Grandiloquencia das cheias (Marcondes Rosa de Sousa)
19:41 @ 18/11/2008

Grandiloqüência das cheias
Marcondes Rosa
O Povo -28 de Dez. 2005
Valeu o alerta! O Ceará perdia-se, sem projeto, nas ''coisas miúdas''. A siderúrgica, sonho histórico, (re)uniu-nos. Nesse clima, a autocrítica, sem o apontar de ''culpados'', a nos rever a educação: a) avanços quantitativos, sim; b) pecados, porém, em qualidade, nas muitas ''escolas indignas''; c) olhos ao chão, míopes de horizontes - imediato (o trabalho) e estratégico (capital social e humano, e inclusão social).
É o que colho das discussões sobre nossa educação. Autocrítica maior, a miopia em mirar nosso porto: a) ''analfabetos funcionais'', a atingir 42%, em nossas escolas; b) muitas dessas, insuladas de seu entorno, em autismo corporativo e clientelista; c) pífia oferta de educação superior, em 24º lugar nos 27 estados; d) incômodos bolsões de ''extremamente pobres'', sem a dignidade do ''comerás o pão com o suor do teu rosto''...
Em Juazeiro, observo atores sociais ''em teia'' a pensar educação (com ênfase na superior) rumo a um porto. Ouço alguém lúcido: ''Em terra pobre de recursos naturais, onde até a água é escassa, maior bem nos seria criatividade e tato humanos. Indústria agora é mais que chaminé''. E, dando o tom, o elencar potencialidades nossas para o turismo e a pauta para repensá-lo na ampla teia de seus atores (políticos, educacionais, empresariais, sociais). Hélio Barros, comprometido secretário ali presente, anotou a proposta.
Do Cariri, onde Parmênides (o permanente) e Heráclito (o mutável) se abraçam, voltei com a lição de João Cabral, o poeta, a nos ver, no Ceará, como se rios na dialética dos leitos secos e das cheias: solitários poços desenfrasados, no estio, mas a recobrar latente ''sintaxe'', na ''grandiloqüência das cheias''. E, com ela, a função do combate à seca. Mas qual Moacir, de Alencar, o migrante ''filho da dor'', a ter de irrigar terras outras. Lá fora!...
MARCONDES ROSA DE SOUSA é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Escreve quinzenalmente.
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