Grupos

O invulnerável ao ontem e o intocável hoje

 

Reabro o “Quase”, de Frota Neto, pinçando alguns trechos, das brincadeiras nossas ao tempo de criança (pp. 22-26)

 

“Nós tínhamos a Ipueiras dos meninos – nós todos, no genérico ignorando classe social, origem, fortuna, a partilhar os mesmos brinquedos, os mesmos folguedos, as mesmas aventuras, os mesmos arriscar. De ficar patente o quem diferenciado do quem, quando a questão ilustrava encaminhar namoro pois que irmã dos da de primeira interditada aos de segunda.  Os meninos de primeira poderiam até quer ir namoriscar uma de segunda, sem que as menin as de primeira sequer se ousassem em tal olhar pra gente deles.

 

(...) De brincar e de brigar, formava-se cerco, quase continuidade desdobrando-se sem deixar rusgas permanentes. Havia zanga. Intrigava-se deixando-se de falar.  Contudo, nada a impedir que um bom folguedo destampasse o riso solto. Se voltava tudo a se misturar água no mesmo leito do rio – banhando-se. Atirando de baladeira. Aramando arapucas para pegar passarinho. Gangorra para a trilha do peba ou o preá. O soltar pipa feita do talho de carnaúba e papel de seda, e linha armadilhada de cerol. Do ioiô de flandwa. Do corrupião. Do desafio quem durante mais a girar sua carrepeta. Do pião de madeira, pegado na unha. Go galamaste rodopiando e gemendo no rangido da madeira ao centro. Do juntar gaiola-a-gaiola, oco-a-oco, para a briga do canário. Do que sendo chama. Da que dando fogo. Do telefone com cordão ponteado de latga de talco. Do estrear rádio galena. Do brincar de pegar. De correr. Do esconde-esconde. Do seu lado esquerdo está ocupado? Quem ocupa?

 

(...) Tinha do trisca-belisca. Do chicote queimado. Do cabra-ceda. Tinha das brincadeira de roda e de cadeira a socializar venturas mais que amizades – do passar o anel inclusive. Tinha do “mavé-mavé-mav-e”. Não se brincava muito de amarelinha – quase só de menina – ou de jogar pedra passando uma a uma pelo oco da mão, enquanto se lançava uma outra pedra para o alto ao instante mesmo de passar uma para o oco e voltar a tempo de segur-a antes de sua queda. De tudo que de toda parte no acumulado dos jograis medievais antepassados até aqueles dias, até os dias de hoje, ainda que esmaecidos, tendo. Pular corda até que podia, se se afeito a alguma menina envolvida no balanceio. Mas brincar de casinha, podia não, que coisa bem de menina.

 

*         E sem que os adultos talvez soubessem, mesmo que até desconfiassem, se eles tinham o mando, nós tínhamos talvez o mais do que invulnerável ao ontem – o ser criança = e ao hoje intocável – o de ter a lembrança. Nós éramos e nós tínhamos a Ipueiras dos meninos.

 

 

 

 

 

 

Na Pousada: Dalinha, Everardo, Marcondes

 

PAPOS SOBRE TURISMO E HOSPEDAGEM EM IPUEIRAS

 

 

Voltemos à Pousada Nossa Casa e os papos que ali tivemos, Everardo Mourão, Aninha, Dalinha e eu. Papos muitos, já dissemos. Mas, em particular, as potencialidades de um turismo interiorizado espraiando-se até serras, macambiras e as “ipueiras”, enfim.

 

O acolhimento e o marketing da Pousada Nossa Casa, http://www.pousadanossacasa.tur.br/, deixou-nos impressionados. Everardo é empresário com “feeling”. É de a gente rir e, ao mesmo tempo, admirar seu esforço por misturar três línguas na tentativa de comunicação com os turistas estrangeiros. E de tirar o chapéu para a comunicação que teve de empreender com dois estrangeiros ... surdos-mudos. Muitas histórias que nos levam à hospedagem em Ipueiras.

 

Dalinha reitera posição que vem assumindo no Grupo Ipueiras:

 

“O hotel existe, é muito bonito, confortável, o Chagas é uma pessoa maravilhosa, mas... falta a alma do negocio. A propaganda! falta talvez o que no Ceará é prioridade, uma piscina, ou até mesmo um chuveirão, um atrativo a mais, que possa levar o povo da cidade a frequentar. E, esse mesmo frequentador fazer a divulgação boca a boca.

 

Hoje em Ipueiras, temos bandas, temos cantores, Temos repentistas,por que um dia na semana não levar essa gente para fazer um movimento, num hotel nas churascarias????? Não se ganha sem investir. Uma propaganda num Site, no rádio, é insignificante em se falando de dinheiro, e muito importante para quem divulga. Tem de haver a troca!!!

 

Na hora que o ipueirense acordar para a beleza natural da nossa serra, que já foi rasgada com boas estradas, que tem atrativos como: a pousada do Nonato Doca, O pesque e pague de Nova Fatima, Uma feira maravilhosa na America, o pinga e suas lendas na Matriz.

 

Eu acho que precisamos vestir a camisa de Ipueiras. Everardo se junta a Edmilson que por sua vez se juntará a Chagas e a corrente começará a se formar. Nós que temos espaço e palavras vamos divulgando na medida do possível.,

 

A feira de Bovinos, Ovinos, caprinos e artesanato já é um grande acontecimento no mês de outubro.Ipueiras cresce a cada dia e se cada um fizer sua parte o resultado será muito melhor.”

 

 

“Muito bem, Dalinha” – concorda Everardo:

 

Seria ótimo que algum dos conterrâneos residente em Ipueiras, levassem essas considerações até o nosso amigo Chagas,  para que ele nos dê um alô , e entre nesta corrente, que é tão nossa quanto dele. Ele que teve esta grande idéia do investimento, poderá acatar a de propaganda. Até falei para o meu comp. Édson, um grande painel na Estação, indicando a existência e localização do hotel, já traria um retorno razoável,  penso eu.”

 

Eh! – concordo eu, Marcondes. Everardo poderia dar umas lições ao seu amigo Chagas. Everardo leva jeito. Chegando em casa, ligo a Internet, vou ao “sítio” Ipueiras e clico por sobre a menção “onde ficar”. Faz um bom tempo, a resposta é o aviso: “Em construção”. O hotel não sei se foi construído. Mas a demora na construção dessa indicação está longa demais.

 

“Turismo” – acrescento - é, sem dúvida, uma das vocações de nossas “águas retiradas”. Da última vez que lá estivemos, Solange, Walmir e eu, tivemos de nos hospedar lá num dos municípios da Serra, num hotel bem aprazível.

 

Vejam a queda do Everardo para a comunicação e o marketing:

 

http://www.pousadanossacasa.tur.br/

 

 

 

 

 

Capa da Veja (1939)

 

COÇA-COÇA, O RÁDIO E A ALEMANHA

 

 

Jean Kleber

 

 

No início da década de 50, os rádios “Telefunken”, a válvula, estavam em fase de lançamento. O reinado dos “Phillips” parecia ameaçado. A vedete era o modelo “Largo”.

 

Um vendedor estava em Ipueiras para fazer demonstrações. Como a energia elétrica do gerador da cidade somente à noite era ligada, ele portava uma bateria para os testes. Chegando à nossa casa, preparou-se para instalar o aparelho.

 

Em nossa casa, a sala de visitas e a sala de jantar eram a mesma. A porta dava direto para a rua e estava aberta. Aguardávamos a demonstração quando surgiu na moldura da porta a figura do Coça-coça, o mendigo-doido mais conhecido da cidade. Aliás, muito bem descrito no “blog” de Ipueiras por Darci Weihs.

 

Organizado, portava suas três sacolas de coleta, de tecido de algodão: a da farinha, a do arroz e a do feijão. Pareceu interessar-se pelo aparelho.

 

-Isso é um rádio?

-Sim. Respondeu o vendedor.

-Ele fala?

-Sim.

-Eu posso falar?

O vendedor parecia já saber de quem se tratava.

-Sim. Fale aqui!

 

E apresentou-lhe o terminal de pinos do cabo do aparelho como se fosse um microfone. O homem levou o terminal à altura da boca e transformou-se. Empertigou-se, inchou a veia do pescoço e, com o olhar rútilo, vociferou:

 

-Aqui fala....Vicente Araújo de Quintas!..Prefeito do Curupati!...General de “Lemanha”!.... E por aí foi.

 

Os circunstantes riram do delírio. Estávamos diante de uma incompatibilidade de cargos e patentes. Improvável que alguém, prefeito do Curupati, fosse um general da Alemanha. De alemão ali só tinha o rádio.

 

De tudo, restou-me uma pergunta: afinal quem era Vicente Araújo de Quintas? Eu tinha seis ou sete anos na ocasião e acreditei ser aquele o nome verdadeiro do Coça-coça.

 

Nunca tratei deste assunto com alguém. A dúvida permanece até hoje.

 

 

FRANCISCO SOARES MOURÃO (Tim Mourão)

 

Síntese biográfica (1914-1965).

 

Por Lourdite Mourão, nora,

em tom de homenagem

 

Nasceu em Sítio Juá, no município de Ipueiras, onde viveu a maior parte de sua vida. Foi comerciante, industrial, agro-pecuarista, dedicando-se também à exportação de produtos do seu comércio: algodão, mamoma e coco babaçu.

 

Foi político de grande influência na sociedade ipueirense. Elegeu-se prefeito da cidade, em 1958, exercendo o mandato por dois anos: 1959-1961. Era amigo de todos, que  nele reconheciam valor pelas excelentes qualidades.

 

Casou-se, em primeiras núpcias, com Francisca Netária Mourão, sua prima. Dessa união, nasceram os filhos: Elisa Maria, Lelete (Cosmanete), Carmem, Fátima, Wagner (Vavá) e Terezinha. No segundo matrimônio, casou-se com Maria Andrade Mourão, com quem teve os filhos: Jackson, Fernando, Reuber e Antônio.

 

Faleceu em Ipueiras.

 

 

Isa, "Vavá" e Gerardo Melo Mourão

 

A TIM MOURÃO, EM TOM DE TRIBUTO

 

Em tom de tributo! Duplo tributo: a quem ora o presta e a quem, com afago, o receberá com certeza. Quem o presta, posta-se, na foto acima, entre dois do “Clã dos Mourões”: “Vavá”, o rebento de Francisco Soares Mourão (Tim Mourão) e o legendário jornalista e escritor Gerardo Melo Mourão. Ela, a tributante, é Isa Catunda, em seus lúcidos 93 anos de existência e fresca memória a falar da “vida admirável do Tim”.

 

Um falar – ressalte-se - que segue o ritual da professora de gerações de ipueirenses de outrora. Depoimento manuscrito, em um desses caderninhos de anos atrás, cheio de pautas, a nos lembrar os tradicionais livrinhos para o treinar “caligrafia”, onde, crianças, nos exercitávamos, com ela (eu, um dos incluídos nessa saudosa lembrança , antes da palmatória de Dona Ester), em busca da penosa arte do escrever.

 

Felizmente, a tecnologia é hoje capaz de fazer, dos “manuscritos” de outrora, “hipertextos” de agora. E, no texto abaixo – dirigido a Tereza Mourão a falar da alegria ao ser convidada por Lourdite (filha e nora respectivamente de Tim) - pode-se ver a “caligrafia” ainda vigorosa de Isa Catunda, voar, pela Web, em direção aos quatro cantos do mundo:

 

 

 

A pessoa e o amigo

 

Francisco Soares Mourão era uma pessoa adorável, digna de elogios merecidos. Muito trabalhador e calmo, gostava muito de ajudar. Era um grande amigo de todos, que dele se valiam em qualquer necessidade.

 

Gostava de dizer: ”Sou amigo dos meus amigos”. Realmente, era uma pessoa prestativa e muito delicada. Como amigo, não havia outro melhor e mais querido.

 

Casou-se duas vezes. O primeiro casamento, com uma prima, Netária Melo Mourão, digna dele, em todos os momentos. Igual a ele, ela era também prestativa e muito boa. O segundo casamento foi com Maria Andrade, uma moça de Santa Quitéria.

 

Do primeiro matrimônio, eram seus filhos: Elisa, Lelete, Fátima, Terezinha, Vavá e Carminha. E do segundo casamento, Jackson, Rubem, Fernanda, Marcos Antônio.

 

Da vida política, a vibração eleitoral, os hinos

 

Era político sincero. Foi eleito prefeito de Ipueiras com maioria de 400 votos. Ipueiras vibrou de entusiasmo e alegria.

 

E, com memória ainda ativa, recorda-se  Isa de trechos das usuais “hinos” que tocovam fogo nas disputas acirradas entre o PSD (Partido Social Democrático) e  a UDN (União Democrática Nacional), nessa época.

 

Um deles, assim dizia:

 

É Tim Mourão e Moacir Mourão

O PSD é quem vai governar

A UDN vai mesmo se acabar

Tanto aqui em Ipueiras

Como em todo o Ceará.

