Grupos

Exatamente dois anos passados, no dia 4 de novembro de 2004, faleceu em Fortaleza, com 82 anos, minha mãe, D. Mundita. Ela foi professora primária em Ipueiras, dos meados dos anos 40 ao início dos anos 50. Permitam-me hoje, em nossa “pracinha” virtual, prestar-lhe esta singela homenagem.

 

Dia 11 próximo, seu Neném Matos, meu pai, fará 94 anos. Naquele dia, vou pedir licença de novo para escrever algo sobre ele.

 

 

 

 

 

Dona Mundita, uma saudade.

 

Jean Kleber Mattos

 

O nome de solteira era Raimunda Baima de Abreu. O apelido, adotado por ela mesma, foi Mundita. Deveria ser “Mundica”, de Raimunda, mas esta forma não foi adotada. Nasceu no Ceará, em Aquiraz, a oitenta e quatro anos passados, filha de Gesuíno Ancelmo de Abreu e Francisca Conceição Baima de Abreu. Órfã de mãe logo no início da primeira infância, foi adotada pela professora Luiza Mendes dos Santos, a D. Luizinha, que residia no município cearense de Redenção. Aos quinze anos de idade, conheceu, em Fortaleza, o ipueirense Sebastião Mattos Sobrinho, o Neném Matos, com quem se casou aos dezenove anos, em 1943, adotando a partir de então o nome Raimunda de Abreu Mattos.

 

A viagem de núpcias foi a Ipueiras. Três anos depois, transferiu-se com o marido para a mesma Ipueiras, levando o filho Kleber, este com apenas dois anos de idade. Junto, levou também a mãe, D. Luizinha e a criada, Maria José. Na cidade, lecionou no Grupo Escolar e no Educandário Nossa Senhora da Conceição, entidade particular da qual era sócia, juntamente com o marido e a mãe, que também lecionavam na escola. Ainda na minha primeira infância, eu a acompanhava sempre que ela ia receber o salário na Coletoria do Estado. Seu Juarez Catunda, o coletor, era quem fazia o pagamento.

 

Vários ipueirenses ilustres foram seus alunos no “curso primário”, tanto no Grupo como no Educandário. Tinha especial amizade por quatro ilustres professoras da cidade: D. Isa Catunda, D. Augusta, D. Estudilha e D. Diana. Musicista, compartilhou com D. Diana durante algum tempo, o “fazer a música” da igreja, com o Padre Correia. Deixou Ipueiras em janeiro de 1953, indo morar em Fortaleza e depois em Brasília.

 

Ainda em Ipueiras, acolheu como internos no Educandário, o Zaca, de “seu” Gustavo e o Assis, de “seu” José Fernandes. O primeiro ingressou depois na Marinha do Brasil e o segundo na Ordem dos Padres Paulinos. Em Fortaleza, acolheu em casa e instruiu, três sobrinhas: Gonçala Salete, ipueirense, hoje conceituada professora aposentada do Estado, Maria Amélia, hoje mãe de jurista famoso e Fátima Abreu, hoje prestigiada empresária. A sobrinha Gonçala Salete mora, nos dias atuais, com “seu” Neném Matos, a quem trata com desvelo.

 

A preocupação concreta com a justiça social marcava sua conduta. Lembro-me de um episódio, quando visitávamos uma importante indústria de Fortaleza e elogiávamos a beleza das instalações e o impecável uniforme das recepcionistas, ela, que já havia conversado discretamente com as moças, saiu-se com esta: “Vocês sabiam que essas moças ficam seis horas em pé, por dia? E o salário não é grande coisa...”

 

D. Mundita faleceu em Fortaleza em 4 de novembro de 2004, vitimada pelo Mal de Parkinson. Foi sepultada em Aquiraz, sua cidade-natal, no jazigo da família Abreu. Deixou emocionados dezenas de amigos e familiares a quem sempre acolheu, o marido, o filho, as duas netas, o neto e a bisneta, que, passados dois anos, seguem na vida aprendendo a conviver com a sua perda.

 

(Na foto,  D. Mundita, ainda bem jovem, ao lado da mãe, D. Luizinha).

 

Saudades do Cine Azteca de Ipueiras

 Por Bérgson Frota / Fortaleza

As cidades mais antigas do interior do Ceará em sua maioria tiveram no passado e hoje poucas têm, um cinema que em alguma época levou as fantásticas histórias da sétima arte para embalar a vida de seus habitantes. Ipueiras teve um cinema que deixou muitas saudades. Era o Cine Azteca. Muitos filmes foram passados na pequena e sempre cheia sala de projeção deste cinema interiorano. Havia matinês com os seriados americanos em preto-e-branco que sempre deixavam um gancho para continuação, sem falar nos famosos filmes de Tarzan que traziam para a garotada a imagem exótica e artificial da África e seus nativos. Fazia também a alegria da meninada os pequenos trechos de celulóide que sempre eram cortados das fitas e catados com avidez por eles, para depois fazerem seus próprios filmes. Era costume na década de 60 em Ipueiras ir ao cinema sábado à noite e também aos domingos. No Azteca muitos namoros nasceram e deles saíram vários casamentos. Na época em que a televisão era só uma novidade ainda distante o cinema levou para os ipueirenses filmes célebres e noticiários quase sempre de futebol do famoso Canal 100. Assim foi o Azteca durante quase toda a década de 60, porém antes mesmo de começar os anos setenta o cinema já não mais existia. A televisão que havia chegado na cidade, primeiro com o televisor público acabou com a magia da sala escura. Nesta época cinemas de outras cidades também fecharam, a rede de distribuição de filmes que muito lucrara restringiu-se às grandes cidades, finalizando um ciclo cultural que enquanto durou, beneficiou a muitos municípios. Hoje Ipueiras é uma cidade antenada com o mundo, porém o cinema não foi ainda plantado no seu atual desenvolvimento. Só o nome do primeiro e mais duradouro cinema ficou, e restou aos mais antigos a lembrança da tela branca do Azteca, que se enchia de cores e movimentos, sempre que as luzes eram apagadas, fazendo a fantasia dos filmes trabalhar a emoção na alma de seus inúmeros espectadores. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza
 
