Grupos

 

 

Com Maria Inês, a esposa

 

Brasília e, nela, os pioneiros, ele entre esses

 

Os testemunhos da união com Maria Inês (Dona Ester lá atrás, à esquerda)

 

 

Seus companheiros do dia a dia, incluídos os animais

 

 

 

“SEU” GUARANI, A GELADEIRA E O TRIO REGINA

 

 

Jean Kleber Mattos

 

 

A primeira parte desta “estória” contou-me meu pai (Neném Matos). A segunda, eu testemunhei.

 

Ipueiras estava sendo visitada por alguns agentes de saúde que distribuíam latinhas nas escolas visando à coleta de fezes, obviamente para exame parasitológico. Também portavam umas “canetinhas” com uma ponta aguda retrátil para furar o dedo da gente e coletar a gotinha de sangue emergente, numa lâmina de vidro. O conhecido esfregaço. Contagem de glóbulos. Pesquisa de anemia.

 

A única geladeira da cidade, aliás, a primeira que vi em minha vida, era a do bar de “seu” Guarani. Enorme. Numa tarde, um dos agentes de saúde, mui educadamente, acercou-se do proprietário e explicou que precisava guardar em sua geladeira, por uma noite, algumas amostras de fezes que embalara. “Seu” Guarani concordou prontamente.

 

Tão logo o homem saiu, “seu” Olavo Catunda, de uma mesa ao lado, perguntou:

 

-Guarani, você sabe o que o cidadão ali quer guardar em sua geladeira?

 

-Ele falou o que? “Feze”...?

 

-Isso mesmo, Guarani. É m........!

 

“Seu” Guarani correu atrás do homem.

 

-Ei, moço, aqui não! Vá botar suas “feza” pra lá...!

 

Na escola de meu pai, as latinhas haviam sido entregues no dia anterior. Na manhã seguinte, Dona Luizinha estava recebendo os “materiais” que os alunos traziam. Lutim, filho de “seu” Luiz Malaquias, prevenindo alguma possível exalação, entregou o seu “material” dentro de uma embalagem do sabonete Regina (certamente adquirido na perfumaria de “seu” Simãozinho).

 

Com letra e música do famoso compositor pernambucano Antônio Maria, que se radicara no Rio, ouvia-se no rádio, nos anos 50, um jingle (a gente chamava “reclame”) que dizia assim:

 

“Eu sou a água de colônia Regina

Eu sou o sabonete Regina

Eu sou o talco Regina

Nós três, o trio maravilhoso

Quer no calor e no frio

com tempo bom ou chuvoso

Somos o trio Regina

 

copacabana.com/antonio-maria.shtml - 63k/

 

 

Minha avó, D. Luizinha, deu muita risada diante da sensibilidade e criatividade do menino. Mas tomou enjôo do produto. O “Trio Regina” nunca mais entrou lá em casa!

 

 

 

RESGATANDO O GCDI

Um tributo a Dolores

 

 

De repente, Dolores Aragão reaparece, no Grupo Ipueiras, dando conta de haver assumido a presidência do Grêmio Cultural e Diversional Ipueirense (GCDI):

 

 

Gostaria de informar aos ipueirenses que assumimos a presidência do GCDI - Grêmio Cultural e Diversional Ipueirense.

 

Já que precisaremos usar as suas dependências, ao contatarmos o antigo presidente, soubemos que o clube estava com energia e água cortados (coisa nunca antes vista no NOSSO clube). Entre outros problemas, até o muro do prédio estava coberto por propagandas de particulares (coisa que mantinha o NOSSO CLUBE na condição de dependente de um ou de outro comerciante, e que não é permitida no seu estatuto, pois o CLUBE É DE TODOS OS IPUEIRENSES, mas já providenciamos a retirada).

 

Nessa situação, achamos por bem formar uma nova diretoria e tomarmos a frente, nessa nova empreitada. Desde já, informamos aos ipueirenses da nossa boa intenção e das nossas idéias e contamos com a participação MACIÇA e EFE­TIVA da sociedade nos eventos que promoveremos. Informamos que todas as informações sobre o GCDI encontram-se numa comunidade do ORKUT – “RESGATANDO O GCDI”. Até mesmo o TERMO DE TRANSFERENCIA DE PATRIMONIO. Sseria bom que todos vissem em que pé esta a situação e nos apoiassem.

 

Dia 01 de julho faremos o nosso primeiro evento, com o cantor David Va­lente (participou da novela América, da Minissérie Mad Maria, ja foi tema de ma­téria no Jornal Nacional, no Amaury Junior, programa do Ratinho, apresentou-se até em outros países). Esperamos a colaboração de todos no sentido de divulgar e participar. (www.davidvalente.com.br). Em julho de 2007 o NOSSO GCDI comemorará seu JUBILEU DE OURO, razão pela qual traremos LUIZINHO E BANDA para animar o nosso baile, momento também onde serão homenageados alguns cidadãos ipueirenses que fizeram his­tória no GCDI.

 

Contamos com todos vocês.

 

 

Tereza Mourão e sua irmã Eliza Maria

 

De Tereza Mourão, o brado primeiro:

 
“Bravo Dolores,

 Pela iniciativa, por sua garra, sua alegria e seu amor a sua terra e sua gente. Eu, mesmo estando longe de Ipueiras, estarei sempre emanando energias positivas e torcendo para que os conterrâneos que, há muito não, visitam sua terra - muitos deles residindo em Fortaleza - o façam com mais freqüência. Ipueiras, graças a Deus, tem acompanhado o desenvolvimento, só faltando que os filhos a visitem, pois até bom hotel já se fez por lá e, pelo que pude perce­ber, está mesmo só a faltar os hóspedes.

 

Estou pensando em me programar para, em meados de junho, visitar o Ce­ará e consequentemente a nossa Ipueiras. Issso só está a depender de consultas marcadas com meu cardiologista (ver resultado de exames, como meu coração se comporta com estes novos remédios etc).

 

Torça por mim, ok? Quanto à comunidade no Orkut RESGATANDO O CGDI, você poderia fazer também (rsrsrs) uma filial no www.grupos.com.br, para aque­les conterrâneos que não acessam o Orkut, que, por sinal, ultimamente esta sendo mais vigiado .

 

(...) Todos os meus amigos que estão na lista, muitos gaúchos, outros morando no exterior, outros no nordeste, no centro-oeste, no sudeste, enfim em vários lu­gares do nosso imenso Brasil, têm conhecimento do site de Ipueiras e conse­quentemente do Blog, muitos só não visitam o site, pelo fato de o mesmo estar muito desatualizado e com vários links em construção. E o mais grave no meu entender: é não atualizar nem os eventos de nossa “cidade monarca”.

 

Por tudo isso, aproveito para fazer um apelo ao nosso Braga, o criador do site, para providenciar pelo menos a atualização dos eventos, e aparecer mais na nossa “pracinha”. Sei que ele é um homem muito ocupado Mas um tempinho para nos falar alguma coisa, ele poderá achar, aproveitando estes feriados.

 

Abraços fraternos,

de Brasília, com saudades do meu Ceará, 

Terezinha Mourão”

 

Aí, foi a vez de Auxiliadora Carvalho, a revirar saudades dos “animados carnavais” de seus tempos no Grêmio:

 

“Dolores, entusiasmada, Aragão. Garota notável pela iniciativa! Neste clube, tivemos animados carnavais...aguardávamos ansiosas os estu­dantes que vinham de Fortaleza... os galãs namoradores do Ipu, de Nova Russas e demais redondezas.

 

Veja algumas fotos no meu album "Tempos de Ipueiras" (No Grupos). Orga­nizei com Glaucia, Tozinha, Alaíde e outras folionas os Blocos "Garotas do Ha­waí", vestidas de sarong e com porta-bandeira e tudo. Outro bloco memorável foi o "Roda Viva". Inclusive com a participação de meu querido amigo Bartolomeu ("in memoriam"), confeccionamos camisa ver­melho com o nome aplicado em tecido branco, em homenagem ao Chico Buarque!

 

Como animávamos os carnavais de 1966 e 1967...Depois, me mudei de vez para estudar em Fortaleza. Casei, fui a outros destas bandas e a juventude pas­sou. Mas aqueles carnavais do Gremio Cultural e Diversional Ipueirense - GCDI são inesquecíveis... Pode contar com nosso apoio!

 

Abraços

Auxiliadora, saudosa, Carvalho - (filha da D. Brígida)

 

Ao que, prestimosa, respondia Dolores Aragão:

 

Valeu, Auxiliadora, pela força. Divulgaremos sempre, aqui na Net, os nossos eventos. Tenho boas idéias. E, se todos os ipueirenses participarem, o nosso amado GCDE vai pra frente. Um abração - Dolores esperançosa Maria.

 

Dias depois, Dolores Aragão já dava sinais de suas primeiras ações:

 

“Informo que o nosso GCDI já pode voltar a funcionar. A energia e a água foram religadas. Foi feito um reparo em todo o telhado, substituindo caibros, ripas e telhas. Outro, nas instalações elétricas, pois as 18 tomadas que existem no palco estavam em curto. As descargas dos banheiros, que estavam vazando, tam­bém foram reparadas. Na grade grade do bar, uma abertura para que possam en­trar freezeres. O muro, por outro lado, já está pintado e, ainda esta semana, toda a fachada também.

 

Achamos por bem usar este veículo para que todos tomem conhecimento do nosso trabalho. Temos um excelente projeto para o nosso Grêmio. Entre eles, a reforma geral dos banheiros. Caso a sociedade participe dos eventos, em breve teremos o nosso querido clube em uma situação digna de uso.

 

Um abraço a todos

Dolores”.

 

E aí, foi a minha vez, de lhe passar a experiência do “registro”, já que, depois, com o passar dos tempos, poucos se lembrarão de como as coisas eram: 

 

“Antes de tudo, um conselho que me deram quando administrador (na Uni­versidade Federal do Ceará, na Televisão Educativa (hoje TVC) e no Conselho de Educação: “Fotografe. Ninguém, daqui a algum tempo vai acreditar que era as­sim”. Mais do que isso, isso representou “documentação” e, sobretudo, envolvi­mento da pessoas no projeto.

 

Por falar nisso, não se esqueça da divulgação. Ela não é tão só uma “publicidade” no sentido da “prestação de contas” ou da “turibulação ao adminis­trador”. Ela tem tentáculos eficientes com vistas à parceria. Em nosso Blog, por exemplo. Há pessoas, das diversas gerações que terão o prazer de identificar o GCDI com a sua própria vida, seus momentos felizes, o re­encontrar de gerações e pessoas.

 

Diante disso, mande-nos fotos: de como estava, do como está ficando. As “Auxiliadoras” podem “auxiliar” o projeto mostrando o “oi nós ali, como era diver­tido” e coisas do gênero.  E os mais novos, estabelecendo laços de cumplicidade com as gerações do passado. Assim, os 50 anos nos dirão que somos uma história só, onde todos, em diferentes formas e momentos, somos personagens atuantes e importantes.

 

Abraço a você e a todos, Marcondes Rosa”

 

Voltei, na administração provisória do Grupo Ipueiras, aos primeiros ímpetos de vibração de Braga. Em outubro de 2003, nosso coordenador, vibrava com “a nossa mais nova companheiro no Grupo:

 

 “Gostaria de informar que o link “histórias & estórias” está atualizado, graças a nossa mais nova companheira no Grupo: DOLORES ARAGÃO, a quem agradeço a contribuição (...) Realmente, a Dolores foi uma grande aquisição no nosso projeto. Graças a sua ajuda, já pude lançar o link "Notícias da Terrinha". Agora, depende da colaboração de todos que moram na cidade para a manutenção do mesmo, principalmente os jornalistas. Obrigado, Dolores. a) Braga

 

 

Quis, de alguns ipueirenses, saber, mais de perto, quem afinal era Dolores Aragão (com esse nome, conhecia Dona Dolores casada com Pe­dro Aragão). Informei-me de Walmir, meu irmão. Não sabia ao certo. So­lange chegou mais perto: havia ela sido criada por Dona Dolores.

 

Em recado direto, perguntei, pelo Grupo Ipueiras. E ela me respon­deu:

 

“Na verdade, me considero filha do Sr. Pedro Aragão, pois ele e minha avó Dolores me criaram desde que nasci. Sou filha da Rita, sobrinha do meu avô, que ele criou desde pequena assim como criou também a Ana Alice, casada com o Preto do Mileto.”

