Grupos

A chuva do caju (Bergson Frota)

01:35 @ 04/10/2008

      

 

                           

    A Chuva do Caju

 

 

        Início de outubro e de repente começa a chover.

 

        Já se passou o inverno, mas cá no Ceará, o caju precisa de água e o céu derrama sem se atrasar.

        

         Nas ruas da cidade o povo corre desprevenido, parece dia de inverno, o sol some e o claro azul se transforma no cinza azulado.

 

         As ruas agora banhadas lembram ao povo do bom caju, cuja castanha nos dá um aperitivo maior ao sabor de várias comidas e também bebidas.

 

         Aquela fruta vermelha clara ou escura, no mais comum amarelada veste os quintais ainda de muitas casas aqui em Fortaleza, e no campo onde o resistente pé cresce, leva fartura para o povo no lucro da venda e na boa e rica alimentação proporcionada.

 

         O caju é a nossa maçã, a maçã do sertanejo, e há quem lembre sequer que a fruta é a castanha?

 

         Isso não importa, ambos são saborosos, marcas de gosto inesquecível de sabores que nos fazem desejar ainda mais um bom suco ou uma tostada castanha.

 

         A chuva parte logo.

 

         No chão molhado a natureza cumpriu sua promessa.

      

          “Logo teremos caju” – Pensa alguém.

 

         Sim muito em breve teremos o gosto saboroso desde presente dos deuses, e o sol agora volta a banhar a cidade secando o que a chuva molhou, depois de fecundada a terra que não tardará a brotar.

 

                                                                               Bérgson Frota

 

                           (Foto : pascoalita.blospot.com)

 

                                                             

 

Viagem de Bicicleta

 

           Naquele ano, ainda na década de 70, o inverno estava rigoroso, e a lembrança do grande inverno de 1974 não deixava de nos assustar.

 

           No ano citado, por pouco o rio Jatobá não levou parte da ponte que ligava Ipueiras ao Ipu.

 

           Dos dois lados, enquanto a chuva caía, caminhões traziam pedras e mais pedras reforçando as duas asas opostas daquela pioneira construção, que por fim resistiu.

 

            O tempo passou, vieram invernos fracos, outros amenos então o inverno tornou a ser forte novamente.

 

            Havia dias de chuva e dias nublados, e foi num destes que sabendo que a Bica do Ipu estava a toda largura, assim dizíamos, que resolvi secretamente num domingo, com a minha pequena, porém resistente bicicleta caloi, ir ao Ipu, munido de minha mais recente aquisição uma máquina Kodak, de segunda mão.

 

            A viagem ida e volta demorou mais de três horas, já em estrada asfaltada, parava e descansava, isso se repetindo. Por fim cheguei até a bica, ao balneário e me preparei para tirar as fotos.

 

            O grande volume d’água que caia, fazia surgir com os raios do sol vários arco-íris, coisa que não sabia até aquela data ser possível.

 

            Depois para minha tristeza, descobri que as fotografias por mim tiradas, não haviam registrado o tal fenômeno. Talvez porque o filme preto-e-branco não fosse capaz, mas o importante foi o que vi, a beleza indescritível naquela tarde ensolada no Ipu.

 

            A cachoeira descia rápido, e era muito bonito ver o vento abrir as águas que desciam do riacho Ipuçaba, formando o véu de noiva e caindo estrondosamente de uma altura de 130 metros lá da Serra da Ibiapaba.

 

             O tempo corria e já se aproximava das quatro horas, tirei o que me restava de fotos e pedi a uma turista que me fotografasse na bicicleta tendo ao fundo a bica, depois arrisquei uma descida sem freios pelo sinuoso caminho em direção a cidade. Cruzei-a, vi o belo monumento à Iracema, na época idêntico ao que há na praia em Fortaleza, numa bela praça lá.

 

             Daí subi em direção a Ipueiras. 

 

            Cheguei cansado, mas gratificado, tinha visto a bica cair cheia, coisa inédita para mim, também me mostrei capaz, pois só de ida pedalei 25 km.

 

             Hoje quem escuta esta estória duvida, mas quem pensa que a lógica tem presença constante na mente de uma criança, erra muito mais.Tal aventura não repetiria jamais, mesmo que por teste.

 

             Quando volto à Ipueiras, vejo antes no caminho ao chegar, passarem por mim várias motos, algumas em direção ao Ipu e lembro rindo, dizendo pra mim mesmo --- De moto é fácil, tente uma bicicleta.

 

             Quanto a minha Caloi, minha primeira bicicleta e a única a provar a veracidade de minha estória, foi dada a um outro garoto, que espero ter dela feito tão bom uso quanto fiz.       