(Transcrito do Primeira Coluna)

 

A Cacimba da Irena

Dalinha Catunda / Rio de Janeiro

                                                                       

Contam que lá pras bandas do Coité, no interior das Ipueiras, existe uma velha cacimba assombrada. É a cacimba da Irena.

 

Irena conhecida como mulher ranzinza, egoísta e muito estranha, nos tempos das águas escassas, cavou uma cacimba, onde todos os dias ia apanhar água para o consumo de sua casa. O veio era muito bom, água transparente, saborosa e abundante. Mas Irena em sua truculência não permitia que ninguém se aproximasse da cacimba para usufruir a fartura das águas ali existente.

 

O tempo passou. Irena que não nascera para semente, certo dia veio a falecer. Com sua morte, os moradores da região não viam mais impedimento e tentaram apoderar-se da cacimba da falecida. Mas ninguém conseguiu levar uma só gota do precioso liquido. Aqueles que se aventuravam a tal proeza, de lá saiam correndo apavorados deixando: latas, potes, cabaças e rodilhas. Pois, cada vez que alguém tentava se aproximar da tal cacimba era ameaçado por uma mulher de aspecto estranho que gargalhava estridentemente, acompanhada por uma cobra gigante que dava voltas e mais volta ao redor da cacimba.

 

Reza a lenda que a cacimba assombrada nunca secou, porém, ninguém jamais conseguiu retirar uma só gota de água da cacimba da Irena. Pois a cada tentativa eram intimidados pelos dois terríveis guardiões que dia e noite vigiavam o recanto da Irena. *PC*

 

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará

(Transcrito do Primeira Coluna)

 

 

SAUDADES DO INTERIOR

 

Dalinha Catunda

 

Sair do interior e enfrentar a cidade grande foi para mim missão quase impossível e uma peleja danada. Acenos e apitos de trem ainda martelam em minha cabeça, num eterno revirar de saudades. Cidade grande, vida nova, novos e estranhos costumes.

 

Cama de solteiro a me afugentar o sono. Lembrança saudosa da rede, o pé na parede, o balançado a me embalar noite a dentro... A labareda da lamparina acesa, me atentando a memória e ardendo em meu pensamento... Apenas faltavam a cantiga dos grilos, o zum-zum-zum dos muriçocas e o canto repetido dos galos.

 

Um pão diferente que, em nada, lembrava o do Vicente Padeiro. Vicente era mudo. Falou quando Nossa Senhora de Fátima, em sua peregrinação, passou por Ipueiras, ali fazendo milagres. Recordo-me de que o pão que ali deixei era artigo de luxo, que, muitas vezes, não me era dado, tendo de escapar com jerimum com jerimum ou batata doce com leite, cuscuz com leite, ou tapioca com manteiga da terra. “Escapei” no modo de dizer. Na verdade eu achava mesmo era bom...

 

   Longe da “terrinha”, alguém, de vez em quando, mangava de mim. E o motivo era a nordestinidade denunciada na voz.  Termos como “derramar”, “frouxo”, “acochado”, “bulir” tive de tirar de meu repertório. O “vixe”, era só para provocar apelo de susto. Expressões como “Vixe Maria!”, nem pensar. Desisti. Ainda bem que não fiz como amiga minha, que perguntou, onde era o monturo aonde ela poderia “rebolar o lixo no mato”!... Não cheguei a esse ponto. Mas, confesso, andei dando outras mancadas.

 

   Única coisa que, nessa minha arribação, andou me deixando feliz. Foi deixar para trás o penico. Aquilo era uma verdadeira esculhambação. Eu nunca conseguia acertar uma. Aí foi quando cheguei à conclusão de que “mijar fora do penico” era a minha sina...

 

   E a “sentina”? Pense! Era ela, ao mesmo tempo, sentina e banheiro, no final do muro ou lá nos fundos do quintal. No meio, aquele bojo quadrado, com um buraco no meio. Sejamos sinceros. Até que a posição facilitava o serviço. Num canto reservado ao banho, uma tacha, que era um grande depósito feito de barro, com uma cuia boiando. Essa cuia servia para “rebolar” água no corpo. No mais, sabão fabricado em casa, uma bucha de pepino... O kit para o banho estava completo.

 

   Lembro-me, como se fosse hoje, dos remédios. Para catarro no peito, mastruz com leite. Pra inflamação de mulher, garrafada de malva ou casca de aroeira. Quando as crianças tinham febre, um chazinho de folhas de laranja com melhoral. E sempre tinha uma bolachinha para adular. Eu não me conformava era com os purgantes, que, de tempos em tempos, éramos obrigados a tomar. Do chá de cidreira, eu gostava. E também de erva doce, que era feito para os bebês.