 

Quis de Dolores saber o que havia ocorrido, com o gás de início, em relação ao “sítio” Ipueiras e ao próprio “Grupo Ipueiras”. Lacônica e sin­cera, ela esboçou tal resposta:

 

“A palavra desânimo diz bem o que senti. O site não inovava, não atualizava dados e informes, isso tudo associado a problemas particulares e falta de tempo. Mas agora voltei pra ficar”

 

Aí, acreditei em sua garra. E no Grupo Ipueiras, buscando a colaboração de todos, no “projeto”, escrevi:

 

“Dolores,

 

Pego carona nos que me precederam. Não apenas para ratificar tudo quanto disseram. Mas para, a pretexto das “boas vindas”, em nome do Grupo, dizer-lhe das impressões por mim colhidas com seus passos e palavras primeiras aqui no Grupo.

 

Nessa linha, quero aqui reafirmar, em tom pleonástico, as crenças de Dali­nha, ao que ela denominou de “as saias do Grupo”. Para mim, movido talvez pelos preconceitos masculinos, “saias em coro em costumeiros améns”, de início. Ou então, recônditas na surdina dos “pequenos sítios” entre cochichos retirados dos ouvidos e olhos a tentar negar o provérbio “matos têm olhos e paredes têm ouvi­dos”.

 

Caí, fragorosamente, do cavalo – confesso-lhe! Interessante, a partir da postura de sua foto no grupo. Algo de positivamente estranho, a demonstrar oti­mismo, firmeza e coisas que costumam marcar a liderança... Coisa assim senti nesta sua apresentação primeira. Palavras firmes. Intenção como um roteiro à vista. A recuperação de importante monumento e “lócus” simbólico da cidade. Cu­rioso! Tão importante mas não levado em consideração que não consegui, dele, encontrar uma só menção em foto ou palavras: nos “sítios” ipueiras.com, no oficial da Prefeitura ... em lugar algum. E, no entanto, lá estava você nos passando um rosto um patrimônio “de to­dos nós” a se degradar e apequenar-se nos minifúndios privados dos interesses de uns poucos. Gostei de seu tom de Cristo entre os vendilhões, imaginei você sim­bólica vassoura na mão apagando “apropriações indébitas” de paredes e muros do Clube.

 

Um Clube que você – tão conhecido ele é – o denomina por uma sigla. Ele fará 50 anos. Conheci-o, em criança e em construção. Em meu tempo, as “festas” eram no prédio da Prefeitura. Ele em construção, lá me fui para Petrópolis, você ainda não nascida.  Voltei, após formado. Vi-o, pelo pouco tempo que lá passei, sempre fechado a me despertar curiosidades... A sigla me é, por isso, um enigma...

 

“É por aí” que se levantam “vontades coletivas”. E você toca num ponto que, em geral, é desprezado pelos governantes: o re/unir-se (o unir-se de novo), o la­zer (tão inerente à produção e ao trabalho), a convivência enfim. Daí, o turismo e os valores destes tempos de agora marcados pelo “capital social e humano”. Mais importante para mim, sobretudo, pelo seu caráter de antídoto contra a solidão.  Ah! A Solidão! Certa feita, em Santa Catarina, após três dias, com uma equipe de parlamentares, políticos e conselheiros de educação, presididos pelo então vice-governador Beni Verás, éramos recebidos para estudar viabilidades de implantar um modelo de educação superior no Ceará. Ao final, pediu-me Beni que respondesse à questão: “Enfim, um modelo para o Ceará?”

 

Fui pessimista, respondendo mais ou menos assim: “Para o Brasil, sim! Para o Ceará, tenho dúvidas”. Aí, caracterizei o Ceará (lembrando-me de minhas Ipu­eiras e Santa Quitéria) como a terra da pecuária: “Um vaqueiro, uma rês. Entre os dois, apenas a caatinga e Deus. No mais, a solidão”. E concluía: o modelo monta-se na solidariedade. Aí (já contei muitas vezes essa história) recebi o maior “qui­nau” (como diriam Dona Ester e Wencery, meu pai) de minha vida: “Professor, há pouco o senhor aqui presenteou com flores nossa primeira presidente-mulher. Mas, desculpe, o senhor está esquecendo uma coisa fundamental: é que Iracema é a porção feminina da alma nacional. E o senhor, por acaso, sabe onde nasceu Iracema?”

 

Engoli, seca, a lição.  Nos 140 anos de Iracema, fiz um artigo onde lembrei essa história da “porção feminina da alma nacional”. O artigo (pediu-me a Profa. Marisa Lajolo, da USP, para estudar o texto entre alunos seus da pós-graduação. Nele, coloco, em nosso inconsciente essa “porção feminina” a nos construir e, en­tre coisas, a receber o guerreiro branco, seu pé “grácil e nu” por terras do Ipu a Messejana. Walmir, meu irmão (ipueirense nato) cobrou-me: “Olha, aquela foto que você bateu, da estrada Ipu-Ipueiras, no Cristo”, liga dois símbolos: o de Ipueiras (o Redentor) e a Bica. Logo, os pés de Iracema cor­riam essas caatingas e mapas.

 

Fiquei a pensar. E me lembrei de algumas cenas intrigantes. Uma delas, a educação indígena, entre nós. As tribos indígenas cearenses cobravam-me, como a presidir o Conselho de Educação do Ceará, uma educação cujo modelo partisse deles, não dos parâmetros do alto. Havia eu até dançado com eles o torém e be­bido de suas ásperas bebidas. E eles gostavam e confiavam em mim. Um dia, Naspoline me convida para reunião de parte deles, num hotel. Fui.

 

Vi-os, curioso, abandonarem cadeiras, sentados em círculos ao chão. Depois, pregarem suas idéias em gráficos em subida progressiva nas paredes rumo ao teto. Fiquei comigo a interpretar o simbolismo. Aí, aproximei-me, com assessores de um grupo. Uma morena, a líder do grupo, respondeu-me a algumas perguntas formais. Mas, aos poucos, não resistiu. Disse que era remanescente da tribo dos Tabajaras, lá das regiões hoje entre Ipu, Ipueiras e adjacências. Aí me contou que sua mãe lhe ensinara que toda vez que saísse de lá, levasse um desses antigos ferros de engomar e dormisse com ele, debaixo da rede, com as braças acesas: para afastar os maus espíritos. Aí, meio sem jeito, ela concluía: “com a presença de vocês aqui, meu corpo todo começa a tremer, e eu tenho vontade de acender as brasas de meu ferro que não trouxe”. Entendi que havíamos estragado, com nossa presença, a coesão do grupo. E pedi que o grupo afastássemos dos “taba­jaras”.

 

Mas tarde, Naspolini (de origem catarinense) falava, em plenário, ao grupo. Olhei para o banco de trás, onde ouvi um zum-zum, e vi, a conversar com profes­sora de minha equipe, a mesma “tabajara”. Ela havia, não sei por quê sentado perto de minha equipe. Com jeito, perguntei à professora: “De que ela falava?” E a resposta: “Passou o tremor em relação ao professor Marcondes. Algo me fez confiar nele”. Agora, não posso ouvir esse estrangeiro. Fico toda “arrupiada”.

 

Depois, no almoço, dava eu meu sentimento ao Secretário. Aprendi aqui, com os remanescentes indígenas, que as idéias e coisas, partem do chão (quando os vi sentados). Que, aos poucos, numa interação coletiva, elas vão se apondo e levantando as paredes até o teto, última coisa a se construir. Presidente do Con­selho (e do Fórum Nacional), advogarei tal caminho: Chegaremos aos “parâmetros gerais” pelo caminho inverso. Do contrário, nada faremos a não ser neles desper­tar “arrupios e rejeições”. A assim foi... Assim, Dolores, o insight que tive com sua presença. Sei que você não é “tabajara” mas dos “Aragões”. Percebe, no entanto, o chão onde pisa, o dos taba­jaras. Nisso, feita Iracema, é capaz de correr essas matas e propor o histórico “ca­chimbo da paz” entre os da tribo e os “guerreiros brancos”.

 

Seja, pois, bem-vinda! Há muito por onde se (re) construir. “Revirar saudades”, como propõe Walmir meu irmão. Mas, “reviradas as saudades”, cons­truir-se o novo, o futuro a incluir tantos, que não podem padecer à míngua, can­tando, em terras longínquas, “canções do exílio”. Mãos e mentes, pois, à obra! Com admiração, Marcondes Rosa de Sousa - Moderador “ad hoc” temporário do Grupo Ipueiras

 

 

Sensível, Dolores Aragão, escreveu-nos, no Grupo Ipueiras:

 

Marcondes,

 

Sábias palavras as suas. Usa-as com propriedade, sensibilidade e delicadeza. O apoio é muito importante quando só temos a boa vontade para fazer algo que reerga este importante espaço de arte, cultura e entretenimento de nossa ci­dade. Nada mais.

 

Falo isso, baseada nas precárias condições físicas do nosso amado Grêmio Cultural e Diversional Ipueirense e na escassez de boas idéias para promover eventos que atraiam a atenção da sociedade ipueirense. Posso prometer empenho, não êxito, pois, sem a participação maciça e efe­tiva do nosso povo, não poderemos realizar praticamente nada do que planeja­mos. Incentive as pessoas do grupo, sempre! Um grande abraço, Dolores Maria

 

Muitos, os retornos. Um deles de Francisco Azevedo Bonfim, de Sal­vador na Bahia:

 

“Parabéns, Dolores. Sucesso nesta nova jornada!  Sau­dades da minha cidade. Francisco – Salvador (Bahia)”

                                                                 

Por último, ao regressar justo de Salvador (Ba), assim se expressou Walmir Rosa de Sousa, o único de nós três (Solange, Marcondes e ele) que, por nasci­mento, é de Ipueiras, desses de contar “causos”, por anos, no tradicional “Bar do Nagib”.

 

“Parabéns, Dolores.

 

O Grêmio Cultural e Desportivo Ipueirense, como você disse, é um patrimônio do Povo de Ipueiras. A apropriação de seus espaços por comerciantes, com sua propaganda pichadora, se parece com a passagem bíblica em que Cristo expulsou os vendilhões do templo. Você fez bem em promover a expulsão daquilo que polui o sadio espaço do nosso Clube.

 

Conheci o Grêmio nos alicerces. Brincamos (Vavá, Zé Adair, Melquisedeque, Bernardo e muitos outros) de esconde-esconde, na nossa infância, aproveitando o mata-pasto crescido no inverno, aspirando o perfume silvestre do bamburral (que cheiro gostoso e inconfundível). Depois, tive o prazer de frequentá-lo algumas vezes, já pronto, em festas memoráveis (infelizmente foram poucas).

 

Como o Marcondes, meu irmão, saí cedo para estudar em Petrópolis, onde já estavam ele e Frota Neto, e depois, em Fortaleza, de onde não mais saí. Preservar a arquitetura da cidade e o patrimônio cultural é dever de todos. Mesmo distantes, tenho a certeza que todos os ipueirenses por aí afora em­prestarão seu apoio à sua administração.

 

Conte conosco. E um abraço conterrâneo do Walmir Rosa”

 

E Walmir terminou por nos trazer à causa Jean Kleber, do Seu Nenen Mattos, de cuja escola freqüentamos muitos dos que, hoje, estão em Ipueiras e espalhados por “Oropa, França e Bahia”. Veja o que diz o nosso Kleber, hoje im­portante cientista da Universidade de Brasília (DF):

 

“Grande Walmir! De parabéns a presidente Dolores pois a esperança de fortificação do GCDI trouxe a veia poética do Walmir de volta ao Grupo. Abraços. Jean Kleber”

 

Nosso tributo, pois, e a nossa ajuda, a essa guerreira, Dolores Aragão. Avante! Estaremos com você!

 

De repente, ela sumiu:

do Grupo, do Blog,

rastro algum pelos “sítios”

virtuais da Web.

 

Nos chãos dessa floresta eletrônica,

alguém diz ter encontrado,

casualmente esquecido,

o pergaminho a seguir,

feito carteira de identidade:

 

 

FILHA DO NORDESTE

 

 

Sou Dalinha, sou da lida.

Sou cria do meu Sertão.

Devota de São Francisco

E de Padre Cícero Romão.

