Grupos

A vida acontece em grupos.

O invulnerável ao ontem e o intocável hoje

 

Reabro o “Quase”, de Frota Neto, pinçando alguns trechos, das brincadeiras nossas ao tempo de criança (pp. 22-26)

 

“Nós tínhamos a Ipueiras dos meninos – nós todos, no genérico ignorando classe social, origem, fortuna, a partilhar os mesmos brinquedos, os mesmos folguedos, as mesmas aventuras, os mesmos arriscar. De ficar patente o quem diferenciado do quem, quando a questão ilustrava encaminhar namoro pois que irmã dos da de primeira interditada aos de segunda.  Os meninos de primeira poderiam até quer ir namoriscar uma de segunda, sem que as menin as de primeira sequer se ousassem em tal olhar pra gente deles.

 

(...) De brincar e de brigar, formava-se cerco, quase continuidade desdobrando-se sem deixar rusgas permanentes. Havia zanga. Intrigava-se deixando-se de falar.  Contudo, nada a impedir que um bom folguedo destampasse o riso solto. Se voltava tudo a se misturar água no mesmo leito do rio – banhando-se. Atirando de baladeira. Aramando arapucas para pegar passarinho. Gangorra para a trilha do peba ou o preá. O soltar pipa feita do talho de carnaúba e papel de seda, e linha armadilhada de cerol. Do ioiô de flandwa. Do corrupião. Do desafio quem durante mais a girar sua carrepeta. Do pião de madeira, pegado na unha. Go galamaste rodopiando e gemendo no rangido da madeira ao centro. Do juntar gaiola-a-gaiola, oco-a-oco, para a briga do canário. Do que sendo chama. Da que dando fogo. Do telefone com cordão ponteado de latga de talco. Do estrear rádio galena. Do brincar de pegar. De correr. Do esconde-esconde. Do seu lado esquerdo está ocupado? Quem ocupa?

 

(...) Tinha do trisca-belisca. Do chicote queimado. Do cabra-ceda. Tinha das brincadeira de roda e de cadeira a socializar venturas mais que amizades – do passar o anel inclusive. Tinha do “mavé-mavé-mav-e”. Não se brincava muito de amarelinha – quase só de menina – ou de jogar pedra passando uma a uma pelo oco da mão, enquanto se lançava uma outra pedra para o alto ao instante mesmo de passar uma para o oco e voltar a tempo de segur-a antes de sua queda. De tudo que de toda parte no acumulado dos jograis medievais antepassados até aqueles dias, até os dias de hoje, ainda que esmaecidos, tendo. Pular corda até que podia, se se afeito a alguma menina envolvida no balanceio. Mas brincar de casinha, podia não, que coisa bem de menina.

 

*         E sem que os adultos talvez soubessem, mesmo que até desconfiassem, se eles tinham o mando, nós tínhamos talvez o mais do que invulnerável ao ontem – o ser criança = e ao hoje intocável – o de ter a lembrança. Nós éramos e nós tínhamos a Ipueiras dos meninos.

 

 

 

 

 

 

Na Pousada: Dalinha, Everardo, Marcondes

 

PAPOS SOBRE TURISMO E HOSPEDAGEM EM IPUEIRAS

 

 

Voltemos à Pousada Nossa Casa e os papos que ali tivemos, Everardo Mourão, Aninha, Dalinha e eu. Papos muitos, já dissemos. Mas, em particular, as potencialidades de um turismo interiorizado espraiando-se até serras, macambiras e as “ipueiras”, enfim.

 

O acolhimento e o marketing da Pousada Nossa Casa, http://www.pousadanossacasa.tur.br/, deixou-nos impressionados. Everardo é empresário com “feeling”. É de a gente rir e, ao mesmo tempo, admirar seu esforço por misturar três línguas na tentativa de comunicação com os turistas estrangeiros. E de tirar o chapéu para a comunicação que teve de empreender com dois estrangeiros ... surdos-mudos. Muitas histórias que nos levam à hospedagem em Ipueiras.

 

Dalinha reitera posição que vem assumindo no Grupo Ipueiras:

 

“O hotel existe, é muito bonito, confortável, o Chagas é uma pessoa maravilhosa, mas... falta a alma do negocio. A propaganda! falta talvez o que no Ceará é prioridade, uma piscina, ou até mesmo um chuveirão, um atrativo a mais, que possa levar o povo da cidade a frequentar. E, esse mesmo frequentador fazer a divulgação boca a boca.

