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Tributo a Isa Catunda

Marcondes Rosa de Souza
O Povo - 04/08/2008 00:04

 

Morre, em Ipueiras, onde vivi minha infância, a professora Isa Catunda. Dela, a mim e a gerações muitas, que por ela passamos, ficaram-nos as pacientes lições de caligrafia e as atraentes estórias que nos contava. Isa abria-nos a cadeia dos que marcavam a educação em Ipueiras (lembro-me de Ester Mourão, Mundita Mattos, Dario Catunda) que de lá sairiam para as "Oropa, França e Bahia". De mim, a base para que, nas brumas da Serra dos Órgãos, em Petrópolis, e em Campinas (SP), abrisse a mente para um mundo mais largo. Assim, foi para muitos: políticos, empresários, clérigos, artistas, poetas...

 

Em nós alunos, traço comum nos ficou. Ali, nas Ipueiras das "águas retiradas", berço da fratricida luta entre "mellos e mourões", a se metamorfosear nos embates de então entre os velhos PSD e UDN, quem nos educava, infundia, em nós, a lição da pacificação.

 

De Ipueiras, saíra impulsionado por Dona Ester, sua mãe, Gerardo Melo Mourão, que, na expressão de Carlos Drummond de Andrade, é o "nosso Dante", poeta maior. Mas, por ironia, nem mesmo esse "poeta maior" alça-se a "ícone", em sua terra, onde bustos, placas de ruas, praças e monumentos outros cultuam os feitos dos "coronéis" de outrora... E, nesse tom, é a própria vida política que reedita, de surda forma, os fratricidas conflitos entre "melos e mourões".

 

Hoje, quando vemos mais claro o papel de "indústria sem chaminé" a gerar "capital humano", sob a atmosfera da "responsabilidade social", é hora de revermos a "galeria dos ícones" nas "retiradas águas". E, de mim, "escrevente compromissado" do cartório ali de meu pai, aponho, com vibração, a minha rubrica: "Dou fé e assino". O tributo, pois, a Isa Catunda! Que ela abra tal galeria para quantos, pelas vias do educar, vêm construindo a convivência social em Ipueiras!

 

MARCONDES ROSA DE SOUSA

 Professor da UFC e da Uece – E-mail:
marcondesrosa@gmail.com.br


 

Jeremias Catunda Malaquias

com seus 82 anos

nos anima com sua presença

(Foto: Arquivo pessoal)

 

Tributo ao meu pai

 

Por
Bérgson Frota


 


A figura paterna nos evoca um grande respeito e amor, seja dos pais ainda presentes entre nós seja dos ausentes, cuja lembrança e saudade se fazem mais que presentes a cada dia nos nossos corações.


Assim ao falar desta tão importante figura, queria prestar também uma homenagem a todos os pais.


Na lembrança dos que se foram, àqueles cuja alegria nos fazia renovar o dia pela simples presença, novos ou velhos, pois a velhice paterna se assemelha mais a santidade.

 

Aos pais então, cuja providência divina levou para junto do Senhor, os respeitos e as louvações devidas neste dia, e nos muitos que nos serão permitidos lembrar.


Diz a Santa Bíblia que as últimas palavras de Cristo se dirigiram a seu genitor --- “Tudo consumado Pai, em tuas mãos entrego o meu Espírito”. E estas palavras têm ecoado por séculos no inconsciente coletivo humano.

 

Aquele que por nós veio dar sua vida recorre antes novamente no Jardim de Getsemani, ao seu criador --- “Pai afasta de mim este cálice”. Numa súplica muda quando o suor já lhe descia o rosto transmutado em sangue.

 

As duas citações servem a um propósito claro, nos últimos momentos de vida Jesus chamou pelo Pai, e somente no desespero em que a carne revolta gritou mais forte diante de tanta insuportável dor ele disse --- “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes ?”. Mas foi ao Pai a quem dirigiu “ele” seus dois últimos pedidos.

 

Jesus é para nós o guia, um exemplo, e seu exemplo em relação o respeito ao Pai nos toca, esta figura santa destaca em seus atos o sagrado valor da paternidade.

 

Tocar o coração humano com palavras é algo difícil, e ele o fez, tocar-lhes o coração com este texto é o que busco, sem ter a confiança de fazê-lo.

 

Queria junto a uma homenagem coletiva aos pais lembrar de um nobre senhor que com sobriedade e coragem, nos seus 82 anos ainda anima com sua presença o lar de minha família.


Meu pai, Jeremias Catunda Malaquias.

 

Nascido em Ipueiras, no dia 28 de julho de 1926. Foi o primogênito de uma família de cinco filhos. Casado, pai de três filhos, os quais pelo exemplo nos deu um norte, a correta direção de seguir em frente.

Ao referir-me de forma sutil e rápida, ao meu genitor, e parecer perder-me num texto ao Dia dos Pais, retorno aos pais presentes, aos que entre nós estão, aos que são e sabem com justiça e integridade exercer a função paterna, aos pais futuros, e aos que iniciam este difícil, mas grande e prazeroso exercício.