 

Sou rês da Macambira,

Difícil de ir ao chão.

Sou o brotar das caatingas,

Quando cai chuva no chão.

 

Sou cacimba de água doce,

Jorrando em pleno verão.

Sou o sol do agreste.

Sou o luar do sertão.

 

Minha árvore é mandacaru.

Meu peixe, curimatã.

Macaxeira e tapioca,

É meu café da manhã.

 

Sou uma bichinha da peste,

Meu ídolo é Lampião.

Sou filha das Ipueiras.

Sou de forró e baião.

 

Sou rapadura docinha,

Mas mole eu não sou não.

 

(Dalinha Catunda)

 

.

 

 

A Escolhida

 

 

Ela era apenas um inocente bebê, que acabara de vir ao mundo. A mãe, uma pobre mulher, desprovida de instinto materno, desnorteado talvez pela pouca idade, fazia pouco caso da criança que, ao mesmo tempo em que dava pena, encantava a vizinhança.  Até os sete meses eram os vizinhos mais próximos que davam comida e acalanto aquele ser inocente e maltratado.

 

Era um lugarejo humilde, onde todos lutavam com dificuldades. Apesar de comovidos com a situação, ficava difícil alguém pegar a menina para criar. Todos tinham filhos pequenos e uma boca a mais era muito para quem pouco possuía.

 

Sim, Brena era esperta e bonitinha. De certa formam órfã de mãe viva, já estava sozinha no mundo entregue a própria sina. Mas... Deus todo poderoso em sua onipotência, escrevera outra historia para aquela criança. Brena  teria um pai e uma mãe. E os pais determinados por Deus teriam o mesmo nome dos pais de Jesus: José e Maria.

 

Foi assim que Maria, guiada por Deus, foi visitar Brena. Ao ver a criança, além de comover-se com a situação, caiu de amores pelo bebê. Maria tinha dez filhos. Maior que sua família, era seu coração. E um lugar para aquele bebezinho estava reservado. Não pensou duas vezes, arrancou a criança daquele martírio e a levou para sua casa.

 

José, quando viu Maria chegar trazendo a menina no colo, soube da triste história. Abraçou a esposa e a nova filha dizendo: “onde comem dez, come mais um”.

 

 Assim Brena foi criada, no seio daquela família, que a abrigou com todo amor e carinho. Muito bem criada, sabe que não saiu da barriga de Maria, mas que aquela mulher de bons sentimentos abriu o coração para que ela pudesse entrar e ali permanecer para todo o sempre.

 

Brena, hoje crescida, alegre e feliz, sabe - lá no íntimo - que é especial, pois, mesmo não sendo filha legítima, foi legitimada pelo amor. É a filha que Maria escolheu.

 

Esta é história verdadeira,

que aqui vai em homenagem às mães:

às por dever e às por opção.

 

Dalinha Catunda

 

 

 

 

A CABRA PRETA

 

 

Ele morava lá p’ras bandas do Lamarão. Raramente ia à cidade, que ficava próxima. Passava o dia tangendo cabras, colhendo saborosas mangas daquele lugarejo, tomava banho no açude e, no inverno, no rio Jatobá, que passava perto. Preenchia o tempo caçando, pegando preá nas gangorras, e pássaros nas arapucas que ele armava. Assim levava a vida.

 

             À tardinha, ao ouvir o sino da Matriz de Ipueiras, antes do sol se pôr,  parava e se benzia, pois era a hora da Ave Maria. Não sabia bem por que fazia aquilo, mas foi o que sua mãe lhe ensinou a fazer quando era criança. Sabia que estava fazendo uma coisa certa. Também aquela era a hora de se dirigir para casa, pois tinha que abrir a cancela e deixar passar as criações para dormirem no alpendre da casa.

 

           Uma cabra preta, de estimação, só dormia no pé de uma forquilha, fincada no terreiro. Ela não cedia aquele lugar para mais ninguém. Era como uma sentinela a vigiar algum tesouro escondido.

 

           O João de Deus  − assim é que ele era chamado  − tinha seus sonhos e acreditava neles. Ultimamente, vinha se repetindo um sonho que estava a lhe varrer a paciência. Uma pessoa lhe mostrava uma praça, que dizia ser na cidade de Pedro II, no Piauí. Nesta praça. trabalhava um sapateiro, já de idade avançada, com a visão bastante fraca e que recorria à claridade do sol, para conseguir consertar e colocar meia-sola nos sapatos velhos.

 

           Numa dessas noites, a pessoa que aparecia nos sonhos, disse ao João que se ele fosse àquela cidade e se postasse, naquela praça, às 4 horas da tarde, em frente à tenda do sapateiro, ele encontraria uma botija, no momento em que a sua sombra atrapalhasse a visão daquele senhor.

 

            Como iria o pobre do João até Pedro II?  Não poderia contar o sonho para ninguém, pois sabia que, se contasse o que tivesse na botija, tudo viraria carvão. Resolveu vender as criações. Só não venderia a cabra preta. A família não entendeu o por que daquela venda, nem tampouco da viagem. Juntou mais alguns trocados que pedia emprestado, procurou saber onde era esta tal de Pedro II e botou o pé na estrada. Pedia arrancho e explicava aos moradores que lhe davam abrigo, que estava indo ao Piauí, para concretizar um sonho.

 

           Passou pelo Engenho do Seu Otacílio, pela Oiticica do Zé Mariano, subiu a serra, dormiu também nos Grosso do Seu Raimundo Mourão, na Várzea Formosa, atravessou a Macambira, entrou no Piauí e finalmente chegou a seu destino, Pedro II.

 

Reconheceu a praça que vira no sonho. Viu a tenda do sapateiro. Esperou que desse as 4 horas da tarde. Com o coração batendo forte, parou em frente ao sapateiro, tendo o sol poente às suas costas. Não deu outra. O mestre, um tipo ranzinza, levantou a vista por cima dos óculos, reclamou para que o João não lhe fizesse sombra, pois tinha muito serviço ainda para fazer. O João pediu-lhe desculpas e contou o por que da sua presença alí. Contou-lhe de todos os sofrimentos da viagem e lhe falou da botija que existia naquele local. O velho olhou para ele, balançou a cabeça e lhe disse: “Meu filho, você é mais um égua que acredita em sonhos. Veio lá do Ceará, de uma tal de Ipueiras, para desenterrar uma botija aqui... Pois eu lhe digo: se eu acreditasse em sonhos, eu já teria ido a essa Ipueiras, num lugar chamado Lamarão, onde tem uma casinha. Na  frente dela, tem uma forquilha enterrada, onde, toda noite, dorme, no pé dela, uma cabra preta, que não deixa ninguém se encostar. O que eu lhe digo, meu amigo, é que vá para a caixa-prego, deixe de ser besta e vá trabalhar!”

 

              O João sorriu, pediu mais uma vez desculpas ao velho. Todos os sofrimentos da volta ele tirou de letra. Voltou radiante, com a certeza de que a Pretinha continuava a guardar o seu tesouro.

 

                Chegou ao Lamarão. Esperou que anoitecesse. Depois da meia noite, pegou uma enxada, desenterrou a forquilha, tendo com companheira a cabra preta, a vigiar tudo, não permitindo que nenhum lobisomem se aproximasse, para impedir que o nosso homem desenterrasse o seu tesouro. E como tinha moedas e jóias nas panelas de barro que ele desenterrou!...

 

                Quem sabe se ainda não existem outras botijas, à espera de pessoas que acreditem em sonhos? Que tal a gente procurar lá em Ipueiras? Os mais antigos contavam que o Coronel Manoel Chaves, o dono do lugar, mandava um escravo abrir cova, no morro do Cristo Rei,  e, cavado o buraco, matava o coitado do escravo, enterrando-o junto com um baú cheio de ouro...

 

                 José Bento Neto (Zequinha do Zeca Bento), de Ipueiras.

 

 

Carlos Moreira com Dalinha Aragão

 

TRIBUTO A CARLOS MOREIRA

E AO PRIMEIRA COLUNA

 

 

PRIMEIRA COLUNA, este o nome de interessante e bem construído Blog sobre Ipueiras, uma espécie de “ponto de encontro” a aglutinar outros “points” sobre Ipueiras, a terra das águas retiradas.

 

O “Primeira Coluna” tem endereço ostensivo no próprio “sítio” da Cidade Monarca, o http://www.ipueiras.com/. – onde seu endereço ali se indica. E ligações diretas com o “sítio” oficial da Prefeitura Municipal de Fortaleza, http://www.ipueiras.ce.gov.br/.

 

Seu endereço eletrônico, é bem fácil:

 

http://primeiracoluna.blogspot.com/

 

Dele, extraímos algumas informações:

 

PROPOSTA

 

Somos continuamente embalados pela fugacidade do mundo moderno, dando bulhufas para os velhos e os novos códigos de trânsito da vida. Tudo passa ligeirinho diante dos nossos olhos, no folhear dos jornais e das revistas ou naquela paradinha na banca da esquina. Entretanto algo sempre fica na memória, na lembrança ou na revolta que as injustiças nos causam. Parar um pouco e refletir são essenciais para sobreviver.


Primeira Coluna é o primeiro blog do município de Ipueiras voltado para a cobertura jornalística, a opinião e o debate dos temas mais importantes da cidade, da região, do país e do mundo. A equipe de colunistas é formada por valorosos colaboradores, filhos e amigos da terrinha, localizados em várias partes do Brasil, que têm doado todo o seu empenho para manter esse trabalho vivo.


O cotidiano e a história da região são destaques neste espaço, plural e democrático, cujo espírito é valorizar nossa gente e nossos costumes, sem esquecer de, quando necessário, apontar problemas e, na medida do possível, propor rumos.

 

Equipe Primeira Coluna

Equipe Primeira Coluna

EDITOR RESPONSÁVEL

Carlos Moreira

carllosmoreira@gmail.com

COLABORADORES

Bérgson Frota


Formado em Filosofia/Licenciatura pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e em Direito pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR). É professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.


José Luis Araújo Lira


Formado em Direito pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR). É professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e consultor jurídico do jornal sobralense O Noroeste.


Marcondes Rosa de Sousa

Professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Publica artigos quinzenalmente no jornal O Povo do Ceará.

 

Maria de Lourdes Aragão Catunda


Nascida e criada em Ipueiras-CE, Maria de Lourdes Aragão Catunda, conhecida popularmente como Dalinha Catunda, vive atualmente no Rio de Janeiro.

No auge de sua mocidade, teve que se retirar da sua terra. Em sua bagagem o que mais pesava era a saudade.

Retirante nordestina em terras alheias, dedicou-se a escrever versos, onde a temática predominante era a musa dos seus sonhos: Ipueiras.

Casimiro de Abreu e Gonçalves Dias foram os poetas que povoaram sua infância e a acompanharam ao longo da vida nesse exílio espontâneo.

Com publicações nos jornais "Diário do Nordeste" e "O Povo" e nas revistas "Cidade Universidade" e "Municípios", segue sua trajetória transformando sentimentos em versos e prosas.


SUGESTÕES, DÚVIDAS E/OU CRÍTICAS

primeiracoluna@gmail.com

 

REFERÊNCIAS DA PRIMEIRA PÁGINA

 

Blogs

·                                 Blog do Grupo Ipueiras

·                                 Nada a Declarar 2.0

·                                 New York On Time

Sítios

·                                 Consultor Jurídico

·                                 Ipueiras.com

·                                 Primeira Leitura

Blogs Coletivos

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·                                 Fevereiro 2006

·                                 Março 2006

·                                 Abril 2006

·                                 Maio 2006

 

 

Ao “Primeira Coluna” e a seu Coordenador, Carlos Moreira, o nosso tributo. Pela sua capacidade de aglutinação, pela sua discrição e amor devotado a Ipueiras, aos ipueirenses e todos os ângulos de seu projeto, vida cultural e inclusão social de sua gente.

 

 

 

 

 

 

 

 

“Seu”João da Mata e o lobisomem

 

Jean Kleber Mattos

 

 

Pra tratar de assombração é preciso um clima. E isso não faltava na Ipueiras do passado. A luz do gerador tinha hora certa para acabar. Daí por diante, era lamparina, lampião e, quando a grana permitia, uma lâmpada a querosene: as famosas “Petromax”. Fora das casas, a escuridão ou, com sorte, a lua cheia. Quando o gerador quebrava de vez, a escuridão durava vários dias.

