças a Deus depois que terminou. Foram 60 minutos de 2 as 3 da tarde.  

 

            Confiram e comentem. No meu retorno a Fortaleza, tive o prazer do encontro com o nosso Nonato, que estava hospedado no Praiano, junto com delegação de Brasília, quando, ainda com todo o pique, fizemos um percurso no Calçadão com direito a foto batida por ele.

Darci e Leo, (Berlim setembro/2008)

 

A DARCI DO ‘SEU’ CAMARAL

 

Marcondes Rosa de Sousa

Grupo Ipueiras - 26;01.04

 

A “Darci do Seu Camaral” me pergunta se me lembro dela! Ora, que pergunta? Duas marcas me fizeram, a vida inteira, não esquecê-la. Primeiro, os olhos (não sei por que me ficaram). Mas sempre que me lembro da Darci, vejo-a sempre de olhar e postura inquietos... Depois, uma razão “onomástica”. “Darci”. Conheci muitos Darcis, como o Ribeiro, o mais famoso. E outros tantos “Dárcis”.  Darci-mulher, poucas. O nome “Darci”, dessa sorte, sempre me levou à infância, a Ipueiras e a ... inquietação.

 

Parece que tenho razão. Olho a resumida história-de-vida que ela nos traçou e, em tudo, inquietação se expressa. De Ipueiras, errante  vagou por “Europa, França e Bahia”, fruindo os verdes mares bravios cearenses, a Alemanha, o Rio e a Guatemala. Da agronomia, embrenhou-se pelas “teias” da ecologia, o universo da língua e literatura e dos “assuntos mil” da cultura.

 

Empresária a apoiar “visitantes e expositores de feiras internacionais”, queixa-se de ser conhecida no sul do Brasil, mas desconhecida entre os nordestinos.

 

Em Colônia, na Alemanha, sempre encontra patrícios na Universidade que tem um programa com a UFC.

 

Penso, Darci, que uma ponte estaria aí. Aluno, dos anos 60, no Curso de Letras da UFC, acompanhei a implantação ali da Casa de Cultura Alemã. E, nela, todo o esforço do Prof. Feldman para um histórico intercâmbio com a Alemanha. Lá, ele, estudioso da cultura brasileira e nordestina, sobretudo, escreveu tese sobre Graciliano Ramos. E, com o passar dos anos, estreitou os laços Brasil/Alemanha, tendo o Ceará por ponte.

 

Pró-Reitor da Universidade, pela primeira vez, intermediei um intercâmbio com publicação simultânea e bilíngüe cá e lá. Na segunda vez, sobressaltei-me com a idéia, por ele tocada, do Instituto Lusófono a estreitar os laços entre a Alemanha e os países de língua portuguesa. E, um dia, maior sobressalto (isso já no Governo de Ciro Gomes), quando aqui aportou ele com mais de 100 personalidades (da indústria, do mundo universitário e da formação profissional) para um seminário conjunto entre alemães e cearenses.

 

Abrindo o simpósio, lembro-me das risadas de Feldman, quando eu disse: “Ao abrir esse evento, vou criar um problema para o tradutor. Mas não posso deixar de dizer – esse Feldman é um danado”.  De fato, cada tentativa do tradutor não justiçava, para os alemães, o porquê de Feldman dar tanta risada.  Na verdade, as palavras da frase, em português, quando traduzidas em alemão, não encontravam o impacto conotativo manifesto por mim. Feldman tentou explicar aos alemães...

 

Ah! Essa Darci é uma danada! E creio que (não sei se Feldman ainda anda por lá) o Ceará bem que poderia reatar intercâmbio mais estreito com Colônia. E, nessa estrada, Ipueiras bem que poderia encontrar um pedaço de chão para si. Artesanato? Sei lá! Tantas outras coisas e interesses.

 

Ora, uma vez, ao visitar um cearense que, em Fortaleza, coleciona a primeira edição dos jornais, sabendo que eu era de Ipueiras, mostrou-me um jornal ipueirense ... “em alemão”.

 

O bom de um grupo assim, como este é que, papo-vai-papo-vem, a gente termina encontrando estradas que surgem para a gente colocar Ipueiras como um lugar pelo qual a gente possa fazer alguma coisa.

 

Criativa, Darci bem que pode nos ajudar. É só juntá-la com Dalinha, Nely, Maria Solon ... e gente da mesma estirpe, que a gente chega lá.

