Grupos

 

As esquecidas estações

 

Por Bérgson Frota

 

No início do século vinte a estrada de ferro representava o progresso. Cidades e mais cidades interioranas disputavam a honra de serem cortadas pelos trilhos que deitados em fortes dormentes traziam o futuro mais rápido.

No Ceará a rede de transportes ferroviários passou por sua fase áurea e encontrou no descaso e surgimento de outros meios de transporte o triste ocaso em que até hoje agoniza.

Infelizmente o transporte ferroviário foi relegado a segundo ou melhor dizendo, terceiro plano, se é que se pode este termo utilizar.
Na prática as estradas asfaltadas que se multiplicaram a partir da década de 70 foram em muito responsáveis para pôr-se de lado as viagens por linhas férreas. Vistas então como uma opção de transporte ultrapassado.

A estação de Ipueiras que foi inaugurada em 01 de maio de 1910, apesar de necessitar de reparos, guarda exteriormente a clássica e simples arquitetura da época. Sofrendo portanto o mínimo que se poderia comparar ao prédio já em ruínas do distrito próximo, Eng. João Tomé (Charito).

Prédios belos e bem construídos sendo ruídos pelo descaso com o passado. Muitos figuram na lista de obras a serem demolidas pelas prefeituras. Há a possibilidade e realidade de transformá-los em escolas ou museus. Até mesmo das próprias cidades cearenses de um ou outro centro citado.

Nosso País é definido também como um país sem memória. A definição concretiza-se pelos fatos expostos diariamente diante da impassividade dos governantes ante a destruição e o desgaste dos prédios históricos tombados ou não pelo patrimônio nacional.

Outro fato que mostra o pouco caso feito aos monumentos históricos é a desvirtuação de seus espaços. Quando se fazem construções não vinculadas ao monumento mesmo com a defesa da tecnologia, se fere uma paisagem, correndo infelizmente o risco do monumento ser obliterado pela construção mais recente.

Vivemos num período de rápidas e grandes transformações, mas a história nos mostra que nenhum ganho trouxe a uma população a construção de obras sobre os escombros doutras de valor histórico inestimável, o oposto se mostrou mais positivo.

E neste caso pode-se aplicar muito bem o ato de conservação e nova utilização das já tão esquecidas estações ferroviárias. O aminho para se chegar a um futuro onde as gerações possam de fato trocar contribuições e com isso se enriquecerem passa pela preservação de monumentos que são um verdadeiro elo ligando o passado ao presente para o forjamento de um futuro melhor.

*Primeira ColunaC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

 

Dos jumentos, a imagem que me ficou

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

De Ipueiras, ficou-me a imagem dos jumentos, sempre em comboios, a construir a economia da Cidade, o bem estar, a saúde, o transporte dos mais pobres. Sempre, em seus lombos, areia, água, farinha, frutas, gente pobre sobre cangalhas e selas. Indo e vindo de lugares de acesso difícil, lá aonde os caminhões e mesmo carroças a custo chegariam."

 

 

            Bem que eu queria ficar calado. Mas fui autor citado pela Dalinha, que disse que eu só conhecia “jumentos” por meio dos livros...

 

            Observo a discussão sobre o papel desses animais, na vida sexual dos adolescentes de Ipueiras. E, a Dalinha, me explico. Mal completava doze anos, um trem em Ipueiras, um avião para o Galeão no Rio, um fusca alemão a subir, na serração da noite, a Serra dos órgãos, Correas-Petrópolis (RJ), e, afinal, lá estamos, Frota Neto e eu, num seminário – no alto da colina, o de Nossa Senhora do Amor Divino.

 

            De Ipueiras, ficou-me a imagem dos jumentos, sempre em comboios, a construir a economia da Cidade, o bem estar, a saúde, o transporte dos mais pobres. Sempre, em seus lombos, areia, água, farinha, frutas, gente pobre sobre cangalhas e selas. Indo e vindo de lugares de acesso difícil, lá aonde os caminhões e mesmo carroças a custo chegariam.

 

            Incansáveis obreiros do dia-a-dia de então, hoje substituídos por outros meios. Loas, só as já assinaladas aqui: as do Padre Vieira, a chamá-los de irmãos e, na trilha dele, Luiz Gonzaga.

 

            Agora, personagens afastados da vida econômica, têm esses animais, nova função. Em indiscriminado abate, satisfazem o voraz apetite de europeus. E aqui nesta discussão, capítulo novo do que, em nossa cultura, representaram: parceiros (as jumentas) no ritual de iniciação sexual dos meninos, em nosso sertão. Dalinha, em nossas discussões, aprofunda esse capítulo. E isso, quem sabe, poderá até dar grande contribuição sobre “A vida sexual dos adolescentes de Ipueiras”... Fica uma indagação: e as meninas, tinham elas algum ritual que, por acaso, incluísse o mundo animal (o dito irracional)?. Fica a pergunta no ar, se o aprofundamento do assunto tiver algum papel na educação das crianças e jovens que, em Ipueiras, lá permanecem...

 

***

 

Começamos nossas discussões com uma brincadeira sobre as jumentinhas. Agora, já se dimensiona um aspecto econômico e uma temática social/sexual. Estou aguardando o que as meninas poderão dizer sobre o que você levantou sobre a afinidade delas com o mundo animal. Afinal, como disse uma vez um ministro, cachorro também é gente.

 

(Tadeu Fontenele)

 

 

 

Estórias bestiais (vários)

17:29 @ 02/10/2006

 

ESTÓRIAS BESTIAIS

 

a) Deixe em paz as jumentinhas

 

            Com esta que vou contar, ressurgem as lembranças do Seu Zeca Bento, meu pai, do Professor Dario Catunda, meu tio e do Professor Antonio Simão.

 

            Nosso professor de matemática do Colégio Estadual Otacílio Mota, Antonio Simão, vez por outra tirava uma folga das suas aulas e não ficava repousando no seu sítio à beira do Açude do Solon. Sua folga era curtida tomando umas pingas. Dos estímulos etílicos surgia o orador, que falava de tudo e de todos, a percorrer as calçadas e ruas próximas ao mercado de Ipueiras, com passos firmes e largos, lembrando, talvez, seu tempo de cadete na Escola Militar das Agulhas Negras, onde estudara.

 

            Os discursos, geralmente com citações filosóficas, eram interrompidos com abordagens que ele fazia aos transeuntes, ora com uma saudação, ora com críticas sutis, ora com referências a atos praticados pela pessoa abordada, que a identificavam na cidade.

 

            Numa dessas ocasiões, ele estava em cena justamente em frente ao Cartório Bento Filho.  Lá dentro, o Tabelião Zeca Bento e o mentor intelectual do cartório, Tio Dario. Estava eu andando na calçada e ao dobrar a esquina para dirigir-me ao cartório, notando a presença do nosso orador, apressei o passo no intuito de evitá-lo, mas ele percebeu minha intenção e gritou: "Hei, você aí. Deixe em paz minhas jumentinhas ou mande milho pra elas".