 

A radiadora de seu Simãozinho animava a cidade, mas, quando falecia alguém, tinha que comunicar. O anúncio era precedido por uma música arrepiante. Quando a gente a ouvia, já entrava em pânico, pois sabia que alguém se fora. Para mim, não se fora. Devia estar por ali, pois eu morria de medo durante uns dois dias pelo menos.

 

Hollywood abusa de raios e trovões, nos filmes de terror. Para nós, não. Bastava a escuridão daquele pé-de-serra, aquela lua imensa e as historias que nos contavam.

 

Dalinha Catunda, em versos sobre esse tema em Ipueiras, destaca:

 

“Sempre à boquinha da noite,
com cadeiras na calçada.
A família reunida,
falava de alma penada.” 

       

        De todos os monstros que sempre assustaram as crianças brasileiras, o lobisomem sempre foi o mais popular: o homem que se transforma em lobo na noite de lua cheia e vai a caça. O correspondente no cinema foi o filme “O Médico e o Monstro” (The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde). A historia é do escritor escocês Robert Louis Stevenson e completa 120 anos agora em 2006. O filme foi lançado em 1941. Era dirigido por Victor Fleming, com Spencer Tracy no papel do médico e também do monstro. Era coadjuvado por Ingrid Bergman, Lana Turner e Donald Crisp. Recebeu 3 indicações ao Oscar. A historia explora a descoberta de uma droga que trazia à tona a fera (Mr. Hyde) que se esconde dentro de cada ser humano. O lobisomem seria, portanto, a alegoria disso tudo.

 

 

 

 

        Meu pai me contava essa história.

 

        Meu avô, João da Mata, irmão do “Major” Sebastião, prefeito de Ipueiras, não morava na cidade. Morava na Serra. Volta e meia descia a cavalo até Ipueiras para visitar os parentes.

 

        Naquela época a cidade estava às voltas com um fato novo. Falava-se que um lobisomem estava aparecendo nos arrabaldes da cidade em noite de lua cheia. Alguém já o tinha visto. Negro, peludo e rosnando. Fazia um barulho estranho quando se deslocava. As pessoas evitavam as ruas longínquas nas noites da tal lua.

 

        Certo dia, surpreendido pela noite, meu avô estava chegando a Ipueiras, vindo da Serra, montado num cavalo. Era lua cheia.

 

        Ao entrar numa rua da periferia da cidade ouviu um grunhido ou algo parecido. Parou o cavalo. Seguiu-se um farfalhar estranho, arrepiante.

 

        A uma certa distância divisou um vulto escuro. Maior que um cão, menor que um cavalo.

        - Quem está aí? Perguntou.

 

        Nenhuma resposta. Apenas mais um rosnado.

 

        Ouviu-se um estampido. Meu avô, armado, disparara o primeiro tiro. De advertência. E ali estava ele montado num cavalo assustado, com a arma na mão e diante de um lobisomem que, com as mãos para cima, falava:

 

        - Seu João! Não atire! Sou eu!

               

        Deus! O lobisomem conhecia meu avô! Era gente conhecida, sim. E toda aquela marmotagem estava ligada a uma aventura amorosa secreta, para a qual o anonimato era fundamental. E a rua vazia mais ainda.

 

        A esperteza humana é, algumas vezes, realmente assombrosa!

Quadro de José Fernandes

 

OS CIRCOS DE MINHA INFÂNCIA

 

Auxiliadora Carvalho

 

No mundo dos circos que se armaram nas praças de Ipueiras menina, rodopiavam nossos vários mundos, como furacões galáticos. A alegria era intensa e durava o necessário para satisfação da platéia e do caixa da companhia circense. Era entretenimento de todas as idades. A programação dependia do status da companhia: rica ou pobre.

 

A rica tinha vários números: risonhos palhaços, trapezistas voadores, hábeis equilibristas, corajosos domadores de animais ferozes, dramas e comédias. Contavam com lindos atletas, desenvoltos atores e frenéticas atrizes, sotaques diferentes, cobertas de lonas coloridas, caminhões que serviam como casa de gente e de bichos. A trupe pobre era chamado de mambembe. Faltava tudo menos o riso das palhaçadas. Todos entretanto tinham em comum a abertura - Orrreeespeitável Públicooo!- e a curiosidade das pessoas bisbilhoteiras da cidade sobre aquele estranho modo de vida, entre as quais, me incluo.

 

O universo circense continha a amplidão teatral da vida expressa nas comédias, nos dramas incluindo-se também a tragédia. Nele, a arte imita a vida como a vida imita a arte. Os iniciados interpretam seus papéis impostos e textos decorados. Têm diretor de cenas, “ponto” e improvisação regulada. Há instantes em que os notáveis são os rebeldes que criam novas cenas. Também são meritórios aqueles que recortam e colam cenas dos diferentes espaços e tempo. E assim se vai construindo um viver até o final do último ato. Deriva daí minha fascinação de histórias sobre circos, seus palcos e atores.

 

Quando levantavam suas coloridas lonas, deixavam seus retalhos para serem costurados pelas mãos hábeis da nossa imaginação pueril. Os quintais das nossas casas transformavam-se picadeiros, com trapézios voadores e palcos para apresentação de dramas. Em muitas vezes, valia-se apenas de uma janela, com corpos em remelexos em companhia de palhaçadas e curtos monólogos improvisados e melodramáticos a atrair platéia.

 

Éramos estrelas do nosso planeta circense. Cada um com sua habilidade e brilho. Ali se expressavam com ardor e fé nossos sonhos de correr mundo, viajar, ser independente e alegrar vidas como aquelas trupes que desfilavam pelas nossas ruas e praças.

 

Portanto, dê-me a mão e vamos mergulhar nas águas cristalinas das memórias vivas e voar na dimensão dos sonhos, pelos atos e cenas destas histórias, que podem ser real e ficção.

 

 

 

BALDE D´ÁGUA NELES!

 

Há quantas lembranças pequeninas, mas, solidamente congeladas, das proezas dos palhaços no circo do quintal do Seu Chico Terto e da D. Neném, pais do Zé Almir. Tinha platéia ruidosa. Pra lá acorria quase toda meninada das ruas da Praça da Igreja e da Praça Getúlio Vargas.

 

Famoso pelas apresentações das palhaçadas e números musicais. Os que não pagavam entrada, penduravam-se nos muros vizinhos, do seu Juarez Catunda ou do Seu Cláudio Esmeraldo, e ou nos galhos das árvores próximas, para espiar o que estava a acontecer lá dentro.

 

Nossa! Quando se ouvia o vozeirão de Zé Almir a anunciar:

 

- Orespeitáaaaaavel Púuuuuublico!

 

Nossa adrenalina infantilmente turbinada nos dava forças de escalar aquele muro pra ver as piruetas do palhaço Cavaquinho, Sulerado e outros tantos famosos. Ou então ouvir os números musicais das famosas cantoras Maria do Carmo do Seu Chico Terto e a Marlene do Seu Plínio.

 

Terminado os números, desprendíamos de uma vez da amurada, pelo faltar de forças musculares, mãos avermelhadas e doloridas, mas cheias de emoções, que amorteciam nossas violentas quedas sobre a calçada.

 

Numa das vezes a platéia excluída era tão numerosa que os organizadores jogaram vários baldes d’água, para afugentá-la.

 

AS ASAS FRÁGEIS

 DE UM TRAPEZISTA VOADOR

 

Todos gostavam de circos inclusive nossos pais. Vibravam com nosso “empreendedorismo” e, ao mesmo tempo, nós lhes causávamos muitas aflições. Havia e fazia parte, muita intrepidez dos informais artistas que resultavam em muitas aflições.

 

Certa vez, armou tenda em nossa cidade, um famoso circo com trapezistas voadores. O nome da apresentação era “Vôo da Morte”. Viche!!! Era o seu principal número e sempre ficava como atração final a garantir uma rechonchuda bilheteria.

 

Eram dois fortes trapezistas, auxiliados por uma escultural trapezista, bem vestida de maiô azul com capa brilhante. Sua função era jogar os trapézios e ajustá-los no tempo exato do encontro dos artistas alados que após três piruetas no ar, sobre uma espaçosa rede de proteção, entusiasmavam a platéia.

 

O circo partiu. Arnóbio do Seu Abdul resolveu então montar o número num improvisado picadeiro, no quintal da sua casa. À época éramos vizinhos. A lide doméstica da D. Mocinha foi alterada com aquele vai-e-vem da meninada pelo corredor da sua casa, ansiosa pelo replay do famoso “Vôo da Morte” a ser apresentado pelo Arnóbio com a ajuda do irmão Batéia, dos amigos Raimundo Frota do Seu Idálio, meu irmão Melquizedec e outros mais.

 

Dividiram-se as tarefas. Uns varriam o quintal, outros montavam picadeiro. Uns corriam às suas casas em busca de cadeiras para montar os assentos da seleta platéia. E, Arnóbio, com seus auxiliares, escalava as tamarindeiras a escolher os mais nobres galhos para sua tal proeza. Amarraram as cordas dos dois  trapézios nos galhos mais altos de duas das mais frondosas do seu quintal.

 

Ensaiaram o vôo. Enquanto um auxiliar jogava um trapézio para o Arnóbio, o outro aguardava parado e preso por uma corda. Só lançado na hora exato do final do vôo.

 

Tudo estava pronto para o espetáculo.

 

Ouviu-se o refrão:

 

- Orespeitáaavel Púuuuublico! Apresentamos ... o trapezista Arnóbio! Com sua coragem e bravura realizará o Vôo da Morte! Número ansiosamente esperado por nossa platéia e pra quem pedimos os aplausos!

 

Palmas, ovações, gritos de “bravo”...

 

Surge Arnóbio, vestido à caráter, sob nossos olhares ansiosos. Sobe no trapézio e começa o forte balançar conforme o já ensaiado número.

 

Seu Abdul e D. Mocinha assistiam com olhar aflição, o aprovado desafio do filho à tal lei da gravidade. E finalmente Arnóbio despregou-se do trapézio e ....voou! Como um Ícaro, suas asas frágeis não conseguiram pousar suavemente no outro trapézio e caiu!

 

Oh! Meu Deus! Fez-se um coro. Correram todos em seu socorro. Lágrimas no lugar de aplausos. Levaram o intrépido Arnóbio, desacordado, desfalecido para um leito em sua casa.

 

Notícia ruim corre depressa naquele mundo nosso tão grande e tão pequeno. E lá se anunciavam em todas as bocas: “O Arnóbio do Seu Abdul foi fazer o Vôo da Morte e pois num é que fez mesmo!...” Ele ficou em coma. Agonias, tristezas e esperanças de sua recuperação sobrevoaram o leito daquele venturoso trapezista, sob os cuidados de Dr. Melquíades, Seu Idálio, sua família e as orações dos amigos. Veio acordar, após algumas semanas, para alegria de todos.

 

Sabedora sou de que seus vôos continuam até hoje, mas com asas fortalecidas a encantar, com certeza, o colorido circo da sua vida.

 

BENEDITA BACURAU

 

Um circo estava na cidade. Ouvia-se pelas ruas o grito do palhaço convocando todos para a estréia. Seguiam-lhe um bando de meninos que corriam para acompanhar os passos largos de suas pernas de pau.

 

- Hoje tem espetáculo?

E o coro de moleques respondia:

-     Tem, sim senhor!

E anunciava.

-     Oito horas da noite?

-     É, sim senhor! Gritava a negrada...

E ia se alternando os refrões:

-        E o benedito bacurau?

-        Ta no ôco do pau!

-        Tua mãe é uma coruja!

-        E teu pai é bacurau.

 

 

Recordo-me que ao percorrer a Rua Padre Angelim, onde morávamos, Benedita, filha do Sr Neton Mourão, neta do nosso vizinho Sr. Josué Mourão, esbravejava e chorava muito, pois ouvia “benedita bacurau” e achava que era com ela. Pela ingênua e pouca idade não percebia que era o nome “bendito”, gritado “benedito”, de forma errada...

 

 

Maria (Dalinha Catunda)

19:51 @ 22/05/2006

 

MARIA

Dalinha Aragão

 

Maio mês de Maria.
Maria mãe do Senhor.
Maio de tantas Maria,
Que a vida nos ofertou.