                                                                                                Bérgson Frota

                                       Foto : (www.avspe.eti.br)

Criança é (Dalinha Catunda)

00:35 @ 10/10/2008

 

 

 

CRIANÇA É:

 

Dalinha Catunda

 

Criança é feito uma rosa

Tem magia tem beleza.

Quando fechada em botão

Resguarda a sua pureza.

Quando abre suas pétalas

Desabrocha a natureza.

 

Criança é pássaro que voa,

Cantando alegremente.

Um canto que só encanta,

Por ser um canto inocente.

É uma borboleta rondando

Entre rosas florescentes.

 

Criança é um rio alegre

Correndo sem se cansar,

É água doce da fonte

Aonde a lua vem se mirar,

É feito onda brincalhona

Que beija a areia do mar.

 

Criança é estrela brilhando

No céu com todo fulgor

É pirilampo nas noites

Que a lua não despertou

É a obra mais divina

Que Jesus Cristo criou.

 

 

 

SORRISO DE CRIANÇA

Por
Bérgson Frota

No brilho dos olhos da criança se vê o mundo da esperança, um mar de promessas a se concretizar. Um “sem limites” sempre a dizer sim. Um eterno brincar.

Viver cada momento com tamanha intensidade como que se já não existisse tempo, dia ou noite, só o viver, o suficiente, que faz da infância o eterno paraíso dos homens, sempre a ser recordado e jamais recuperado.

Mas o que se encerra no sorriso da criança ? Que mistério traz aquela alegria descompromissada e ingênua ?

Talvez a própria consciência da ausência do medo, da segurança ainda vivida ao lado dos pais, talvez a errônea certeza que nada de ruim possa lhe ocorrer, e mesmo a certeza até dita assim inconsciente da presença divina, a sempre velar pelos seus caminhos.

O dia da criança são todos dias.

O que seria do mundo sem a presença destes pequenos seres, os homens e mulheres do amanhã.

Seres sempre a perguntar com seus “por quês” o sentido do mundo que os cerca e espera.

E viva o mundo pelas crianças.

São como flores a enfeitar a humanidade, são o repositório da esperança quando a fé frágil e fraca do adulto se mostra débil e inoperante.

A criança traz na sua inocência a luz que o mundo sempre carecerá, traz na sua esperteza, a força em potencial que o futuro dela dependerá.

O Grande Mestre uma vez falou “Vinde a mim todas as criancinhas, pois delas é o Reino dos Céus”, errado não poderia estar.

Nos anos que se sucedem formando séculos e milênios, a história humana vai sempre pautar-se na presença das crianças, no seu modo de saudar de forma tão marcante, simples e festiva, a vida diária.

Esta que nós adultos a recebemos sem dar nem avaliar o seu verdadeiro valor.

Aprendamos com as crianças, se foi dito “ninguém entrará no Reino dos Céus se não voltar a ser criança”, algum mistério terá.

Muito mesmo elas têm a nos ensinar, portanto respeitemos esses pequenos seres.
.
Todo segredo está no sorriso, enigmático, brilhoso, expansivo e gratuito, que encerra um oceano de felicidades.

Salve todas as crianças, é dia de festa.

(Foto : www.diabetes.med.br)

(Publicado no jornal O Povo em 11.10.2008)

A Chegada das Andorinhas em Ipueiras

 

                                                                          Bérgson Frota

 

                                                                                                                     

         Nenhum espetáculo na natureza se comparava ao tempo em que, para mim, quando criança, por estação certa, chegavam às andorinhas.

 

         Neste período em Ipueiras, tínhamos uma semana singular, com inúmeras andorinhas aparecendo no céu, marcando um tempo já esperado, somando-se a outros bandos mais numerosos que rápido chegavam atrás, fazendo sombra nas primeiras horas da manhã.

 

         Deslocavam-se, como numa caravana aérea, em grupos compactos, sombreando ruas e avenidas, algumas já pousando sobre arco, e a maioria ziguezagueando em torno da igreja matriz.

 

         No céu fazendo seus sons, caçando insetos em rápidas manobras, muitas caindo, dado aos vôos baixos que davam, e sendo facilmente capturadas com as mãos.

 

         As torres altas atraíam aqueles pássaros migratórios, que preferiam fazer seus ninhos em construções a copas de carnaúbas e algarobas que naquela época se espalhavam pela cidade.

 

         Outras desciam sobre a areia fofa e começavam a “banhar-se”, sacudindo-se como se a areia fina fosse água.

 

         Quando cansadas de tantas revoadas e tentativas de escape sobre a cidade, elas que atraíam a atenção da população, iam pousar nas altas paredes da igreja e era justamente na torre onde o maior número se concentrava.