 

   E os “carões”? Meninos, deixem de “chafurdo”! Olha esse “furdunço” aí! Essas “tampas” não me deixam de atentar. Depois, partiam para os bofetes e puxões de orelhas, terminando, por vezes, em “pisas”.

 

   Hoje, posso dizer que, na cidade grande, aprendi muito. Principalmente a sentir saudades do interior que deixei...

 

           

 

 

Hoje, dia 11 de novembro de 2006, o ipueirense Neném Matos completa 94 anos. Jean Kleber Mattos, seu filho, celebra a efeméride, com a crônica e os parabéns de todos nós, sobretudo os que passamos pelo Educandário Nossa Senhora da Conceição.

 

 

Nenem Matos e Dona Mundita

 

 

NENÉM MATOS, 94 ANOS EM 2006.

 

Jean Kleber Mattos

 

Sebastião Mattos Sobrinho, o Neném Matos, nasceu em 11 de novembro de 1912, no município de Ipueiras, filho de João Gomes de Matos e Dionísia de Souza Matos. O pai era agricultor e comerciante, e irmão de Sebastião Matos, importante chefe político de Ipueiras. Instruiu-se e trabalhou desde cedo. Foi aluno de D. Ester, professora pioneira da cidade e, na adolescência, trabalhou com o tio Sebastião, no escritório do armazém. Na maioridade transferiu-se para Fortaleza onde conciliou trabalho e estudo.

 

Trabalhou para o filho do famoso engenheiro João Thomé, na firma que levava o nome do dono, José Thomé de Saboya. Estudou no Ginásio São João. Habilitou-se em contabilidade na Academia de Comércio Padre Champagnat, onde foi aluno do professor e ídolo Antônio Martins Filho que era diretor e proprietário da academia. Antônio Martins Filho seria, no futuro, reitor da Universidade Federal do Ceará. Neném Matos conheceu D. Mundita nesse período, vindo com ela a casar-se em 1943.

 

Acometido de esgotamento por excesso de trabalho, foi aconselhado pelo famoso médico Costa Araújo a estabelecer-se em Ipueiras, lugar mais saudável segundo o médico. De volta a Ipueiras em 1946, contabilista formado, exerceu a profissão na cidade, fazendo a escrita de várias firmas, incluindo a do seu tio e a do Tim Mourão. Fundou, com a esposa e a sogra, o Educandário Nossa Senhora da Conceição, que habilitava meninos e meninas ipueirenses a ascender ao curso ginasial. No Educandário, estimulou a prática dos esportes, construindo um quadra de vôlei e promovendo torneios também de futebol, incluindo a participação de uma equipe de Fortaleza, o “24 de Maio”. Integrava sempre com entusiasmo seus alunos à parada cívica do Dia da Independência, mediante impecável desfile com farda “engomada”, “fanabô” e fanfarra. Na data festiva, ao alvorecer, ia para a praça central da cidade e a acordava soltando bombas.

 

Foi Congregado Mariano desde o vicariato de Monsenhor Fontenele até o de Padre Correia. Auxiliava o famoso Dr. Belo, juiz da comarca, nos movimentados júris que galvanizavam a cidade. Em 1953 retornou a Fortaleza, inicialmente para a mesma firma que largara em 1946.

 

Seguiu exercendo a profissão em vários escritórios da capital. Em 1977 migrou com a esposa para Brasília indo morar com o filho Kleber. Em Brasília, aposentado, prestou serviços à Associação dos Engenheiros Agrônomos e à revista Fitopatologia Brasileira, esta sediada na Universidade de Brasília, recebendo sempre rasgados elogios pela qualidade de seu trabalho.

 

Nos anos 90 retornou a Fortaleza, onde reside até hoje em sua propriedade, próximo ao Shopping Iguatemi. Lê muito. Entre seus mais recentes livros “devorados” está o QUASE de Frota Neto, sobre o qual sempre comenta com entusiasmo e emoção. A literatura de nosso grupo e de nossos “blogs”, sempre envio a ele, inspirador que é de alguns “causos” neles publicados. Ele não esconde o entusiasmo com o sucesso de seus ex-alunos.

 

Viúvo desde 2004, segue na vida buscando a alegria da amizade e do bom humor. É praticante de Yoga e Meditação. Fãs incondicionais, o filho, a nora Heloisa, os netos Daniela, Vanessa e Ivan, a bisneta Ana Júlia e mais algumas dezenas de familiares e amigos conquistados, cantam-lhe hoje o “parabéns a você!”.     

 

 

Dona Ester por trás dos noivos (Lisboa e Marinês)

 

 

O RETRATO QUE DÓI

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

O Povo, Fortaleza, 26/09/1998

 

 

Nos jornais cearenses, uma matéria nos chama a atenção, sobretudo por quem a assina: Gerardo Melo Mourão, um mito nacional. Em verdade, em criança, já lhe ouvia os feitos, nos sertões das Ipueiras, decantados em prosa (pelos adultos) e verso (por violeiros). Na escola, o desenho que me fazia a professora primária, Dona Ester, sua mãe, agigantava-me sua figura.

