Grupos

 

Tetéu

 

*O TETÉU ME AVISOU*

 

 

 

Ouvi a zuada do Tetéu

 

Eu olhei para porteira.

 

Vi meu amor chegando

 

Meti os pés na carreira.

 

Me joguei em seus braços,

 

E foi tanto beijo e abraço,

 

Que me deu até tonteira.

 

 

 

Entre nós dois se jogou

 

O cachorro de estimação.

 

Um velho vira-lata,

 

Que atende por barão

 

Latindo e abanando o rabo

 

Demonstrando satisfação.

 

 

 

Hoje a galinha caipira,

 

Vai cheirar lá na panela

 

Vou fazer como ele gosta,

 

Com pirão e à cabidela

 

E vou separar pra só ele

 

Coração fígado e moela.

 

 

 

Uma cachacinha já tem,

 

Vou ao pé buscar cajá.

 

Um suco bem refrescante,

 

Ligeirinho vou preparar,

 

Vou caprichar no almoço,

 

Sem me esquecer do jantar.

 

 

 

No terreiro à noitinha

 

Vai ter dança e cantoria

 

Para celebrar a volta,

 

De quem é minha alegria

 

E que longe de casa, feliz,

 

Por certo jamais viveria.

 

 

 

Mas a festa só se acaba,

 

 

 

 

Ao matar a minha sede.

 

Suando junto com ele

 

No balançado da rede.

 

O armador que agüente!

 

Pra não cair da parede.

 

  

Dalinha Catunda

 

 

Lembrando o “Poeta das Ipueiras”

                      

Em 28 de julho de 1926 nascia em Ipueiras um dos seus mais célebres filhos, Jeremias Catunda Malaquias, filho de Luís Malaquias e Maria Catunda.

 Sendo o primogênito de uma família de cinco filhos este poeta, cronista e escritor dedicou toda a sua vida a divulgar sua terra com um ardor tão raro nos dias de hoje que poderia chamar-se quase uma obsessão.

Jeremias Catunda foi membro da ACI(Associação Cearense de Imprensa) tendo sido distinguido com o "Chevron" de ouro pelos seus 40 anos de atividade jornalísticas sendo sócio fundador da Associação Cearense de Jornalistas do Interior, escolhido e premiado em seis congressos da classe como um dos mais atuantes membros.

Sócio correspondente da Academia Sobralense de Estudos e Letras, foi correspondente dos : Diários e Rádios Associados, O Povo, Diário do Povo, Gazeta de Notícias, O Estado, Correio da Semana, Gazeta do Centro-Oeste, Folha Regional, Revista Itaitera do Crato, Almanaque da Parnaíba, Ceará Rádio Clube, Dragão do Mar, Radio Tupinambá, Iracema e Rádio Vale do Rio Poty de Crateús.

 Vereador em três legislaturas seguidas 1947/56, sendo até hoje o mais novo representante do povo na Câmara, eleito em 1947 com 21(vinte um) anos obtendo em 1954 mais de 10% dos votos apurados.

Por ocasião do Primeiro Centenário do Município, ocorrido em 1983, publicou "Ipueiras, uma síntese histórica" e em 1985 na Primeira Semana Cultural de Ipueiras lançou o seu livro poético : Versos Versus Minha Vontade.

 Foi escrivão e coletor da Coletoria Estadual de Ipueiras, escriturário do DAER (hoje DERT) e inspetor de linhas telegráficas do DCT.

Jeremias Catunda Malaquias foi uma figura das mais valiosas no campo cultural de Ipueiras, seu trabalho rico em crônicas, poemas e poesias nasceu como fruto de um grande amor pela terra natal.

No ano em que o grande poeta, jornalista e contista completou seus 83 anos, deixou de forma plácida entre os seus, as labutas terrenas.

             Ipueiras se queda em gratidão a mais um filho que partiu para a eternidade, mais um filho que fez da vida um grande discurso de amor inconteste à terra em que nasceu, criou-se, dela nunca apartando-se até novamente a ela juntar-se.

 Bérgson Frota

***

 

           Este trabalho é dedicado a equipe do blog Grupos que sempre destacou e respeitou os trabalhos de meu pai como a todos que prestaram uma ou duas linhas de respeito por sua partida.


 

 

EM HOMENAGEM A JEREMIAS CATUNDA

Hélder Sabóia

             Com pesar tomei conhecimento da morte do Jeremias. Do Jeremias Catunda de Ipueiras.  Sem favor, talvez o conterrâneo que mais amou seu torrão natal e a ele esteve ligado até o fim de seus dias, nutrindo-se da seiva da terra em cuja ambiência se inspirava para suas narrativas literárias onde os personagens e as coisas eram modeladas com a argila do rio Jatobá.

Tal o feitiço da terra que o impregnava; tal a força telúrica que o dominava.  Exaltou a velha comuna na poesia e, com ufanismo, à moda do vate maranhense Gonçalves Dias, também versejou: “Minha terra tem palmeira onde canta o sabiá...”  