 

            Tendo aí apressado mais o passo, alcancei o Tio Dario com as mãos na cabeça, entrando nos aposentos, como que escandalizado. Aí, reação de meu pai, encarando-me. Não disse nada, mas me pareceu ter rido por dentro. (Tadeu Fontenele)

 

 

b) Caí do jumento

 

Gostei da história, o que me fez lembrar de quando garoto, após o início de um namorico com a Fatima de Dona Brígida. Fui passar o dia na Barriguda, perto do distrito de Livramento. E, durante o dia, levei uma queda de um jumento. Fiquei todo arranhado.

 

Qual não foi minha decepção quando, ao chegar a Ipueiras. Todo pintado com mercúrio cromo, procurei a Fátima, que, ao me receber, foi logo dizendo: “Essinho aí não dá mais. Vamos terminar”. Além do tombo, a queda...

 

Foi mais uma daquelas noites de decepção, perante os companheiros e as meninas (Edson do Zé Morais) 

c) Besteira também é cultura 

Sem querer botar fogo na fogueira, e já botando, lhe digo: Nós mulheres de Ipueiras, somos traumatizadas com essas histórias "bestiais". Vou acreditar na sua versão para não perder um amigo... Mas também, perdi um namorado por causa de um jumento.

 

O caso se deu mais perto, nas c’roas. Era ali que os meninos amantes da fauna e da flora, se exercitavam. As c’roas do Matim, as c’roas do seu Esmeraldo, e a competição injusta e sem rédeas das "Rochinhas", "girons" ou coisa do gênero.

 

As meninas resistiam aos coiós, mas os jumentos não resistiam aos sucessivos beijinhos, senha que os levariam até o barranco mais próximo, para alegria dos meninos.

 

Talvez a Fátima não tenha acreditado na sua versão. No meu caso, o rapaz me apareceu com o dedão do pé num estado deplorável. Perguntei o que havia acontecido. Antes que ele respondesse, Tadeu Aragão, meu primo, filho do Luiz Aragão, me contou com detalhes o acontecido. Final de romance sem direito a volta. Até hoje não consigo olhar pra cara dele, sem me lembrar da cena. Besteira também é ... cultura (Dalinha)

 

 

d) A vida a brotar do árido chão...

 

Leio as histórias de vocês. E me lembro de cena, no dia em que recebi o título de Cidadão Honorário de Quixeramobim. Na delegação ipueirense ali,  estavam as irmãs Auxiliadora (mais nova) e Adelaide (irmã mais velha). No jantar, ouvi de Auxiliadora o que encarei como elogio: “Puxa! Jamais pensei que você fosse tão grande!”. E, sardônica, ouvi a espetada de Adelaide? “ Pois é! O problema dele sempre foi esse. Ele nunca foi pequeno, criança. Sempre foi ... grande!” 

 

Vejo agora vocês a falar de suas infâncias e adolescentes, em Ipueiras, a penetrar nas metáfora das “histórias bestiais”, “mulheres traumatizadas” disputando os  namorados com as jumentos”. Da vida “nas c’roas”, amantes do mundo da fauna e da flora. E das meninas “resistindo aos coiós”, os jumentos levando os meninos aos barrancos mais próximos...

 

Sim, Dalinha, “besteira também é cultura”.  A naturalística cultura, onde as bestas se fazem professores na iniciação sexual (e sensual) de crianças, adolescentes e jovens...

 

 Em minha adolescência, a natureza, em Petrópolis, foi-me o frio, a névoa, os dedos gelados, o queixo a tremer.  A montanha, a contemplação. No máximo, o escapar para um roubo, no pomar, de um caqui, uma jabuticaba, ou um abricó. E o banho nas águas quase sempre cobertas de névoas.

 

 Sim, parece que, em terra árida, a vida sôfrega brota do chão e do calor dos animais... (Marcondes Rosa)

 

 

 

Seu Abilio

19:19 @ 02/10/2006

Heron Domingues

 

"Seu Abílio"

  

            Uma das que costumava contar “Seu Wencery”, meu pai:

 

            Anos 40, o mundo entrando na 2ª. Grande Guerra Mundial. Em Ipueiras, em torno do rádio, sintonizado em ondas curtas, na Rádio Nacional, em busca das últimas. De repente, a característica musical do famoso “Repórter Esso” e a voz de Heron Domingues: “... e atenção, o Repórter Esso em edição extraordinária!” Todos atentos: “O Brasil acaba de declarar guerra ao Eixo...”

 

            Silêncio. Todos pasmos. Ninguém sabia ou ousava algo dizer. De repente, alguém quebra o incômodo silêncio: “Sei não! A coisa está preta. Mas vou dizer uma coisa. Se a Bahia entrar nessa guerra...”

 

            “Seu Abílio” não agüentou. Levantou-se e foi se retirando: “Não agüento tanta ignorância. Caboclo bucho, deixa de tanta asneira!” E se foi, a roda inteira, com a cena, aliviada um pouco do impacto da notícia.

 

            Hoje, associada à folclórica expressão “Oropa, França e Bahia”, incorporei, entre meus ditos, em alusão à cena de “Seu Abílio”, o refrão: “Sei não, mas se a Bahia entrar nessa guerra...” (Marcondes do “Seu Wencery)

 

“Caboclo Bucho”

 

Você retratou bem o Seu Abílio com a expressão "caboclo bucho" - sua marca registrada. Quanto o alguém que disse sobre a Bahia entrar na guerra vai ser motivo para nossas fofocas em julho próximo na casa da Dalinha e vamos descobrir quem foi (Tadeu Fontenele).

 

 

           



 

Antonio Lisboa, o Pioneiro

23:24 @ 02/10/2006

Cidade Livre

 

"(...) consideramos, de alguma forma, a nossa Ipueiras como uma espécie de “avó” da então chamada “Novacap”, Brasília." (Antônio Lisboa Mourão)


 

Antônio Lisboa, o Pioneiro (03.05.2004)

 

Só agora, pude acusar o recebimento da matéria do Correio Braziliense homenageando, entre os “pioneiros” da construção de Brasília, nosso conterrâneo de Ipueiras, Antônio Lisboa Mourão (74 anos), sua esposa Maria Inês e sua descendência.

 

Justa a homenagem. Duro trabalho, para quem se alojou, de início, no improvisado “Núcleo Bandeirantes” (meu pai, Wencery lá esteve alguns meses e, ao sair do Seminário, por lá passei algum tempo) e viu a cidade nascendo e a ajudando a crescer. 

 

Como outros tantos cearenses (muitos de Ipueiras), Lisboa ajudou Brasília e suas cidades satélites a se afirmarem no mapa do hoje Distrito Federal. E, hoje, com orgulho, pode bater no peito e rejubilar-se, como um “orgulhoso pioneiro”, na expressão do Correio Braziliense:  “Considero todas as pessoas que nasceram em Brasília meus netos porque a cidade é como se fosse minha filha mais velha”.

 

E, nós outros, ipueirenses, diante disso, considerarmos, de alguma forma, a nossa Ipueiras como uma espécie de “avó” da então chamada “Novacap”, Brasília.

 

Parabéns, pois, a Lisboa, pela homenagem do Correio Brasiliense, que a todos nós, seus conterrâneos, envaidece. (Marcondes Rosa)

 

 

Na Cidade Livre e Taguatingua

 

Seu Wencery esteve comigo não só na Cidade Livre, como em Taguatinga. Ele me dizia: “Acho incrível todos os ministérios serem perto uns dos outros. Assim se resolvem todos os problemas, até a pé.”

