Grupos

 

TIPOS POPULARES EM IPUEIRAS

 

 

 

Cilly ao centro, Jatobá cheio à esquerda

 

 

SEM VAGUEIO, PARA NÃO PERDER O ESTEIO 

 

De Auxiliadora Carvalho para Walmir Rosa

       

        Que companheiro de boa cepa, encontrei, nos meus passeios de jogar conversa no papel, lá onde um conto aumenta um ponto, para o encanto de andarilhos que gostam de ler e escrever. Asseguro-lhe que você também sabe, com maestria, somar, subtrair, multiplicar e dividir! Pois, contente estou por ter multiplicado pelo maior número da sua generosidade, gerada nas calçadas da nossa vizinhança, bisbilhoteira porém terna e solidária, da Pe. Angelim. Incluo-me, ouviu? Faz parte de tal arte!

 

        Até o próximo passeio, sem vagueio, para não perder o esteio. Assim, falava o louco inteligente Abrãao Lincoln de Medeiros. Você se lembra desta figura? Narrei alguns causos sobre ele, inclusive do peso da figura histórica que lhe deu o nome de batismo.

 

        Outro personagem de uma vida curiosa e silenciosa é a do Liz da Tei-tei. Sem alarde, como o preconceito da nossa Ipueiras conservadora, chamavam-no à época de "o mulherzinha". Lembras também dele? Ipueiras, agora é liberada total. Fala-se até de GLS com maior normalidade. A cidade ficou grande e rebentou muitos muros...  Tem AIDS e também outros parasitas indesejados.

 

 

Walmir Rosa menino

 

CURIOSAS FIGURAS DE NOSSA TERRA

 

De Walmir Rosa para Auxiliadora Carvalho

 

        Lembro-me, sim, do Liz Tei-tei (filho de Dona Maria Tei-tei, copeiro de Dona Maria, esposa do seu Luiz Malaquias, pais do Jeremias, Jonas, Arimatéa, Lutim e Dalva. Às vezes, nos momentos de vagueação intelectual, vejo sua figura alta e esguia, a cantar Núbia Lafayette e Emilinha Borba, ferro em brasa na mão, a passar as roupas dos meus vizinhos.

       

        Recordo-me do Abraão, do Coça-Coça, do "Passo Condor" (não era “pássaro”), da Boré, do Joel (figura ímpar), todos felizes e folclóricas figuras de nossa terra. São heróis anônimos, parte da história, protagonistas de acontecidos que perduram no futuro. Prova disso é já faz mais 50 anos  que se fala neles. Merece cada um, um livro.

 

        Da Boré, pedinte hippie (mesmo sem ela mesma saber). Certa feita, eu menino, ao lhe perguntar; “o que tu és?”, dela ouvi: "Eu sou à-toa. Me dá um pããão!!!". Passei muito tempo achando que ela trabalhava num circo. Que fosse atriz!!!

 

         Relembrando grandes e curiosas figuras de nossa terra, tinha muita admiração por “Seu Salu” - empresário do ramo de transporte - com sua frota de jumentos, transportando materiais de construção, a promover o progresso de nossa cidade. Merece uma crônica. Quem sabe você, que lá permaneceu mais tempo que eu, não escreveria, para nosso deleite!

 

        Fica o desafio.

       

 

 

 

Educação ambiental

 

A IMAGEM DE ESCOLA HOJE

 

 

Solange Rosa

 

  

 

          A escola é uma instituição social que se caracteriza como um local de trabalho coletivo voltado para a formação das jovens gerações, diferente de outras tantas instituições sociais.

 

         Nela, realizam-se dois importantes movimentos, aparentemente contrários, mas que se completam no papel social da instituição escolar: a) o movimento de conservação, graças ao qual se assegura às jovens gerações o acesso ao saber historicamente construído como legado da humanidade a ser incorporado e ressignificado; b) o movimento de transformação, que impulsiona à mudança, por via de um fazer pedagógico, que se associa a uma prática social mais ampla, confluindo na vertente de uma autêntica “práxis”.

 

         A escola, ao longo dos anos (é verdade), tem-se orientado mais pelo movimento de conservação, pouco se dando ao trabalho de incluir, em sua ação, os necessários elementos críticos a desaguar num processo de “ressignificação”. Em outros termos, a releitura do saber transmitido historicamente acumulado. Dessa forma, vem ela, a escola, quase sempre, assumindo, postura e prática tradicionais.

 

         Nesse contexto, que imagem nos está passando hoje a escola? Qual, dentre seus modelos vários, elegemos nós para a educação de nossos filhos? Que práticas desenvolve ela, em seu quotidiano, e sob que forma elas nos chegam? Como pais, que preocupações temos tido nós, em relação à escola onde estudam nossos filhos?

 

         Tais questões trazem as preocupações daqueles pais que detêm o privilégio de escolher a escola de seus filhos. Mas não (sabemos nós) da grande maioria, que não dispõe dessa opção. É o caso da escola pública, que, via de regra, não apresenta diferencial entre suas unidades. Todas as unidades escolares, indistintamente, parecem ter o mesmo rosto, os mesmos problemas. A essa grande maioria, resta-lhe a sorte de garantir, pelo menos, o direito ao acesso pelas crianças, adolescentes e jovens - o que, a uma população cronicamente desassistida, já parece uma grande conquista... Mas isso, no entanto, não é tudo. Faz-se necessário que alcancemos dois outros patamares: a garantia da qualidade e o sentido, inerente ao "direito à educação".

