A ética como esteio na vida cotidiana (Hélder Sabóia)
12:36 @ 09/12/2009

Tomás de Aquino
A ÉTICA COMO ESTEIO NA VIDA COTIDIANA
O que define o comportamento ético? É uma indagação difícil de encontrar uma resposta consensual posto que perpassa pela visão de mundo de cada um de nós. Muitos filósofos definem a ética como o modo socialmente correto de convivermos com o semelhante. Elegemos o pensamento de São Tomás de Aquino que, embasado em Aristóteles, visualizou a ética imanente à psique humana e, que, como uma bússola, estaria sempre a indicar o reto caminho, em direção ao Deus Supremo que, por essência, é justiça, amor e caridade.
A ética, para São Tomás, não se prende às flutuações dos sentimentos e das emoções porque, a exemplo do Direito Natural, é inabalável e permanente pois sinal da presença de Deus no âmago de cada pessoa. Muitos haverão de indagar como ser ético neste mundo globalizado que criou uma sociedade científico-tecnológica onde o progresso das comunicações apequenou o mundo, tudo ficando perto de tudo. A qualquer distância, usamos os evoluídos meios de comunicação para mudar costumes e formas de expressão.
Neste contexto, os valores cristãos tradicionais foram relativizados sob a influência das culturas de outros povos que professam outros credos. E mais uma vez a pergunta: como não nos desviarmos da ética ante tantas seduções de nossa cultura consumista, das influências midiáticas de uma sociedade que exacerba o individualismo em detrimento de uma convivência fraterna. Pela ótica cristã poderíamos dizer: basta seguir os ensinamentos de Cristo que, respondendo a dúvida existencial de seus apóstolos, disse: “Sigam-me. Eu o sou o caminho a verdade e a vida”.
Para os menos crédulos na existência transcendental, por que não nos guiarmos pela luz do direito natural que Cícero, o insigne orador da antiguidade, definiu como “A razão reta, conforme à natureza, gravada em todos os corações; imutável e eterna cuja voz ensina e prescreve o bem .Essa lei não pode ser contestada, nem anulada. É Deus seu inventor, sancionador e publicador”.
Outra indagação se nos apresenta: por que a invocação da ética para titular esta modesta reflexão? Respondemos simplesmente: porque o Natal se aproxima. O Natal, essa festa que se auto-denuncia pela iluminação feérica das praças, das ruas, das avenidas; luzes tênues, multicores, repletas de simbolismo no interior dos lares. Mas, acima de tudo, um facho de luz, vindo dos paramos celestiais, invade-nos até a intimidade da consciência e parece querer nos mostrar o amor ágape, aquele que, proclamado pelos justos, reveste-se de pleno ecumenismo, abrangendo, na sua totalidade semântica, o sagrado respeito à natureza.
Leonardo Boff, incansável defensor da ecologia, diz que o homem só encontrará felicidade quando vivenciar, com equilíbrio, suas dimensões cósmicas do “eu” e do “nós” em busca de sua integração sistêmica na sociedade e na natureza. E por que, passada a luminosa festa do Natal, não permanecermos no sentimento natalino no nosso cotidiano, vivenciando a ética mística de São Tomás ou a naturalista do grande Cícero? Afinal, ambas convergem para alcançarmos a enteléquia que é a perfeição máxima no Ser, em Deus que, em essência, é amor. Bento XVI ratifica essa concepção teleológica em sua encíclica “Deus caritas est”. E, segundo o jusfilósofo Fábio Konder Comparato, precisamos, nos dias de hoje, cada vez mais de uma nova ética, “pois premidos por duas correntes históricas antagônicas, somos chamados a decidir de que forma pretendemos unificar a humanidade –se com base na força militar, na dominação tecnológica e na concentração do poder econômico, ou se amparados na dignidade transcendente da pessoa humana”.
Feliz Natal!
Francisco Hélder Catunda de Sabóia
(Funcionário aposentado do Banco do Nordeste do Brasil)