 

Quero convidar os filhos do saudoso Wencery a virem a Brasília. Estaremos de braços abertos para recebê-los (Lisboa e Marines)             

 

Quantas histórias!
 
Ah! Quantas histórias, dosadas de ficção, você, na Cidade Livre – onde
passei uns tempos – e em Taguatinga, escutou de meu pai. E quantas 
outras, dos candangos cearenses, você ouviu e até presenciou.
 

Parabéns a você, a Maria Inês e aos filhos por sua história de vida. E todo o acolhimento nos "bancos desta avenida" a relembrar histórias comuns aqui (nesta virtual Ipueiras) e em nossa Cap ...

Quem sabe, um dia, a gente se encontra aí, relembrando histórias. Fui muito a Brasília. Mas daquelas viagens em que a gente sai do aeroporto, fica o dia todo discutindo (ou resolvendo problemas) e volta pro aeroporto. (...) Ando meio preso na universidade. Sabe, professor tem aulas o tempo todo. Mas vamos ver se a gente dá uma escapulida e se encontra. Abraço da família do Wencery: Adaísa, a nossa mãe, Solange, Marcondes e Walmir.

 

 

 

 

 

 

Sábado, dia de feira

 

                         Dalinha  Catunda

 

Hoje Ipueiras se dá ao luxo de ter feiras todos os dias. Nas bancas bem sortidas, de tudo se pode encontrar. São encontradas: maçãs, morangos e uvas, frutas que, anti­gamente, conhecíamos apenas de nome ou por fotos em revistas.

 

Mas, não é exatamente dessa feira que quero falar. Quero falar da feira de anti­gamente, a feira que me encantava, a feira de sábado em Ipueiras. Ela se espalhava pelas calçadas e ruas no coração da cidade. As montarias e animais de cargas eram amarrados nas muitas carnaubeiras e nos pés de fícus que arborizavam a cidade. As compras eram carregadas em sextas de cipó. As frutas chegavam em jacás. Feijão, milho e farinha vi­nham em surrões.

 

O que também me chamava atenção eram os amarrados de peixes, piabas e avo­antes  feitos  com palhas. A carne também era transportada para casa na palha, que en­fiada ao dedo do carregador chegava ao seu destino. As cafezeiras eram figuras mar­cantes na feira antiga. Com suas tapiocas quentinhas e o cheirinho de café  aromati­zando o ambiente. Palma, manzape, pão e bolos eram os produtos das bancas. Sei que elas eram muitas, mas só dois nomes me vêm à mente - Nãna e Maria Martins.

 

Achava fascinante e ficava de fato hipnotizada com as grandes cuias cheias de pequenas bonecas de pano, coloridas e chamativas. Quantas vezes meu sorriso de me­nina não se iluminou ao ganhar tal prenda? Ainda nas cuias, o coentro cheiroso e fres­quinho. Entre pimentões e tomates, a cebola roxa. O inesquecível maxixe, que aparecia junto com milho verde e melancias (não a melancia redonda de hoje), aquela melancia comprida que a gente cortava a ponta fazendo cumbuca para comer de colher. A fruta de conde, que é nossa suculenta ata, os cachos de pitomba, mangas e cajus de vários tipos, ah!... os saborosos cambucás. Sabores e inesquecíveis

 

Gostava de apreciar galinhas, capões e capotes expostos à venda. Tinha ainda, a feira do barro, onde eu comprava minhas panelinhas de brincar. Panelinha e bonecas de pano eram os brinquedos da época. Para meninada daqueles tempos, era sagrado co­mer bolo manzape na feira, mesmo com a estória que o bolo era amassado com os pés ninguém se importava. Alfenins, batida, rapadura e tijolinho, também faziam a festa da meninada.

 

Esta era a feira de outrora, vista por um olhar de menina que guardou o cheiro, o sabor e o colorido da velha feira que tanto lhe fascinava. Atualmente, Ipueiras tem feira diariamente. Tem de tudo que se possa imaginar, agrada à adulta que hoje sou. Mas deixa saudosa a criança que cultivo.

 

 

EVOCAÇÕES DA FEIRA ANTIGA

 

Por Walmir Rosa

 

Voltei à Ipueiras antiga, com sua "reportagem" sobre a feira de Ipueiras, querida Musa Dalinha.

 

Revi o calçamento de pedra marron, desigual, do quarteirão defronte ao mercado, no ficavam, do lado esquerdo da Rua Padre Angelim, o Armazém do Seu Sebastião Matos, chefe político da UDN, a loja de tecidos do Seu Edmundo Medeiros; a Farmácia do Seu Idálio, a loja A Pernambucana (depois loja do Zé Morais, a Farmácia do Nilson, o Armazém do Seu Pedro Aragão, chefe político do PTB, e o armazém do Seu Raimundo Aragão, pai deste último). Do outro lado, no Mercado, dentre outros, os estabelecimentos comerciais, de Aquiles Lima, Moacir Mourão, Antônio Luciano...

 

Passeei, como fazia em menino, por entre surrões, sacos e jacás de gêneros alimentícios e frutas diversas, comi pitombas, chupei pirulito, comi manzape. A propósito do manzape, só não senti mais saudade do gosto porque, recentemente, em conversa com um grande amigo, Basílio, das bandas do Crateús, sobrinho do Pedro Basílio, grande jogador do Fortaleza em outros tempos, ligado aquele a Ipueiras por seu descendente de Antônio Severo e José Severo, disse-lhe que tinha muita vontade de experimentar novamente o gosto do manzape, do meu tempo de menino.

 

Prestimoso, em viagem a Crateús, sua terra, trouxe-me um pedaço de manzape, com as devidas desculpas de que tinha reservado para si o pedaço maior, porque nele, também, as audades das comidas de criança eram muitas. Resgatei o manzape, que para estrangeiros é o mesmo pé-de-moleque, com a variação coco-da-Bahia para coco-babaçu.

 

Realmente, a feira antiga dava ênfase aos produtos locais. De estranho, mesmo, só os retratistas, que montavam seu equipamento fotográfico lambe-lambe próximo à parede lateral do Armazém do Seu Sebastião Matos e documentavam a fisionomia dos fregueses, habilitando-os à cidadania, seja com a obtenção de um título eleitoral, uma "Carteira do Ministério", (Carteira Profissional ou hoje, Carteira de Trabalho). Nesse tempo era incomum alguém da cidade possuir Carteira de Identidade, que só se "tirava" na Capital. Nunca vi uma, até sair de Ipueiras.

 

A feira, hoje, perdeu suas origens. Em todo lugar, é uma mesmice. São confecção, bordados, sapatos, sandálias, ferramentas, disco pirata de CD e DVD, artefatos de moda. Enfim, consome-se muito, mas come-se pouco. Só frango de granja, frutos e verduras das Centrais de Abastecimento (até uva e maçã tem, que a gente só conhecia de nome, nem de retrato).