 

         Não existe um modelo ideal de escola. No entanto, podemos falar de alguns indicadores de qualidade que possibilitam a escolha de tal ou qual escola, pelo tipo de educação que nela se processa.  Diríamos que escola com qualidade seria: “aquela que reúne em seu projeto – valores; respeito às diferenças; mantém critérios de igualdade a todos; apresenta ambiente esteticamente belo, acolhedor e limpo; é organizada, competente no que faz e orienta; acima de tudo, favorece a convivência; fortalece os vínculos de  afetividade e de solidariedade” ( ROSA, 2004,p.18).

 

         Para muitos, a escola é espaço de convivência ainda negado, a uma legião de crianças, adolescentes e jovens, em suas famílias, onde lhes faltam o carinho e a amizade cultivada no lar - quer pelas circunstâncias de vida de seus familiares, quer, por vezes, pela própria ausência dos pais. O núcleo familiar de onde provêm a maioria é cada vez mais restrito e nele se deixam de cultivar valores e atitudes importantes para a vida, cabendo, por isso, à escola, suprir parte dessas carências fundamentais à formação do educando.

 

         Cabe também à  escola, tornar–se um ambiente propício à educação dos limites, já que a família não favorece a base deste processo. “Os limites vão fazer com que a criança seja disciplinada. Ela aprenda  a respeitar as pessoas, as regras sociais, além de ser respeitada. A disciplina, enquanto recurso formador de bons hábitos e atitudes, deveria começar desde o nascimento, com medidas simples, como por exemplo, a regularidade nos cuidados diários e nas rotinas do lar” (CONCEIÇÃO, 2005,p.10). Pois, a base para uma educação preventiva, contra a violência, está alicerçada na educação dos limites, desde a infância. O dizer “não” em certos momentos do processo educativo é um saber que deve estar associado à noção de liberdade; negar algo a uma criança em certos momentos, não indica rejeição ou agressão, mas demonstra uma crença na capacidade intelectual de quem está sendo educado.

 

         Outro importante elemento da educação familiar e escolar é a afetividade, hoje tão difundida no campo da “inteligência emocional”. Educar para a afetividade faz aflorarem a sensibilidade, a criatividade e, sobretudo, o “aprender a ser”, que indica “(...) o temor da desumanização do mundo relacionada com a evolução técnica” (DELORS, 2000, p.99) e a possibilidade de negação ao que nos adverte Frei Beto, em sua constatação: “Educa-se hoje a razão sem educar o coração, originando pessoas intelectualmente adultas e sentimentalmente infantis, falsas e até agressivas”.

 

         A compreensão do papel a se desempenhar pelos profissionais da educação escolar é decorrência direta da própria missão e função social da escola. Em outros termos, da eleição dos fins educacionais, que se materializar e se concretizam na ação educativa por quantos fazem o conjunto da escola. Na verdade, os fins não têm sentido, se desvinculados da ação. E a ação, por si só e isolada dos fins, torna-se mero pragmatismo ou espontaneísmo. Em suma, os fins, hão de estar imersos e visíveis no próprio “projeto formativo da escola”, pois, “se é verdade que cabe ao professor a tarefa primordial de realizar os fins da educação, também é verdade que a organização da escola tem uma grande responsabilidade. Uma vez que a escola pratica a educação como uma função coletiva e não individual, cabe perfeitamente uma definição dos fins da escola” (PAVIANI, 1988, p.36).  

 

         Educar é tarefa que envolve complexidade. E, nesta, impõe-se um olhar sobre a pluralidade do universo discente, com suas diferenças individuais como cidadãos habitantes de uma democracia, que se faz diversificada, complexa e plural. E é este horizonte o responsável pelos fins educacionais a serem buscados por todos nós, desenho de uma UTOPIA, para uma nova escola!

 

        

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

CONCEIÇÃO, Kedna dos Reis. Educação dos limites na infância. Fortaleza: UVA, 2005 (monografia do Curso de Especialização em Educação Infantil).

 

DELORS, Jacques. Educação. Um tesouro a descobrir. Relatório  para a UNESCO da Comissão Internacional sobre educação para o século XXI. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: MEC: UNESCO, 2000.

 

PAVIANI, Jayme. Problemas de filosofia da educação. Petrópolis,RJ: Vozes, 1988.

 

 ROSA, Solange. A imagem dos pais frente à escola dos filhos. In: Revista Escola de Pais do Brasil. Fortaleza: Escola de Pais do Brasil/CE, 2004 ( p.18).

 

 

Solange Rosa é pedagoga, mestre em educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, professora aposentada da Universidade Estadual do Ceará, sócia e diretora da EPSILON Serviços Educacionais.

 

 

 

 

 

 

O VOCABULÁRIO DO RIO JATOBÁ

 

 

Jean Kleber Mattos

 

 

            Numa manhã, fomos ao banho, no rio Jatobá - eu, meu pai, o Zaca e o Assis.

 

            Quero apresentar dois membros da comitiva. O Zaca é Zacarias Pereira de Souza, filho de “seu” Gustavo, que morava próximo ao rio. Trabalhava lá em casa. No futuro, integraria o contingente da gloriosa Marinha do Brasil, no Rio de Janeiro. Assis é Francisco de Assis Fernandes, filho de “seu” José Fernandes, que era um próspero sitiante na serra. Era estudante interno do Educandário. Assis viria a se ordenar padre em Roma, pela Ordem dos Paulinos, alguns anos depois. Hoje é jornalista prestigiado em São Paulo, especializado em televisão. É casado. Tem filhos e netos.  