 

(Foto, por Darci a mim enviada, quando esteve, em Berlim, com Leo, meu filho músico caçula, que se encontra na Alemanha).

 

 

 

 

 

 

 

PROJETO IPUEIRAS

 

A colaboração de Renato Bonfim

Grupo Ipueiras, 02.09.2007

 

 

 

No meu pouco tempo de que disponho, não me furtarei em ajudar neste projeto de Ipueiras.  Nem todos os e-mail tenho lido, mas sempre que possível, acompanho esta movimentação dos ipueirenses, como Kleber, Dalinha, Nonato, Tadeu, você e Walmir.

 

Lembro-lhe vários outros ícones de Ipueiras, folclóricos, como Zacarias, Telego, Coça-Coça, Tunda, Bedega, Mundo Ricardino, Zé Pequeno, Chico Tomaz, Totonho Regino, Antonio Simões e muitos outros que fizeram a historia de nossa cidade.

.

 

 

 

 

PRODUTOS NOSSOS

PATENTEADOS ESTRANGEIROS...

 

Marcondes Rosa de Sousa

            Thu, 29 Dec 2005 00

 

              Faz pouco, agora à noite, me toca o celular. Surpresa. Darci, ex-colega de infância e um pedaço da adolescência. Em Fortaleza, ela amanhã parte para as "águas retiradas". Conseguiu meu celular com Alaíde.

 

         Batemos um bom papo. Falamos do passado, de nossa pracinha, dos familiares (dela e meus), dos livros que ela está levando para a biblioteca do Instituto Frota Neto, da ipueira antiga e dos projetos que, numa solidariedade presencial, poderíamos ter todos com nossa terra.

 

         Darci disse dos encontros que havia tido, nesses dias, com sua turma de faculdade. Falou-me dos alemães que aqui foram colegas na UFC. Contei a ela que, hoje, no Jornal "O Povo", há artigo de alguém a reclamar de alemães que registraram a patente de nossa rapadura no exterior. Daqui a alguns dias, pagaremos royalties para saborear a nossa rapadura e as delícias de nossa cozinha...

 

         Contei a ela, a água na boca que, retornado a Ipueiras, busquei com Tuquinha (foi a última vez que a vi) re/degustar o "licor de Cambucá", em mim ficado na infância.

 

         Longo o papo. Ela levou meus telefones. Quer, antes de 10 de janeiro, quando retornará, encontrar-se com alguns conterrâneos aqui em Fortaleza.

 

         Abraço a todos,

         Marcondes Rosa de Sousa

 

EXPOSIÇÃO, NA UNIFOR,

SOBRE O BARÃO DE MAUÁ.

AO LADO, ANTONIO BANDEIRA...

IPUEIRAS, O QUE TEM A VER?

 

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

 

 

Amigos,

 

Aí estão, divulgados para o Grupo Ipueiras, todos os textos postados no Blog do mesmo grupo, onde, de alguma forma, divisamos o reclamado intento dos ipueirenses  (ou amigos), pela valorização de seus “ícones”.  Originariamente, o termo “ícone”, desde os gregos, vinculava-se ao estrito conceito de “imagem”. Com o advento da semiologia, ele se amplia em significação, transpondo o inicial conceito de uma “estátua de Cristo a nos abrir os braços”, por exemplo, para uma estação de trem, um tipo popular, uma bica no distrito Matriz...

 

·         Exposição sobre o Barão de Mauá

 

Nestes dias, convidado pelo Presidente da Transpetro, Sérgio Machado, estive numa exposição sobre o Barão de Mauá, Sérgio Machado, por diversos telefonemas (de sua secretária e dele próprio) insistia em minha presença ao evento.  E a razão principal, sabia eu, era a força maior do simbólico em nossa ação empresarial ou política maior. A idéia era mostrar o soerguimento de nossa indústria naval, nos moldes do visionário Barão de Mauá. A abertura da exposição numa Universidade, fundada por outro visionário, Edson Queiroz, evento em tom e toque artísticos, aludindo à visão profética e altamente moderna hoje (a do fundador da primeira instituição de educação privada já nascer universidade), tinha tudo para refletirmos sobre a ação inovadora, tal como a do Barão de Mauá...

 

Sérgio fez questão de minha presença.  Dos Estados Unidos, onde apresentou planos da indústria naval brasileira, telefonou-me sobre a exposição.  Do Rio, a mesma insistência.  De Fortaleza, meia hora antes da abertura da exposição.  Ficou satisfeito apenas com o “já estou aqui!, na Unifor, com o reitor ”, de minha parte...