 

Hoje em Ipueiras, temos bandas, temos cantores, Temos repentistas,por que um dia na semana não levar essa gente para fazer um movimento, num hotel nas churascarias????? Não se ganha sem investir. Uma propaganda num Site, no rádio, é insignificante em se falando de dinheiro, e muito importante para quem divulga. Tem de haver a troca!!!

 

Na hora que o ipueirense acordar para a beleza natural da nossa serra, que já foi rasgada com boas estradas, que tem atrativos como: a pousada do Nonato Doca, O pesque e pague de Nova Fatima, Uma feira maravilhosa na America, o pinga e suas lendas na Matriz.

 

Eu acho que precisamos vestir a camisa de Ipueiras. Everardo se junta a Edmilson que por sua vez se juntará a Chagas e a corrente começará a se formar. Nós que temos espaço e palavras vamos divulgando na medida do possível.,

 

A feira de Bovinos, Ovinos, caprinos e artesanato já é um grande acontecimento no mês de outubro.Ipueiras cresce a cada dia e se cada um fizer sua parte o resultado será muito melhor.”

 

 

“Muito bem, Dalinha” – concorda Everardo:

 

Seria ótimo que algum dos conterrâneos residente em Ipueiras, levassem essas considerações até o nosso amigo Chagas,  para que ele nos dê um alô , e entre nesta corrente, que é tão nossa quanto dele. Ele que teve esta grande idéia do investimento, poderá acatar a de propaganda. Até falei para o meu comp. Édson, um grande painel na Estação, indicando a existência e localização do hotel, já traria um retorno razoável,  penso eu.”

 

Eh! – concordo eu, Marcondes. Everardo poderia dar umas lições ao seu amigo Chagas. Everardo leva jeito. Chegando em casa, ligo a Internet, vou ao “sítio” Ipueiras e clico por sobre a menção “onde ficar”. Faz um bom tempo, a resposta é o aviso: “Em construção”. O hotel não sei se foi construído. Mas a demora na construção dessa indicação está longa demais.

 

“Turismo” – acrescento - é, sem dúvida, uma das vocações de nossas “águas retiradas”. Da última vez que lá estivemos, Solange, Walmir e eu, tivemos de nos hospedar lá num dos municípios da Serra, num hotel bem aprazível.

 

Vejam a queda do Everardo para a comunicação e o marketing:

 

http://www.pousadanossacasa.tur.br/

 

 

 

 

 

Capa da Veja (1939)

 

COÇA-COÇA, O RÁDIO E A ALEMANHA

 

 

Jean Kleber

 

 

No início da década de 50, os rádios “Telefunken”, a válvula, estavam em fase de lançamento. O reinado dos “Phillips” parecia ameaçado. A vedete era o modelo “Largo”.

 

Um vendedor estava em Ipueiras para fazer demonstrações. Como a energia elétrica do gerador da cidade somente à noite era ligada, ele portava uma bateria para os testes. Chegando à nossa casa, preparou-se para instalar o aparelho.

 

Em nossa casa, a sala de visitas e a sala de jantar eram a mesma. A porta dava direto para a rua e estava aberta. Aguardávamos a demonstração quando surgiu na moldura da porta a figura do Coça-coça, o mendigo-doido mais conhecido da cidade. Aliás, muito bem descrito no “blog” de Ipueiras por Darci Weihs.

 

Organizado, portava suas três sacolas de coleta, de tecido de algodão: a da farinha, a do arroz e a do feijão. Pareceu interessar-se pelo aparelho.

 

-Isso é um rádio?

-Sim. Respondeu o vendedor.

-Ele fala?

-Sim.

-Eu posso falar?

O vendedor parecia já saber de quem se tratava.

-Sim. Fale aqui!

 

E apresentou-lhe o terminal de pinos do cabo do aparelho como se fosse um microfone. O homem levou o terminal à altura da boca e transformou-se. Empertigou-se, inchou a veia do pescoço e, com o olhar rútilo, vociferou:

 

-Aqui fala....Vicente Araújo de Quintas!..Prefeito do Curupati!...General de “Lemanha”!.... E por aí foi.

 

Os circunstantes riram do delírio. Estávamos diante de uma incompatibilidade de cargos e patentes. Improvável que alguém, prefeito do Curupati, fosse um general da Alemanha. De alemão ali só tinha o rádio.

