Grupos

DOIS DIAS A REVISITAR IPUEIRAS (I)

Papos e reflexões na estrada

 

          Cinco da manhã. Nas principais artérias, Fortaleza permitia que, rápido, o trânsito escoasse. E, assim, em pouco tempo, estávamos na estrada a nos levar às “retiradas águas”, onde prevíamos tudo resolver em dois já programados dias. No carro, Solange, eu e, a convite nosso, Expedito “Clara”, perito na estrada – a da Matriz inclusive.  Walmir, o de nós irmãos nascido em Ipueiras, cumpria programação em Porto Alegre, acompanhando tudo pelo celular...

 

           Para nós, era um retorno, após nossa estada lá, em agosto de 2.003, quando a imagem de Nossa Senhora de Fátima, havia voltado a Fortaleza (Ce), desde quando lá estivera.  Dessa época, eu menino, fizera o papel de Jacinto, o pastorzinho a quem, além das irmãs, teria aparecido a Virgem.  Isso, na noite quando ali se dariam vários milagres. Não pude presenciá-los. Cansado, fui para casa dormir e, dia seguinte, ouvir eufóricos relatos em toda a cidade.  Solange, á época, era interna no Ipu e, naquele dia, ali não esteve presente.  Depois, na inauguração do Arco do Triunfo, seria, sim, uma das princesas (ela e Miraugusta ao lado de Elisa Maria Mourão, a rainha), registrada hoje nas fotos do “site” de Ipueiras e nos relatos de Bérgson Frota.  

 

          Nossa missão, transferir para a Associação Grupo União Familiar de Lagoa dos Tavares (AGUF-LT), presidida por Antônio Rodrigues da Silva, conhecido como “Antônio Otávio”, costume na serra a expressar “filho de Seu Otávio” (conheci até um “Luiz Luiz...) no Sítio Buriti. Tudo, financiado por programa do Ministério do Desenvolvimento Agrário, por meio da Secretária do Desenvolvimento Agrário, responsável pela gestão do Fundo de Terras, em articulação com órgãos do Estado do Ceará e Banco do Brasil.

 

O entorno a evocar “releituras”

 

          Na estrada, papos, a troca de impressões, entre os três.  Tudo em mim, porém, a evocar “releituras”.  Estrada, a de Canindé, a nos trazer de volta os baiões de Luís Gonzaga: “quem é rico anda em burrico, quem é pobre anda a pé”.  Progressos, sem dúvida.  Não se vêem mais ali burricos, nem os pobres andando a pé. Bom asfalto, o veículo desliza, comodamente, por volta dos 110 quilômetros.  À margem da estrada, a anteceder o sol, forte garoa, cerração, a nos embaçar, do carro, o pára-brisa. Mesmo assim, a paisagem é, ao contrário da ocorrente em outras épocas, de forte e contínuo verde.  

 

          Quantas vezes, ao por ali passarmos, tudo seco. Tempos esses, os de verão, lembrados pela canção de Gonzaga:

 

           

 Acauã vive cantando,

           Durante o tempo do verão,

           No silêncio das tardes agourando,

           Chamando a seca p’ro sertão.

 

           (...) Na alegria do inverno,

           Canta sapo, jia e rã,

           Mas, na tristeza da seca,

           Só se ouve o acauã”

 

           À nossa frente, vai surgindo, aos poucos, a Basílica de São Francisco, em Canindé. E a paisagem, em mim, desperta as muitas vezes que lá estive: a) pró-reitor de extensão da UFC, a acompanhar os trabalhos de pesquisadores sobre o imaginário de nosso povo, expresso nas promessas e ex-votos, e do agradecer das esmolas com a tríade “Deus lhe dê saúde, fortuna e felicidade”; b) o pagar das promessas de minha mãe Adaísa, em agradecimento a São Francisco por me ter poupado, garantia ela, o ir-me daqui para a outra vida, quando de meu primeiro enfarto; c) em homenagem que, por sugestão de Dona Violeta Arraes Gervaiseau (irmã de Miguel Arraes), prestávamos, ali, a Dom Hélder Câmara, quando eu a cuidar de meios de comunicação áudio-visual, integrava comissão mista (francesa e brasileira), na captação de imagens com vistas à divulgação, pelo País e Europa, da grande festa. E tantas outras vezes, que não mais me vêm à lembrança...

