Antonio de Lisboa Mourão (Aventura e solidariedade no Planalto Centrral)
12:58 @ 24/11/2007
Antonio de Lisboa Mourão
Aventura e solidariedade no Planalto Central
VINICIUS NADER
ESPECIAL PARA O CORREIO
Brasilia surgiu na vida do pioneiro Antonio de Lisboa Mourão como uma fuga da seca que assombrava o Ceará em 1958. Em busca de um lugar onde as perdas não fossem sazonais, ele deixou a cidadezinha de Ipueiras, no interior do estado, e veio para a nova capital federal. Aqui ele começou uma nova vida, deixando para trás a loja de tecidos que tinha com o padrinho e tendo pela frente apenas muita poeira. Junto com dois amigos, José Lima e Gonçalo Miranda, Antonio Mourão resolveu trazer mais gente para Brasília.
O resultado foi que o pioneiro partiu do Ceará depois de organizar um comboio formado por dois caminhões Fenemê (ou FNM) repletos de conterrâneos querendo um emprego na nova capital. “Era um jeito de ajudar quem não tivesse emprego na minha cidade e, ao mesmo tempo, ajudar na construção da capital do meu país, onde eu sabia que estavam precisando de gente disposta a trabalhar”, afirma Antonio. “Como as estradas ainda não eram asfaltadas, a viagem demorou 16 dias. Para não perdermos multo tempo, eu, que era o único solteiro da turma, vim primeiro, de avião”, completa.
Dessa forma, Antonio acabou se tornando uma espécie de agente de empregos de cerca de dois mil conterrâneos. “Eu ia de construtora em construtora verificando de quais especialidades eles estavam precisando mais. Se era pedreiro, mestre-de-obras, marceneiro ou outras coisas. Assim, quando os caminhões chegaram já estava tudo mais ou menos encaminhado”, afirma o pioneiro.
Para ajudar os amigos cearenses. Antonio não mediu esforços: foi morar no armazém e bar Maringá, na Cidade Livre (Núcleo Bandeirante), de onde era mais fácil controlar a chegada e partida dos paus-de-arara que vinham e voltavam para o Ceará. Além disso, o clima da cidade também era uma adversidade para aqueles que estavam acostumados a ter sol o ano todo. “O frio e a chuva eram, na cidade, eram muito grandes. As plantas ficavam cobertas de gelo (granizo) e tínhamos que andar sempre de botas por causa da lama que a chuva causava”, conta o pioneiro.
Antonio Mourão e Pe. Antonio (português) no início da vida em Brasília
Saudade
A saudade era tanta que às vezes a vontade que Antonio tinha era de chorar, mas nunca de desistir de Brasília e voltar para Ipueiras.
O jeito era escrever cartas e visitar a terra natal pelo menos vezes ao ano para aliviar a que sentia de sua família. Os outros pioneiros que vieram com Antonio também tinham muitas saudades do Ceará, mas vários deles não sabiam escrever “Quando eu chegava ao alojamento era uma festa, Tinha que fazer carta de toda espécie, de amor, de tristeza, de tudo. Tinha até que apaziguar brigas de colegas”, lembra, com ares paternais. Antonio destaca a evolução que esses trabalhadores que ele trouxe para cá tiveram: “os operários chegavam subnutridos, fracos e, em poucos meses, já havia uma mudança e eles estavam mais corados e fortes por causa do trabalho braçal intenso”
Apesar de ser hoje um grande entusiasta de Brasília, nem sempre o pioneiro acreditou na eficiência da interiorização da capitral. Tanto que ele não foi um dos eleitores de Juscelino Kubitschek, que um dia ficou sabendo disso: “Era aniversário dele e muita gente da cidade queria cumprimentá-lo. Ele e dona Sara formaram una fila para poderem receber as congratulações. Eu e cinco amigos entramos na fila e quando chegou a minha vez um deles falou para o presidente que eu nem havia votado nele nas eleições”, conta o pioneiro, que não perdeu o rebolado diante da saia justa “Disse ao presidente que realmente tinha votado no marechal Juarez Távora, e ele, como grande estadista que era, me disse que minha opção era acertada porque o marechal era um grande brasileiro. Saímos de lá todos juscelinistas”, completa.