 

Cearense "longe da terra", Gerardo revisita agora o Ceará, que, no relato de "velhos companheiros de infância, hoje octogenários", lhe dói muito. É que lhe descreveram o mesmo Ceará dos "bacamartes dos mourões", do tacão dos coronéis ou da vontade dos príncipes, supostos carros-chefes da história. Tivesse menos pressa, maior acuidade e melhor ouvisse o povo, perceberia que, a partir dos anos 80, o Ceará rompeu com seu passado, abandonou seu crônico solipsismo e começou a se articular sob a feição coletiva de povo. Nisso, refez o aparelho estatal e o colocou a serviço de um pactuado projeto: sair do secular cativeiro egípcio em busca de uma prometida terra onde, no mínimo, hão de correr dignidade e justiça social. Descobriria que os fantasmas do passado agora cedem lugar a valores como honradez, zelo com a coisa pública, compromisso com o coletivo. E que personalidades como Tasso Jereissati, longe dos adamastores que nos infelicitaram a vida, são, muito ao contrário, a expressão de novos tempos e caminhada.

 

Em sua crônica, o escritor decerto que foi traído pela amizade. É que ela, de repente, desce de plano, assumindo o tom de manifesto eleitoral em favor de candidatos amigos seus. Um documento que, na semiologia jornalística, carrega notórios indícios de "matéria paga". Compreensível até que se queira tributar honras a personagens que, durante a "longa noite do arbítrio", brandiram sua flamejante retórica contra as "baionetas da intolerância". Mas a história avança em vários capítulos, e os cargos públicos não são condecorações do após-guerra nem o senado é, por exemplo, uma trivial galeria de ex-combatentes. O que está em jogo agora é que a representação da sociedade e do Estado se faça guardando fidedignidade com o projeto coletivo tocado por todos nós. Que se devote tributo a quem fez a história, mas que se escalem os atores que hão de tocar essa história para a frente!

 

Para mim, entristece-me o fato de um mito meu desde a infância apequenar-se. Mas tenho a certeza de que, Dona Ester, se viva estivesse, chamaria o aluno e filho, e faria como, certa feita, comigo fez. Pedir-Ihe-ia a mão estirada e, palmatória em punho, por sobre ela lhe despejaria uma dúzia de "bolos", com a lição: Amizade alguma tem mais peso do que a honradez ferida de outrem. Sobretudo quando esse "outrem" é ícone do sentimento coletivo de um povo: dos cearenses!

 

(Transcrito da obra Educação: insistências e mutações – Coletânea de artigos publicados em jornais de Fortaleza (1995 a 2001).

 

Observação: Dias após o artigo, o professor Antônio Mourão Cavalcante, do clã dos “Mourões”, telefona-me. Gerardo teria dado boas risadas com a inteligência da crônica, admitindo a mágoa contida de laureado no Pais e no mundo e reconhecimento algum pelas instituições do Ceará. Os “bolos de Dona Ester”, nossa professora comum, ele os adorou.  Tempos depois, num lançamento de livro, ele me brindaria com afetivo autógrafo, de um aluno para outro de nossa professora comum. E em Brasília, um dia, em reunião dos conselhos de educação, elegeria Dona Ester símbolo das professoras a nos marcar a todos.

 

Hoje, nossas instituições e entidades governamentais, independentemente da esquerda e da direita tecem merecidas loas a Gerardo Mello Mourão.

 

 

 

Maior tonel de cachaça do mundo

Museu da Cachaça

 

 

 

TRIBUTO À NECI

 

Jean Kleber Mattos

 

  

Janeiro de 1953. Início da revoada. Nós havíamos recém comprado as passagens de trem para Fortaleza. Íamos de vez. Viajaríamos no dia seguinte eu, meu pai Neném Matos e minha mãe D. Mundita. Tão logo conseguíssemos casa para alugar em Fortaleza, passaríamos um telegrama que acionaria o esquema.

 

Um caminhão, certamente o do Matinho, partiria de Ipueiras levando a mudança, enquanto minha avó D. Luizinha, seguiria de trem com sua criada Maria José. No caminhão estariam o Zaca, filho de "seu Gustavo" e o Assis, filho de "seu" José Fernandes. O Zaca estava indo inscrever-se como aspirante na Marinha do Brasil e o Assis tentaria o noviciado na Ordem dos Padres Paulinos.

 

À noite, meus pais ainda estavam arrumando as malas quando duas moças chegaram. Uma delas chamava-se Neci. Moravam para os lados do açude. Neci fez um pedido inesperado. Queria ir conosco. Perguntou à minha mãe se ela tinha empregada em Fortaleza. Não tinha. Ofereceu-se então para o serviço. Uma rápida conversa de minha mãe com meu pai e a moça estava empregada. Seguiria conosco no dia seguinte. Crescia desta forma a nossa "equipe ipueirense de arribação". Na manhã seguinte, a passagem de Neci foi comprada na hora da partida.

 

Nos primeiros dias em Fortaleza, ficamos hospedados na Pensão do Norte, à Rua Barão do Rio Branco, perto do Passeio Público. Saíamos todos os dias em busca de casa para alugar. Para nós e para minha avó. Numa delas, na Praia de Iracema, Neci acidentou-se numa cerca de arame farpado. Culpa minha. Mania de criança de fazer "pique pega" por nada. Ao escapar-me no jogo, Neci não viu o fio solto e cortou o peito do pé. Tomou injeção. Antitetânica. A marca do acidente remanesceria indelével. Menos mal que no pé.