 

De tudo, restou-me uma pergunta: afinal quem era Vicente Araújo de Quintas? Eu tinha seis ou sete anos na ocasião e acreditei ser aquele o nome verdadeiro do Coça-coça.

 

Nunca tratei deste assunto com alguém. A dúvida permanece até hoje.

 

 

FRANCISCO SOARES MOURÃO (Tim Mourão)

 

Síntese biográfica (1914-1965).

 

Por Lourdite Mourão, nora,

em tom de homenagem

 

Nasceu em Sítio Juá, no município de Ipueiras, onde viveu a maior parte de sua vida. Foi comerciante, industrial, agro-pecuarista, dedicando-se também à exportação de produtos do seu comércio: algodão, mamoma e coco babaçu.

 

Foi político de grande influência na sociedade ipueirense. Elegeu-se prefeito da cidade, em 1958, exercendo o mandato por dois anos: 1959-1961. Era amigo de todos, que  nele reconheciam valor pelas excelentes qualidades.

 

Casou-se, em primeiras núpcias, com Francisca Netária Mourão, sua prima. Dessa união, nasceram os filhos: Elisa Maria, Lelete (Cosmanete), Carmem, Fátima, Wagner (Vavá) e Terezinha. No segundo matrimônio, casou-se com Maria Andrade Mourão, com quem teve os filhos: Jackson, Fernando, Reuber e Antônio.

 

Faleceu em Ipueiras.

 

 

Isa, "Vavá" e Gerardo Melo Mourão

 

A TIM MOURÃO, EM TOM DE TRIBUTO

 

Em tom de tributo! Duplo tributo: a quem ora o presta e a quem, com afago, o receberá com certeza. Quem o presta, posta-se, na foto acima, entre dois do “Clã dos Mourões”: “Vavá”, o rebento de Francisco Soares Mourão (Tim Mourão) e o legendário jornalista e escritor Gerardo Melo Mourão. Ela, a tributante, é Isa Catunda, em seus lúcidos 93 anos de existência e fresca memória a falar da “vida admirável do Tim”.

 

Um falar – ressalte-se - que segue o ritual da professora de gerações de ipueirenses de outrora. Depoimento manuscrito, em um desses caderninhos de anos atrás, cheio de pautas, a nos lembrar os tradicionais livrinhos para o treinar “caligrafia”, onde, crianças, nos exercitávamos, com ela (eu, um dos incluídos nessa saudosa lembrança , antes da palmatória de Dona Ester), em busca da penosa arte do escrever.

 

Felizmente, a tecnologia é hoje capaz de fazer, dos “manuscritos” de outrora, “hipertextos” de agora. E, no texto abaixo – dirigido a Tereza Mourão a falar da alegria ao ser convidada por Lourdite (filha e nora respectivamente de Tim) - pode-se ver a “caligrafia” ainda vigorosa de Isa Catunda, voar, pela Web, em direção aos quatro cantos do mundo:

 

 

 

A pessoa e o amigo

 

Francisco Soares Mourão era uma pessoa adorável, digna de elogios merecidos. Muito trabalhador e calmo, gostava muito de ajudar. Era um grande amigo de todos, que dele se valiam em qualquer necessidade.

 

Gostava de dizer: ”Sou amigo dos meus amigos”. Realmente, era uma pessoa prestativa e muito delicada. Como amigo, não havia outro melhor e mais querido.

 

Casou-se duas vezes. O primeiro casamento, com uma prima, Netária Melo Mourão, digna dele, em todos os momentos. Igual a ele, ela era também prestativa e muito boa. O segundo casamento foi com Maria Andrade, uma moça de Santa Quitéria.

 

Do primeiro matrimônio, eram seus filhos: Elisa, Lelete, Fátima, Terezinha, Vavá e Carminha. E do segundo casamento, Jackson, Rubem, Fernanda, Marcos Antônio.

 

Da vida política, a vibração eleitoral, os hinos

 

Era político sincero. Foi eleito prefeito de Ipueiras com maioria de 400 votos. Ipueiras vibrou de entusiasmo e alegria.

 

E, com memória ainda ativa, recorda-se  Isa de trechos das usuais “hinos” que tocovam fogo nas disputas acirradas entre o PSD (Partido Social Democrático) e  a UDN (União Democrática Nacional), nessa época.

