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A volta da viagem (Jean Kleber)

22:36 @ 07/08/2006

 

 

A VOLTA DA VIAGEM

 

Jean Kleber

 

Oito anos após o êxodo retornei a Ipueiras em companhia de minha mãe Dona Mundita e de sua prima Carlinda. Hospedamo-nos na casa de meu padrinho José Costa Matos.

 

Os coleguinhas de Ipueiras aos poucos migravam para Fortaleza em busca de oportunidades de trabalho e estudo a nível colegial e universitário. Comuns em Fortaleza, nas festinhas de aniversário ou até mesmo na rotina diária, os encontros dos conterrâneos.

 

Lembro-me, em 1954, de Costa Matos, a esposa Alderi, e os filhos Carlito e Lalú ainda muito crianças, passando dias lá em casa. Carlito viria a ser futuramente o biólogo Carlos Maria pesquisador de piscicultura, trabalhando para o Governo Federal. Lalú viria a ser o conceituado médico José Cláver, especialista em clínica de queimados lotado em Fortaleza.

 

Por volta de 1957 ou 58, minha prima Tereza Maria Matos, filha de Sebastião Matos, também passou uma temporada conosco, quando estudante no Colégio da Dorotéias, onde também estudava sua irmã Socorro Matos, lá interna. Tereza Maria é hoje Tereza Hazelton, professora de belas artes, internacionalmente reverenciada nos maiores museus do planeta.

 

Perto de nossa casa morava a família de Gelles Haman, que fora nosso vizinho em Ipueiras nos bons tempos. Meus primos, via-os vez por outra, mais freqüentemente o Manuelito. Este quase sempre comparecia às festinhas de aniversário lá de casa. Os familiares da serra, minha tia Francisquinha com a filha Salete e meu avô, João da Mata, também apareciam.

 

Salete, enfim, transferiu-se lá para casa para concluir os estudos em Fortaleza. Depois de graduada, Salete foi, por muitos anos, professora de geografia em colégio público, tendo-se aposentado recentemente. Mora hoje com meu pai, Neném Matos, que completou noventa e quatro anos em 2005.

 

Incontáveis os encontros. Difícil relatá-los sem que me torne fastidioso.

 

A Farinhada (Dalinha Catunda)

21:40 @ 11/08/2006

 

 

 

A FARINHADA

 

Dalinha Catunda

 

      Julho transcorria com seus dias claros de temperatura amena, num sertão ainda verde pela fartura das  águas abençoadas que caíram sem modéstia nesse ano de 2006.

 

      As noites frias e estreladas exibindo uma lua cheia, de graça incompa­rável, que, sem sombra de dúvidas, faz jus ao nosso tão can­tado “Luar do Sertão”, foi o cenário perfeito onde tive a felicidade de vivenciar, agora na fase adulta, o que tanto me encantou na meninice. E isso, no sitio Pai Mané, no município de Ipueiras: a farinhada. Ah! a farinhada!...

 

      O ritual, o mesmo de antigamente. Durante o dia a algazarra de meni­nos descascando macaxeira, mulheres fazendo o mesmo serviço e entoando velhas cantigas, homens limpando o forno, trazendo mandi­oca numa carroça, todo esse movimento e animação antecediam o momento mágico que estava por vir. A grande noite.

 

      E a noite, nesse dia, não se fez de rogada. Vestiu-se de beleza im­par como a presentear-me. A negritude que forrava o céu aos poucos ia sendo salpicada de estrelas e, em breve tempo, o céu era um tapete mágico, reluzente, prateado à espera da rainha da noite, que não tardou a aparecer. Linda, majestosa soberana surgiu deslumbrante por detrás da serra grande, dando um ar de conto de fadas àquela noite sublime, na casa de farinha.

 

      Enfim a lua e a tão esperada noite. As mulheres banhadas e cheiro­sas, apenas serviam café entre beijus e tapiocas, enquanto dos homens, eram as tarefas mais pesadas, como preparar a massa e  mexer a fari­nha no forno. O cheirinho de farinha torrada invadia o ar. A cada nova fornada, multiplicava-se a animação. Entre gracejos e piadas, transcor­ria a farra da farinha.

 

      Vivo na Cidade Maravilhosa, onde as luzes coloridas e a magnífica geografia fazem do Rio o mais belo cartão postal. Porém, tenho orgu­lho em dizer que minha alma sertaneja se encanta com a beleza e a magia de luas e lamparinas.