 

            É admirável o número de palavras e conceitos que uma criança pode aprender num simples banho de rio. A criança aprende apenas o básico, e, no correr da vida, os sinônimos mais sofisticados vão se incorporando ao seu linguajar. Beira do rio. Margem. Água limpa. Límpida. Cristalina. Piaba. Peixinhos. Filhotes de peixe. Alevinos. Remanso. A curva do rio. Águas mansas. Plácidas. Poço. Profundidade. Perigo. Saber nadar. A coroa do rio. Os ribeirinhos pronunciam a “c’rôa” do rio. Banco de areia. Cacimba. Cavar a água. Lençol freático.

 

            Aquele era um dia cheio de novidades. O banho transcorria à sombra de grandes árvores que margeavam o rio. Logo alguém viu um enorme “enxu” fixo em um galho de árvore. Enxú. Casa de marimbondo.Vespeiro. Mel. Cria-se que ao produzir-se fumaça os marimbondos fugiriam ou seriam inibidos de atacar. Havia apenas fósforos. Não havia papel. Enfim encontramos algo bem combustível. Esterco seco de vaca. Produzida a fumaça e afastados os insetos, sobreveio a captura do enxu. Decepção! Apenas formas encasuladas restavam dentro. Inúmeras. Nada de mel. Tamanho não é documento. Crime ecológico. Colméia em fase de reprodução. Marimbondos são aliados dos agrônomos contra as pragas da agricultura. Predam lagartas. Impossível para nós, naquele estágio, esse entendimento.

 

            Uma porca e três ou quatro bacorinhos atravessaram o rio. Um espetáculo enternecedor. Nadam bem. Quase submersos, apenas o focinho emergia. Ninhada de porcos. Filhotes de porco. Mais tarde, aprendi que o coletivo é vara. Se perguntado naquele dia, “porcaria” seria a resposta. Se muito, eu teria uns sete anos naquela época.

 

            Um dia, o rio jatobá transbordou. A cheia do rio. A correnteza. Flocos de espuma. Pouquíssimos, pois ainda não conjugávamos o verbo ‘poluir’. Meu padrinho de crisma, José Costa Matos, levou-me para ver. Minha mãe nos acompanhava. O padrinho José foi o herói do dia. Entusiasmado com o espetáculo das águas, lançou-se ao rio, enfrentando a correnteza. Nadou nas águas perigosas. Parecia um peixe. Um dia inesquecível para mim. O nadador seria em futuro próximo o famoso Costa Matos, poeta e escritor reverenciado nos meios literários cearenses. Se bem me lembro, naquela época ele acabara de lançar o primeiro livro de poesias, “Pirilampos”.

 

            Hoje o vocabulário das crianças é mais rico, porém cheio de palavras horrendas. Poluição. Desmatamento. Assoreamento. Eutrofização. Esgoto a céu aberto. Este é o vocabulário dos rios brasileiros no século XXI. Não mais piabas, nem água limpa. Não mais o banho seguro. E porquinhos? Ainda atravessam o rio? Haja coragem...

 

            Outras palavras, porém, começam a se incorporar com sabor de esperança. Educação. Saneamento básico. Consciência ecológica. Reflorestamento. Campanhas. Solidariedade. Pacto de não agressão.

 

 

 

SANTO CASAMENTEIRO

 

Dalinha Catunda

 

 

 

Meu Santo Antônio querido,

Tenho por ti devoção.

Por isso, suplico e te imploro

Um pouco de compaixão.

 

Estou ficando passada,

Com a validade vencida

E um casamento agora

Seria uma boa pedida.

 

Não sou lá muito exigente,

O que quero é me casar.

Se for de segunda mão,

Mesmo assim vou aceitar.

 

 

O que não quero, meu santo,

É ficar para titia.

Me poupe desse vexame,

Me livre dessa agonia.

 

 

Seja até uma união,

Sem noivado e casamento.

A esta altura, meu santo,

Topo até ajuntamento...

 

Comprei velas e mais velas

E tenho um pressentimento:

Antes de que feche junho,

Vai me pintar casamento.

 

Lembrei-me agora, meu santo,

E isso não vou esquecer:

Assim que a graça alcançar,

Teu menino vou devolver!

 

Daquele pote com água,

Também vou te resgatar.

Flores e toalha rendada,

No oratório vão te aguardar.

 

 

 

 

 

 

A VIAGEM ENCANTADA

 

 

Jean Kleber Mattos

 

 

            Saudade do trem de 1950 viajando para Fortaleza. Viagem de trem era viagem elegante. Primeiro foi a Maria Fumaça. Denominação inspiradíssima. Sempre achei aquela máquina muito doida. Uma complicação só. Depois veio a máquina a Diesel. Mais moderna. Para mim, a Maria Fumaça tinha mais estilo. 

 

            Houve tempo em que o trem que passava em Ipueiras tinha primeira classe. Poltronas cobertas e confortáveis. O que mais me impressionava no trem era o carro restaurante. Muito bacana almoçar junto à janela vendo o sertão passar. O desfile da natureza.

 

            Deixando Ipueiras, nem bem tomávamos gosto na viagem, o trem parava. Era a estação Abílio Martins. Cidade pequena. Depois vinha o Ipu. Mais bacana. E aí, Cariré! A terra do arroz-doce. Na praça da estação, tabuleiros alinhados a céu aberto com os pratos cheios à mostra. Correria. O trem demorava pouco. Passageiros pulando da composição e correndo em direção à “iguaria”. Comida apressada.