 

Enfim, adorei a feira antiga. Comento apressado e sem revisão de texto, pela exigüidade de tempo. Um grande abraço a todos, especialmente Dalinha (Walmir Rosa, em Fortaleza, com o pensamento em Ipueiras).

 

 

ENCONTRO-ME DENTRO DA FEIRA

 

Por Raimundo Nonato Lima

 

Estava eu de tocaia, quando apareceu esta história da feira. Literalmente me encontrei dentro da feira. A narrativa da Dalinha foi completa e ilustrativa. O meu nobre Walmir esqueceu a Coletoria Estadual que ficava entre a loja de tecidos do Senhor Edmundo Medeiros e as antigas Pernambucanas, posteriormente a loja do Zé Morais. Não lembro da farmácia do seu Idálio naquela área. Lembro na outra quadra próximo do comércio do Senhor Guarani. Uma característica que foi omitida - aquela rua que começava em frente ao armazém do Senhor Sebastião Matos até o armazém do Senhor Pedro Aragão. Era a única de Ipueiras pavimentada com cimento. Se eu estiver errado corrijam-me (Nonato)

 

 

O RESTO PARA VOCÊS

 

 

Você tem razão, Nonato. No meu íntimo, eu sabia que estava faltando um prédio entre a loja do Seu Edmundo e a farmácia do Seu Idálio. Era a Coletoria Federal. Quando li, vi até o Claudio Catunda atrás do Balcão. Ainda mais um pouco, a imagem foi substituída pela do Zé Helio, seu filho, marido da Alaíde da D. Brígida. Do outro lado da rua, a omissão de alguns nomes foi proposital, para ensejar que alguns, como você, Nonato, completem a narrativa...

 

Você tem razão, ainda, quanto ao cimento na Rua General Sampaio. Quando inauguraram, dizem que ficou parecido com a Av. João Pessoa, aqui em Fortaleza. Vejamos se alguém se lembra do quarteirão do qual  você falou, em frente à Praça Getúlio Vargas (hoje Maria Lima). Armazém do Guarany, Estatística (IBGE) com seu Delmiro sentado na calçada. Cartório do Wencery, meu pai, bodega (ô nome lindo!) do Senhorzinho. Bar do João de Melo (bilhar e sinuca)... Deixo o resto para vocês (Walmir Rosa)

 

 

 

 

 

 

Jatobá, o grito que não pode calar!

 

 

Dalinha Catunda

 

O Rio Jatobá nos ofereceu um fantástico espetáculo de suas cheias. Serpenteou lindamente a cidade e comoveu corações. Com a força das águas, o lixo sumiu do seu leito, o verde se espalhou por suas margens e, mais uma vez, ele foi motivo de admiração de sua gente.

 

Vozes se levantaram em defesa do Jatobá. Estudantes, colégios, "Agente Jovem”, fizeram movimentos. Poetas cantaram, em seu louvor. O poder publico falou bonito. Mas ação efetiva, não se viu.

 

O grito no ar deu a Ipueiras uma página inteirinha no Diário do Nordeste. A cidade ficou vaidosa. Leu, releu, repassou aos amigos. Mas, em seguida, engavetou o jornal e, junto com ele, sufocou o grito em prol do velho rio...

 

A estiagem chegou e as águas foram desaparecendo. O grito se foi emudecendo. E, junto com ele, somos, de novo, apenas pequenas cacimbas e escassas poças à espera do milagre da água maior a nos fazer corrente rumo às soluções.

 

A verdade é que, agora, o rio fede. Contudo, em nome de minhas incontidas lembranças, sinto-me na obrigação de continuar gritando, até que esse grito doa nos ouvidos do poder publico e amoleça o coração daqueles que têm nas mãos o poder.

 

É lógico. Além de gritar, cobrar atitudes efetivas, a sociedade deve fazer sua parte: não desmatando as margens do rio, não poluindo seu leito, nem tirando desordenadamente sua areia.

 

O Jatobá é um patrimônio valioso de Ipueiras. Merece ser cuidado por todos nos!

 

 

 

 

 

 

Síndrome de Nazaré

 

Marcondes Rosa

 

 

(...) “Sítios” e “blogs” por aí afora. Nada, no entanto, de nossas potencialidades. Costumo dizer que, entre nós, predomina quase sempre o “marketing da mendicância, a mostrar as nossas chagas: a fome, a miséria, a escassez das águas, os baixos índices de um sustentável desenvolvimento. A terra, no entanto, é pródiga de cultura, de artesanato, de folclore, de paisagens diversificadas (as serras úmidas, as macambiras, os sertões enfim).  É mostrar, pois, essas coisas que muitos aqui não atribuem, infelizmente, o menor valor. Para os de fora – os turistas sobretudo - são coisas vistas como “diferentes”. E justo nisso vêem potencial de sedução junto aos de outras cultura. Por isso, nisso havemos de apostar e investir.

 

No Ceará, sempre me revoltei com a gente querer vender o dos outros aqui. Vejam os “Beach Parks”, os “Saint Tropez des Tropics” e coisas dos outros. Vi gente querendo aqui construir campos de golfe para atrair os americanos. Aqui, em geral, a gente não encontra as coisas daqui. Até os sabores se estandartizam. E aí estão os McDonalds da vida. Enquanto isso, até nossa rapadura, hoje é patente estrangeira por aí afora...

 

 Cadê a cozinha de Ipueiras de que as nossas “saias de plantão” se gabam? Lembro-me, até hoje, após me formar, de almoço que me ofereceram, em Ipueiras, por Dona Maria, na casa do Zé Lima, a mim oferecido. Guardo até hoje a revisitação aos sabores dos tempos da infância. Da casa de “Seu Juarez”, levei, por anos, as saudades do licor de cambucá de Dona Fransquinha. Um dia, no Palácio do Governo do Maranhão, participávamos, na abertura de um encontro nacional, de lauta recepção. De repente, dei com Dona Violeta Arraes, amiga minha e irmã de Miguel Arraes enxugando lacrimas nos olhos. Pensei que, ali, algo estranho havia ocorrido. Ela me disse: “O suco! Não sabia de que era. O gosto levou-me à infância”. Era um refresco de pitanga, a lhes despertar saudades deixadas no Cariri.

 

E uma informação para vocês todos. Ao superintender, como pró-reitor da UFC, as “Edições UFC”, nosso best seller (o mais vendido) era sempre “Velhas receitas da cozinha nordestina.

 

Nessa condição, lembro-me, recebia eu equipe do Projeto França-Brasil, mediado por Dona Violeta Arraes. A idéia era, lançar na moda internacional, motivos franceses associados aos da cearense. Um embaixador francês, em meio a professores da UFC e empresários cearenses, perguntou-me (ele falava sempre em francês e uma professora visitante francesa, Caterine Clement, traduzia o diálogo): por que, em nossas lojas, os nomes eram sempre estrangeiros. Isso a partir das “boutiques”...

