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De bicicleta (J. Kleber Mattos)

21:39 @ 08/04/2007

 

Motos e bicicleta na feira

 

 

DE BICICLETA

 

Jean Kleber Mattos

 

Não me lembro da marca. Era uma bicicleta de tamanho médio. No folder, a inscrição: a bicicleta "leveloz". Leve e veloz, com certeza. Freio pedal. Novidade. Ganhei-a de meu pai como recompensa pelas boas notas escolares, aluno que era de seu educandário. Com ela andei por todos os cantos de Ipueiras. Graças a ela ampliei, com sete anos de idade, nos anos 50, meus conhecimentos geográficos sobre a cidade e o entorno: Vamos-Ver, Videl, Lamarão, Estação, Morro do Cristo etc

 

Duro foi o primeiro dia. Alguém tinha que empurrar e ficar atento para segurar a garupa ao primeiro sinal de desequilíbrio do aprendiz. Não faltou ajuda. O Zaca e mais dois colegas divertiram-se com a tarefa de empurrar o veículo contornando a Praça Getúlio Vargas. Ressalvando-se uma queda em frente ao bar de seu Guarany, fui bem sucedido e, ao segundo dia, estava independente. .

 

Costumava-se enfeitar a bicicleta naqueles idos. A própria capa do selim era almofadada e franjada. Mais tarde surgiram modelos com escudos dos times de futebol. No guidão, campainhas ou buzinas tipo bisnaga. Alguns donos mais artísticos instalavam no mesmo guidão, arcos enfeitados, por vezes com pequenas lâmpadas coloridas, pingentes e cata-ventos, reproduzindo os ornamentos dos caminhões de cabine de madeira de então. Na mesma linha, na ponta superior do pára-lama dianteiro, uma figura alada, cromada.

 

Na traseira, outra chance de personalizar. Lâmpadas coloridas no descanso e "olhos de tigre" no pára-lama traseiro. O descanso oscilante suspenso por duas tiras de borracha de câmara de ar, ou por delicadas molas de aço, também poderia ser adornado. Uma peça de borracha mole ainda cabia na extremidade inferior dos pára-lamas. Algo podia ser escrito na borracha de trás. A garupa podia ser almofadada. Até nos raios da roda cabiam adornos, estes mais comuns em dias de festa, como o Sete de Setembro. As bicicletas transitavam com "status" de jóia. Minha mãe, D. Mundita, dizia que pareciam lapinhas, numa clara referência ao presépio de Natal enfeitado.

 

Nem todas as possibilidades eram exploradas. A minha sequer portava qualquer adorno. Meu primo Raimundo Guido tinha uma "Phillips". Importada. Grande. Verde escura. Por vezes discutíamos sobre qual era a melhor: a "leveloz" ou a importada. A dele tinha dínamo. Gerava luz. Tinha farol e pequenas lâmpadas de efeito. O Guido ria de minha ingenuidade. Imagine, comparar "aquilo" à sua reluzente bicicleta importada!

 

Algumas vezes, solidariamente acompanhava-me, como primo mais velho, a qualquer jornada mais longínqua, mais perigosa, portanto, como ir ao Videl margeando a via férrea.

 

Mas Ipueiras tinha bicicletas de aluguel. O preço básico era para uma hora. O ponto era no quarteirão do mercado. Eram maiores, de cor negra. Super utilizadas, em algumas os freios se haviam rompido e faltavam os pára-lamas. Frear com o pé na roda, uma alternativa. A meninada era vista cruzando a cidade como se cavalgassem o "Pegasus". Pagar uma hora de bicicleta para um menino naquela época era o mesmo que comprar um sorriso de felicidade!

 

Os ciclistas adultos primavam pela sobriedade. Para mim, o modelo era seu Mundin Alves. Comerciante estabelecido no quarteirão do mercado, ele passava volta e meia pela rua de chão batido em frente à nossa casa, na ida e na volta do centro, rodando devagar em sua bela bicicleta. Calça e camisa sociais, alpargatas caprichosamente engraxadas, empertigado e elegante com seu chapéu de marca. Morava para os lados da Praça do Cristo.

 

Certa feita, entusiasmado com um arco indígena de fabricação caseira que ganhara, atirei uma fina vareta à guisa de flecha rumo ao terreno frontal à nossa casa. Seu Mundin cruzou a via no momento exato da passagem da seta. O projétil passou célere por entre os raios da roda traseira. Ainda tirou um leve som metálico. Seu Mundin seguiu indiferente. Sequer olhou para o lado.

Tinha classe, seu Mundin!