A uma especial,
Dedico o meu amor.
É uma Maria tão simples.
Nascida no interior.

Como sabe ser gentil,
com os que têm no coração.
Sua palavra singela,
Até parece oração.

Ela é mãe, ela é amiga,
É protetora também.
É uma pessoa divina,
Que aprendi a querer bem

 

O Povo [20 Maio 18h58min 2006]


 

 

Praça Getúlio Vargas

 

TEMPOS SINGELOS AQUELES!

 

 

Solange Rosa

 

 

         Qual pássaro ávido pela comida, assim éramos nós, adolescentes de outrora, pela chegada da noite naqueles memoráveis tempos de Ipueiras. Com a noite, o clima, quente e abrasador, cedia lugar a temperaturas amenas e a uma gostosa brisa a nos convidar ao ócio e ao lazer.

 

      A noite indicava aos adultos as rodas de conversas, as cadeiras nas calçadas e os gostosos papos; e aos adolescentes e jovens, os passeios em volta da “avenida” (a pracinha) ao som de gostosas músicas e mensagens apaixonadas -  " de alguém, muito apaixonado, para alguém..." -, produzidas pela “amplificadora” do "Simãozinho".

 

      Clima e espaços propícios à garotada, que, volta e meia, passeava na “avenida”. As meninas, todas bem produzidas, exibiam seus novos vestidos e adereços, na busca de chamar atenção. Braços dados com as amigas (duas ou três), volteavam a pracinha, enquanto os "meninos", parados, aguardavam a passagem destas para "flertar" (piscadas de olhos), de lançar um gracejo até terem coragem de "encostar" – era a expressão das meninas quando o "flerte" se consolidava em namoro.

 

      Tempos singelos aqueles!... E as noites de lua? Quão aguardadas elas eram, pela possibilidade de brincadeiras como a do anel, ocasião propícia às carícias (o passar das mãos, umas nas outras) entre enamorados.

 

      Sim! Tempos singelos aqueles! E as noites de festas? As Novenas da Imaculada Conceição, o Natal e outras mais... O comércio aberto à noite, a grande afluência de pessoas vindas dos povoados vizinhos a disputar, com os jovens, o passeio na “avenida”, nas idas e vindas em torno dela.

 

      Recordações daqueles tempos singelos, o que hoje nos fica! ...

 

Titunda (Por Dalinha Catunda)

23:41 @ 23/05/2006

TITUNDA

Por Dalinha Catunda

 

Durante muitos e muitos anos, viveu na pequena Ipueiras um humilde carreteiro, que tinha o poder de encantar e atrair as crianças com suas fantásticas histórias.


Nesse tempo, o meio de transporte usado para conduzir as pessoas de uma cidade para outra era o trem. Tunda era um dos carreteiros, um negro forte e simpático, que, em busca de uns trocados, carregava a bagagem dos viajantes até o destino combinado.


Na cabeça do bom homem, as malas chegavam aos seus donos, pois carro era artigo de luxo na época. Ele era pobre, mas tinha um tesouro que dividia sem egoísmo com as crianças: sua alegria.


Tinha o poder de manter a meninada da cidade numa eterna esperança de um dia ganharem um carneirinho. Sempre que passava por uma delas, repetia a mesma frase: 'Titunda' vai trazer um carneirinho pra você, viu?



− Titunda, quando você vai trazer meu carneirinho?

 

Era a frase que ele mais ouvia da meninada.

 

− Amanhã, amanhã o 'Ti' trás.


− Cadê meu carneirinho? - perguntava outra.



− Tá lá no céu! – dizia, apontando pra cima, rindo.

 



Era hoje, amanhã, depois e nunca chegava o tal dia. Assim foi com gerações e gerações, alegremente iludidas com a história do carneirinho.

 

Certo dia, a cidade que sempre vivera debaixo de um céu azul, presenciou um fenômeno singular. Ao badalar do sino da igreja, começou a aparecer no céu chumaços de nuvens brancas em forma de carneirinhos. Em pouco tempo, o firmamento estava completamente tomado. Quando o sino parou, todos olhavam para o céu que parecia formar uma bela gravura.


Do meio daquelas imagens feitas por nuvens, uma parecia ser a de Titunda a segurar um cajado reluzente comandando os carneirinhos que nunca chegaram às mãos das crianças, mas certamente permaneceram em seus sonhos.

 

Quanto ao velho carreteiro, este, naquele dia, chegava ao céu, onde dizia estar seu grande rebanho.

 

N. S. Auxiliadora (24 de maio)

 

VIRGEM MARIA

 UMA PARTEIRA DISCRETA

 

 

Auxiliadora Carvalho

(No dia de seu aniversário)

 

 

Vim à luz numa tarde fervorosa de maio, após gerada no ventre da mulher mais virtuosa que conheci. Chamava-se Brígida, nome de santa, para ter dela a proteção. Contava-me ela que nasci sem dores, graças à Virgem.

 

Transcorria o ano da graça de 49 e a cidade de Nova Russas comemorava o mês de Nossa Senhora. Os católicos, principalmente os marianos, organizavam os festejos. Os homens eram chamados de marianos e as mulheres de filhas de Maria e se identificavam pela medalhas penduradas no pescoço pelo cordão de fita azul. Congregavam-se em reuniões de orações e, quando morriam, tinham honrarias no funeral, muitas ladainhas e excelências. Assim também eram os vicentinos, venerandos de S. Vicente de Paulo, só que usavam roupa branca com medalhas em fitas vermelhas. Eram tidos como pessoas de bom caráter, bons maridos, jovens piedosos e esposas obedientes.

 

Nesse dia, a família da casa vizinha à da minha mãe, havia recebido Nossa Senhora para o ato de veneração. Armaram um lindo altar na sala de visitas da residência. Enfeitaram-no com castiçais de prata, flores e anjos vivos. Eles eram representados pelas crianças da vizinhança e da escola de catecismo da Paróquia. Vestiam mantos de seda azul, tiaras de arame cheias de estrelas de papel dourado e portavam azas feitas de papelão com penas brancas de patos, pregadas com grude.

 

Dizem que difícil era fazer estes anjos se concentrarem no silêncio das orações, principalmente quando em latim. Incensavam o recinto e arrumavam cadeiras em frente ao altar para a noite de sentinela. Durante este período, falavam em voz baixa, proibiam brigas ou desavenças e permitiam atos de contrição. Dobravam também os trabalhos na cozinha, com o vai e vem das bandejas de café, broas e bulins de goma, para servir os visitantes.

 

A imagem da Virgem chegava à tardinha e saía no outro dia, à mesma hora, em andor, coberto com rendas e adornado de flores, carregado pelos marianos. Encabeçava uma procissão juntamente com o vigário local, os coroinhas (meninos, aprendizes de ajudante do vigário nas celebrações religiosas) e as filhas de Maria puxando os cânticos: Ave Maria e Com Minha Mãe Estarei, alternadamente. Atrás seguiam os fervorosos da cidade. Uma legião de homens com chapéus, mulheres com mantilhas, e crianças irrequietas, contidas pela mão das mães penitentes. Na hora da parar a arreliação da petizada valia puxão de orelhas, de cabelos e de beliscões que rodava a pele flácida dos braços gorduchos, para não atrapalhar a reza do terço.

 

Enfeitavam-se as casas das ruas por onde passava a procissão com toalhinha e jarros de flores, terços pendurados, velas e tudo mais para serem abençoados. As calçadas ficavam apinhadas de curiosos para assistir ao vaidoso cortejo coberto pela capa de uma de uma fé multiforme daqueles penitentes.

 

Minha mãe, redonda e pesada, sentou-se na soleira da porta principal de nossa casa, para ver passar a procissão e observar os transeuntes. Tecia um coxim (peça de montaria, usada para colocar sobre a cela do cavaleiro) com fios coloridos para o uso do meu pai.

 

Ao ver a imagem de Nossa Senhora, pediu-lhe, cheia de fé:

 

 Ó Virgem Maria, dai-me um bom parto!

 

Assistiu passar a procissão, quando sentiu uma forte pontada abaixo do umbigo. Levantou-se e adentrou rumo ao quarto. Sentiu outra forte contração, olhou para a cama, mas não podia se deitar, pois ali estava dormindo o meu irmão Melquizedec. Viu uma rede armada e ao abri-la não pode sentar-se, pois estava rasgada. Gritou agoniada:

 

− Socorra-me,  Virgem Maria!

 

Ouviu barulho na cozinha. Era a botadeira d’água, mas, não precisou de socorrê-la pois, já estava ali, à sua frente, D. Anastácia, a parteira com o seu banco.

 

− Cá estou, muié. Não esmoreça, tenha coragem. Virgem Nossa Senhora do Bom Parto, o bruguelo, já está vindo... Nasceu! E é uma menina!

 

Minha mãe desmaia de susto. Não era pra menos. Foi a primeira experiência de parto ligeiro e sem dor, dos seis filhos que já parira, incluindo-me. D. Anastácia me larga, desajeitada sobre a cama e socorre minha mãe. Acode-a com uma mecha de algodão molhada no álcool e passa em seu nariz. Ela respira. Abre os olhos. Sorri largamente e exclama:

 

− Anastácia, a menina vai se chamar de Maria Auxiliadora, em homenagem a N.S. Auxiliadora, a santa do dia 24. Olha aí o calendário. Sei que foi ela que te trouxe em meu auxilio.

 

Neste ínterim, meu berreiro varou as paredes do quarto e foi avisar a vizinhança que eu tinha chegado pra viver e intensamente, saudavelmente, com as bênçãos da prodigiosa Madrinha.

 

 

Rádio Vale do Jatobá

 

Rádio Vale do Jatobá: a pioneira

 

Por Carlos Moreira / Ipueiras

 

Para quem pensa que a Rádio Macambira foi a primeira emissora de Rádio de Ipueiras, lembramos que no ínicio dos anos 60 os irmãos José Arimatéia Catunda e Luiz Malaquias Filho (professor "Lutim") adquiriram um cristal e montaram um pequeno transmissor que possibilitou as transmissões da primeira estação radiofônica da cidade, ouvida num raio de 30 quilômetros (cobria toda a região da serra da matriz). A estação foi batizada com o nome de "Vale do Jatobá", uma homenagem ao rio que banha a sede do município e é considerado o mais importante da bacia hidrográfica do território ipueirense.


A despeito de sua curta existência, a Rádio "Vale do Jatobá" serviu para marcar uma época de que muitos sentem saudades. Por seus microfones passaram - além dos irmãos fundadores - o hoje médico Carlos Matos Aragão, o tenente da Marinha Mercante do Brasil, Zacarias Neto, Fransisco de Assis Lima (o "Furi"), dentre outros. Com o advento da revolução de 1964, o Governo Federal determinou uma varredura nas frequências ilegalmente instaladas, perdendo Ipueiras a sua pequena estação. Com o fechamento da "Vale do Jatobá", José Arimatéia Catunda deu prosseguimento ao trabalho, através de um sistema de alto-falantes, até hoje em funcionamento.


Este é o primeiro trabalho de muitos que ainda virão. Primeira Coluna contará em breve com outros colaboradores. *PC*

(001 - Publicado originalmente em 9/03/05 - Fase Blogger Brasil)

(Transcrito do Blog “Primeira Coluna”)

 

 

 

PEDRA BRANCA

E SEU SELO UNICEF

 

 

Auxiliadora Carvalho

 

 

O desconforto de se transitar em Fortaleza é de natureza vária. Gosto muito de sair, mas hoje não tenho motivações. Presa condicional desta cidade, fico a espiar mosaicos da vida pela janela do meu apartamento do Papicu. E me pergunto: como será nosso amanhã? Temos saída? Impaciento-me. Sento-me ao computador e escrevo algo para conter este espírito ansioso de sonhar com paraísos. Não quero refletir sobre tais temas e faço mais contrita o exercício do “creio para compreender” - fórmula que resume a posição doutrinária fundamental de Santo Anselmo, o qual afirma ser a fé a fonte de todo o saber, filosófico ou teológico. 

 

Nas elucubrações da minha forçada credulidade, fui surpreendida por um convite de uma amiga pedagoga e secretária de educação, para partilhar das comemorações do dia do seu município, Pedra Branca, premiado pela segunda vez consecutiva com o Selo UNICEF. Fiquei honrada com o convite. Entretanto o comodismo cochichou-me nos ouvidos tentando minha desistência em aceitar tão incomum convocação. Lanço mão de argumentos fortes, tais, como preparação do dia dos pais; a estrada é péssima; a cidade é pequena e não tem o que se ver; o que curtir nestes programas; é só propaganda eleitoral e desfio outras malevolências.

