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GERARDO MELO MOURÃO, 
NOSSO HOMERO DE CABECEIRA
 
Paulo Elpídio de Menezes Neto 
 
 
Guardo a memória de alguns episódios que evocam Gerardo Melo Mourão em duas fases distintas de sua vida.
 
Fui testemunha ocular de uma ruidosa manifestação que contra ele moviam os estudantes de Fortaleza, pelas ruas do centro, cortando a Major Facundo. Nomeado presidente da Comissão Estadual de Preços, lembravam os manifestantes, contra o ato de sua designação, suas pretensas ligações com o Eixo, acusando-o de ter prestado serviços ao III Reich como espião na II Guerra Mundial. Atribuíam-lhe a responsabilidade pelo naufrágio de navios brasileiros de cabotagem, postos a pique no litoral do Nordeste. Nunca se esclareceu essa acusação ignominiosa. Submetido a julgamento, absolveram-no os juízes da culpa que se lhe imputava, talvez injustamente.
 
Era integralista, fato e circunstância de natureza ideológica que que não bastariam para que lhe fossem atribuídas culpa e penalidade sobre acusações não comprovadas. Como falava correntemente a língua alemã, talvez, por essa imponderada preferência, houvesse sido assemelhado aos laboriosos oficiais da SS.
 
Muitas vezes recordei, para explicar o zelo da populaça em torná-lo suspeito aos olhos dos patriotas, aquele conto de Monteiro Lobato, justamente intitulado "O Espião Alemão". No interior de São Paulo, no auge das hostilidades da guerra, foi preso um estrangeiro, suspeito de estar a serviço do governo nazista. Não falando o português, balbuciando em língua desconhecida palavras e frases inintelegíveis, foi a indigitada criatura levada à cadeia, onde permaneceu, no cárcere, objeto da curiosidade dos locais, sob a acusação de espião do Eixo. Levaria algum tempo para que alguém, de passagem pela cidade, descobrisse que, de fato, o suspeito era inglês e não filho da germânia...
 
O segundo episódio, vivi-o, ao lado de minha mulher, Zuleide, e de um amigo, Mosslair Cordeiro Leite, em Bonn. Estávamos, todos, hospedados na residência de um grande amigo do Ceará, o professor Hermann Goergen. Corriam, por esse tempo, as ações profiláticas adotadas pelo governo dos militares para subtrair ao Congresso Nacional comunistas e simpatizantes de toda ordem, tarefa patriótica com a qual colaboravam, tendo já aderido ao regime estreante, expressivas figuras da política brasileira. Gerardo Melo Mourão era, por essa época, deputado-federal e fôra à Alemanha em missão parlamentar. Avisado de que poderia entrar nas listas de cassação de parlamentares suspeitos (ladrões, homossexuais e subversivos), não estando incluído nas duas primeiras categoriais, mas suspeitando de que entraria na terceira, Gerardo Melo Mourão visitava, diariamente, em nossa solidária companhia a Embaixada Brasileira, em Bonn, à procura de notícias sobre o seu "fuzilamento" moral e político anunciado. E tanto  fizemos e com tamanha regularidade que acabamos por nos deparar, Gerardo, Mosslair, Zuleide e eu, com a insólita revelação da sua cassação.
 
Como nada mais havia a fazer, comemoramos o feito à mesa, como convém e segundo os hábitos milenários da gente germânia, com vinhos e  frios variados, refeitos da tensão de tantos dias de penosa espera, conscientes de que contra a "rationale" dos patriotas de dia, nem o bom-senso, muito menos a lógica provocariam qualquer resultado de valia. E, assim, viveríamos pelos 25 anos seguintes, emparedados pela visão estreita dos militares travestidos em  governantes e estadistas.
 
Ganharia a literatura com a amancebia bem sucedida a que se entregaria Gerardo Melo Mourão com o seu estro e a inspiração de poeta e pensador.
 
Foram os seus anos mais férteis e quando mais produziu, armado da pena de que soube, como poucos, servir-se como artesão da palavra e aliciador de idéias, o que lhe garantiu construir um acervo literário que poucos, muito poucos podem legar em vida.
 
Abraços,
 
Paulo Elpídio
 
Ex-reitor da UFC
  
 
 
 
 

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Comentários

(22:44 @ 14/03/2007) Dalinha disse:
Engraçado, quando eu morava em Ipueiras, e ainda não me interessava muito por literatura a primeira informação que tive sobre Gerardo Mello mourão é que ele era um traidor da pátria. Tempos depois, conhecendo Gerardo através de livros e pessoalmente, vi que nada do que ouvira no passado se encaixava naquele homem, culto, simples, pequeno em estatura e tão recheado de saber. Eu acho que Ipueiras não tem de prestar apenas homenagens ao seu filho ilustre, morto. Tem sim, o dever de mostrar a população ipueirense quem foi realmente Gerardo Mello. Mourão. Esse artigo bem escrito, fala do assunto delicado, sem arranhar a imagem de Gerardo e de certa forma, nos informa melhor, sobre o passado do nosso escritor e poeta.

(10:30 @ 15/03/2007) Jean Kleber disse:
Mais uma impecável contribuição à memoria de Gerardo mello Mourão. Parabéns.

(19:16 @ 15/03/2007) Bérgson Frota disse:
Lembro-me ao ler em Vidas Paralelas do historiador grego Plutarco que Alexandre, o grande tinha sempre a mão como livro de cabeceira A Ilíada de Homero, façamos nós ipueirenses de coração de nosso grande "Homero" Gerardo Mello Mourão, um autor a nos inspirar com seus ricos trabalhos literários não só o estilo já que também somos aspirantes literários, mas na vida, coisa que sempre podemos encontrar nos trabalhos deste grande mestre. Quanto as perseguições sofridas, lembro-me de Cervantes que também criou sua imortal obra na prisão. Será o tempo que vai redimir a figura tão negramente pintada no pretérito deste grande ipueirense. Está breve o dia em que o Brasil terá Gerardo como um dos grandes luminares de sua literatura.