Dois dias a revisitar ipueiras (I) - Papos e reflexões na estrada - Marcondes Rosa
13:35 @ 11/06/2007
DOIS DIAS A REVISITAR IPUEIRAS (I)
Papos e reflexões na estrada
Cinco da manhã. Nas principais artérias, Fortaleza permitia que, rápido, o trânsito escoasse. E, assim, em pouco tempo, estávamos na estrada a nos levar às “retiradas águas”, onde prevíamos tudo resolver em dois já programados dias. No carro, Solange, eu e, a convite nosso, Expedito “Clara”, perito na estrada – a da Matriz inclusive. Walmir, o de nós irmãos nascido em Ipueiras, cumpria programação
Para nós, era um retorno, após nossa estada lá, em agosto de 2.003, quando a imagem de Nossa Senhora de Fátima, havia voltado a Fortaleza (Ce), desde quando lá estivera. Dessa época, eu menino, fizera o papel de Jacinto, o pastorzinho a quem, além das irmãs, teria aparecido a Virgem. Isso, na noite quando ali se dariam vários milagres. Não pude presenciá-los. Cansado, fui para casa dormir e, dia seguinte, ouvir eufóricos relatos em toda a cidade. Solange, á época, era interna no Ipu e, naquele dia, ali não esteve presente. Depois, na inauguração do Arco do Triunfo, seria, sim, uma das princesas (ela e Miraugusta ao lado de Elisa Maria Mourão, a rainha), registrada hoje nas fotos do “site” de Ipueiras e nos relatos de Bérgson Frota.
Nossa missão, transferir para a Associação Grupo União Familiar de Lagoa dos Tavares (AGUF-LT), presidida por Antônio Rodrigues da Silva, conhecido como “Antônio Otávio”, costume na serra a expressar “filho de Seu Otávio” (conheci até um “Luiz Luiz...) no Sítio Buriti. Tudo, financiado por programa do Ministério do Desenvolvimento Agrário, por meio da Secretária do Desenvolvimento Agrário, responsável pela gestão do Fundo de Terras, em articulação com órgãos do Estado do Ceará e Banco do Brasil.
O entorno a evocar “releituras”
Na estrada, papos, a troca de impressões, entre os três. Tudo em mim, porém, a evocar “releituras”. Estrada, a de Canindé, a nos trazer de volta os baiões de Luís Gonzaga: “quem é rico anda em burrico, quem é pobre anda a pé”. Progressos, sem dúvida. Não se vêem mais ali burricos, nem os pobres andando a pé. Bom asfalto, o veículo desliza, comodamente, por volta dos
Quantas vezes, ao por ali passarmos, tudo seco. Tempos esses, os de verão, lembrados pela canção de Gonzaga:
Acauã vive cantando,
Durante o tempo do verão,
No silêncio das tardes agourando,
Chamando a seca p’ro sertão.
(...) Na alegria do inverno,
Canta sapo, jia e rã,
Mas, na tristeza da seca,
Só se ouve o acauã”
À nossa frente, vai surgindo, aos poucos, a Basílica de São Francisco,
ortuna e felicidade”; b) o pagar das promessas de minha mãe Adaísa, em agradecimento a São Francisco por me ter poupado, garantia ela, o ir-me daqui para a outra vida, quando de meu primeiro enfarto; c) em homenagem que, por sugestão de Dona Violeta Arraes Gervaiseau (irmã de Miguel Arraes), prestávamos, ali, a Dom Hélder Câmara, quando eu a cuidar de meios de comunicação áudio-visual, integrava comissão mista (francesa e brasileira), na captação de imagens com vistas à divulgação, pelo País e Europa, da grande festa. E tantas outras vezes, que não mais me vêm à lembrança...
***
Sol, enfim, a brilhar. Expedito nos chama a atenção, à margem da estrada, para a pouca utilização das terras destinadas, como outrora, à agricultura e à produção de alimentos. À nossa frente, improvisados barracos, postados ante uma visível área de fazenda ou sítio, destinados à produção agrícola.
Expedito explica-nos: “È o MST!”. Solange estranha, logo, a sujeira, o desconforto das barracas. Expedito faz críticas ao movimento. E tece, saudoso, elogios a Dom Fragoso, com quem, na região, ele trabalhara. Para ele, agentes do MST hoje são itinerantes em todo o País, para promover a baderna. Não se assentam...