 

***

          

Sol, enfim, a brilhar. Expedito nos chama a atenção, à margem da estrada, para a pouca utilização das terras destinadas, como outrora, à agricultura e à produção de alimentos. À nossa frente, improvisados barracos, postados ante uma visível área de fazenda ou sítio, destinados à produção agrícola.

 

Expedito explica-nos: “È o MST!”. Solange estranha, logo, a sujeira, o desconforto das barracas. Expedito faz críticas ao movimento. E tece, saudoso, elogios a Dom Fragoso, com quem, na região, ele trabalhara. Para ele, agentes do MST hoje são itinerantes em todo o País, para promover a baderna. Não se assentam...

 

Para Dom Fragoso, a reforma agrária tinha um destino: assentar os trabalhadores numa dada área. O bispo de Crateús -  testemunha-nos Expedito -  queria os agricultores literalmente “assentados”. Era contra as atitudes de violência, ora estourando. Apostava na dignidade do mandamento divino do “comerás o pão com o suor de teu rosto”. E a terra havia de ser usada para a produção de alimentos.

 

           Nessa esteira, conclui-nos Expedito, é que viria navegando a Associação Grupo União Familiar de Lagoa dos Tavares (AGUF-LT), assentando-se no Buriti e na Lagoa dos Tavares, com vista à exploração ali, da serra úmida, na histórica Matriz da Serra dos Cocos, para a exploração da agricultura familiar e a produção de alimentos.  “Não à esmola! Mas sim ao trabalho”, concluí comigo, novamente Gonzaga e Zé Dantas, com o baião “Vozes da Seca” a me voltar à mente... 

 

Esmola, a um homem que é são

ou lhe mata de vergonha

ou vicia o cidadão

 

          Do Disco “A viagem de Gonzagão e Gonzaguinha”, no qual o filho prestava ao pai, uma homenagem, na faixa 10, Vozes da Seca, ecoa-nos a voz de Gonzaga:

 

(Falando, a sanfona em background):

 

“Nos anos 53/54, houve uma seca da molesta no sertão nordestino. O Brasil ficou cheio de arapuca: ‘Ajuda teu irmão! Uma esmola pro flagelado nordestino. Qualquer coisa serve (...)!.  Eu e Zé Dantas protestamos. E gritamos bem alto”:

 

            (Cantando)

           

Seu doutor, os nordestinos,

            Têm muita gratidão,

            Pelo auxílio dos sulistas,

            Nesta seca do sertão.

            Mas, doutor, uma esmola,

            A um homem que é são,

            Ou lhe mata de vergonha,

            Ou vicia o cidadão!

 

                     (Voltando a falar):

 

‘Um deputado do povo bradou do parlamento nacional: “Senhor presidente! Este baião de Gonzaga e Zé Dantas vale por mais de cem discursos. E tenho dito!   E agora eu louvo, bem alto, o nome daquele que criou a SUDENE. Obrigaaaado, Jusceliiiino!!!

 

            Voltando a cantar:

           

Dê serviço a nosso povo,

  Encha os rios de barragem,

  Dê comida a preço bom,

  Não esqueça a açudagem,

  Livre assim nós da esmola

  Que no fim dessa estiagem

  Lhe pagamo inté os juros

  Sem gastar nossa coragem

 

 

***

 

 

Cristo despido das torres a arranhá-lo

 

  À margem da estrada, ponto de encontro nos convida para um café da manhã, com os sabores da terra, antes de encararmos o chão até Ipueiras.  Ali, um carro da Prefeitura Municipal de Ipueiras, nos traz o motorista, a lembrar-se de nós, filhos do “Seu Wencery”, a quem dá dicas sobre os estragos na estrada até Ipu.  A estética visual do carro me agrada: O Cristo, despido das humilhantes torres a arranhá-lo, ali a nos abraçar. Tudo em forte apelo estético a reforçar a imagem moderna da Prefeitura. No mais, um parêntese em nossas dietas. Afinal, ninguém é de ferro.

 

 

Esmola e trabalho:

O sutil conflito,

no imaginário do povo

 

        

O Ceará é centro, sabemos de dois grandes centros de romaria: Canindé e Juazeiro do norte. Mas, entre os dois, o imaginário popular abriga dois valores em sutil conflito.  A esmola, em Canindé; a arte e o trabalho, em Juazeiro do Padim Ciço Romão.