 

 

·         Formação de um grupo supra-partidário

 

Explicação que se faz necessária.  Tudo isso, pelo amor de Deus, que não se traduza em vocês, os do Grupo Ipueiras, como se houvesse, da parte dele, Sérgio Machado, e minha, qualquer interesse político partidário.  Sérgio, conheci-o, nos tempos em que, sendo eu pró-reitor de extensão da UFC, fui intermediário do convite ao fundador da Sudene, Celso Furtado, para uma palestra sobre “Perspectivas para o Desenvolvimento da Região Nordestina, este retornado de longo exílio.  À época, os chamados “jovens empresários do CIC” articulavam a redemocratização do País e o que, depois, se denominava “Movimento Pró-mudanças”, Sérgio era, ao tempo, chamado então de “o samurai do Cambeba”.  Uma geração inteira - fiz parte dela como uma espécie de “ghost whiter” -  e, após, aceitei dirigir a TVE do Estado (quando me reencontro com Frota Neto)  e, depois, como assessor, no campo áudio-visual, a Secretária Violeta Arraes.

 

Sérgio, para mim, revelou-se sempre voltado para os sonhos a orientar-nos a caminhada.  E isso logo vi na armação da exposição.  O ator Paulo Betti, na apresentação, feito Barão lançando os sonhos ali em apresentação teatral e audiovisual.  Em outra sala, a exposição da trajetória do Barão.  Por fim, o encontro dos ali presentes, num coquetel.

 

·         O reencontro com Renato Bonfim Medeiros

 

Foi nesse clima que, dentre os que chegaram mais cedo ao palco do evento, na Unifor, dei com o empresário ipueirense Renato Bonfim.  Ele me falou que estava recebendo, de minha parte, a série de textos postados “em busca dos ícones de Ipueiras”.  Havia gostado, mas, no afã de empresário, nem tempo sequer tinha para tudo ler, tinha ele.  Melhor, reservar-se seu papel para a fase mais pragmática de sua edição (formato, custos, etc),  Aí, nos papos entrecortados a noite inteira, as sugestões para um grupo imediato. 

 

·         A mim, a tarefa mais ampla e difícil

 

De minha parte, uma tarefa mais ampla e difícil.  Voltar, em minha metáfora, aos tempos das cheias do Jatobá (os “álacres banhos em minha infância”), Sérgio, um dia, chamou-me para um almoço.  Nos dedos, contamos (à época) 21 cearenses nos mais altos postos da nação.  Enquanto isso, o Ceará que partira na frente, estava entre os últimos, na região e no País.  Aí, ele, a pretexto das obras da Petrobrás e Transpetro, levou as mais diversas correntes e lideranças empresariais e políticas ao auditório da Fiec.  Gastou, nesse apelo, seis minutos apenas.  E, ali, um pacto suprapartidário, todos a me ver como um “Pero Vaz de Caminha” em tal jornada.  Logo, porém, em nossa vida política nacional, abateu-se, na contramão desta nova “União pelo Ceará”,  a humilhante cena dos “dólares na cueca”, dos mensalões e toda vez que algo intentávamos, nada...

 

·         O resgate da “sintaxe perdida

 

Pouco tempo atrás, após a edição da obra do economista Claudio Ferreira Lima, na casa de Sérgio, reunimo-nos em um pequeno Grupo, e a estratégia foi a de Cristo: a) de início, “Pedro, Tiago e João”, vale dizer, um “pequeno grupo” (petit comitée); b) depois, os “doze apóstolos”, c) e o resto, o urbs et orbis, que o Evangelho nos mostra.  A mim, a tarefa de, no lançamento do livro, a apresentação.  Recusei, tantos os remédios que, na época, estava tomando, o que me traziam verdadeiros surto de esquecimento das coisas.  Recomendei que confiássemos a tarefa a um economista.

 

Azar, o nosso!  Na Assembléia Legislativa, quando do lançamento do livro.  Não percebi o propósito da chamada a mim para a mesa, ao lado de Demócrito Dummar e Sérgio Machado.  E, sem qualquer aviso a mim, o passar a palavra a mim, ao final, pelo deputado ali a presidir o evento, o franquear a palavra...  Aí, esqueci-me de meus surtos de memória.  E, ao final, a platéia toda a, em demorado aplauso, concordar com a grandiloqüência das cheias, a resgatar a “sintaxe perdida” de nossas águas...  Dois dias depois, a morte de Demócrito e tudo outra vez a recomeçar.

