Olhar de Cristiane (Marcondes Rosa de Sousa)
01:18 @ 18/07/2007
Olhar de Cristiane
Marcondes Rosa
O Povo - 09/07/2007 02:23
Na Web, lanço "Aspectos socioeconômicos do Ceará", de Cláudio Ferreira. Lima, para o Fórum Ceará. E, dos Inhamuns (Ce), chegam-nos de Cristiane Feitosa, contrapontos.
Liberdades políticas, fundamentais a construir, com emprego e renda, o desenvolvimento. Cristiane tem outro olhar: "Vivendo e trabalhando no interior (...) percebe-se que tal liberdade não existe. É pura utopia. Não há liberdade do povo e nem desenvolvimento". Relevante, diz Cláudio, o papel da educação na construção da democracia participativa, muito chão, no Ceará, por andarmos: "Do total, 603.522 são analfabetos e 1.598.126 têm o lo. Grau incompleto. Apenas 90.373 possuem superior completo". Contraponto: "(...) um dos interesses - seja ele municipal, estadual ou federal - de não haver investimento sério com a educação é formar os 'currais eleitorais' (...) mais fácil controlar o voto numa sociedade sem informação, que nos vem com a educação".
Cristiane é contra a "segurança protetora das bolsas": (...) leva à falta de mão-de-obra para trabalhos rurais (...) o trabalhador sabe que vai receber sem esforço algum... (...) "pai aposentado, mãe e cinco filhos maiores, ninguém trabalha mais (...) Vivem todos da aposentadoria do patriarca" (...) "Os filhos homens vivem na cachaça e partem para os assaltos (...) "A marginalidade, o alcoolismo e a prostituição estão aumentando". E conclui: "(...) base de tudo, a educação" (...) a levar o homem do campo a ficar no campo". Tudo, sob o lema do "não lhe dê um peixe, ensine-o a pescar".
Chegam-nos avais a Cristiane. Um deles, o da profa. Maria Adélia de Souza (USP), a propor "novo discurso político para o País": "Não há como refletir sobre o mundo novo, especialmente numa região pobre como o Nordeste brasileiro com as teorias, conceitos e significados do século XX".
Marcondes Rosa - Professor da UFC e da Uece
RECORDAÇÕES DE UMA AMIZADE
(a Wencery Félix de Sousa)
Por Luiz Marques
PAPOS AMENOS, INICIADOS COM O “BURITI”
Conheci o amigo Wencery já em seus últimos anos de vida. Tinha forte vontade de viver, embora alquebrado pelos achaques de uma AVC, da qual se tornou vítima. Apoiado por inesquecível bengala, avançava na vida com seus olhos brilhantes, seu sorriso acolhedor e sua voz melodiosa. Não se queixava de nada, nem dos setenta e cinco degraus, por ele contados, para subir até o terceiro andar do apartamento de sua filha, na Avenida Aguanambi,em Fortaleza. Em Fortaleza , quando vinha do interior, a casa de sua filha. Possivelmente por ela possuir um carro, o que facilitava os seus afazeres. Ficava orgulhoso de ir à praia para andar de pés descalços na areia molhada, atendendo a prescrição de seu médico.
Foi nesse apartamento que nos conhecemos. A amizade aí começada durou até sua viagem final. Sua obsessão era o seu “Sítio Buriti”, na Serra Grande, em Ipueiras, sempre o assunto a dominar, de saída, em nossas conversas. Quando chegava a Fortaleza, ia direto para o apartamento da filha, a quem, de logo, dizia: “Avise ao Luiz que estou na cidade. Temos muito que conversar”. Era um sábio convite, para que eu pudesse compartilhar um pouco de sua solidão. Ali, deixávamos o relógio andar, entregando-nos aos papos amenos, iniciados sempre pelo Buriti. Depois, vinham as cousas da terra e, em meio a elas, os políticos e seus partidos, dos quais já sentia ele os descaminhos. Falava de seus amigos, alguns deles também já desacreditados. Mesmo nesse tom, jamais a conversa perdia a amenidade e a tranquilidade.
RAPAZ BONITO, ADMIRADO POR TODOS
Um dia, um de seus filhos abordou-me e me pediu que escrevesse algo sobre seu velho pai e amigo. Cheguei a ficar atarantado e com razão. Quem isso me pedia era um célebre professor da área das letras, em nossas universidades. Além disso, minha vivência com Wencery, o amigo, tinha se estendido por alguns momentos apenas de sua vida. A mim, decerto, acorreriam apenas fatos esporádicos. Foi aí que resolvi entrar em contacto com seus irmãos ainda vivos: Antônio, o caçula, vivendoem São Paulo , Quitéria (a “Tia Meranda”) e Alonso, a quem conhecia eu apenas de nome. Por ocasião de uma das passagens de Antônio por Fortaleza, resolvemos, os dois, fazer uma visita a “Tia Meranda”.
