Tópicos extraídos do opúsculo SAUDADES DA BOA ESPERANÇA (Arquivos de uma vida), confidenciados por Adaísa Rosa de Sousa, ao genro, Luiz Marques de Oliveira e lançado, em 15 de abril de 2004, por ocasião de seu 82º aniversário, ora aqui divulgados em tom de tributo e saudades, ela já ao lado do Senhor, na eternidade:
A VIDA É ASSIM...
Todo idoso escreve um livro em sua vida. O título é igual para todos: recordações ou arquivos da vida. O título é igual para todos: recordações ou arquivos de vida. O conteúdo faz a diferença de todos estes livros:
O idoso é a presença do passado. Ele não envelhece, vai aos poucos se despedindo da vida, sem esquecê-la e distribuindo saber. É o elo de ligação entre o ontem, o hoje e o amanhã. É a memória do tempo. Não ouvir o idoso pode nos trazer prejuízos históricos. Perde-se o fio da história. Em sua andança existencial, o idoso cativa heranças sentimentais e culturais.
Na estrada, ele procura sempre descobrir novas fontes. É a voz do coração. O coração que sabe guardar relíquias recebidas tem razões para viver feliz.
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Este relato, colhi-o de Adaísa Rosa de Sousa, a aniversariante, com todos os seus pitorescos detalhes.
Fortaleza, 15 de abril de 2004
Luiz Marques de Oliveira
PEDAÇOS DE VIDA
“Adaísa Rosa de Sousa nasceu na Fazenda “Boa Esperança”, então Município de Santa Quitéria (e hoje Hidrolândia), em 15 de abril de 1922. Casou-se com Wencery Félix de Sousa, com quem teve três filhos: Solange, Marcondes e Walmir, que lhe deram quatro netos - Cláudio, Juliana e Leonardo (de Marcondes e Euterpe), e Marcelo (de Walmir e Liliana). E seu primeiro bisneto - Pedro (de Cláudio e Renata).
Em seus 82 anos, relembra o que guarda como preciosos arquivos de vida muitas das cenas, algumas das quais confiadas ao genro, Luiz Marques, extraída de sua vida em Santa Quitéria, Ipueiras, Fortaleza e algum tempo em Brasília, ao tempo de sua construção. Indagada sobre como gostaria de ver em opúsculo alguns pedaços de um “arquivo de vida”, entre suspiros ela propôs: “Saudades de Boa Esperança”.
E A ESPERANÇA CONTINUA...
Estamos nos arredores de Santa Quitéria, município do Ceará. Em uma fazenda. É a famosa Boa Esperança. Propriedade do Sr. Sebastião Rosa de Oliveira Cruz e de D. Filomena Maria do Espírito Santo. Ele, mais conhecido pela alcunha de Major Cruz, para os amigos e para os de casa.
Deus favoreceu o casal com um elenco de garbosos filhos: Francisco, Francisca, Cecílio, Joaquim, Maria, Pedro, Gonçalo, Sebastião, Quitéria, Antônio, José, Conceição, Josefa (Zefinha), Raimunda, Anastácio e graciosa caçula Adaísa.
A CASA GRANDE E VIDA DIÁRIA.
A casa de alvenaria, bem localizada, no centro da fazenda, era chantada numa pequena elevação. Do alpendre, podia-se ter uma idéia completa das terras, o que favorecia o controle da fazenda. O controle geral era do Major Cruz. A casa era enorme, com armadores por todos os lados, nos compridos alpendres, cercada por algumas árvores frutíferas, da região, de grande porte, e por jardins, hortas e um pequeno açude para o abastecimento da casa e das plantações. A residência assim envolvida, por todo este verde, tinha um tom mais alegre e mais arejado. Ao lado, perto da casa, ficavam o curral maior (para vacas e bois) e outro menor (para os bezerros).
O Major Cruz era o ordenhador oficial, os filhos seguiam a sua orientação para aprender o traquejo da ordenha. Todos os dias, ele saía com as jarras para a coleta do leite. Adaisinha era assídua em tomar leite mungido, ao pé da vaca. Devia ser quente e com muita espuma, era “saborosíssimo”, ainda hoje ela sente saudade quando lembra o fato.
As meninas tomavam conta das criações miúdas: perus, capões, poedeiras e outras. Os capões eram assuntos de D. Joaquina, entendida no assunto. Os perus eram reservados para os dias de festa, aniversários, convidados e visitas importantes. Vez por outra, aparecia um carneiro mamão, um bode novo, recebidos com satisfação.
O Major Cruz sempre engordava um novilho. O que sobrava do consumo da casa era reservado para fazer a saborosa carne de sol. Usado o necessário, o resto era guardado para a carne seca, de sol. A carne de porco, servida em pernis. O toucinho dos baiés servia para o tempero. Os patos nadavam numa pequena lagoa onde havia uma depressão. Eram só para enfeite.
Os homens, na divisão das competências, ficavam com a plantação e a criação dos animais: vacas, bezerros, cavalos e burros (para o transporte). O jumento era a bicicleta da época, servia para os pequenos passeios e recados. O carro de boi, que nunca deixava de ranger, mesmo com muito sebo no eixo, ficava estacionado junto ao curral. Era transporte para o mais pesado. Puxado sempre por uma junta de bois mansos e descansados. Semanalmente, ia à cidade de Santa Quitéria, para feira e compras de mantimentos, para os animais e para a casa.

D. Filomena gostava de acompanhar os filhos, vez por outra, nesta ida à cidade. Era um dos poucos momentos de lazer de que ela gozava. O passadio da família era excelente e abundante: feijão novo e bem temperado pela D. Filomena, arroz, carnes variadas, ovos das poedeiras, o jerimum e outras hortaliças. O leite que sobrava era usado na coalhada, na fabricação de queijo, da manteiga comum e da manteiga da terra.
O batalhão feminino, tendo à frente D. Filomena, cuidava da limpeza geral, dos arranjos da casa e dos arredores. O asseio era o forte da dona da casa, o que fazia a alegria do Major Cruz.
AS MOAGENS
Este acontecimento dava-se no sítio Garrancho, situado na serra de Ibiapaba, nas proximidades dos municípios de São Benedito e Guaraciaba do Norte, nos arredores da Boa Esperança, já no município de São Benedito, bastante distante da fazenda. Eram dias de festa, passeios e de alegria.
O engenho, com suas grandes moendas de madeira, era acionado por duas longas manjarras, uma delas atrelada a uma junta de bois, gordos, mansos e dolentes. Os meninos e as meninas aproveitavam para, montados nas manjarras, dar o seu passeio. As canecas de caldo de cana desfilavam continuamente.
Às vezes, bebia-se mesmo nas cuias. As cabaças trazidas serviam para o transporte da garapa. Em casa, fazia-se a garapa doida. Era só colocar a garapa, ao sol por vários dias. O bombom da época: "bom, bonito e barato", era a sobra da raspadura que ficava nas gamelas. As meninas, com canas raspadas, esperavam que o mel da gamela esfriasse, para rodar a cana raspada dentro do mel e fazer o famoso puxa-puxa, de onde se originava o saboroso e delicado alfenim.