 

            O trem soava um apito anunciando a partida. Correria de volta. Nunca experimentei aquele arroz. Minha mãe não aprovava. Apenas apreciava o espetáculo gastronômico. Tínhamos nosso “farnel” próprio. Farofa de frango. Deliciosa. Em Miraíma, a fartura do peixe. Açude. Lembro do coro dos vendedores de água portando uma quartinha e um copo de alumínio. O mesmo copo para todos. Indução de imunidade. A água mineral com gás era novidade para mim. Não matava a sede. Nota dez para a água da quartinha. Olhágua! Olhágua!

 

            Numa estação ou outra, se muito, crianças do local atiravam areia no trem que passava. Às vezes pedras. O subdesenvolvimento gosta de marcar presença.

 

            A composição chegava a Sobral. Cidade grande. Quitutes mais sofisticados. Havia o “Colchão de Noiva”. Era uma cocada especial e deliciosa, hoje atração turística em Fortaleza. A vegetação natural do Vale do Acaraú, sempre me encantou. Árvores esparsas de copa horizontal. Como na África. Pude comparar no futuro.

 

            Sentíamos Fortaleza mais próximo quando chegavam Itapipoca, a Pedra do Frade, e o vale do Curu. Daí, Caucaia. O holofote da Base Aérea varrendo os céus. A luz vermelha das torres. Agora sim, estávamos chegando. Sempre à noite. A grande estação. Deslumbramento! Os chapeados, carreteiros com chapéu típico, com placa metálica numerada e bem polida, nos esperavam. Os carros de aluguel, Citroen. A Pensão do Norte, de “seu” Hermógenes, na rua Barão do Rio Branco, lá estava. Éramos velhos fregueses. Recepção amiga.

 

            No dia seguinte, a incursão à Loja de Variedades e à “Quatro e Quatrocentos”. Lanchonetes! O cheiro de pastel. O molho do cachorro quente. Delicioso! Não há igual nos dias de hoje. Sorvetes enormes! Brinquedos de plástico. Carrinhos de corda. A frota de carros de aluguel. Um show para arregalar os olhos de qualquer criança. Só tive medo do chuveiro. Nunca tinha visto um. Visitas aos parentes. Visitas aos escritórios comerciais. Meu pai já preparava o êxodo.

 

            O regresso a Ipueiras. Acordar cedo. Enjôo passageiro. A partida do trem. Caminho de volta. Tudo de novo, ao revés. Um caminho pontilhado de nomes indígenas. Alguns graciosos, outros engraçados. Itapipoca era meu favorito. Miraíma parece nome de gente. Chegada prevista para as três da tarde. O trecho Ipu-Ipueiras era espacialmente mágico. O trem sacudia levemente e marcava compasso: Tatá-tatá, tatá-tatá...Raios dourados do sol espreitavam por trás de pequenas nuvens. Um céu de Constantino do tipo “in hoc signo vinces” conforme minha avó me mostrara numa ilustração da História do Cristianismo.

 

            Eu estava dando tratos à bola. O que me esperava afinal, em Ipueiras? Minha avó Luizinha? Os coleguinhas do Educandário? Os banhos de tina, de rio e de chuva na rua? O banco de “notas” feitas com carteiras de cigarro? As cerimônias de “Te Deum” ao entardecer? Eu me lembrava do deslumbramento de Fortaleza e sorria. Mais dia menos dia, viveria lá. Mas um aperto no coração me fazia lembrar que Ipueiras havia, definitivamente, me conquistado. O trem fez uma longa curva. Lá longe, um morro. No alto, a figura branca com os braços abertos. O Cristo de Ipueiras dando as boas vindas!

 

            Puro encantamento!

 

IPUEIRAS JUNINA

 

 

Dalinha Catunda

 

 

 

        Ano passado, participei como jurada, das quadrilhas populares e do evento oficial organizado pela Prefeitura Municipal de Ipueiras.

 

        As quadrilhas populares tiveram como cenário a Praça da Estação. Quem comandava o evento era Edílson Sales, radialista, poeta e imitador.

 

        Vi, no grupo que representava o Bairro Vamos-Ver, um pouco das antigas quadrilhas. As meninas vestiam-se de chita. E os rapazes, de vaqueiros, com uma camisa estampada por baixo, caracterizando, de certa forma, nosso matuto. Dançavam ao som de forrós onde o tema principal era o próprio vaqueiro.

 

        Os grupos apresentaram-se muito bem. Muita animação. E eu matei um pouco das muitas saudades que sentia das antigas festas de São João.

 

        Já o evento organizado pela Prefeitura, sob o comando de Antônio Neto, Secretário de Cultura, tinha um ar de escola de samba do Rio de Janeiro e um jeitinho dos grandes rodeios.

 

        Arquibancadas, camarotes, jurados, numa bancada bem decorada no alto. Muitas barracas, uma banda de forró animando a antiga  Praça Getúlio Vargas.

 

        Luzes por todo lado, e a queima de fogos iluminando magicamente os céus de Ipueiras. O grupo que mais me agradou foi o Rosa Vermelha da América.

 

        Fiquei honrada com os convites, mas me faltou um pouco das velhas quadrilhas. Hoje elas são temáticas. O brilho o e o luxo copiado via televisão vão, aos poucos, roubando a singeleza do folclore e enterrando as tradições.                    

