Grupos

TADEU FONTENELE


Francisco Tadeu Fontenele, nasceu em 28 de outubro de 1952, em Ipueiras, é claro. Filho do seu Zeca Bento, tabelião, não quis seguir o ofício, mesmo trabalhando com o seu pai na adolescência, e partiu ainda jovem para estudar e trabalhar em Fortaleza, onde se formou Administrador.

Construiu uma invejável carreira na Caixa Econômica Federal, onde ocupou todos os cargos de uma superintendência regional, vindo a aposentar-se em 2000. Com espírito empreendedor, investiu, ao lado de sua esposa Fátima e dois dos seus quatro filhos, no mercado de perfumes e cosméticos. Hoje, Tadeu eu a sua “família perfumada” ocupam posição de destaque no ramo em todo o Ceará, expandindo suas fronteiras para outros estados brasileiros.

Discreto, não gosta de fazer alarde de suas ações em prol da sua cidade (recentemente, doou roupas de cama a um hospital da cidade, trabalhou pela criação da Banda de Música, é membro do Instituto Frota Neto, entre outras ações) e prefere se manter anônimos nos movimentos. É um articulador nato. Consegue, com sua voz serena, ser ouvido e tem o dom de ouvir. Conhece, como poucos, os problemas da cidade e trabalha para melhorar.

Nas horas de lazer, gosta de cantar. E sua voz convence, especialmente em músicas de Nelson Gonçalves, com o qual possui timbre parecido. Também, como todo Brasileiro, adora futebol e não abre mão de uma pelada semanal com os amigos, às quartas-feiras.

Ao lado de nomes como Bérgson Frota, Dalinha Aragão, Marcondes Rosa, Dolores Aragão, Anna Melo e Ester Timbó, é co-fundador do Ipueiras.com e participante ativo do nosso portal até hoje.
 
(Homenagem do www.ipueiras.com)

 

O ÉPICO DE UMA ÉPOCA: QUASE!

 

Marcondes Rosa de Sousa,

 

Tribuna do Ceará, Fortaleza, 9/2/2000

 

Quase é advérbio por trás do qual se escondem o rascunho, o inconcluso e o inatingido. Quase é o título de obra de 518 páginas do escritor-jornalista Frota Neto, lançada, dias atrás, em calorosa noite no Náutico, em mais de 4 horas de autógrafos, abraços e reminiscências de todos os lados.

 

         Autobiografia, crônica sentimental, história ou romance? Quase é quase cada um desses gêneros. É autobiografia onde o autor se transpõe do texto para o entretexto.  Romance em primeira pessoa, em que o narrador é câmera subjetiva a extrair, de ambiências, fatos e personagens, o caleidoscópio de nosso imaginário. Filme onde incontáveis figurantes são feitos protagonistas, num romper da dualidade “bandidos/mocinhos”.

 

         Nele, Frota Neto é repórter a registrar fatos de sua convivência, entre os anos 50 e 70.  Na seleção do não-perecível, assistiu-lhe o feeling do cronista da história.  E, ao mapear ambientes, atitudes e almas - captados por câmera em close up - fez-se cineasta sensível na seqüência dos instantâneos em contextos significativos mais amplos e verticais: do “carneiro do Miraugusto” e os doidos (?) de Ipueiras às cenas nas prisões, no jornalismo e na história do Ceará, do Brasil e do Mundo.

 

         O menino que, “nas Ipueiras”, brincava de repórter, afeita à história e às estórias, revela-se de corpo interiro, na linguagem solta e aprazível, impregnada do jeito de nossa gente. “Quase”, assim, não é o nostálgico retorno a um congelado passado. É, ao invés, o ontem revisitado, sob o agudo olhar do agora, onde atores e cenas, em flashback, se re-simbolizam em seu papel. “Quase” são dramas com marcas, sem traumas porém. Não o tributo cobrado por um retornado, após seu êxito “lá fora”. 

 

         Frota é um dos que se foi, mas que, aqui, deixou-se ficar.  Que viu o mundo “Ipueiras” e, de sua aldeia, fez uma sinédoque do mundo.  Isso, porque continuou sempre o “Antônio do seu Idálio”, a nos tratar pelo apelido de infância.  “Seu Idálio”, o pai, que, no cotidiano de sua farmácia, é personagem-tema a nos sugerir um “romanço”...