 

Sorri... É que muito na havia escrito sobre o que denominara “Síndrome de Nazaré” – aquela história da procedência do Cristo:: “E de Nazaré pode sair alguma coisa que preste?”.  Preferi pedir a Vicente Paiva, da industria de confecções cearenses, que, respondesse. Ele, em seu rude dialeto, assim se manifestou: ´”É por causa da exportação!...” Sem entender, o embaixador francês revidou: “Mas as lojas são aqui em Fortaleza e o comércio é local”. E Vicente: “Não! É a exportação de nós p’ra nós”. Aí é que o embaixador francês não entendeu. O professor Antônio Mourão Cavalcante contou-nos a história do biscoito “Maria”, da Fábrica Fortaleza, cujas vendas se enfraqueciam. Uma indústria, localizada na BR 116 – que até de Fortaleza ao Rio Grande do Sul – lançava o Richester... Virou sucesso...

 

Coisas assim estão em nossa cabeça. Um colega meu, Benito Melo, já falecido foi à Argentina. Lá comprou um blusão de couro muito bonito. Ao chegar, mostrou-me o casaco. Olhei a “griffe”: Villejack Jeans... fabricado aqui em Fortaleza, no mesmo bairro onde ele morava. Aqui ele poderia comprar o mesmo casaco a preço de fábrica. Caiu na “síndrome de Nazaré”. Pagou os tubos pelo produto importado...

 

Vicente Paiva, aí, volta à cena: “A loja de produtos da moda aqui é boutique. Se a moda é feminina, os nomes são em francês. Se masculina, as “griffesem geral italianas. Se para jovens, em inglês”. E concluía com o caso de sua indústria: “di Paiva”, como se ele fosse um italiano.

 

Fui além. Falei dos nomes dos edifícios: Village Mediterranée, Twin Tower e assim por diante. É como se disséssemos que moramos todos fora daqui...

 

Final da história. Andamos três dias com o francês, por vôos sobre todo o Estado. No sábado, coube-me apanhá-lo, em meu carro, no Hotel Esplanada. Lá fui eu preocupado como conversar em francês com o embaixador, sem tradutor. Lá cheguei. Ele veio até mim e, em francês, me entregou três cartas, dirigindo-se a mim em francês: uma, ao senhor Governador; outra, ao reitor da UFC, e outra ao senhor pró-reitor.

 

Após isso, num escorreito português e entre sorrisos concluiu: “Bem, aqui termina minha missão oficial. A partir de agora, somos cidadãos comuns, podemos bater papos em português”. E assim foi. Conversamos muito sobre esse sentimento de inferioridade dos brasileiros, mais nítido aqui entre nós. E muita coisa observada pelo embaixador do comportamento de nossas autoridades e empresários. Eles costumam nos observar.

 

Perguntei-me porque, se falava o português, nossas reuniões eram sempre com tradutores. Ele me respondeu, surpreso com a pergunta, que isso é o que rezava o protocolo, com o intuito de cada um valorizar o seu e não se dobrar aos valores dos outros. Nós aqui, colonizados, só valorizávamos o de fora: “exportação de nós para nós” – na expressão de Vicente Paiva.

 

Essa ideologia está, infelizmente, entranhada em nosso turismo, onde abandonamos nossos valores e maneiras de ser, esquecendo-nos de que maior motivação teriam os turistas para aqui conhecer o diferente.

 

Que se mostrem, pois, nosso sol, nossas serras úmidas, nossos sertões, mandacarus, açudes e macambiras, nossa arte. Enfim, nosso jeito de ser, nossa cultura. A valorização do que é nosso. Não o dobrar-se de nosso povo a formas escravizantes (de complexo de inferioridade e de prostituição até) de relacionamento com outros povos.

 

 

Onde nasce o rio Jatobá
Bérgson Frota

O Povo -16/08/2006 13:39


No livro Terra dos Clones e outras estórias o escritor ipueirense Frota Neto inicia o conto Mariazinha do Poço, assim escrevendo: “O Jatobá é um rio de areia que só se enche d´água uma vez, no inverno, e quando enche, de ano em ano. Ele não banha, corta Macambira ...”, nome fictício este, com o qual o escritor se refere à Ipueiras.


Em Versos versus minha Vontade, livro poético de Jeremias Catunda se lê no trabalho “Minha Terra”, precisamente na segunda quadra : “Charmoso corre o velho Jatobá ... / Sereno às vezes, às vezes violento / Como se Tritão raivoso, ciumento, /A ninguém mais deixasse se banhar.”

Tanta importância ao tão citado rio talvez se dê pelo fato único deste nascer em Ipueiras, precisamente no coração do município.

Os dois trechos sobre o rio Jatobá mostram o quanto o rio ipueirense, embora passe mais tempo seco do que cheio, visto ser sazonal, toca com profundidade a verve poética e a prosa dos filhos da terra.

Quando o rio do Engenho, barrento, revolto, vindo dos sertões e várzeas cruza a ponte que leva ao bairro Vamos-Ver, junta-se a um outro, o rio Pai Mané, de águas límpidas e ácidas vindas da azulada Ibiapaba.

É desta união que surge o Jatobá, descendo então com águas mornas e barulhentas às vezes barrentas outras silenciosas e cristalinas.

Fazendo um trajeto sinuoso corta a ponte do Idálio e desce trazendo nas primeiras levas de chuva, bolas de juá, fruta lodosa e farta, misturada a mutambas negras que vão se espairar nas areientas e outras vezes barrentas margens das Crôas e das terras do Lamarão quando mais embaixo chega.

Serpenteando pelo município o rio mais além de que antes entrava no Acaraú, quando cheio hoje já deságua no açude Araras, marcando neste trajeto em épocas invernosas as rotas de piaus e curimatãs carregadas de ovas, prateadas branquinhas que rio acima se lançam em direção às cabeceiras do mesmo.

Assim é o Jatobá, o rio de Ipueiras. Seco na maior parte do ano, mas quando cheio, um espetáculo borbulhante e roncador, fazendo grandes redemoinhos no seu “desfilar” como se nesse percurso afirmasse com mais força seu renascimento a cada nova estação chuvosa.

Pesquisador

 

 

O MILAGRE DO MEDO

 

 

Jean Kleber Mattos

 

Quando meu pai me contou essa história eu fiquei desconfiado. Algo me dizia que ela não pertencia ao repertório dele. Eu sentia naquela narrativa o toque de seu Wencery, o histórico tabelião de Ipueiras. Marcondes Rosa, filho dele, escreveu, em março de 2006, no “Blog Ipueiras”, uma crônica intitulada “Estórias do Seu Wencery”. Nela descreveu a habilidade do pai em conferir um toque mágico, até sobrenatural, aos causos que contava. Seu Wencery era capaz de transformar um causo numa lenda.

 

Mas enfim, a história é esta:

 

***

 

Na área rural do município de Ipueiras, um sujeito resolveu criar carneiros deslanados. O negócio prosperou tanto que despertou a cobiça de um casal de ladrões. Marido e mulher bolaram uma estratégia quase sempre eficaz, para roubar os carneiros: a  assombração.

 

Uma vez por mês, em noite enluarada e à meia noite, escondiam as montarias num mato perto da curva de estrada mais próxima do criatório. A mulher então vestia um camisolão branco e postava-se em posição de cruz ao lado da estrada. Quem a viu por primeiro encheu-se de medo e espalhou a notícia. O povo passou a ter medo de andar naquele trecho da estrada em altas horas, quando era lua cheia. A colheita era farta porquanto mais de um carneiro era surrupiado por vez e as montarias eram um meio de transporte eficiente.