 

Depois,  morte do reitor da UFC, eleições.  Arranhões de todos os lados...  Difícil, para o resgatar da “sintaxe perdida” entre as cabeças (o mundo universitário), as mãos (os gestores do mundo social e estatal) e o tato (os políticos), meus históricos bordões...

 

·         Visão, em contraponto, da Prof. Luitgarde:

 

Nisso tudo, meu papel é o de reavivar nossa sintaxe perdida. Uma sintaxe que, em nosso caso, tudo começou, nos anos 80, quando para aqui trouxemos Celso Furtado, que se tornaria o guru a alimentar os “jovens empresários do CIC”.  Vejam, por ironia, o que a professora Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros, luitgarde@globo.com, do Rio, me escreve, a propósito do artigo “O Nordeste Hoje (Marcondes Rosa de Sousa”:

 

“Bom dia, Marcondes Rosa!

 

A Igreja e Celso Furtado jamais levaram, levariam ou levarão o Brasil à condição de dignidade que Josué de Castro pleiteou (ler Pão ou Aço) e que Celso Furtado derrotou, se aliando com Juscelino, IMPEDINDO a reforma agrária e trabalhando, através da SUDENE, pelo enriquecimento dos grupos paulistas.

 

Orientei na UERJ excelente Dissertação de um jovem talentoso sobre a Polêmica entre Josué e Furtado. Pelo futuro do Nordeste, esse trabalho deveria ser publicado e amplamente divulgado. O nome do jovem é Tayguara Torres,  o telefone dele é (21) 25026751 e e-mail tayguaratorres@ig.com.br.

 

Quanto à Igreja, combateu as Ligas Camponesas, enfiou goela abaixo Padre Melo, e terminou na Marcha Pela Família Com Deus Pela Liberdade, com o Padre Paiton, se lembra? Como se fará a tal INCLUSÃO sem impedir o sistema de EXCLUSÃO? Apoiar as políticas neoliberais do Partido  que ela criou e defende em qualquer campanha eleitoral como "o menos ruim", "fazer CARIDADE" com o dinheiro público, vai-nos levar a alguma coisa além da eterna "fé, esperança e caridade", isto é: "NASÇA NA FÉ, VIVA NA ESPERANÇA E MORRA NA CARIDADE"!!!?”

 

 

·         Visão suprapartidária não equivalente ao “fora a política”

 

A idéia desse grupo, liderado por Sérgio Machado e aglutinando pequeno grupo a se tornar água grande, é partir, de início, para a constituição de uma ONG de intenções e ação suprapartidárias.  Não se trata do utópico “fora a política” de minhas amigas “vendedoras de sonhos” (Rosa da Fonseca  e Maria Luíza a quem respeito e ajudo).  Mas permitir - e obrigar até - o olhar mais alto quando divisarmos os interesses de nossa ação política.

 

·         Minha tarefa possível

 

Toda essa explicação para deixar claro meu olhar, meus interesses e minha ação possível no caso da “sintaxe de nossos ícones” em Ipueiras.  Pensem o que quiserem.  Mas, não tenho qualquer interesse menor. Prefiro entoar o “não sou candidato a nada, meu negócio é madrugada”.  Uma madrugada até que não se esgota no efêmero voto, nem mesmo o das eletrônicas urnas, nessa “candidatura”...  Em minha mente, guardo, na coxia, até hoje, a cena de dois contendores, revólveres à mão, um contra o outro.  Meu pai a me atirar pela janela, na Rua Padre Angelim, em Ipueiras.  Depois saberia: dois embriagados, um do PSD e outro da UDN, revólveres em punho. Muitos anos mais tarde, já universitário, conheceria Virgílio Távora, num movimento chamado “Arca de Noé”.  Por longos anos, pensei tratar-se de apoio à dita Revolução de 31 de Março.  Muito ao contrário: de apoio a João Goulart...

 

Moral dessa história.  Meu papel, nessa “re/união pelo Ceará”, é possível (provou-o VT). Mas, felizmente tarefa não tão perigosa quanto, ao "mim", o de quando criança. Graças a Deus, de Isa Catunda a Nenen Matos e educadores de Ipueiras, tivemos verdadeiros pacificadores...