 

Um deles, assim dizia:

 

É Tim Mourão e Moacir Mourão

O PSD é quem vai governar

A UDN vai mesmo se acabar

Tanto aqui em Ipueiras

Como em todo o Ceará.

 

Homem de bem e muito valor

É Tim, é Tim, é Tim Mourão

Com Mauro e Darwich  para ajudar

E os votos dos cassacos

A vitória é de esmagar.

 

O “hino da vitória”: rixas PSDxUDN

 

Te prepara, Tim Mourão

P’ra quatro anos governar

Padre Cícero de Ipueiras

Nunca mais há de mandar.

 

Tim Mourão vitorioso

A UDN derrotou.

Doze anos de abandono

O povo ressuscitou.

Enfrentemos com altivez

Sem Poranga e Macambira

O fuxico e a maldade

A calunia e a mentira.

 

A “saudosa recordação” e o preito final:

 

Tim era um dos amigos de meus pais, que  tinham por ele grande amizade e saudosa recordação. Eu era muito amiga dele e, diversas vezes, fui sua confidente, não só na política como também em algumas ocasiões de sua vida particular.

 

Era um grande  trabalhador, muito sincero em seus negócios. Na cidade, tinha escritório para a venda de mamona, algodão e couros. E, na Praça da Estação, um dos bairros de Ipueiras, mantinha armazém de gêneros de primeira qualidade, além de uma fábrica de beneficiamento de algodão.

 

Assim foi a vida do querido Tim: espalhando somente o bem e a felicidade. Não só em meio a sua família, que, ainda hoje, lamente com saudades a sua partida para o céu, bem como todos os ipueirenses, seus amigos.

 

Que o Tim querido, lá no céu, receba a recompensa de Deus pelo bem que na terra  fez. E que durma o sono da  tranqüilidade  e  da  eternidade.

 

É o preito de sua amiga  e admiradora,

 

Isa Catunda

 

 

 

 

Foto dos anos 50 (Tim, filhos, vizinhos)

 

 

FAMÍLIA DE TIM MOURÃO

 

 

Filhos: 10

Netos: 22

Bisnetos: 17

 

FILHOS E GENROS E NORAS

 

1. Elisa Maria Mourão Pereira

 

Esposo: José Narcélio Pereira

Filhos: a) Racine Mourão Pereira (com 3 filhos, que deu a Tim o primeiro neto, nascido 17 dias antes da morte do avô, que foi seu padrinho)de quem foi padrinho); b) Ricardo Mourão Pereira (1 filho); c) Ronaldo Mourão Pereira (2 filhos)

 

2. Cosmanete Mourão Rebouças Chagas (Lelete)

 

Esposo: José Welington Rebouças Chagas

Filhos: a) Francisco Welington Mourão Rebouças Chagas (com dois filhos); b) Francisca Netária Mourão Rebouças Chagas (afilhada de Mauro Benevides); c) José Wagner Mourão Rebouças Chagas (com dois filhos).

 

3. Fátima Mourão Romero

 

Esposo: Adalberto Romero

Filhos: a) Adalberto Mourão Romero (com 2 filhos); b) Adriana Mourão Romero; c) Luciana Mourão Romero (com 1 filha)

 

4. Carmem Melo Mourão - sem filhos

 

5. Antonio Wagner Melo Mourão

 

Esposa: Lourdite Mourão Catunda (com 4 filhos): a) Francisco Soares Mourão Neto (com 1 filho),]; b) Marcelo Mourão Fontenele  (com 1 filho)]; c) Carlos Mourão Fontenele (com1 filho); d) Antônio Wagner Melo Mourão Junior.

 

6. Tereza Melo Mourão

 

Divorciada, com 2 filhos: a) Inácio Emiliano Melo Mourão Pinto (23 anos); b) Francisco Delano Melo Mourão (20 anos).

 

7. Francisco Jackson Andrade Mourão  (com 2 filhos)

 

8. Fernanda Maria Andrade Mourão

 

Divorciada, dois filhos: a) Atanásio Filho e Aline Lorena

 

9. Francisco Reubem Andrade Mourão (3 filhos)

 

10. Marcos Antonio Andrade Mourão  (sem filhos)

 

 

 

Arco do Triunfo (Foto: Edson Morais)

 

CITAÇÕES EM TOM DE TRIBUTO (I)

 

No semi-árido das águas retiradas

 

Por instantes, lá me vejo na infância, em pleno semi-árido das Ipu­eiras (“águas retiradas”, em sua etimologia), no Ceará. Aí, já dou com a lei­tura a lastrear meu potencial escrever, plasmando-se como matriz para a deci­fragem do mundo. Leitura, a dos livros. E, em um Nordeste de tradição oral, “leitura da oralidade” – a dos cordéis, das estórias de Trancoso e da Carochinha, que me iam chegando das babás e empregadas domésticas, e dos múltiplos contadores de história a povoar os sertões.

