Grupos

Berço do Nazareno

Marcondes Rosa de Sousa
O Povo - 22 Dez 2008


        Na TV e jornais, mercado e política em aguda crise. Nos shoppings, spot lights sobre pródigo Papai Noel. Na Praça do Ferreira, em contraponto, outro cenário: arte, cultura e criatividade de nossa gente, nas noites, em Fortaleza.

 

        Com amigos, acorro para este cenário. Luzes sobre tombado hotel. Em suas janelas, crianças e artistas, nos diversos andares, a nos envolver em antológicas canções natalinas. Muitos ali, os que compartilhávamos desse clima envolvente. No vácuo do outrora Abrigo Central, palco a teatralizar cenas sobre o natal. Crianças, seus pais e avós, irmanados nos aplausos. Os bancos, a me evocar os noturnos papos dos tempos estudantis. E o outrora soberbo Cine São Luiz a suscitar história em que nos tornamos partícipes dos festivais do cinema nacional e da realização do internacional FestRio, que para cá trouxemos, nos anos 80.

 

        De volta, o folclórico Bode Ioiô, hoje no Museu Histórico, parceiro nos papos entre intelectuais e boêmios. E a cena do Ceará Moleque, a vaiar o retardado e preguiçoso sol, aqui onde o sol sempre nasce mais cedo... Discreto, na recuperada Coluna da Hora, um presépio: Jesus menino cercado por pastores, animais, anjos, reis magos...

 

        Já de volta e em casa, martela-me a cabeça o Soneto de Natal, de Machado de Assis. E dele faço postal, enviado por e-mail aos amigos, falando de “noite amiga” (...) “berço do Nazareno”, atropelado pelo “metro adverso”, ultimado na indagação “Mudaria o Natal ou mudei eu?”

 

        Retorno à infância, em Ipueiras, onde os criativos presépios de Raul Catunda nos levavam ao “berço do Nazareno”. Nisso, chegam-me, na contramão desse clima, protestos de professor da UECe contra nossa política, “remanescente da elite trazida por dom João VI” (...) “E aí você me vem com papo de nazareno... Me poupe!”
Razões ao professor?

 


        MARCONDES ROSA DE SOUSA

        Professor da UFC e da Uece



 

 

Retornos do Natal

José Costa Matos
23 Dez 2008

                Ora, Papai Noel, muita coisa já vai distante. Mas menino é bicho danado para guardar lembranças. Menino e poeta. Cada coisa... A bunda de tanajura comida na rua, contra amidalites. Os desafios da viola de Véi Zuca-do-Oi-Só. A namorada que eu chamava Livrinho de Deus, porque a gente acreditava: a mão de Deus escrevia nela os seus poemas.

 

            Mas o primeiro presente de Natal que lhe pedi no mundo, Papai Noel, foi um cavalo-de-pau que não me inferiorizasse diante dos moleques de minha aldeia. Eles desciam, como vândalos, do Morro do Papoco e invadiam a Rua de Cima. Um cavalo-de-pau daqueles que só Neném Sapateiro sabia fazer, com uma estrela de pregos dourados na testa, uma orelha desconfiada espetando o futuro e outra velhacamente caída para trás...

 

            Eu era tão pequeno que não me lembro se você me deu o cavalo-de-pau das minhas rezas de menino. Por isso, estou aqui, dentro da noite do Filho de Deus, olhos arregalados na treva, rodeado de sinos cantadores, pedindo, outra vez, o cavalo-de-pau da minha infância.

 

            Naturalmente, Papai Noel, os anos que se foram me deram muitas coisas, levaram muitas coisas de mim, fincaram algumas cruzes no caminho, para marcar os lugares onde a terra teima em silenciar as lembranças dos nossos mortos. Muitas mãos deixaram adeuses inexplicáveis nas minhas mãos. Muitas vezes abri a boca para dizer uma palavra boa, mas não tive santidade nem poesia para gerar essa palavra de salvação do meu próximo.

 

            Trago, hoje, nos olhos, as paisagens de muitas almas e de muitos lugares. Escutei as angústias e as aspirações dos homens nas línguas mais estranhas. Queimei meus passos na travessia do braseiro de várias guerras. Em alguns momentos, a vida me acovardou e eu tive, como Pedro, que negar o meu Mestre diante da criada de Caifás, antes da cantada do galo. Amontoei pedras, tracei a argamassa, mas muitas das minhas construções viraram Babéis, inconclusas, na desolação da Planície de Senaar. Tive algumas experiências da profecia e salvei gentes e animais dos dilúvios que ainda iam acontecer. Meus pés estiveram nos pés de Neil Armstrong, no primeiro dia em que um de nós pisou na lua.


            Ora, Papai Noel, essas vivências todas devem deixar marcas profundas na alma da gente. É por isso que já não sou a mesma criança que desejava um cavalo-de-pau, igualzinho aos brinquedos dos moleques do Morro do Papoco. Igualzinho, agora? Como? Neném Sapateiro está no céu e não vai descer para fabricar um cavalo-de-pau com uma estrela de pregos dourados na testa, uma orelha desconfiada espetando o futuro e a outra velhacamente caída para trás... mas, se a memória não me engana, você me deve ainda o meu cavalo-de-pau. E que ele se chame Esperança. Com ele, eu sei que a amargura não terá velocidade para me alcançar nem forças para me transformar num dos seus apóstolos. Talvez até eu chegue a ser bom. Talvez até eu chegue a ser útil aos irmãos que vão amontoando motivos para maldizer a vida.


            E assim, Papai Noel, você me ajudará a viajar com mais beleza pelos caminhos do tempo do meu Deus. Eu quero que você me dê o cavalo-de-pau da minha meninice.


            José Costa Matos - Da academia Cearense de Letras e Associação Brasileira de Bibliófilos
acletras@accvia.com.br