 

Ao concluir deixo como tributo ao meu Pai no seu dia, meu eterno agradecimento. Deixo a todos àqueles cujas determinações maiores já não permitem contar mais com a presença física de seus genitores, minhas saudações e respeito, e aos pais que iniciam sua caminhada os parabéns, pois a paternidade não é e nunca foi uma obrigação, constitui este posto numa das mais nobres bênçãos que Deus permitiu aos homens, ser pai como Pai de todos “Ele” também o é.

 

(Publicado no jornal O Povo em Fortaleza - Ceará, em 09.08.2008)

 

(Publicado no jornal O Povo em Fortaleza - Ceará, em 09.08.2008)


Bérgson Frota, escritor, contista e cronista, é formado em Direito (UNIFOR), Filosofia-Licenciatura (UECE) e Especialista em Metodologia do Ensino Médio e Fundamental (UVA), tem colaborado com os jornais O Povo e Diário do Nordeste, desenvolvendo um trabalho por ele descrito de resgate da memória cultural e produzido artigos de relevância atual.

 

             Expedito Catunda

 

Carta ao meu pai

Dalinha Catunda

O Povo - 09/08/2008 

Meu pai não fique triste,
Porque o tempo passou.
Você fez seu melhor
Pelos filhos que criou.
É dever de cada um de nós
Sempre ser seu protetor.

Quisera eu fazer mais,
Contudo moro distante.
Longe de minha cidade
Sou sua filha retirante.
Quisera guiar seus passos
Como os meus guiara antes.

Não pense que lhe esqueci,
Não quero em você tristeza.
Você é minha segurança,
Minha maior fortaleza.
Sua presente fragilidade
Passa ser minha fraqueza.

A idade lhe permite
Uma teimosia atroz.
Quer viver do seu jeito,
Não como gostaríamos nós.
Mas estou sempre ligada,
Para atender sua voz.

Não se esqueça de deixar
Ligado o seu celular.
Estarei sempre ligando
Pra saber como você está.
Saiba que em meu coração
Eterno será seu lugar.

Nessa cartinha que faço
Usando rimas e versos,
A sua benção meu pai,
Como aprendi, eu lhe peço.
Beijando a sua mão
Com carinho me despeço.

 

 

                                Foto : (Arquivo Aba Film)

 

                                   

Cine São Luiz, o dia da inauguração.

 

                                                                                               

 Bérgson Frota 

                         Publicado no jornal O Povo em 02.08.2008

 

 

 

  Parece que foi ontem, para repetir já uma velha introdução dos que narram coisas passadas. Mas sim, parece que foi ontem que num anoitecer de um dia calmo e cheio de expectativas, a sociedade fortalezense se preparou para testemunhar e usufruir o que de mais moderno em termos de sétima arte era inaugurado em Fortaleza.

 

   O Cine São Luiz.

      

 Quem dera estar eu presente lá e ver pela primeira vez o luxo que ainda ostenta hoje, porém um pouco gasto, forças do tempo, mas na época novinho. As formas arquitetônicas clássicas, os gigantes lustres tchecos e as belas paredes de mármore carrara na monumental sala de espera. Internamente os desenhos e esculturas de baixo relevo com as luminárias originais da sala de projeção.

       

A emoção de pela primeira vez ver aquelas duas cortinas abrirem-se indo uma para cada lado, mas antes quando fechadas formarem uma só, e finalmente depois de algum tempo, para iniciar a projeção, quando já recuadas exibirem a gigantesca tela branca.

 

        Foi pensando assim que neste artigo, vencendo o tempo e espaço, baseado em filmes e textos da época, tendo inclusive assistido ao primeiro filme exibido, que retrocedi e recriei em texto Fortaleza, no que foi a noite do dia 26 de março de 1958, uma quarta-feira.

 

         A cidade tinha na época cerca de 500.000 habitantes, havendo desde cedo grande movimentação, comum no antigo centro da cidade. Resolvi passar em frente ao cinema, lá se lia em placa grande São Luiz – Inauguração hoje, às 20 horas – Anastácia, com Ingrid Bergman.

       

Era fim de tarde e observava com curiosidade, as pessoas, suas roupas e os prédios hoje já não mais existentes.

       

Tinha que esperar até as oito horas. Com sorte havia me lembrado de mandar fazer meu paletó, típico do fim da década de 50, e consegui um convite conservado de alguém que por azar não pode ir, sem o mesmo seria barrado.

      

Logo a noite avançava. Começaram a chegar os carros com autoridades, o governador Flávio Marcílio e sua esposa desceram, e a multidão observava já fazendo um círculo em torno do vistoso edifício.

       

As mulheres de saias longas, típicas da década de 50, e meia luva. Os homens todos empaletozados e prontos para assistir a glamorosa inauguração.