 

Para Frota Neto, Quase pode ser o desculpar-se pelo inconcluso. No caso, porém, é advérbio que se tornou substantivo próprio e maior. E, na leitura de muitos dos personagens-leitores, “o épico de uma época”. Por que não? A arte, afinal, faz-se da sugestão e do inconcluso: atingindo sua plenitude, no “quase”!

 

Extraído do livro Educação: insistências e mutações – Coletânea de artigos publicados em jornais de Fortaleza (1995 a2001), Fortaleza, Edições UVA, 2002. pp. 174-175

 

O BRINQUEDO INESQUECÍVEL

 

 

   Fui uma daquelas crianças que acreditou piamente em Papai-Noel. Só com o passar do tempo, percebi que o bom velhinho era mais generoso com uns do que com outros, mas nada disso chegou a afetar meu relacionamento com ele.

 

      É lógico que ganhávamos os presentes conforme os sapatos que colocávamos debaixo da cama ou da rede. Nas camas e nos bons sapatos, os melhores presentes. Nas redes e sandálias, os arremedos de brinquedos ou simples lembrancinhas. Jamais ganhei uma boneca loura de olhos azuis. O Papai-Noel pelas minhas bandas era mais humilde. Mas também nunca tive inveja de quem a ganhou, pois as pobrezinhas dessas viviam mais dentro das caixas do que no colo de suas donas. E, além disso, brinquedo caro logo se quebra!

 

      Posso, contudo, posso garantir que ninguém foi mais feliz do que eu com minha boneca inquebrável. Inquebrável sim, pois era toda de pano, com roupinha colorida, cabelo das caboclas do sertão e fantástica ante meus olhos.

 

      A noite de Natal era mágica, Mas o dia seguinte não ficava atrás. As calçadas ficavam repletas de crianças que madrugavam no intuito de exibir seus brinquedos. Meninos, meninas, bolas, bonecas apitos e cornetas, e uma algazarra maior quebrando a rotina infantil.

 

      E foi exatamente num dia assim que me vi cercada de crianças curiosas querendo ver o brinquedinho exibido por mim. Imaginem, era uma galinha! Pequeniiiiiina, mas cheia de graça. Parece que estou vendo: amarela, com bico, pés e crista vermelha...

 

      Mas não era só isso. Ela botava ovos. Só três, mas botava!  Tinha uma abertura  com uma tampinha camuflada no alto entre as asas. Era só apertar em cima que ela se agachava, e a cada apertada botava um ovinho. que em seguida eram recolocados dentro da galinha. Esse, com certeza, foi meu brinquedo inesquecível.

 

      Fui muito feliz com meus humildes brinquedos. Hoje sinto até uma pontinha de tristeza em saber que, em alguns lugares o Papai-Noel nem chegou a passar.

 

Dalinha Catunda

 

 Ipueiras-Ce

 

 

 

 

Carta ao Papai Noel

Dalinha Catunda

O Povo - 16/12/2006 16:28

  Era uma vez uma menina chamada Maria, que, apesar dos tempos modernos e do turbilhão de informações, ainda acreditava em Papai Noel. E foi pensando assim que ela resolveu escrever uma carta ao tal velhinho.

          ”Querido Papai Noel,

          Eu sei que o senhor é bonzinho e vive agradando as crianças. Meu pedido é um pouco confuso, mas sei que, para um Papai Noel, nada é difícil.

          Adorei um pião que meu irmão ganhou em seu aniversário. Passo horas vendo ele girar. Quero que o senhor me traga, nesse Natal, um presente bem colorido, com muitas listas, que gire que nem o pião do meu irmão, mas tem que ser um brinquedo de menina.Conto com o senhor meu bom velhinho.

          Um abraço da Maria.”

          Dobrou a carta e entregou a sua mãe, pedindo-lhe que a colocasse no correio. A mãe, comovida com a ingenuidade da filha, guardou a carta com carinho, prometendo a si mesma que faria o possível para realizar o sonho de Maria.