Escrevia com desenvoltura e maestria e, impressionante, era autodidata.  Não portava anel de bacharel. Doutorou-se na universidade da vida, daí sua inata sabedoria. Ao relembrar Ipueiras dos idos de 1950/60 assomará a figura do Jeremias. Orador inflamado nos palanques das campanhas políticas, defendendo as posições dos candidatos de seu partido nas ferrenhas disputas pelo poder.  Promotor das tradicionais festas da sociedade, em especial, o badalado “chitão” no nobre salão do paço municipal.

 Desportista, mantinha, juntamente com outros aficionados, os times de futebol e de voleibol neles atuando com profundo bairrismo quando disputava competição com as equipes de outras praças. Brincalhão, não dispensava a lavratura do testamento do Judas antes de sua queda do pau da forca nos sábados de aleluia.

Político, foi vereador interessado pelo crescimento sócio-cultural da terra natal, engajando-se nas lutas pelo desenvolvimento da educação. Foi um autêntico ipueirense; lídimo representante de tantos quantos, assim como ele, propugnaram pelo progresso da terra. Jornalista arguto, registrava, nos jornais de grande circulação, os relevantes fatos político-sociais cobrando dos representes do município nos foros da Assembléia, quando se fazia oportuno, atuação decisiva em favor das obras necessárias ao progresso da municipalidade.

Esta a imagem que tenho do Jeremias. Que o Criador o tenha na paz de sua morada celestial.

 

 

                              

        

          Fortaleza na Segunda Guerra Mundial

 

          

 Há exatamente setenta anos atrás, precisamente em setembro de 1939, iniciava-se na Europa a Segunda Grande Guerra.

 

          Fortaleza que sempre se guiou, seja na moda e nas idéias por sua fonte européia observava com atenção e receio os fatos que se desenrolavam no Velho Mundo.

 

         Com o início do bombardeio de cidades e a guerra se estendendo para o norte da África, o receio tornou-se medo.

 

         Era o ano de 1941, e Fortaleza temia também vir a se tornar um alvo de ataque aéreo, em virtude disso criou um programa de treinamento denominado “defesa passiva”.

 

         Na época a cidade tinha uma população estimada em 180.185 habitantes, e o medo vindo pelas notícias da Europa criava um clima de ansiedade e desassossego, despreparo e desinformação.

 

         Em agosto de 1942 o Brasil entrou na guerra junto aos aliados.

 

         As regiões do Nordeste brasileiro passaram a ser pontes à aviões norte–americanos que partiam para atacar o continente próximo. Porém a virada de perspectiva em Fortaleza se deu quando Natal por já está muito congestionada, fez surgir em Fortaleza mais uma base de ataque em direção à África.

 

         Agora mais do que nunca Fortaleza sentiu a necessidade de criar uma proteção eficaz, pois se via de fato sujeita aos ataques aéreos.

 

         Em 26 de janeiro de 1943 o jornal O Povo noticiava “foi realizado domingo, na zona fabril de Fortaleza, o segundo exercício de defesa pacífica antiaéreo, promovido pela diretoria regional...”

 

        Às 9h30min precisamente, os bombeiros que se localizavam na torre de comando do quartel, no edifício da Praça Fernandes Vieira (Praça do Liceu), anunciaram a aproximação dos aviões inimigos. A medida era tida como necessária para “preservar” a cidade de possíveis ataques por submarinos.

        As sirenes soaram o alarme. Os aparelhos do aeroclube do Ceará, em número de quatro, sobrevoaram a zona visada, “atacando” de preferência, os prédios do Liceu e do Corpo de Bombeiros.

 

       Treinamentos diários de sobrevivência eram realizados com a população. Cada simulação de bombardeio realizada pelos monomotores do aeroclube do Ceará, faziam os fortalezenses entrarem em pânico.

 

       Em vôos rasantes durante 30 minutos as Praças do Ferreira, José de Alencar e Praça do Liceu eram riscadas por aviões em rápidas manobras.

 

       O pânico não saía do imaginário dos habitantes.

 

       O “setor civil” orientava as famílias para pintarem de preto as vidraças das janelas e portas, impedindo que à noite a cidade ficasse vulnerável, principalmente as residências mais próximas da orla marítima

 

        Estas aeronaves que faziam seus vôos noturnos, não tinham luzes de navegação por serem antigas, ocorria então se amarrar lanternas nas montantes dos aviões para evitar possíveis colisões.

 

        Sirenes eram acionadas e o povo corria para se abrigar se caso estivessem na zona “atacada”.

 

        Para defender a cidade ainda foram transferidos para o farol do Mucuripe (farol velho) doze canhões da marca Krupp, com a finalidade de revidar e intimidar possíveis submarinos, tinham alcance médio de dois mil metros e sua serventia só seria de fato eficaz em luta terra-a-terra.

 

        Assim foi Fortaleza na Segunda Guerra Mundial, descrita numa narrativa que hoje pode até nos soar ridícula, lembremos porém que o medo e a insegurança reinantes na época geraram reações que não mediam lógica ou crítica, pesavam somente e tão somente o instinto mais forte e primário do ser humano : a sobrevivência.

    

                                 

                                                                                            Bérgson Frota

 

– Foto : Fortaleza início da década de 1940 – Foto Nirez

-  Publicado no O Povo em 29.08.2009