 

Homem de bem e muito valor

É Tim, é Tim, é Tim Mourão

Com Mauro e Darwich  para ajudar

E os votos dos cassacos

A vitória é de esmagar.

 

O “hino da vitória”: rixas PSDxUDN

 

Te prepara, Tim Mourão

P’ra quatro anos governar

Padre Cícero de Ipueiras

Nunca mais há de mandar.

 

Tim Mourão vitorioso

A UDN derrotou.

Doze anos de abandono

O povo ressuscitou.

Enfrentemos com altivez

Sem Poranga e Macambira

O fuxico e a maldade

A calunia e a mentira.

 

A “saudosa recordação” e o preito final:

 

Tim era um dos amigos de meus pais, que  tinham por ele grande amizade e saudosa recordação. Eu era muito amiga dele e, diversas vezes, fui sua confidente, não só na política como também em algumas ocasiões de sua vida particular.

 

Era um grande  trabalhador, muito sincero em seus negócios. Na cidade, tinha escritório para a venda de mamona, algodão e couros. E, na Praça da Estação, um dos bairros de Ipueiras, mantinha armazém de gêneros de primeira qualidade, além de uma fábrica de beneficiamento de algodão.

 

Assim foi a vida do querido Tim: espalhando somente o bem e a felicidade. Não só em meio a sua família, que, ainda hoje, lamente com saudades a sua partida para o céu, bem como todos os ipueirenses, seus amigos.

 

Que o Tim querido, lá no céu, receba a recompensa de Deus pelo bem que na terra  fez. E que durma o sono da  tranqüilidade  e  da  eternidade.

 

É o preito de sua amiga  e admiradora,

 

Isa Catunda

 

 

 

 

Foto dos anos 50 (Tim, filhos, vizinhos)

 

 

FAMÍLIA DE TIM MOURÃO

 

 

Filhos: 10

Netos: 22

Bisnetos: 17

 

FILHOS E GENROS E NORAS

 

1. Elisa Maria Mourão Pereira

 

Esposo: José Narcélio Pereira

Filhos: a) Racine Mourão Pereira (com 3 filhos, que deu a Tim o primeiro neto, nascido 17 dias antes da morte do avô, que foi seu padrinho)de quem foi padrinho); b) Ricardo Mourão Pereira (1 filho); c) Ronaldo Mourão Pereira (2 filhos)

 

2. Cosmanete Mourão Rebouças Chagas (Lelete)

 

Esposo: José Welington Rebouças Chagas

Filhos: a) Francisco Welington Mourão Rebouças Chagas (com dois filhos); b) Francisca Netária Mourão Rebouças Chagas (afilhada de Mauro Benevides); c) José Wagner Mourão Rebouças Chagas (com dois filhos).

 

3. Fátima Mourão Romero

 

Esposo: Adalberto Romero

Filhos: a) Adalberto Mourão Romero (com 2 filhos); b) Adriana Mourão Romero; c) Luciana Mourão Romero (com 1 filha)

 

4. Carmem Melo Mourão - sem filhos

 

5. Antonio Wagner Melo Mourão

 

Esposa: Lourdite Mourão Catunda (com 4 filhos): a) Francisco Soares Mourão Neto (com 1 filho),]; b) Marcelo Mourão Fontenele  (com 1 filho)]; c) Carlos Mourão Fontenele (com1 filho); d) Antônio Wagner Melo Mourão Junior.

 

6. Tereza Melo Mourão

 

Divorciada, com 2 filhos: a) Inácio Emiliano Melo Mourão Pinto (23 anos); b) Francisco Delano Melo Mourão (20 anos).

 

7. Francisco Jackson Andrade Mourão  (com 2 filhos)

 

8. Fernanda Maria Andrade Mourão

 

Divorciada, dois filhos: a) Atanásio Filho e Aline Lorena

 

9. Francisco Reubem Andrade Mourão (3 filhos)

 

10. Marcos Antonio Andrade Mourão  (sem filhos)

 

 

 

Arco do Triunfo (Foto: Edson Morais)

 

CITAÇÕES EM TOM DE TRIBUTO (I)

 

No semi-árido das águas retiradas

 

Por instantes, lá me vejo na infância, em pleno semi-árido das Ipu­eiras (“águas retiradas”, em sua etimologia), no Ceará. Aí, já dou com a lei­tura a lastrear meu potencial escrever, plasmando-se como matriz para a deci­fragem do mundo. Leitura, a dos livros. E, em um Nordeste de tradição oral, “leitura da oralidade” – a dos cordéis, das estórias de Trancoso e da Carochinha, que me iam chegando das babás e empregadas domésticas, e dos múltiplos contadores de história a povoar os sertões.

 

Na escola, nos iniciávamos na escrita. Isso, pelas vias pacientes e atentas da literal “caligrafia” (a buscar sinais gráficos corretos e belos), em cadernos onde começávamos a “cobrir” as letras, buscando-lhes feições claras e estéticas.  Tudo isso, sob a diligente observação e ajuda de Isa Ca­tunda, professora minha, hoje ainda lúcida em Ipueiras, onde faz pouco tive a felicidade de, num gesto de agradecimento, abraçá-la. Entre os livros didáticos, um deles nos chamava a atenção: o “manuscrito”, onde textos escritos a mão se sucediam a partir dos mais legíveis até os quase incompreensíveis “garran­chos”, nas últimas páginas do livro, que, sob a espreita da palmatória, na es­cola de Dona Ester (mãe do escritor Gerardo Melo Mourão) , na mesma cidade, tínhamos de decifrar.

 

Garranchos assim, bem mais antigos, eu os encontrava nos gigantes­cos livros em que se registravam as escrituras dos imóveis, no cartório de meu pai. “Livros enormes” sob minha ótica infantil, campo aberto onde ca­rimbos eram “boizinhos” e “rezes” nos imensos campos por entre garran­chos e carrapichos  da manuscrita caatinga. Dali, extraíam-se as histórias das duras conquistas das glebas de terra, romanceadas por meu pai, exímio contador de história. Conquistas desde os tempos das sesmarias até os dias de então, que ali afinal se registravam a buscar proteção e amparo da lei: ao norte e ao sul, limitando-se com terras dos “coronéis” fulano e sicrano; a leste e oeste, “enquanto resistência houver”!...

 

Curioso! O oral e o escrito, em dueto, surgiam-me imbricados desde a infância. E a leitura, já aí, não se continha na estrita dimensão, a dos li­vros. Abria-se, mais ampla, para o interpretar de nosso redor. Tudo, em bem dosada mistura entre o real e o fantástico. A leitura dos livros, sim. Mas a “leitura” que, com o pai da lingüística, a chamaríamos “semiológica”.

 

Tópico escrito por Marcondes Rosa de Sousa, in  “A leitura emburrece?”, discussão que se desenvolveu no Grupo Ethos-Paidéia, www.grupos.com.br/ethos-paideia, na Web.

 

 

 

 

 

 

 

 

PERPÉTUA MOURÃO, FROTA NETO E O SAPATO “BALLET”

 

Jean Kleber

 

            A escola de “seu” Neném Mattos tinha uma quadra de vôlei. Simples, de chão batido. Se fosse de areia seria “vôlei de praia”. Ficava numa área lateral a casa-escola.

 

            Alem da área da quadra tinha mais um pequeno espaço que podíamos chamar de “playground”. Em frente, erguia-se uma cerca de “vara-a-pique”. Do outro lado, era o galinheiro onde Dona Mundita criava galinhas caipiras. E não eram poucas.

 

            A criançada brincava de “trisca” (pique-pega) na quadra à noite, quando algum evento reunia seus pais por ali. Tiravam os calçados para brincar.

 

            Uma noite, quando todos já se preparavam para partir e buscavam seus calçados, eis que Perpétua Mourão percebeu que alguém se apropriara dos seus. Eles estavam nas mãos de Frota Neto, que na época devia ter, se muito, oito anos.

 

            Era um tipo de sapatilha conhecida, na época, como “sapato ballet”. Ela partiu para a perseguição ao endiabrado menino que a cada drible saia pulando e gritando com pronúncia bem própria:

 

            - Sapatinho “bailé”! ... Sapatinho “bailé”!

 

            Mas Perpétua não era fácil. Em dado momento, vendo que seria alcançado, o “Antônio”, como eu o chamava, atirou as sapatinhas da menina por sobre a cerca de “vara-a-pique”, dentro do galinheiro de Dona Mundita”!

 

            A cerca era intransponível. Contornamos por dentro da casa e com a ajuda dos adultos que portavam lanternas, finalmente as sapatilhas foram encontradas. Ainda limpas felizmente, considerando os “resíduos” próprios daquele criatório.

 

            Durante o governo Sarney, quando, diante da TV eu ouvia com atenção a proficiência do grande porta-voz Frota Neto, por vezes eu começava a rir, lembrando-me daquela traquinagem:

 

            - Sapatinho “bailé”!... Sapatinho “bailé” !...

 

 

Em seu livro Vendo a vida passar, o Pe. Francisco Correia Lima, guarda "lembranças bem vivas" de seus "dedicados acólitos". Quem foram eles, onde estão eles?

Guardo uma lembrança bem viva dos meus dedicados acólitos. Interessava-me por eles e, por isso, frequentavam a casa paroquial, embora eu reconhecesse, em alguns, a "preocupação" muito naturasl de receberem um envelope mais "gordo", após as festas religiosas.

Alguns, sobretudo, tenho-os ainda gravado na memória: o Renato, o Edésia, o Nemésio, do Edmundo Medeiros, o Moraisinho, do Sr. Manoel Morais, o Guido, do Major Sebastião, o Gonçalinho e o Pinho Gomes, do "Dólar", o Geraldinho, do Sr. Dão Rosário, o Hélder, do Abílio Sabóia, Chico, Antônio e Marcos, do Sr. Idálio, Arimatéia e Lutim, do Sr. Luís Malaquias, o Arnóbio, do Sr. Abidu, o Pessoa, do Sr. Raimundo Moreira, o pequerrucho Alberto, do Antônio Jardelina, o batorezinho Cleaci, da D. Nenen Laurindo, o Marcondes e o Walmir, do Wencery, o Bartolomeu, irmão da Terezinha, e enfim, o Adérson, de São Gonçalo da Serra dos Cocos e o Edmílson, do Catunda, que tantas vezes me acompanharam às capelas em desobrigas. (p. 126)

 

 

 

 

 

 

TECENDO UMA NOVA MANHÃ

 

 Marcondes Rosa de Sousa

 

 Fotos, via de regra, ilustram. Por vezes, vão além e dizem mais, desempenhando o papel de autênticos “flagrantes simbólicos”. E, sob essa perspectiva, dizem mais que os prosaicos fatos. Um exemplo é a foto que encima este texto.

 

 Na foto, os personagens celebram um encontro, que poderia dizer do abraço, antes não compreendido, mas que hoje, nestes tempos ditos “digitais”, irmana o que denominamos de “local” e “global”.

 

O cenário é a Pousada Casa Nossa. Atores da cena, ipueirenses. Nas pontas, Francisco Braga Barbosa (à esquerda) e esposa e filho (à direita). Ao centro, Everardo Mourão e Tadeu Fontenele (e esposa). Na foto, o registro da passagem, Braga e família retornados de Ipueiras em passagem por Fortaleza, tendo Tadeu por Cicerone.

 

 Os personagens. Por trás de Braga, filho de lavrador, o superado estigma, chavão nas “águas retiradas”, vaticinado pelo patrão de seu pai: “caneta de pobre é cabo de enxada”. Braga se fez alencarino Moacir e emigrou para o Planalto Central. E um dia, com apoio de Frota, Dalinha e de muitos, conseguiu plantar, na Web, um “sítio”: o www.ipueiras.com, onde o Redentor, braços abertos, ao mirar, em linha reta o Ipu, começava a despertar euforias nos freqüentadores do Bar do Nagib, que sonhava com o dia em que Ipueiras e Ipu, unidos, formariam “uma grande metrópole”. “E não tem, nessa www, nem br? Não? Cidade monarca, essa Ipueiras!” – foi a vibração de meu irmão, Walmir Rosa, que, eufórico, terminou por escrever o que hoje figura no topo da Página:

 

(...” Num passe de mágica (ou de mouse), transporto-me até Ipueiras como se estivesse na ‘avenida’, sentado no chão, conversando numa roda de amigos, revirando saudades”.

 

 Em tal sítio, além das crônicas de saudades, a história e as estórias da terra (os famosos "causos" tão ao gosto do público), os pontos e potencialidades turísticas, as ações do poder público (sobretudo municipal), a cultura, a culinária, os talentos, personalidades e ícones da terra.

 

 O “sítio” cresce. Aglutina outros “points” como o Primeira Coluna e vários recantos outros, onde ipueirenses e amigos de Ipueiras se encontram, como na antiga “avenida” ou “pracinha”, atraindo desgarrados da terra por “Oropa, França e Bahia”.

