O invulnerável ao ontem e o intocável hoje
13:24 @ 02/04/2006

O invulnerável ao ontem e o intocável hoje
Reabro o “Quase”, de Frota Neto, pinçando alguns trechos, das brincadeiras nossas ao tempo de criança (pp. 22-26)
“Nós tínhamos a Ipueiras dos meninos – nós todos, no genérico ignorando classe social, origem, fortuna, a partilhar os mesmos brinquedos, os mesmos folguedos, as mesmas aventuras, os mesmos arriscar. De ficar patente o quem diferenciado do quem, quando a questão ilustrava encaminhar namoro pois que irmã dos da de primeira interditada aos de segunda. Os meninos de primeira poderiam até quer ir namoriscar uma de segunda, sem que as menin as de primeira sequer se ousassem em tal olhar pra gente deles.
(...) De brincar e de brigar, formava-se cerco, quase continuidade desdobrando-se sem deixar rusgas permanentes. Havia zanga. Intrigava-se deixando-se de falar. Contudo, nada a impedir que um bom folguedo destampasse o riso solto. Se voltava tudo a se misturar água no mesmo leito do rio – banhando-se. Atirando de baladeira. Aramando arapucas para pegar passarinho. Gangorra para a trilha do peba ou o preá. O soltar pipa feita do talho de carnaúba e papel de seda, e linha armadilhada de cerol. Do ioiô de flandwa. Do corrupião. Do desafio quem durante mais a girar sua carrepeta. Do pião de madeira, pegado na unha. Go galamaste rodopiando e gemendo no rangido da madeira ao centro. Do juntar gaiola-a-gaiola, oco-a-oco, para a briga do canário. Do que sendo chama. Da que dando fogo. Do telefone com cordão ponteado de latga de talco. Do estrear rádio galena. Do brincar de pegar. De correr. Do esconde-esconde. Do seu lado esquerdo está ocupado? Quem ocupa?
(...) Tinha do trisca-belisca. Do chicote queimado. Do cabra-ceda. Tinha das brincadeira de roda e de cadeira a socializar venturas mais que amizades – do passar o anel inclusive. Tinha do “mavé-mavé-mav-e”. Não se brincava muito de amarelinha – quase só de menina – ou de jogar pedra passando uma a uma pelo oco da mão, enquanto se lançava uma outra pedra para o alto ao instante mesmo de passar uma para o oco e voltar a tempo de segur-a antes de sua queda. De tudo que de toda parte no acumulado dos jograis medievais antepassados até aqueles dias, até os dias de hoje, ainda que esmaecidos, tendo. Pular corda até que podia, se se afeito a alguma menina envolvida no balanceio. Mas brincar de casinha, podia não, que coisa bem de menina.
* E sem que os adultos talvez soubessem, mesmo que até desconfiassem, se eles tinham o mando, nós tínhamos talvez o mais do que invulnerável ao ontem – o ser criança =
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