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Viagem de Bicicleta

 

           Naquele ano, ainda na década de 70, o inverno estava rigoroso, e a lembrança do grande inverno de 1974 não deixava de nos assustar.

 

           No ano citado, por pouco o rio Jatobá não levou parte da ponte que ligava Ipueiras ao Ipu.

 

           Dos dois lados, enquanto a chuva caía, caminhões traziam pedras e mais pedras reforçando as duas asas opostas daquela pioneira construção, que por fim resistiu.

 

            O tempo passou, vieram invernos fracos, outros amenos então o inverno tornou a ser forte novamente.

 

            Havia dias de chuva e dias nublados, e foi num destes que sabendo que a Bica do Ipu estava a toda largura, assim dizíamos, que resolvi secretamente num domingo, com a minha pequena, porém resistente bicicleta caloi, ir ao Ipu, munido de minha mais recente aquisição uma máquina Kodak, de segunda mão.

 

            A viagem ida e volta demorou mais de três horas, já em estrada asfaltada, parava e descansava, isso se repetindo. Por fim cheguei até a bica, ao balneário e me preparei para tirar as fotos.

 

            O grande volume d’água que caia, fazia surgir com os raios do sol vários arco-íris, coisa que não sabia até aquela data ser possível.

 

            Depois para minha tristeza, descobri que as fotografias por mim tiradas, não haviam registrado o tal fenômeno. Talvez porque o filme preto-e-branco não fosse capaz, mas o importante foi o que vi, a beleza indescritível naquela tarde ensolada no Ipu.

 

            A cachoeira descia rápido, e era muito bonito ver o vento abrir as águas que desciam do riacho Ipuçaba, formando o véu de noiva e caindo estrondosamente de uma altura de 130 metros lá da Serra da Ibiapaba.

 

             O tempo corria e já se aproximava das quatro horas, tirei o que me restava de fotos e pedi a uma turista que me fotografasse na bicicleta tendo ao fundo a bica, depois arrisquei uma descida sem freios pelo sinuoso caminho em direção a cidade. Cruzei-a, vi o belo monumento à Iracema, na época idêntico ao que há na praia em Fortaleza, numa bela praça lá.

 

             Daí subi em direção a Ipueiras. 

 

            Cheguei cansado, mas gratificado, tinha visto a bica cair cheia, coisa inédita para mim, também me mostrei capaz, pois só de ida pedalei 25 km.

 

             Hoje quem escuta esta estória duvida, mas quem pensa que a lógica tem presença constante na mente de uma criança, erra muito mais.Tal aventura não repetiria jamais, mesmo que por teste.

 

             Quando volto à Ipueiras, vejo antes no caminho ao chegar, passarem por mim várias motos, algumas em direção ao Ipu e lembro rindo, dizendo pra mim mesmo --- De moto é fácil, tente uma bicicleta.

 

             Quanto a minha Caloi, minha primeira bicicleta e a única a provar a veracidade de minha estória, foi dada a um outro garoto, que espero ter dela feito tão bom uso quanto fiz.       

                                                                                                Bérgson Frota

                                       Foto : (www.avspe.eti.br)

Comentários

(08:41 @ 09/10/2008) Jean Kleber disse:
O blog de Ipueiras está de parabéns. Mais uma bela crônica de Bérgson Frota, desta vez sobre um tema romântico por excelência que é a bicicleta. E bicicleta em Ipueiras e no Ipú, melhor ainda. Muito bom mesmo!

(08:06 @ 10/10/2008) Dalinha disse:
Muito bom este texto de Bérgson contando sua aventuras sobre duas rodas. A beleza da Bica do Ipu é tanta, que vale a pena até ir a pé. Dalinha Catunda

(22:13 @ 11/10/2008) Anônimo disse:
Tinha também uma caloi, caia, levantava, hoje se ainda existir está em algum ferro velho. Mas como eu invejo a forma que você eternizou no trabalho a sua. Nota mil.