 

 Aos poucos, além das reviradas saudades, alguns ímpetos de novo projeto se ensaiam. . Surgem programas como os patrocinados pelo Instituto Frota Neto. E o próprio Instituto se planta em território real (além do virtual) em Ipueiras. Surgem homenagens como as devotadas a Gerardo Mello Mourão, cuja pena, entre outras temáticas, dedicou-se a falar d’O País dos Mourões,

 

 http://www.revista.agulha.nom.br/mour.html,

 

 a fazer dueto com o “Bacamarte dos Mourões”, de Nertan Macedo....

 

 Do “país dos mourões” é que vem Everardo. Outra origem. Bem nascido, filho de Raimundo Mourão e Melo, ex-prefeito de Ipueiras, teve por bacamarte, a sensibilidade e o feeling para acolher, receber, hospedar.

 

 Na foto, traços de pesados dez quilos a reduzir, por ordem médica, mas presença saída do leito para o registro do acolhimento ao conterrâneo, ali trazido, como hóspede, por Tadeu Fontenele e esposa. E o aceno para que, aos poucos, a Pousada Nossa Casa se afirme como pousada de ipueirenses e amigos, do País e do Mundo, que, porventura, passem por Fortaleza. E, num crescendo, interiorizando nosso turismo até as “águas retiradas”, palmilhadas pela índia Iracema, que, se corria as matas do Ipu, tinha Ipueiras como passagem, por certo.

 

 Everardo Mourão leva jeito. Veja, em clique instantâneo, descrição e contactos de sua “Pousada”:

 

 http://www.pousadanossacasa.tur.br/.

 

 Percorra a casa. Veja as condições módicas a pagar pelos serviços. E o apelo a um turismo familiar, assistido na sugestão dos roteiros, um contacto pessoalizado, onde o turista não é um anônimo. Impressionante, o número de pessoas a contatar seu “sítio”, na Web: 11.324 pessoas, sem o cômputo da via telefônica ou postal convencional.

 

 Everardo Mourão nos fala dos breves momentos de Braga, na Pousada Nossa Casa. Dos pacotes de queijo-de-coalho com rapadura, a nos seduzirem desde meninos e a despertarem olhos ávidos nos “piratas” que querem patentear nossos sabores. E, didático, diz de seus esforços por atender bem os turistas. E, possivelmente, pedir que os ipueirenses apóiem o hotel recém-implantado no Bairro “Vamos Ver”, em Ipueiras.

 

***

 

:Duas histórias, duas procedências. Um abraço só: o em torno da união. Na verdade, somos, nas águas retiradas, fruto da solidão do vaqueiro: “Uma rês, um vaqueiro, a caatinga. Entre os dois, só Deus e a solidão”. Solidariedade, em tudo se faz preciso. Mas, infelizmente, é o olhar desconfiado de todos, como se todos fôssemos vaqueiros, tendo de derrubar sozinhos as rezes.

 

***

 

 Braga e Everardo. Duas procedências. Dois sonhos. O abraço. Seus “sítios”, o www.ipueiras.com, o Grupo Ipueiras e o Blog ipueiras (os de Braga) e a Pousada Nossa Casa são a expressão necessária do construtivo abraço. O abraço da solidariedade.

 

 Aqui, pois, a homenagem de todos nós, que, nesses “points” – o de Braga e de Everardo, reviramos saudades e preparamos uma Ipueiras, um Ceará, um Brasil e um Planeta mais solidário e humano.

 

 Há pouco, escrevia eu sobre esse clima, quando me caiu às mãos o poema de João Cabral de Melo Neto, que me inspirou artigo sobre o Ceará e aqui deixo como apelo ao necessário clima a tecer uma nova manhã:

 

 "Um galo sozinho não tece uma manhã: 

ele precisará sempre de outros galos.

 

De um que apanhe esse grito que ele 

e o lance a outro; de um outro galo 

que apanhe o grito de um galo antes 

e o lance a outro; e de outros galos 

que com muitos outros galos se cruzem 

os fios de sol de seus gritos de galo, 

para que a manhã, desde uma teia tênue, 

se vá tecendo, entre todos os galos".

 

[João Cabral de Melo Neto,

            in Tecendo a Manhã"]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DIVINAS CRIATURAS

 

Auxiliadora Carvalho

 

Uma das minhas favoritas brincadeiras infantis era a de figurinhas de papel. Não eram bebês nem adultos. E eram sempre do sexo feminino. Criávamos uma figura, construíamos sua história. Apenas no presente. Não tinham passado e nem futuro. Eram momentos divinos de criação! Criaturas perfeitas!

 

As ferramentas que dispúnhamos incluía papel de cadernos de desenho, borracha, tesoura, bandas de gilete, lápis preto, lápis de cor e grude. Lembram? Cola feita de goma cozida.

 

Debruçava-me sobre cadernos, muitas vezes à luz de lamparinas, na mesa da cozinha da nossa casa, com cuidado de forrar bem o papel para que as emendas das tábuas não entortassem os riscos dos refinados moldes. Neste paraíso doméstico, confeccionava minhas bonecas com sonhada beleza e glamour. Louras e morenas. Gorduchas e longilíneas. Sorridentes e carrancudas.

 

Batizava-lhes com nomes de santas ou pessoas de benquerença. Assim existiram Conceição, Socorro, Fátima e Jucileide. As celebridades do rádio e do cinema também inspiraram o nome da Linda (Batista) de Romy (Sissi, a Imperartriz) Ângela Maria e  Adelaide (Chioso).

 

Brilhavam pelo esmero do vestir e dos adornos. A minha imaginação dava as mãos a uma peculiar vaidade feminina e de lápis em punho, desenhava-lhes as mais belas roupas. O dia-a-dia, os eventos sociais e religiosos em nossa cidade de Ipueiras, ditavam as necessidades dos vestuários e seu estilo. Tanto esporte como fashion. 

 

Certa vez, descobri como criar peças removíveis!. Elas eram recortadas com alças para ao dobrar no corpo da figura e ali se fixar. Com a ponta afiada de bandas de Gillete Azul, (hoje há estiletes), dava-lhes refinado acabamento. Era especialista em mantilhas, chapéus, bolsas e para uma delas fiz até uma linda sombrinha. Punha-lhes adornos combinando com as vestimentas. A este conjunto de peças dava-lhe o nome de enxoval ou guarda roupa.

 

Minha figurinha predileta se chamava Linda. Era morena, sorridente e longilínea. Possuía um enxoval completo. Seu vestuário se compunha de roupas dominicais, de passeios, para festas, peças íntimas e de banho. Ainda me recordo que um dos vestidos da missa era um estilo discreto, com rendas e uma cabeça removível com mantilha desenhada com a ponta fina do lápis preto. Os acessórios eram em tom de ouro, tanto o colar, como brincos e pulseira. No seu dia-a-dia, usava um conjunto de short branco, estilo marinheiro, para passear pelas ruas e calçadas dos vizinhos. Para passeios, à noite, na avenida, um chique frente única com saia rodada, estampado ou azul com bolas brancas, era seu favorito. Os acessórios combinavam com cada vestimenta, sapatos e bolsas. Tinha farda colegial, camisolas e baby-doll, finamente bordados. Avental para trabalhos domésticos e jardineiras para passeios de campo (nossa, com aquela grama e árvores frondosas...), com chapéu e cestas.... Dispunha de roupa para festas juninas, da Santa Padroeira, Festa do Chitão e do aniversário. Todas eram muito festeiras e adoravam o high society.

 

Cheguei a ousadia de propiciara Linda, uma viagem pela Europa em estação de esportes de inverno, nos Alpes Suíços e inesquecível primavera em Paris. Imaginem as roupas pra frio... e para a prática de esqui!  Nominava todas as peças do seu vestuário, mas o nome mais bonito que achava era cachecol e cashemere. Muito tempo depois é que realmente lí que era uma malha de lã originária da região de Cashemira) Ora só! Que tantas fantasias...Ah! meu Deus. Conheci tal prática esportiva em 1997, quando estive na estação de esqui em Lake Tahoe/USA.

 

Para a primavera em Paris, confeccionei-lhe leves suéters e saias godês com estampas em tons pastel: verde, rosa, azul e amarelo eram suas cores prediletas pra esta coleção. Também nunca vi a primavera em Paris. Dizem que é florida, luminosa e perfumada. À época, minha imaginação viajava a partir das páginas de umas revistas americanas do pós guerra, que papai comprava em Fortaleza e em Sobral. Os livros de geografia que tínhamos no colégio abriam-me caminhos pelos mares, pelos ares e por terra dantes desconhecidas. Muitos lugares ainda continuam inacessíveis, como a Terra do Nunca.

 

Onde se guardavam as figurinhas? E o seu guarda roupa? Suas casas eram caixas de papelão e o seu guarda roupa, as páginas dos meus cadernos.

 

Brincávamos em diferentes casas de amigas com o mesmo hobbye. Espalhávamos pelo chão de nossas casas tais criaturinhas e suas histórias. Hum...para cada dia de brincadeira, uma diferente.

 

Lembro-me de que minhas irmãs Adelaide e Alaíde  já brincavam há tempos. Recordo-me de alguma das amigas que gostavam de brincar de figurinhas, como Conceição Morais, filha do Sr. Moacir Mourão, Terezinha Mourão e Izalena Moura. Tínhamos que ser muito cuidadosa e vigilante pois algumas eram traquinas demais e surrupiavam tanto minhas figurinhas como suas roupas, o que era muito fácil, pelo meu jeito indefeso de ser.

 

Aprendi com elas o doce amargo do dom da criação dessas divinas criaturas e depois...mais doces do que amargos, de tantos outros talentos, por que assim não dizer?

 

(In Infância Lúdica)

 

 

 

Desastradamente Artista

 

Auxiliadora Carvalho

 

Considerava-me uma exímia estilista de bonecas de papel, mas minha irmã Alaíde detinha maiores habilidades na arte de figurinista. Muitas vezes ousava lhe roubar algumas para brincar ou copiar os moldes.

 

Certa vez roubei a Madalena. Morena bem maquiada e muito elegante. Sua figurinha favorita.

 

Neste dia, fui brincar com amiga Izalena Moura. Ela perdeu a mãe muito cedo e foi criada pelos avós Seu Zé e D. Nem Moura. Era quase nossa vizinha da casa da Praça Getúlio Vargas, onde moramos, de 1957 a 1959. Ela tinha lindos brinquedos, bonecas de louça e de pano, minimóveis para sala de estar, dormitório e sala de jantar. Era muito amada pelos avós, afável, vaidosa e traquina.

 

A cada sessão de brincadeiras ela me surrupiava figurinhas ou suas roupas, como a maioria de minhas parceiras. Ao chegar em casa, confirmei a rapinagem com desaparecimento da furtada Madalena. Não estava dentro do meu caderno. E agora?! Era aguardar a vistoria da organizada Lalá, que cotidianamente contava e recontava suas figurinhas. Só em pensar na sua fúria e o poder de fogo do seu cocorote na minha “moleira”, me dava arrepios.

 

No aguardo da declaração de guerra da Alaíde para ter de volta a Madalena fui brincar de trapezista no circo montado pela Conceição Morais, filha do seu Moacir Mourão, na área da sua casa, à Rua Pe. Angelim.

 

Meu trapézio era o parapeito da janela. Entrava em cena, saracoteava as pernas como as trapezistas que conhecemos nos circos que passaram por Ipueiras. Depois plantávamos bananeiras, dobrando as pernas sobre o parapeito da janela, ficando lá enganchadas e libertando as mãos fincadas no chão, para saudar a nossa minúscula platéia, composta da meninada da vizinhança.

 

Tal estripulia tinha sido reforçada por um bom prato de baião de dois com torremos crocantes, preparados para nosso jantar pela Maria Gonzaga, empregada da mamãe.

 

Fiz a primeira apresentação, a segunda e a última cambalhota. Palmas... ovações... meus agradecimentos e saio de cena.

 

Graças a Deus, pois uma dor desviada ao lado da costela esquerda estava me tirando o fôlego. Fui pra casa e falei pra mamãe que estava sentada na calçada da nossa casa, sobre a dor que sentia. Achou que era fome e me empurrou um pão umedecido num copo de leite fervido com açúcar.

 

A má digestão aumentou turbinada com o inchaço do pão. A dor se ampliou e o medo de morrer me deixou sufocada. Grito que estou morrendo, pois não consigo respirar. Cada vez que respirava parecia que uma bomba de agulhas estourava nos meus pulmões. A mamãe se socorre no seu Idálio da farmácia. Ele me medica a distância de 50m e manda um vidro de leite de magnésia pra eu tomar. Tomo e não resolve. Já sem forças pra gritar, mudam-me da rede pra cama da mamãe, no quarto vizinho a nossa sala de visitas, fronteira com a rua. Acesso aberto à Praça Getúlio Vargas. Nossa famosa avenida.

 

Meus gritos afligem a mamãe que corre atrás do Dr. Melquíades pra vir me socorrer, mas não estava na cidade. Volta a farmácia do Seu Idálio e ele muda a medicação, mandando-me entornar uma garrafa de água inglesa. E foi muito pior! Meus gemidos atravessaram a avenida e a notícia da minha morte iminente rodopiou nos quatro cantos, da cidade.