 

 

         Em Canindé, São Francisco é o “irmão menor”, que os mais à esquerda, querem “o menor entre os menores” – o “mínimo”, no dialeto popular, o “lascado”.  Já em Juazeiro do Norte, não são os sobrenomes que valem. Mas o tipo de contribuição que as pessoas prestam à coletividade, com seu trabalho e sua arte. A terra, ali, é dos que prestam serviços com a banda de pífaros, com o “barro cru” como se sobrenome de Dona Ciça, entre os muitos.

         

. Canindé: a igreja dos lascados

 

Leonardo Boff, no livro Terapeutas do Deserto, que escreve com Jean-Yves Leloup, a propósito de uma das faces de São Francisco, diz do “irmão menor”:

 

 “Menor, porque, naquela divisão social burguesa, de maiores e menores, ele fica com os menores. Este é o sentido social de menor. Sua ordem é a dos frades menores (...) Além desta ordem tem a Ordem dos Mínimos, menores ainda que os menores, mais radicais ainda. E hoje nós inventamos mais uma ordem, a dos lascados. Há todo um movimento nordestino dos frades, para a criação da Ordem franciscana dos lascados, da Ecclesia Lascatorum, (da Igreja dos lascados). 

 

Imaginem vocês que, lá no Ceará, São Francisco é nordestino, não é de Assis, é São Francisco do Canindé. É o maior santuário franciscano do mundo e passam por lá milhares e milhares de pessoas. Estive lá, várias vezes. O povo acha que os frades escondem São Francisco dentro daquele convento enorme. Então o povo vai à Igreja de São Francisco, paga as suas promessas, desfila diante do convento, olha-o com curiosidade para ver se ele está lá dentro, escondido. E dizem uns aos outros: ‘São Francisco está lá dentro. Eu o vi. Estes padres alemães são maus, escondem São Francisco’. Isso porque a mentalidade mítica popular não é diacrônica. Ela é sincrônica. Moisés, Jesus, João XXII, São Francisco vivem todos juntos, em um mesmo tempo. Não é São Francisco medieval. É o São Francisco de hoje, que está aqui, que é de Canindé e não de Assis” (pp. 77-78)

 

 Nessas duas visões, talvez uma diferença sutil, entre as duas visões a carregar o imaginário de nossa gente. Canindé, a esmola; Juazeiro, o trabalho.

 

 

Imaginário popular,

aspecto importante

 

Desde cedo, minha própria formação acadêmica me foi levando para emprestar valor ao “imaginário do povo”.  Com os gregos, aprendi que o conhecimento se faz no abraço entre o “logos” (a ciência) e o “mito” (as fabulações populares), esse “nada que é tudo”, na expressão de Fernando Pessoa. Com Roland Barthes, por intermédio de seu livro “Mitologias”, cedo fui descobrindo o que, por meio deles, fala o sentimento do povo.

 

No livro inconfidências@indeletáveis.com.br, de Paulo Elpídio de Menezes Neto, em que sou um dos inconfidentes, faço um “mea culpa” dos que, no Ceará, tocaram o cognominado “Projeto das Mudanças”, muito razão e pouco do sentimento popular, por vezes visto até como sentimento a não se levar em consideração:

 

Confessei a Sérgio Machado, em autocrítica, que fomos (os do Projeto das Mudanças) muito “logos”, insensíveis aos recados dos “mythoi” de nossa gente. Alguém lançou mão de algumas bandeiras. Não se atentou para o chão. E dele não conseguimos arrancar nossa “urbs” (o físico, adjunto adverbial de nossa ação), a cívitas (nosso pacto e social convivência) e nossa polis (o projeto afinal). Hoje, penso que logos e mythos interagem. Nenhum a dominar o outro. Dois discursos. Duas percepções.”

 

Antes do Projeto das Mudanças, do qual fui uma espécie de Pero Vaz de Caminha, senti na pele a necessidade de levar em conta esse sentimento, o do “imaginário popular”.  Foi quando fundamos a Rádio Universitária (FM), na Universidade Federal do Ceará.

