
TECENDO UMA NOVA MANHÃ
Marcondes Rosa de Sousa
Fotos, via de regra, ilustram. Por vezes, vão além e dizem mais, desempenhando o papel de autênticos “flagrantes simbólicos”. E, sob essa perspectiva, dizem mais que os prosaicos fatos. Um exemplo é a foto que encima este texto.
Na foto, os personagens celebram um encontro, que poderia dizer do abraço, antes não compreendido, mas que hoje, nestes tempos ditos “digitais”, irmana o que denominamos de “local” e “global”.
O cenário é a Pousada Casa Nossa. Atores da cena, ipueirenses. Nas pontas, Francisco Braga Barbosa (à esquerda) e esposa e filho (à direita). Ao centro, Everardo Mourão e Tadeu Fontenele (e esposa). Na foto, o registro da passagem, Braga e família retornados de Ipueiras em passagem por Fortaleza, tendo Tadeu por Cicerone.
Os personagens. Por trás de Braga, filho de lavrador, o superado estigma, chavão nas “águas retiradas”, vaticinado pelo patrão de seu pai: “caneta de pobre é cabo de enxada”. Braga se fez alencarino Moacir e emigrou para o Planalto Central. E um dia, com apoio de Frota, Dalinha e de muitos, conseguiu plantar, na Web, um “sítio”: o www.ipueiras.com, onde o Redentor, braços abertos, ao mirar, em linha reta o Ipu, começava a despertar euforias nos freqüentadores do Bar do Nagib, que sonhava com o dia em que Ipueiras e Ipu, unidos, formariam “uma grande metrópole”. “E não tem, nessa www, nem br? Não? Cidade monarca, essa Ipueiras!” – foi a vibração de meu irmão, Walmir Rosa, que, eufórico, terminou por escrever o que hoje figura no topo da Página:
(...” Num passe de mágica (ou de mouse), transporto-me até Ipueiras como se estivesse na ‘avenida’, sentado no chão, conversando numa roda de amigos, revirando saudades”.
Em tal sítio, além das crônicas de saudades, a história e as estórias da terra (os famosos "causos" tão ao gosto do público), os pontos e potencialidades turísticas, as ações do poder público (sobretudo municipal), a cultura, a culinária, os talentos, personalidades e ícones da terra.
O “sítio” cresce. Aglutina outros “points” como o Primeira Coluna e vários recantos outros, onde ipueirenses e amigos de Ipueiras se encontram, como na antiga “avenida” ou “pracinha”, atraindo desgarrados da terra por “Oropa, França e Bahia”.
Aos poucos, além das reviradas saudades, alguns ímpetos de novo projeto se ensaiam. . Surgem programas como os patrocinados pelo Instituto Frota Neto. E o próprio Instituto se planta em território real (além do virtual) em Ipueiras. Surgem homenagens como as devotadas a Gerardo Mello Mourão, cuja pena, entre outras temáticas, dedicou-se a falar d’O País dos Mourões,
http://www.revista.agulha.nom.br/mour.html,
a fazer dueto com o “Bacamarte dos Mourões”, de Nertan Macedo....
Do “país dos mourões” é que vem Everardo. Outra origem. Bem nascido, filho de Raimundo Mourão e Melo, ex-prefeito de Ipueiras, teve por bacamarte, a sensibilidade e o feeling para acolher, receber, hospedar.
Na foto, traços de pesados dez quilos a reduzir, por ordem médica, mas presença saída do leito para o registro do acolhimento ao conterrâneo, ali trazido, como hóspede, por Tadeu Fontenele e esposa. E o aceno para que, aos poucos, a Pousada Nossa Casa se afirme como pousada de ipueirenses e amigos, do País e do Mundo, que, porventura, passem por Fortaleza. E, num crescendo, interiorizando nosso turismo até as “águas retiradas”, palmilhadas pela índia Iracema, que, se corria as matas do Ipu, tinha Ipueiras como passagem, por certo.
Everardo Mourão leva jeito. Veja, em clique instantâneo, descrição e contactos de sua “Pousada”:
http://www.pousadanossacasa.tur.br/.
Percorra a casa. Veja as condições módicas a pagar pelos serviços. E o apelo a um turismo familiar, assistido na sugestão dos roteiros, um contacto pessoalizado, onde o turista não é um anônimo. Impressionante, o número de pessoas a contatar seu “sítio”, na Web: 11.324 pessoas, sem o cômputo da via telefônica ou postal convencional.
Everardo Mourão nos fala dos breves momentos de Braga, na Pousada Nossa Casa. Dos pacotes de queijo-de-coalho com rapadura, a nos seduzirem desde meninos e a despertarem olhos ávidos nos “piratas” que querem patentear nossos sabores. E, didático, diz de seus esforços por atender bem os turistas. E, possivelmente, pedir que os ipueirenses apóiem o hotel recém-implantado no Bairro “Vamos Ver”, em Ipueiras.
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:Duas histórias, duas procedências. Um abraço só: o em torno da união. Na verdade, somos, nas águas retiradas, fruto da solidão do vaqueiro: “Uma rês, um vaqueiro, a caatinga. Entre os dois, só Deus e a solidão”. Solidariedade, em tudo se faz preciso. Mas, infelizmente, é o olhar desconfiado de todos, como se todos fôssemos vaqueiros, tendo de derrubar sozinhos as rezes.
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Braga e Everardo. Duas procedências. Dois sonhos. O abraço. Seus “sítios”, o www.ipueiras.com, o Grupo Ipueiras e o Blog ipueiras (os de Braga) e a Pousada Nossa Casa são a expressão necessária do construtivo abraço. O abraço da solidariedade.
Aqui, pois, a homenagem de todos nós, que, nesses “points” – o de Braga e de Everardo, reviramos saudades e preparamos uma Ipueiras, um Ceará, um Brasil e um Planeta mais solidário e humano.
Há pouco, escrevia eu sobre esse clima, quando me caiu às mãos o poema de João Cabral de Melo Neto, que me inspirou artigo sobre o Ceará e aqui deixo como apelo ao necessário clima a tecer uma nova manhã:
"Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos".
[João Cabral de Melo Neto,
in Tecendo a Manhã"]