 

A vizinhança amiga acorreu para prestar solidariedade à minha mãe que recentemente tinha sido abandonada pelo marido e agora fadada a perder uma filha que padece de uma dor misteriosa. Entre um puxado de fôlego, via chegantes curiosos e penalizados do meu sofrimento. Estavam ali em torno da cama onde me deitaram em posição de moribunda, D. Maria Lima e suas filhas, D. Mocinha e suas filhas, a meninada da avenida, minhas companheiras de circo e sua seleta platéia. Será que vou morrer aos dez anos? Não, naaãoo!

 

Neste ínterim, entra a D. Nem Moura e Izalena. Izalena trazia nas mãos todas as minhas figurinhas por ela surrupiadas, inclusive a Madalena da Alaíde. E me devolveu tudo, com uma ternura de arrependimento traída pelos seus grandes olhos verdes, espertos pelo medo de que eu viesse a falecer e lhe aparecesse depois em forma de visagem, puxando-lhe os cabelos, perturbando sua vida, a lhe cobrar tais figurinhas.

 

Ouvi então sua avó, D. Nem, dando instruções à minha mãe para amornar um litro d’água e em seguida me desse pra beber até vomitar. Se eu conseguisse tal “hugoo”, estaria salva.

 

A água morna, enfiada boca adentro, com mandíbula esguichada pela força das mãos aflitas da mamãe, olhos imperativos da D. Nem e imobilizada pelos músculos retinidos da paciência e fervor do enfermeiro, carinhosamente alcunhado de “Nego Mariano”, chegava ao seu destino. Dito e feito.  Vomitei a seguir o tão apetitoso baião de dois & companhias.

 

Assim Izalena e sua avó salvaram minha vida. D. Nem com sua receita pra má digestão que aviada, foi tiro e queda. Izalena, devolvendo-me as figurinhas, inclusive a Madalena, salvou-me do capeta enfurecido, chamado Alaíde.

 

 

 

Ele é Joseph E. de Sousa, cearense de Pacoti, que, na Web, tem “sítio” -  WWW.JOSEEDESOUSA.NET

 

De si, conta-nos:

 

Durante muitos anos, atravessei continentes, em carro e em camelo, por trem e por navio, em burro e em Land Rover. Eu sempre fiz a escolha. Sempre minha a decisão de ir por terra ou em jato velocidade Mach 0.85. 
Esta vida foi sempre minha para avançar ou recuar, para rir ou chorar, para correr ou parar, para dar ou receber, para gritar ou ficar calado.

 

Para afinal agradecer as “escolas” por onde passou.

 

Obrigado, Pacoti, Fortaleza, Rio de Janeiro, Nova Iorque, Paris, Londres, Manila, Hong Kong , Lisboa, Nairobi e outras "escolas" onde estudei. ("Experiência é uma boa escola mas as mensalidades são altas"  - Heine)
Obrigado, pai e mãe,  por me terem dado asas e deixado que eu aprendesse a voar por mim mesmo.

 

 

 

 

Ela, Dalinha, a reconhecida “Musa de Ipueiras”, seus versos já espraiados no “Primeira Coluna”, aqui e “alhures” diriam os mais eruditos.

 

Os dois se encontram em “desafio”, nesta nordestina “peleja” geográfico-simbólica entre o Pacoti a brincar, como em nossas quermeses, numa disputa entre o partido azul (o Pacoti) e o encarnado (o Jatobá):           

 

PACOTI E JATOBÁ

 

Você  tem seu Jatobá,

eu tenho meu Pacoti -

cada qual o mais bonito

para mim e para ti.

 

Somos privilegiados,

nisso posso apostar.

Você com seu Pacoti,

e eu com meu Jatobá.

 

Dei muita bundacanasca

também virei cangapé

nas águas do Pacoti -

e rezei no Canindé:

Diga, dona Dalinha,

se é gostoso ou não é.

 

Tomei banho de rio cheio,

tomei banho de cacimba,

mergulhei, nadei de costas,

também de bunda pra cima,

era prá lá de gostoso,

as danações de menina.

 

Bunda pra cima ou pra baixo

soubeste viver a vida,

piaba do Jatobá,

tão danada, tão sabida

fazendo bela figura

na entrada ou na saída

 

Do Jatobá fui piaba,

no mar eu era sereia,

meu canto levava p’ras águas,

quem me espiava na areia.

Devorava moço bonito,

em noite de lua cheia

Piaba ou curimatã

no rio ou no alto mar

tu sabes nadar na vida

brilhas no sol ou luar

toda dengosa e faceira

sereia do Jatobá.

 

Espero que tua toada,

não seja de pescador.

me sinto uma obra prima,

uma arte do criador

ouvindo palavras tão lindas

cantadas em meu louvor.

O criador caprichou

quando fez essa menina -

no Jatobá foi jogada

vestida de seda fina

com beleza e muita garra

para seguir sua sina.

 

Joseph, minha sina

muitas vezes deixou-me aflita

bem antes de usar seda,

minha vestimenta era chita.

Mas nas águas do Jatobá.

até nua me acho bonita.

 

Bem coberta ou descoberta

tua beleza é patente,

tu alegras nossos olhos

tambem a alma da gente,

sereia do Jatobá,

brilhando no sol nascente.

 

Cada rio tem sua história,

cada história uma emoção.

nas águas de nossos rios,

inundei meu coração.

foi bom navegar contigo,

lado a lado, mão a mão.

 

Dalinha,  falaste bem

do teu lindo Jatobá,

das coisas do coração,

das voltas que o mundo dá.

Eu falo do Pacoti -

quero ir contigo até lá.

 

Eu quisera ser a lua,

está em todo lugar.

ia contigo a Pacoti,

e depois pro Jatobá

Terminaria o passei,

certamente em alto Mar.

 

Tens a beleza da lua,

brilho e calor do Rei Sol -

Eu, Jatobá,  Pacoti

caimos no teu anzol,

iluminas nossa rota

como brilhante farol.

 

Como me envaidece,

privar desse teu carinho.

Chego a ficar nas nuvens,

voando que nem passarinho.

Quem sabe numa das rotas,

não pousarei em seu ninho.

 

Na sua rota encantada

venha voando baixinho

vou esperá-la acordado

bem na beirada do ninho,

traga seu doce sorriso

terá abraço e carinho.

 

Vais me esperar acordado?

antes da meia-noite chegarei.

Não quero que vire abóbora,

tudo de bom que  sonhei.

Serei então uma rainha,

No reino de quem é meu rei.

 

Rainha você já é,

rainha linda e querida

das terras do Jatobá

onde tem sua guarida -

venha alargar o seu reino

e alegrar minha vida.

 

 

 

 

 

 

Praça Getúlio Vargas: um dos abrigos de Zacarias

 

IDADE DO ZACARIAS

 

Jean Kleber

 

No Blog do Grupo Ipueiras, leio que Frota Neto em seu livro “Quase” à pág. 365, abriu espaço ao Pe. Francisco Correia Lima transcrevendo-o sobre os doidos de Ipueiras, entre os quais o Zacarias: “O Zacarias falava sem nexo e, quando bebia, tornava-se furioso, riscando faca no chão, desafiando a quem quisesse ‘correr dentro’, como ele dizia”.

 

Ao ler o texto lembrei-me que, para mim, o que mais chamava a atenção em Zacarias era que ele vestia várias roupas ao mesmo tempo, uma por sobre a outra. Andava parecendo um barril. Se fizéssemos um filme sobre o Zacarias este poderia se chamar: “O homem que não tinha guarda-roupa”.

 

Uma vez à noite ele apareceu lá em casa e perguntou à minha avó, D. Luizinha, se ela tinha um prato de comida para ele. Minha avó caprichou no prato fundo: galinha assada, arroz e feijão. A calçada era alta e dava um bom assento. Zacarias sentou e “mandou ver”. A curtíssima distância, nosso gato o “paquerava” a espreita de alguma sobra ou migalha caída. Perdeu tempo. Zacarias varreu o prato.

 

De uma história que meu pai (Neném Matos) sempre me contava, faço-me portador aos amigos de Ipueiras:

 

Zelosos quanto ao trato para com seus cidadãos, autoridades ipueirenses, em fins da década dos 40 enviaram para exame psicológico em Fortaleza, duas pessoas de Ipueiras: um jovem escolado e o Zacarias. Ambos haviam sido considerados excêntricos pela comunidade.

 

Para verificar se o paciente era minimamente centrado, os médicos resumiram a primeira parte do exame a perguntas triviais do tipo nome, idade, filiação etc... O jovem escolado respondeu correta e coerentemente às perguntas, razão por que os médicos classificaram sua situação como “distúrbio leve”.

 

Seguiu-se o exame do Zacarias com um diálogo insólito.

 

- Seu nome?

- “Zacaria”.

-Zacaria de que?

- Zacaria de Zacaria.

-O nome de seu pai...

- Zacaria.

-Também Zacaria?

 -Também Zacaria

-O nome de sua mãe...

- Zacaria.

-Tudo Zacaria?

- Tudo Zacaria.-

- Sua idade?

- Duzentos anos seis meses e um dia. Completei hoje!

O diagnóstico não se fez esperar.

 

 

 

 

A foto nos chegou, de início, do acervo de Edson Morais. Ele nos pedia a identificação dos nela figurantes. Hoje, no “sítio” Ipueiras.com, o Pesquisador Bérgson Frota, faz a identificação precisa das personagens:

 

A INAUGURAÇÃO DO ARCO

 

Bérgson Frota

Pesquisador

 

http://www.ipueiras.com/cronicas.htm

A INAUGURAÇÃO DO ARCO

 

 

 

 

No ano de 1953 nossa cidade (Ipueiras) recebeu a visita da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima. Em decorrência dos milagres que ocorreram,  foi permitida uma permanência maior da imagem na cidade, fato que levou a permissão da construção do arco um ano depois.

 

Somente cidades que tiveram na época o privilégio de uma maior duração da visita construíram arcos. O primeiro arco foi de madeira e menor que o atual, caiu numa tempestade. Chamaram então o mesmo arquiteto que fez o Cristo de Ipueiras, Pedro Frutuoso, e este terminou sua obra em 1954.

 

Na inauguração, elegeram a rainha do arco, duas princesas e seis damas, a foto é portanto deste evento. Nos meus arquivos, possuo esta foto, só que sem defeito e o nome das participantes.

 

Na perspectiva de quem vê a foto eis os nomes :

 

                          

No centro:

 

Eliza Maria Mello Mourão (rainha)

 

Na direita:

 

Miraugusta Campos Farias (princesa), Maria Aglaê Bonfim Medeiros (dama), Cristina Alves de Souza (dama) Ruth Moreira Frota (dama)

 

Na esquerda:

 

 

Solange Rosa de Sousa (princesa), Adelaide Marques Cavalcante (dama),

Ivone Holanda (dama), Nazaré Belém Lima (dama).

 

No adro dessa Matriz, um dia, eu menino dei com ele, cheio de roupas se abotoando. “Zacarias, p'ra que tanta roupa? E ele, em sua lógica: “É meu guarda-roupa. Eu sou o cabide”... Aqui, o duplo tributo: a Zacarias e ao sensível escritor que, no www.ipueiras.com, nos conta a história a seguir:

 

A VIDA DE ZACARIAS

Bergson Frota

O conto que narro é uma história comum.

    A de um homem apaixonado e  não correspondido.

                                                       

    Chamava-se Zacarias, órfão de pai e mãe que junto com uma menina também no mundo sozinha como irmãos foram criados por uma zelosa viúva.

   

Na medida que cresciam, começou o desacerto, o jovem Zacarias se apaixonou por Marilisa a irmã de criação. Para Rufina a viúva, que logo percebeu a afeição, não restava uma saída senão  expulsar o ra­paz.

   

Moravam num sítio distante, mas próximo a Ipu­eiras. Zacarias então tocou o pé na estrada rumando para a cidade.

   

Pensava no amor que deixou, e não foi corres­pondido, no carinho que nunca lhe retornou e quando ele partiu Marilisa sequer chorou, ficou da janela olhando, como costumava fazer quando o vento forte soprava balançando ritmado a copa das carnaúbas.

       

Antes que a jornada findasse, o anoitecer chegou. Era noite de lua cheia, a ladra de sanidade. Enfra­quecido com a dor, rejeitado no amor, foi fácil perder a razão.

 

        Chegou já quase amanhecendo na cidade que vi­sou. Tendo como teto o céu já empalidecendo de estre­las e agasalho o vento frio da madrugada que se des­pedia aos poucos.

   

Virou o louco Zacarias. Um bom doido chamado. Recusava quarto, dormida e rede, como se negasse para si qualquer bem, pois o bem maior já lhe havia sido negado.

 

        Do que falava nada se aproveitava. Suas palavras não tinham sentido.

 

       Misturava os assuntos e muitas vezes cruzava histó­rias verdadeiras às loucuras momentâneas, jun­tando tudo num crescente desconexo que nada mais se entendia.     

                                                                     

        Tinha uma única mania, esta com ela morreu.  Juntava onde encontrava qualquer tipo de anel, assim ostentava aonde ia os dedos cheios das “jóias”.

