
Educação ambiental
A IMAGEM DE ESCOLA HOJE
Solange Rosa
A escola é uma instituição social que se caracteriza como um local de trabalho coletivo voltado para a formação das jovens gerações, diferente de outras tantas instituições sociais.
Nela, realizam-se dois importantes movimentos, aparentemente contrários, mas que se completam no papel social da instituição escolar: a) o movimento de conservação, graças ao qual se assegura às jovens gerações o acesso ao saber historicamente construído como legado da humanidade a ser incorporado e ressignificado; b) o movimento de transformação, que impulsiona à mudança, por via de um fazer pedagógico, que se associa a uma prática social mais ampla, confluindo na vertente de uma autêntica “práxis”.
A escola, ao longo dos anos (é verdade), tem-se orientado mais pelo movimento de conservação, pouco se dando ao trabalho de incluir, em sua ação, os necessários elementos críticos a desaguar num processo de “ressignificação”. Em outros termos, a releitura do saber transmitido historicamente acumulado. Dessa forma, vem ela, a escola, quase sempre, assumindo, postura e prática tradicionais.
Nesse contexto, que imagem nos está passando hoje a escola? Qual, dentre seus modelos vários, elegemos nós para a educação de nossos filhos? Que práticas desenvolve ela, em seu quotidiano, e sob que forma elas nos chegam? Como pais, que preocupações temos tido nós, em relação à escola onde estudam nossos filhos?
Tais questões trazem as preocupações daqueles pais que detêm o privilégio de escolher a escola de seus filhos. Mas não (sabemos nós) da grande maioria, que não dispõe dessa opção. É o caso da escola pública, que, via de regra, não apresenta diferencial entre suas unidades. Todas as unidades escolares, indistintamente, parecem ter o mesmo rosto, os mesmos problemas. A essa grande maioria, resta-lhe a sorte de garantir, pelo menos, o direito ao acesso pelas crianças, adolescentes e jovens - o que, a uma população cronicamente desassistida, já parece uma grande conquista... Mas isso, no entanto, não é tudo. Faz-se necessário que alcancemos dois outros patamares: a garantia da qualidade e o sentido, inerente ao "direito à educação".
Não existe um modelo ideal de escola. No entanto, podemos falar de alguns indicadores de qualidade que possibilitam a escolha de tal ou qual escola, pelo tipo de educação que nela se processa. Diríamos que escola com qualidade seria: “aquela que reúne em seu projeto – valores; respeito às diferenças; mantém critérios de igualdade a todos; apresenta ambiente esteticamente belo, acolhedor e limpo; é organizada, competente no que faz e orienta; acima de tudo, favorece a convivência; fortalece os vínculos de afetividade e de solidariedade” ( ROSA, 2004,p.18).
Para muitos, a escola é espaço de convivência ainda negado, a uma legião de crianças, adolescentes e jovens, em suas famílias, onde lhes faltam o carinho e a amizade cultivada no lar - quer pelas circunstâncias de vida de seus familiares, quer, por vezes, pela própria ausência dos pais. O núcleo familiar de onde provêm a maioria é cada vez mais restrito e nele se deixam de cultivar valores e atitudes importantes para a vida, cabendo, por isso, à escola, suprir parte dessas carências fundamentais à formação do educando.
Cabe também à escola, tornar–se um ambiente propício à educação dos limites, já que a família não favorece a base deste processo. “Os limites vão fazer com que a criança seja disciplinada. Ela aprenda a respeitar as pessoas, as regras sociais, além de ser respeitada. A disciplina, enquanto recurso formador de bons hábitos e atitudes, deveria começar desde o nascimento, com medidas simples, como por exemplo, a regularidade nos cuidados diários e nas rotinas do lar” (CONCEIÇÃO, 2005,p.10). Pois, a base para uma educação preventiva, contra a violência, está alicerçada na educação dos limites, desde a infância. O dizer “não” em certos momentos do processo educativo é um saber que deve estar associado à noção de liberdade; negar algo a uma criança em certos momentos, não indica rejeição ou agressão, mas demonstra uma crença na capacidade intelectual de quem está sendo educado.
Outro importante elemento da educação familiar e escolar é a afetividade, hoje tão difundida no campo da “inteligência emocional”. Educar para a afetividade faz aflorarem a sensibilidade, a criatividade e, sobretudo, o “aprender a ser”, que indica “(...) o temor da desumanização do mundo relacionada com a evolução técnica” (DELORS, 2000, p.99) e a possibilidade de negação ao que nos adverte Frei Beto, em sua constatação: “Educa-se hoje a razão sem educar o coração, originando pessoas intelectualmente adultas e sentimentalmente infantis, falsas e até agressivas”.
A compreensão do papel a se desempenhar pelos profissionais da educação escolar é decorrência direta da própria missão e função social da escola. Em outros termos, da eleição dos fins educacionais, que se materializar e se concretizam na ação educativa por quantos fazem o conjunto da escola. Na verdade, os fins não têm sentido, se desvinculados da ação. E a ação, por si só e isolada dos fins, torna-se mero pragmatismo ou espontaneísmo. Em suma, os fins, hão de estar imersos e visíveis no próprio “projeto formativo da escola”, pois, “se é verdade que cabe ao professor a tarefa primordial de realizar os fins da educação, também é verdade que a organização da escola tem uma grande responsabilidade. Uma vez que a escola pratica a educação como uma função coletiva e não individual, cabe perfeitamente uma definição dos fins da escola” (PAVIANI, 1988, p.36).
Educar é tarefa que envolve complexidade. E, nesta, impõe-se um olhar sobre a pluralidade do universo discente, com suas diferenças individuais como cidadãos habitantes de uma democracia, que se faz diversificada, complexa e plural. E é este horizonte o responsável pelos fins educacionais a serem buscados por todos nós, desenho de uma UTOPIA, para uma nova escola!
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CONCEIÇÃO, Kedna dos Reis. Educação dos limites na infância. Fortaleza: UVA, 2005 (monografia do Curso de Especialização em Educação Infantil).
DELORS, Jacques. Educação. Um tesouro a descobrir. Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre educação para o século XXI. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: MEC: UNESCO, 2000.
PAVIANI, Jayme. Problemas de filosofia da educação. Petrópolis,RJ: Vozes, 1988.
ROSA, Solange. A imagem dos pais frente à escola dos filhos. In: Revista Escola de Pais do Brasil. Fortaleza: Escola de Pais do Brasil/CE, 2004 ( p.18).
Solange Rosa é pedagoga, mestre em educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, professora aposentada da Universidade Estadual do Ceará, sócia e diretora da EPSILON Serviços Educacionais.