Grupos

 

 

A VISÃO DE PROJETO

E O PODER DE RESINA

(OU DE JUNTAR OS CACOS

 

Marcondes Rosa de Sousa

09. jan, 2006

 

               

                Algumas explicações “a posteriori”, ilustrando a entrevista “Segunda independência”, da última Isto É, com Sérgio Machado, ex-senador pelo Ceará e ora à frente da Transpetro.

 

            Ontem, sábado, ele me telefonou. Indagou-me se havia lido sua entrevista. Respondi-lhe que a Isto É sempre me chega atrasada, já na segunda-feira, ao contrário de Veja, que avisa com antecedência e liturgicamente está em minha pessoal caixa postal, em casa...

 

            Hoje, cedo, novo telefonema. Desta feita, já a havia lido. E lhe falei de minha literal “vibração” com o tom e sentimento da entrevista. Ele me pediu recolhesse, dentre os de meu círculo (intelectuais sobretudo) as reações. E a divulgação a priori no “Ethos-Paidéia” tem esse sentido: o de provocar um amplo debate sobre o Brasil. É que a Revista foi muito feliz. Apresentou um histórico de vida de Sérgio todo ligado a uma pauta a mirar ... “um projeto”. Assim, ainda infante ao lado de Juscelino. Partícipe das lutas estudantis, nos fechados anos 70. Apóstolo fervoroso dos que, entre muitos (Tasso, Beni, Ciro, Amarílio Macedo) sonhavam com o “acabar com a miséria e o clientlismo”, no Ceará e na Região Nordestina..

 

            Aí, conheci o grupo. E foi a circunstância histórica de aqui trazer Celso Furtado para debater os caminhos da nordestinidade, que me aproximaram do Grupo.

 

            Aos poucos, muitos os chamados e poucos os escolhidos, foi fazendo tal grupo dispersar-se. E um dia, em Brasília, Sérgio (ainda na alta direção do PSDB) um grupo “paulista” forçava por querer minha vaga na alta direção do PSDB. Disse a Sérgio que concordasse. Afinal, um “sudestino” ficaria melhor que um “nordestino”. Sérgio, como tantos outros, foram se dispersando no grupo inicial das “mudanças”.  E um dia, eu próprio vi que os postos iram sendo ocupados por pessoas da factual política. E a frase de Tasso – disse isso a ele – doía-me: “No PSDB, passou a era dos intelectuais. Agora, é a vez dos políticos e dos gestores”. Tudo como se, aos intelectuais, faltasse o tato dos “políticos” e a ação dos “gestores”. Brincando, disse a Tasso que, em São Paulo, havia eu dito que a frase não era referência a FHC, Serra e, ao mesmo tempo, a Minas e Ceará. Mas a mim. Ele se riu. 

 

            Foi aí que disse do artigo que me ia à cabeça: a solidariedade dos banhos de rio da infância, na “grandiloqüência das cheias”. Depois, a solidão crescentes das poças e poços e das cacimbas cercadas pela miséria. O movimento das mudanças, enfim, retornado ao solitário monólogo “monólogo coletivo”. Foi aí que um técnico em marketing me disse: “Mude o final do artigo” – eu me sentia um Y-Juca Pirama, com seu “Meninos eu vi!”. O técnico me disse: “Alguém pode mudar esse final, trazendo todos, do solitário monólogo coletivo para a “grandiloqüência das cheias”. E eu, curioso, perguntei: “Quem?” E ele: “O senhor! Comece por refazer a amizade de Tasso com Sérgio e com Ciro?”

 

            Balancei a cabeça: “Impossível”. Mandei um recado para Sérgio. Ele topou conversar. Antes, porém, conversaria comigo. Depois, encontrei Tasso. Quando lhe falei, ele foi categórico: “Já nos encontramos a conversamos sobre o tema”. Para encurtar a conversa, um dia, falando sobre o plano da Transpetro, Sérgio gastou não mais que seis minutos falando o quanto o Nordeste e o Ceará, onde todo o movimento se iniciou, havia ficado para trás do País. Aí, o apelo pela união de todos em função de um projeto.

 

            Sob essa perspectiva, de projeto “complexo e plural”, o que implica em pluripartidarismo, é que gostaria que víssemos a entrevista de Sérgio.

 

            Nossas intenções, no Ceará, caminham em tal rumo, mesmo sabendo do clima que, pessoalmente, está a navegar por “coisas miúdas” (disse Tasso), dando ênfase a “notas de rodapé” (Sérgio), não conseguindo nem mesmo discutir a transposição de bacias. Desse clima, falou-nos o próprio Lula: “O Ceará precisa se unir”.

 

            De alguma forma, entre nós, predomina um refrão de Sérgio, que sempre escutei: “Onde não existe ideologia e projeto, brota a fisiologia”. É o que vemos.

 

            Aí, pois, a entrevista. E, por trás dela, o apelo à união. União do “complexo e plural”. O que todos (em reunião, no Centro Industrial do Ceará) concordaram. Embora, entre cochichos, tenha eu escutado daqui e dali: “Mas você sabe que, entre todos esses, quem mais ter a condições de ser governador ... sou eu!”

 

            A resposta: De início, o projeto. No fundo, o que talvez a Rede Globo, com a novela e, agora, a Isto é, com a reportagem de capa, tentando desvendar o que se passa no inconsciente coletivo do brasileiro. Ou ainda a frase com que o próprio Sérgio tentou desfazer meus preconceitos para com o presidente da Venezuela, Hugo Chavez: “Mas se engana você. Ele, diferente até de nós, tem ... “um projeto”. Nessa consciência de um projeto estaria a comunicação de Chavez com seu povo...

 

            Aberta, pois, de forma plural (aqui, no Ceará, e alhures), a discussão.

 

            Cordial abraço,

            Marcondes Rosa

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