           

 

  

 

RUMO AO HEXA BRAIL

 

 

  Junho é o mês de muitas festas e noites estreladas. É mês de se festejarem Santo Antônio, São João e São Pedro.

 

  Junte-se a nós. Venha e traga a criançada para se divertir, na barraquinha das brincadeiras. Tem arrasta-pé no salão e comidas típicas de montão.

 

  Em nosso “arraiá”, tem tudo isso! Venha logo aproveitar.

 

  Venha ser a sexta estrela da noite: “Rumo ao Hexa Brasil”

 

 

BANDA:   Bicho   do   Forró

DIA:   16/06/06   (sexta-feira)

Horário:20:00   h

Local:   G.   C.   D.   I.

Parque do Cocó

 

 

SEMANA VIRTUAL DO MEIO-AMBIENTE

 

Auxiliadora Carvalho

 

         Em Fortaleza, estamos na Semana do Meio Ambiente, com uma programação rica de passeios, pic-nics e palestras no Parque do Rio Cocó. Que acham vocês da idéia de fazermos virtualmente uma programação similar sobre a temática "Salve o Rio Jatobá"? Nessa programação, solicitaríamos das autoridades locais – prefeito, secretários da municipalidade ipueiresnse, além de educadores e moradores - depoimentos, idéias e sugestões com espaços para comentários.

 

       Quem sabe daí poderá surgir, uma Carta de Compromisso em Defesa do Rio Jatobá? Com considerações de importância para o meio ambiente e entretenimento e lazer e um rol de propostas exeqüíveis, proteção de suas nascentes, medidas rigorosas contra agressões ao seu leito, etc... No trecho urbano, uma Avenida Beira Rio, urbanizada e rearborizada, com locais mirantes, para ver o por do sol, balneário (para banhos mesmo no verão) ...Incentivos fiscais para as residências abrirem seus quintais arborizados e ajardinados com calçadas bem feitas e usáveis. Sistema de Vigilância e proteção do meio ambiente e dos usuários... Assim como fizeram com o Açude do Osmon? (nome que aprendi quando criança), hoje bairro chique de Ipueiras.

 

       Veja quantos quintais se transformariam em jardins! Creio que os tempos mudaram as visões de mundo... Fortaleza, por longos anos, deu as costas para o mar... Os quintais das casas da Praia de Iracema (a de maior densidade), foram demolidas após o Plano de Desenvolvimento Metropolitano - PANDIRF - 1979 - consolidado no atual código urbano , votado no Governo Municipal de  Lúcio Alcântara!

 

 

 

EM ADESÃO À CAMPANHA PROPOSTA

 

Solange Rosa

      

 

       Em adesão à campanha "Salvemos o Jatobá", endosso as idéias de Auxiliadora e Jean Kleber, acrescentando mais algumas pistas de ações concretas, como:

 

 

a) formação de grupos de crianças, jovens para realizarem uma limpeza simbólica às margens do rio coletando material poluente. Esta ação pode deve ser divulgada e documentada com fotos para que se comece uma ação de "conscientização" da poplulação;

 

b) debates na radio local abrindo espaço para a população se colocar nas ações a realizar em defesa do rio;

 

c) lista de assinaturas da população para solicitar, do poder municipal, leis de proteção ao rio e de despoluição.

 

      No momento são estas ações, depois lançaremos outras.

 

 

 

 

O CRISTO, O JATOBÁ E A ESTAÇÃO DE TREM

 

Walmir Rosa de Sousa

 

            Os três maiores símbolos de Ipueiras, sem desmerecer os demais valores, para mim, com certeza, são, pela ordem, o Cristo, o Jatobá e a Estação de Trem. E você, meu caro Kleber, dele tratou com maestria, nas suas duas últimas crônicas.

 

            No “Vocabulário do Rio Jatobá”, nos fez um minudente relato de seu fantástico banho de rio, acompanhando Seu Neném, seu pai; o Zaca, (irmão do Fernando, filho de seu Gustavo, que morava próximo ao Cristo, irmão de Maria Helena); e o Assis, irmão do Sebastião, meu amigo, filho de Seu Zé Fernandes, do Sítio Lagoa, na Serra. Este, bom cavaleiro e bom de copo (nos dias de feira), dono do melhor cavalo marchador (nos anos 50) do município, que, nos sábados, levava seu proprietário, numa marcha só, de volta ao lar, sem precisar de guia − conta a lenda.

 

            Cada palavra sua me fez voltar no tempo. Curimatãs, piaus, traíras, cangatis, carás, cabeças de prego eram os peixes da época. A importação econômica e cultural fê-los ser substituídos pelos tucunarés, carás-tilápias, pecadas, tambaquis de hoje. Aqueles, no entanto, resistem tal qual o sertanejo.

 

            Bom relembrar os enxuís, com seu saboroso mel, prêmio precedido de certeiras ferroadas, minoradas pelo fumego que espantava os rebeldes marimbondos, utilizando esterco seco de gado (que também servia, à noite, para espantar as muriçocas). Lembrei-me das apostas, para quem atravessasse o rio primeiro; das cacimbas de areia, da colheita de pedras arredondadas, para munição da bala­deira, que se prestaria para abater lagartixas, calangos e passarinhos, um tempo em que não se tinha noção de preservação ecológica. Os saltos dos galhos das oiticicas, nosso trampolim matuto. Bons tempos, enfim.

