Coça-coça, o rádio e a Alemanha - Jean Kleber
14:21 @ 04/04/2006

Capa da Veja (1939)
COÇA-COÇA, O RÁDIO E A ALEMANHA
Jean Kleber
No início da década de 50, os rádios “Telefunken”, a válvula, estavam em fase de lançamento. O reinado dos “Phillips” parecia ameaçado. A vedete era o modelo “Largo”.
Um vendedor estava em Ipueiras para fazer demonstrações. Como a energia elétrica do gerador da cidade somente à noite era ligada, ele portava uma bateria para os testes. Chegando à nossa casa, preparou-se para instalar o aparelho.
Em nossa casa, a sala de visitas e a sala de jantar eram a mesma. A porta dava direto para a rua e estava aberta. Aguardávamos a demonstração quando surgiu na moldura da porta a figura do Coça-coça, o mendigo-doido mais conhecido da cidade. Aliás, muito bem descrito no “blog” de Ipueiras por Darci Weihs.
Organizado, portava suas três sacolas de coleta, de tecido de algodão: a da farinha, a do arroz e a do feijão. Pareceu interessar-se pelo aparelho.
-Isso é um rádio?
-Sim. Respondeu o vendedor.
-Ele fala?
-Sim.
-Eu posso falar?
O vendedor parecia já saber de quem se tratava.
-Sim. Fale aqui!
E apresentou-lhe o terminal de pinos do cabo do aparelho como se fosse um microfone. O homem levou o terminal à altura da boca e transformou-se. Empertigou-se, inchou a veia do pescoço e, com o olhar rútilo, vociferou:
-Aqui fala....Vicente Araújo de Quintas!..Prefeito do Curupati!...General de “Lemanha”!.... E por aí foi.
Os circunstantes riram do delírio. Estávamos diante de uma incompatibilidade de cargos e patentes. Improvável que alguém, prefeito do Curupati, fosse um general da
De tudo, restou-me uma pergunta: afinal quem era
Nunca tratei deste assunto com alguém. A dúvida permanece até hoje.
Comentários
(21:11 @ 27/06/2007) Mesak disse:
Maravilhoso!!! queria também ressaltar, o tipo de merchandising... que era realizado pelos representantes ou vendedores daquela época, quando ao chegar nas casas para demonstrar seu produto de venda... em muitos casos, o dono da casa não se encontrava mas, ele deixava o rádio, na condição de voltar mais tarde, quando o dono da casa chegava usava o rádio e gostava tanto que comprava o rádio, o quê atualmente se agisse da mesma forma nunca mais veria o rádio. r sr sr srs s s obrigado querido conterrâneo.