Grupos

 

A PALMATÓRIA E AS MENINAS DA IPUEIRAS ANTIGA

 

Releio o “Quase”, de Frota Neto (o “An­tônio do Seu Idálio”), onde Ipueiras se salpica e se lembra em todas as páginas. E, de logo, me demoro em alguns tópicos. Dois deles, por ora:

 

1)  O autógrafo: “Ao Marcondes - a quem, desde Ipueiras, aprendi a admirar – e de cuja amizade me envaideço. Fort. 03.02.2000”.

 

2)  Entre as lembranças da infância: “Das sur­ras de palmatória nos filhos de nossos pais, não éramos exceção entre os iguais meninos. Por que será que por toda Ipuei­ras não se sabia quase nunca de uma me­nina crescida apanhando dos pais – só nós, meninos? (p. 20)”

 

Pergunta: Nisso, um sinal de respeito à mulher? De reação ao machismo?

 

Abraços,

Marcondes Rosa

 

 

 

***

 

Ouço muito, histórias sobre palmatória.

 

No meu tempo esse instrumento de tortura já tinha sido abolido. Mas minha mãe tinha uma tática para demonstrar sua autoridade: mandava-nos apanhar o cipó no mato, para depois "apanhar".

 

Lembro-me que eu, "bobo" que era, pegava um cipó de mufumbo, pois este continha muitas fo­lhas, ou seja, aliviava as pancadas. Qual foi a mi­nha surpresa um dia, quando vi os dedos, indicador e polegar, formarem uma "roda" em volta do cipó e, uma a uma, as folhas iam sendo arrancadas, dei­xando aquela pontinha, bem fininha no final, que quando de encontro ao meu corpo, faziam um som de chicote. Dobravam e sempre deixavam aquelas muitas marquinhas vermelhas.

 

Mas nunca apanhei sem merecer... Também não me arrependo das travessuras que fiz. (rsrs)

 

Abraços

         Braga

 

 

***

 

Conheço a obra do Jornalista Frota Neto e numa oportunidade, comentei com ele sobre as sur­ras das meninas.

 

Sei de muitas amigas que apanhavam e es­condiam. O que não se dava comigo, apanhava sim, mas fazia um escândalo que acordava a rua, e se fi­casse marcada saia mostrando desde as tias até a avó.

 

De relho a cipó, passando por palmatória te­nho um vasto currículo.  A coisa amenizou um pouco com a novidade da ja­ponesa, ou seja, as famosas havaianas. Certa­mente, se as mulheres tivessem dado seus relatos o desenrolar da história teria outras nuances.

 

Um abraço a todos,

Dalinha

 

***

 

Chegam-me, das mulheres ipueirenses, depoi­mentos sobre “surras” e “palmatórias”. Solange, irmã que não me lembro, em criança, “apanhando”, diz-me que, “de palmatória”, nunca. Mas “de chinelo”, muito, de minha mãe. Ela reforça a imagem de que, nós meni­nos, vivíamos na rua. E que as mulheres não divulga­vam muito as “pisas” que levavam.

 

            Da Alemanha, Darci, a cada mensagem, sobre o “Quase” do Frota (para ela difícil chamá-lo de “Frota”, o tal “Antonio do seu Idálio), vai ela conferir o tópico no livro que recebeu. Alguns trechos de sua mensagem:

           

            “(...) Fui aluna da Diana Moreira mas não ha­via o medo da palmatória. Mas vi algumas meninas apanhando ( "Bolos" de 1 a 4 ).

 

Em casa, minha mãe nos comandava militar­mente. Bastava que o armário de roupas não estivesse super arrumado para a palmatória baixar. Ou o ta­manco ( que estava no pé) porque a palmatória nunca estava no lugar que devia estar. O pior é que ao "apa­nhar" não podíamos gritar... tínhamos que sufocar a dor. Do contrário apanhávamos mais ainda...

 

Também levei muitos "cocorotes , mas nunca apanhei de relhos, cipós, ou coisa parecida. Palmatória pura. Nunca havia pensado nisso mas nunca vi  as minhas irmãs mais velhas  (crescidinhas) apanhando... (...) Acho mesmo que os meninos eram menos castiga­dos do que as meninas. Lembro do Kleber (filho do seu Matos, meu vizinho) que me mordia e nunca apanhou por isso nem tampouco  era castigado (segundo ele).

 

***

 

Não cheguei a sentir o peso da palmatória, mesmo porque as mãos de meu pai (grandes e caleja­das pelo trabalho diário na lavoura) já faziam o seu pa­pel.

 

 Acredito ter sido uma pessoa de sorte (ou não aprontei o bastante), pois levei poucas surras de meu pai. Em compensação, minha mãe me castigava sem­pre. 

Ouvi muitas histórias da palmatória principal­mente do seu uso nas escolas, um tio cotava-me que sua professora sempre a usava e ele que era muito "palhaço" (a professora perguntava se ele ia criar barba na "cartilha do ABC" e ele respondia que não, iria criar barba era no rosto ) estava sempre a seu merecer.

 

Dalinha, você tem razão, pois as meninas es­condiam (e ainda escondem) as surras.  

 

Abraços,

Lucilene.

 

 

***

 

Lucilene,

 

É bom saber que mulheres e surras movimentam o grupo.

 

Fica combinado assim: Mulheres do grupo sem rela­tos, "calam e consentem". Não é mesmo, Ester, Dolores,e demais amigas???

 

Lucilene sua participação é muito importante. Um comentário, por menor que seja, é uma atitude. Se os homens se calam, vamos, nós mulheres, movimentar esse trem.

 

Aí sim, a surra será feia.

