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O ÉPICO DE UMA ÉPOCA: QUASE!

 

Marcondes Rosa de Sousa,

 

Tribuna do Ceará, Fortaleza, 9/2/2000

 

Quase é advérbio por trás do qual se escondem o rascunho, o inconcluso e o inatingido. Quase é o título de obra de 518 páginas do escritor-jornalista Frota Neto, lançada, dias atrás, em calorosa noite no Náutico, em mais de 4 horas de autógrafos, abraços e reminiscências de todos os lados.

 

         Autobiografia, crônica sentimental, história ou romance? Quase é quase cada um desses gêneros. É autobiografia onde o autor se transpõe do texto para o entretexto.  Romance em primeira pessoa, em que o narrador é câmera subjetiva a extrair, de ambiências, fatos e personagens, o caleidoscópio de nosso imaginário. Filme onde incontáveis figurantes são feitos protagonistas, num romper da dualidade “bandidos/mocinhos”.

 

         Nele, Frota Neto é repórter a registrar fatos de sua convivência, entre os anos 50 e 70.  Na seleção do não-perecível, assistiu-lhe o feeling do cronista da história.  E, ao mapear ambientes, atitudes e almas - captados por câmera em close up - fez-se cineasta sensível na seqüência dos instantâneos em contextos significativos mais amplos e verticais: do “carneiro do Miraugusto” e os doidos (?) de Ipueiras às cenas nas prisões, no jornalismo e na história do Ceará, do Brasil e do Mundo.

 

         O menino que, “nas Ipueiras”, brincava de repórter, afeita à história e às estórias, revela-se de corpo interiro, na linguagem solta e aprazível, impregnada do jeito de nossa gente. “Quase”, assim, não é o nostálgico retorno a um congelado passado. É, ao invés, o ontem revisitado, sob o agudo olhar do agora, onde atores e cenas, em flashback, se re-simbolizam em seu papel. “Quase” são dramas com marcas, sem traumas porém. Não o tributo cobrado por um retornado, após seu êxito “lá fora”. 

 

         Frota é um dos que se foi, mas que, aqui, deixou-se ficar.  Que viu o mundo “Ipueiras” e, de sua aldeia, fez uma sinédoque do mundo.  Isso, porque continuou sempre o “Antônio do seu Idálio”, a nos tratar pelo apelido de infância.  “Seu Idálio”, o pai, que, no cotidiano de sua farmácia, é personagem-tema a nos sugerir um “romanço”...

 

Para Frota Neto, Quase pode ser o desculpar-se pelo inconcluso. No caso, porém, é advérbio que se tornou substantivo próprio e maior. E, na leitura de muitos dos personagens-leitores, “o épico de uma época”. Por que não? A arte, afinal, faz-se da sugestão e do inconcluso: atingindo sua plenitude, no “quase”!

 

Extraído do livro Educação: insistências e mutações – Coletânea de artigos publicados em jornais de Fortaleza (1995 a2001), Fortaleza, Edições UVA, 2002. pp. 174-175

 

Comentários

(20:56 @ 03/12/2006) Jean Kleber disse:
A arte faz-se da sugestão e do inconcluso e atinge a sua plenitude no "Quase". Como Walmir Rosa disse certa vez, Frota Neto é um ícone de Ipueiras. Parabéns Marcondes. Um reedição oportuníssima.