A casa de D. Adelaide (J. Kleber Mattos)
01:39 @ 21/12/2006

A CASA DE DONA ADELAIDE
Na segunda metade dos anos 40, deixamos nossa primeira residência em
Lembro-me bem do dia da mudança. Era o período das águas. Tempo nublado, garoando. Na casa, um cheiro peculiar. Soube depois que era de morcego. Ao chegar, duas carnaubeiras novas no quintal me impressionaram. A casa de D. Adelaide foi nossa segunda e última residência em
A sala de jantar também dava para a rua. A porta de entrada era serrada ao meio. Abria de metade, garantindo a ventilação. Voltado para o quintal havia um alpendre onde “seu” Mattos criava abelha
A escola tinha uma quadra de vôlei. Simples, chão arenoso batido. Ficava numa área lateral da casa-escola. Ao fundo da área da quadra havia mais um pequeno espaço que podíamos chamar de “playground”. Em sua frente, erguia-se uma cerca de “vara-a-pique”. Do outro lado, era o galinheiro onde D. Mundita criava galinhas caipiras. A criançada volta e meia, brincava de “trisca” (pique-pega) na quadra. Tiravam os calçados para brincar na areia. O mato que crescera nos “tempos baldios” fora capinado. Tudo limpinho e ciscado. Também jogávamos futebol e bila (bola de gude). No futebol, naturalmente pisoteávamos a terra e revolvíamos a areia com os pés ao chutar a bola.
Um dia, em meio ao jogo, alguém encontrou um dente humano emergindo da areia. Era próximo à janela do front poente da casa. Paramos o jogo. Ficamos curiosos. Passamos a revolver a areia com ansiedade. Mais dentes começaram a surgir. Alguém sugeriu que, no passado, um dentista teria montado seu consultório na sala da quina, justo sobre onde estávamos. Ele teria atirado aqueles restos ao terreno. De repente, alguém encontrou uma moeda antiga. Da busca ansiosa revolvendo a areia, passamos à sofreguidão. Mais moedas surgiram. Todas de réis. Para nosso horizonte de consciência, um pequeno tesouro. Tenho-as até hoje, guardadas com carinho.
O quintal começava nos batentes da cozinha e findava no cacimbão, que era ladeado, à esquerda pelo banheiro e à direita pela privada ou “sentina”. O cacimbão era o terror de minha mãe, por medo de que, em minha curiosidade de olhar-lhe dentro e testar-lhe o eco, me despencasse. Era coberto com uma forte estrutura de madeira e, apenas por uma janela, se “puxava” a água.
O banheiro tinha tanque e tacha. O banho era de cuia. A privada ou “sentina”, uma graça. Tinha dois buracos. Nunca entendi. Imaginava duas pessoas “fazendo o serviço” lado a lado e conversando animadamente. Hilário. Os buracos eram canalizados em plano inclinado para o terreno de trás, baldio, onde corria uma grota. Esgoto a céu aberto, sem dívida. A água servida do banheiro desaguava no mesmo terreno.
A passagem do quintal para o galinheiro se dava através de um cômodo onde minha mãe “deitava” galinhas. Havia, de quando em vez, uma ninhada de graciosos pintinhos caipiras. Neste cômodo havia também um pilão para fazer xerém para os pintos e paçoca para nós. Ou seja, carne assada com farinha e cebola roxa, caprichosamente piladas. Comíamos com banana.
Quando faltava luz elétrica em
Mas a casa de D. Adelaide tinha um encanto especial. Era uma escola. De dia, especialmente nas tardes, dezenas de coleguinhas em aula. Eu também era aluno. No recreio, brincávamos de “queimada”. Gostava de observar as merendas deles. O que eles comiam. Só observar. Havia sempre alguém com uma novidade. Bolos, biscoitos, uma balinha nova, quem sabe um “lançamento”...
No início dos anos 80, com quase quarenta anos de idade e de carona com uma amiga que se dirigia ao Ipu, visitei
Naturalmente, faltava-lhe o ingrediente mor: meus amigos de infância. Faltava enfim, o fluido vital daquela casa.
(Jean Kleber Mattos)
Comentários
(12:41 @ 21/12/2006) Dalinha disse:
Jean Kleber, Quantas recordações... tomar banho de tacha, o cacimbão com duas forquilhas de lado, um pau atravessado sustentando o carretel, uma corda com a lata na ponta e a água que era puxada. Bons tempos de "galos e quintais, brincadeiras inesquecíveis e alegrias constantes. Belo relato!!!!
(11:15 @ 26/12/2006) Solange disse:
Puxa, que memória privilegiada você tem! Seu texto fez-me rever nós jogando "queimada" no campinho e uma bolada forte que levei de Pinho Gomes bem à altura do busto, como doeu, mas continuamos a jogar. Brincavámos juntos e não tinha problema algum, todos erámos amigos e nos respeitávamos. Bons tempos aqueles!!!
(21:34 @ 27/12/2006) Jean Kleber disse:
Dalinha e Solange! Dalinha, esquecí uma coisa arrepiante, que você, poetisa que é, lembrou: o canto dos galos. Eu acrescento: no inverno, o coaxar dos sapos, as rãs "raspando as quengas" ... Solange, a "queimada" era meio violenta. Como eu era o menor, eu ficava pouco por lá. Às vezes era no campinho, às vezes era na calçada mesmo. Na rua, enfim. Era o jogo mais concorrido e mais entusiasmante. Solange, parece que estou "vendo" vocês...é fantástico!