 

Eu havia participado como assessor de planejamento do reitor Paulo Elpídio do Seminário Geral da UFC, uma das primeiras experiências de “planejamento participativo”. Nele, forte o sentimento de todos no que toca ao abrir-se a universidade em direção ao seu meio e ao povo. E, na pauta, a criação de mecanismos fortes para o diálogo com a sociedade. Fruto desse sentimento, veio a Rádio Universitária (FM) como um de tais canais.  Fui da equipe que planejou tal emissora. Na Rádio Jornal do Brasil (RJ),  importante diretor nos diria: “Vão em frente. Vocês vão fazer a melhor rádio FM do País”. Tomei a frase como ironia. Mas ele terminou por me convencer. Ele me dizia que, apesar de contar com equipe de 12 intelectuais, entre os quais Carlos Drummond de Andrade, nossa universidade contava à época com 2.500 professores, nas diversas áreas com trânsito no mundo inteiro...

 

Redigimos todo o processo. E, um dia, para meu espanto, o canal que julgávamos atingir todo o Ceará, recebia o débil sinal de dois e meio quilowatts.  Fossa e revolta. Aí, Rodger Rogério (físico e músico), integrante do Conselho Diretor, me diz: “Não esquenta! Eu trouxe aqui um filmezinho de difusão científica.  Vamos ali para uma sala curtir um pouco o filme”. E lá fomos, ele, Clóvis Catunda (também físico) e eu. O filme era sobre uma ponte, nos Estados Unidos, construída dentro da engenharia mais moderna. Mas, um dia, ela começou a tremular, espatifando-se ao chão.

 

O caso intrigou os cientistas, indo parar numa equipe criada por verificar a causa desse acidente.  E a equipe terminou por descobrir. A ponte caíra pelo simples soprar de ... uma brisa. A ponte, como todo corpo, tem uma freqüência (eu aí, preocupado com a frequência da rádio, liguei-me em atenção).  A débil freqüência da brisa, entrou em choque com a freqüência da ponte. Isso teria provocado uma série de ondulações, pondo a ponte abaixo!

 

Aí, gritei: “Pára o filme! Podemos pôr a ponte abaixo com o simples soprar, digo, com a baixa frequência da rádio... “Endoidou! - alguém disse. Era, sim, uma metáfora. Mas a baixa freqüência da rádio poderia ir longe. Como? Não sabia. Nisso, saio da sala, quando entrava o professor Liberal de Castro, revoltado com as críticas atribuídas ao Curso de Arquitetura, responsável pela então Praça do Ferreira, uma monstruosidade.  Liberal queria revidar as críticas. E me explica: “Fizemos uma pesquisa entre intelectuais e o povão.  Os intelectuais queriam, na praça, uma estátua do boticário Ferreira. E o povão, uma fonte”.

 

Água! – gritei eu. Ninguém me entendeu. Para mim, água era a brisa, o sentimento popular.  Fui até meu gabinete, onde puxei do livro Iracema e, em voz alta, li: “Iracema saiu do banho. O aljôfar da água ainda a roreja como a doce mangada que corou em manhã de chuva ...”

 

Aí, traduzi: “Água” é o anseio do imaginário popular. A débil brisa, no caso, capaz de, num crescendo, abalar o sentimento. Daí, lembro-me, fui para o Iguatemi, que acabara de ser inaugurado. E notei, em todos, entre os de classe mais alta até, o fascínio das fontes a jorrar água.

 

No dia seguinte, volto à emissora, onde se preparava programação a ser lançada antes da inauguração. “Água”,  a idéia a ser lançada. Nisso, adentra o então deputado Paulo Lustosa, que nos abriria, logo depois, a Coleção “Tema do Nordeste”, por mim coordenada, com seus ímpetos de um Nordeste a separar-se numa reedição da sonhada Confederação do Equador e seus brados “contra as secas”. Não é “contra as secas”, deputado, mas a favor da água!”, lancei.  Ele gostou.  Chamo os técnicos: “Quero efeitos sonoros de água a jorrar. Aí entre Paulo Lustosa, a falar de água para a terra, para os animais... “ – a voz em fade out e por fim o slogan com o locutor: “Rádio Universitária, valorizando e repensando o Nordeste”.

 

Na programação experimental, textos poéticos que falem em água – de beber, a jorrar dos olhos, a nos banhar. Afinal, o refrão.  E assim foi.  Era todo mundo sem entender. Mas, curiosamente, todo mundo a falar em “água” e “nordeste”. Exemplo mais significativo seria o recado do industrial Edson Queiroz, por intermédio de Guilherme Neto: “E eu terminei por descobrir um produto muito mais importante que o gás: não queima, não explode e todo mundo precisa.  Qual? Água!” Nasceria a ... Indaiá!  O outro, que nos mandou: o jornal do Grupo iria se chamar “Diário do Nordeste”.