 

         A noite caía e o silêncio reinava. Na escuridão que aos poucos a iluminação pública ia preenchendo, era como se lá presente elas não estivessem.

 

         Para nós, ainda meninos, as andorinhas traziam um mistério. Apareciam em grande número num só tempo, faziam ninhos em prédios altos, e depois partiam, deixando atrás o grande questionamento da rota por elas seguida.

 

         Era o começo dos muitos enigmas que íamos observando com atenção na natureza. Cheia de leis por nós desconhecidas, mas rica de singular significado, imutáveis e instigantes, ainda permanentes e hoje ainda mais atuantes.

 

 

 

 

                                                                                                                

Os Parques do Interior

                                                                                             Bérgson Frota

 

           Quem a infância passou em alguma das inúmeras cidades do interior, e não desfrutou uma só vez sequer da alegria de um parque de diversões?

 

           Nas épocas certas de festas e comemorações, em Ipueiras, sempre em terrenos baldios, havia um parque. E enquanto este na cidade permanecia, a Vale do Jatobá, amplificadora local, silenciava, fazendo assim com que as músicas da cidade, fossem as de lá escolhidas e tocadas.

 

           Na fantasia artificial que criavam, um tipo novo de relacionamento se dava entre os que passavam a freqüentar assiduamente o parque. Era neste ambiente que muitos se conheciam e de amizade criavam laços mais profundos.

 

           Nos intervalos, se costumava ao anunciar a música seguinte, dizer o locutor que : “um tímido rapaz oferecia à moça de laços vermelhos nos cabelos e olhos cativantes por estar ele muito apaixonado”.

 

           Ficavam os ouvintes no suspense, como a esperar o segredo do anônimo a revelar-se, mas nada.

 

           Assim era mantido o mistério e só “ela”, a de laços vermelhos e olhos cativantes, não uma, mas várias, sonhavam ter sido para elas a música dedicada.

 

           Seus freqüentadores também de outras cidades próximas e distritos, para lá se dirigiam e passavam a fazer da cidade e sede do município quando não moradia permanente centro de visitações constantes.

 

           Naquela época os parques já traziam muitas novidades, seja de novos aparelhos como também uma rica iluminação que quase parecia criar uma cidade dentro da mesma onde se instalavam.

 

           Assim, com inovações e modernas atrações, os parques contribuíam de forma indireta no crescimento populacional das cidades interioranas pelo rico e alegre ambiente transitório que criavam.

 

           Diversões e inovações que em pleno século XXI continuam a existir, na eterna vida itinerante, em cada cidade, por curtos períodos. Aproveitando férias e festas, mas quando não, vale o período normal, onde os dias calmos da semana ganham na noite o brilho e a alegria por eles sempre trazidos.

 

            Resistem ao tempo rodas-gigantes, balançadores, carrosséis e canoas, e o fazem como se a preencher nossa imaginação, lembrando nós agora adultos, de quando criança fomos.

 

                             (Foto : BXK13401_dsc03192800.jpg)

 

 

                                                                                             

 

Ser criança (Bérgson Frota)

16:08 @ 21/10/2008

 

 

Ser Criança

 

Bérgson Frota- Escritor

 

       

        Amanhece, um dia de sol e céu claro, cheio de nuvens correndo com o vento que sopra forte.

 

        O menino levanta-se, toma rápido um banho e depois de um reforçado café, vai correndo despreocupado viver o dia.

 

        Na mente a alegria das brincadeiras, o companheirismo dos amigos, todos da sua idade, uns magros outros gordos, morenos, brancos e negros. Despreocupado junto aos seus, todos de olhos grandes e risos fáceis, sonhadores a espantar-se de tudo.

 

        Em casa, os brinquedos o esperam quando ele se cansar da rua, seja cedo ou tarde, silenciosos não hão de reclamar a demora, e sempre estão à disposição daquele pequeno ser, agora postos arrumados na estante, depois então espalhados pelo quarto.

 

        O menino tem uma bola e também, cão, em geral maior que ele, mas ele é o ´mestre´. O cão é um excelente amigo, mascote e um grande protetor.


        Na hora de estudar, faz os deveres concentrado, e se aparece um pássaro na janela cantando, ou se o papagaio grita nomes na cozinha, ele ri, e desconcentrado procura com muito esforço voltar aos seus deveres.

 

        O dia demora, e ele sai logo depois das tarefas.

 

        Junta-se novamente à turma, mas na hora do desenho está sem falta diante da televisão, concentrado acompanhando os episódios de seus heróis.

 

        A alma crescente da criança continua em gestação naquele pequeno corpo que não pára de ter medidas novas. Que sem parar vai crescendo nas alegrias e sonhos, nas fantasias, estas que finalmente um dia passarão.