   

 Na cidade a  poucas pessoas chamava pelo nome, e muitas dessas variações pegaram como apelido.

  

Ingênuo como sempre viveu, vagava nas madru­gadas, percorrendo um mundo desconhecido, que nele se perdeu-se.

 

        Mas sentia sempre uma companhia, dela acu­sava a presença e chamava a atenção quando via seu vulto. Corria ao cemitério, corria para a igreja. Escon­dia nos matos e ficava longo tempo sem ser visto. Quando de novo aparecia, parecia mais um bicho que homem.

 

        Assim Zacarias vivia sua vida, tinha um ca­chorro, amigo inseparável que de cão de rua virou o cachorro do doido. Chamava de Piloto, o pulguenti­nho preto, e com a afeição que os da raça devotam aos donos, pulguentinho era fiel, seguindo-o por onde fosse.       

   

Mas até os loucos amam, e nos sonhos repetia o nome da amada. Acordava e como se nada tivesse acontecido saía procurando anéis pelas ruas seguido do cão que com certa moral acompanhava todo empi­nado o dono maltrapilho.

 

        Uma vez tentaram levá-lo à força para um asilo na capital, mas o cão ajudou-o avisando através dos latidos e ele pôs-se a correr socando-se nos matos, só aparecendo quase duas semanas depois.

   

Nas festas da padroeira, olhava de longe a roma­ria. Gostava de ouvir a música das novenas e sempre que a procissão começava, lá estava ele, acompa­nhando a imagem no meio da multidão.

   

Quem perto estava, dele se arredava, passava portanto num corredor artificial que suas vestimentas e cheiro se encarregavam de dar-lhe. Mas sem que houvesse agressão e os apupos que eram os menores possíveis, mesmo porque do mal  que sofria interior­mente, o que lhe tinha roubado a razão era superior a qualquer ferimento que lhe fizessem as provocações.

   

Mas Zacarias como todo mortal envelheceu. E no envelhecimento passou a ver com mais freqüência a Negra Dama, não via o rosto, mas a roupa preta a co­brir-lhe o corpo e o vento forte a levar para trás o ex­cesso de tecido. Parecia não pisar o chão, quase voli­tando nos mais variados lugares que ele passava.

   

 O louco falava da mulher, da mulher que lhe perseguia, queria que lhe deixasse em paz, queria que a Negra Dama lhe esquecesse. Mas nada de lhe darem crédito, era louco coitado, finalizavam di­zendo.                                                                                                               

        Com o peso dos anos, Zacarias não mais fugia da presença cada vez maior daquele espectro, quando via, corria em direção, então a visão sumia.

   

Certa noite deitado num banco da praça, as ho­ras iam altas, acordou e percebeu que sua cabeça re­pousava no colo da dama. Não se assustou, levantou lentamente a mão e afastou delicadamente o véu que cobria a face do espectro.

  

Era o rosto de Marilisa que lhe sorria, ele devol­veu o sorriso e aninhou-se naquele colo quente.

  

Quando o dia chegou seu corpo jazia, enrijecido pela morte serena, vinda como um presente na fria madrugada do sertão. Ao seu lado Piloto gemia bai­xinho, como se soubesse que seu dono já não mais vi­via. 

 

 

 

 

OS INESQUECÍVEIS CADERNOS DE CALIGRAFIA

 

 

Jean Kleber Mattos

 

 

Professor Marcondes propôs-nos uma reflexão sobre as bases de nossa educação em Ipueiras naqueles idos, representadas pelas mestras pioneiras da cidade: D. Isa, D. Ester, D. Diana, D. Mundita, D. Augusta, D. Estudilha...

 

Recentemente, conversando em Brasília com um ipueirense aqui radicado, relembrei uma menina que, de tão bela, balançara meu coração quando eu tinha apenas seis anos de idade. O jovem amigo comentou, reflexivo:

 

- Não foi apenas o seu. O meu também. Eu fui aluno dela!

 

Soube então que, hoje sexagenária, ela conserva a beleza com que Deus a abençoou... Desculpem-me, vou deixar o devaneio e voltar ao tema.

 

Propus-me a dar meu testemunho mesmo não sendo um pedagogo. Costumo dizer a meus colegas de escola que somos pesquisadores a dar aulas, acidentalmente promovidos a professores.

 

Fui alfabetizado por minha avó, D. Luizinha. Mesmo contando com a ajuda de meu pai (Neném Mattos) e de minha mãe (D. Mundita), é dela que me lembro mais vivamente.Fez-me um álbum onde colava recortes de vultos ilustres da história do Brasil. Já diziam os americanos nos anos 50, uma figura vale mais que cem palavras. Contava “estórias “ sobre eles.

 

Descrevia suas personalidades. Envolvimento. Com ela aprendi a gostar mais de José Bonifácio, o patriarca, que de D. Pedro I, o herói. Conservo este álbum até hoje, assim como minhas provas do curso primário em Ipueiras. Se meu pai ensinou-me cidadania e minha mãe o código moral do cristianismo, com minha avó aprendi a ter compaixão.

 

Quando leio Dalai Lama, lembro-me de minha avó. Vários autores manifestaram-se sobre a pedagogia da amizade. Faça um amigo e ele lhe dará ouvidos. O filme “A Noviça Rebelde” aborda, em linguagem cinematográfica essa proposta.

 

Não fui aluno de D. Isa, nem de D. Ester, nem de D. Diana, mas aprendi a respeitá-las. D. Isa, que conheci mais de perto, pelo “embrujo” como dizem os espanhóis. Ela sempre transpirou santidade. D. Ester, pelo heróico pioneirismo. Ela foi professora de Neném Mattos, meu pai. A D. Diana que conheci, admirava-a como musicista. Ela fazia a música da igreja, ao órgão. A gente chamava “harmônio”. Dividiu essa tarefa durante algum tempo com minha mãe. Minha avó também a adorava. Minha mãe reverenciava uma colega de Grupo Escolar, D. Augusta, mãe da Miraugusta e da Dalva. D. Estudilha era para nós a mulher culta, letrada. Lembro-me de D. Estudilha comprando os materiais didáticos da escola de meu pai quando ele deixou Ipueiras..

 

Nós nordestinos sabemos enriquecer a língua pátria. Cultivamos o termo “desasnar”, cujo significado vai além do termo alfabetizar. Significa a inclusão de um asno no universo da humanidade. Um ato de caridade. Pois bem, nossas mestras nos desasnavam...

 

Meus filhos mais novos, a Vanessa (hoje universitária) e o Ivan (com dez anos), recusaram a escola em tenra idade. Respeitei. Esperamos um ano ou até mais até que eles escolhessem a escola. O caso do Ivan foi mais eloqüente. Ele finalmente aceitou uma escola de Brasília que funcionava em uma área residencial. Não tinha “cara” de escola. Atendia crianças de classe remediada no pequeno bairro do Cruzeiro Velho.

 

Chama-se Recanto Cultural. O aluno era sempre recebido ao portão por uma “tia”. Sempre com um sorriso, mesmo que chegasse atrasado. Uma escola pequena, aconchegante. Lembro-me de ver um recreio (ou atividade esportiva) deles. Uma “pelada”, com bola pequena, no meio da rua. Como fazíamos em Ipueiras. Duas pequenas toras de madeira marcavam o gol.

 

Improvisação genial. Uma “tia” tomava conta. Chorei na formatura de 3ª. Série do Ivan. Em parte por orgulho de pai. Em parte por saudade da escola. Dali, por recomendação, ele foi para uma escola chamada Mundo Mágico. Nesta, as atividades matinais iniciavam-se às 7,30. As crianças de todas as turmas eram reunidas em um salão aberto onde faziam um rápido alongamento, declamavam poesias e rezavam o Pai Nosso. Só então, perto de 8 horas dirigiam-se às salas de aula. Às sextas-feiras hasteavam nossa bandeira e cantavam o Hino Nacional. Essas ações acomodavam os que chegavam atrasados e satisfaziam, a meu ver, a paranóia do MEC (200 períodos de 5 horas por ano!). Ao portão, uma “tia” bonita e simpática beijava todas as crianças que chegavam.

 

Difícil adaptar-se a outra escola quem nessa estudasse. Concordam? Eu não consigo falar de educação sem mencionar a pedagogia da amizade. Seu custo é alto. Mas ela é edificante. Distante ainda de nós o aprendizado com estresse mínimo, sem traumas. Mas não custa sonhar.

 

Gostaria de falar também de formação integral e férias escolares, mas fica para uma outra oportunidade.

 

Professores também têm filhos. Movem-se, portanto, em mão dupla!    

 

Soprar das velas, no último aniversário (82 anos)

 

IDÍLICO ACONCHEGO

 

Hoje, faz um ano que ADAÍSA ROSA DE SOUSA, atendendo a convite especial, partiu para um banquete, “junto a Jesus”, “em idílico aconchego ao lado de Wencery”.

Luiz Marques, casado com Solange, registra, em nome da família, a foto, no poema a seguir: 

 

Enviaram-te um convite

E o recebeste apressada.

Algo confidencial

Que leste e nada disseste

Mas dele guardaste segredo.

E nós ficamos com medo

Sem saber o que, afinal,

Aquelas linhas continham.

 

Sabemos só que partiste

Para plagas tão distantes

A nós restando os instantes

De cruel perplexidade.

 

Hoje, um ano depois,

Tu confidenciarias

À tua filha querida:

Estás sentada no banquete,

Em idílico aconchego,

Ao lado do Wencery,

No primeiro aniversário

Da estratégica partida.

 

E nós ficamos contentes

Já que gozas de uma infinda

Alegria junto a Jesus.

Dize a ele que ficamos

A invejar tua alegria

Sabendo que tu ganhaste

Melhor parte na viagem.

 

Para ti, enviamos nós,

Melhor dizendo, para o casal,

Um bouquet de mil beijos

E até um breve final.

 

 

 

 

 

 

Foto da Galeria dos Governantes de Ipueiras

 

RAIMUNDO MOURÃO E MELLO (IN MEMORIAM)

 

Artigo escrito por Gonçalo de Barros Carvalho e Mello Mourão, então Ministro da Embaixada do Brasil em Paris, 08 de setembro de 2000, a pedido de seu pai, o jornalista e poeta Gerardo Mello Mourão, em homenagem a Raimundo Mourão e Mello, por ocasião da morte deste.

 

RAZÕES DE MINHA PRESENÇA NESTA HOMENAGEM

Recebi de meu pai, o escritor e poeta Gerardo Mello Mourão, a incumbência de redigir al­gumas palavras em memória de Raimundo Mourão e Melo, em nome de seus parentes au­sentes de nossa terra. E é profundamente comovido que cumpro a ordem de meu pai, e en­vio esta mensagem ao venerando patriarca de nossa família.

 

É de certo modo simbólica minha presença nesta homenagem. Ela significa que a mais nova geração de nossa gente deseja cultivar e manter intacta a herança de tradição dos que nos engrandeceram pelo exemplo e pela honra de uma vida sem mácula. De uma vida que se há de projetar sobre todos os descendentes do velho tronco de fundadores da civilização cearense na Serra da Ibiapaba e nos sertões do Ceará, mesmo dos que partiram desde cedo para mundos distantes como é o meu próprio caso.

 

Pois, nascido em nossa querida Ipueiras, na casa de meus avós, capitão José Ribeiro Mello e Dona Úrsula, tenho vivido habitualmente longe de nossa cidade, e por força de minha con­dição de diplomata, a serviço do  Brasil no exterior, longe também de nosso  Estado e de nossa Pátria.

 

Confiou-me, porém, meu pai, ao cumprir oitenta anos, a guarda dos documentos, das lem­branças e da memória que compõem a história de nossa gente e de nossa terra. Tenho, des­ses altos da Serra da Ibiapaba, cujos nomes meu pai e, antes dele, minha avó, a professora Dona Esther, vem reunindo cuidadosamente e amorosamente em velhos arquivos destina­dos a manter viva a crônica dos que construíram nossos lares e nossa sociedade.

 

SOB O TROM DOS BACAMARTES

 

Raimundo Mourão era nosso último patriarca, filho do Cel. Alexandre da Silva Mourão Quinto – o quinto de seu nome em sua raça – como o imortalizou um poema de Gerardo Mello Mourão – e de sua mulher, Dona Francisca de Barros Mello, era primo legítimo de minha mãe, primo de meu pai em segundo grau e meu primo em terceiro grau. Sua mãe, Dona Francisquinha, era irmã de minha bisavó. Por parte de seu pai, era também primo de minha avó em terceiro grau, pelo tronco dos Mourões. Seu avô materno, o coronel Alexan­dre de Barro Mello era meu trisavô, e descendemos ambos, em linha  direta, de Dona Ana Mourão e do coronel Jose  de Barros Mello, chamado – o cascavel -, meu quarto avô, fa­moso pelas contendas fratricidas que travou contra o segundo Alexandre Mourão, seu primo carnal e seu cunhado.