 

 Resisti como guerreira a tais tentações numa luta entre Deus e o Diabo nesta terra de sol. Armada da amizade e admiração pela convidante, da alma interiorana que vagueia no meu espírito, da curiosidade pelo inédito e do contraponto ao meu cotidiano, parti para pagar o convite na companhia de outros convidados. Percorremos cinco horas e meia de viagem, até nosso destino, enfrentando-se uma estrada com crateras lunares, a partir de Quixeramobim. Que descaso público!...

 

No meu silêncio, puxei da memória minha infância e juventude em Ipueiras, percorrendo estradas de piçarras. Eram mais conservadas, pois, àquela época não havia tráfego de cargas. A maioria era trafego de animais de cargas leves e alguns veículos como o jeep do padre, o carro do prefeito ou o caminhão de um próspero comerciante. O volume maior de mercadorias era transportado pela Rede Ferroviária. Viam-se caminhões com cargas pesadas em marchas lentas para ultrapassar as dificuldades do caminho. Tragam de volta nossas ferrovias! Recuperem nossas estradas! Respeitem nosso patrimônio e o seu valor coletivo! clamo em pensamento.

 

Vejo em muros a margem da via, em Minerolândia, cartazes propagando a Festa com a Banda Libanos, quase totalmente destruída em recente acidente nesta referida estrada. Quem são os responsáveis? Tive receio em atrair energias más com pensamentos sobre tragédias e mudei imediatamente o foco das minhas cismas.

 

Uma área iluminada de maior tamanho e um clima frio anunciavam o final de nossa viagem. Pedra Branca estava próxima, bem ali, localizada em região serrana, emoldurada por um verde vale. Hospedamo-nos em uma pousada limpa e de serviços prestimosos, raros em nosso hinterland. Carinhosa e hospitaleira, a nossa anfitriã, acompanhada do marido e dos pais, nos deu boas vindas, acolhendo-nos muito bem. A cidade estava toda enfeitada para a festa, amenizando aos olhos dos visitantes as dificuldades da conservação urbanística que a prefeitura municipal estava a enfrentar neste ano de gestão. A programação era semanal, mas nosso grupo participaria dos últimos eventos.

 

A curiosidade me levou a caminhar pela Praça da Igreja onde se armaram palcos e as tendas das 21 nações que integravam a Festa das Nações, organizada pela Secretaria Municipal de Educação. A atenção estava voltada para a participação dos moradores, a liderança do gestor municipal e o desempenho dos educadores.

 

Recebemos missão de escolher a Rainha Mãe e a Rainha, do Município e julgar a melhor tenda da Festa das Nações. A praça estava apinhada, calculando-se em torno de seis mil pessoas. A primeira tarefa não foi fácil, pois a beleza, simpatia e desenvoltura era intensa nas candidatas.

 

E por que estes concursos? O de Rainha Mãe? Foi criado como incentivo para as mães estudarem. A política do ensino voltada para adultos tem que bem motivadora - assim me falava minha amiga educadora. No caso, ela fez uma intensa campanha junto às mães da fila do Programa Bolsa-escola, da CEF. O resultado foi cerca de 3.500 matrículas, com índice anual de evasão em torno de 20%. Os eventos significam um reconhecimento pela adesão de todos, no projeto por uma educação de qualidade, sonhada pela minha amiga, pedagoga de alma e de visão.

 

Os concursos envolviam a participação de todos os núcleos de ensino do município, das áreas urbanas e da zona rural. A Rainha do Município, homenagem especial ao aniversário da cidade, representava também o país escolhido para a Festa das Nações e ao ser eleita recebia além do prêmio, ovações de sua torcida e uma festa realizada pelos moradores do local do seu núcleo de ensino. Todos eram alunos e professores do sistema escolar de Pedra Branca. Crianças, jovens e adultos se misturavam harmoniosamente no desempenho de suas tarefas.

 

Inicia-se a segunda tarefa e mais envolvente. Recebemos as credenciais e os critérios que deveriam ser avaliados. Para surpresa minha, todos os países ali representados foram estudados pelos alunos através de pesquisa pela Internet. Poucos fizeram visitas a consulados em Fortaleza. Portavam farto material informativo e reproduziram, na tematização de cada tenda, os cinco continentes num espaço que não ultrapassava um vão da praça de mais ou menos duas quadras. Esgueirando-me entre os transeuntes curiosos, visitei um a um.

 

Viajei pela Argentina Brasil, Itália, França, Alemanha, Chile, Marrocos, Egito, Iraque, Israel, Holanda, Grécia, Índia, Japão, Jamaica, México, Inglaterra, Portugal, Espanha, EUA e Cuba, durante quatro horas, num espaço inferior a duas quadras. Fui recebida pelos seus respectivos presidentes, ou reis, e ou primeiros-ministros. Deles, ouvi informações sobre economia e seus principais produtos. Explicaram-me sua organização político-administrativa. Enalteciam seus principais pontos turísticos. Sentei às suas mesas e degustei suas comidas e bebidas típicas.

 

Vi suas bandeiras confeccionadas com muita criatividade. Bandeiras de papel, de fuxico, em ponto de cruz. Tinha bandeiras também, emprestadas pelos consulados. Conheci seus mapas. Desenhados e ilustrados. Vi suas moedas.. Ouvi suas músicas. Uma banda cover tocava Beatles na tenda inglesa, Pink Floyd e Bob Marlen, eram ouvidos na Jamaica. O rock americano deslumbrava os dançantes. A sensual dança do ventre, atraia os curiosos para o corpo delgado da dançarina de diáfanos véus azuis repletos de pedrarias. Vi emocionado italiano vibrar com a dança da tarantela. Conversei com Cleópatra que exalava sua beleza pérfida entre o mastigar de uvas frescas, oferecidas serviamente pelos seu séqüito de escravos. Vi Romeu e Julieta no sono mórbido do amor. Rabinos explicavam sua importância religiosa, Gueixas delicadamente nos ofereciam sushis.

 

Senti muito frio chileno, aquecendo-me no orgulho de sua excelente qualidade de ensino. A Argentina enaltecia seus ídolos, como Diego Maradona do futebol. Comi pimenta mexicana e tomei tequila debaixo de largo sombrero. Ouvi indianos explicarem sobre a importância da educação antiga memorizada para sua cultura. Hoje exportam os melhores cérebros criadores de softwares, para o Vale do Silício na Califórnia. Os holandeses, orgulhosos com a proeza de morarem abaixo do nível do mar, ofereciam-me seus queijos e suco de laranja. As violleteras dançavam flamengo. Fumei um charuto cubano, após uma boa talargada de rum com coca-cola. Ah! cuba libre. Os deuses gregos recebiam no Olimpo, os atletas para as Olimpíadas de 2004.

 

Fim da viagem. Cansada? De jeito nenhum. Feliz demais. Meu desembarque deste tão profícuo roteiro turístico foi na estação da calçada do Espaço Cultural Pedra-branquense, onde está exposta história da cidade em memória fotográfica, e documentos. Abriga também a biblioteca pública. Vêem-se reproduções do selo da UNICEF em todos os postes da Praça.

 

O som da banda que animava a festa parou. O prefeito Chico Ernesto agradece ao povo sua confiança e amizade. Em seguida finalizava os agradecimentos a voz terna, mas concisa, da Secretária de Educação, Daniela Cavalcante agradecendo a professores, alunos, pároco e moradores, sua colaboração para o acontecer deste momento da história de seu município, com promessas de continuarem sempre juntos pela educação de qualidade. Não se viu brigas. Não se viu descontentamentos. Como se a educação unisse todos pela cidadania digna e plena. Nela se constrói a prosperidade e a paz social. Um show pirotécnico parabeniza os munícipes pelo importante prêmio, jorrando ogivas de fogos coloridos naquele céu de esperança, coragem e fé em mudar para melhor.

 

Despeço-me agradecendo o honroso convite para esta viagem internacional presenteada a todos pelo mérito do Prêmio Unicef e volto a Fortaleza refletindo sobre o que li em algum dos textos de Aldo Kovarick, recomendados por mim para leituras em salas de aula: “Em qualquer situação poderemos olhar com outros olhos para as potencialidades humanas, sabendo que em cada pessoa existe uma usina imensa de novidades e de produtividade.”

 

O que faz algumas pessoas serem bem sucedidas e outras não? Toda pessoa é capaz de efetuar mudanças significativas no mundo que a cerca. Mas, o que geralmente ocorre é que, ao invés de agir, jogamos a responsabilidade da nossa desdita sobre os ombros alheios. Sempre encontramos alguém a quem culpar pela nossa infelicidade, esquecidos de que ela só depende de nós mesmos.

 

Parabéns, Professora Daniela Cavalcante, exemplo da dignidade de uma pedagoga comprometida com a educação de seus munícipes. Parabéns, Prefeito Pedro Ernesto pelo Prêmio UNICEF. Parabéns, Pedra Branca, pela educação de qualidade que estão desenvolvendo e seus benefícios decorrentes.

 

 

 

 

VOANDO COM FROTA NETO

 

 

Jean Kleber Mattos

 

 

Certo dia, eu embarquei no aeroporto de Brasília com destino a Fortaleza, para gozo de férias. Meus pais já moravam comigo em Brasília, mas eu não dispensava aquela pequena temporada anual na terrinha. Nossa casa em Fortaleza estava sob os cuidados de minha tia, D. Francisquinha, irmã de meu pai, que lá morava com o marido Francisco Fontes e a filha Salete.

 

Uma alegre e numerosa comitiva havia embarcado antes de mim. Quando entrei no avião ouvi alguém me chamar pelo meu nome “ipueirense” de infância:

 

- Klebinho!

 

Era Frota Neto, então porta-voz de Sarney, que estava indo à Fortaleza para o casamento da filha. Grande alegria! Muitos anos haviam se passado desde nosso ultimo encontro em Fortaleza, quando eu ainda estava no Cursinho Pré-Vestibular. Naquela ocasião, ele, recém-chegado de Cuba, havia me instruído sobre os programas sociais da ilha, pelos quais se entusiasmara.

 

Meu assento no avião tinha número baixo, logo no início. O dele ficava mais ao fundo. O vôo aguardava passageiros de conexão de forma que, por alguns minutos, Frota Neto, com admirável simplicidade, sentado no braço da poltrona, colocou a conversa em dia. Perguntou por “seu” Mattos, por D. Mundita, deu notícias de amigos de Ipueiras e apresentou-me a alguns colegas jornalistas que o acompanhavam ao grande evento. Embarcados os passageiros da conexão, a comissária pediu que nos acomodássemos para a partida. Foi quando tive a idéia de documentar aquele encontro histórico. Consegui um pedaço de papel e tão logo o vôo estabilizou fui até onde estava o Frota. Pedi-lhe que escrevesse u’a mensagem para meu pai, seu professor na escola primária.

 

Com entusiasmo, escreveu a mensagem, enquanto comentava alegremente com seus colegas sobre Ipueiras e nossa infância.

 

De repente, era como se o tempo não tivesse passado. Ali estávamos, meninos de Ipueiras, Kleber e Antônio do Idálio, fazendo nossa pândega.

 

No Bhagavad-gita li, certa vez, uma singela lição sobre a atemporalidade do espírito. Havia um convite a que a experimentássemos. Só o corpo envelhece. Em essência, o nosso pensar, o nosso gostar e o nosso querer permanecem os mesmos. Einstein descreveu a relatividade do “passar do tempo” em função da velocidade. Mas o fato incrível, naquele momento, é que a Ipueiras encantada de nossa infância estava nos rejuvenescendo!

 

De volta para minha poltrona, algumas pessoas que eu nunca vira antes, cumprimentaram-me sorridentes. Retribuí satisfeito e acomodei-me no assento. Endorfinas em alta, de repente comecei a me sentir importante.

 

E por que não? Afinal eu era amigo do “ôme”!

 

Foi aí que “caiu a ficha”...

 

Zeca Frosino

 

O LENDÁRIO “ZECA FROSINO”

 

 

Por Dalinha Catunda

       

       

        Junho se aproxima e eu não poderia deixar de prestar minha homenagem a José Batista dos Santos, que, mais tarde, popularizava-se, como “Zeca Frosino” - o inventor do forró nas terras das Ipueiras.