 

Certo dia, num bar da cidade, alguns homens comentavam sobre a aparição, quando um viajante recém-chegado entrou na conversa.

 

- Besteira! Assombração não existe!- Falou.

- Hoje é o dia - comentou um popular. O senhor tem coragem de ir lá?

- Claro que tenho! Basta que me levem!

 

Um aleijado que, acocorado, escutava a conversa, falou:

- Eu também não tenho medo. Não vou lá porque não posso. Sou aleijado.

- Por isso, não!- retorquiu o viajante - Eu posso carregar você!

- Pois então vamos! - finalizou o aleijado, resignado.

 

Ele andava acocorado, pois o aleijão impedia a flexão das pernas. Era como se a panturrilha fosse colada à coxa. Um carroceiro dispôs-se a levá-los, desde que a uma distância segura do local da aparição. Ele também tinha medo. Chegados ao local combinado, desembarcaram.

 

A distância a vencer a pé, carregando o aleijado, não era grande. Com o andar vacilante o viajante caminhou devagar, já divisando ao longe a temida figura. A mulher, pensando que era o marido trazendo um carneiro, perguntou:

 

- É magro ou é gordo?

Arrepiado de medo, o viajante respondeu:

-Sei lá se é magro ou é gordo...Lá vai!

 

E atirou o aleijado na direção da “coisa”, fugindo dali em desabalada carreira, somente parando ao irromper no bar, onde, esbaforido, literalmente “desabou” sobre uma pobre cadeira.

 

Foi quando viu o aleijado, que chegara antes dele!    

 

 

 

 

José Mariano de Melo

 

Walmir Rosa

 

 

        Seu Zé Mariano era uma figura atarrancada, sem ser baixo, pescoço grosso, olhar penetrante. Homem de poucos sorrisos.

 

        Era o Senhor das Oiticicas. Grande fazenda pras bandas do pé da Serra da Ibiapaba. Chefe político local, sempre elegia vereador e tinha papel preponderante na política ipueirense.

 

        Seu filho, Sinhozinho Mariano, foi vereador por várias legislaturas.

 

        Tinha como grande inimigo político seu Bilô - José de Holanda Cavalcanti, também grande proprietário local. Havia, entre eles, um ódio mortal, motivada por ter seu Zé Mariano prendido seu Bilô em uma prisão improvisada em sua fazenda.

 

        Ambos, muito amigos de papai. Seu Bilô possuía um posto de bicicleta (coisa antiga e boa). Todas as férias em que eu ia para Ipueiras, a me esperar lá estava uma bicicleta gentilmente cedida por ele para uso até a minha volta às aulas, em Fortaleza. Fiz grandes passeios e loucuras. Quem, como eu, não descia o alto da estação de mãos soltas, atravessava a ponte e ia, assim, até a Rua das Flores? quem não apostou corrida da cadeia até o rio?

 

        Mas seu Zé Mariano também era um grande "botador de apelidos".

 

Seu Bilô, seu inimigo era o ferrabrás;

Seu Juarez Catunda, coletor estadual, Peru (vermelhão).

Seu Camaral, pai da Darci, Gogó de Sola (por ter o couro do pescoço grosso);

Seu Tim Mourão, prefeito, Zé Bracim;

Seu Zeca Bento, por estar sempre de bem com o Poder, Pilatos;

Wencery, por ter o rosto manchado, Lavrado.

 

        (Há muitos outros, mas, no momento, não consigo me lembrar dos nomes. pode ser que alguém tenha mais memória que eu.)

 

 

O lauto banquete

 

          Ainda sobre Seu Zé Mariano lembrei-me de um acontecido, contado por meu pai.

 

         Anos 40. Candidatos a Governador do Estado: Faustino de Albuquerque e General Onofre. Seu Pedro Aragão, chefe do PTB local, apoiava o futuro Governador Faustino de Albuquerque.

 

         Em campanha, a caravana do Dr. Faustino iria passar por Ipueiras, com o candidato à frente. Seu Pedro Aragão programou um lauto banquete em sua homenagem e convidou as pessoas proeminentes da sociedade ipueirense, inclusive, claro o Coronel José Mariano de Melo.

 

         Sentados à mesa, em dado momento do almoço, o Seu Zé Mariano, depois de empanturrar-se de peru e outras guloseimas típicas da época, não contou pipocas: abaixou o rosto e vapt vupt, passou a toalha bordada branca da mesa na boca.

 

         Ante o olhar reprovador de Dona Dolores, tascou, olhando para o Governador, que a tudo assistia:

 

         - Desculpe, eminência. Não é falta de educação. É falta de guardanapo.

 

         Acabou com a dona da casa.

 

 

Pega Ladrão! (Jean Kleber)

10:15 @ 07/10/2006

Jean Kleber

 

PEGA LADRÃO!

 

Jean Kleber Mattos

 

            A alcunha do larápio era “Bolinha”. Arrombador de residências. Marginal fichado na polícia de Fortaleza como perigoso. Arma branca.

           

            Sabe-se lá por qual motivo, resolveu deixar a capital e fazer incursões pelo interior do Ceará. Caminhos tortuosos o trouxeram a Ipueiras, no fim dos anos quarenta, século vinte.

           

            Na primeira noite de atividade arrombou três residências, uma delas o Educandário, onde morávamos eu, meus pais Neném Matos e D. Mundica, minha avó Luizinha, a criada Maria José e um aluno interno, o Antônio Brandão.

           

            No dia seguinte ao assalto, o Antônio, que dormia numa rede na principal sala de aula, deu por falta do par de alpargatas que deixara no chão sob a rede. Uma porta forçada forneceu a pista. Alguém entrara sem ser convidado.

 

            A notícia logo se espalhou. Quase certo que era alguém que vinha de longe, pois aquele tipo de crime não figurava em nossa lista de ocorrências. O contingente policial era pequeno. Comandava-os o sargento Almeida. Logo, pacatos cidadãos da cidade ofereceram-se para compor uma patrulha de vigilantes que auxiliariam a polícia na captura do ladrão.

 

            Minha avó narrou-nos então sua experiência da noite do assalto. Sono leve, acordou em meio à madrugada com um lampejo dentro de casa. Acendeu uma vela. Nada aconteceu. Apagou a vela, por fim. Daí a pouco, outro lampejo. Luz forte. Acendeu novamente a vela e ficou atenta. Nenhum barulho. Não mais lampejos. Naquela época, rolava a crença de que lampejos inexplicáveis dentro de casa durante a madrugada, eram um sinal do além, avisando que estava próxima a “passagem” de alguém. Desencarne. Ela havia ficado meio preocupada. Diante, porém, dos novos fatos que agitavam a cidade, entendeu que os lampejos poderiam ser da lanterna do ladrão.

 

            Neste dia a cidade dormiu em sobressalto. Noite escura como breu. A patrulha era pequena, mas nuclearia, em sua passagem, eventuais dorminhocos, aos gritos, se houvesse necessidade.