 

Na escola, nos iniciávamos na escrita. Isso, pelas vias pacientes e atentas da literal “caligrafia” (a buscar sinais gráficos corretos e belos), em cadernos onde começávamos a “cobrir” as letras, buscando-lhes feições claras e estéticas.  Tudo isso, sob a diligente observação e ajuda de Isa Ca­tunda, professora minha, hoje ainda lúcida em Ipueiras, onde faz pouco tive a felicidade de, num gesto de agradecimento, abraçá-la. Entre os livros didáticos, um deles nos chamava a atenção: o “manuscrito”, onde textos escritos a mão se sucediam a partir dos mais legíveis até os quase incompreensíveis “garran­chos”, nas últimas páginas do livro, que, sob a espreita da palmatória, na es­cola de Dona Ester (mãe do escritor Gerardo Melo Mourão) , na mesma cidade, tínhamos de decifrar.

 

Garranchos assim, bem mais antigos, eu os encontrava nos gigantes­cos livros em que se registravam as escrituras dos imóveis, no cartório de meu pai. “Livros enormes” sob minha ótica infantil, campo aberto onde ca­rimbos eram “boizinhos” e “rezes” nos imensos campos por entre garran­chos e carrapichos  da manuscrita caatinga. Dali, extraíam-se as histórias das duras conquistas das glebas de terra, romanceadas por meu pai, exímio contador de história. Conquistas desde os tempos das sesmarias até os dias de então, que ali afinal se registravam a buscar proteção e amparo da lei: ao norte e ao sul, limitando-se com terras dos “coronéis” fulano e sicrano; a leste e oeste, “enquanto resistência houver”!...

 

Curioso! O oral e o escrito, em dueto, surgiam-me imbricados desde a infância. E a leitura, já aí, não se continha na estrita dimensão, a dos li­vros. Abria-se, mais ampla, para o interpretar de nosso redor. Tudo, em bem dosada mistura entre o real e o fantástico. A leitura dos livros, sim. Mas a “leitura” que, com o pai da lingüística, a chamaríamos “semiológica”.

 

Tópico escrito por Marcondes Rosa de Sousa, in  “A leitura emburrece?”, discussão que se desenvolveu no Grupo Ethos-Paidéia, www.grupos.com.br/ethos-paideia, na Web.

 

 

 

 

 

 

 

 

PERPÉTUA MOURÃO, FROTA NETO E O SAPATO “BALLET”

 

Jean Kleber

 

            A escola de “seu” Neném Mattos tinha uma quadra de vôlei. Simples, de chão batido. Se fosse de areia seria “vôlei de praia”. Ficava numa área lateral a casa-escola.

 

            Alem da área da quadra tinha mais um pequeno espaço que podíamos chamar de “playground”. Em frente, erguia-se uma cerca de “vara-a-pique”. Do outro lado, era o galinheiro onde Dona Mundita criava galinhas caipiras. E não eram poucas.

 

            A criançada brincava de “trisca” (pique-pega) na quadra à noite, quando algum evento reunia seus pais por ali. Tiravam os calçados para brincar.

 

            Uma noite, quando todos já se preparavam para partir e buscavam seus calçados, eis que Perpétua Mourão percebeu que alguém se apropriara dos seus. Eles estavam nas mãos de Frota Neto, que na época devia ter, se muito, oito anos.

 

            Era um tipo de sapatilha conhecida, na época, como “sapato ballet”. Ela partiu para a perseguição ao endiabrado menino que a cada drible saia pulando e gritando com pronúncia bem própria:

 

            - Sapatinho “bailé”! ... Sapatinho “bailé”!

 

            Mas Perpétua não era fácil. Em dado momento, vendo que seria alcançado, o “Antônio”, como eu o chamava, atirou as sapatinhas da menina por sobre a cerca de “vara-a-pique”, dentro do galinheiro de Dona Mundita”!