 

Por onde andávamos, notávamos. Falava-se em “água”. Da ideologia do “contra as secas”, agora o horizonte eram os “recursos hídricos”. Na UFC, entre as coleções das quais era eu responsável, mais uma: “Temas do Nordeste”, a discutir caminhos para a Região Nordestina.

 

Água, a salpicar-nos o imaginário

 

      Veloz ou mais lento, na estrada, nosso carro singrava mares míticos, no rastro do pé gracil e nu de Iracema, nossa mãe mítica maior, a “porção feminina da alma nacional”, como, certa feita, me disseram em Santa Catarina... Ela, a correr dos mares bravios e da Lagoa de Messejana, até as matas do Ipu, por entre córregos, sombras a nos salpicar de esperança e de verde. Por toda a nossa toponímia, a espargir de verde os caminhos, a passar por Santa Quitéria, onde nasci, e pela “terra da água”, Hidrolândia, até as retiradas águas, as ipueiras, onde o Cristo se volta a mirar para legendária Bica do Ipu, onde se banhava Iracema.

 

 Continua

 

Celso Furtado (UFC, 1984)

 

CELSO FURTADO

 

      Olho a paisagem entorno e recordo-me de Celso Furtado, em Fortaleza, em março de 1984.  Coube-me a iniciativa de, já no posto de Pró-Reitor de Extensão da UFC, sendo reitor o Prof. José Anchieta Esmeraldo Barreto, convidá-lo. À época, uma temeridade. Retornando ao País, seu trabalho junto à Sudene posto abaixo. 

 

            Peguei do telefone e pedi a ele que nos falasse das perspectivas que tínhamos para o desenvolvimento da Região Nordestina. Ele não pediu honorários.  Passagem e hospedagem apenas. Depois, pediu a gentileza de falar com a minha secretária, quando perguntou onde poderia encontrar uma típica rede cearense, que, depois, daríamos, simbolicamente, de presente a ele... Os meios de comunicação cearense foram todos silentes com a chegada do economista.  E não tive outra via senãoi martelar, de quinze em quinze minutos, na Rádio Universitária, o convite.

 

            Ao aeroporto, fui buscá-lo, no carro oficial do reitor. Barrado, de pronto ante a idéia de esperá-lo na Sala Vip, pelos então militares da Infraero. Aí, por coincidência, vi, na Sala Vip, o então Governador Gonzaga Mota, de cuja equipe de planejamento havia eu participado.  Gonzaga, surpreso, afirmou: “Não posso deixar de dar um abraço em meu professor”. Ele próprio iria buscar Celso para a Sala Vip.  Aí, uma coincidência. O Centro Industrial do Ceará (CIC) esperava conferencista para iniciar a discussão sobre o Movimento pró Mudanças, que terminou não vindo. Todos queriam que a palestra de Celso fosse transferida do Auditório Castelo Branco para o Auditório da Fiec. Ele afirmou que escrevera a palestra com as questões “solicitadas pelo Prof. Marcondes”.

 

            Aí, conheci Tasso, Beni, Amarílio Macedo, Sérgio Machado e outros. Celso, combinamos, passaria uns 40 minutos lá. E o curioso é que tanto gostaram que vieram todos a superlotar o Castelo Branco, tendo nós que espalhar caixas de som pelos jardins da Reitoria, ante o clamor constante pelos amplos espaços da Concha Acústica.

 

            Alguns trechos pinçados quer do texto da palestra escrita, hoje a constar no Blog do Grupo Ethos-Paidéia:

 

 http://www.grupos.com.br/blog/ethos-paideia/Index.html?action=view&post=13670

 

Ou de CDs que preparo com as cenas da palestra no Auditório Castelo Branco e do debate a varar parte da noite, constante de fitas já rotas que, em edição doméstica, tento tornar audíveis, para cumprir promessa que fiz ao Centro Internacional Celso Furtado, do qual fazem parte 55 países, particularmente à Sra. Rosa Furtado, esposa de Celso Furtado: http://www.centrocelsofurtado.org.br/

 

  Celso nos conta sobre a criação da SUDENE

 