 

            De repente, um alarme no meio da noite: aqui! Alguém percebera o que poderia ser o facínora esgueirando-se de uma casa. A guarda e a patrulha cidadã acorreram. Lembro-me de Manoel Dias, o dentista, como um dos nucleados. Tática de guerrilha, o grupo espalhou-se em leque para fechar os flancos, até que, de um quintal, um grito denunciou a presença do fugitivo. Sem chance para ele. Foi finalmente capturado.

 

            No dia seguinte, fila de gente à porta da cadeia para ver a presa. Objetos recuperados eram entregues aos donos. As alpargatas do Antônio Brandão estavam lá. Uma das tiras fora parcialmente cortada à faca para acomodar o pé do ladrão, que era maior. Mesmo assim, Antônio a quis de volta.

 

            Lembro-me de minha avó toda arrumada, pronta para ir à cadeia visitar o detento. Comentou mais tarde sobre o diálogo com ele travado. Coletara a impressão do marginal ao descobrir que adentrara uma escola: “só tinha carteira...” Sobre a coleta ínfima com a insignificante subtração das alpargatas do adormecido Antônio: “para não sair de mãos abanando...“ Também sobre a boa qualidade da luz da lanterna: “a senhora gostou?” No mais, apenas comentários sobre leveza de sono e sinais do além: “credo...!”

 

            O sucesso da caçada abriu espaço para lendas e bravatas nos dias que se seguiram. Comentava-se que um dos policiais “voara” mais de três metros ao precipitar-se sobre o fugitivo, imobilizando-o. Como não poderia deixar de ser, também circulavam as fofocas sobre quem tinha amarelado.

 

            E assim, o famoso “Bolinha” entrou, por vias tortas, na história da velha Ipueiras.

 

            Ah! Minha avó anotou a marca da lanterna! 

 

            Observação: Para melhor entender essa história, quem era Antônio Brandão e como Ipueiras preservaria a arte (nacional e internacional) veja tópicos das matérias abaixo em http://www.mauc.ufc.br/expo/1963/05/index1.htm. (Marcondes Rosa)

 

 

 

Colecionador de Crepúsculos

Milton Dias

 

            Aqui mesmo em Fortaleza, na rua Santa Isabel, o menino Antônio Bandeira teve seu primeiro alumbramento, surpreendeu o primeiro guache, um certo crepúsculo triste e lindo, como estes que costumam aparecer por cá no mês de junho, feitos dum tom violeta muito exclusivo, tirando pro vermelho, com raras manchas dum azul estranho. Daí por diante, toda parte ficava espreitando o espetáculo, foi se tornando colecionador de crepúsculos, buscando-os diariamente, a princípio na janela de casa, ou na porta da Fundição do seu pai, mais tarde junto do mar, nas dunas do Mucuripe, no cais do porto, em Maranguape, na Serra Verde, um pouco por toda parte. Depois foi ampliando o seu patrimônio de beleza, ganhou a noite, habitou madrugadas, viu dia nascendo, pescador partindo pro mar, conviveu com gente que enfrentava cada cotidiano com um heroísmo novo e a atenção do artista que já estava lá nele, há muito tempo, levou-o a fixar no papel todo aquele material que vinha compondo a tessidura do seu mundo interior.

 

            No começo aventurou-se por conta própria, depois freqüentou aulas da Mundica, sua primeira professora, depois integrou um grupo de jovens pintores cearenses que compunham o Centro Cultural de Belas Artes (posteriormente SCAP), depois no Rio, depois em Paris, depois no vasto mundo de que se fez cidadão. Assim formou-se o artista, como se formam os grandes, com talento, com estudo, com trabalho, com coragem, com sofrimento, com amor, numa busca interminável, sempre se renovando, pesquisando, perseguido por uma sincera ânsia de realização e foi somando vivências, amando cidades, navios, gentes, lugares, plantas, coisas, bichos, momentos, captando belezas com aquela sensibilidade que se pode realmente chamar excepcional, trazendo tudo para seus quadros, transformando tudo em cor, levado pela poderosa capacidade criadora tão revelada, servido por um permanente sentido poético, uma constante de equilíbrio, que conferem a seus trabalhos a unidade que valeria bem a pena ver duma vez, numa retrospectiva.

 

            A utilização inteligente de todo aquele citado patrimônio de lembranças reunido com zelosa ternura é outra constante na obra de Bandeira, assim como a definitiva presença da pureza que lhe vem da infância e que o artista cultiva com evidente amor. Que de menino, na verdade, Antônio Bandeira conserva quase tudo — a pureza, a bondade, o riso aberto, a capacidade de se fazer querer bem, a fácil convivência, essa deliciosa alegria de viver a simplicidade, a franqueza. Isso tudo somando o torna muito verdadeiro dá-lhe a marca de autenticidade que faz com que em qualquer esquina do mundo, nos bistrôs da Rive Guache, em Copacabana, na Bahia, ou em qualquer barzinho de beira de praia em Fortaleza, em todos os momentos, pintando, conversando, escrevendo, ouvindo, fazendo poesia, seja sempre o mesmo homem, o mesmo artista, o mesmo poeta, a mesma personalidade com aspectos tão diversos e ao mesmo tempo tão unidos pela iluminação do seu universo interior.

 

            E dominando tudo, em todos os ângulos, esse conteúdo humano fabuloso que o faz realmente grande,que está em todos os seus trabalhos como nota central, vigorosa, esse imponderável tão fácil de ver, e que reflete o homem tranqüilo, sem dramas, sem tramas, sem conflitos, mas profundamente emocional, sinceramente afetivo. Tudo isso sem prejuízo de vigor, nem da suave beleza que marcam sua pintura.

 

            As cidades que encontrou, as que amou, as que desamou, as que viu, as que viveu, assim como os barcos, estão todos nos seus quadros, pintados pelo poeta, mas são cidades e barcos que se juntam como gente, que se cruzam, num milagre de identificação que as vivências cosmopolitas e a força emocional do artista conseguem, dentro daquela linha de grandeza humana.

 

Ótimo, portanto, termos de novo entre nós este Bandeira que a gente recebe sempre como irmão de volta das largas andanças e ausências longas se reintegra na sua terra, no meio da sua gente, como se tivesse partido na véspera e faz uma ciranda de ternura entre os que aqui ficaram, faz uma ronda por todos os lugares que conheceu e que amou, retoma a sua posição de colecionador de crepúsculos, e com a mesma volúpia de menino da rua Santa Isabel, junta amigos, se ataca no rumo do mar e na beira da praia fica a esperar a hora em que o sol vai deixando guaches pintados no poente e que o artista carrega de volta para os seus quadros. Voltando às suas origens para um contato tão rápido, o pintor carrega uma mostra do maravilhoso que habita seu grande mundo, traz uma das suas numerosas cidades, esta dourada, um casario branco sob sol vermelho e jangadas, cais noturnos, barcos, campos queimados, vegetais, paisagem atormentada, alguns navios que poderiam realizar o sonho de Rimbaud, (tem deles amanhecendo, outros a pleno sol, outros entrando na noite) e paisagem transparente, paisagem agreste, paisagem atormentada, morro vermelho, janelas, sombrias árvores azuis que de súbito se iluminam neste "azul noite de luar", destinado a se fixar para sempre, inelutavelmente, dentro dos olhos de quem o vê.