Até 1960, Antonio morou onde hoje é o Núcleo Bandeirante. “Brasfiia era a Cidade Livre. O Plano Piloto não tinha nada ainda. Era incrível ver o monte de terra formado pela construção da rodoviária. Era do tamanho do Conjunto Nacional”, exagera. Como as obras não estavam prontas, os carteiros e os próprios trabalhadores sofriam com os endereços da nova capital. Por isso, os prédios acabavam ganhando “apelidos” antes de serem inaugurados. “O anexo do Congresso Nacional era chamado de 28 por causa do número de andares, os ministérios eram os prédios de ferro, e a rodoviária, o viaduto da Rabello”, exemplifica.
“BRASILIA ERA A
CIDADE LIVRE. O
PLANO PILOTO NÃO
TINHA NADA AINDA.
ERA INCRÍVEL VER O
MONTE DE TERRA
FORMADO PELA
CONSTRUÇÃO DA
RODOVIÁRIA. ERA DO
TAMANHO DO
CONJUNTO NACIONAL”
Mudança
A mudança da Cidade Livre para Taguatinga se deu por motivos de amor. “A Cidade Livre era uma bagunça, com mercados a céu aberto e os produtos expostos no chão mesmo. Minha noiva, que morava no Rio de Janeiro, não gostava e me avisou que para lá ela não iria”, conta o pioneiro, que, por não ter condições de ter uma casa no Plano Piloto, acabou optando por Taguatinga. “Dona Sara Kubitschek falava que Taguatinga seria uma cidade dormitório, mas eu via nela uma grande possibilidade de progresso”, afirma. Vontade da noiva, Maria Inês, feita, o casamento já podia ser marcado e a festa foi no Rio de Janeiro. Para se manter, o pioneiro virou empresário e montou um armazém de secos e molhados para fornecer às indústrias que começavam a aparecer pela nova capital. “Era tudo mais difícil em Taguatinga. A água era puxada de bomba, e a luz, de gambiarra”, conta.
O entusiasmo de Antonio com a satélite era tão grande que ele chegou a estar à frente do programa de rádio Taguatinga É Progresso, transmitido pela Rádio Planalto. “Era uma espécie de programa que tem de tudo, desde calouros até reportagens com prestação de serviços”, explica, acrescentando que só faltava mesmo o progresso do título. Mas com o tempo, o progresso veio não só para Taguatinga como para Brasília como um todo. E hoje as lembranças só fazem encher Antonio de orgulho e felicidade.
“Considero todas as pessoas que nasceram em Brasília meus netos porque a cidade é como se fosse minha filha mais velha”, afirma o orgulhoso pioneiro.
RaioX
Nome:
Antonio de Lisboa
Mourão
Idade:
74 anos
Origem:
Ipueiras, Ceará
Ano de chegada a
Brasília:
1958
Profissão:
Comerciante
aposentado
Estado clvil:
casado
Filhos:
TâniaMana,Sandra
Maria, Vanda Mana e
Antonio Diuk,
Netos:
Clara, Pedro e Indira.
***
(Colhido do Correio Brasiliense por Jean Kleber Mattos, em fotocópia escaneada por Marcondes Rosa de Sousa, filho de Wencery Félix de Sousa, que, a essa época, ocupando posto em importante ministério, morando na “cidade livre” e ajudando na alocação da força de trabalho dos cearenses, a construir a Nova Cap, prestou ajuda nesse processo de dar apoio aos “candangos”, em Brasília, tendo convivido com o pioneiro Antonio de Lisboa Mourão. Filho de Wencery, após inaugurada Brasília, passaria eu lá uns tempos, quando a Cidade ganhava feições urbanas e junto aos candangos, em apoio a eles, passaria eu uns tempos participando das cenas descritas por Lisboa).
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