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SINOS DE MINHA INFÂNCIA

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

O Povo , 20 de março de 2002

 

 

Uma cena me intrigava, em criança. Se, na Matriz de Ipueiras, dobra­vam dolentes os sinos, al­guém "passava desta para a melhor"; se repicavam alegres, "um anjinho subia aos céus". Can­ções nos falavam de "léguas tira­nas, "paus-de-arara", "estrada do Canindé", "Padirn Ciço", "missões de Frei Damião". Na escola, apren­díamos que, por aqui, somos todos "Moacir, o filho da dor". E, predes­tinação de uma raça, lá me fui eu em busca dos verdes e do eldora­do do centro-sul.

 

Lá, era o dito, "São Paulo expor­ta café; e o Ceará, o talento" - váli­do este, só se exportado. Um dia voltei e, cedo, abracei o verbo "mu­dar", trocando o "contra as secas" pelo "em favor das águas". E hoje sou dos que pensam que o acúmu­lo e os caminhos das águas, sem uma mudança cultural, a pouco nos levará. Hypérides Macedo ga­rante que já teríamos água sufi­ciente e que, para o verde das plantas, "basta um tiquinho". E, ante os aquiescentes olhares dos secretá­rios Pedro Sisnando e Carlos Ma­tos, depõe-nos: "Em Israel, todo ci­dadão tem um jardim na cabeça".

 

Em nossas cabeças, ao invés, ha­bitamos ilusórias "Twin Towers" e os Beach Parks de nosso alienado lazer. E alimentamos vãos sonhos de que, "se der o carneiro", arran­camo-nos daqui "pro Rio de Janeiro".

 

 Tempo, pois, de chamar religio­sos, artistas, educadores, políticos, a sociedade enfim, para um novo "contrato social" a se assentar na revisão de suas cláusulas pétreas: do projeto de Deus aos nascidos aqui; do pacto histórico celebrado por nós, de Moacir a Tasso Jereis­sati; da convivência social e huma­na, afinal. Se, como antes, os sinos celebrarão ou não a mortalidade infantil. Se o sol e o vento, desper­dício energético, ainda nos quei­marão e açoitarão. Se o semi-árido será ou não a terra da expiação, do "penitencial turismo".

 

Questão, pois, aberta aos que, na escola e na sociedade, são res­ponsáveis por este "tema transver­sal", em nossa vida e cultura!

 

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Uni­versidade Federal do Ceará (UFC) e da Universi­dade Estadual do Ceará (Uece). Ora exercendo a pre­sidência do Conselho de Educação do Ceará.

 

Disponível nos Blogs:

 

 

http://www.grupos.com.br/blog/ethos-paideia/

http://www.grupos.com.br/blog/ipueiras/

 

 

 

 

 

 

 

 

Comentários

(15:41 @ 10/01/2007) Jean Kleber disse:
Amigo Marcondes, simplesmente brilhante sua crônica. Ela nos toca a todos que crescemos embalados pela voz de Luiz Gonzaga na "radiadora" de seu Simãozinho: "Oh, que estrada mais comprida! Oh! que légua tão tirana...". E não apenas isso. A todos nós que ainda técnicos e professores mantemos as antenas ligadas em busca de sintonia com as idéias que nos levem ao verdadeiro desenvolvimento econômico e social. Grande abraço.