 

·         Edição para além de Gutenberg

 

Voltemos aos que escolherão os textos que figurarão numa edição  -  livreira, audiovisual e hoje já usada no Instituto Histórico (diz-me o Prof. Pedro Sisnando Leite, que me convidou para o lançamento de um livro eletrônico por ele escrito).  Meu Deus, ainda estou nos tempos primários de Gutenberg!...  No papo com Renato Bonfim (que penso, entre nós, de relacionamento aglutinador no meio empresarial e político) poderíamos re/unir Jean Kleber, Tadeu, Zequinha, Dalinha, Tereza Mourão, Solange Rosa, Edésio, “Corrinha” e outros que, ao lançar cada texto, tenho tentado insinuar.  Em plano mais alto, Bérgson Frota, com nítida e sensível vocação não apenas como “escritor”, mas de intérprete e até revisor.  Claro que, nesse rol, estarão sempre os Jeremias Catunda, os poetas, padres e longa lista de pessoas residentes no Ceará e no mundo. Ontem mesmo reencontrei-me com uma delas, professora, retornando da Alemanha, em casual encontro num shopping center ...

 

·         Bandeira, o que tem ele a ver com Ipueiras?

 

Ali, na Unifor (contava isso ao reitor), estava aberta outra exposição.  Esta dedicada ao internacional (e cearense) Antonio Bandeira.  Dias antes de ela se abrir, recebia eu de colega (meu, de Frota Neto e Walmir Rosa), Humberto Perlingeiro, no Seminário Nossa Senhora do Amor Divino, no Distrito de Correas, em Petrópolis (RJ).  Ele me pedia que apoiasse seu irmão que, em Fortaleza, estava coordenando exposição sobre Bandeira.  Aí, lancei, em diversos dos Grupos de Discussão que coordeno ou participo.

 

Mas, nisso tudo, o que é curioso é o que Ipueiras tem com toda essa história... É só dar uma chegada até lá, no conto de Jean Kleber, e descubra o que ele, Jean Kleber, Frota Neto, Solange, eu e... Ipueiras temos a ver com Bandeira...

 

Clique, Cttl pressionado, a Web aberta:

 

        Pega Ladrão! (Jean Kleber)

 

 

Abraço a todos,

Marcondes Rosa de Sousa

 

 

 

Vista geral de Ipueiras

''Aqui  somos, a partir do nome  - ''Ipueiras'', em tupi -, ''águas retiradas''!


Águas retiradas


Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - [16 Março - 2005]



        Pracinha do interior - ''virtual'', a diferença. Ali, gerações nos reunimos, em papos de ''suspiros poéticos e saudades'', mesclados à dor do povo, em súplicas por chuvas a São José.


        Jornais estendidos ao chão falam de águas transpondo-se, de bacias interligando-se, feitas caminhos a tingir de verde os sertões. Pessimista, alguém reclama: ''Aqui, somos, a partir do nome - ''Ipueiras'', em tupi -, ''águas retiradas''!- Mais otimista, outra voz dá conta de projeto: o açude'' Lontras'', a dormir no Dnocs, à espera de ''decisão política''. Mais realista, alguém propõe a construção do ''Cupira'', mais modesto. ''Faltam recursos'' - avisa o prefeito. ''Descaso!'' - uma senhora revolta-se.


        Escândalo, os elevados índices de indigência e pobreza absoluta de mais da metade da população. Sardônico, alguém cobra: ''E cadê as apregoadas indústrias de Tasso e de Ciro, que, por aqui, não apareceram?'' Os mais otimistas apontam progressos: na educação básica e na queda da mortalidade infantil. E outros, a decantar o potencial das serras úmidas, das macambiras, da cultura e do capital humano da terra. Mais pragmático, alguém grita: ''E por que não uma associação?'' E uma jovem: ''Sou funcionária no Congresso Nacional. Panfletagem? É comigo mesmo!''. A idéia é faísca a se alastrar...


        Fico a matutar. Uma pequena cidade, em seu atraso, a converter-se em emblema das populações esquecidas: um ''sítio'' às margens de uma ''www'', na Web, www.ipueiras.com. Ao lado, a virtual ''pracinha'': ipueiras@grupos.com.br, todos a se dar as mãos. O local fazendo-se global, socorrido por este. Tempos novos. Que se lembrem disso nossos políticos!



Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Escreve quinzenalmente

 

 

 

 

 

Reflexões sobre nossa pracinha

e as retiradas águas

 

Na conversa pessoa-a-pessoa e nas reuniões coletivas, estamos tendo êxito. Nos jornais e meios de comunicação, nossa mensagem está tendo repercussão. As adesões estão sendo espontâneas. E as preocupações com as candidaturas iminentes estão se colocando em segundo plano.