          Recorreu então à madrinha da menina, que costumava viajar ao Paraguai com a finalidade de fazer compras, para abastecer sua lojinha de brinquedos. A madrinha emocionou-se com o relato. E querendo alimentar a inocência da afilhada, prontificou-se a ser cúmplice nessa aventura.

          - Não se preocupe, comadre. Eu darei um jeito. Nossa menina terá o presente desejado.

          Enfim, o grande dia! Véspera de Natal... Maria ajeitou seu sapatinho embaixo da cama. Participou da ceia. Deu uma olhadinha no presépio. Admirou a árvore de Natal. E, em seguida, voltou para o quarto. Queria dormir cedo e acordar mais cedo ainda. Queria saber que surpresa Papai Noel teria preparado para ela. A ansiedade era grande, não maior do que alegria do dia seguinte.

          Tava lá, ao lado do seu sapatinho, uma caixa pequena embrulhada num papel colorido e com muitas fitas. Desesperado, ela tenta abrir a caixa de qualquer de qualquer jeito. E, em segundos, consegue retirar, dentro da caixinha, uma linda bailarina.

          A boneca era fosforescente, as listas coloridas da roupinha brilhavam tanto que chegavam a doer nos olhinhos da pequena. Correu para mostrar a mãe.

          - Olha, mãe, olha! Papai Noel atendeu ao meu pedido. Pena que o brinquedinho não gira... Mas é tão lindo! Tão colorido!

          A mãe, vendo que era uma caixinha de música, pediu para ver. Pegou o brinquedo e deu corda. A graciosa bailarina começou a dançar e rodopiar em cima do piano, para a imensa alegria de Maria, sob olhar emocionado de sua mãe.

          Ainda vale a pena apostar na inocência de uma criança.



 

 

 

Ipueiras-CE, final dos anos 40. Praça Getúlio Vargas.Na esquina, na direção do obelisco, a casa de D. Adelaide, sede  do Educandário.

 

 

 

A CASA DE DONA ADELAIDE

 

 

 

Na segunda metade dos anos 40, deixamos nossa primeira residência em Ipueiras, a casa de seu Hermógenes na Praça da Matriz, e nos mudamos para a casa de D. Adelaide, na Praça Getúlio Vargas. Meu pai a alugara.

 

Lembro-me bem do dia da mudança. Era o período das águas. Tempo nublado, garoando. Na casa, um cheiro peculiar. Soube depois que era de morcego. Ao chegar, duas carnaubeiras novas no quintal me impressionaram. A casa de D. Adelaide foi nossa segunda e última residência em Ipueiras. Seria a sede final do Educandário N. S. da Conceição. A casa era enorme. Em parte dela funcionava a escola. Salas de aula havia duas. Uma enorme e outra menor. O restante era residência. Duas alcovas, o escritório de “seu” Mattos, a ampla sala de jantar que também era a sala de visitas, a cozinha e a dispensa. A cumeeira era bem alta. Havia telhas de vidro nas alcovas para vencer a escuridão. As salas de aulas davam para fora com muitas janelas. As janelas tinham empanadas para manter a discrição em relação aos passantes.

 

A sala de jantar também dava para a rua. A porta de entrada era serrada ao meio. Abria de metade, garantindo a ventilação. Voltado para o quintal havia um alpendre onde “seu”  Mattos criava abelha Jandaíra. A dispensa era meio sinistra. Escura. Ficava no corredor entre a sala e a cozinha. Uma porta larga também “de metade”, garantia a ventilação e a luz. Fora adaptada para ser o dormitório da criada, Maria José. Lá havíamos encontrado dois enormes baús escuros com pelo menos um metro de altura e mais de um metro de comprimento. Dentro havia grãos e derivados amiláceos. Algo típico da velha estocagem de alimentos para o ano de seca. A cozinha era ampla, com um fogão a lenha e um forno cupulado de alvenaria, do tipo “braza”. Pela manhã, o gato da casa, o Pucí, subia o parapeito e lá ficava, encolhido, ao lado da trempe.