 

            O trem (ah! o trem!) é, talvez, o símbolo que mais me encanta na minha Ipueiras de antigamente. Tenho sempre vontade de escrever sobre ele, mas a preguiça e o medo de não fazê-lo direito me desvanecem. Foi bom não fazê-lo.  Pude desfrutar, com você, da viagem inaugural de ida e volta a Fortaleza, comendo poeira, fumaça e as iguarias da viagem (tapioca, quebra-queixo, colchão-de-noiva, peixe frito) com guaraná Volga, do Ipu e guaraná Sport, de Sobral, para, alfim, ser recebido, de braços abertos, pelo nosso Cristo.

 

            Um deleite. Parabéns, e escreva mais.

 

 

 

Arimatéia Catunda (foto do acervo de Bergson Frota)

 

A VOZ DE IPUEIRAS

 

Dalinha Aragão

(A José Arimatéia Catunda)

 

 

As desventuras da vida

Não arrancaram o sorriso

Que ilumina seu rosto.

Continua seu ofício.

P’ra ele não é sacrifício

Permanecer em seu posto

 

Sei que, em sua humildade,

Até hoje ainda não sabe

Seu verdadeiro valor.

Foi tal ser iluminado

Que embalou, no passado,

Os nossos sonhos de amor.

 

Foi ele a trilha sonora

Das tristes e alegres histórias

Que nossa gente viveu.

Foi ele a alma da praça,

Que se enchia de graça

A cada anoitecer.

 

Foi ele o som de Ipueiras

Naqueles anos dourados.

Ouvíamos recentes sucessos

Por ele selecionados.

Era Ipueiras cantando

Como se um mundo encantado.

 

É ele o valente guerreiro,

Que animou sem parar,

Mantendo, com alegria,

A Vale do Jatobá,

Rádio que deu vida e voz

Ao nosso pequeno lugar.

 

É ele uma andorinha,

Sozinha fazendo verão,

Espalhando suas músicas

Como nos tempos de então,

Arrancando doces suspiros

De quem viveu de emoção.

 

É ele a saudade constante

Dos incorrigíveis amantes,

Que sonham com antigos amores.

É ele o bolero tocado,

Tocando-nos o fundo da alma,

Na busca dos velhos sabores.

 

Orquídeas, rosas, violetas

Certamente não foram em vão.

Formam um buquê de saudades

Que trago em meu coração.

Regadas com todo o carinho,

Por certo não murcharão.

 

Às vezes, me pego cantanto,

Em meu jeito de cantar...

“Por que não paras relógio?”

Não cessa o teu badalar!

Quero passear na avenida,

Ouvindo a rádio tocar.

 

Mas a avenida está distante

E até de nome mudou.

Do testamento de Judas,

Só a saudade ficou.

“E agora José?”

Será que o sonho acabou?

 

A Arimatéia Catunda,

Minha eterna gratidão.

Pelo som de suas músicas

Gerando amor e paixão.

Como eu, muitos amigos

Viveram a mesma emoção.

 

 

 

 

 

 

VILA DE MATRIZ DE SÃO GONÇALO

DA SERRA DOS COCOS

 

Walmir Rosa

 

 

  Os banhos no Jatobá são inesquecíveis para cada um de nós. É assunto que vai render, creio, durante muito tempo. Até porque virão novos banhos. Gostei, por outro lado, da  intervenção poética da Dalinha, ao comentar nossa prosa, remetendo-a às conversas de alpendre, na boca-da-noite, nas fazendas. Nada a estranhar. Ela é a nossa dileta musa.

 

***

 

  Esta semana, esteve comigo o Expedito, conterrâneo das bandas do Buriti, irmão do Manuel, filho do Seu Antônio Clara, antigo meeiro e depois vizinho do meu pai. Li para ele, com empolgação, seu texto sobre o Jatobá. Ele, lógico, adorou. Na oportunidade, comentou, enriquecendo a lenda do cavalo do Seu Zé Fernandes, pai do Assis e do Sebastião (havia também uma filha, da qual não me recordo o nome), que o bicho também bebia cerveja, caindo na farra junto com o dono. Ele sabe. Morava próximo.

 

  Falei no Buriti. Fica na Serra da Ibiapaba. Lugar abençoado. Água farta, terras aráveis. Clima Frio. Gente hospitaleira. Vários sítios produtivos. Situado entre a Lagoa dos Tavares, ao norte, e a Boa Vista, ao sul e poente. Dos habitantes de Ipueiras tinham sítio lá: Pe. Belarmino (que  adquiriu o seu dos filhos do Seu José Zacarias Martins);  papai (que o comprou, em pedaços, do Seu Antônio Zacarias e do seu Braz Martins) e Seu Guarany, que também adquiriu o seu da família Martins. Os sitiantes restantes são naturais do lugar e adventícios que lá ficaram pelo casamento, seu e dos descendentes. Os Claras, os Marianos, os Vitores. Tudo gente da melhor qualidade. Amigos leais.

 

  Buriti fica a seis Km da "Vila de Matriz de São Gonçalo da Serra dos Cocos". Ô nome monarca! Teve vida marcante no século XIX, sendo uma das Freguesias do Ceará "A freguesia de São Gonçalo" que ia do Crateus, Serra da Ibiapaba, Santa Quitéria, etc. Um mundaréu de terra. Seus habitantes foram dizimados na famosa guerra dos Mourões e sobre seu chão - em atitude bíblica - aplicado sal para que, simbolicamente, nada lá mais florescesse. A maldição tem custado a passar. Mas, se Deus quiser, vai acabar.

