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Tomás de Aquino

A ÉTICA COMO ESTEIO NA VIDA COTIDIANA

O que define o comportamento ético? É uma indagação difícil de encontrar uma resposta consensual posto que perpassa pela visão de mundo de cada um de nós. Muitos filósofos definem a ética como o modo socialmente correto de convivermos com o semelhante. Elegemos o pensamento de São Tomás de Aquino que, embasado em Aristóteles, visualizou a ética imanente à psique humana e, que, como uma bússola, estaria sempre a indicar o reto caminho, em direção ao Deus Supremo que, por essência, é justiça, amor e caridade.

            A ética, para São Tomás, não se prende às flutuações dos sentimentos e das emoções porque, a exemplo do Direito Natural, é inabalável e permanente pois sinal da presença de Deus no âmago de cada pessoa. Muitos haverão de indagar como ser ético neste mundo globalizado que criou uma sociedade científico-tecnológica onde o progresso das comunicações apequenou o mundo, tudo ficando perto de tudo. A qualquer distância, usamos os evoluídos meios de comunicação para mudar costumes e formas de expressão.  

Neste contexto, os valores cristãos tradicionais foram relativizados sob a influência das culturas de outros povos que professam outros credos. E mais uma vez a pergunta: como não nos desviarmos da ética ante tantas seduções de nossa cultura consumista, das influências midiáticas de uma sociedade  que exacerba o individualismo em detrimento de uma convivência fraterna. Pela ótica cristã poderíamos dizer: basta seguir os ensinamentos de Cristo que, respondendo a dúvida existencial de seus apóstolos, disse: “Sigam-me. Eu o sou o caminho a verdade e a vida”.

Para os menos crédulos na existência transcendental, por que não nos guiarmos pela luz do direito natural que Cícero, o insigne orador da antiguidade, definiu como “A razão reta, conforme à natureza, gravada em todos os corações; imutável e eterna cuja voz ensina e prescreve o bem .Essa lei não pode ser contestada, nem anulada. É Deus seu inventor, sancionador e publicador”.

Outra indagação se nos apresenta: por que a invocação da ética para titular esta modesta reflexão? Respondemos simplesmente: porque o Natal se aproxima. O Natal, essa festa que se auto-denuncia pela iluminação feérica das praças, das ruas, das avenidas; luzes tênues, multicores, repletas de simbolismo no interior dos lares. Mas, acima de tudo, um facho de luz, vindo dos paramos celestiais, invade-nos até a intimidade da consciência e parece querer nos mostrar o amor ágape, aquele que, proclamado pelos justos, reveste-se de pleno ecumenismo, abrangendo, na sua totalidade semântica, o sagrado respeito à natureza.

Leonardo Boff, incansável defensor da ecologia, diz que o homem só encontrará felicidade quando vivenciar, com equilíbrio, suas dimensões cósmicas do “eu” e do “nós” em busca de sua integração sistêmica na sociedade e na natureza. E por que, passada a luminosa festa do Natal, não permanecermos no sentimento natalino no nosso cotidiano, vivenciando a ética mística de São Tomás ou a naturalista do grande Cícero? Afinal, ambas convergem para alcançarmos a enteléquia que é a perfeição máxima no Ser, em Deus que, em essência, é amor. Bento XVI ratifica essa concepção teleológica em sua encíclica “Deus caritas est”. E, segundo o jusfilósofo Fábio Konder Comparato, precisamos, nos dias de hoje, cada vez mais de uma nova ética, “pois premidos por duas correntes históricas antagônicas, somos chamados a decidir de que forma pretendemos unificar a humanidade –se  com base na força militar, na dominação tecnológica e na concentração do poder econômico, ou se  amparados na dignidade transcendente da pessoa humana”.

Feliz Natal!  

Francisco Hélder Catunda de Sabóia

(Funcionário aposentado do Banco do Nordeste do Brasil)

                                     

 

     

A Filosofia e os Filósofos

 

          A Filosofia como carreira a seguir no campo docente é uma escolha merecedora de todo mérito que infelizmente uma parte da sociedade hodierna procura marginalizar por conviver com um conceito superficial do que vem a ser de fato o filosofar, sua função e a função dos filósofos para a transformação da sociedade que não nos nega sua dinâmica.