 

A escola tinha uma quadra de vôlei. Simples, chão arenoso batido. Ficava numa área lateral da casa-escola. Ao fundo da área da quadra havia mais um pequeno espaço que podíamos chamar de “playground”. Em sua frente, erguia-se uma cerca de “vara-a-pique”. Do outro lado, era o galinheiro onde D. Mundita criava galinhas caipiras. A criançada volta e meia, brincava de “trisca” (pique-pega) na quadra. Tiravam os calçados para brincar na areia. O mato que crescera nos “tempos baldios” fora capinado. Tudo limpinho e ciscado. Também jogávamos futebol e bila (bola de gude). No futebol, naturalmente pisoteávamos a terra e revolvíamos a areia com os pés ao chutar a bola.

 

Um dia, em meio ao jogo, alguém encontrou um dente humano emergindo da areia. Era próximo à janela do front poente da casa. Paramos o jogo. Ficamos curiosos. Passamos a revolver a areia com ansiedade. Mais dentes começaram a surgir. Alguém sugeriu que, no passado, um dentista teria montado seu consultório na sala da quina, justo sobre onde estávamos. Ele teria atirado aqueles restos ao terreno. De repente, alguém encontrou uma moeda antiga. Da busca ansiosa revolvendo a areia, passamos à sofreguidão. Mais moedas surgiram. Todas de réis. Para nosso horizonte de consciência, um pequeno tesouro. Tenho-as até hoje, guardadas com carinho.

 

O quintal começava nos batentes da cozinha e findava no cacimbão, que era ladeado, à esquerda pelo banheiro e à direita pela privada ou “sentina”. O cacimbão era o terror de minha mãe, por medo de que, em minha curiosidade de olhar-lhe dentro e testar-lhe o eco, me despencasse. Era coberto com uma forte estrutura de madeira e, apenas por uma janela, se “puxava” a água.

 

O banheiro tinha tanque e tacha. O banho era de cuia. A privada ou “sentina”, uma graça. Tinha dois buracos. Nunca entendi. Imaginava duas pessoas “fazendo o serviço” lado a lado e conversando animadamente. Hilário. Os buracos eram canalizados em plano inclinado para o terreno de trás, baldio, onde corria uma grota. Esgoto a céu aberto, sem dívida. A água servida do banheiro desaguava no mesmo terreno.

 

A passagem do quintal para o galinheiro se dava através de um cômodo onde minha mãe “deitava” galinhas. Havia, de quando em vez, uma ninhada de graciosos pintinhos caipiras. Neste cômodo havia também um pilão para fazer xerém para os pintos e paçoca para nós. Ou seja, carne assada com farinha e cebola roxa, caprichosamente piladas. Comíamos com banana.

 

Quando faltava luz elétrica em Ipueiras, a querida casa de D. Adelaide se tornava mais tenebrosa. Imensa escuridão muito mal quebrada por lamparinas, velas, lampiões a querosene e uma ou outra “petromax”, a projetarem nossas sombras nas paredes. Eu não saia de perto dos adultos, até que fosse dormir, claro, no quarto da minha avó, e com ela. Se a “radiadora” de seu Simãozinho anunciasse a morte de alguém, naquele dia eu entrava em pânico.

 

Mas a casa de D. Adelaide tinha um encanto especial. Era uma escola. De dia, especialmente nas tardes, dezenas de coleguinhas em aula. Eu também era aluno. No recreio, brincávamos de “queimada”. Gostava de observar as merendas deles. O que eles comiam. Só observar. Havia sempre alguém com uma novidade. Bolos, biscoitos, uma balinha nova, quem sabe um “lançamento”...

 

No início dos anos 80, com quase quarenta anos de idade e de carona com uma amiga que se dirigia ao Ipu, visitei Ipueiras por breves instantes. Fotografei a Igreja, a Estação Ferroviária e rezei, por breves minutos, no Morro do Cristo. Resumi-lhe minha história na cidade para que minha apressada amiga entendesse o meu encantamento. Não encontrei, nem procurei qualquer parente ou conhecido. Apenas senti. Ao passar pela casa de D. Adelaide, então transformada em posto do Inamps ou algo parecido, achei-a sem vida.

 

Naturalmente, faltava-lhe o ingrediente mor: meus amigos de infância. Faltava enfim, o fluido vital daquela casa.

 

(Jean Kleber Mattos)