A visita foi maravilhosa. Almoçamos, os visitantes, na casa dela. Casa simples e encantadora, onde o marido prendia-se, por doença, a um leito. Entre os filhos, Florêncio, funcionário do DETRAN, em Messejana (Ce). Fizemos então a festa, regada por duas galinhas assadas e o “gostoso feijão verde” da anfitriã. Tudo isso, em meio a muitos papos e recordações...
De minha parte, procurei criar um bom relacionamento com “Tia Meranda”, que se mostrava afável, desembaraçada, embora já um tanto esquecida das cousas da vida. E foi nessa atmosfera que lhe contei a razão de nossa estada ali: desejávamos dela colher notícias sobre a vida de seu irmão Wencery. Longo o relato, ultimados com a promessa de futuros encontros e telefonemas.
Wencery – contou-nos “Tia Meranda, nasceu no dia 30 de maio de 1915, na localidade do Belém - “Olho d’Água, nas imediações da Serra Grande, no Município de Santa Quitéria (Ce). Seu pai, Florêncio Rodrigues de Sousa, casado com Maria Deodorica Rodrigues de Sousa, era filho de Félix José Rodrigues e de Maria Luíza Rodrigues de Sousa. E, na fazenda onde morava, era o feitor-mor, razão do nascimento de Wencery naquele lugar.
Ele foi o sétimo dentre uma prole de 15 filhos: 1) Vitalina, 2) Adelina (“Mãe Darci), 3) Luiz, 4) Maria (Maricota), 5) Aníbal, 6) Carlos, 7) Wencery, 8) Margarida, 9) Emiliana, 10) Emídio (Cordeiro), 11) Quitéria (Meranda), 12. Alonso, 13. Marina, 14. Adalgisa, 15. Antônio.
Na expressão de Tia Meranda, “era um rapaz bonito” (como atestam suas fotos da época). “sempre bem posto, querido e admirado por todos que o conheciam”. Os habitantes da cidade – particularmente os mais idosos - nele viam um jovem educado, pacífico, respeitador. Era dotado de inteligência rara e captava tudo o que via e ouvia, com muita facilidade. Por tais razões, sua presença era sempre solicitada nos eventos da cidade.
Tinha entrada franca em todos os lares. Grandes apreciadoras dele eram as meninas, especialmente as festeiras. Palavra fluente e imaginação engenhosa, completadas por saboroso timbre de voz, chamava a atenção de todos. Era corrente sua fama como grande orador na cidade. Era indispensável convidado, nos grandes momentos da cidade, particularmente nas tertúlias. Era conhecido como “pé de valsa”, como também atestava Dona Adaísa, sua esposa, que assim, um dia, me descreveria: “Um verdadeiro dançarino. Seus pés pareciam não tocar o chão, tal era a leveza de seu porte e silhueta a chamar a atenção, o porte ereto, elegante, superior aos demais a seu redor”.
Sua paixão maior era a seresta, a luarada. Sempre em companhia dos amigos, dos violões, eles se abalavam, no dia marcado, para o terreiro escolhido Cuidadoso e educado, procurava ele não incomodar ninguém. Tão educado que até os mais velhos desciam para participar da brincadeira, incorporando-se ao grupo. A seresta terminava sempre em comes-e-bebes. Lá pelas duas da madrugada, voltavam todos para casa. Era um dos modos de vencer a monotonia dos dias, travando novas amizades, unindo as famílias e trazendo doses de afetividade para todos. Podemos nós, decerto, acrescentar: e também de dar uma espiada de mais perto nas garotas, podendo ali estar as futuras damas...
O repertório das músicas era bem escolhido: “Sertaneja”, uma das primeiras. “Nada além”, “Eu sonhei que tu estavas tão linda”, “Rancho fundo”, “Casinha Pequenina”. E, entre as mais doridas e desejadas, “Fascinação”...
Com tão esmerado repertório, as luaradas e serestas deixavam saudades, ainda hoje a despertar sentidas recordações. Sem saudosismo: se as palavras falavam, a música embalava. O vento levou muita cousa, mas ainda deixou, em nossos corações, a nostalgia de um tempo de sensibilidades e de muita afetividade. As fascinações de agora perturbam mais que alegram.
OUTRAS FACETAS
“Tia Meranda” nos diz de Wencery: “Além de rapaz arguto e de inteligência brilhante, mostrava-se inquieto. Procurava sempre o melhor. Foi estudar em Sobral, no Ginásio Sobralense Dom José Tupinambá da Frota. Travou novas amizades e pesquisou novas áreas do saber e do fazer. Contactou com pessoas de mais experiência e saber. Entre elas, um senhor José Arimatéia, com quem se iniciou na área das escriturações cartoriais”.
Versátil e intuitivo, não perdia ele ocasião para novas experiências.Em Santa Quitéria , montou um pequeno comércio de material para construção. Não perdia ocasião para investir em novos empreendimentos. Ficar de braços cruzados não era de seu feitio. Carregava consigo grande ambição: “casar com uma moça rica”.