 

Neci era simpática, doce e silenciosa. Índole boa. Se o Zaca fora meu grande companheiro em Ipueiras e Maria José a criada exemplar, Neci seria meu anjo em Fortaleza. Quando não estava ajudando minha mãe nos afazeres domésticos, acompanhava-me nas brincadeiras próprias de meus oito anos: soldadinhos de chumbo, águas coloridas, "bila" (bola de gude) e "trisca" (pique-pega).

 

Uma vez instalados no bairro Joaquim Távora, um telegrama acionou Ipueiras e o caminhão de lá partiu. Acomodados numa única "carrada", estavam nossos móveis e dois gatos: o "Pucí" (corruptela de "Pussy") e o Bambí. Pucí era rajado, marrom-claro, meio assustado e "sistemático". O Bambí era preto e brincalhão, talvez por ser mais novo.

 

Poucos dias após sua chegada em Fortaleza, Pucí assustou-se com os latidos de um cãozinho pequinês preto que o encarava e fugiu, não mais retornando. Bambí teve outra atitude. Pregou um tapa certeiro no focinho do bicho que fugiu ganindo. Ficou em casa. Viveu conosco algum tempo até que, não se sabe como, foi contaminado pelo vírus da raiva, vindo a morrer, não sem antes arranhar meu braço e morder a perna de Neci. Fomos então companheiros, eu e Neci, no tratamento ambulatorial do Instituto José Frota, onde nos aplicaram uma série da famosa vacina anti-rábica. Enfermeiro Wilson aplicava. Gente boa. Lembro-me bem dele.

 

Meu pai tinha alergia à casa. Nem bem chegava do serviço e começava a espirrar. O banheiro era externo, nos baixos de uma caixa d'água. Parecia coletivo, do tipo que serve a duas casas. Na época se comprava, em barras grandes, um sabonete verde translúcido com aroma de eucalipto. Perfumadíssimo e barato. O banho matinal era animado. Lembrava os banhos de chuva em Ipueiras. No Carnaval, que se daria logo em seguida à nossa chegada, dominava a música "Você Pensa Que Cachaça é Água?"

 

Neci revezava com o Zaca o apanhar-me na escola ao meio dia. Providência de minha mãe, até que eu, vindo do interior, aprendesse a lidar com o intenso tráfego da rua Visconde do Rio Branco. Na escola, eu integrava uma turma especial do terceiro ano primário. Era no Colégio Cearense, dos irmãos maristas. Pela manhã eu ia a pé com meu pai, que me deixava à porta da escola e daí seguia para o escritório.

 

Quando era dia do Zaca me apanhar, ele trazia um garrafão de três litros de capacidade, para apanhar água. Sorte, o colégio fundara-se sobre uma fonte de água mineral gaseificada, a qual jorrava de todos os bebedouros. Em casa, formulávamos com ela o suco de uva concentrado comprado na mercearia. Tínhamos então um refrigerante caseiro delicioso e naturalmente gaseificado.

 

Mudaríamos de casa ainda duas vezes pelo menos. Primeiro para a Rua Rodrigues Júnior, depois para a Rua Heráclito Graça. Neci estaria conosco todo esse tempo, ou sejam, seis anos mais ou menos. Ela era baixinha, "cheinha", de tez clara e macia, um tanto sardenta. Cabelo bem liso, em quase nada lembrava a mãe, que era morena e magra. Eu ouvira dizer que ela sofria da coluna, que era excêntrica, seqüela atribuída a uma queda da mãe quando grávida. Confesso que jamais consegui ver qualquer excentricidade ou defeito naquela doce criatura. Eu a achava linda. Os adultos não.

 

Padrões pré-estabelecidos e assimilados. Como explicar então o encanto de Neci? Sem padrões previamente assimilados a criança cria seus próprios padrões. As crianças vêem a alma e a alma ocupa todos os espaços: sejam intercelulares, intracelulares, atômicos ou sub-atômicos. Assim, a conformação corpórea também se apresenta harmoniosa e bela, tal como a alma. Um amigo de Fortaleza que eu conheceria mais tarde, Padre Tarcísio, assistente de JEC, me diria nos anos sessenta que as crianças e as mulheres são os seres verdadeiramente metafísicos. Assimilaria na época, naquele mundo polarizado, que nós, os homens, sofríamos de indigência espiritual.

 

Em nossa cultura costuma-se comentar a amizade entre o filho do patrão e a empregada com um sorriso malicioso. Tal não se aplicava ali. Não fosse por meus poucos anos vividos, o seria pela estrada religiosa onde, àquela época, trafegava minha existência.

Hábito ipueirense, tínhamos um pote com água na cozinha. A tampa era um quadrado de madeira. Uma noite, Neci estava lavando os pratos. Após enxaguar cada um, colocava-os sobre a tampa do pote, até formar uma pilha. Naquele dia, a tampa do pote não estava devidamente ajustada e adernou com o peso. Todos os pratos caíram e quebraram. Acorremos à cozinha e logo percebemos que, para almoçarmos no dia seguinte, teríamos que compara pratos novos. Eu estava excitado com a idéia de pratos novos. Criança gosta de novidade. Mas o que mais me encantou foi ver que meus pais estavam dando gargalhadas diante daquela pequena tragédia. Ou nos tornáramos todos crianças ou estava evidenciada a impossibilidade de se ter raiva de Neci.

 

Mas um dia Neci partiu. Soube que para casar-se. Vi-a ainda uma ou duas vezes quando nos visitou já em sua nova vida de dona de casa. Na ultima vez de que me lembro, percebi que o tempo já começava a marcar suas feições. Sorriu animada ao ver-me, quase esfuziante. Abraçou-me com carinho, como alguém que reencontra um filho ou um irmão mais novo. Naquele momento foi-me dado ver, em quase todo o seu esplendor, a beleza de Neci.