 

            A cerca era intransponível. Contornamos por dentro da casa e com a ajuda dos adultos que portavam lanternas, finalmente as sapatilhas foram encontradas. Ainda limpas felizmente, considerando os “resíduos” próprios daquele criatório.

 

            Durante o governo Sarney, quando, diante da TV eu ouvia com atenção a proficiência do grande porta-voz Frota Neto, por vezes eu começava a rir, lembrando-me daquela traquinagem:

 

            - Sapatinho “bailé”!... Sapatinho “bailé” !...

 

 

Em seu livro Vendo a vida passar, o Pe. Francisco Correia Lima, guarda "lembranças bem vivas" de seus "dedicados acólitos". Quem foram eles, onde estão eles?

Guardo uma lembrança bem viva dos meus dedicados acólitos. Interessava-me por eles e, por isso, frequentavam a casa paroquial, embora eu reconhecesse, em alguns, a "preocupação" muito naturasl de receberem um envelope mais "gordo", após as festas religiosas.

Alguns, sobretudo, tenho-os ainda gravado na memória: o Renato, o Edésia, o Nemésio, do Edmundo Medeiros, o Moraisinho, do Sr. Manoel Morais, o Guido, do Major Sebastião, o Gonçalinho e o Pinho Gomes, do "Dólar", o Geraldinho, do Sr. Dão Rosário, o Hélder, do Abílio Sabóia, Chico, Antônio e Marcos, do Sr. Idálio, Arimatéia e Lutim, do Sr. Luís Malaquias, o Arnóbio, do Sr. Abidu, o Pessoa, do Sr. Raimundo Moreira, o pequerrucho Alberto, do Antônio Jardelina, o batorezinho Cleaci, da D. Nenen Laurindo, o Marcondes e o Walmir, do Wencery, o Bartolomeu, irmão da Terezinha, e enfim, o Adérson, de São Gonçalo da Serra dos Cocos e o Edmílson, do Catunda, que tantas vezes me acompanharam às capelas em desobrigas. (p. 126)

 

 

 

 

 

 

TECENDO UMA NOVA MANHÃ

 

 Marcondes Rosa de Sousa

 

 Fotos, via de regra, ilustram. Por vezes, vão além e dizem mais, desempenhando o papel de autênticos “flagrantes simbólicos”. E, sob essa perspectiva, dizem mais que os prosaicos fatos. Um exemplo é a foto que encima este texto.

 

 Na foto, os personagens celebram um encontro, que poderia dizer do abraço, antes não compreendido, mas que hoje, nestes tempos ditos “digitais”, irmana o que denominamos de “local” e “global”.

 

O cenário é a Pousada Casa Nossa. Atores da cena, ipueirenses. Nas pontas, Francisco Braga Barbosa (à esquerda) e esposa e filho (à direita). Ao centro, Everardo Mourão e Tadeu Fontenele (e esposa). Na foto, o registro da passagem, Braga e família retornados de Ipueiras em passagem por Fortaleza, tendo Tadeu por Cicerone.

 

 Os personagens. Por trás de Braga, filho de lavrador, o superado estigma, chavão nas “águas retiradas”, vaticinado pelo patrão de seu pai: “caneta de pobre é cabo de enxada”. Braga se fez alencarino Moacir e emigrou para o Planalto Central. E um dia, com apoio de Frota, Dalinha e de muitos, conseguiu plantar, na Web, um “sítio”: o www.ipueiras.com, onde o Redentor, braços abertos, ao mirar, em linha reta o Ipu, começava a despertar euforias nos freqüentadores do Bar do Nagib, que sonhava com o dia em que Ipueiras e Ipu, unidos, formariam “uma grande metrópole”. “E não tem, nessa www, nem br? Não? Cidade monarca, essa Ipueiras!” – foi a vibração de meu irmão, Walmir Rosa, que, eufórico, terminou por escrever o que hoje figura no topo da Página:

 

(...” Num passe de mágica (ou de mouse), transporto-me até Ipueiras como se estivesse na ‘avenida’, sentado no chão, conversando numa roda de amigos, revirando saudades”.

 

 Em tal sítio, além das crônicas de saudades, a história e as estórias da terra (os famosos "causos" tão ao gosto do público), os pontos e potencialidades turísticas, as ações do poder público (sobretudo municipal), a cultura, a culinária, os talentos, personalidades e ícones da terra.

