Migrante(Dalinha Catunda)
01:21 @ 05/01/2007

MIGRANTE
Sou das águas retiradas.
Sou do sertão nordestino.
Das caatingas desertei,
Lamentando meu destino.
Pois deixar o meu torrão,
Machucava-me o coração
Causando-me desatino.
Meu dialeto sagrado
Era motivo de riso.
Era uma rês desgarrada,
Mas seguir era preciso.
Pedi a Deus proteção,
E à Virgem da Conceição,
Para me dar mais juízo.
Não reneguei minha terra,
E jamais renegarei.
De ser filha do Nordeste,
Sempre me orgulharei.
Lamento até ter perdido,
Aquele sotaque antigo,
Que de lá eu carreguei.
Na minha casa nova,
Onde hoje brilha o chão,
Num canto especial,
Avista-se um pilão,
Em outro canto uma rede
Onde embalo com sede,
As saudades do sertão.
Tapioca com manteiga,
Não deixo de comer não.
Numa panela de ferro,
Faço um gostoso baião.
Cabeça de galo e mal-assada,
São iguarias apreciadas,
Com gosto de tradição.
Rezo p’ra São Francisco,
E padre Cícero Romão.
Pra proteger
Meu pequenino rincão
Pois é lá minha ribeira,
Onde a linda carnaubeira,
Ao vento lança canções.
Eu vim sem querer vir
Fiquei sem querer ficar,
Mas um dia ainda volto,
A morar no meu Ceará.
Longe da terra amada,
Serei sempre ave arribada
Voando tentando voltar.
Comentários
(10:19 @ 05/01/2007) Jean Kleber disse:
Lindos versos. De fato, o migrante não perde as raízes. Dalinha, aqui em Brasília, eu como tapioca na casa de Tereza, carne de sol com paçoca e manteiga de garrafa no "Xique-Xique" e tomo cajuina na Casa do Ceará, sempre que posso. Homenageio a terrinha assim, saboreando seu quitutes. Você foi muito feliz com o tema. Valeu.