 

  Pro outro lado do Buriti, no sentido norte - depois da Lagoa dos Tavares e das Lages -, encontramos Nova Fátima, hoje florescente Distrito de Ipueiras. Nome posto em homenagem à passagem de Nossa Senhora de Fátima, que esteve na sede municipal em 1953. Com todo respeito à Santa, gostava mais do nome antigo: ENGENHO DOS CAPUCHUS. Nome que nos faz relembrar os enxuís, da beira do rio, dos quais você falou, amigo Kleber. Novamente voltamos ao Jatobá...

 

 

 

 

SÃO GONÇALO DA SERRA DOS COCOS
 
 
Pe. Geraldo Oliveira Lima
 
 
 
São Gonçalinho da Matriz
Achado ao pé da palmeira,
Por caçadores famosos,
Na grande serra altaneira.
 
Levaram o São Gonçalinho
Com grande empenho e carinho,
Todo mundo bem alegre,
Com o pequeno santinho.
 
Quando foi no outro dia,
O povo com alarido
Foi rezar no oratório:
O santo tinha fugido.
 
Procuram por todo canto.
Correm ao pé da palmeira...
Pois no mato estava o Santo
Bem simpático e prazenteiro. 
 
 
(Do Livro “Contemplação”, do ipueirense 
Padre Geraldinho, recentemente lançado, 
conforme nota do Diário do Nordeste abaixo a este 
Blog enviado por Dalinha Catunda). 

 

 

 

COLUNA

Satélite

(31/5/2006)

Diário do Nordeste


Contemplação

“Contemplação” é o título do novo trabalho literário do padre Geraldo Oliveira Lima (padre Geraldinho), lançado recentemente na Casa do Ceará, em Brasília. O livro traz poesias de ordem intimista.

Walmir e Solange Rosa, com Seu Otávio (Sítio Buriti)

 

AS LIÇÕES DO VELHO

JOAQUIM ALVES

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

                       

            Final dos anos 60.  Graduava-me eu em direito e em le­tras. Após as festas de formatura, encontrava-me, entre camponeses, em plena zona rural cearense, em papos sobre uma seca talvez iminente.  A alusão de todos era ao “ventão do 58”, lembrando um sinal de seca braba naquele ano.  Papo vai, papo vem, eis que entra na roda o “Velho Joaquim Al­ves”, que até então se mantinha calado.  Ele, discordante, resmunga: “Que seca que nada, meninos! O vento é o cavalo da chuva!”

 

            Na roda dos mais novos, calaram-se todos.  Em mim, (es­tranho!) calou-me o impacto da surpresa de uma metáfora, ali entre analfabetos, não esperada por mim. Até então, me­táfora era-me “figura de estilo” reservada aos usuários dos patamares mais altos da linguagem. A partir daquele mo­mento, percebi que ela, ao invés, era forma concreta e sensí­vel de percepção da realidade, possível de surgir tanto entre os de pensamento concreto quanto entre os com percepção artística acurada.

                       

            Naquele mesmo dia, via-me eu a assistir à missa, numa igrejinha do distrito.  O celebrante, por coincidência, era amigo e colega de infância, há pouco ordenado. Ao ver-me ali, voltou o sermão visivelmente para mim.  E tome alusões lite­rárias, citações em latim e em grego até!  Entre pessoas sim­ples, analfabetas em sua maioria, corei de vergonha.

 

            Ao final da missa, era de se ver a euforia dos fiéis.  Intri­gado, indaguei: “E vocês entenderam?” À frente, o “Ve­lho Joaquim Alves” parecia falar por todos: “Peito e garganta de aço, esse padre. Falou bonito, com alma. Se entendi, não sei bem.  Só sei que senti.  Parecia uma música, arrupiando a gente!”

 

            Em conversas posteriores, entre os iletrados, fui perce­bendo que, primariamente, a comunicação lhes é estesia (o sentir).  Música, sobretudo.  Que o termo ‘bonito’, por outro lado, pode, inclusive, representar o que, para nós, de cultura urbanística, é  “mau tempo”.  Uma dimensão de ‘belo’ bem pragmática: da chuva a lhes trazer “sustento e fartura”.


            Tempos depois, como o fez Piaget, acompanhei a lingua­gem a se desenvolver em meus filhos.  Vi-a brotar nas inter­jeições e onomatopéias.  Um dia, Cláudio, o primogênito, es­boçava sua primeira narrativa.  Entre interjeições, onomato­péias e frases situacionais, contava-me a história de uma ba­rata que havia surgido e que ele havia matado, pisoteando-a.

 

 

            Hoje, metáforas, como outras figuras, tenho-as como for­mas concretas de percepção da realidade. Não fora assim, Cristo não teria falado por meio de parábolas e símbolos. Re­curso de aproximação, portanto, não de distância.

 

            O depoimento levava-me a óbvia conclusão.  O “Velho Jo­aquim Alves” tinha razão.  Frase e texto lingüísticos são, antes de tudo, peças musicais.  E isso pautou toda minha ação como professor de língua portuguesa e (confesso) em meu “ofício de escrever” (...)