 

Marcondes Rosa de Sousa

15 de Março  2005

           

 

             Amanhã, estarei divulgando, junto a vocês, artigo que hoje enviei, para a Página “Opinião” do Jornal “O Povo”, de Fortaleza (Ce), sob o título “Águas retiradas”. Espero que não ceda lugar a temática tida por mais importante.

 

            Na verdade, é o contraponto de preocupação crescente, tocada por um grupo de “intelectuais, políticos e empresários” no Ceará.  E essa preocupação vem em defesa dos interesses mais amplos, suprapartidários, de uma “agenda plural e coletiva” de nossa terra. Meus últimos artigos estão nessa linha.

 

            É que a nós assiste-nos uma constatação: nunca foram tantos (e tão expressivos) os nomes de cearenses a brilhar na constelação nacional. Mas nunca, em contrapartida, os interesses do Ceará foram tão desprezados. Razão? A preocupação de cada um com o “seu pedaço” e, em última análise, sua eleição e fatia de poder.

 

            Junto à opinião pública, resolvemos reacender as pautas comuns: a Refinaria, a Transposição do São Francisco, a interligação das bacias, os caminhos das águas, as “estradas todas” a nos levar à inclusão social e ao sustentável desenvolvimento.

 

            Na conversa pessoa-a-pessoa e nas reuniões coletivas, estamos tendo êxito. Nos jornais e meios de comunicação, nossa mensagem está tendo repercussão. As adesões estão sendo espontâneas. E as preocupações com as candidaturas iminentes estão se colocando em segundo plano.

 

            Nessa linha, peguei de “carta” que nosso conterrâneo Renato Bonfim enviou para o Jornal “O Povo”. Pincei-a para o Ipueiras Grupos. Tadeu, em comentário, no desenho dos “caminhos das águas” tocou na questão do “Lontras”. Ao Lontras, associou-se o Cupira. E pedi a Dr. Cláudio Ferreira Lima, que, comigo participa do grupo inicial na questão maior, e lhe pedi para verificar a situação do Lontras e (se for o caso) do Cupira. O mesmo assunto, ao me encontrar com Eudoro Santana, dirigente maior do DNOCS, toquei com ele.

 

            As respostas, vocês viram. No caso do Lontras é projeto antigo, em fase final, à espera apenas de “vontade e decisão política”. Do “Cupira”, não temos maiores informações, coisa que espero dos ligados à administração municipal, de quem esperamos envolvimento.

 

            Resolvi aproveitar meus curtos (mas, graças a Deus, lidos) espaços de exatos 1.600 caracteres (incluídos os espaços em branco) na Página “Opinião”, espaço a mim concedido quinzenalmente, quarta sim quarta não. Nessa linha, tentei reproduzir a questão aqui discutida. Claro que com recursos literários, aproveitando alguns comentários que, do Grupo, colhi por e-mails e telefonemas pessoais.

 

            Não o envio agora por questão de ética e pacto com o Jornal: só realizar a divulgação em outro meio, uma feita publicado, fazendo a referência ao Jornal.

 

            Por enquanto, gostaria só de avisar que o assunto enquadra-se em dimensão mais ampla. E meu intuito é abrir caminhos para que Ipueiras não se desenhe como “águas retiradas” quando se retraça o São Francisco, numa nova sintaxe do “caminho das águas” e da interligação de bacias.

 

            Sei que muitos, em Ipueiras (as autoridades, sobretudo) ainda não entraram nos tempos da Internet. E não sabem como o local pode ser ajudado pelo global. Aqui, repito, meu interesse vai acima de qualquer interesse mais prosaico ou projeção pessoal. Meu interesse é apenas ajudar.

 

            Até amanhã, quando, no Grupo Ethos-Paidéia, que, coordeno, e neste Grupo, estarei divulgando o “Águas retiradas”. E gostaria de redespertar Renato, Tadeu, Erivelton, Simone, Dalinha, Braga, Simone e dos demais – personagens importantes, todos,  para que nossa saga vá além. Importante um contacto mais estreito entre os que, em Ipueiras (na administração pública e na sociedade) podem engrossar as fileiras em torno dos interesses comuns. Nessas fileiras, as diversas tendências não hão de se opor. Mas, ao contrário, de somar-se.

 

            Fraternalmente,

            Prof. Marcondes Rosa de Sousa

            (UFC/UECe)