Alegria, vida (José Costa Matos)
18:25 @ 02/03/2008
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Papa Bento XVI
ALEGRIA, VIDA
Bati nas pedras de um tormento rude / e a minha mágoa de hoje é tão intensa, / que eu penso que a alegria é uma doença / e a tristeza a minha única saúde.´
A constituição profética dos grandes poetas levou Augusto dos Anjos a ir além do seu tempo. E escreveu estes versos que parecem muito mais acontecimentos desta civilização do estresse, carregada de doenças novas ainda sem nomes específicos nos diagnósticos.
Um sábio cristão, Alceu Amoroso Lima afirmou: ´Não temos direito à alegria. Temos o dever da alegria.´ Fala-se nesse dever e reaparece, lá na diocese de Sobral, um campeão de humildades que repetia no seu jornalzinho: ´O pessimismo não é cristão.´ Monsenhor Olavo Passos tinha uma feira de pensamentos alegres para os rapazes marianos de sua liderança.
Já se falou muito em alegria. A liturgia da missa na Igreja Católica era dialogada entre celebrante e acólito:
- Entrarei no altar de Deus.
- Do Deus que é a alegria da minha juventude.´
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Ad Deum qui laetificat juventutem meam.´ Na beleza deste latim, e em nome da comunidade presente, o acólito falava de um Deus que alegrava a juventude de todos. Todos jovens, todos alegres.
Mas falar em Deus tornou-se uma velharia. A ciência cresceu. Ocupou mais pensamentos e livros. Renan, com muita fé, escreveu ´O Futuro da Ciência´. A economia pareceu dividida em marxismo e capitalismo, mas essas filosofias estavam unificadas na valorização do poder de comprar.
John Maynard Keynes, economista, acreditava no homem capaz do racional, mas nunca antes de esgotar todas as alternativas contrárias ao raciocínio. Na verdade, só uma racionalidade muito rasa não descobre a base comum de marxismo e capitalismo.
Quando teorizou a psicanálise, Sigmund Freud não temeu velharias. Para aclarar o mistério dos complexos, buscou apoio no teatro de Sófocles, que viveu no século V antes de Jesus Cristo...
E a suprema aspiração da felicidade, com passagem pela alegria. E equívocos sem número na História. Na busca do requinte alegre, os guerreiros de Síbaris treinaram seus cavalos para a dança ao som de flautas. Povo inimigo, os citas sabiam disto. E os citas levaram flautistas para o campo de batalha. Os cavalos dos sibaritas foram dançar as músicas das flautas. E os seus montadores foram destroçados pelos citas.
Nos séculos XV e XVI, a busca da alegria estava no descobrimento de rotas do mar grande.
A rota das Índias: riquezas, as especiarias, a pimenta-do-reino, cravo, canela, perfumes, sabões...Diz o francês
A rota do Novo Mundo: a prata, o ouro, o mentira verde das esmeraldas, a maravilha dos latifúndios nas sesmarias, e até a fuga ao tédio. Contra as mesmices de Castela-a-Velha, Juan Ponce de León atravessou o Atlântico. Descobriu a Flórida e morreu de alegria: no dia de São João bendito, achou ´algo nuevo que mirar.´
Marcel Proust indica remédio contra as falências da promessa de alegria dos turismos. O verdadeiro descobrimento das viagens não é o encontro de novas paisagens. É o descobrimento de novos olhos...Futebol. Carnaval. Opções de todos os caminhos. Alegrias de massas. Mas depois do grito de gol, depois do samba-no-pé, em canto ou em pranto, cada um se defronta com sua equação pessoal.
E Deus?
Fonte: Diário do Nordeste