 

 Nascido, em 09 de março de 1926, no Curupati, atualmente Abílio Martins, criado no Arroz, fixou moradia na Floresta. Daí, seu nome ganhou chão, na boca do sertanejo festeiro. Hoje ele é sinônimo de festa, alegria e tradição, realizando seu forró das antigas, o forró de matuto, na quadra do Corte Branco.

 

Foi Zeca o pioneiro na organização de forrós nos arredores de Ipueiras. Foi quem descobriu esta mina de ouro, atualmente  explorada por muitos com fins lucrativos. Enquanto ele, que começou à luz de lamparina e da lua, continua promovendo seu Chitão, por puro prazer de reunir o povão e celebrar a vida em ritmo de forró.

 

Lendas sobre Zeca são muitas. A mais comentada é de um tronco de árvore onde era amarrado aquele que abusava da bebida e da valentia. Na realidade, Zeca é um agricultor, e por muito tempo viveu também feito cigano, comprando, vendendo, trocando animais e objetos para sobreviver, nos tempos ruins. Até hoje  não vive sem  escambo.

 

Há 51 anos, Ipueiras assiste, dele participando, a este espetáculo popular, onde se faz visível a confraternização do povo do interior com as gentes da cidade.

 

 Zeca, em nome da tradição, não dispensa uma lua cheia, um bom sanfoneiro, um forrozinho pé-de-serra, o caldo servido por dona Maria, as bancas de churrasco, de cachaça e cafezeiras, nos arredores do terreiro. 

 

E é nesse ritmo que ele consegue desenhar, no rosto do nordestino sofrido, um sorriso de felicidade.

 

Rua Pe. Angelim

 

A AUXILIADORA,

Ipueirense in pectore,

da Rua Padre Angelim

 

 

         Ontem finalmente me dei um tempo para, com mais vagar, ver o famoso “blog de Ipueiras”.

 

            Vi, com prazer, que lá estão estratificados relatos de vários matizes que ora homenageiam vultos da terra, ora resgatam a memória da cidade e do povo, ora relatam acontecidos de outros povos e terras. Sem contar os inteligentes e oportunos comentários dos conterrâneos.

 

            Li, com muita satisfação, suas memórias. Estilo próprio, instigante, que me absorveu por inteiro e me encantou. Ao acompanhar seus relatos, com muita minudência e clareza, revisitei Pedro Nava, com seu Baú de Ossos.

 

            Estive com Dona Brígida, naquela procissão, em Nova Russas. Escutei, da calçada, seu choro. Senti a religiosidade que sua querida mãe lhe transmitiu, ao dar-lhe o nome da Santa Mãe de Deus. Coração de mãe não se engana: você estava predestinada.

 

            Embalei-me nos espetáculos dos circos abastados e mambembes que transitavam por nossa terra, com seus palhaços, engolidores de fogo, trapezistas. Relembrei um deles, o “Circo Theatro Uiara”, onde, na parte final do espetáculo, encenava-se um “drama”. Para nós, meninos, era o máximo, não tinha melhor. A animação começava logo na chegada da troupe, com o desfile dos integrantes, pelas ruas, conclamando o povo a comparecer. Todo mundo queria ter pernas-de-pau para sair andando pelas ruas. Tive as minhas e juntamente com os colegas, saía pelas ruas, em divertidas brincadeiras.

 

            Estive, com você, contemplando a cidade e o mundo, de sua janela, no Papicu, relembrando a nossa Fortaleza, outrora pacata, hoje tão cheia de violência e sobressaltos, preocupando-me, também, com o legado que nossos netos receberão.

 

            Tinha, há muito tempo, vontade de conhecer Pedra Branca. Fui com você, naquele veículo, enfrentando os solavancos e catabis da estrada mal cuidada. Passei por suas ruas e vielas, conheci pessoas, adentrei com você, na Festa das Nações onde, afinal, tive a oportunidade tão sonhada de ir ao exterior, conhecendo vários países, suas bandeiras, seus costumes, e, melhor, falando exclusivamente português e sendo perfeitamente entendido por todos.

 

            Fiquei feliz em ver, por seu relato tão fascinante, que Pedra Branca, assim como muitos municípios do Ceará, inseriu-se nas infovias – grandes estradas do conhecimento e da informação. É o caminho mais direto para promover a educação e a cultura.

 

            Eu já sabia, há muito tempo, que você é superdotada e portadora de uma bagagem cultural alentada. Mas, “ler você” foi demais!

 

            Parabéns, Cili. Afinal, você, além de ser Ipueirense - como o Marcondes, in pectore -  é também da minha rua, a Padre Angelim.

 

            Um abraço carinhoso e parabéns à excelente memorialista e cronista que você é,

 

            do Walmir Rosa, de Ipueiras, residente em Fortaleza.

 

Rio Jatobá (Foto cedida por Carlos Moreira)

 

“SOS RIO JATOBÁ – VAMOS SALVÁ-LO”

        

 

         O primeiro aviso chegou-nos de Terezinha Mourão. Sempre alerta, ela nos deu o aviso. É que, em seu vaguear pelas comunidades do Orkut, deu com um grupo a se intitular de “SOS Rio Jatobá – Vamos salvá-lo”. Data: 05 de julho de 2006. Horas: 08:00. Local: Rio Jatobá, em Ipueiras. Detalhes: 03 a 05 de julho de 2006, o evento “Gincana Ecológica”

 

         Logo abaixo, o texto:

 

         “Nesse dia irá acontecer um dos maiores eventos jamais vistos em Ipueiras. Estaremos realizando uma GINCANA ECOLOGICA com o objetivo de divulgar, mais e mais, a referida campanha, que teve inicio no dia 10 de Abril de 2006, através da iniciativa de uma ação social desenvolvida por um grupo de jovens - Agente Jovem (CRAS - Ação Social)  e que contou com a adesão incondicional do Colégio Estadual Otacílio Mota e do Instituto Bia Rizzo.”

 

 

 

HORA DE A CAMPANHA CORRER CHÃO

 

         De imediato, foi a vez de Dalinha Catunda, a nos dar seu testemunho e engajamento:

 

“Eu tive o prazer de participar do inicio da Campanha pela recuperação do Jatobá. Além do evento do Instituto Bia Rizzo, sempre envolvido com a cultura de Ipueiras, tivemos também a participação do Colégio Otacílio Mota, com grande participação popular.

 

Na ocasião, entrevistada por uma rádio local, manifestei o meu apoio, e incentivei a população a cooperar com essa iniciativa em prol do Jatobá, chegada em tão boa hora.

 

O Jatobá já foi muito adulado com palavras. Já serviu de inspiração para muita gente, (onde me incluo), sendo cantado e decantado. Agora é hora de fazer essa campanha correr chão.

 

Salvar o Jatobá é preciso. Dizem que recordar é reviver. E nós vivemos a recordar o rio dos nossos "álacres banhos" de quando crianças – na expressão de  Marcondes Rosa". Hoje, porém, mais que recordar, é necessário fazê-lo reviver. E “reviver, no caso, é devolver ao rio a vida: revigorá-lo, renová-lo, reconstituí-lo, recompondo-o enfim.

 

Nós ora isolados, se, pequenas cacimbas, nos juntarmos, podemos encher de esperanças o nosso rio, em pouco tempo. E, num futuro iminente, quem sabe voltaremos a nos encantar com o Jatobá de agora, refeito, como o fazíamos nas cheias de outrora.

 

Que o Jatobá se faça tema a divulgar-se no Blog do Grupo Ipueiras. Daqui, em cooperação com todos os outros “sítios” e “pracinhas” de nossa Web, quem sabe ele possa ser temática e preocupação: o nosso Jatobá – o de outrora, o de hoje e futuro a nos marcar como símbolo.”

 

 

´

Rio Jatobá (Foto cedida por Carlos Moreira)

 

 

 

EM FOTOS, A “GRANDILOQÜÊNCIA DAS CHEIAS”

 

 

De pronto, Carlos Moreira, sensível à “grandiloqüências das cheias” em sua compulsiva sintaxe a enfrasar poços e poças, no grande texto do coletivo, envia-nos flagrantes em fotos de um Jatobá, refeito em sua ecológica tarefa.

 

 

CHEIAS A SEPULTAR SOLIDÃO E ATRASO

 

 

Aí, a vez de Marcondes Rosa de Sousa, que, em insistentes artigos e, por fim, no discurso que proferiu, ao receber a Medalha “Otávio Lobo”, na Assembléia Legislativa do Estado do Ceará, em 21 de outubro de 2003, onde fez, do Jatobá, símbolo de coletivo pacto contra a solidão do vaqueiro, em nosso chão de aridez:

 

 

“Recebo a Medalha “Otávio Lobo”, num misto de emoção e surpresa. Na verdade, ela me pesa. Não porque se destine, por desejo desta Assembléia Legislativa, “ao educador ou instituição educacional de maior projeção no Estado”. Nem pelo que o nome de Otávio Lobo, como intelectual, educador e político de nossa história, possa evocar. Mas (coisas do afeto), por ser Otávio Lobo, filho de Santa Quitéria – a terra de meus avós, de meus pais e onde eu próprio nasci.

 

 

Santa Quitéria, território da pecuária! Paisagem que, em mim, ficou, de um Ceará solipsista. Um solipsismo, a buscar, no entanto, o construtivo sentimento gregário. Na amplidão de sua caatinga, a rês. Atrás dela, o vaqueiro. Entre os dois, só Deus e a solidão, com sede do solidário.

 

Essa, a cena que se repisou em toda a minha infância, às margens do Jatobá, aí já em Ipueiras, na mesma região. Nas cheias, os álacres banhos da meninada. Com o baixar das águas, as poças. E, por fim, o leito seco do rio, onde a avidez da pobreza plantava cacimbas e cercas, fechadas a cadeado. Diante do quadro, quedávamos nós, meninos e meninas, a sonhar com a volta das cheias, a sepultar as águas menores e as cercas.

 

Cheias e cercas acompanharam-me pela vida afora. Na escola, dei com Jean Jacques Rousseau: “No momento em que, pela vez primeira, alguém cercou um pedaço de terra e disse ‘isso é meu’, aí nasceram as desigualdades entre os homens”. Desigualdades superáveis apenas por via da celebração de um amplo contrato social.

 

 Nos anos 60, estudante universitário, alimentei sonhos socialistas, na esperança da derrubada das cercas a nos perseguir. E, nos meados dos anos 80, já na administração universitária, dei, um dia, com a imagem das cercas, de novo. E, desta feita, num documentário sobre o Ceará, em story board que nos apresentavam cineastas da BBC, de Londres. Câmeras, em repetidos zooms, davam, às cercas de arame farpado de nossos propriedades rurais, a conotação de verdadeiros ‘campos de concentração’. Numa entrevista, a voz de um então desconhecido empresário ecoava: “Nossas indústrias assentam-se sobre os barris de pólvora da miséria. Miséria só possível de superar-se pela solidariedade entre os homens”.

 

Logo, acordava eu para o fato de que a via mais curta e segura para a distribuição de renda e a inclusão social repousa na educação. E, como Peter Druker, fazia coro: “O reator da economia não é mais nem a fazenda, nem a indústria, nem o banco, mas a escola”. E, desde então, tornei-me testemunha, cronista e discreto ator de nosso projeto educacional, cearense e nacional. E, num desapaixonado balanço, posso depor. Displicentes históricos que éramos para com a educação, ensaiamos largos passos e realizamos sensível esforço.”

 

***

 

 

  “(...) Senhor Presidente, Senhores Deputados – em particular os proponentes a mim desta Comenda, Valdomiro Távora e Artur Bruno -, meus amigos e companheiros aqui presentes.

 

         Atos litúrgicos, como o aqui e agora celebrado, costumam ser um voltarmo-nos para trás e, a um tempo, mirarmo-nos para o horizonte àq nossa frente. E se hoje, ao receber esta Medalha, torno-me ícone de um coletivo projeto de todos nós até aqui, sei que, por outro lado, converto-me em expressão de uma vontade coletiva e de uma aliança proposta para o que há de vir. Em outros termos, torno-me símbolo do firmar de um contrato social, a solidarizar pluralidades e dissonâncias, na construção de projeto educacional mais consistente e mais amplo, a envolver o todo educacional: escolar e social.

