Carta a Jean Kleber Mattos (Marcondes Rosa de Sousa)
13:41 @ 19/10/2007
Elba Ramalho - De Onde Vem O Baião
Gilberto Gil
Debaixo do barro do chão da pista onde se dança
Suspira uma sustança sustentada por um sopro divino
Que sobe pelos pés da gente e de repente se lança
Pela sanfona afora até o coração do menino
Debaixo do barro do chão da pista onde se dança
É como se Deus irradiasse uma forte energia
Que sobe pelo chão
E se transforma em ondas de baião, xaxado e xote
Que balança a trança do cabelo da menina, e quanta
alegria!
De onde é que vem o baião?
Vem debaixo do barro do chão
De onde é que vêm o xote e o xaxado?
Vêm debaixo do barro do chão
De onde vêm a esperança, a sustança espalhando
O verde dos teus olhos pela plantação?
Ô-ô
Vêm debaixo do barro do chão
CARTA A
Ontem à noite, dei com seu e-mail. E tão down (deprimido sei lá!) que me sentia, em relação à minha “missão” em Ipueiras e, em particular, na Matriz de São Gonçalo e adjacências, que cheguei até a encarar, como ironia – que distorção!- , as suas palavras. Noite, cansaço, tudo a tramar contra o escrever àquela hora. Daí, o suprimir de meus distorcidos ímpetos. Fui dormir e, reflexivo e com calma, escolher depois melhor hora para lhe responder.
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Um sousa sob o
registro de ipueirense
Já na cama, lembrei-me de cena do casamento de Walmir, meu irmão, com Liliana Maria Diogo de Siqueira. Eu, àquela época, com desgrenhada barba e bigode, era, na visão da mãe de Liliana, um autêntico (dizia ela) “vendedor de santo”, desses artesãos a esculpir domésticas estátuas de “santos”, à venda em nossos mercados. Foi ante esse ar que presenciei duas velhas senhoras a se indagar: “Esse noivo de Liliana quem é?” E a outra: “Não é ninguém, não. É um ‘Sousa’ qualquer”!
Sousa qualquer! Pior que isso. Um dia procurei o vocábulo ‘sousa’, no dicionário. Lá, com todas as letras, “rato branco’. E aí me ocorreu cena: “Seu” Zeca Bento, que, na confusão da grafia do vocábulo - se se escrevia com ‘s’ ou com ‘z’ – eu, registrado em Santa Quitéria e, ante as brigas e más vontades da então tabeliã com meu pai, resolveu, como notário público de Ipueiras, registrar-me ali, enviando-me vários blocos para eu resolver meus problemas. E, com “s”.
O ex-reitor da UECe, Manasses, garante-me que, pelo “Rosa de Oliveira de minha mãe”, teria eu, como ele, procedência judaica. Mas, uma vez, no aeroporto de Brasília, dei com meu lado “rosa”, com brasão e tudo, a garantir-me “nobreza” de família irlandesa (rsrs) (dei um desses brasões a Solange, que tem um lado “Antonia)... Prefiro, porém. o lado plebeu, o do “sousa” com “s”, de um simples “rato branco”...
Daí, concluo duas ‘vocações minhas”: a) sou um ‘Sousa” (e com s) qualquer; b) Zeca Bento me tornou “ipueirense” – no mínimo “ex pectore” (expressão latina que hoje poderia traduzir-se “pelo coração” ..._
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O embaixador
em mim “tomou doril”
Esse intróito para definir a esdrúxula e confusa sensação que me levou a Ipueiras, esta semana, para a comemoração dos 250 anos da Matriz de São Gonçalo da Serra dos Cocos, o que me lembrou Minervina, empregada, em Teresina, na casa de minha sogra, muitos anos atrás. Com as festividades do centenário de Teresina, a ela perguntaram o que tinha achado. E ela: “Gostei muito. Não vou perder mais nenhum nesta cidade”...
Por motivação diferente da de Minervina, que não podia perder os centenários de Teresina, lá me fui para os 250 anos da Matriz, histórico berço dos fratricidas “melos mourões”(tal como confessa o poeta Gerardo Mello Mourão). Mas descobri que, ao contrário de meu pai, um pacificador, voltei um tanto pessimista em relação à minha capacidade de “conciliador” ou, como definiu um ilustre técnico de marketing com minha apregoada capacidade de “resina”, segundo ele, de rejuntar “hegemonias em cacos”...
Conversei muito com os diversos segmentos políticos estanques. Mas a impressão que tive é que, em mim, esvaíra-se a festejada habilidade de remendar o despedaçado coletivo.