 

 

(Texto publicado originalmente no blog PRIMEIRA COLUNA)

     

 

 

Evocações da feira antiga

Walmir Rosa de Sousa

 

         Voltei à Ipueiras antiga, com sua "reportagem" sobre a feira de Ipueiras, querida Musa Dalinha .Revi o calçamento de pedra marron, desigual, do quarteirão defronte ao mercado, no ficavam, do lado esquerdo da Rua Padre Angelim, o Armazém do Seu Sebastião Matos, chefe político da UDN, a loja de tecidos do Seu Edmundo Medeiros; a Farmácia do Seu Idálio, a loja A Pernambucana (depois loja do Zé Morais, a Farmácia do Nilson, o Armazém do Seu Pedro Aragão, chefe político do PTB, e o armazém do Seu Raimundo Aragão, pai deste último).

         Do outro lado, no Mercado, dentre outros, os estabelecimentos comerciais, de Aquiles Lima, Moacir Mourão, Antônio Luciano...
Passeei, como fazia em menino, por entre surrões, sacos e jacás de gêneros alimentícios e frutas diversas, comi pitombas, chupei pirulito, comi manzape. A propósito do manzape, só não senti mais saudade do gosto porque, recentemente, em conversa com um grande amigo, Basílio, das bandas do Crateús, sobrinho do Pedro Basílio, grande jogador do Fortaleza em outros tempos, ligado aquele a Ipueiras por seu descendente de Antônio Severo e José Severo, disse-lhe que tinha muita vontade de experimentar novamente o gosto do manzape, do meu tempo de menino.


         Prestimoso, em viagem a Crateús, sua terra, trouxe-me um pedaço de manzape, com as devidas desculpas de que tinha reservado para si o pedaço maior, porque nele, também, as audades das comidas de criança eram muitas. Resgatei o manzape, que para estrangeiros é o mesmo pé-de-moleque, com a variação coco-da-Bahia para coco-babaçu.

         Realmente, a feira antiga dava ênfase aos produtos locais. De estranho, mesmo, só os retratistas, que montavam seu equipamento fotográfico lambe-lambe próximo à parede lateral do Armazém do Seu Sebastião Matos e documentavam a fisionomia dos fregueses, habilitando-os à cidadania, seja com a obtenção de um título eleitoral, uma "Carteira do Ministério", (Carteira Profissional ou hoje, Carteira de Trabalho). Nesse tempo era incomum alguém da cidade possuir Carteira de Identidade, que só se "tirava" na Capital. Nunca vi uma, até sair de Ipueiras.

         A feira, hoje, perdeu suas origens. Em todo lugar, é uma mesmice. São confecção, bordados, sapatos, sandálias, ferramentas, disco pirata de CD e DVD, artefatos de moda. Enfim, consome-se muito, mas come-se pouco. Só frango de granja, frutos e verduras das Centrais de Abastecimento (até uva e maçã tem, que a gente só conhecia de nome, nem de retrato).

         (Extraído do Primeira Coluna)

        

 

 

 
O FAMOSO CAPITÃO
 

Muito cedo descobri que, na terra de "coroné", se comia Capitão. Eu, das Ipueiras, terra de coroné Zé Bento e tantos outros, confesso que, muitas vezes, participei desse ritual que muito me agradava.

 

Alguns falam que aquilo era coisa de escravos. Já outros afirmam ser uma herança dos portugueses colonizadores. O que sei é que aquilo que eu julguei ser uma exclusividade minha e de meus irmãos era, na realidade, um costume antigo, comum no interior do Ceará e em tantos outros estados do Brasil.

 

Conversando com Lou, uma amiga nordestina, das bandas da Serra Grande, ela me falou que os capitães da avó dela eram imbatíveis. E eu, retruquei: “É que você não conheceu os da minha tia Isa. Quando eles chegavam à mesa as crianças entravam em prontidão, à espera do tão esperado e solene momento.

 

O certo é que, por trás de cada capitão, havia o comando de uma mão mágica e dedicada a nos enfiar goela abaixo aquela distinta autoridade do mais alto escalão. Eram nossas mães, avós e tias que se esmeravam na confecção daquela apetitosa iguaria com o intuito de agradar o paladar dos seus entes queridos.

 

Na verdade, o inesquecível e famoso capitão, meu, de Lou e de tantas outras crianças, nada mais era que um simples bolinho de feijão amassado com farinha, bem modelado e servido por mãos especiais com carinho e com afeto, o que o transformava simplesmente num manjar dos deuses.

 

Era assim que nosso feijão de cada dia passava de um simples soldado raso ao mais famoso capitão. E eu, que sou agarrada às lembranças, fico feliz em fazer parte deste passado, onde batalhões de crianças faziam continência a seu amado capitão.

 

Dalinha Catunda

Ipueiras-Ce

 
***
 
O CAPITÃO DE FEIJÃO

 

 

Hoje, fomos "filar" um churrasquinho básico, na casa de um amigo. Esse meu amigo - Totonho para os íntimos, baiano de corpo e alma - colocou seu avental e foi pra churrasqueira preparar a picanha e outras gostosuras... Isso, enquanto Rose comandava os ritos finais de preparo do feijão tropeiro, do arroz de carreteiro, da salada verde, da mandioca, etc.