 

            Uma beleza também é receber aqui o nosso Antônio Bandeira num excelente momento de sua carreira, em plena maturidade, realizado, festejado, reconhecido, amado, respeitado no mundo e tê-lo justamente com esta exposição no Museu de Arte da Universidade do Ceará.

 

Antônio Bandeira
1922-1967

O homem põe e
Deus dispõe

     Uma simples operação para extração de amígdalas, um inesperado choque pós-operatório e uma carreira cortada abruptamente em sua fase mais brilhante.

     Eis a grande tragédia de um dos maiores representantes da pintura brasileira moderna no Brasil, desaparecido aos 45 anos de idade, na plenitude de sua arte e no apogeu de sua carreira, com talento comprovado e já. a essa altura, suficientemente reconhecido tanto no Brasil, como no exterior.

De família mediana

     Antônio Bandeira nasceu em Fortaleza, Ceará, em 1922, e faleceu em Paris, em 1967, no momento em que pretendia, uma vez mais, retornar à sua pátria, com a mente cheia de planos para o desenvolvimento da carreira, num ponto em que o sinuoso caminho se transformara em uma larga auto-estrada, capaz de levá-lo a um futuro de glórias.

     Não nasceu em berço de ouro, mas seu pai, um ferreiro de mão cheia, ganhava o suficiente para garantir-lhe os estudos no Colégio Marista, em Fortaleza, onde a professora de desenho bem cedo percebeu o talento de Bandeira para a arte pictórica, dando-lhe o primeiro apoio para o desenvolvimento de seus pendores.

Um grupo renovador

     Em 1941, aos 19 anos de idade, participou da criação de um Centro Cultural em Fortaleza, juntamente com Clidenor Capibaribe, o Barrica (1913) e Mário Barata (1915-1983). Um e outro, mais velhos e experientes que ele, muito orientaram Bandeira em sua iniciação no movimento artístico daquele Estado.

     Não tardou que a eles se juntassem outros artistas, provindos do eixo Rio-São Paulo, como Aldemir Martins  (1922), Inimá José de Paula (1918-1999), João Maria Siqueira e Francisco Barbosa Leite (1920-1996). Com o grupo assim reforçado, os objetivos do Centro Cultural foram ampliados e criou-se, então, a Sociedade Cearense de Artes Plásticas.

Ceará, Rio, França...

     Neste ponto, Antônio Bandeira deslocou-se ao Rio de Janeiro para participar da exposição do Instituto dos Arquitetos realizada em 1945, na qual foi contemplado com uma bolsa de estudos na França. Foi o fim de um pintor regional e o início de uma carreira internacional que só a morte viria pôr um fim. Em 1946, viajou a Paris, matriculando-se na Escola Superior de Belas Artes e, posteriormente, na Academia da Grande Chaumière.  O estudo acadêmico foi a primeira grande decepção de sua vida. Independente, pouco afeito à disciplina, com idéias próprias que tencionava desenvolver, em breve Bandeira romperia com o ensino tradicional, juntando-se a Wols e Bryen, dois pintores mais experientes que ele.

 

Entre os dois, meu
coração balança

     Todavia, essa associação não durou muito: Wols morria um ano depois e, em 1950, o pintor estava de volta ao Brasil. Não conseguiu, porém, fixar residência, nem num país, nem noutro.

     Em 1953, participando da 2ª Bienal de São Paulo, recebeu um prêmio que o levou de novo à França, mas, em vezes seguidas, retornou para participar de eventos artísticos. Paralelamente, participou de exposições em Veneza, Londres, Viena, Nova Yorque e outros centros culturais.

     Ainda em Paris, em 1967, preparava-se para regressar ao Brasil, a fim de participar da exposição do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Necessitando realizar uma operação das amígdalas, decidiu fazê-la ainda na França onde havia maiores recursos médicos e hospitalares, dando-lhe segurança absoluta de sucesso.

O livro que se fecha

     O homem põe e Deus dispõe. A intervenção, a mais simples e segura dentre todas operações cirúrgicas, trouxe complicações inesperadas e sua subseqüente morte. A exposição do MAM, no Rio de Janeiro, se realizou com todas as obras inscritas por Antônio Bandeira, mas sem a presença dele, ou apenas com sua presença espiritual. Morria o autor; sua obra permaneceria viva, inscrita indelevelmente na história da pintura brasileira.

(Texto de Paulo Victorino)
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Tempo de Caju (Dalinha Catunda)

18:38 @ 26/10/2006

 

Tempo de Caju

 

 

Num passeio de duas semanas, encontrei Ipueiras supercolorida e com um cheirinho especial de caju invadindo toda a cidade. Impossível não voltar aos velhos tempos e as boas recordações onde castanhas e meninos davam o tom às brincadeiras.

 

A fartura das castanhas, assadas em pedaços de flandres furados, fazia a alegria da meninada, que participava de todas as etapas daquele ritual, sendo que a mais importante era a hora de saboreá-las.

 

Ainda tenho presentes, em minha lembrança, os litros transparentes, cheios de cachaça, com um caju que boiava magicamente em meio ao liquido, deixando-me fascinada  e, ao mesmo tempo, intrigada com o feito, por não entender, na época, exatamente, como a fruta entrara ali.

 

Contudo, a melhor recordação, era o jogo de castanhas, que acontecia assim: uma dupla com seus saquinhos de castanhas. Um colocava um torno, (que era uma castanha grande) e o outro começava o jogo, que nada mais era que se atirarem castanhas alternadamente tentando acertar o torno. O primeiro que acertasse enchia a mão levando todas as castanhas atiradas.

 

Se as recordações do passado ainda me encantam, o presente não deixa por menos. Cajueiros mais exibidos do que nunca apresentam hoje espetáculo maravilhoso que só mesmo a natureza seria capaz de produzir. Em pleno calor de outubro, o sertão com sua paisagem já amarelada passando a um marrom acinzentado, típico dos tempos secos, aparecem os verdes cajueiros a fazer contraste com a fartura de árvores ressequidas.

 

Aos meus olhos que sempre se encantam com as coisas do sertão, o cajueiral em sua pujança mais parecia grandes árvores de natal, fora de época, com suas bolas multicores atraindo pássaros das mais variadas espécies dando um colorido fascinante ao show patrocinado unicamente pela natureza em sua peculiaridade.

 

A feira também se encheu de cor, pelo chão, cajus, amarelos, vermelhos, alaranjados, pequenos, grandes compridos. O colorido, o cheiro e o preço baixo pela larga oferta eram um convite. Difícil não sair carregando sacolas e mais sacolas da fruta da época.

 

Era comum chegar  à casa de amigos e ser agraciada com latinhas de doce e refrescar a garganta com o suco do momento e até levar uma garrafa de cachaça com caju da safra passada. O nordestino, principalmente o do interior, é dado a essas gentilezas.

 

Se o jogo de castanhas se perdeu no tempo, o doce de caju, o suco, a cajuína, a castanha assada, a cachaça com caju estão aí a nos dizer que sempre será tempo de caju em nosso querido Nordeste.

                                                   

                                                    Dalinha Catunda

(Ipueiras/Ceara)