(...) a SUDENE foi criada por um ato de Juscelino Kubitschek, preocupado com a seca de 58. Ele me chamou lá e disse: “Olha, Celso, eu preciso de sair com uma política nova para o Nordeste. Eu tinha chegado há pouco da Inglaterra, estava como diretor do BNDE,  dedicado, portanto, ao Nordeste – estava trabalhando sobre o Nordeste. Estava, portanto, com todo o material. Eu disse a ele presidente. Fiz uma exposição a ele. E, depois, me deu um tempo e aí foi feito aquele trabalho. E então saímos para a criação da SUDENE. (Tópico do debate, em fita cassete)

 

Conta-nos dos quatro objetivos de sua ação:

 

 “Nesse trabalho, eu estabeleci quatro objetivos de ação: três eram sobre agricultura e um sobre indústria. Portanto, o mais importante sobre os objetivos sobre agricultura era sobre a produção de alimentos. Teríamos que romper com o monopólio dos latifúndios, na região úmida, liberando terras para a produção de alimentos. Isso era uma briga com os latifundiários do açúcar, que não era pouca coisa. E tínhamos que enfrentar o mundo das secas (a “indústria das secas”, chamada), todos esses interesses, para liberar e transformar a economia agrícola da região semi-árida, fazendo-a mais resistente às secas, ecologicamente mais adaptada., dando mais importância à produção de alimentos.  Como se diz no próprio texto, a seca é principalmente uma baixa na produção de alimentos, em sacrifício do pequeno produtor ou do trabalhador do campo e seus familiares.”  (Idem)

 

E explica por que três dos objetivos recaíam sobre a agricultura:

 

“A empresa agrícola apresenta diferenças funda­mentais com respeito à industrial Não somente porque em relação a ela não se aplica o conceito de economias de escala de produção, germe do processo de concen­tração do poder econômico. Mas, principal­mente, por­que sua forma de inserção ecológica estabelece limites à divisão social do trabalho, tanto no tempo como no espaço. Essa a razão pela qual a empresa agrícola pre­dominante, nos países de agricultura mais avançada, continua a ser a familiar. Mais pre­cisamente: tendeu a ser a familiar. Com efeito, na Europa ocidental, o predomínio da unidade familiar autônoma de exploração agrícola é fenômeno da segunda metade do século pas­sado e principalmente do atual. Os Estados Unidos, com seu sistema de ho­mestead para ocupação da fron­teira, foram pioneiros na matéria. No Japão a evolução deu-se por outro caminho com a liberação das explo­rações familiares, após a II Guerra Mundial, das múl­tiplas servidões que sobre elas pesavam.”

 

Celso Furtado, ao elogiar o avanço dos estudos, principalmente pelas universidades, sobre a região, enfatiza a necessidade da resistência aos efeitos da secas, “parte da realidade nordestina como as neves perenes são parte do mundo dos esquimós”

 

Nada é mais importante para o desenvolvimento do Nordeste do que o aumento da resistência da região aos efeitos das secas. Nunca será demais afirmar que estas são parte da realidade nordestina como as neves perenes são parte do mundo dos esquimós. Ninguém duvida que o impacto das secas seria menos negativo se a economia nordes­tina fosse mais bem adaptada à realidade ecológica regional, particularmente se a es­trutura agrária não tomasse tão vulnerável a produção de alimentos populares.

 

E sobre a experiência de outros países, notadamente sobre a busca de água numa região cristalina como a nossa, contou-nos até uma piada:

 

 “Duvido que o pessoal de Israel pretenda nos ensinar muita coisa. Quando estiveram aqui, eu me recordo até que teve uma história muito divertida porque eles, estudando irrigação no Nordeste, onde podiam perfurar poços etc. etc. etc.  Eles olharam, olharam tudo e disseram a mim: “Professor, isso aqui é muito mas muito diferente e muito mais difícil do que lá em Israel, porque nós lá temos apenas uma região sedimentar. E sabemos perfeitamente quais são as possibilidades de água subterrânea nas regiões sedimentares (...) Mas, numa região cristalina – e aí está o Ceará e a Paraíba com 90 por cento cristalina – isso muito mais difícil. E até um deles me disse assim: “Desde Moisés, ninguém tira água de pedra por aqueles lados (risos gerais).”

 

Celso Furtado, tinham razão Gonzagão e Zé Dantas, não era partidário da esmola.  Em momento algum os objetivos da SUDENE contemplaram programas como o Bolsa-Família.  Por outro lado, secas não são vistas como flagelo, mas, como as neves perenes dos esquimós, parte da realidade nordestina.