 

Nossa terra está marcada pela violência das disputas do século 18 e do século 19, em que se envolveram praticamente todas as famílias da região, pois aqui, somos todos ou quase to­dos parentes, pertencentes todos ao mesmo clã parental, os descendentes de Sebastião Ri­beiro Mello, o primeiro deste nome a chegar aos altos da Ibiapaba, com seu primo legítimo Alexandre Mourão, cunhados também pelos dois lados.

 

Os galhos familiares vêm todos, nesta região, dos Albuquerques, dos Cavalcantis, dos Ma­ranhãos e dos Holandas do primeiro século da colonização, do mesmo tronco de que des­cendem os Martins Chaves, os Araújos Chaves, os Feitosas, os Galvãos, os Sampaios, os Araújos Lima, os Ribeiros Melo, os Lopes Teixeira, os Veras e tantos, tantos outros. E mais ainda: brancos, caboclos, mulatos, mestiços, fidalgos e plebeus, somos quase todos aqui do mesmo sangue

 

O venerando Cel Alexandre da Silva Mourão Quinto, do pequizeiro, como seu genro e so­brinho Cel Lauriano, foram contemporâneos dos rudes tempos em que as pendências natu­rais numa comunidade primitiva se resolvia ao trom do bacamarte. Raimundo Mourão lembrava-se ainda dos tempos em que o coronel era obrigado a descer a serra para Ipueiras com uma centena ou duas de bacamartes e suas tropas reunidas que se alojavam na casa de seu primo e cunhado capitão José Ribeiro Mello.

 

Meu pai se recorda, ainda de ter visto, ainda menino, um arsenal dessas armas de fogo na sala de seu avô e nas mãos dos bravos mourões serranos. Eram outros tempos, os tempos em que não precisava botar votos em uma urna para ganhar eleição, como dizia um canta­dor de feira partidário dos mourões. Os rudes baronetes sertanejos sabiam que não podia ser de outra forma.

 

A truculência está implantada no poder central., aqui mesmo, os bandos de facínoras do Padre Alencar destruíram os engenhos e os lares de pacatos Melos e Mourões e Araújos, e outros, com a mesma atrocidade com que o infame Marques de Aracati sequestrou os bens e a vida do coronel Manuel Martins Chaves, e se desonrou na miséria das perseguições a seu sobrinho Antônio Ferreira, tio do General Sampaio.

 

O pai de Raimundo Mourão, Cel Alexandre Mourão, figura lendária em todos o norte do Ceará, por sua fortuna em terra e pela integridade de seu caráter, ainda viu os último es­tertores da violência institucional da região e tomou a decisão de empenhar sua vida e  sua honra na defesa da justiça e da lei. Viu seu primo e tio de sua mulher, famoso padre Ignácio Ribeiro Mello, de Crateús, assassinado por sicários políticos. Viu seu próprio irmão, o pa­dre Joaquim, abatido a tiros pela truculência de lutas partidárias que se estendiam do Ce­ará ao Maranhão. Viu seu primo, o Cel. Correia Lima, de Crateús, arrastado a prisão. Reu­niu, então, com seu primo, capitão Jose Ribeiro Mello, com o famoso vigário padre Feitosa, com o coronel Borete Mourão, e com o Lauriano Mourão, um exercito de cerca de mil e quinhentos homens armados. Invadiu Crateús e libertou o parente perseguido pela polí­tica.

 

Sua presença na vida de nossa terra foi uma permanente mensagem de conciliação e de paz. Essa mensagem foi além das fronteiras do Estado como em 1930, quando o governador federal e governador do Piaui ameaçaram a vida e liberdade de seu primo, Cel Domingos Mourão, prestigioso chefe político do município piauiense de Pedro II. Em tele­grama histórico, o altivo senhor do pequizeiro advertiu, com a assinatura de algumas de­zenas de parentes, que se tocassem num fio de cabelo do Cel Domingos Mourão, os velhos bacamartes voltariam a troar. O aviso restaurou a paz na região.

 

 

HERDEIRO DO ESPÍRITO CONCILIADOR DO PAI

  

Raimundo Mourão, que se encontra enterrado no santuário do cemitério familiar da Matriz de São Gonçalo, a igreja e a vila fundada por nossos antepassados, cresceu e viveu à som­bra do exemplo conciliador de seu pai. Herdou-lhe os ensinamentos e o prestigio político. Herdou-lhe a honra e o amor a nossa terra. Ficará sepultado no mesmo jazigo onde descan­sam seus maiores, na boa e querida terra que teve o nome mudado de Matriz para Mororó, creio que por sugestão do historiador Hugo Catunda, em homenagem a um de nossos an­tepassados, o padre Inácio de Albuquerque Mello, que tomou o nome nativista de Mororó, e que foi fuzilado em Fortaleza como um dos cabeças da Confederação do Equador.

 

Raimundo Mourão foi chefe de partido, foi prefeito de ipueiras, foi, por 16 anos, represen­tante da câmara municipal, assumindo por quase todo esse tempo a presidência da casa. Ninguém apontará um crime, uma violência, um arranhão na lei e na convivência civili­zada com os que com ele trataram, ao longo de 92 anos. Morre cercado pelo mesmo res­peito que cercou sempre o nome de seu pai. Só tinha um orgulho: o de manter as tradições familiares de sua gente e transmiti-la aos filhos, que soube criar e educar ao lado da com­panheira da vida inteira, sua admirável mulher, Adélia Mourão.

 

A VAIDADE ÚNICA

 

Só tinha uma vaidade: a de dedicar-se ao cultivo das terras que foram de seu pai e conti­nuar a qualidade da fidalguia do mesmo trato rural em seu trabalho de senhor de engenho, onde sabia produzir, com esmero e a honradez do tempo antigo, a dourada aguardente de suas dornas e de seus alambiques. Era apenas uma pequena produção. Mas era um símbolo e um modelo. Eu mesmo guardo aqui no coração de Paris, às margens do Sena, uma pe­quena garra dela, que trouxe meu pai há algum tempo, com o rótulo em que aparece sua saudável estampa de serrano e a marca comemorativa da safra: 90.

 

É uma edição comemorativa de seus 90 anos com uma reserva nobre de cachaça egrégia, destilada por seu pai, há 90 anos, no dia do seu nascimento. Não a abri, guardo-a entre os champanhes, os conhaques, os bordeaux de minha pequena adega de vinhos conspícuos das vinhas francesas. Mas talvez hoje à noite, para saudar sua partida para a eternidade, eu chame o único cidadão de Ipueiras que mora em Paris, alem de mim, o jornalista Frota Neto. E abramos a caninha amarela do engenho dos grossos, em memória do grande e que­rido morto, patriarca de minha terra e de minha tribo. E ao bebermos à memória do grande morto, estaremos honrando e saudando, diante de Deus, em cuja casa ele agora se encon­tra, diante de São Gonçalo e de seus descendentes, e dos descendentes de seus descendentes, a memória e o nome do último príncipe do glorioso País da Ibiapaba, suas Ipueiras, sua Serra dos Cocos e sua  Serra Grande”

 

 

 

Texto enviado por Everardo Mourão,

filho do ora homenageado post mortem:

 

Pousada Nossa Casa
Fortaleza-Ceará
Fone: (55 85) 3267-4440
Site: http://www.pousadanossacasa.tur.br/
E-mail: adm@pousadanossacasa.tur.br

Um Preito a JK (Tereza Mourão)

16:17 @ 19/04/2006

 

Um Preito a JK

 

Tereza Mourão

 

 

 

Assistindo ao último capítulo do seriado sobre JK, me veio toda a lembrança daquele triste dia de sua morte e da comoção que, mesmo aos servidores que não puderam sair, estava-lhes, no rosto de cada um, espelhado.

 

Aqui, em Brasília, cheguei justo no ano de sua morte, mais precisamente em 15/6/1976. A esse tempo, era Presidente do Senado, Mauro Benevides (PMDB/CE).

 

Lembro-me. Fui ao Senado à sua procura, pois tinha vontade de fazer um estágio no PRODASEN - Processamento de Dados do Senado. Ele me deu um cartão encaminhando-me para que fizesse o intentado estágio. E, por coincidência, a prova que eu teria de fazer havia sido marcada, exatamente, no dia da morte do Presidente JK.

 

Eu fiquei tão chocada que me esqueci completamente da prova e fui para a Esplanada dos Ministérios, em meio àquela multidão, chorar a morte desse grande homem do bem.

 

Lembro que consegui ficar, depois de muitos empurrões, ao lado da Catedral. Vi quando D. Sara e suas filhas passaram atrás do caixão. Assistimos à missa de corpo presente, junto a uma multidão triste e comovida do lado de fora, pois dentro da Catedral não comportava mais ninguém. Também vi quando o caixão saiu nos braços do povo e foi colocado no carro de bombeiros (se não me engano) onde a multidão o acompanhou até o cemitério Parque da Paz.

 

Eu também segui, acompanhando a multidão. Cantei a música “Peixe Vivo” e chorei como todos, mesmo nunca tendo conhecido o Presidente. Era como se ele fizesse parte de nossa vida, principalmente dos nordestinos pioneiros que aqui chegaram.

 

Eu era criança quando ele foi eleito Presidente da República. Morava em Ipueiras. Mas já o conhecia de nome. É que, naquela época, meu pai, Tim Mourão, havia sido eleito Prefeito de Ipueiras. E vi muitos “paus-de-arara” saindo de Ipueiras cheios de gente em busca do trabalho em Brasilia. 

 

Ao tempo da comoção e do enterro de JK, não se tinha idéia dessa multidão que acompanhou o último dia do “Presidente Bossa Nova", em sua querida Brasília. É que era esse tempo o do império da ditadura. E a censura terminou por arquivar muitas das imagens do enterro, veiculando-as, pelos canais de televisão, sob o filtro dos muitos cortes...

 

        Hoje, com este seriado e vivendo em uma democracia, é que tive a idéia de como JK sofreu, foi traído, humilhado, lapidado em seus sonhos e ideais e tudo por estes militares e seus AIs 1,2, 3, 5, como se fossem os donos do Brasil, prejudicando tanta gente: artistas, funcionários, escritores, compositores, políticos, entre outros.

 

Há uns 6 anos, quando comecei a freqüentar a Comunhão Espírita de Brasília,  http://www.comunhaoespirita.org.br/, sempre no final do ano, tínhamos noticias de nosso Presidente, no plano espiritual  por meio de mensagem psicografada pela médium após a palestra da passagem de ano.

 

Recordo-me de que, nessa mensagem, ele sempre falava de Brasília, da Catedral de sua imensa saudade e de agradecimentos ao povo brasileiro. Uma vez, ele falou da eleição do Presidente Lula. Deu-lhe os parabéns e disse outras coisas que agora não me vêm à lembrança e que, prometo, tentarei localizar entre os “meus guardados”, entre os quais se encontram algumas destas mensagens mediúnicas. Aí, caso lhes interesse, enviarei a vocês.

 

Gostaria de me dirigir a ele. Presidente, tenho o maior orgulho de ser brasileira, cearense, filha de político de seu mesmo partido, o PSD (Partido Social Democrático). A Deus, agradeço pela oportunidade de ainda estar deste lado, revivendo sua história de um homem brilhante.

 

Que Deus e os bons espíritos estejam sempre de seu lado. Obrigada, Presidente, por esta linda Brasília, onde encontramos gente de todo o Brasil e onde nasceram meus filhos.

 

De Brasília,

Tereza Mourão

 

Livro autografado a Zequinha pelo "Véio Macho"

 

"Mas não tem outra mais bonita no lugar"

 

José Bento Neto (Zequinha)

 

O maior representante da música nordestina, Luis Gonzaga, em uma tarde de domingo, dia em que o trem vinha de Fortaleza para Crateús, como sempre atrasado, para não fugir à tradição da Rede de Viação Cearense (R.V.C.), mais conhecida com “Rapariga Velha e Cansada”, permitiu-me a oportunidade de ver o Rei do Baião transitando por Ipueiras. Foi no dia 19.06.66.

 

  Eu trabalhava, na época, no Banco do Nordeste, na vizinha cidade de Nova Russas. Infalivelmente, aos sábados, eu, a Miraugusta e minha filha Dalvinha, ainda com menos de l ano, passávamos o fim de semana na nossa querida terra, Ipueiras. Voltávamos no domingo, sempre de trem, já que era o único transporte "confortável". De jeep, nem pensar, já que a duração da viagem de Ipueiras para Nova Russas era de 3 horas. Isto quando não chovia. (Os não muito recentes se lembram da PASSAGEM DAS COBRAS, depois do Charito? Depois de uma chuva forte, não passava ninguém). 

 

  Fomos avisados pelo Rodolfo, agente da estação, de que o trem atrasara, mais uma vez. Logo em seguida (coisa rara), vimos uma Rural Wills se aproximando da Estação, vindo das bandas do Ipu. Pela quase inexistência da estrada, diríamos que era um RALLY. O carro parou em frente à banca da Dona Maria Capoeira. Desceu Luis Gonzaga com seus acompanhantes. Vinham com fome. O Rei foi logo pedindo que a Dona Maria preparasse bastante "orelha de porco" (era assim que ele chamava aquele gostoso bolo de milho feito pela Dona Maria. Walmir, sei que você ainda não esqueceu do sabor daquele bolo). Tinha pressa, já que deveriam, ainda naquela noite, se apresentar em Crateús.