O “grau de embaixador” a que você se refere,
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Experiência adulta
versus viagem lúdica
Discordo de você quando define ação minha de “experiência adulta”, em contraste com a “recente incursão” sua às “águas apartadas”, que você qualifica de “viagem lúdica”, a restabelecer elo com seu passado, a rever ícones porventura ainda vivos. Por outro lado, não concordo, no que toca a mim, com o atribuído “grau de desenvolvimento” no “melindroso mundo da grande política”.
Diferentes, deixemos claro, as experiências: a de Frota e a minha – a dele mais atuante, mais longa, mais larga e de resultados mais práticos que a minha. A partir da Universidade, tornei-me junto aos gestores, uma caneta. Não mais que isso. E caneta que, na visão de alguns administradores, reduz-se ao gráfico: acentos, vírgulas, paragrafação e coisas assim. No meu caso, lembro-me, de na UFC tomar um documento para tentar-lhe dar redação final. Alinhei item por item de um Plano Estratégico, em largas folhas de papel. Saí numerando os pontos à procura de laços de coerência, entre eles. Tive depois, de preencher claros, mudar ordem, reescrita. Na reunião dos gestores, recebi elogios no seguinte tom: “Depois que o Marcondes põe as vírgulas, dá ordem ao pensamento, o que dissemos fica mais aplicável e bonito!”
Na verdade, não é só “pôr as vírgulas”. Certa feita, já alta hora da noite, telefonam-me do Palácio do Governo, no Cambeba. Lá chegado, o problema. Lula, então candidato contra Collor, fora infeliz, nas Páginas Amarelas da Veja, ao referir-se a Tasso Jereissati, que queria resposta a altura, sem opor-se a ele, collorindo-se. Cheio o gabinete dele de jornalistas, técnicos em marketing e o escambau. Ele, já agastado, me diz: “Quero que digam isto, isso e aquilo”. Pego da caneta e escrevo exatamente “isto, isso e aquilo”. Ele, respirando: “Até que enfim alguém me entende!” Explicação, a linguagem são idéias, emoções, apelos. Os técnicos mudavam o tons: da clareza das idéias, do emotivo e dos apelos implícitos. Quando saí, eram todos a me perguntar o que fizera eu, que, em poucos minutos, resolvera o problema...
De outra feita, Beni Veras chama-me a Palácio. Entrega-me um convite para palestra do então governador Tasso Jereissati, no CIC, sobre o tema “Dos ideais do Cic a uma prática de governo”. Pergunto-lhe que ideais eram esses. Ele me responde lacônico: “Nós tocamos as coisas por música”, querendo dizer “por intuição”, traduzo. Peço-lhe, no mínimo, entrevistas ou declarações do Grupo do CIC, de Amarílio Macedo a Tasso Jereissati. Tento do chão, extrair as idéias (isso está, de certa forma, no artigo “Do barro do chão”). Foi meu canto de cisne, ao deixar, logo depois a TVE e voltar a ser pró-reitor de extensão na gestão do reitor Antônio Albuquerque Sousa Filho (ele, agrônomo, como você, Kleber). Não fui à palestra. Assis Machado me daria sua percepção: “Parecia um filme de tudo quanto a gente vinha fazendo”. Logo depois, ouviria de
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Modesto Pero Vaz de Caminha
Onde quero chegar com essas estórias? Tão só ao ponto de que minha história política resume-me ao escrever. Nos termos de FHC, extrair do “barro do chão”, como o baião, o ideário. Daí, virei cabeça, intelecto, a dar forma aos projetos. Sob outra forma, passei para o quadro dos – digamos – “pensadores”.
Mas o pensar político, sozinho, não basta. Há, em nossa política, os que se valem da sensibilidade e do tato, para a apreensão de todo um diversificado mundo cultural do caleidoscópio a configurar a vida sócio-política. E, por fim, a mão dos gestores.
No quadro político, ainda, há diversos níveis, além dos que pensam, dos que sentem (o tato) e dos que agem. Nas campanhas, por exemplo, vi níveis onde jamais teria eu um lugar. O mundo dos caixas-dois, hoje ultrapassados, hoje a se traduzir sob infindáveis formas a partir dos mensalões e uma infinidade de configurações.
Convivi, a partir dos anos 70, praticamente, com todos os integrantes de nossas correntes políticas e sobre eles, poderia aqui repetir frase de minha amiga Violeta Arraes, a esquivar-se de reportagem de
Certa feita, vi e fui contra toda uma sórdida campanha contra o “Sargento Cambraia”. Cambraia candidato a prefeito após Juraci. De outra, vi, pichações na rua, sórdida campanha sob o slogan “Dá o cu não é defeito.