 

         E isso me alegra e seduz. Afinal, não tenho procurado ser outra coisa senão costura e teia das aparentes contradições, que a vocação do ‘homem simbólico’ amalgama numa tensão unitária. Na verdade, em minha história, não tenho pregado senão caminhos como orquestração das dissonâncias, o regime de colaboração – vale dizer, de trabalho conjunto – e a negociação social.

 

Um pacto a todos nós envolver! Nele, que a educação seja direito social, assegurado a todos, do nascer ao morrer, num processo contínuo, em todas as modalidades – da educação infantil à superior, na Capital e em todos os recantos do Estado.

 

         Que, neste ‘contrato social’, superemos o estágio de ‘monólogo coletivo’, em que procuramos, cada grupo, agarrar-nos a nossas ‘verdades’. Ao navegar a ‘água grande’, que, se preciso for, reciclemos slogans já caducos, desconstruamos passados já mortos, e corajosamente, construamos o novo.

 

Se assim for, por mim, dar-me-ei por satisfeito. Terei comprovado que a condição de símbolo nos trará mais força que os fatos, as coisas e os cargos. E aí, já aos 60 anos, num misto de Y-Juca Pirama e menino de novo, terei comprovado, às margens do Jatobá, que é, com as cheias, que se sepultam águas pequenas, cacimbas e cercas a nos represar na solidão e no atraso!”

 

 

NÃO MATEM NOSSO RIO

COM TANTA POLUIÇÃO

 

Por fim, nos versos de Dalinha Catunda, o clamor de todos nós, num gritante “S.O.S” ao Jatobá:      

      

        

 

JATOBÁ PEDE SOCORRO

 

Eu sou um pobre rio,

Chamado Jatobá.

Aquele que, na infância,

Costumava lhe banhar.

 

Veja o meu estado.

Repare como estou.

Com águas tão poluídas,

Perdi o meu esplendor.

 

Já fui um dia um rio,

De águas claras e transparentes,

Onde peixes de muitas espécies

Nadavam alegremente.

 

Já matei a fome de muitos

Que pescavam em meu leito.

Acho que em minha vida,

Sempre fui um bom sujeito.

 

Já fui água corrente.

Também água de cacimba.

Por tudo que fui um dia,

Mereço uma melhor sina.

 

Preservem as minhas margens,

Para que eu possa viver contente.

Com poluição e desmatamento,

Serei apenas um rio doente.

 

 

JATOBÁ

 

 

Jatobá ainda menina,

Em tuas águas me banhei.

Sentada às tuas margens,

Mocinha eu namorei.

 

Quando o rio dava enchentes,

Dá saudades de lembrar.

Dos galhos da oiticica,

Pulava no Jatobá.

 

Menino pulava da ponte,

Fazendo pirueta no ar.

Caindo de braços abertos,

No fundo do Jatobá.

 

Jatobá quantas saudades,

Vaga dentro do meu ser.

Quantas vezes tu lavastes,

A seiva do meu prazer.

 

À sombra de tuas árvores,

Deitava-me a desfrutar,

O sopro de um vento lascivo,

Gostoso a me acariciar.

 

Aquilo era um paraíso,

Perdeu quem não esteve lá.

Lavando o corpo e a alma,

Nas águas do Jatobá.

 

 

S.O.S JATOBÁ

 

 

Esta é uma lenda antiga,

Que corre no meu lugar.

Gira de boca em boca,

mas vale a pena lembrar:

 

Quem nasce em Ipueiras,

E bebe do Jatobá,

Pode dar  voltas no mundo.

Mas sempre retornará.

 

Meu barquinho de papel,

Jogado na correnteza,

Aos meus olhos de menina,

Não havia maior beleza.

 

Menino pescava de litro,

Outras vezes de landuá,

Escondido atrás das moitas,

Ficava a me espiar.

 

Nunca perco a esperança,

Nem deixo de me encantar.

Com tudo que me fez feliz,

E pra todo o sempre fará.

 

Tomar banho lá na volta.

Tomar banho no Angelim.

Nas c’roas do seu Esmeraldo,

Ou nas c’roas do Matim.

 

Tudo isso é sonho distante,

E eu peço a população.

Não deixe que o Jatobá,

Seja apenas recordação.

 

Não matem nosso rio,

Com tanta poluição.

Não privem nossos filhos,

De viver a mesma emoção.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

J. Kleber

 

O MATO GRUDOU EM MIM

A KLEBER MATTOS

 

Por Walmir Rosa de Sousa

 

 

 

            Estou de volta, atrasado como alemão rindo de piada; mas quem  tarda não falha.

 

         Li seus últimos relatos antes dos da Auxiliadora, no entanto, as damas têm precedência nos comentários. Você, com sua memória prodigiosa e fotográfica, associada ao estilo ágil e escorreito, me fez sentar naquele avião e presenciar, em outra dimensão de tempo, seu encontro com o Antonio Frota Neto, do Seu Idálio, grande amigo.

 

         Pude compartilhar com você a alegria de encontrar um companheiro de infância num inusitado avião, depois de tantos anos, passando a conversar com ele como se o mundo tivesse parado no tempo e a infância tivesse voltado. Coisa boa!

 

         O Frota Neto é um ícone ipueirense. Além de jornalista, escritor (você não o acha com estilo parecido com o do Paulo Francis?), foi o primeiro “porta voz” de presidente que nossa terra produziu. Até agora, o único. Também tenho um orgulho danado de ser conterrâneo e amigo dele, apesar de distante.

 

         Quando conheci minha mulher, ela já o conhecia, da Assembléia Legislativa. Ela está lá no “Quase” encabeçando os agradecimentos dele às pessoas que o ajudaram nas pesquisas de memória: Liliana Maria Diogo de Sousa.

 

         Gostei demais da história do lobisomem. Ao lê-la, já tarde da noite, voltaram-me os medos da infância. Por um momento, um barulho me sobressaltou. Pensei que fosse a fera, com os olhos em brasa, rugindo, disposta a me pegar.

 

         É impressionante como você conseguiu, tão cedo saído do sertão, guardar na memória tantas situações e fatos acontecidos há quase meio século (por ouvir dizer, claro, pois não somos tão antigos...). Mas eu sou assim, também, amante do interior. Larguei o mato, mas ele não me larga; grudou em mim.

 

         Você falou no seu avô, seu João da Mata, lá da serra. Lembrei-me que havia, pras bandas da Baixa Funda ou Baixa Nova, na América, um irmão do seu avô, creio eu, Seu Zeca da Mata, que era o melhor banqueiro da região. Ninguém sabia fazer rapadura como ele. Meu pai, Wencery, todo ano valia-se dos serviços do Mestre Zeca para industrializar sua produção de cana, transformando-a em deliciosas rapaduras, alfenins e batidas maravilhosas, cujo gosto, ainda hoje, sinto na boca, em doce lembrança.

 

         Papai, tabelião, virava engenheiro (dono de engenho) que contratava um banqueiro (responsável pela fabricação do doce de cana) a seu serviço que não era dono de banco. Parece piada, um banqueiro trabalhando para um engenheiro...

 

         Seu Zeca da Mata era um homem afável, gostava de conversar, de sorriso franco.

 

         Eu sempre me lembrava de você. Em ’58, aluno interno do Colégio Cearense, alguém me disse que você morava, parece, na Av. Heráclito Graça. Agora, depois de tanto tempo, você aparece em Brasília, sem ter-se esquecido do nosso “país”, Ipueiras. Fico sempre curioso quando me deparo com um caso como o seu, desejoso de conhecer a saga de quem se desgarrou da terra e foi fazer o mundo.

 

         Sempre que viajo, por todo canto encontro cearenses. Gosto de conversar com eles. Pergunto logo, de saída: “Qual é o seu interior?”. A partir daí, é só saudade e recordação.

 

         Amigo, estou divagando. Vou parar por aqui. Parabéns pelas memórias, contos e causos. Fico no aguardo de mais... Você também faz parte do “Clube dos Escritores Ipueirenses”, com louvor.

 

        

 

Rua Padre Angelim (Foto de Edson Morais)

 

NOSSA “GUERRA DOS MENINOS”

 

 

Walmir Rosa de Sousa

 

 

        Há pouco, no Supermercado, fui reconhecido por uma conterrânea que há muitos anos não via, a Conceição Mourão (já avó), filha de Moacir e Fransquinha Mourão, nossos vizinhos. Falei-lhe do ipueiras.com,  do grupo e fiz-lhe o convite para comparecer.

 

        Ao voltar para casa, afloraram-me recônditas lembranças de coisas e fatos dos meus tempos de criança/adolescente.

 

        Vi-me no portão de casa arrumando a carga de caixas de fósforos no meu caminhão Ford ’55 (herdado do Marcondes, por ocasião de sua ida para o seminário) para conduzi-lo pelas calçadas da Rua Padre Angelim, juntamente com outros conterrâneos (Vavá Mourão, Zé Adair Farias; Bebeto e Bernardo Pinho; Miraugusto Farias e Melquisedec Cavalcante (que infelizmente nos deixaram tão precocemente) e outros, todos motorizados e devidamente habilitados.

 

        Estacionávamos nossos veículos no canteiro central defronte à casa do Seu Quincas Moreira, vizinha à Prefeitura, e íamos dar expediente no nosso escritório – um vetusto fícus benjamim que deve ter sido sacrificado por conta da peste dos “lacerdinhas”. Lá ficávamos a conversar “miolo de pote”, planejando brincadeiras e estripulias. Recebíamos (no alto) visitas de amigos que se associavam, formando uma turma grande e eclética, conhecida como a “Turma da Padre Angelim”, que rivalizava com a “Turma da Rua 15” formada por Helder Sabóia, Zé Maria e Zé Hélio Catunda, Zé Almir Terto, Wellington Esmeraldo, Moacir Catunda, Fernando Fontenelle e outros.

 

        Das brincadeiras muitas, aflora-me à lembrança uma que só acontecia de ano em ano. Bérgson Frota, cronista por vocação e por berço (filho do Jeremias Catunda e sobrinho do Frota Neto, que é), inspirado, descreveu a Guerra dos Meninos, onde cavaleiros, montados em talos de carnaúba, disputavam, armados de baladeira (estilingue, para os estrangeiros), munidos de carrapateiras (para nós caroços de mamona) o domínio da Rua das Flores, dos tempos dos lampiões a querosene.

 

        Nós (com sua licença e do Jorge Amado) também tínhamos a nossa Guerra dos Meninos. Como os tempos eram outros, mais modernos que os da crônica, nossa cidadela era outra - o jardim da casa do Seu Pedro Aragão - homem mais rico da cidade. A amurada do “Castelo”, com três frentes, se prestava integralmente para tal mister. Nossos exércitos eram de infantes; combatíamos a pé, escondíamo-nos por trás dos muros, empunhando nossas baladeiras, mas com outro tipo de balas. (Eram frutos de carnaúba, que a Prefeitura, de tempos em tempos mandava retirar a golpes de foice, atendendo a apelos dos donos de imóveis da cidade, que tinham os telhados danificados por pedras que jogávamos para derrubar e comer as carnaúbas “pretas”). Era a carnaúba caindo e indo para o bisaco.

 

        Nossas batalhas agora eram diurnas. Nosso escudo, o muro. Devidamente providos de munição estatal, liderados pelo General Neném Pereira (posto que mais velho e grande estrategista), combatíamos contra os meninos da Praça da Igreja até a munição acabar. Não havia vencedores, nem vencidos. No fim, era confraternização geral, sob as vistas indulgentes da Dona Dolores Aragão, que, estrategicamente, não se dava conta de tal batalha em seu território familiar...

 

        Obrigado, Dona Dolores, em nome de todos, por nos emprestar seu “Coliseu”, onde todos, daquele tempo sem tv, sem som e sem muita coisa, praticávamos jogos de guerra (sem violência e seu traumas) sem nos dar conta de que valores como organização e companheirismo ajudavam a moldar nosso caráter.

 

        Post Scriptum - Em visita à cidade, por ocasião da volta da Santa, em agosto de 2004, vi que o Fícus em frente à casa do Seu Quincas e a vetusta carnaubeira defronte à casa de Dona Brígida, cenários de nossas guerras, haviam tombado, infelizmente. Eram símbolos da nossa rua.