 

Comeram bastante. Eu me antecipei e paguei a despesa. Quando ele pediu a conta, a Dona Maria lhe informou que eu já havia pagado. Fazendo-se de surpreso, ele perguntou por que eu pagara, se eu nem sabia quem era ele e o que era que eu estava querendo. Respondi que eu sabia quem era ele e pediria que ele cantasse um pouco para nós. Recebi uma proposta: ele cantaria, mas eu teria de conseguir vender 10 exemplares do livro "O Sanfoneiro do Riacho da Brígida”, de autoria de Sinval Sá, que relata a sua vida. Comprei logo um, que tem a seguinte dedicatória: "Para José Bento Neto, com um abraço do "Veio Macho". Luis Gonzaga. Ipueiras, 19.6.66”.

 

 A duras penas, consegui cinco compradores. Lembro-me de que um deles foi o Cláudio Catunda, hoje falecido. Vendo que eu não conseguiria vender mais, ele convocou a turma que o acompanhava (fazia parte o Meio Quilo), subiram em um banco de madeira que existia na Estação e cantou: O Xote das Meninas, Asa Branca, A Volta da Asa Branca, Ô Veio Macho. Finalizou, aproveitando o fato de eu estar com a minha filha nos braços e, apontando para ela, cantou: “Vai boiadeiro que a noite já vem (...) MAS NÃO TEM OUTRA MAIS BONITA NO LUGAR”...

 

Na despedida, ele perguntou qual a minha profissão. “Bancário” - respondi-lhe. Então ele, com toda aquela simpatia, brincou: “Bento Bancário, coitado, nasceu p’ra BB”!

 

 

 

Capela do Charito

MILETO, O ADVOGADO DE “SEU” EDMUNDO

 

Jean Kleber Mattos

 

Meu pai (Neném Mattos) sempre me fala, com muito carinho, de seus amigos dos tempos de solteiro em Ipueiras. Gosta de contar uma “estória” envolvendo dois companheiros por quem sempre teve grande admiração: Edmundo Medeiros e Mileto Catunda. Ri muito quando rememora o espírito brincalhão de Mileto e a compenetração de Edmundo no episódio.

 

Nos idos tempos de solteiro, Edmundo tinha uma namorada no Charito. Um dia, entusiasmado com a programação dos colegas de Ipueiras, deu o “bolo” na namorada.

 

A menina era brava, e ele, com medo da bronca, levou consigo, no dia seguinte quando do encontro com a namorada, o amigo Mileto Catunda. Ele seria seu “advogado”. Confirmaria toda a sua história, etc.

 

Chegados à casa da moça, sentaram-se confortavelmente na sala de visitas. A namorada então começou a queixar-se do “bolo” e acresceu mais algumas reclamações ao discurso, buscando apoio moral justamente em Mileto Catunda.

 

Aos poucos, Mileto foi sendo nucleado pela exposição da moça e começou a esboçar preocupantes sinais de solidariedade, embora durante toda a conversação se mantivesse calado. Apenas um bom ouvinte.

 

De repente, uma pausa respiratória da interlocutora e Mileto acenou que finalmente falaria. Edmundo, ali postado, esperou os elogios do amigo Mileto ao seu caráter e a confirmação de suas justificativas, conforme haviam combinado.

 

Qual não foi sua surpresa, porém, quando, respirando fundo, Mileto sentenciou:

 

-O cabra é sem vergonha!

 

Fundo de quintal (Afonso Lopes)

 

O MAPA DO TERRITÓRIO

 

 

Jean Kleber

 

São vinte horas e dez minutos em Brasília, deste 23 de abril de 2006. Há pouco, eu conversava com minha mulher Heloisa, uma carioca de morou em Natal-RN, sobre Ipueiras. De tanto compartilhar comigo esta experiência “webica”, ela quer conhecer a cidade. Digo-lhe que a Ipueiras que ela está vendo não existe no plano real. Nós a recriamos.

 

Estamos compartilhando a nossa criação. A Ipueiras real está na crônica de Marcondes Sousa  - TECENDO UMA NOVA MANHÃ, uma das mais densas que já li. Também a virtual. Nela fico sabendo quem criou o sítio: “Braga...um dia, com apoio de Frota, Dalinha e de muitos, conseguiu plantar, na Web, um “sítio”... “Braga e Everardo...seus “sítios”, o www.ipueiras.com, o Grupo Ipueiras e o Blog ipueiras”.

 

Também vejo a tradução de Walmir Rosa: “Num passe de mágica (ou de mouse), transporto-me até Ipueiras como se estivesse na ‘avenida’, sentado no chão, conversando numa roda de amigos, revirando saudades”. É exatamente o que sinto quando acesso o “sítio”. A Ipueiras real é a casa de Edmundo Medeiros sendo destinada a um trabalho social profissionalizante. Também as novas gerações que encontramos no “Orkut”. E Marcondes é didático quando fala no Instituto Frota Neto...”que se planta em território real (além do virtual) em Ipueiras”.

 

 E sobre as homenagens “como as devotadas a Gerardo Mello Mourão, cuja pena, entre outras temáticas, dedicou-se a falar d’O País dos Mourões...”. O apelo poético da manhã criada pelo canto dos galos numa citação bem colocada de João Cabral de Melo Neto, encerra a crônica, causando emoção.

 

Para mim a Ipueiras recriada é uma experiência profunda porque vivida com profundidade. Até assusta. Dá medo que nos escape pelas mãos.

 

TECENDO UMA NOVA MANHÃ aí está para nortear-me na minha redescoberta de Ipueiras. Se Tereza Mourão me apontou o rumo, a bela crônica do professor Marcondes é o mapa do território. Não vai demorar, levarei Heloisa e as crianças (Vanessa e Ivan) para conhecer a Ipueiras real.  Que também será virtual, quando lá chegarmos. Temos o mapa.

 

 

 

 

Tim por Urbano Vilela

Tereza Mourão ao lado

 

 

UM LUGAR NA HISTÓRIA

PARA TIM MOURÃO

 

Depoimento de Mauro Benevides

 

 

MAURO BENEVIDES (foto), de histórica carreira política, no Ceará e no País – desde deputado estadual, em seu estado, até a função de presidente do Senado, em nossa República -  recebe, em seu gabinete, na Câmara dos Deputados, em Brasília, a Tereza Mourão, filha de Francisco Soares Mourão (conhecido por Tim Mourão). Na pauta da informal conversa, um depoimento sobre o lugar de Tim na história e na vida política em Ipueiras, na Região Norte e em todo o Ceará.

 

Tereza Mourão sugere a pauta. Tendo Mauro Benevides conhecido seu pai, desde quando este se elegeu Prefeito Municipal de Ipueiras, em 1958, pede que ele discorra, livremente, sobre aspectos importantes como: a) em que circunstâncias teria conhecido Tim Mourão; b) a eventual influência que seu pai havia tido na carreira política do entrevistado; c) sua visão sobre a figura de seu pai como político, homem de negócios, industrial que era, e como pessoa enfim.

 

 

DIGNIDADE DE ATUAÇÃO

 

Em 1958, era eu vereador de Fortaleza, integrante do Partido Social Democrático (PSD) e entendi de postular uma cadeira na Assembléia Legislativa do Ceará. Um dos apoios significativos que, naquela ocasião, recebi, além dos dois municípios mais próximos à minha família - Pacatuba e Quixeramobim –, somaram os de Ipueiras e Poranga.

 

A essa época, Poranga havia se emancipado politicamente de Ipueiras. Mas Tim Mourão gozava de excelente conceito em toda a região, não apenas em Ipueiras, mas em suas adjacências – Poranga, Ipu, Pires Ferreira, Nova Russas, Tamboril, Sucesso, Crateús, Novo Oriente...  Tim Mourão era sempre acatado e respeitado como homem de bem, que sabia cumprir com seus compromissos. E, sobretudo, tinha uma linha de dignidade de atuação.

 

Quando ele empenhava sua palavra no sentido de apoiar um candidato, ele sabia fazê-lo com desenvoltura, lealdade e sentimentos mais nobres, o que hoje escasseia nos homens públicos que atuam nos planos municipal, estadual e, sobretudo, no federal, onde a classe política atravessa momento de extrema dificuldade, pelo descrédito em que ingressaram os integrantes do legislativo e do próprio executivo, nesses deploráveis fatos de “mensalão” e “mensalinho”. Tudo isso, além das deturpações que se registraram no processo eleitoral com o “caixa dois” e todas as suas conseqüências nefastas para garantir credibilidade à classe política brasileira.

 

Tim Mourão, naquele ano de 1958 – um ano difícil para o Ceará, porque marcado por uma seca inclemente e implacável -, enfrentou aquela luta, tendo-me ao seu lado. Nós conseguirmos realizar um excelente trabalho. A essa época, havia uma coincindência nos pleitos municipal, estadual e federal. Então, ao mesmo tempo em que eu me elegia deputado estadual, tendo votação expressiva em Ipueiras – salvo engano, com 1.800 votos – ele se elegia prefeito desse município, absorvendo consigo próprio, sua consciência e sua comunidade, a responsabilidade de realizar uma grande administração.

 

Mesmo com recursos parcos (praticamente os originários do erário municipal), ele reuniu todas as suas forças e até os seus recursos próprios, que ele sabia utilizar de forma desprendida. Tudo isso ele fez para que sua administração tivesse a característica de algo que impulsionasse o desenvolvimento daquela região, sobretudo do município de Ipueiras.

 

Ele se confrontou eleitoralmente com um dos líderes tradicionais da UDN (União Democrática Nacional), Sebastião Matos (foto) - ele, Tim Mourão, como líder do antigo PSD (Partido Social Democrático). Havia outras importantes correntes: o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), o PSP (Partido Social Progressista), o PC (a facção comunista da época). Uns cinco ou seis partidos, em um pluripartidarismo ainda incipiente.  Esse era o quadro. Mas, naquele tempo, as duas forças que se digladiavam no Ceará eram o PSD e a UDN.

 

Tim Mourão (foto da Galeria dos Governantes da PM de Ipueiras) empalmou o mastro de nossa bandeira de luta. E soube fazê-lo com maestria, dignidade e hombridade incomparáveis. E, a mim, garantia, naquele instante (1958), a condição de deputado mais votado do Estado do Ceará. Fato que se repetiria em 1962, quando, eleito mais uma vez, me vi distinguido com a escolha de meu nome para presidir a Assembléia Legislativa do Estado, num dos momentos extremamente delicados de nossa vida político-institucional (o período de 1963/64/65).

 

Não é difícil identificar-se essa fase, quando, no País, se agudizaram as questões entre militares e políticos. A essa época, os fatos encontraram as frestas da Assembléia Legislativa, na busca por se preservarem os ideais de liberdade, justo com aqueles que representavam a conspurcação de tudo isso, vale dizer - a anormalidade que passou a vigorar no País.

 

 

OS FILHOS CONSEGUIRAM

POSIÇÕES COM DIGNIDADE

 

 

Convivi com Tim Mourão em sua intimidade, na de sua família. Seus filhos todos, eu procurei ajudá-los, quando preciso fosse, apontando essa ou aquela alternativa de aproveitamento no serviço público. Como todos eram competentes, conseguiram as posições com a maior dignidade, com o mesmo espírito público que herdaram do pai.

 

A Elisa Maria foi aproveitada nos quadros do Ministério da Fazenda, no cargo que hoje equivaleria ao de “auditor fiscal”. A Cosmanete – que esteve mais próxima a mim, consegui situá-la no Departamento Mecanográfico da Secretaria Estadual da Fazenda, onde ela se revelou talentosa, cumprindo todas as suas missões e granjeando as simpatias entre os colegas de repartição e o respeito de seus chefes. Sobretudo, na época em que teve por chefe um também “Mourão” – o Raimundo Mourão da Rocha, nascido em Crateús, que, com ela. se identificou, colocando-a em posição de destaque, naquele órgão, aonde ele chegou à chefia pelos degraus da antiguidade e experiência.

 

Com relação ao “nosso Vavá” (Antônio Vagner - foto), eu o aproveitei nos quadros da Assembléia Legislativa. Fiz uma contratação para que ele prestasse serviço ao Poder Legislativo. Ele ficou algum tempo. Mas, depois, entendeu que, nas Ipueiras, teria melhores condições de sobrevivência do que naquela função – que não era tão modesta. Era uma função “regular”, que lhe teria dado tranqüilidade para que o serviço público pudesse ampará-lo quando necessário, mesmo que tivesse ele nascido em “berço de ouro” – o berço que Tim Mourão oferecia a seus filhos, já que era homem realizado, um empreendedor, que tinha propriedades rurais (lembro-me da Fazenda Barriguda, onde por umas duas vezes estive). Mas o fato é que Tim Mourão "di-la-pi-dou" todo o seu patrimônio, aplicando recursos próprios para atender a seus semelhantes. Sobretudo, os carentes, os mais necessitados e marginalizados àquela época do já perverso mosaico social a imperar no País.

