
Ipueiras-CE, final dos anos 40. Praça Getúlio Vargas.Na esquina, na direção do obelisco, a casa de D. Adelaide, sede do Educandário.
A CASA DE DONA ADELAIDE
Na segunda metade dos anos 40, deixamos nossa primeira residência em Ipueiras, a casa de seu Hermógenes na Praça da Matriz, e nos mudamos para a casa de D. Adelaide, na Praça Getúlio Vargas. Meu pai a alugara.
Lembro-me bem do dia da mudança. Era o período das águas. Tempo nublado, garoando. Na casa, um cheiro peculiar. Soube depois que era de morcego. Ao chegar, duas carnaubeiras novas no quintal me impressionaram. A casa de D. Adelaide foi nossa segunda e última residência em Ipueiras. Seria a sede final do Educandário N. S. da Conceição. A casa era enorme. Em parte dela funcionava a escola. Salas de aula havia duas. Uma enorme e outra menor. O restante era residência. Duas alcovas, o escritório de “seu” Mattos, a ampla sala de jantar que também era a sala de visitas, a cozinha e a dispensa. A cumeeira era bem alta. Havia telhas de vidro nas alcovas para vencer a escuridão. As salas de aulas davam para fora com muitas janelas. As janelas tinham empanadas para manter a discrição em relação aos passantes.
A sala de jantar também dava para a rua. A porta de entrada era serrada ao meio. Abria de metade, garantindo a ventilação. Voltado para o quintal havia um alpendre onde “seu” Mattos criava abelha Jandaíra. A dispensa era meio sinistra. Escura. Ficava no corredor entre a sala e a cozinha. Uma porta larga também “de metade”, garantia a ventilação e a luz. Fora adaptada para ser o dormitório da criada, Maria José. Lá havíamos encontrado dois enormes baús escuros com pelo menos um metro de altura e mais de um metro de comprimento. Dentro havia grãos e derivados amiláceos. Algo típico da velha estocagem de alimentos para o ano de seca. A cozinha era ampla, com um fogão a lenha e um forno cupulado de alvenaria, do tipo “braza”. Pela manhã, o gato da casa, o Pucí, subia o parapeito e lá ficava, encolhido, ao lado da trempe.
A escola tinha uma quadra de vôlei. Simples, chão arenoso batido. Ficava numa área lateral da casa-escola. Ao fundo da área da quadra havia mais um pequeno espaço que podíamos chamar de “playground”. Em sua frente, erguia-se uma cerca de “vara-a-pique”. Do outro lado, era o galinheiro onde D. Mundita criava galinhas caipiras. A criançada volta e meia, brincava de “trisca” (pique-pega) na quadra. Tiravam os calçados para brincar na areia. O mato que crescera nos “tempos baldios” fora capinado. Tudo limpinho e ciscado. Também jogávamos futebol e bila (bola de gude). No futebol, naturalmente pisoteávamos a terra e revolvíamos a areia com os pés ao chutar a bola.
Um dia, em meio ao jogo, alguém encontrou um dente humano emergindo da areia. Era próximo à janela do front poente da casa. Paramos o jogo. Ficamos curiosos. Passamos a revolver a areia com ansiedade. Mais dentes começaram a surgir. Alguém sugeriu que, no passado, um dentista teria montado seu consultório na sala da quina, justo sobre onde estávamos. Ele teria atirado aqueles restos ao terreno. De repente, alguém encontrou uma moeda antiga. Da busca ansiosa revolvendo a areia, passamos à sofreguidão. Mais moedas surgiram. Todas de réis. Para nosso horizonte de consciência, um pequeno tesouro. Tenho-as até hoje, guardadas com carinho.
O quintal começava nos batentes da cozinha e findava no cacimbão, que era ladeado, à esquerda pelo banheiro e à direita pela privada ou “sentina”. O cacimbão era o terror de minha mãe, por medo de que, em minha curiosidade de olhar-lhe dentro e testar-lhe o eco, me despencasse. Era coberto com uma forte estrutura de madeira e, apenas por uma janela, se “puxava” a água.
O banheiro tinha tanque e tacha. O banho era de cuia. A privada ou “sentina”, uma graça. Tinha dois buracos. Nunca entendi. Imaginava duas pessoas “fazendo o serviço” lado a lado e conversando animadamente. Hilário. Os buracos eram canalizados em plano inclinado para o terreno de trás, baldio, onde corria uma grota. Esgoto a céu aberto, sem dívida. A água servida do banheiro desaguava no mesmo terreno.
A passagem do quintal para o galinheiro se dava através de um cômodo onde minha mãe “deitava” galinhas. Havia, de quando em vez, uma ninhada de graciosos pintinhos caipiras. Neste cômodo havia também um pilão para fazer xerém para os pintos e paçoca para nós. Ou seja, carne assada com farinha e cebola roxa, caprichosamente piladas. Comíamos com banana.
Quando faltava luz elétrica em Ipueiras, a querida casa de D. Adelaide se tornava mais tenebrosa. Imensa escuridão muito mal quebrada por lamparinas, velas, lampiões a querosene e uma ou outra “petromax”, a projetarem nossas sombras nas paredes. Eu não saia de perto dos adultos, até que fosse dormir, claro, no quarto da minha avó, e com ela. Se a “radiadora” de seu Simãozinho anunciasse a morte de alguém, naquele dia eu entrava em pânico.
Mas a casa de D. Adelaide tinha um encanto especial. Era uma escola. De dia, especialmente nas tardes, dezenas de coleguinhas em aula. Eu também era aluno. No recreio, brincávamos de “queimada”. Gostava de observar as merendas deles. O que eles comiam. Só observar. Havia sempre alguém com uma novidade. Bolos, biscoitos, uma balinha nova, quem sabe um “lançamento”...
No início dos anos 80, com quase quarenta anos de idade e de carona com uma amiga que se dirigia ao Ipu, visitei Ipueiras por breves instantes. Fotografei a Igreja, a Estação Ferroviária e rezei, por breves minutos, no Morro do Cristo. Resumi-lhe minha história na cidade para que minha apressada amiga entendesse o meu encantamento. Não encontrei, nem procurei qualquer parente ou conhecido. Apenas senti. Ao passar pela casa de D. Adelaide, então transformada em posto do Inamps ou algo parecido, achei-a sem vida.
Naturalmente, faltava-lhe o ingrediente mor: meus amigos de infância. Faltava enfim, o fluido vital daquela casa.
(Jean Kleber Mattos)