Síndrome de Nazaré
Marcondes Rosa
(...) “Sítios” e “blogs” por aí afora. Nada, no entanto, de nossas potencialidades. Costumo dizer que, entre nós, predomina quase sempre o “marketing da mendicância, a mostrar as nossas chagas: a fome, a miséria, a escassez das águas, os baixos índices de um sustentável desenvolvimento. A terra, no entanto, é pródiga de cultura, de artesanato, de folclore, de paisagens diversificadas (as serras úmidas, as macambiras, os sertões enfim). É mostrar, pois, essas coisas que muitos aqui não atribuem, infelizmente, o menor valor. Para os de fora – os turistas sobretudo - são coisas vistas como “diferentes”. E justo nisso vêem potencial de sedução junto aos de outras cultura. Por isso, nisso havemos de apostar e investir.
No Ceará, sempre me revoltei com a gente querer ve
nder o dos outros aqui. Vejam os “Beach Parks”, os “Saint Tropez des Tropics” e coisas dos outros. Vi gente querendo aqui construir campos de golfe para atrair os americanos. Aqui, em geral, a gente não encontra as coisas daqui. Até os sabores se estandartizam. E aí estão os McDonalds da vida. Enquanto isso, até nossa rapadura, hoje é patente estrangeira por aí afora...
Cadê a cozinha de Ipueiras de que as nossas “saias de plantão” se gabam? Lembro-me, até hoje, após me formar, de almoço que me ofereceram, em Ipueiras, por Dona Maria, na casa do Zé Lima, a mim oferecido. Guardo até hoje a revisitação aos sabores dos tempos da infância. Da casa de “Seu Juarez”, levei, por ano
s, as saudades do licor de cambucá de Dona Fransquinha. Um dia, no Palácio do Governo do Maranhão, participávamos, na abertura de um encontro nacional, de lauta recepção. De repente, dei com Dona Violeta Arraes, amiga minha e irmã de Miguel Arraes enxugando lacrimas nos olhos. Pensei que, ali, algo estranho havia ocorrido. Ela me disse: “O suco! Não sabia de que era. O gosto levou-me à infância”. Era um refresco de pitanga, a lhes despertar saudades deixadas no Cariri.
E uma informação para vocês todos. Ao superintender, como pró-reitor da UFC, as “Edições UFC”, nosso best seller (o mais vendido) era sempre “Velhas receitas da cozinha nordestina.
Nessa condição, lembro-me, recebia eu equipe do Projeto França-Brasil, mediado por Dona Violeta Arraes. A idéia era, lançar na moda internacional, motivos franceses associados aos da cearense. Um embaixador francês, em meio a professores da UFC e empresários cearenses, perguntou-me (ele falava sempre em francês e uma professora visitante francesa, Caterine Clement, traduzia o diálogo): por que, em nossas lojas, os nomes eram sempre estrangeiros. Isso a partir das “boutiques”...
Sorri... É que muito na havia escrito sobre o que denominara “Síndrome de Nazaré” – aquela história da procedência do Cristo:: “E de Nazaré pode sair alguma coisa que preste?”. Preferi pedir a Vicente Paiva, da industria de confecções cearenses, que, respondesse. Ele, em seu rude dialeto, assim se manifestou: ´”É por causa da exportação!...” Sem entender, o embaixador francês revidou: “Mas as lojas são aqui em Fortaleza e o comércio é local”. E Vicente: “Não! É a exportação de nós p’ra nós”. Aí é que o embaixador francês não entendeu. O professor Antônio Mourão Cavalcante contou-nos a história do biscoito “Maria”, da Fábrica Fortaleza, cujas vendas se enfraqueciam. Uma indústria, localizada na BR 116 – que até de Fortaleza ao Rio Grande do Sul – lançava o Richester... Virou sucesso...
Coisas assim estão em nossa cabeça. Um colega meu, Benito Melo, já falecido foi à Argentina. Lá comprou um blusão de couro muito bonito. Ao chegar, mostrou-me o casaco. Olhei a “griffe”: Villejack Jeans... fabricado aqui em Fortaleza, no mesmo bairro onde ele morava. Aqui ele poderia comprar o mesmo casaco a preço de fábrica. Caiu na “síndrome de Nazaré”. Pagou os tubos pelo produto importado...
Vicente Paiva, aí, volta à cena: “A loja de produtos da moda aqui é boutique. Se a moda é feminina, os nomes são em francês. Se masculina, as “griffes” em geral italianas. Se para jovens, em inglês”. E concluía com o caso de sua indústria: “di Paiva”, como se ele fosse um italiano.
Fui além. Falei dos nomes dos edifícios: Village Mediterranée, Twin Tower e assim por diante. É como se disséssemos que moramos todos fora daqui...
Final da história. Andamos três dias com o francês, por vôos sobre todo o Estado. No sábado, coube-me apanhá-lo, em meu carro, no Hotel Esplanada. Lá fui eu preocupado como conversar em francês com o embaixador, sem tradutor. Lá cheguei. Ele veio até mim e, em francês, me entregou três cartas, dirigindo-se a mim em francês: uma, ao senhor Governador; outra, ao reitor da UFC, e outra ao senhor pró-reitor.
Após isso, num escorreito português e entre sorrisos concluiu: “Bem, aqui termina minha missão oficial. A partir de agora, somos cidadãos comuns, podemos bater papos em português”. E assim foi. Conversamos muito sobre esse sentimento de inferioridade dos brasileiros, mais nítido aqui entre nós. E muita coisa observada pelo embaixador do comportamento de nossas autoridades e empresários. Eles costumam nos observar.
Perguntei-me porque, se falava o português, nossas reuniões eram sempre com tradutores. Ele me respondeu, surpreso com a pergunta, que isso é o que rezava o protocolo, com o intuito de cada um valorizar o seu e não se dobrar aos valores dos outros. Nós aqui, colonizados, só valorizávamos o de fora: “exportação de nós para nós” – na expressão de Vicente Paiva.
Essa ideologia está, infelizmente, entranhada em nosso turismo, onde abandonamos nossos valores e maneiras de ser, esquecendo-nos de que maior motivação teriam os turistas para aqui conhecer o diferente.
Que se mostrem, pois, nosso sol, nossas serras úmidas, nossos sertões, mandacarus, açudes e macambiras, nossa arte. Enfim, nosso jeito de ser, nossa cultura. A valorização do que é nosso. Não o dobrar-se de nosso povo a formas escravizantes (de complexo de inferioridade e de prostituição até) de relacionamento com outros povos.