Para Dom Fragoso, a reforma agrária tinha um destino: assentar os trabalhadores numa dada área. O bispo de Crateús - testemunha-nos Expedito - queria os agricultores literalmente “assentados”. Era contra as atitudes de violência, ora estourando. Apostava na dignidade do mandamento divino do “comerás o pão com o suor de teu rosto”. E a terra havia de ser usada para a produção de alimentos.
Nessa esteira, conclui-nos Expedito, é que viria navegando a Associação Grupo União Familiar de Lagoa dos Tavares (AGUF-LT), assentando-se no Buriti e na Lagoa dos Tavares, com vista à exploração ali, da serra úmida, na histórica Matriz da Serra dos Cocos, para a exploração da agricultura familiar e a produção de alimentos. “Não à esmola! Mas sim ao trabalho”, concluí comigo, novamente Gonzaga e Zé Dantas, com o baião “Vozes da Seca” a me voltar à mente...
Esmola, a um homem que é são
ou lhe mata de vergonha
ou vicia o cidadão
Do Disco “A viagem de Gonzagão e Gonzaguinha”, no qual o filho prestava ao pai, uma homenagem, na faixa 10, Vozes da Seca, ecoa-nos a voz de Gonzaga:
(Falando, a sanfona em background):
“Nos anos 53/54, houve uma seca da molesta no sertão nordestino. O Brasil ficou cheio de arapuca: ‘Ajuda teu irmão! Uma esmola pro flagelado nordestino. Qualquer coisa serve (...)!. Eu e Zé Dantas protestamos. E gritamos bem alto”:
(Cantando)
Seu doutor, os nordestinos,
Têm muita gratidão,
Pelo auxílio dos sulistas,
Nesta seca do sertão.
Mas, doutor, uma esmola,
A um homem que é são,
Ou lhe mata de vergonha,
Ou vicia o cidadão!
(Voltando a falar):
‘Um deputado do povo bradou do parlamento nacional: “Senhor presidente! Este baião de Gonzaga e Zé Dantas vale por mais de cem discursos. E tenho dito! E agora eu louvo, bem alto, o nome daquele que criou a SUDENE. Obrigaaaado, Jusceliiiino!!!
Voltando a cantar:
Dê serviço a nosso povo,
Encha os rios de barragem,
Dê comida a preço bom,
Não esqueça a açudagem,
Livre assim nós da esmola
Que no fim dessa estiagem
Lhe pagamo inté os juros
Sem gastar nossa coragem
***
Cristo despido das torres a arranhá-lo
À margem da estrada, ponto de encontro nos convida para um café da manhã, com os sabores da terra, antes de encararmos o chão até Ipueiras. Ali, um carro da Prefeitura Municipal de Ipueiras, nos traz o motorista, a lembrar-se de nós, filhos do “Seu Wencery”, a quem dá dicas sobre os estragos na estrada até Ipu. A estética visual do carro me agrada: O Cristo, despido das humilhantes torres a arranhá-lo, ali a nos abraçar. Tudo em forte apelo estético a reforçar a imagem moderna da Prefeitura. No mais, um parêntese em nossas dietas. Afinal, ninguém é de ferro.
Esmola e trabalho:
O sutil conflito,
no imaginário do povo
O Ceará é centro, sabemos de dois grandes centros de romaria: Canindé e Juazeiro do norte. Mas, entre os dois, o imaginário popular abriga dois valores em sutil conflito. A esmola, em Canindé; a arte e o trabalho, em Juazeiro do Padim Ciço Romão.
Em Canindé, São Francisco é o “irmão menor”, que os mais à esquerda, querem “o menor entre os menores” – o “mínimo”, no dialeto popular, o “lascado”. Já em Juazeiro do Norte, não são os sobrenomes que valem. Mas o tipo de contribuição que as pessoas prestam à coletividade, com seu trabalho e sua arte. A terra, ali, é dos que prestam serviços com a banda de pífaros, com o “barro cru” como se sobrenome de Dona Ciça, entre os muitos.