 

 O “sítio” cresce. Aglutina outros “points” como o Primeira Coluna e vários recantos outros, onde ipueirenses e amigos de Ipueiras se encontram, como na antiga “avenida” ou “pracinha”, atraindo desgarrados da terra por “Oropa, França e Bahia”.

 

 Aos poucos, além das reviradas saudades, alguns ímpetos de novo projeto se ensaiam. . Surgem programas como os patrocinados pelo Instituto Frota Neto. E o próprio Instituto se planta em território real (além do virtual) em Ipueiras. Surgem homenagens como as devotadas a Gerardo Mello Mourão, cuja pena, entre outras temáticas, dedicou-se a falar d’O País dos Mourões,

 

 http://www.revista.agulha.nom.br/mour.html,

 

 a fazer dueto com o “Bacamarte dos Mourões”, de Nertan Macedo....

 

 Do “país dos mourões” é que vem Everardo. Outra origem. Bem nascido, filho de Raimundo Mourão e Melo, ex-prefeito de Ipueiras, teve por bacamarte, a sensibilidade e o feeling para acolher, receber, hospedar.

 

 Na foto, traços de pesados dez quilos a reduzir, por ordem médica, mas presença saída do leito para o registro do acolhimento ao conterrâneo, ali trazido, como hóspede, por Tadeu Fontenele e esposa. E o aceno para que, aos poucos, a Pousada Nossa Casa se afirme como pousada de ipueirenses e amigos, do País e do Mundo, que, porventura, passem por Fortaleza. E, num crescendo, interiorizando nosso turismo até as “águas retiradas”, palmilhadas pela índia Iracema, que, se corria as matas do Ipu, tinha Ipueiras como passagem, por certo.

 

 Everardo Mourão leva jeito. Veja, em clique instantâneo, descrição e contactos de sua “Pousada”:

 

 http://www.pousadanossacasa.tur.br/.

 

 Percorra a casa. Veja as condições módicas a pagar pelos serviços. E o apelo a um turismo familiar, assistido na sugestão dos roteiros, um contacto pessoalizado, onde o turista não é um anônimo. Impressionante, o número de pessoas a contatar seu “sítio”, na Web: 11.324 pessoas, sem o cômputo da via telefônica ou postal convencional.

 

 Everardo Mourão nos fala dos breves momentos de Braga, na Pousada Nossa Casa. Dos pacotes de queijo-de-coalho com rapadura, a nos seduzirem desde meninos e a despertarem olhos ávidos nos “piratas” que querem patentear nossos sabores. E, didático, diz de seus esforços por atender bem os turistas. E, possivelmente, pedir que os ipueirenses apóiem o hotel recém-implantado no Bairro “Vamos Ver”, em Ipueiras.

 

***

 

:Duas histórias, duas procedências. Um abraço só: o em torno da união. Na verdade, somos, nas águas retiradas, fruto da solidão do vaqueiro: “Uma rês, um vaqueiro, a caatinga. Entre os dois, só Deus e a solidão”. Solidariedade, em tudo se faz preciso. Mas, infelizmente, é o olhar desconfiado de todos, como se todos fôssemos vaqueiros, tendo de derrubar sozinhos as rezes.

 

***

 

 Braga e Everardo. Duas procedências. Dois sonhos. O abraço. Seus “sítios”, o www.ipueiras.com, o Grupo Ipueiras e o Blog ipueiras (os de Braga) e a Pousada Nossa Casa são a expressão necessária do construtivo abraço. O abraço da solidariedade.

 

 Aqui, pois, a homenagem de todos nós, que, nesses “points” – o de Braga e de Everardo, reviramos saudades e preparamos uma Ipueiras, um Ceará, um Brasil e um Planeta mais solidário e humano.

 

 Há pouco, escrevia eu sobre esse clima, quando me caiu às mãos o poema de João Cabral de Melo Neto, que me inspirou artigo sobre o Ceará e aqui deixo como apelo ao necessário clima a tecer uma nova manhã:

 

 "Um galo sozinho não tece uma manhã: 

ele precisará sempre de outros galos.

 

De um que apanhe esse grito que ele 

e o lance a outro; de um outro galo 

que apanhe o grito de um galo antes 

e o lance a outro; e de outros galos 

que com muitos outros galos se cruzem 

os fios de sol de seus gritos de galo, 

para que a manhã, desde uma teia tênue, 

se vá tecendo, entre todos os galos".

 

[João Cabral de Melo Neto,

            in Tecendo a Manhã"]