 

          Cabe à filosofia o papel questionador indispensável ao desenvolvimento em qualquer área de conhecimento.

 

          Ser filósofo não é discutir “o sexo dos anjos”.

 

          A função do filósofo é questionar, dentro de parâmetros lógicos, o modo de ser de um fenômeno e o por quê desse modo de ser.

 

          Na realidade, a filosofia é a base de toda ciência. É nela que estão inseridos os instrumentos primários da observação, pesquisa e conclusão de qualquer obra do pensar humano.

 

          Os filósofos questionam uma realidade que parece estática, mas permanece em constante mutação.

 

          Nesta concepção, encontram os meios para dirigir o processo evolutivo de uma ordem posta como finalizada e estática.

 

          Ser filósofo é não aceitar um dado antes de pôr sobre ele os instrumentos lógicos de que o raciocínio nos capacitou. É apreciar o fenômeno dado de forma detalhada e segura, para só assim passar da hipótese à tese.

 

          A filosofia deve ser respeitada como a ciência mater, pois seu surgimento foi o produto dos primeiros questionamentos humanos em sua tentativa de romper com o mito escravizador.

 

          Na alegoria da caverna, um trecho célebre do livro “A República”, de Platão, é narrado o processo sofrido pelo homem para alcançar o saber verdadeiro.

 

          É um processo árduo em que poucos se aventuram, uns por comodismo outros por medo, mas que recompensa de forma grandiosa aos destemidos que finalizam sua meta.

 

          A filosofia enriquece e valoriza o homem por utilizar como instrumentos as capacidades cognoscentes latentes no raciocinar.

 

          A filosofia é humanista, é produto da mente humana e companheira eterna de sua existência enquanto espécie.

 

          O grau de desinformação desta ciência no âmbito popular é notório, porém deve-se deixar claro que o ato de questionar, norma primeira do filosofar, é extremamente válido em qualquer área, para que se busque a verdade do que se procura e, sempre que se questiona, sem perceber, filosofa-se.

 

          Eis uma forma simples de entender o que é a Filosofia.

                                                                                                          

                                                                                                               Bérgson Frota

                         Publicado no O Povo em 28.11.2009

Mãos Paternas (Bergson Frota)

15:23 @ 21/12/2009

 

 

Mãos Paternas

         

         No começo ainda distante vêm-me a lembrança. E lá estava ele, a chamar-me, estirando o braço e dando-me a mão para que juntos, de calção de banho, fôssemos ver a cheia na ponte do rio que naquela manhã chuvosa inundava parte da cidade, e eu medroso apertei-a como um porto seguro e criando coragem fui.

 

         Depois suas mãos guiavam-me na já antiga máquina de datilografia, corrigia-me, mostrava-me os acentos, como marcar e separar parágrafos, por fim a colocar a fita bicolor vermelha e preta, coisa que não demorei a aprender.

 

        Corria o tempo e nos quinze anos, seu aperto de mão a parabenizar-me, e um relógio que sonhava ganhar. Suas mãos a conformar-me batendo nas costas de forma branda ensinando paciência quando eu muito precisava.

 

        Suas mãos levantadas ao alto, agitadas a orgulhar-me, quando discursava nos palanques eleitorais, festivos ou para alguém homenagear. Suas mãos generosas no que sempre precisei, a cuidar para que nada me faltasse.

 

        Suas mãos agora necessitadas das minhas no seu já frágil e incerto andar. Suas mãos meu Pai, inertes e frias deitadas a descansar para sempre, e só no meu coração sentia sem poder chorar, frias, sem movimento.

 

       Não as toquei, olhava doído na alma seu partido, e vezes sem conta naquela noite triste e mais longa até agora na minha vida, muito mais que seu rosto eu as fitei.

 

      Mãos tão queridas, instrumentos abençoados do seu coração.

 

      Bergson Frota

      Publicado no O Povo em 19.12.2009