. Canindé: a igreja dos lascados
Leonardo Boff, no livro Terapeutas do Deserto, que escreve com Jean-Yves Leloup, a propósito de uma das faces de São Francisco, diz do “irmão menor”:
“Menor, porque, naquela divisão social burguesa, de maiores e menores, ele fica com os menores. Este é o sentido social de menor. Sua ordem é a dos frades menores (...) Além desta ordem tem a Ordem dos Mínimos, menores ainda que os menores, mais radicais ainda. E hoje nós inventamos mais uma ordem, a dos lascados. Há todo um movimento nordestino dos frades, para a criação da Ordem franciscana dos lascados, da Ecclesia Lascatorum, (da Igreja dos lascados).
Imaginem vocês que, lá no Ceará, São Francisco é nordestino, não é de Assis, é São Francisco do Canindé. É o maior santuário franciscano do mundo e passam por lá milhares e milhares de pessoas. Estive lá, várias vezes. O povo acha que os frades escondem São Francisco dentro daquele convento enorme. Então o povo vai à Igreja de São Francisco, paga as suas promessas, desfila diante do convento, olha-o com curiosidade para ver se ele está lá dentro, escondido. E dizem uns aos outros: ‘São Francisco está lá dentro. Eu o vi. Estes padres alemães são maus, escondem São Francisco’. Isso porque a mentalidade mítica popular não é diacrônica. Ela é sincrônica. Moisés, Jesus, João XXII, São Francisco vivem todos juntos, em um mesmo tempo. Não é São Francisco medieval. É o São Francisco de hoje, que está aqui, que é de Canindé e não de Assis” (pp. 77-78)
Nessas duas visões, talvez uma diferença sutil, entre as duas visões a carregar o imaginário de nossa gente. Canindé, a esmola; Juazeiro, o trabalho.
Imaginário popular,
aspecto importante
Desde cedo, minha própria formação acadêmica me foi levando para emprestar valor ao “imaginário do povo”. Com os gregos, aprendi que o conhecimento se faz no abraço entre o “logos” (a ciência) e o “mito” (as fabulações populares), esse “nada que é tudo”, na expressão de Fernando Pessoa. Com Roland Barthes, por intermédio de seu livro “Mitologias”, cedo fui descobrindo o que, por meio deles, fala o sentimento do povo.
No livro inconfidências@indeletáveis.com.br, de Paulo Elpídio de Menezes Neto, em que sou um dos inconfidentes, faço um “mea culpa” dos que, no Ceará, tocaram o cognominado “Projeto das Mudanças”, muito razão e pouco do sentimento popular, por vezes visto até como sentimento a não se levar em consideração:
“Confessei a Sérgio Machado, em autocrítica, que fomos (os do Projeto das Mudanças) muito “logos”, insensíveis aos recados dos “mythoi” de nossa gente. Alguém lançou mão de algumas bandeiras. Não se atentou para o chão. E dele não conseguimos arrancar nossa “urbs” (o físico, adjunto adverbial de nossa ação), a cívitas (nosso pacto e social convivência) e nossa polis (o projeto afinal). Hoje, penso que logos e mythos interagem. Nenhum a dominar o outro. Dois discursos. Duas percepções.”
Antes do Projeto das Mudanças, do qual fui uma espécie de Pero Vaz de Caminha, senti na pele a necessidade de levar em conta esse sentimento, o do “imaginário popular”. Foi quando fundamos a Rádio Universitária (FM), na Universidade Federal do Ceará.
Eu havia participado como assessor de planejamento do reitor Paulo Elpídio do Seminário Geral da UFC, uma das primeiras experiências de “planejamento participativo”. Nele, forte o sentimento de todos no que toca ao abrir-se a universidade em direção ao seu meio e ao povo. E, na pauta, a criação de mecanismos fortes para o diálogo com a sociedade. Fruto desse sentimento, veio a Rádio Universitária (FM) como um de tais canais. Fui da equipe que planejou tal emissora. Na Rádio Jornal do Brasil (RJ), importante diretor nos diria: “Vão
Redigimos todo o processo. E, um dia, para meu espanto, o canal que julgávamos atingir todo o Ceará, recebia o débil sinal de dois e meio quilowatts. Fossa e revolta. Aí, Rodger Rogério (físico e músico), integrante do Conselho Diretor, me diz: “Não esquenta! Eu trouxe aqui um filmezinho de difusão científica. Vamos ali para uma sala curtir um pouco o filme”. E lá fomos, ele, Clóvis Catunda (também físico) e eu. O filme era sobre uma ponte, nos Estados Unidos, construída dentro da engenharia mais moderna. Mas, um dia, ela começou a tremular, espatifando-se ao chão.