       

Muitos populares, adolescentes em geral, não vestidos a rigor observavam comportados, num misto de orgulho e admiração aos expectadores que com luxo desciam de carros e bem vestidos entravam no cinema, entre o círculo de isolamento que se formou em torno da entrada do cine-teatro e eles a distância era pequena.

        

Consegui romper o cordão, e logo me aplumando aproximei-me da entrada. Mostrei o convite, e entrei.

        

Que maravilha era aquele cinema.

 

         Só para dar uma idéia, a maciez do tapete era tanta, que parecia fazer os sapatos sumirem. O ar refrigerado trazia logo um bem-estar em quem entrava, um clima diferente como se saíssemos de Fortaleza e em alguma temperada cidade européia adentrássemos.

 

         O filme tratava-se de uma princesa russa, que havia escapado do massacre da família imperial na época da Revolução Socialista Soviética.

 

         A sala estava lotada, na parte superior da mesma, ficaram as autoridades.

 

         Não demorou e as luzes foram aos poucos se apagando e finalmente a fantástica tela se iluminou.Também o som era inovador, nunca antes visto em cinemas de Fortaleza. A platéia repleta de pessoas bem vestidas, até parecia a entrega do Oscar, pensei. Assim, comportados assistíamos o início da história de um cinema que hoje, se não detém o título de o mais antigo da capital alencarina, certamente é com merecimento o melhor e mais belo até hoje aqui construído.

 

          E lá se foram 50 anos.

 

          Um dia na metade dos anos setenta um garoto do interior o conheceria e se deslumbraria pela primeira vez, não com o drama de Anastácia, mas com as peraltices dos Trapalhões. Quem era este garoto é um mistério, mas daquele dia em diante para ele o São Luiz tornou-se um rico palco de diversões que até hoje, passado tanto tempo, jamais foi superado.     

 

 

 

 

 

TRIBUTO A ISA CATUNDA

 

Para a seção de cartas do leitor

Do Jornal “O Povo”

 

            Sob o título acima li, surpreso, na edição de O POVO de 4.08.08, brilhante artigo do Marcondes Rosa sobre o passamento da Isa Catunda na Ipueiras natal. Ante tão precisas  palavras, resta-me pouco a dizer sobre a personalidade da falecida. Mas, mesmo assim, as   lembranças da infância, vividas na sala de aula da professora Isa, impõem-me aliar-me aos que, de algum modo, lhe prestaram homenagem póstuma.

Pelo benquerer que lhe devotava, externo, por essa via, meus sinceros sentimentos de pesar aos seus familiares e amigos, amargando, como eu, a saudade de sua partida. Convalidando as palavras do Marcondes a Isa,  bem merece, a exemplo de outros, perpetuar sua memória no “status” de ícone da querida Ipueiras.Testemunha ocular da história daquele rincão e personagem dessa trajetória pois,como educadora, plasmou o caráter de tantos que hoje engrandecem e dignificam o nome de nosso berço territorial.

A Isa foi luz que iluminou nas trevas da ignorância descortinando, no alvorecer, o horizonte do conhecimento para seus pupilos nas aulas de alfabetização. E os rastros dessa luz permanecem, indeléveis, no âmago de cada um de nós, seus ex-alunos, aclarando o presente com o foco perscrutando o futuro. Pela inabalável convicção no seu credo religioso, que o passar dos anos, inobstante os percalços da vida, não esmaeceu, mas, pelo contrário, cada vez mais vivificava, hoje, na eternidade, já usufrui da visão beatífica do Criador reservada aos que, aqui, na Terra, somente praticaram o bem, semearam a paz e multiplicaram a benquerença.

 

Francisco Hélder Catunda de Sabóia- RG-177602-SSP-CE.

Rua Joaquim Nabuco, 1840-aptº 402-Aldeota-Fortaleza-CE. Fone:3224.41.66

 

Seu Sol e Dona Lua

 

Dalinha Catunda

 

Seu sol e dona lua,

Começaram a namorar.

Depois de pouco tempo

Resolveram se casar.

 

Mas ficava bem difícil

Para os dois a situação.

Quando o sol se recolhia

Vinha a lua e seu clarão.

 

Ele lhe dava: boa noite!

E logo no céu sumia.

No outro dia bem cedo

Ela lhe dava: bom-dia!

 

Assim por muito tempo,

Viveram nessa agonia.

Enquanto um chegava,

O outro triste sumia.

 

Seu sol mui enamorado,

Por dona lua se derretia.

E ela tristonha chorava

Quando seu astro partia.

 

Dona lua foi minguando

Diante de tanta tristeza.

O toque de raios solares

Devolvia-lhe a beleza.

 

Júpiter sensibilizado

Com tal amor proibido

Criou um grande eclipse

E tudo ficou resolvido.

 

Toda vez que o céu escurece

Dá-se a verdade mais crua.

Seu sol. cheio de amor,

Vem cruzar com dona lua.

 

Depois de certo tempo,

Bela e cheia ela aparece.

E Seu Sol, agradecido,

Entre raios resplandece.