 

A sineta e seu badalo nervoso anunciava a hora do "rancho"... Aí, o nosso anfitrião, com bastante habilidade, amassava o feijão tropeiro com arroz e fazia  o famoso "capitão", de forma superdescontraída como se estivesse nos rincões baianos...

 

A coincidência foi encontrar a mensagem de Dalinha exatamente sobre esse tema... E penso que todos nós, contemporâneos" dela, provamos dessa iguaria: o "capitão de feijão", que tem um sabor indescritível: o sabor do carinho.

 

Nonato,

Ipueiras

 

 
O FAMOSO CAPITÃO
 

Muito cedo descobri que, na terra de "coroné", se comia Capitão. Eu, das Ipueiras, terra de coroné Zé Bento e tantos outros, confesso que, muitas vezes, participei desse ritual que muito me agradava.

 

Alguns falam que aquilo era coisa de escravos. Já outros afirmam ser uma herança dos portugueses colonizadores. O que sei é que aquilo que eu julguei ser uma exclusividade minha e de meus irmãos era, na realidade, um costume antigo, comum no interior do Ceará e em tantos outros estados do Brasil.

 

Conversando com Lou, uma amiga nordestina, das bandas da Serra Grande, ela me falou que os capitães da avó dela eram imbatíveis. E eu, retruquei: “É que você não conheceu os da minha tia Isa. Quando eles chegavam à mesa as crianças entravam em prontidão, à espera do tão esperado e solene momento.

 

O certo é que, por trás de cada capitão, havia o comando de uma mão mágica e dedicada a nos enfiar goela abaixo aquela distinta autoridade do mais alto escalão. Eram nossas mães, avós e tias que se esmeravam na confecção daquela apetitosa iguaria com o intuito de agradar o paladar dos seus entes queridos.

 

Na verdade, o inesquecível e famoso capitão, meu, de Lou e de tantas outras crianças, nada mais era que um simples bolinho de feijão amassado com farinha, bem modelado e servido por mãos especiais com carinho e com afeto, o que o transformava simplesmente num manjar dos deuses.

 

Era assim que nosso feijão de cada dia passava de um simples soldado raso ao mais famoso capitão. E eu, que sou agarrada às lembranças, fico feliz em fazer parte deste passado, onde batalhões de crianças faziam continência a seu amado capitão.

 

Dalinha Catunda

Ipueiras-Ce

 
***
 
O CAPITÃO DE FEIJÃO

 

 

Hoje, fomos "filar" um churrasquinho básico, na casa de um amigo. Esse meu amigo - Totonho para os íntimos, baiano de corpo e alma - colocou seu avental e foi pra churrasqueira preparar a picanha e outras gostosuras... Isso, enquanto Rose comandava os ritos finais de preparo do feijão tropeiro, do arroz de carreteiro, da salada verde, da mandioca, etc.

 

A sineta e seu badalo nervoso anunciava a hora do "rancho"... Aí, o nosso anfitrião, com bastante habilidade, amassava o feijão tropeiro com arroz e fazia  o famoso "capitão", de forma superdescontraída como se estivesse nos rincões baianos...

 

A coincidência foi encontrar a mensagem de Dalinha exatamente sobre esse tema... E penso que todos nós, contemporâneos" dela, provamos dessa iguaria: o "capitão de feijão", que tem um sabor indescritível: o sabor do carinho.

 

Nonato,

Ipueiras

 

 

 

 

Tópicos extraídos do opúsculo SAUDADES DA BOA ESPERANÇA (Arqui­vos de uma vida), confidenciados por Adaísa Rosa de Sousa, ao genro, Luiz Mar­ques de Oliveira e lançado, em 15 de abril de 2004, por ocasião de seu 82º aniver­sário, ora aqui divulgados em tom de tributo e saudades, ela já ao lado do Senhor, na eternidade:

 

 

A VIDA É ASSIM...

 

Todo idoso escreve um livro em sua vida. O título é igual para todos: recorda­ções ou arquivos da vida. O título é igual para todos: recordações ou arquivos de vida. O conteúdo faz a diferença de todos estes livros:

 

O idoso é a presença do passado. Ele não envelhece, vai aos poucos se despe­dindo da vida, sem esquecê-la e distribuindo saber. É o elo de ligação entre o on­tem, o hoje e o amanhã. É a memória do tempo. Não ouvir o idoso pode nos tra­zer prejuízos históricos. Perde-se o fio da história. Em sua andança existencial, o idoso cativa heranças sentimentais e culturais.

 

Na estrada, ele procura sempre descobrir novas fontes. É a voz do coração. O coração que sabe guardar relíquias recebidas tem razões para viver feliz.

 

***

 

Este relato, colhi-o de Adaísa Rosa de Sousa, a aniversariante, com todos os seus pitorescos detalhes.

 

Fortaleza, 15 de abril de 2004

Luiz Marques de Oliveira

 

 

PEDAÇOS DE VIDA

 

Adaísa Rosa de Sousa nasceu na Fazenda “Boa Esperança”, então Município de Santa Quitéria (e hoje Hidrolândia), em 15 de abril de 1922. Casou-se com Wencery Félix de Sousa, com quem teve três filhos: Solange, Marcondes e Wal­mir, que lhe deram quatro netos - Cláudio, Juliana e Leonardo (de Marcondes e Euterpe), e Marcelo (de Walmir e Liliana).  E seu primeiro bisneto - Pedro (de Cláudio e Renata).[1]

 

            Em seus 82 anos, relembra o que guarda como preciosos arquivos de vida muitas das cenas, algumas das quais confiadas ao genro, Luiz Marques, extra­ída de sua vida em Santa Quitéria, Ipueiras, Fortaleza e algum tempo em Brasília, ao tempo de sua construção. Indagada sobre como gostaria de ver em opúsculo al­guns pedaços de um “arquivo de vida”, entre suspiros ela propôs: “Saudades de Boa Esperança”.