 

        Com os sonhos a concretizar, o menino vai crescer, tornar-se maduro e responsável. E as alegrias, brincadeiras e fantasias de hoje, lhe farão lembrar e entender um dia a infância, o sagrado e verdadeiro valor de ser criança.

 

 

Parabéns Ipueiras

 

Bérgson Frota

 

              Hoje, sábado, 25 de outubro de 2008. De longe sinto a alegria de minha terra aniversariante, lá distante no sertão cearense, aos pés da Ibiapaba azul que parece sempre que lá esteve e nunca nasceu nem há de um dia sumir.

 

              De longe, imagino o rio seco a cortar a cidade que amo e que espero um dia vê-lo perenizado a fertilizar de verde aquela terra abençoada e de esperança vestir o seu povo.

 

              Durante anos em artigos e crônicas falei de ti, Ipueiras, como algo distante, mas hoje te sei presente no meu ser.

 

              Escrevi sobre as tuas vistosas carnaúbas, que hoje estão mais escassas e quão belo era o espetáculo quando a cidade ainda nas suas primeiras décadas arborizava-se pelas árvores que são de quase tudo provedoras ao povo forte do sertão.

 

              Escrevi sobre as andorinhas que revoavam no teu céu, sobre as tanajuras que caíam antecipando os invernos, sobre as cheias do rio Jatobá.

 

              Reportei a inauguração do teu belo Arco de Fátima, da construção do teu maior monumento, o Cristo Redentor,  e finalmente em pesquisa risquei a história de tua sublime e bela matriz.

 

              Contei sobre as festas juninas, descrevi os desfiles de sete de setembro, falei sobre os parques e circos que por ti passaram, e descrevi as férias que proporcionavas aos teus habitantes.

 

              Não esqueci tua estação ferroviária e de teus açudes que foram sumindo em face ao progresso constante.

 

              Lembrei teus antigos carnavais e teu cinema maior, o Azteca.

 

              Então cheguei à noite de 25 de outubro de 1983, quando do teu centenário e pensei no teu futuro, já naquela época. O céu estava repleto de estrelas e ouvia os discursos que teus filhos faziam em tua homenagem.

 

              Silenciei-me.

 

              Passaram-se 25 anos, e és hoje uma grande e bela cidade, muito mudou, tuas construções e teus habitantes, mas penso que se fitar o céu numa noite qualquer no mesmo ponto de onde no passado contemplei as estrelas, estarão elas a brilhar no mesmo lugar.

 

              São elas Ipueiras que piscam em festejar-te, feito velas eternas a comtemplar de distâncias mil a tua história.

 

              Feliz Aniversário, terra redentora, que os vindouros anos te tragam mais progresso, e que o eco dos teus escritores e poetas já idos seja o sangue forjador de uma nova safra que não nega a renovar-se..

 

                                                                                             

                         (Foto do Site Oficial da cidade de Ipueiras)

 

 

 

 

O  Rio Jatobá

 

Para Dario Catunda

 

A névoa esvoaçante a serra inteira enluva...

Alta noite o trovão geme na serra inteira...

- “Serra de São Gonçalo”, o Santo da Palmeira...

E o Jatobá soluça aos rigores da chuva.

 

Turvo, escuro-vermelho, indiferente zarpa

Da  minha Ibiapaba a rolar entre os montes...

Festeja o azul do céu refletindo horizontes,

E desce de roldão murmurando na escarpa.

 

Temeroso e violento, areias revolvendo,

A margem a solapar, estourando em remansos,

Retorce o oiticical, e escarva, e arranca os mansos

Morfumbais da beira os galhos retorcendo.

 

Lembrando-o assim, galã, alagando o sarçal,

Pomposo como um Rei nas terras de Ipueiras,

Revejo na memória, aos bandos, lavadeiras,

Roupas corando ao sol, dando à idéia um garçal.

 

Quantas vezes fiquei, naquelas tardes boas,

De estilingue nas mãos, encolhido, com frio,

Vendo em seu rebojar, convulsivo e som sóbrio,

Sumir o milharal maduro das crôas.

 

Tinha medo ao ouvir seus gemidos magoados,

- Eu, que do povo ouvira, em minha meninice,

Que os gemidos do reio (efeito da crendice)

Eram a vos dos que ali morreram afogados.

 

Que recebas meu beijo e outro igual me mandes,

Rio do meu temor quando eu era menino;

Só hoje  é que sei que és tão pobre e pequenino,

- Miniatura infantil destes que vêm dos Andes!

 

Poesia do liv RO “Mandacaru”, do poeta Kideniro  Flaviano Teixeira, livro publicado em 1976. - Trabalho enviado por Bérgson Frota.

(Foto : Site Oficial da Cidade de Ipueiras – Ce)