Sou, em nossa jornada política, tão somente um Pero Vaz de Caminha, a registrar a viagem, olhos fitos no horizonte. Nessa viagem, porões é coisa que não me atrás. E, ao invés de revelarem eles o poder, são sintomas, ao contrário, da coisa pequena, que me repugna. E política, para mim, tem o sentido mais alto do grego – da polis, característica, da sociabilidade construtiva do próprio ser humano - e da dignidade portanto.
No atual
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Sensação em mim
dos bolos de Dona Ester
Volta ao Ceará, diz você, em novembro próximo, por ocasião do Simpósio de Óleos Essenciais, com resultados a apresentar, dando curso, para a felicidade humana e do Planeta, ao talento que Deus lhe deu. E é aí que gostaria eu de que você refletisse um pouco mais ante o espelho, não resvalando, no campo político, para o grau de desenvolvimento que você atribui a Frota e a mim.
Sempre me consideraram maestro a compor acordes. Isso, no campo político. Passei a observar os maestros. E vi que podem até não tocar um só instrumento. Mas são capazes de, dos outros, arrancar dissonâncias a se comporem em acordes, em sinfonias.
Observo-o, desde minhas lembranças, no Educandário seus pais, onde sentamos juntos você, Frota e eu (que um impulso me levou a não fotografar. Não era o mesmo... Nem era a mesma a praça.), que Ipueiras, sobretudo de seus educadores e grandes políticos, assiste-lhes a marca tabaja da conciliação, do “quebras comigo a flecha do arco da paz”, de Iracema. A um filho do Zé Lima, jogado fora o busto de Getúlio, perguntei pelo da nova inquilina da Praça, Maria Lima. Ele me contou que discordâncias mil com a figuração da estátua proposta como evocação de sua mãe.
Mas, em você, vejo um “da mata”, que se converteu, pela atuação de um major, em “Mattos”, embora não tenha se distanciado pelo estrangeiro “Damatta”, das três posturas guardando, humilde, a articulação entre essas faces (foi meu insigh após conversas nossas pessoais, a partir de sua estada entre nós, rápida embora). Outro insigh, foi a conjugação que, em você, a fugir dos estereótipos, dos vários tipos de inteligência (da verbal, expressa na arte, sobretudo, à afetiva e, para espanto meu, a transcendente, em níveis mais elevados que o meu...
Visão, tato, olhar à frente, pois, não lhe faltam. Como eu, você herdou de Neném Matos a capacidade do pacificador. Nunca me esqueço da contabilidade feita por ele, ao mesmo tempo, de Tim Mourão (do PSD) e do Major Sebastião Mattos (da UDN). Pelo que você conta, passou por situações até mais surrealísticas que eu, nos tempos do arbítrio. E isso lhe deu todas as condições para poder harmonizar, em acordes, dissonâncias políticas. Sobretudo, porque os tempos de agora são tempos da consciência mais aglutinante: a ecológica, onde os saberes, tal como em nossa “bossa nova”, dissonantes, compõe-se em acordes... Visão que, seguramente, me falta, confesso-lhe.
De mim, voltei de Ipueiras meio julgando-me credor dos bolos que recebi, uma única vez (e demonstrativa), em uma dúzia, ante o que vi, após 24, sobre a presença de meu pai, na Matriz, na região e na cidade. O mesmo, em ato meu de contrição com relação a Dom Fragoso. Estive, pela segunda vez, no Sindicato dos Ruralistas, no qual Antônio “Otávio” reelegeu-se até 2008, após ter estado com “Seu Otávio”, visto as experiências em curso no campo da agricultura familiar e a capacitação para o trabalho. Tentei, não só entre a família de Seu Otávio como entre os diretores no Sindicato, plantar ali a semente da paz em relação ao prefeito (o que já o fizera vice-versa). Isso, no auditório Dom Fragoso, cheio das lembranças do social como porto do aprender.
E o que me positivamente assustou: a consciência ecológica dos sindicalistas. No dia anterior, em reunião de líderes da Matriz
E que todos nós, repitamos as últimas palavras que a nós, então jovens ouvíamos a
“(...) a nova geração vai ter um trabalho importante de reconstrução a realizar e um espaço político a ocupar. E eu espero para ela que aprenda um pouco com os nossos erros, E reconstitua e restabeleça essa fé no futuro deste País, que, aparentemente, se desgastou muito!” (
Fraternal abraço,
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