 

 

UMA LENDA DE DIGNIDADE

 

No que diz respeito à sua saúde, é indiscutível que Tim Mourão tinha um problema de deficiência coronariana. Por essa razão, cheguei, certa vez, a levá-lo a um grande cardiologista da época, que viria a ser depois senador da República, o Dr. Antônio de Queiroz Jucá.

 

Recordo-me ainda. Era o cair da tarde. E eu fiz questão de acompanhá-lo até o consultório do Dr. Antônio Jucá, no Edifício Diogo.  O veredicto do médico foi muito preciso: ele tinha uma deficiência coronariana e, em função disso, ele não o aconselharia a ter grandes emoções como as decorrentes da atividade político-partidária. Tim Mourão, mesmo assim, continuou pensando mais em sua gente do que nele próprio. Enfrentou a luta e foi vitorioso. Iniciou uma administração auspiciosa, marcada por grandes realizações, apesar das limitações orçamentárias, e com as ajudas que consegui com os deputados estaduais, no Governo de Parsifal Barroso, quando ocupei as funções de “líder do governo”, na Assembléia Legislativa e, depois, de Secretário do Interior e Justiça, no Executivo.

 

Recordo-me que, à época, o grande anseio dos ipueirenses recaía na reclamada ajuda do Governo Estadual para a construção da pequena açudagem. Foram muitos os açudes que conseguimos garantir para Ipueiras. Depois, o funcionamento da Escola Normal. Enfim, tudo aquilo que, a mim chegando, no exercício de meu mandato como deputado estadual, procurava eu atender a Tim Mourão. Eu estava absolutamente certo de que aquele homem público estava imbuído dos mais nobres sentimentos de servir à sua gente e de impulsionar o desenvolvimento de sua terra. Essa, a razão por que, hoje, tantos anos após o desaparecimento de Tim Mourão, ainda o recordo com profunda saudade.

 

Ainda agora, conversando com sua filha Tereza, que ora me entrevista (agora a me dizer que, naquela época, tinha nove anos) e que hoje mora aqui em Brasília, indagava-lhe: “Você se lembra, em criancinha, quando cheguei a lhe colocar à boca uma mamadeira, naquela magnífica casa (foto) que Tim Mourão tinha em Ipueiras?”. Hoje, Tereza aqui está, já realizada, com a saúde restabelecida, após recente intervenção a que se submeteu.

 

Lembro fatos assim para dizer de minha longa convivência com Tim Mourão. Convivência que, para mim, é inspiradora, já que em contraste com a cena lugar-comum entre os homens públicos a se deixarem contaminar pelos imorais desvios dos recursos públicos. Tim Mourão, ao contrário disso, é exemplo do homem austero, seguro e firme, que preferia dispor até de sua pecúnia pessoal, ao invés de ousar aplicar indevidamente os recursos de seu município.

 

Presto, por isso, aqui, a homenagem deste depoimento. Não apenas para externar o pensamento que tenho sobre o saudoso amigo. Mas, sobretudo, para nele enaltecer virtudes hoje raras em quantos executam o comando político-partidário, em nossos municípios, nos estados e na Nação enfim. Tim Mourão continua a se postar como um exemplo não apenas para Ipueiras e a Zona Norte do Ceará. Creio que, além disso, de toda a comunidade cearense. Ele foi, de fato, um prefeito padrão. Cuidava dos filhos, da família, sim. Mas ia além. Com desvelo insuperável, cuidada de tudo que pudesse significar interesse de suas Ipueiras, de sua gente sofrida, de seu eleitorado, de seu partido, de seu povo enfim.

 

Este breve relato que ora faço para o “site” www.ipueiras.com, na Internet, tem a intenção de garantir a perenidade do reconhecimento a um homem público que sacrificou sua própria saúde para atender aos reclamos de sua comunidade. Entendo que todos quantos conheceram Tim Mourão pessoalmente – como é o meu caso – a até mesmo aqueles que o viram mais distanciados, como uma “lenda de dignidade”, um “símbolo de autenticidade e de amor ao próximo” – todos, enfim, vamos tornar imperecível a memória deste grande cearense, que honrou não apenas Ipueiras e a Zona Norte do Estado, mas toda a classe política de nosso Estado.

 

 

HOMEM DE DECISÃO E FIRMEZA

 

Sim, ele teve de renunciar a prefeitura de Ipueiras, por problema de saúde agudo. Lembro-me bem. Todas as recomendações médicas o obravam a se distanciar de preocupações que lhe pudessem trazer as oscilações de pressão, de tudo enfim que pudesse lhe acarretar o agravamento de seu estado de saúde.

 

Numa das festas da Escola Normal Rural de Ipueiras, no ano em que fui “Patrono da Turma”, houve, no próprio salão da Municipalidade, uma festa de confraternização entre os concludentes. Lá, estavam presentes tanto jovens de Ipueiras quanto de Nova Russas. Houve então um confronto entre esses jovens, e isso teve repercussão extremamente preocupante. Tais os incidentes que o próprio José Lima, figura de projeção na cidade, terminou sendo acidentado, ferido em uma de suas orelhas.

 

Isso gerou inquietação muito grande, fazendo com que o baile terminasse naquela ocasião, os rapazes de Novas Russas se demandando de volta para sua cidade, e os de Ipueiras ali permaneceram a se solidarizar com o prefeito, que procurava acalmar os ânimos, com sua indiscutível autoridade de chefe da municipalidade, em Ipueiras.

 

Lembro-me mais e posso afirmar que José Lima, cuja esposa Maria Lima era  mulher vigorosa, forte e decidida, resolveu partir para uma desforra em direção aos que o haviam agredido – aqueles jovens que, na precipitação de um confronto, haviam atingido seu marido.

 

Como havia um clima de expectativa sobre a ação imprevisível de José Lima, eu fui recrutado por Tim Mourão e sua mulher, Maria Andrade Mourão, para que fosse ao encontro de José Lima, que morava do outro lado da praça principal da cidade, para tentar dissuadi-lo de qualquer ação mais enérgica, mais vigorosa, que pudesse assumir uma conotação de mais “realidade”.

 

Fui então ao encontro de José Lima. No meio da praça, Maria Lima, sua esposa, fazia-lhe patéticos apelos para que ele entregasse arma que então portava. Eu o abracei, até como forma de dissuadi-lo de qualquer reação. Abracei-o, de homem para homem, e aos poucos consegui desestimula-lo. Ainda mais, porque, a essa altura, os rapazes de Nova Russas já haviam viajado em retorno para sua cidade. Aí, a dispersão fez com José Lima, aos poucos, se dobrasse diante dos apelos, que insistentemente, lhe havia transmitido.

 

A cidade voltou, afinal, à calma. E Tim Mourão me agradeceu, visivelmente emocionado, assegurando-me que eu, com minha ação corajosa e decidida, tinha eu evitado que se agravasse um quadro de animosidade entre ipueirenses e nova-russenses.

 

Fica, aqui, o testemunho que gostaria de apresentar. É que Tim Mourão, mesmo com a saúde abalada, era um homem de decisão e firmeza. Em instante algum desse conflito, ele se afastou de sua postura e autoridade, na tentativa de reclamar calma aos litigantes, que, exagerando na reação – em que já se envolviam garrafas de cerveja a se quebrar quando colocadas diante das paredes. E assim, nesse tumultuado quadro que a mim, com a colaboração e sob a autoridade de Tim, conseguimos restabelecer aos poucos a ordem, podendo a festa das normalistas, já chegada ao fim, deixasse de ter registro de maior gravidade, além daquele que ocasionou ferimento da orelha de José Lima. Maria Lima também colaborou nesse sentido.

 

 

UMA DAS GRANDES LIDERANÇAS

DO SÉCULO PASSADO, EM IPUEIRAS

  

Enfim, participei de tudo, na vida política e mesmo na vida quotidiana de Ipueiras. E me identifiquei bastante com Tim Mourão e, depois, com seus sucessores na política, como Gonçalo Pinho. Levei também para Fortaleza Antônio Eufrasino Neto, que viria depois a ser candidato a deputado estadual, no pleito seguinte, já sob a bandeira do MDB (Movimento Democrático Brasileiro) e não mais do PSD, já que os partidos haviam sido extintos.

 

Eufrasino Neto assumiu o comando político de Ipueiras. E eu, em Ipueiras, tive, no pleito seguinte, votação expressiva para senador da República, naquela memorável campanha em que se dizia: “Para onde o Mauro vai o povo vai atrás”.

 

Ipueiras, então, retribuiu-me ao serviço que a ela prestei e continuo disposto ainda a fazê-lo. Retribuiu, com votação expressiva, que me permitiu chegar a deputado estadual – eu que fora, no primeiro momento (em 58) e no segundo (62), o deputado mais votado em Ipueiras, numa disputa com o também candidato à Assembléia Legislativa Aquiles Peres Mota (foto), que disputava comigo, as preferências da votação do povo ipueirense.

 

Tim Mourão é uma figura de quem eu guardo impagável, em minha memória e nos sentimentos de meu coração: pela sua dignidade, pela hombridade, pela sua coerência, pela sua firmeza em defender aqueles que, sem recursos e desasistidos por parte do poder público, imploravam-lhe o apoio, a ajuda e a colaboração.

 

Foi um grande brasileiro, a quem homenageio, neste breve relato sobre sua vida honrada e dignificada por exemplos que hoje o situam como uma das grandes lideranças do século passado, no município de Ipueiras e na Região Norte do Ceará.

 

 

TESTEMUNHO DE TEREZA MOURÃO

 

Dr. Mauro, ele lhe asseguro. Se meu pai, Tim Mourão, fosse vivo, estaria muito satisfeito e feliz por estar com o senhor em toda sua carreira política: deputado estadual, presidente da Assembléia Legislativa, senador e presidente do senado, e agora deputado federal. Ele sempre acreditou no senhor como político.

 

 

IDENTIFICAÇÃO COM OS IPUEIRENSES

 

Acredito. Tim Mourão procurava sempre conhecer e acompanhar minha trajetória política. Cheguei à Assembléia Legislativa do Ceará na condição de líder da maioria, no Governo de Parsifal Barroso. Um ano depois, recrutado para cargo mais alto, o de Secretário de Interior e Justiça, onde procurava atender aos pleitos dos ipueirenses. Por exemplo, do meu compadre Zeca Bento (foto), então à frente de um dos cartórios de Ipueiras. Sou padrinho de uma de suas filhas.

 

Enfim, identifiquei-me com toda aquela gente, que conheci de perto... Com Antônio Moacir Mourão e Melo (foto), que conheci de perto. Com o velho Cel. Antonio Eufrasino, que, antes de morrer, dizia para mim: “Mauro, eu quero que você apóie meus dois filhos: o Regino e o Dudu (o Ludgero)”. E eu procurei ajudar os dois, garantindo-lhes uma posição no governo do Estado. Todos os dois - pelo menos o Ludgero – mantêm um contacto permanente comigo. Mora ele lá na Parquelândia, em Fortaleza, e, em todas as eleições, tem me procurado, sejam elas para senador, para deputado federal, a fim de emprestar seu prestígio, sua colaboração e seu voto, para que eu possa me eleger, como me agora, novamente, para o Congresso Nacional – antes como senador e, hoje, como deputado federal.

 

 

 

AGRADECIMENTOS

(TEREZA MOURÃO)

 

Ao final deste depoimento, quero lhe agradecer, Dr. Mauro. E gostaria que, um dia, fosse revisitar Ipueiras, para ver como ela está atualmente. Inclusive, para ver que a Praça a que aqui o senhor se referiu como a em que moraram Maria Lima e José Lima, hoje a ostentar o nome “Maria Lima”. Ela gostava muito dali e conseguiu contribuiu para, nessa praça, mudar muitas coisas.

 

Hoje, temos lá o Instituto Frota Neto (Foto), que Frota Neto, conseguiu lá construir. Todo ano, promove-se o “Prêmio Frota Neto de Literatura”, do qual participam os alunos da rede pública de ensino, no município. Gostaria de lhe enviar relação de livros que tem chegado para a biblioteca.

 

De Ipueiras, via Internet, recebi a informação de que, entre cerca de mil e duzentos alunos que participaram de maratona, em todo o Estado do Ceará, lá estavam três alunos de Ipueiras.  Nossa esperança é que o senhor continue seu trabalho por nós todos, neste Congresso Nacional. Tenho a certeza de que Ipueiras, a Região Norte e o Ceará por inteiro haverão de sufragar seu nome para aqui nos representar. Muito obrigada.

 

 

PALAVRAS FINAIS

(MAURO BENEVIDES)

 

Para mim, foi um grande prazer dar este depoimento sobre o grande cearense cuja memória perdurará lembrada pelas gerações vindouras, por aqueles que, mesmo sem terem conhecido pessoalmente Tim Mourão, sabem que a sua trajetória foi marcada pelo espírito de seriedade e pelo desejo de bem servir a sua gente.