 

 

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POST SCRIPTUM

 

O presente tópico é parte integrante do “Texto 1350 – Antigo e novo Testamento lingüístico”, publicado, na Internet, em 15 de novembro de 2001, na Lista de Discussão “Desafios Educacionais”, de responsabilidade do Conselho de Educação do Ceará, então por mim, Marcondes Rosa de Sousa, coorde­nada. E hoje ele integra texto didático, por mim utilizados na disciplina Produção da Escrita, no Curso de Letras do Centro de Humanidades da Universidade Estadual do Ceará, onde leciono.

 

O “celebrante”, “amigo e colega de infância”, nele referido não é outro senão o Padre Geraldinho, que, com essa confis­são e gesto, aqui reverenciamos.

 

Na foto que encima o texto, estou por trás da câmera, registrando o encontro ...

 

 

 

           

 

 

Fátima Morais e neta

 

           

 

RECORDAÇÕES DE IPUEIRAS

 

Fátima Morais

 

            Eu me chamo Fátima Morais. Sou uma das netas de Dª Afra, filha de Socorro Morais. Atualmente moro em São Luís (Ma), casada com José Luiz. Temos um casal de filhos:¨Júnior com 26 anos e Christiane com 23. Ambos formados e independentes. Temos uma neta linda, Maria Clara.

 

            Poucas oportunidades tive de ir a Ipueiras. Passei poucas férias em casa de vovó. Foram dias maravilhosos, minha avó era uma pessoa muito inte­ressante - bondosa, brincalhona, de um coração enorme em todos os sentidos.

 

            Lembro-me da sua casa. Para mim, era enorme. Ela, minha avó, se preo­cupava muito em nos alimentar. Posso até lembrar: era um pouco exage­rada.

 

            A famosa farofa de galinha na lata... Lembro que era em uma lata de leite ninho. Quando ela ia ou qualquer pessoa ia de Ipueiras para Fortaleza, ela mandava a bendita lata de farofa. Eu e meus irmãos ficávamos na maior felici­dade. Como era gostosa aquela farofa! Nunca mais comi tal iguaria.

 

            Vovó passou a morar em Fortaleza. Minha mãe, eu e meus irmãos meno­res íamos quase todos os domingos, a sua casa. Sempre que chegáva­mos lá tinha alguma guloseima guardada para nos ofertar. Todos ficavam ho­ras a fio relembrando as histórias passadas na Ipueiras. Conhecíamos as pes­soas por nomes, sem fisionomias.

 

            Vovó adorava fazer crochê. Mascava seu fuminho, mesmo que proibido pelo médico. Como era teimosa, continuava a usar. Não me lembro se deixou com o tempo. Minha prima Salete Mourão deve saber, pois morava com ela.

 

            Tinha uma personalidade forte. Quando queria as coisas, tentava até conseguir. Batalhadora, ajudou muito a todos.

 

            Sua maior preocupação era com seu filho Eládio, sempre pensando se ela tinha tomado seus remédios, se estava alimentado. Ele, em troca, a amava e respeitava muito.

 

            Quando ela veio a falecer, já estava morando em Fortaleza, Muito tempo depois, voltei a Ipueiras. Fui até à casa dela. Mas não era mais a casa de mi­nha Vó...

             

 

 

 

A LENDA DE LUARA

 

Dalinha Catunda

           

            Contam que, há muito tempo, numa cidadezinha do Interior do Ceará, às margens do Jatobá, rio que corta a cidade de Ipueiras - nasceu uma linda menina de olhos e cabelos cor de mel. A menina, que recebeu o nome de Luara, foi crescendo, crescendo, e, em pouco tempo, transformou-se numa bela jovem.

 

            Reza a lenda que Luara era filha do rio e afilhada da Lua, gozando, portanto, da proteção especial deles. Não eram poucos os que diziam que, sempre em noites de plenilúnio, Luara aparecia entre oiticicas e ingazeiras, vestida em gotas de orvalho, refletindo a luz do luar. Por onde passava, o cheiro de flores silvestres tomava conta do ar. Era assim que Luara encantava os bosques com sua presença.



            Certo dia, o Jatobá, por falta das chuvas, o que ocorre de tempos em tempos naquela região, secou por completo. Para o azar de Luara, a Lua andava triste, por não poder mirar-se nas águas do velho rio, e, em sinal de protesto, ocultou-se atrás de uma nuvem negra. Deixando a bela jovem entregue ao seu próprio destino.



            Desprotegida, sem se dar conta, a bela da noite prosseguiu em sua jornada noturna, riscando as matas com melodias que a todos encantava. E foi assim que Luara perdeu-se na grande floresta.



            A Lua, ao perceber a situação, sentiu-se responsável pela sorte de Luara. E, tentando minimizar o dano causado por seu descuido, resgatou a sua pupila num cavalo branco alado. E a conduziu, entre raios de luar, ao seio de seu reino.

 

            Durante nove luas, não se ouviu falar de Luara. Ouvia-se apenas o lamento triste dos pássaros e animais que a amavam. As lágrimas foram tantas, que o Jatobá roncara forte outra vez, chegando a transbordar. E a a Lua, feliz, voltou a se ver no espelho das águas.

 

            Era tanta felicidade que a madrinha, radiante, não tardou a devolver, às margens do velho rio, sua bela afilhada, trazendo vida nova para o povoado.

 

            Asseguram os que sabem da lenda, que, depois, o filho de Luara não quis acompanhar a mãe. A bela da noite ganhara mais um protetor, pois seu filho era, nada mais nada menos que São Jorge, o guerreiro que vive na Lua, montado em um cavalo branco.

 

            Ele podia ser observado por todos, a olho nu, quando esta se mostra inteira no Céu.