 

Um abraço,

Dalinha

 

***

 

É isso aí! Nada de ficarmos caladas.Ainda sinto o ar­dor nas maos dos "bolos".

 

(...) Fica aí a sugestão,

 

Darci

 

***

Achei interessante a idéia proposta pela senhorita Da­linha de falar sobre "meninas e surras", pois, segundo ela, quem cala consente.

 

Particularmente, não considero relevantes as "palma­dinhas" que levei na infância, até porque, se eram prá con­sertar "alguns equívocos", acabaram mesmo por acentuá-los.

 

A grande jogada mesmo é correr com os lobos, mesmo que tenhamos que apanhar constantemente da vida.

 

Beijos a todos

 

Ester Timbó

 

 

***

 

 (...) Sou craque no assunto, bolo para mim era apenas sobremesa.

 

            Dalinha.

 

***

 

            “Surras de palmatória”! Um curto tópico do “Quase” de Frota Neto. Nele, a infantil visão de que os castigos físicos infligiam-se, em Ipueiras, apenas a nós meninos, deixando de fora as meninas.  Aí, a reação femi­nina. E o levantar de sua imposta “surda dor”. Na infân­cia e na vida social, enfim.

 

            Aí foi minha vez. Reabri livro meu, Educação: in­sistências e mutações (Coletânea de artigos publicados em jornais de Fortaleza). Sobral. Edições UVA, 2002, E, à página 160, dou com Carta a uma filha de Eva, divulgada na “Lista de Discussão Desafios Educacionais”, pela In­ternet, em 13 de novembro de 1999, dirigida à Professora Maria Helena Flexor, mhflexor@svn.com.br, da Univer­sidade Federal da Bahia (aposentada), e que dediquei a “todas as "filhas de Eva", num preito de gratidão à con­tribuição da "porção feminina", no itinerário do ser hu­mano na terra (sobretudo no trabalho de distribuição, pela educação, dos frutos da árvore do saber) e na espe­rança de sua colaboração no processo de reinvenção da educação, da vida e do mundo!”

 

            Aqui, tópicos dessa Carta, dirigidos agora à “por­ção feminina” deste Grupo (Dalinha, Darci, Lucilene, Es­ter e todas as outras), que, em nossa educação, deixou e continua deixando marcas em todos nós:

 

 

Prezada Colega,

 

(...) Sobre a vida ao redor, não tenho, como a pro­fessora, visão tão pessimista.  A despeito de Nostradamus e dos previsíveis surtos escatológicos (de final de década, século e milênio), ainda não presenciei, desta vez, a anun­ciada encenação real do “Apocalipse Now”. Felizmente, o mundo não acabou. Mas, se assim foi, isso não nos auto­riza a concluir que, nele, tudo são flores... É que, de al­gum modo, ele chega ao fim, tão violenta tem sido a mu­dança que se vem operando em toda a galáxia de valores, crenças e paradigmas, cedendo lugar a novas lógicas, com cruas seqüelas e traumáticas acomodações, em todos os setores de nosso quotidiano.

 

Decerto, já não somos os mesmos.  E mesmas  já não são, nem mesmo, as águas em que nos banhamos.  Mas, por ironia, a construção do novo, mais do que nunca, parece agora resultar do paradoxal abraço entre Heráclito e Parmênides, orientados, ambos, pelo desenho de um novo horizonte a buscar, preservada, a essência das coisas, e a tocar para frente o universal projeto hu­mano.  E cá estamos nós, no limiar do Terceiro Milênio, em novo capítulo da narrativa humana, a perseguir, de novo, os perdidos sonhos da Revolução Francesa, pela re-significação dos ideais da “liberdade, igualdade e frater­nidade”, sob o crivo da solidariedade entre os homens, nestes tempos em que tudo se enxerga à luz da globali­dade.

 

Mais fundo e longe que isso, lá estamos nós no Gê­nesis, de novo, instados a revê-lo, inesperadamente des­pertos de um profundo sono adâmico. Ao centro do Éden, eis que, agora, nos deparamos com a árvore do bem e do mal – o saber. E, seduzidos pela serpente e por Eva, to­mamos às mãos o até então proibido fruto, com a certeza de que, com esse gesto, abrimos os olhos, ficando mais perto da onisciência divina.  “Educação, educação, educa­ção” – as três prioridades do mundo – gritamos em coro com Tony Blair, com o espanto de um “eureka” dos novos tempos! Uma educação, no entanto, não mais sob a cono­tação excludente do mundo de Adão, sob o viés da qual enxergávamos: 1) a ela mesma como um “fruto proi­bido”; 2) todo processo criativo como um “parirás os fi­lhos com dor”; 3) o trabalho como o castigo do “comerás o pão com o suor do teu rosto”; 4) a sinuosidade e a sedu­ção como  a  maldição do rastejar ao chão imposta à ser­pente.

 

(...) A colega diz que, em sua vida profissional, fez discípulos que, por sua vez, farão os seus.  Que isso, entre­tanto, não basta.  Faz-se preciso muito mais.  E, nessa ân­sia, diz sentir-se “desesperada”.  O que fazer? – é a ques­tão.

 

 Penso que, num mundo a mudar, o desespero e a postura de Jeremias, a chorar a Jerusalém desolada, não são a chave.  Neste instável instante, quando passamos a limpo o Gênesis, a solução está, sem dúvida, no compar­tilhamento por todos dos frutos da “árvore do bem e do mal”.  E quem guarda o legado da índole da serpente e de Eva há de encontrar, em fazendo a sua parte (estou se­guro), as alavancas necessárias da intuição, do "veneno" e da emoção, para a coletiva tarefa de reinvenção do mundo.  Que as filhas de Eva, pois, se apercebam de que têm um relevante papel nessa história

 

Comentários