 

E A ESPERANÇA CONTINUA...

 

Estamos nos arredores de Santa Quitéria, município do Ceará. Em uma fa­zenda. É a famosa Boa Esperança. Propriedade do Sr. Sebastião Rosa de Oliveira Cruz e de D. Filomena Maria do Espírito Santo. Ele, mais conhecido pela alcunha de Major Cruz, para os amigos e para os de casa.

 

Deus favoreceu o casal com um elenco de garbosos filhos: Francisco, Francisca, Cecílio, Joaquim, Maria, Pedro, Gonçalo, Sebastião, Quitéria, Antônio, José, Con­ceição, Josefa (Zefinha), Raimunda, Anastácio e graciosa caçula Adaísa.

 

A CASA GRANDE E VIDA DIÁRIA.

 

A casa de alvenaria, bem localizada, no centro da fazenda, era chantada numa pequena elevação. Do alpendre, podia-se ter uma idéia completa das terras, o que favorecia o controle da fazenda.  O controle geral era do Major Cruz. A casa era enorme, com armadores por todos os lados, nos compridos alpendres, cercada por algumas árvores frutíferas, da região, de grande porte, e por jardins, hortas e um pequeno açude para o abastecimento da casa e das plantações. A residência assim envolvida, por todo este verde, tinha um tom mais alegre e mais arejado. Ao lado, perto da casa, ficavam o curral maior (para vacas e bois) e outro menor (para os be­zerros).

 

O Major Cruz era o ordenhador oficial, os filhos seguiam a sua orientação para aprender o traquejo da ordenha. Todos os dias, ele saía com as jarras para a coleta do leite. Adaisinha era assídua em tomar leite mungido, ao pé da vaca. Devia ser quente e com muita espuma, era “saborosíssimo”, ainda hoje ela sente saudade quando lembra o fato.

 

As meninas tomavam conta das criações miúdas: perus, capões, poedeiras e ou­tras. Os capões eram assuntos de D. Joaquina, entendida no assunto. Os perus eram reservados para os dias de festa, aniversários, convidados e visitas importantes. Vez por outra, aparecia um carneiro mamão, um bode novo, recebidos com satisfação.

 

O Major Cruz sempre engordava um novilho. O que sobrava do consumo da casa era reservado para fazer a saborosa carne de sol. Usado o necessário, o resto era guardado para a carne seca, de sol. A carne de porco, servida em pernis. O toucinho dos baiés servia para o tempero. Os patos nadavam numa pequena lagoa onde havia uma depressão. Eram só para enfeite.

 

Os homens, na divisão das competências, ficavam com a plantação e a criação dos animais: vacas, bezerros, cavalos e burros (para o transporte). O jumento era a bicicleta da época, servia para os pequenos passeios e recados. O carro de boi, que nunca deixava de ranger, mesmo com muito sebo no eixo, ficava estacionado junto ao curral. Era transporte para o mais pesado. Puxado sempre por uma junta de bois mansos e descansados. Semanalmente, ia à cidade de Santa Quitéria, para feira e compras de mantimentos, para os animais e para a casa.

 

D. Filomena gostava de acompanhar os filhos, vez por outra, nesta ida à cidade. Era um dos poucos momentos de lazer de que ela gozava. O passadio da família era excelente e abundante: feijão novo e bem temperado pela D. Filomena, arroz, carnes variadas, ovos das poedeiras, o jerimum e outras hortaliças. O leite que so­brava era usado na coalhada, na fabricação de queijo, da manteiga comum e da manteiga da terra.

 

O batalhão feminino, tendo à frente D. Filomena, cuidava da limpeza geral, dos arranjos da casa e dos arredores. O asseio era o forte da dona da casa, o que fazia a alegria do Major Cruz.

 

AS MOAGENS

 

Este acontecimento dava-se no sítio Garrancho, situado na serra de Ibiapaba, nas proximidades dos municípios de São Benedito e Guaraciaba do Norte, nos ar­redores da Boa Esperança, já no município de São Benedito, bastante distante da fazenda. Eram dias de festa, passeios e de alegria.

 

O engenho, com suas grandes moendas de madeira, era acionado por duas longas manjarras, uma delas atrelada a uma junta de bois, gordos, mansos e dolen­tes. Os meninos e as meninas aproveitavam para, montados nas manjarras, dar o seu passeio. As canecas de caldo de cana desfilavam continuamente.

 

Às vezes, bebia-se mesmo nas cuias. As cabaças trazidas serviam para o trans­porte da garapa. Em casa, fazia-se a garapa doida. Era só colocar a garapa, ao sol por vários dias. O bombom da época: "bom, bonito e barato", era a sobra da raspa­dura que ficava nas gamelas. As meninas, com canas raspadas, esperavam que o mel da gamela esfriasse, para rodar a cana raspada dentro do mel e fazer o famoso puxa-puxa, de onde se originava o saboroso e delicado alfenim.