 

Na estrada, observo a vegetação. As plantas xerófilas resistem, guardam água e o verde, que, com as primeiras chuvas retornam. No fundo, como em Iracema, o aljôfar da água nos roreja a todos como a doce mangaba que corou em manhã de chuva.  Entre a Bica do Ipu e o Cristo, uma reta, a demarcar os espaços míticos do “pé grácil e nu” de Iracema. Pena que o Cristo esteja sufocado por intrusas torres.

 

***

 

 

Carnaúbas. Estação ferroviária a contar histórias muitas de partidas nossas para o mundo, Lá embaixo, casas toscas, de taipa algumas, a ostentar parabólicas, a irmanar “urbs et orbis”, o global e o local, em nossos dias.  O Jatobá não é mais aquele, poluído que está.  Nosso veículo adentra, rumo ao Sindicato Rural, a “Rua da Bosta” de meus tempos.  O “estrume” a virar “Rua das Flores”. Olho a placa a sinalizar a Rua Cel. Antônio Eufrasino.  Pergunto a Expedito:”Não era aqui o armazém do Expedito Catunda, pai de Dalinha?” E ele a estanhar minha memória: “Você inda se lembra?”.

 

Observo a rua. Vacas e bezerros negros, tangidos educadamente por dois vaqueiros cruzam a rua florida. Saudades da Carnaúba, imponente vaca leiteira de meus tempos. Saudades de Catunda, que nos dava conta, naqueles tempos, onde Carnaúba, bezerros e nossos carneiros pastavam.

 

Adentramos, afinal, o Sindicato Rural. Antônio “Otávio”, o presidente, nos mostra o amplo espaço. Os municípios e os associados pelos diversos distritos de Ipueiras. O amplo, estético e bem cuidado “Auditório Dom Fragoso”. E um longo dia a nos esperar pela frente.

 

        

Pinga de São Gonçalo (Matriz)

EM BUSCA DO AMANHÃ

 

 

O Povo – 18.06.07

  

Marcondes Rosa de Sousa

 

         

          O aljôfar da chuva embaraça-nos o pára-brisa do carro, este, qual pé grácil e nu de Iracema, a correr matas, rumo a Ipu e Ipueiras. Estrada, a do Canindé, onde São Francisco se faz “irmão dos lascados”, ávidos de esmola. Nada de acauã, “chamando a seca p’ro sertão”. Tudo verde! Secas ali ocultam águas. Tudo na mesma paisagem, como neves perenes entre esquimós (Celso Furtado). Nela, toponímias deslizam-nos ante os olhos. Rara a produção de alimentos. Crescentes, agressões à ecologia. 

 

          Bica do Ipu, afinal. A mirá-la, o Corcovado da Caatinga. A seus pés, o Jatobá, a sepultar os álacres banhos de rio de nossa infância. À sua margem, casebres sufocados pelo peso de parabólicas a portar o abraço entre o local e o global. O Caravelle recebe-nos com a hospitalidade dos tabajaras, embora a clamar por um turismo a enredar-se no solidário, em ecológicas teias. Escolas, muitas. Míopes ainda do porto das profissões e das mãos dadas entre os cidadãos. A juventude, hoje a cavalgar motos, entregando-se à bebida pelas estradas, ruas e noites sem amanhã, em ruidosas quebras da lei do silêncio.  No cartório de imóveis, o evocar dos ruídos dos bacamartes a estender as questões fundiárias aos limites do “enquanto resistência houver”. Mas, sempre, o quebrar a flecha da paz. Assim, o prefeito, o “Neném do Cazuza”, a reeditar Wordsworth – “criança, o pai do homem”, olhos em busca de amanhãs.

 

          Alto da Serra. Matriz de São Gonçalo, Sítios Buriti e Lagoa dos Tavares, onde tem curso a agricultura familiar. Riquezas históricas, culturais e naturais. “Bicas”, “pingas”, cristalinas águas, ruínas históricas. Mas, violência a plantar, nas estradas, “pedágios” exigidos aos aposentados, vindos dos limites com o Piauí.

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          Terra de vaqueiro cabra-macho? Não, de Iracema, a porção feminina da alma nacional!

 

  Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará e da Universidade Estadual do Ceará