Grupos

 

 

Uva a plantar

vinhedos entre nós

 

Marcondes Rosa de Sousa

15. Out 2006

 

Recordo. Fevereiro de 1996. No Fórum da Modernidade, as universidades cearenses e o Conselho de Educação do Ceará discutiam, com os protagonistas de nossa sociedade e a professora Eunice Durham, “a responsabilidade das universidades para com o desenvolvimento sustentável”.  E o sentimento não era outro. O desenvolvimento haveria que sustentar-se na “inclusão social”, que haveria de ter, por via segura e expressa, uma continuada educação. E o primeiro passo, no Ceará, seria, seguindo o lema “uma escola é o que são seus professores”, capacitar seus docentes.

 

Nesse afã, as universidades cearenses se deram as mãos, passando por cima dos minifundiários tratados-de-Tordesilhas, numa autêntica “operação de guerra”, o que as fez esquecer até seus medievais limites de “sede”.  Nesse afã, a Universidade Vale do Acaraú (a UVA) foi transpondo inicial vale, a plantar seu vinhedo, para além do Acaraú, por todo o Estado, e em regiões outras do País e no exterior até.

 

                   Foi nessa “operação de guerra” que ela chegou ao “vale do Jatobá”, em Ipueiras, a terra das “águas retiradas”. Isso, em julho de 1997. De lá para cá, deu grau a 453 concludentes de cursos de graduação (a maioria professor), plantou pós-graduação lato sensu e hoje abriga, em suas classes, 386 alunos.

 

                   Agora, como todas as instituições de ensino do Ceará (as de iniciativa social, inclusive), sob provocação da Secretaria de Ciência e Tecnologia, repensa-se ela em tons de uma política de educação superior, discutindo com os “protagonistas dos atores sociais”, ação mais larga e durável, em clima de “rede” e de “teia”.  O Ceará se redesenha em regiões (pela ação do Instituto de Pesquisa do Ceará – IPECE), irmanadas em suas potencialidades e necessidades com vistas ao sonhado “desenvolvimento sustentável”, a ter por escopo a “inclusão social”.  Sob essa ótica, Ipueiras é o chão das “águas retiradas”,  por onde correm as episódicas águas do Jatobá. É o semi-árido das macambiras. Mas é também o úmido das serras (no caso, a Ibiapaba), com largo potencial econômico, cultural e turístico. E, sobretudo, o celeiro da cultura, do capital humano enfim. E é função da universidade, com seu ensino, sua pesquisa e extensão, redesenhar o real e o imaginário de uma caminhada conjunta.

 

       Dentro desse espírito, já programado em gradual “Conferência Estadual de Educação Superior”, a UVA procura parceiros, entre os “atores sociais”. E, em Ipueiras, celebra convênio com o Instituto Frota Neto, numa ação em conjunto no campo da educação e da cultura. Com isso, de alguma forma, volta-se ela, com mais acuidade, a seu chão, em seu entorno “mais perto”: o do “vale do Acaraú”, espraiado ao de seus afluentes, onde se situa o Jatobá. Em Ipueiras, os “atores sociais” se reúnem, é a esperança, num verdadeiro “pacto social” de Rousseau, a educação a divisar necessidades, caminhos e sonhos. A Uva projeta braços atuantes em seu ensino, sua pesquisa e sua extensão. Seu reitor, José Teodoro Soares, tem essa visão. E, no caso da extensão, por muitos anos, tem a experiência, no País, do Projeto Rondon, a ação mais atuante em "responsabilidade social" de nossa extensão.

Filho adotivo, desde infante, de Ipueiras, alegro-me com esse pacto. Do morro mais alto da Cidade, vejo o Cristo da Caatinga a contemplar nossos campos rumo à bica do Ipu, onde (conta Alencar) banhava-se Iracema, a tabajara “virgem dos lábios de mel”, correndo, com seu “pé grácil e nu”, as “matas do Ipu", mapeando o Ceará em hospitalidades, desenhando nossa cultura e turismo, como a nos mostrar nossa riqueza não explorada e a nos indagar, aves de arribação a migrar, a conclusão do romance alencarino, a nós, feitos Moacir, “o filho da dor”.  “Seria a predestinação de uma raça”?.

 

Nossa esperança é que apostemos em Pero Vaz de Caminha: a terra é fértil, “nela, em se plantando, tudo dá”.  Dará, no Vale do Jatobá, alimentador do Acaraú. Nas macambiras semi-áridas. Na úmida “Serra dos Cocos”, por onde se sobe para a Matriz de São Gonçalo, anfitriã da Ibiapaba.  “Vinhedos" em tal região, rica em cultura, brotarão com certeza. E aos que, muitos, de lá emigramos para outras terras, talvez respondamos como “filhos da dor” alimentados pela educação, à angustiante pergunta com que nos instiga Alencar. Ela, a educação, com certeza, a arrancar do chão e de nossas almas as alavancas, nos responderá: ela própria será o caminho para a geração do capital humano, móvel da inclusão social.

É nossa esperança-certeza!

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará e da Universidade Estadual do Ceará, e ex-presidente do Conselho de Educação do Ceará

 

 

Comentários

(10:00 @ 20/11/2008) Anônimo disse:
VINHEDOS - analfabetos