O caso intrigou os cientistas, indo parar numa equipe criada por verificar a causa desse acidente. E a equipe terminou por descobrir. A ponte caíra pelo simples soprar de ... uma brisa. A ponte, como todo corpo, tem uma freqüência (eu aí, preocupado com a frequência da rádio, liguei-me em atenção). A débil freqüência da brisa, entrou em choque com a freqüência da ponte. Isso teria provocado uma série de ondulações, pondo a ponte abaixo!
Aí, gritei: “Pára o filme! Podemos pôr a ponte abaixo com o simples soprar, digo, com a baixa frequência da rádio... “Endoidou! - alguém disse. Era, sim, uma metáfora. Mas a baixa freqüência da rádio poderia ir longe. Como? Não sabia. Nisso, saio da sala, quando entrava o professor Liberal de Castro, revoltado com as críticas atribuídas ao Curso de Arquitetura, responsável pela então Praça do Ferreira, uma monstruosidade. Liberal queria revidar as críticas. E me explica: “Fizemos uma pesquisa entre intelectuais e o povão. Os intelectuais queriam, na praça, uma estátua do boticário Ferreira. E o povão, uma fonte”.
Água! – gritei eu. Ninguém me entendeu. Para mim, água era a brisa, o sentimento popular. Fui até meu gabinete, onde puxei do livro Iracema e, em voz alta, li: “Iracema saiu do banho. O aljôfar da água ainda a roreja como a doce mangada que corou em manhã de chuva ...”
Aí, traduzi: “Água” é o anseio do imaginário popular. A débil brisa, no caso, capaz de, num crescendo, abalar o sentimento. Daí, lembro-me, fui para o Iguatemi, que acabara de ser inaugurado. E notei, em todos, entre os de classe mais alta até, o fascínio das fontes a jorrar água.
No dia seguinte, volto à emissora, onde se preparava programação a ser lançada antes da inauguração. “Água”, a idéia a ser lançada. Nisso, adentra o então deputado Paulo Lustosa, que nos abriria, logo depois, a Coleção “Tema do Nordeste”, por mim coordenada, com seus ímpetos de um Nordeste a separar-se numa reedição da sonhada Confederação do Equador e seus brados “contra as secas”. Não é “contra as secas”, deputado, mas a favor da água!”, lancei. Ele gostou. Chamo os técnicos: “Quero efeitos sonoros de água a jorrar. Aí entre Paulo Lustosa, a falar de água para a terra, para os animais... “ – a voz em fade out e por fim o slogan com o locutor: “Rádio Universitária, valorizando e repensando o Nordeste”.
Na programação experimental, textos poéticos que falem em água – de beber, a jorrar dos olhos, a nos banhar. Afinal, o refrão. E assim foi. Era todo mundo sem entender. Mas, curiosamente, todo mundo a falar em “água” e “nordeste”. Exemplo mais significativo seria o recado do industrial Edson Queiroz, por intermédio de Guilherme Neto: “E eu terminei por descobrir um produto muito mais importante que o gás: não queima, não explode e todo mundo precisa. Qual? Água!” Nasceria a ... Indaiá! O outro, que nos mandou: o jornal do Grupo iria se chamar “Diário do Nordeste”.
Por onde andávamos, notávamos. Falava-se em “água”. Da ideologia do “contra as secas”, agora o horizonte eram os “recursos hídricos”. Na UFC, entre as coleções das quais era eu responsável, mais uma: “Temas do Nordeste”, a discutir caminhos para a Região Nordestina.
Água, a salpicar-nos o imaginário
Veloz ou mais lento, na estrada, nosso carro singrava mares míticos, no rastro do pé gracil e nu de Iracema, nossa mãe mítica maior, a “porção feminina da alma nacional”, como, certa feita, me disseram