Conta-nos “Tia Merenda” que, certo dia, surgiu um “soldado garboso”. Era o Wencery, dizia ela um tanto assustada. Ele teria “sentado praça”, num trabalho junto à polícia militar, daí surgindo, na cidade, a presença de tal “soldado garboso”, em toda a cidade. Ela conclui: “Lindo vê-lo desfilar, com sua farda sempre engomada e polainas a brilhar!”. Esta, mais uma entre outras experiências, do inquieto Wencery, em ambiente “tão acanhado”, em busca de seu futuro.
O CASAMENTO E A MUDANÇA PARA IPUEIRAS
De Dona Adaísa, colhi flagrantes de seu casamento com Wencery.
Wencery passava muito pelo “Sítio Boa Esperança”. E, numa bela manhã, em uma das janelas da casa, uma donzela lhe chamou a atenção. Os dois se entreolharam, mas nada disseram um ao outro. Nem mesmo o corriqueiro “bom-dia”.
As andanças diárias pelo mesmo lugar se repetiam. Aí, crescentes, já surgiam um sorriso, um aceno de mão... até que, um dia, o jovem Wencery resolveu subir a alta calçada, achegando-se mais perto da donzela. Depois das primeiras palavras, o marcar de novos encontros, que aconteceriam.
Certo dia, quando a conversa começava a tomar forma, a senhorita sentiu foi o relho da mãe, Filomena, em suas pernas, sinal de ordem para que ela fosse para a sala de dentro da casa.
O roteiro para os trabalhos de Wencery fazia-se sempre pela mesma estrada. E, um dia, resolveu contar à jovem segredo até então dela guardado: “Vou pedi-la em casamento”. Escreveu uma carta e pediu a um irmão que fizesse as vezes de correio, entregando-a a Dona Filomena.
Tudo acertado. No natal daquele mesmo ano de 1940, casaram-se, tendo belíssima lua-de-mel, em “rede bordada com capricho”, no comentário saudoso da felizarda nubente. Foram morar na cidade de Santa Quitéria. Um ano depois, em 1941, nasceria o primeiro rebento dessa união: a formosa filha Antônia Solange. Em 1943, o segundo da fila, Marcondes.
De Santa Quitéria, mudaram-se para Ipueiras, onde já era conhecido. E lá, nasceria, em 1945, o último rebento, Walmir. Em Ipueiras, Wencery se ocuparia das lides do Cartório do 2º. Ofício (Registro de Imóveis). Construiu sua casa própria. E logo pensou numa pequena propriedade rural, onde se dedicaria ao plantio de um pomar: - o “Sítio Buriti”, assim chamado pela presença de uns poucos pés de buriti, que se tornaria afinal, na expressão de Dona Adaísa, “a menina de seus olhos”, a produzir “as laranjas mais saborosas da terra”...
ASPECTOS OUTROS IMPORTANTES
Estes, os pontos que me pareceram mais importantes na personalidade de Wencery, colhidos pelo convívio que, com ele tive, ao final de sua vida e pelo depoimento de “Tia Meranda” e de Dona Adaísa (também ao final da vida dela). Muitos outros aspectos, em nossas conversas, eram por ele – lembro-me – tocados. Entre eles, talvez como pistas, citaria: a) a vida social e política, em Ipueiras (tempo maior de sua existência); b) as muitas “estórias” por ele contadas; c) sua ida para Brasília, onde teve participação entre os “pioneiros”, ocupou cargos em ministério importante e na Novacap, ajudou os candangos cearenses, vivendo, nos tempos de Juscelino, a febre dos 50 anos em 5; d) o retorno ao Ceará e, sobretudo, a Fortaleza, residindo à rua Pe. Valdevino, ocupando cargo importante na REFESA; e) a compra de apartamento, em Fortaleza, à rua Liberato Barroso; f) sua presença, ao tempo em que era presidente da Assembléia Legislativa do Ceará o Deputado Mauro Benevides, no cargo de secretário da presidência; g) tempos em que dividia seu tempo entre Fortaleza e o “Sítio Buriti”; h) doença final, levado do Buriti para hospitalização em Ipueiras, onde veio a falecer, sendo afinal sepultado no Parque da Paz, em Fortaleza; h) tempo afinal de espera de nosso “futuro encontro”, junto de Deus ...
Esses, porém, são aspectos dos quais melhor falariam outros: os amigos mais chegados, os filhos e noras, os que, ao longo da vida, conviveram mais tempo e mais de perto que eu.
(Luiz Marques é ex-marista, tendo, por muito anos, dirigido o Colégio Marista Cearense, além de outros colégios da rede, em outros estados. Ex-conselheiro do Conselho de Educação do Ceará. Medalha Justiniano de Serpa. Professor-adjunto (aposentado) da Universidade Estadual do Ceará (área de educação). Casado com Antônia Solange Rosa de Sousa - filha única de Wencery e Adaísa)